Poemas neste tema
Vento e Ar
António Borges Coelho
Balouça as folhas
Balouça as folhas rústica a varrer
a terra verdes fazem de toalha
cobrindo os frutos verdes quase roxos
a barriga vermelha há milénios
que serve o homem com seu verde mel
mas Judas enforcou-se nos seus ramos
e quando não deu fruto o próprio Cristo
a declarou maldita o vento oeste
dobrou-a sobre o barro descarnou-a
esbarrondou-lhe o tronco as raízes
fincaram-se na terra ladras de água
curvada à maldição inclina os ramos
desfaz-se em fruto embala preso à corda
o cadáver de todos os malditos
a terra verdes fazem de toalha
cobrindo os frutos verdes quase roxos
a barriga vermelha há milénios
que serve o homem com seu verde mel
mas Judas enforcou-se nos seus ramos
e quando não deu fruto o próprio Cristo
a declarou maldita o vento oeste
dobrou-a sobre o barro descarnou-a
esbarrondou-lhe o tronco as raízes
fincaram-se na terra ladras de água
curvada à maldição inclina os ramos
desfaz-se em fruto embala preso à corda
o cadáver de todos os malditos
1 095
Fernando Echevarría
Qualquer Coisa de Paz
Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.
Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.
Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área
de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruína
a luz da fronte onde a atenção domina.
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.
Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.
Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área
de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruína
a luz da fronte onde a atenção domina.
639
Pablo Neruda
VII - A ilha
Quando proliferaram os colossos
e erguidos caminharam
até povoar a ilha de narizes de pedra
e, ativos, fundaram descendência − filhos
do vento e da lava, netos
do ar e da cinza, percorreram
com grandes pés a ilha −
nunca trabalhou tanto
a brisa com suas mãos,
o ciclone com seu crime,
a persistência da Oceania.
Grandes cabeças puras,
de longos pescoços, de olhar grave,
gigantescas mandíbulas erguidas
no orgulho de sua solidão,
presenças,
presenças arrogantes,
preocupadas.
Oh graves dignidades solitárias
quem se atreveu, se atreve
e erguidos caminharam
até povoar a ilha de narizes de pedra
e, ativos, fundaram descendência − filhos
do vento e da lava, netos
do ar e da cinza, percorreram
com grandes pés a ilha −
nunca trabalhou tanto
a brisa com suas mãos,
o ciclone com seu crime,
a persistência da Oceania.
Grandes cabeças puras,
de longos pescoços, de olhar grave,
gigantescas mandíbulas erguidas
no orgulho de sua solidão,
presenças,
presenças arrogantes,
preocupadas.
Oh graves dignidades solitárias
quem se atreveu, se atreve
1 190
Giacomo Leopardi
Infinito
Infinito
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.
2 551
Pablo Neruda
Noite - C
No meio da terra afastarei
as esmeraldas para divisar-te
e tu estarás copiando as espigas
com tua pluma de água mensageira.
Que mundo! Que profundo perrexil!
Que nave navegando na doçura!
E tu talvez e eu talvez topázio!
Já divisão não haverá nos sinos.
Já não haverá senão todo o ar liberto,
as maçãs transportadas pelo vento,
o suculento livro na ramagem,
e ali onde respiram os cravos
fundaremos um traje que resista
de um beijo vitorioso a eternidade.
as esmeraldas para divisar-te
e tu estarás copiando as espigas
com tua pluma de água mensageira.
Que mundo! Que profundo perrexil!
Que nave navegando na doçura!
E tu talvez e eu talvez topázio!
Já divisão não haverá nos sinos.
Já não haverá senão todo o ar liberto,
as maçãs transportadas pelo vento,
o suculento livro na ramagem,
e ali onde respiram os cravos
fundaremos um traje que resista
de um beijo vitorioso a eternidade.
