Poemas neste tema

Verdade

Sylvio Persivo

Sylvio Persivo

Resquícios

Só me lembro de teus olhos brilhantes
Me dizendo coisas impossíveis de dizer
E de teu sorriso imenso, radiante
Se alimentando de todo o meu prazer.

Depois ...Lembrar ficou tão difícil
Na confusão de beijos e de abraços.
Tomei teu corpo, o que tornou-se vício,
E perdi os sentidos no gozo de teus braços.

E fui feliz, deus, louco e criança
Tanto que, sem música, criei a dança
Irreal que chamei de felicidade

E quando, enfim o real nos despertou,
Apesar da dor valeu, pois só quem amou
Teve, na vida, um pouco de Verdade!

849
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Pedrafina

Deves medir-te, cavaleiro,
companheiro deves medir-te,
me aconselharam um a um,
me aconselharam pouco a pouco,
me aconselharam muito a muito,
até que me fui desmedindo
e cada vez me desmedi,
me desmedi cada dia
até chegar a ser sem dúvida
horripilante e desmedido,
desmedido apesar de tudo,
inaceitável e desmedido,
desmedidamente ditoso
em minha insurgente desmesura.

Quando no rio navegável
navegava como os cisnes
pus em perigo a barcaça
e produzi tão grandes ondas
com minhas estrofes vendavais
que caímos todos na água.
Ali os peixes me olharam
com olhos frios e reprovadores
enquanto sardônicos caranguejos
ameaçavam nossos rabos.

Outra vez assistindo a um longo,
a um funeral interminável,
entre os discursos funestos
me quedei dormindo na tumba
e ali com grave negligência
me jogaram terra, me enterraram:
durante os dias escuros
me alimentei das coroas,
de crisântemos putrefatos.
E quando ressuscitei
ninguém tinha percebido.

Com uma bela me ocorreu
uma aventura desmedida.
Pedrafina, assim se chamava,
se parecia com uma cereja,
com um coração desenhado,
com uma caixinha de cristal.
Quando me viu naturalmente
se enamorou de meu nariz,
prodigou-lhe ternos cuidados
e pequenos beijos celestes.

Então desencadeei
meus inaceitáveis instintos
e a insaciável vaidade
que me leva a tantos erros:
com esforço desenrolei
meu nariz até convertê-lo
em uma tromba de elefante.
E com mortais malabarismos
levei a tal grau a destreza
que Pedrafina ergui até
os ramos de uma cerejeira.

Aquela mulher rechaçou
minhas homenagens desmedidas
e nunca mais desceu dos ramos:
me abandonou. Soube depois
que pouco a pouco, com o tempo,
se converteu em uma cereja.

Não há remédio para estes males
que me fazem feliz tristemente
e amargamente satisfeito:
o orgulho não leva a nada,
mas a verdade seja dita:
não se pode viver sem ele.

1 169
Adélia Prado

Adélia Prado

Branca de Neve

Caibo melhor no mundo
se me dou conta do que julgava impossível:
‘Nem todo alemão conhece Mozart.’
Um óbvio, pois nem é preciso,
cada país tem seu universal
e basta um para nos entendermos.
Com os russos me sinto em casa,
não podem ver uma névoa,
uma aguinha, uma flor no capim
e param eternos minutos fazendo diminutivos.
Como o jagunço Riobaldo que sabe do mundo todo
e tem Minas Gerais na palma de sua mão.
Fico hiperbólica para chegar mais perto.
“Geração perversa, raça de víboras”
não é também um exagero do Cristo
para vazar sua raiva?
Escribas e fariseus o tiravam do sério.
Mas todos eles? Todos?
Cheiramos mal, a maioria,
e sofremos de medo, todos. O corpo quer existir,
dá alarmes constrangedores.
Me inclino aos apócrifos como quem cava tesouros.
É evangélico que trabalhem cantando
os anõezinhos da história.
No fundo todos queremos
conhecer biblicamente,
apesar de que os pés de página,
por mania de limpeza,
não é sempre que ajudam.
O verdadeiro é sujo,
destinadamente sujo.
Não são gentilezas as doçuras de Deus.
Se tivesse coragem, diria
o que em mim mesma produziria vergonha,
vários me odiariam,
feridos de constrangimento.
Graças a Deus sou medrosa,
o instinto de sobrevivência
me torna a língua gentil.
Aceito o elogio
de que demonstro tino escolhitivo.
Pra quem me pede dou listas de filme bom.
Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a delícia
de ver a dor sumir quando sossego.
1 434
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Rechaça Os Relâmpagos

Centelha, tu me dedicaste
a lentidão de meus trabalhos:
com a advertência equinocial
da tua fosfórica ameaça
recolhi minhas preferências,
renunciei ao que não tinha
e encontrei a meus pés e a meus olhos
as abundâncias do outono.

Me ensinou o raio a ser tranquilo,
a não perder luz no céu,
a procurar dentro de mim
as galerias da terra,
a cavar no solo duro
até encontrar na dureza
o mesmo lugar que buscava,
agonizando, o meteoro.

Aprendi a velocidade
para deixá-la no espaço
e de meu lento movimento
fiz uma escola desnecessária
como uma tertúlia de peixes
cujo passeio cotidiano
se desenvolve entre ameaças,
Este é o estilo das profundezas,
do manifesto submarino.
E não o penso desdenhar
por uma lei da centelha:
cada um com seu sinal,
com o que teve neste mundo,
e me remeto à minha verdade
porque me falta uma mentira.

1 134
D. Dinis

D. Dinis

Pois Que Vos Deus Fez, Mia Senhor,

Pois que vos Deus fez, mia senhor,
fazer do bem sempr'o melhor
e vos en fez tam sabedor,
ũa verdade vos direi:
se mi valha Nostro Senhor,
       érades bõa pera rei!

E pois sabedes entender
sempr'o melhor e escolher,
verdade vos quero dizer,
senhor, que sêrvi'e servirei:
pois vos Deus atal foi fazer,
       érades bõa pera rei!

E pois vos Deus nunca fez par
de bom sem nem de bem falar,
nem fará já, a meu cuidar,
mia senhor e quanto bem hei,
se o Deus quisesse guisar,
       érades bõa pera rei!
630
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Outro

Como decifrar pictogramas de há dez mil anos
se nem sei decifrar
minha escrita interior?

Interrogo signos dúbios
e suas variações calidoscópicas
a cada segundo de observação.

A verdade essencial
é o desconhecido que me habita
e a cada amanhecer me dá um soco.

Por ele sou também observado
com ironia, desprezo, incompreensão.
E assim vivemos, se ao confronto se chama viver,
unidos, impossibilitados de desligamento,
acomodados, adversos,
roídos de infernal curiosidade.
1 878
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Viii - Radiante Julius

Radiante Julius — do favo das vidas
célula férrea e doce, feita de mel e fogo! —
dá-nos hoje como o pão diário
tua essência, tua presença,
tua simples retidão de raio puro.
Vem a nós hoje, amanhã, sempre,
porque, singelo herói,
és a arquitetura
do homem de amanhã.
Quando te feriu a morte, a luz
brilhou sobre o planeta
com a cor de abelha de teus olhos,
e o germe do mel e da luta,
da doçura e da dureza,
ficaram implantados
na vida do homem.
Tua decisão destruiu o medo,
e tua ternura, a escuridão.
Entraste, homem nu,
na boca de nosso inferno
e com o corpo lacerado,
intacto, sem quebrar foi teu gesto
e a verdade ativa
que apesar da morte preservaste.
1 134
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tinhas um pente espanhol

Tinhas um pente espanhol
No cabelo português,
Mas quando te olhava o sol,
Eras só quem Deus te fez.
1 691
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Senhor, meu passo está no Limiar

Senhor, meu passo está no Limiar
Da Tua Porta.

Faz-me humilde ante o que vou legar...
Meu mero ser que importa?

Sombra de Ti aos meus pés tens, desenho
        De Ti em mim,

Faz que eu seja o claro e humilde engenho
        Que revela o teu Fim.