1 076
Gilka Machado
Particularidades 1
Na plena solidão de um amplo descampado,
penso em ti e que tu pensas em mim suponho;
tenho toda afeição de um arbusto isolado,
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.
O Vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora langoroso, ora forte, medonho!
e tanto penso em ti, ó meu ausente amado!
que te sinto no Vento e a ele, feliz, me exponho.
Com carícias brutais e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me toda nua...
– sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças...
E não podes saber do meu gozo violento,
quando me fico assim, neste ermo, toda nua,
completa-te exposta à Volúpia do Vento!
penso em ti e que tu pensas em mim suponho;
tenho toda afeição de um arbusto isolado,
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.
O Vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora langoroso, ora forte, medonho!
e tanto penso em ti, ó meu ausente amado!
que te sinto no Vento e a ele, feliz, me exponho.
Com carícias brutais e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me toda nua...
– sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças...
E não podes saber do meu gozo violento,
quando me fico assim, neste ermo, toda nua,
completa-te exposta à Volúpia do Vento!
2 355
Pablo Neruda
Manhã - XXIV
Amor, amor, as nuvens à torre do céu
subiram como triunfantes lavadeiras,
e tudo ardeu em azul, foi tudo estrela:
o mar, a nave, o dia se desterraram juntos.
Vem ver as cerejeiras da água constelada
e a clave redonda do rápido universo,
vem tocar o fogo do azul instantâneo,
vem antes que suas pétalas se consumam.
Aqui não há senão luz, quantidades, cachos,
espaço aberto pelas virtudes do vento
até entregar os últimos segredos da espuma.
E entre tantos azuis-celestes, submergidos,
se perdem nossos olhos adivinhando apenas
os poderes do ar, as chaves submarinas.
subiram como triunfantes lavadeiras,
e tudo ardeu em azul, foi tudo estrela:
o mar, a nave, o dia se desterraram juntos.
Vem ver as cerejeiras da água constelada
e a clave redonda do rápido universo,
vem tocar o fogo do azul instantâneo,
vem antes que suas pétalas se consumam.
Aqui não há senão luz, quantidades, cachos,
espaço aberto pelas virtudes do vento
até entregar os últimos segredos da espuma.
E entre tantos azuis-celestes, submergidos,
se perdem nossos olhos adivinhando apenas
os poderes do ar, as chaves submarinas.
1 167
Noel Rosa
Chuva de Vento
Quem nunca viu
Chuva de vendo a fantasia
Vá em Caxambu, de dia
Domingo de carnaval!
Chuva de vento
Só essa de Caxambu!
Domingo chove chuchu
E venta água mineral!
Um espanhol
Que está me ouvindo desconfia
Dessa chuva a fantasia
Que abala Caxambu
Esse espanhol
Que na mentira não me ganha
Garantiu que lá na Espanha
Chove bala pra chuchu!
Chuva de vento
É quando o vento dá na chuva
Sol com chuva - céu cinzento
Casamento de viúva
Zeca Secura
Da fazenda do Anzol
Quando chove não vê sol
Vai comprar feijão no centro
Bebe dez litros
De cachaça em meia hora
Pra aguentá chuva por fora
Tem que se molhar por dentro
Vento danado
É aquele lá de Minas
Sopra em cima das meninas
Diverte a população
Até os velhos
Vão correndo pras janelas
Pra ver se algumas delas
Já usa combinação
Fez sol com chuva
Uma viúva lá da Penha
Disse que não há quem tenha
Tanto pretendente junto
Mas um por um
Dos pretendentes é otário
Pois o vencedor do páreo
Ganha resto de defunto
Quem nunca viu
Chuva de vento a fantasia
Vá em Caxambu de dia
Domingo de carnaval
Chuva de vento
Só essa de Caxambu
Domingo chove chuchu
E venta água mineral!
Um Zé Pau-dágua
Tem um amigo parasita
Não trabalha e sempre grita:
"Viva Deus e chova arroz!"
Gritando assim
Do seu povo ele se vinga
Viva Deus e chova pinga
Que arroz nasce depois
Chuva de vento
Muita gente desconfia
Dessa chuva fantasia
Que eu vi em Caxambu
Se o espanhol
Contar a dele não me ganha
Vai dizer que na Espanha
Chove bala pra chuchu!
Chuva de vendo a fantasia
Vá em Caxambu, de dia
Domingo de carnaval!
Chuva de vento
Só essa de Caxambu!
Domingo chove chuchu
E venta água mineral!
Um espanhol
Que está me ouvindo desconfia
Dessa chuva a fantasia
Que abala Caxambu
Esse espanhol
Que na mentira não me ganha
Garantiu que lá na Espanha
Chove bala pra chuchu!
Chuva de vento
É quando o vento dá na chuva
Sol com chuva - céu cinzento
Casamento de viúva
Zeca Secura
Da fazenda do Anzol
Quando chove não vê sol
Vai comprar feijão no centro
Bebe dez litros
De cachaça em meia hora
Pra aguentá chuva por fora
Tem que se molhar por dentro
Vento danado
É aquele lá de Minas
Sopra em cima das meninas
Diverte a população
Até os velhos
Vão correndo pras janelas
Pra ver se algumas delas
Já usa combinação
Fez sol com chuva
Uma viúva lá da Penha
Disse que não há quem tenha
Tanto pretendente junto
Mas um por um
Dos pretendentes é otário
Pois o vencedor do páreo
Ganha resto de defunto
Quem nunca viu
Chuva de vento a fantasia
Vá em Caxambu de dia
Domingo de carnaval
Chuva de vento
Só essa de Caxambu
Domingo chove chuchu
E venta água mineral!
Um Zé Pau-dágua
Tem um amigo parasita
Não trabalha e sempre grita:
"Viva Deus e chova arroz!"
Gritando assim
Do seu povo ele se vinga
Viva Deus e chova pinga
Que arroz nasce depois
Chuva de vento
Muita gente desconfia
Dessa chuva fantasia
Que eu vi em Caxambu
Se o espanhol
Contar a dele não me ganha
Vai dizer que na Espanha
Chove bala pra chuchu!
1 041
Teruko Oda
Inverno
Silêncio profundo
Soba luz da eterna aurora
Dorme o campo seco.
Mugido sedento
Gado magro em pasto seco
Coqueiros ao vento.
Soba luz da eterna aurora
Dorme o campo seco.
Mugido sedento
Gado magro em pasto seco
Coqueiros ao vento.
1 082
Pablo Neruda
A Barcarola
(O vento frio corre compacto como um peixe
e golpeia os talos da aveia. Ao rés do solo vive
um movimento múltiplo e delgado. O dia está nu.
O fulgor de Novembro como uma estalactite
lisa e azul decide a pompa do estio.
É verão. E as lanças do vento interminável
perfuram o favo do espaço amarelo:
olvido ao ver correr a música na aveia
a abóbada implacável do meio-dia.
Escuta,
mulher do sol, meu pensamento. Toca
com teus pés o tremor fugitivo do solo.
Entre a relva cresce meu rosto contra o verde,
através de meus olhos cruzam as espadanas
e bebo com a alma velocidade e vento.)
Mas eu, o cidadão de um tempo gasto e roído, de ruas direitas,
que vi converter-se em incêndio, em detritos, em pedras queimadas, em fogo e em pó,
e depois voltar da guerra o soldado com mortes em cima e embaixo,
e outra vez levantar a cidade infeliz colando cimento às ruínas
e janela e janela e janela e janela e janela
e outra porta outra porta outra porta outra porta outra porta
até o duro infinito moderno com seu inferno de fogo quadrado,
pois a pátria da geometria substitui a pátria do homem.