Depois, ou morte ou sombra o que aconteça
        Que fique, aqui,

Esta obra que é tua e em mim começa
        E acaba em Ti.

Sinto que leva ao mar Teu Rio fundo
        - Verdade e Lei -

O resto sou só eu e o ermo mundo...
        E o que revelarei.

A névoa sobe do alto da montanha
        E ergue-se à luz

O claro cimo que a Tua luz banha
        Sereno e claro e a flux

Eu quero ser a névoa que se ergue
        Para te ver

A humanidade sofredora é cega -
        O resto é apenas ser...
1 363
Pablo Neruda

Pablo Neruda

III - a Cidade

E quando no Palácio
Velho,
belo como um agave de pedra,
subi os degraus gastos,
atravessei os antigos aposentos,
e saiu para receber-me
um operário,
chefe da cidade, do velho rio,
das casas cortadas como em pedra de lua,
não me surpreendi:
a majestade do povo governava.
E olhei detrás de sua boca
os fios deslumbrantes d
a tapeçaria,
a pintura que destas ruas tortuosas
saiu para mostrar a flor da beleza
a todas as ruas do mundo.
A cascata infinita
que o magro poeta de Florença
deixou caindo sempre
sem que possa morrer,
porque de fogo rubro e água verde
estão feitas suas sílabas.
Tudo por trás de sua cabeça operária
eu divisei. Mas não era,
detrás dele, a auréola
do passado seu esplendor:
era a simplicidade do presente.
Como um homem,
desde o tear ou o arado,
desde a fábrica escura,
subiu os escalões
com seu povo
e no Velho Palácio, sem seda e sem espada,
o povo, o mesmo
que atravessou comigo o frio
das cordilheiras andinas,
estava ali. De repente,
por trás de sua cabeça,
vi a neve,
as grandes árvores que na altura se uniram
e aqui, de novo
sobre a terra,
me acolhia com um sorriso
e me dava a mão,
a mesma
que me mostrou o caminho
lá longe nas ferruginosas
cordilheiras hostis que venci.
E aqui não era a pedra
convertida em milagre, nem a luz
procriadora, nem o benefício azul da pintura,
nem todas as vozes do rio,
os que me deram a cidadania
da velha cidade de pedra e prata,
mas um operário, um homem,
como todos os homens.

Por isso creio
cada noite no dia,
e quando tenho sede creio na água,
porque creio no homem.
Creio que vamos subindo
o último degrau.
Dali veremos
a verdade repartida,
a simplicidade implantada na terra,
o pão e o vinho para todos.
1 077
Adélia Prado

Adélia Prado

Missa Das 10

Frei Jácomo prega e ninguém entende.
Mas fala com piedade, para ele mesmo,
e tem mania de orar pelos paroquianos.
As mulheres que depois vão aos clubes,
os moços ricos de costumes piedosos,
os homens que prevaricam um pouco em seus negócios
gostam todos de assistir à missa de frei Jácomo,
povoada de exemplos, de vida de santos,
da certeza marota de que ao final de tudo
uma confissão in extremis garantirá o paraíso.
Ninguém vê o Cordeiro degolado na mesa,
o sangue sobre as toalhas,
seu lancinante grito,
ninguém.
Nem frei Jácomo.
2 648
Ademir Assunção

Ademir Assunção

MONTANHAS SÃO FRIAS QUANTO A NOITE CAI

numa noite sem nome
a severa senhora de olhos escuros
toca-nos a face
com seus dedos de pelica
e vai arrancando, uma a uma,
todas as máscaras
que vestimos

e nessa hora sem hora
até o mais valente dos valentes
sente um tremor,
ainda que leve,
na mão que empunha o revólver
1 264
Leila Mícollis