Viajante perdido, o regresso implacável, a vitória de
pernas cortadas,
a derrota guardada em um cesto como uma maçã diabólica:
este século em que me pariram também, entre tantos que já não alcançaram,
que caíram, Desnos, Frederico, Miguel, companheiros
sem trégua ao meu lado no sol e na morte,
estes anos que às vezes ao cravar a bandeira e cantar com orgulho aos povos
me apontaram com sanha os mesmos que eu defendi com meu canto
e quiseram atirar-me à fossa mordendo minha vida
com as mesmas ferozes mandíbulas do tigre inimigo.
(Os inseguros temem a integridade, golpeiam
então minhas costas com pequenos martelos,
querem assegurar o lugar que lhes toca,
porque medo e soberba sempre estiveram juntos
e suas acusações são suas únicas medalhas.)
(Temem que a violência desintegre seus ossos
e para defender-se vestem-se de violência.)
(Veja o testemunho mudo de depois de amanhã,
recolha os pedaços da torre calada
e quanto me tocou da crueldade inútil.
Compreenderá? Talvez. Os tambores
estarão rotos, e a buzina estridente
será pó no pó.
A felicidade te acompanhe,
companheiro, a felicidade, patrimônio futuro
que herdarás de nosso sangue encarniçado.)
Em minha barcarola se encontram voando os pregos do ódio
com o arroz negro que os invejosos me dão em seu prato
e devo estudar a linguagem do corvo, tocar a plumagem,
olhar nos olhos dos insaciáveis e dos insaciados
e no mesmo páramo das imundícies terrestres
arrojar as censuras de agora e as adulações de então.
Cantando entre escórias o canto reluz na taça de minha alma
e tinge com luz de amaranto o crepúsculo aziago,
eu só sustento a taça de sangue e a espada que canta na arena
e provo o sal em meus lábios, a chuva em minha língua e o fogo recebo em meus olhos,
cantando sem pressa nem pausa, coroado pelas nevascas.
Porque em cima e em torno de mim se sacode como uma bandeira
longitudinal, o capítulo puro de minha geografia,
e do Taltal platinado pela camanchaca13 salobre
até Ruca Diuca coberto por trepadeiras e salgueiros-chorões,
eu vou estendendo entre montes e torres calcáreas minha vertiginosa linhagem,
sem dúvida acossado pela trêmula fragrância do trevo,
talvez inerente produto do bosque na chuva no inverno
pelas estradas molhadas onde passou uma serpente vestida de verde,
de todas as maneiras, sem ser conduzido pelas aventuras do rio com seu batalhão transparente
percorro as terras contando os pássaros, as pedras, a água,
e me retribui o Outono com tanto dinheiro amarelo
que choro de puro cantor derramando meu canto no vento.
e golpeia os talos da aveia. Ao rés do solo vive
um movimento múltiplo e delgado. O dia está nu.
O fulgor de Novembro como uma estalactite
lisa e azul decide a pompa do estio.
É verão. E as lanças do vento interminável
perfuram o favo do espaço amarelo:
olvido ao ver correr a música na aveia
a abóbada implacável do meio-dia.
Escuta,
mulher do sol, meu pensamento. Toca
com teus pés o tremor fugitivo do solo.
Entre a relva cresce meu rosto contra o verde,
através de meus olhos cruzam as espadanas
e bebo com a alma velocidade e vento.)
Mas eu, o cidadão de um tempo gasto e roído, de ruas direitas,
que vi converter-se em incêndio, em detritos, em pedras queimadas, em fogo e em pó,
e depois voltar da guerra o soldado com mortes em cima e embaixo,
e outra vez levantar a cidade infeliz colando cimento às ruínas
e janela e janela e janela e janela e janela
e outra porta outra porta outra porta outra porta outra porta
até o duro infinito moderno com seu inferno de fogo quadrado,
pois a pátria da geometria substitui a pátria do homem.
Viajante perdido, o regresso implacável, a vitória de
pernas cortadas,
a derrota guardada em um cesto como uma maçã diabólica:
este século em que me pariram também, entre tantos que já não alcançaram,
que caíram, Desnos, Frederico, Miguel, companheiros
sem trégua ao meu lado no sol e na morte,
estes anos que às vezes ao cravar a bandeira e cantar com orgulho aos povos
me apontaram com sanha os mesmos que eu defendi com meu canto
e quiseram atirar-me à fossa mordendo minha vida
com as mesmas ferozes mandíbulas do tigre inimigo.
(Os inseguros temem a integridade, golpeiam
então minhas costas com pequenos martelos,
querem assegurar o lugar que lhes toca,
porque medo e soberba sempre estiveram juntos
e suas acusações são suas únicas medalhas.)
(Temem que a violência desintegre seus ossos
e para defender-se vestem-se de violência.)
(Veja o testemunho mudo de depois de amanhã,
recolha os pedaços da torre calada
e quanto me tocou da crueldade inútil.
Compreenderá? Talvez. Os tambores
estarão rotos, e a buzina estridente
será pó no pó.
A felicidade te acompanhe,
companheiro, a felicidade, patrimônio futuro
que herdarás de nosso sangue encarniçado.)
Em minha barcarola se encontram voando os pregos do ódio
com o arroz negro que os invejosos me dão em seu prato
e devo estudar a linguagem do corvo, tocar a plumagem,
olhar nos olhos dos insaciáveis e dos insaciados
e no mesmo páramo das imundícies terrestres
arrojar as censuras de agora e as adulações de então.
Cantando entre escórias o canto reluz na taça de minha alma
e tinge com luz de amaranto o crepúsculo aziago,
eu só sustento a taça de sangue e a espada que canta na arena
e provo o sal em meus lábios, a chuva em minha língua e o fogo recebo em meus olhos,
cantando sem pressa nem pausa, coroado pelas nevascas.
Porque em cima e em torno de mim se sacode como uma bandeira
longitudinal, o capítulo puro de minha geografia,
e do Taltal platinado pela camanchaca13 salobre
até Ruca Diuca coberto por trepadeiras e salgueiros-chorões,
eu vou estendendo entre montes e torres calcáreas minha vertiginosa linhagem,
sem dúvida acossado pela trêmula fragrância do trevo,
talvez inerente produto do bosque na chuva no inverno
pelas estradas molhadas onde passou uma serpente vestida de verde,
de todas as maneiras, sem ser conduzido pelas aventuras do rio com seu batalhão transparente
percorro as terras contando os pássaros, as pedras, a água,
e me retribui o Outono com tanto dinheiro amarelo
que choro de puro cantor derramando meu canto no vento.
1 325
Oldegar Vieira
Gravuras no Vento
Gravura no vento.
Pois é desacontecido
o acontecimento.
Em êxtase, vê-las...
Uma a uma, todo o céu
porejando estrelas.
Pendentes de um fio,
gotas de chuva — ou de sol —
sob o sol do estio.
Dentro do aranhol,
de repente, frente a frente,
uma aranha e o sol.
Animal nasceu.
Desanimalmente, agora,
vive... num museu.
Tarde longa e quente.
Tange longe uma araponga
seu grito fremente.
Compensar sua ausência
— evidente, este evidência! —
só sua alegria.
À pista vermelha
de uma flor, vem uma rima
e aflorissa: abelha.
Incrível talento,
o desse escultor das nuvens
— genial! —, o vento.
Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.
Não metal de sinos.
Vil-metal agora é a rima
que canta o Natal.
Nos cinzeiros jazem
— antecipantes — as cinzas
mortais dos fumantes.
Seu corpo enriquece
a terra. E a saudade
é a flor que floresce.
Ela — uma andorinha —
vendo as outras que não estavam
— nem uma — sozinha.
Claro desafio:
sete cores luminosas
ante um céu sombrio.
Fantasmagoria:
uma borboleta preta
em noite vazia.