Leila Mícollis

Confissão

Dizem que o amor é cego,
não nego,
por isso te abro os olhos:
não tenho bens nem alqueires,
eu não sou flor que se cheire,
nem tão boa cozinheira,
(bem capaz que ainda me piches
por só comer sanduíches),
minha poesia é fuleira,
tenho idéias de jerico,
um cio meio impudico
como as cadelase as gatas,
às vezes me torno chata
por me opor ao que comtemplo,
sei que sou péssimo exemplo,
por pouca coisa me grilo,
talvez por mim percas quilos,
eu não sei se valho a pena,
iguais a mim, há centenas,
desejo te ser sincera.
Mas no fundo o amor espera
que grudes qual carrapicho:
são tão grandes meu rabicho
e minha paixão por ti,
que não estão no gibi...
Ao te ver, viro pamonha,
sem ação, e sem vergonha
o meu ser inteiro goza.
Por isso, pra encurtar prosa,
do teu corpo, cada poro
eu adoro adoro adoro...

1 171
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Perto da Grandeza

em certa fase da minha vida
conheci um homem que alegava ter
visitado Pound no St. Elizabeths.

depois conheci uma mulher que não apenas
alegava ter visitado
E.P.
como também ter feito amor
com ele – ela até me
mostrou
certos trechos dos
Cantos
em que Ezra supostamente a
teria
mencionado.

eis então aquele homem e
aquela mulher
e a mulher me disse
que Pound jamais
mencionara uma visita daquele
homem
e o homem alegava que a
dama não tivera contato algum
com o
mestre
que ela era
uma charlatona.

e como eu não era
um erudito poundiano
eu não sabia em quem
acreditar
mas
de uma coisa eu
sei: quando um homem está
vivo
muitos alegam relacionamentos
que dificilmente
o são
e depois que ele morre, bem,
aí a festa é
liberada.

meu palpite é que Pound
não conheceu nem a dama nem o
cavalheiro

e se conheceu
um
ou conheceu
ambos

então foi um vergonhoso desperdício de
tempo no
manicômio.
1 160
Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

QUANDO SÓS À BOLEIA DO CREPÚSCULO

Não mais a literatura, os seus
fúteis e imperiosos desígnios
- julgamos dizer, insistindo
numa ourivesaria do terror
e em gestos que sabem o quanto
chegam tarde. Quando sós,
à boleia do crepúsculo, dizemos
coisas assim, mentimos com
os dentes todos que não temos.

E a mentira (a literatura)
é ainda a improvável derrota
de que não nos salvaremos
nunca. Tão igual à vida, portanto:
pouso o copo, recupero o fôlego,
fumo uma silepse. Sei que vou morrer.

E isso que - talvez- nos diz
é uma evidência que escurece
(tivemos por amigo o desconforto).
Quanto ao mais, vamos andando.
Casados ou sozinhos. Mortos
922
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Glenn Miller

muito tempo atrás
na frente do campus
na sorveteria
a juke-box tocando
as garotas em sintonia perfeita
dançando com os jogadores de futebol
e com os rapazes brilhantes da faculdade

Glenn Miller era o grande sucesso
e todo mundo entrava na dança
quase todo mundo
eu ficava sentado com alguns discípulos
éramos supostos foras da lei
os exploradores da Verdade
mas eu gostava da música
e da preguiça da espera
com o mundo se lançando em guerra
com Hitler arengando
as garotas rodopiavam
graciosas
pernas à mostra
aquele último sol brilhante
nós nos aquecíamos nele
excluindo tudo mais
enquanto o universo abria sua boca
numa tentativa de
engolir todos nós.
1 202
Liz Christine

Liz Christine

Apaixonada

Como posso me sentir
Ridicularizada
Por estar apaixonada?
Tenho mais é que sorrir
Porque o amor é tão lindo
Mesmo quando não correspondido
E não mais temo
Esse amor que tenho
Porque é maravilhoso
Desejar
E ser amado
E delicioso
No simples beijar
Eletrizado, extasiado
Sorrindo e repetindo
Esse amor, paixão, tem nome

E se digo palavrões
E se chego a escrever
Algumas baixarias
É pela intensidade das emoções
E se falo em fuder
É porque doces poesias
Belos poemas declamados
Não podem traduzir
A intensidade dos apaixonados
Palavras formais
Me fode com violência
Tesão, sadismo
E indecência
Te amo demais
Te amo com paixão
É assim meu romantismo
Meu doce, sincero palavrão
Te amo com tesão
Amo, amo e chamo
Venha me fuder
Venha me dizer
Que me ama
De verdade
E que sou sua putana
Com total fidelidade