Interrogativo
à beira de um charco, um velho
coqueiro — pendido.
Lenta, lentamente,
um caleidoscópio gira.
Gira-sol poente.
Oca, ressequida,
na carcassa da cigarra,
em silêncio, a vida...
Cabelos ao vento,
soltos, como vão revoltos
— ah — seus pensamentos.
Doze, compassadas,
tangendo o silêncio e o tempo,
doze badaladas...
Fina e clara, a chuva,
qual a janela que tem
mais bela cortina?
Nuvens e mais nuvens
a passar, bem que me deite.
Foi-se o ... meu luar.
Uma flor no mato
solitária, rubra, sangue
no verde compacto.
Não tem sul nem norte,
nem oeste ou leste — é céu.
Céu somente azul.
Voltevolteiando
no cristal do tanque, as carpas
silenciosonhando...
Sol da madrugada.
Vai surgindo: dentro de uma
teia iluminada!
Uma borboleta.
Nada mais, nem leve aragem.
E a rosa é desfeita.
Flor em que não vai
a libélula pousar.
Na espuma do mar.
Por acaso a sua
caminhada é a mesma, ou ela
o acompanha, a lua?
Ramagens crestadas
reflorindo: borboletas
nas cinzas, pousadas.
Voz da cachoeira,
ao viço da mata vai
líquida poeira.
Reflita: no espelho,
aquele que o imita,
quem será? Você?
Lembradas jamais,
as flores do morto vão
mortas, muito mais.
Tem cativo, o canto,
mas o muda borboleta
é livre, no entanto.
Noite a dentro, um cão
late, insone, a quem nem late,
seu insone irmão.
Ah, esse berreiro
das cigarras no austero
parque do mosteiro...
Num céu claro e puro,
um corvo paira sereno
— feio, torvo, escuro.
Cai a neve, e penso
no quanto se deve ser
puro como a neve.
Que fazer com as mãos,
não mais — não — senão guardar
seu fugaz perfume?
Ouracorrentado.
Entre seios femininos,
recrucificado.
Espana a poeira
de luz das estrelas, ou
— no vento — é palmeira?
Mudos edifícios
permutando, permutando
surdos malefícios.
Fuçando em monturos,
anjos andrajosos de
presépios escuros.
Chuva de verão,
chuva de flores na chuva.
Reflorindo, o chão.
Os bois, pacientes.
Mas as rodas, por que vão
gemendo, gementes?
Brancos, a igreja
e o casario entre verdes,
escorrendo ao rio.
Na rua quieta,
a flauta de um vagabundo
— músicopoeta.
Nas mãos de uma negra
— noite-escrava —, uma urupemba
peneirando estrelas.
É flor esquecida,
esta que resta no mármore,
lembrando outra vida?
Um fruto maduro,
pendente, precisamente
na linha do muro.
Trapos do abandono
— do espantalho — vai levando
o vento do outono.
Sob o anil do céu
e ao sol — branco — um enxoval
num varal, ao vento...
Tê-las nas mãos quis,
pois jamais alguém falara
ao cego, de estrelas.
Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.
Na rua deserta
— desperdício — eis que ela passa
numa hora incerta.
Flor de velho amor,
expressiva? Só se for
— morta — a sempre-viva.
Serão. Ninguém fala.
Somente os trilos dos grilos
nos desvãos da sala.
Grávida ela passa,
e como vai cheia, cheia
de Vida e de Graça.
E o menino via:
afinal, esse "natal"...
não o merecia.
Não mais florescentes,
no lixo largadas, são
flores — defloradas.
Tatuagem móvel
no pavimento: a ramagem
ao luar e ao vento.
Que Deus o proteja
não pede. O que pede é pão
na porta da igreja.
Andorinhas: fusas
na pauta dos fios, ou...
ou semi-confusas?
Pétalas levava
— eram rosas — nas suas,
outras mãos, nervosas.
Sim, cantar mas sem
— como a cigarra — pensar
que a morte lhe vem.
Musicalizado
na folhagem, vai o vento,
músico em viagem.
Mudos nas estantes,
são pacíficos soldados?
Mudos mas prestantes.
Quase um rei deposto.
Não mais arde o sol da tarde.
No espelho, o seu rosto.
Auroralmagia!
O canto claro dos galos
clareando o dia.
Lâmina de luz
— a lagoa — estilhaçada
sob a chuvarada.
O mal da intriga
sofre o mundo mas, ao monge,
o silêncio abriga.
Somente a ilumina
— à imponente nave em sombras —
uma lamparina.
Brutos lenhadores
mas bastante foi que vissem
um ninho entre flores.
Túmida e sangrenta,
da escura folhagem surge
lenta, lenta, a lua.
Lavando e cantando,
o riacho e as lavadeiras,
cantando e lavando.
Quebrado o relógio,
fez-se eternidade o tempo
desmecanizado.
Por entre os telhados,
mamoeiras, bananeiras
— bem domesticados.
Numa folha escrevo
todo um poema: seu nome.
Na folha de um trevo.
Na concha rosada
de uma pétala, uma pérola
de orvalho, engastada.
Bagunça, arruaça,
nenhuma... a não ser dos pombos,
os donos da praça.
Sombra do seu corpo
diz que sou, mas foge e faz
sombra em minha vida.
Seixo — ao léu rolado,
rolarrolando... exilado
peso-de-papel.
Causa de desgosto,
a mensagem vai no rosto
como tatuagem.
Na ramada nua
pousado, um corvo, calado,
vê nascendo a lua.
Na clara do céu
flutua — lua de fogo —
a gema do sol.
Acaso... um acaso?
Ou proposital derrame
de tintas no ocaso?
Difuso e em surdina,
o rumor de uma cascata
dentro de uma neblina.
Pétalas caídas
ou borboletas dormidas
que o vento desperta?
Não lhe serve a prosa.
Só em linguagem poética
diga o nome "rosa".
Pois é desacontecido
o acontecimento.
Em êxtase, vê-las...
Uma a uma, todo o céu
porejando estrelas.
Pendentes de um fio,
gotas de chuva — ou de sol —
sob o sol do estio.
Dentro do aranhol,
de repente, frente a frente,
uma aranha e o sol.
Animal nasceu.
Desanimalmente, agora,
vive... num museu.
Tarde longa e quente.
Tange longe uma araponga
seu grito fremente.
Compensar sua ausência
— evidente, este evidência! —
só sua alegria.
À pista vermelha
de uma flor, vem uma rima
e aflorissa: abelha.
Incrível talento,
o desse escultor das nuvens
— genial! —, o vento.
Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.
Não metal de sinos.
Vil-metal agora é a rima
que canta o Natal.
Nos cinzeiros jazem
— antecipantes — as cinzas
mortais dos fumantes.
Seu corpo enriquece
a terra. E a saudade
é a flor que floresce.
Ela — uma andorinha —
vendo as outras que não estavam
— nem uma — sozinha.
Claro desafio:
sete cores luminosas
ante um céu sombrio.
Fantasmagoria:
uma borboleta preta
em noite vazia.
Interrogativo
à beira de um charco, um velho
coqueiro — pendido.
Lenta, lentamente,
um caleidoscópio gira.
Gira-sol poente.
Oca, ressequida,
na carcassa da cigarra,
em silêncio, a vida...
Cabelos ao vento,
soltos, como vão revoltos
— ah — seus pensamentos.
Doze, compassadas,
tangendo o silêncio e o tempo,
doze badaladas...
Fina e clara, a chuva,
qual a janela que tem
mais bela cortina?
Nuvens e mais nuvens
a passar, bem que me deite.
Foi-se o ... meu luar.
Uma flor no mato
solitária, rubra, sangue
no verde compacto.