Fidelidade
É sempre dizer
A verdade
E você já deve saber
Que é minha única paixão
E está tão além do simples tesão

Você é tesão complexo
Mais que sexo
É amor único
Te amo, te amo e te chamo
Venha me fuder
Venha me satisfazer
Venha me completar
Só você pode me penetrar
E só você eu posso amar

1 127
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Profetas Falsos Vieram Em Teu Nome

Anjos errados disseram que tu eras
Um poema frustrado
Na angústia sem razão das Primaveras

Porém eu sei que tu és a verdade
E és o caminho transparente e puro
Embora eu não te encontre e no obscuro
Mundo das sombras morra de saudade.
1 259
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Depois De Receber Um Exemplar De Um Editor Contribuinte

cavilosos peixinhos
mordiscando suas feridas
achadas nessas páginas mal impressas
e ainda à procura de patrocinadores
amantes
mães
fama fácil:
qual de vocês
eu vi através de uma
janela de restaurante em uma Denver gelada
comendo torta de maçãs?
dirigindo para East Hollywood com um mastim
à caça de sua ama de leite?
qual de vocês então bateu
à minha porta
querendo falar sobre POESIA?
qual de vocês é vaidoso o bastante
e miserável o bastante
e doente o bastante
para chupar o rabo de um editor?
qual de vocês vai
a todas as festinhas bacanas
e lê suas coisas para os
vermes?
qual de vocês acha
que é Pound, ou Shelley
em uma borboleta azul?
qual de vocês
modificou meu poema para lê-lo
da maneira que você PENSA
que um poema deve ser lido?
qual de vocês esgoelou
sentimentos doentios e amigáveis
como larvas rastejando no
corpo da minha mente?
e isso pode parecer forte
e injusto,
pois eu digo, deixem que todos vivam
e escrevam
se quiserem viver e escrever
mas qual de vocês
vive com sua mãe ou sua tia,
qual de vocês aplica
primeiro talco em sua bunda
e depois sobe
na cruz?
qual de vocês
(um deles um professor universitário
a quem certa vez eu castiguei
por causa de abstração sem sentido)
qual de vocês agora
escreve sobre putas e bebida
e nunca foi para a cama com uma mulher,
e nunca bebeu
mais que um copo de cerveja escura?
e qual de vocês
escreve com um dicionário sobre a barriga
como se sodomizasse uma vaca inteira?
qual de vocês faz sua alma rebolar
ao som de Bach para órgão
como um macaco em uma corda?
qual de vocês
odeia a mulher que o alimenta?
não por ela ser humana
mas porque
ela não gosta do que você faz.
qual de vocês
não conseguiria rebater uma bola de beisebol?
qual de vocês
nunca esteve na cadeia?
qual de vocês?
qual de vocês?
qual de
vocês?
1 121
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Grande Escritor

um grande escritor fica na cama
cortinas cerradas
não quer ver mais ninguém
não quer escrever mais nada
não quer tentar mais nada;
os editores e donos de editora se admiram:
alguns dizem que ele está louco
alguns dizem que ele morreu;
sua mulher agora responde a toda a correspondência:
"ele não quer..."
e alguns outros até dão voltas
pelo lado de fora da sua casa
olham para as cortinas
cerradas;
alguns até sobem e tocam a
campainha.
ninguém responde.
o grande escritor não quer ser
incomodado. será que o grande escritor não está
em casa? será que o grande escritor foi
embora?
mas todos querem saber a verdade,
ouvir sua voz, ficar sabendo de algum bom
motivo para tudo isso.
se ele tem um motivo
não o revela.
talvez não haja nenhum
motivo?
estranhos e perturbadores acertos são
feitos; seus livros e quadros são silenciosamente
leiloados;
nenhum trabalho novo apareceu em
anos.
no entanto, o público não quer aceitar seu
silêncio -
se ele está morto
eles querem saber; se ele está
louco eles querem saber; se ele tem um
motivo, por favor, nos conte!
eles passam por sua casa
escrevem cartas
tocam a campainha
eles não podem entender e não irão
aceitar
O jeito como as coisas são.
eu prefiro
assim.
674
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Encômios

após a morte
exageramos as boas qualidades de alguém,
nós as inflamos.
durante a vida
frequentemente sentimos repulsa pela mesma pessoa
enquanto falamos com ela ao telefone
ou só de estar no mesmo aposento.
e frequentemente criticamos o jeito como
andam, falam, vestem-se
vivem
creem.
mas é só morrerem
então que criaturas elas
se tornam.
se apenas em uma cerimônia fúnebre
alguém dissesse,
"que indivíduo odioso
esse aí foi!"
que em meu funeral
haja só um pouco de verdade,
e depois a boa e limpa
poeira.
1 077
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Perfeitos Dentes Brancos

eu finalmente comprei uma TV a cores
e a outra noite
deparei com esse filme
e lá está um cara em
Paris
ele não tem dinheiro
mas veste um terno muito bom
e o nó da sua gravata está perfeito
e ele não está nem preocupado nem bêbado
mas está em um café
e todas as mulheres maravilhosas estão
apaixonadas por ele
e de algum modo ele continua a pagar seu aluguel
e a subir e descer por escadarias
usando camisas muito limpas
e ele aconselha algumas das garotas
sobre não poderem escrever poesia
enquanto ele pode
mas que não está realmente com vontade de fazer isso
naquele momento -
em vez disso ele está procurando a Verdade.
enquanto isso ele tem um corte de cabelo perfeito
nenhuma ressaca
nada de tiques nervosos ao redor dos olhos e perfeitos
dentes brancos.
eu sabia o que ia acontecer:
ele conseguiria a poesia, as mulheres e
a Verdade.
desliguei o televisor
pensando, seu safado filho da puta
você merece
todas
as três.
633
Felipe d’Oliveira

Felipe d’Oliveira

O Epitáfio que Não Foi Gravado

Todos sentiram quando a morte entrou
com um frêmito apressado de retardatária.

A que tinha de morrer, — a que a esperava, —
fechou os olhos
fatigados de assistirem ao mal-entendido da vida.

Os que a choravam sabiam-na sem pecado,
consoladora dos aflitos,
boca de perdão e de indulgência,
corpo sem desejo,
voz sem amargor.

A que tinha de morrer fechou os olhos fatigados,
mas tranqüilos...
Porque os que a choravam nunca saberiam
o rancor sem perdão de sua boca,
o desejo saciado de seu corpo,
o amargor de sua voz,
a sua angústia de arrastar até o fim a alma postiça que lhe fizeram,
o seu cansaço imenso de abafar, secretos, na carne ansiosa,
a perfeição e o orgulho de pecar.

A que tinha de morrer fechou os olhos para sempre
e os que a choravam
nunca souberam de alguém que foi de todos junto ao leito à hora do exausto coração parar
o mais distante,
o mais imóvel,
o que não soluçou
o que não pôde erguer as pálpebras pesadas,
o que sentiu clamar no sangue o desespero de sobreviver,
o que estrangulou na garganta o grito dilacerado do solitário,
o que depôs, sobre a serenidade da morte purificadora,
a redenção do silêncio,
como uma pedra votiva de sepulcro.

1 486
Flávio Sátiro Fernandes

Flávio Sátiro Fernandes

Ode aos noventanos

Ao meu pai,
nos seus noventa anos.

O tempo é rio
por onde flui o existir.

A energia
que podia se extinguir
renasce,
tocada pelas asas
das borboletas que,
na manhã clara,
se libertam
do capulho alvinitente
do algodoal.

No mimetismo geográfico,
a compreensão dos mistérios
que a alma revolve
no seu dia-a-dia.

Viver é o desafio.
A casa é o desafio.
O pão é o desafio.
Andar é o desafio.
Ver é o desafio.
Ouvir é o desafio.

Vida de vaidade despojada.
Verdade em aço forjada.

835