Não tem sul nem norte,
nem oeste ou leste — é céu.
Céu somente azul.
Voltevolteiando
no cristal do tanque, as carpas
silenciosonhando...
Sol da madrugada.
Vai surgindo: dentro de uma
teia iluminada!
Uma borboleta.
Nada mais, nem leve aragem.
E a rosa é desfeita.
Flor em que não vai
a libélula pousar.
Na espuma do mar.
Por acaso a sua
caminhada é a mesma, ou ela
o acompanha, a lua?
Ramagens crestadas
reflorindo: borboletas
nas cinzas, pousadas.
Voz da cachoeira,
ao viço da mata vai
líquida poeira.
Reflita: no espelho,
aquele que o imita,
quem será? Você?
Lembradas jamais,
as flores do morto vão
mortas, muito mais.
Tem cativo, o canto,
mas o muda borboleta
é livre, no entanto.
Noite a dentro, um cão
late, insone, a quem nem late,
seu insone irmão.
Ah, esse berreiro
das cigarras no austero
parque do mosteiro...
Num céu claro e puro,
um corvo paira sereno
— feio, torvo, escuro.
Cai a neve, e penso
no quanto se deve ser
puro como a neve.
Que fazer com as mãos,
não mais — não — senão guardar
seu fugaz perfume?
Ouracorrentado.
Entre seios femininos,
recrucificado.
Espana a poeira
de luz das estrelas, ou
— no vento — é palmeira?
Mudos edifícios
permutando, permutando
surdos malefícios.
Fuçando em monturos,
anjos andrajosos de
presépios escuros.
Chuva de verão,
chuva de flores na chuva.
Reflorindo, o chão.
Os bois, pacientes.
Mas as rodas, por que vão
gemendo, gementes?
Brancos, a igreja
e o casario entre verdes,
escorrendo ao rio.
Na rua quieta,
a flauta de um vagabundo
— músicopoeta.
Nas mãos de uma negra
— noite-escrava —, uma urupemba
peneirando estrelas.
É flor esquecida,
esta que resta no mármore,
lembrando outra vida?
Um fruto maduro,
pendente, precisamente
na linha do muro.
Trapos do abandono
— do espantalho — vai levando
o vento do outono.
Sob o anil do céu
e ao sol — branco — um enxoval
num varal, ao vento...
Tê-las nas mãos quis,
pois jamais alguém falara
ao cego, de estrelas.
Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.
Na rua deserta
— desperdício — eis que ela passa
numa hora incerta.
Flor de velho amor,
expressiva? Só se for
— morta — a sempre-viva.
Serão. Ninguém fala.
Somente os trilos dos grilos
nos desvãos da sala.
Grávida ela passa,
e como vai cheia, cheia
de Vida e de Graça.
E o menino via:
afinal, esse "natal"...
não o merecia.
Não mais florescentes,
no lixo largadas, são
flores — defloradas.
Tatuagem móvel
no pavimento: a ramagem
ao luar e ao vento.
Que Deus o proteja
não pede. O que pede é pão
na porta da igreja.
Andorinhas: fusas
na pauta dos fios, ou...
ou semi-confusas?
Pétalas levava
— eram rosas — nas suas,
outras mãos, nervosas.
Sim, cantar mas sem
— como a cigarra — pensar
que a morte lhe vem.
Musicalizado
na folhagem, vai o vento,
músico em viagem.
Mudos nas estantes,
são pacíficos soldados?
Mudos mas prestantes.
Quase um rei deposto.
Não mais arde o sol da tarde.
No espelho, o seu rosto.
Auroralmagia!
O canto claro dos galos
clareando o dia.
Lâmina de luz
— a lagoa — estilhaçada
sob a chuvarada.
O mal da intriga
sofre o mundo mas, ao monge,
o silêncio abriga.
Somente a ilumina
— à imponente nave em sombras —
uma lamparina.
Brutos lenhadores
mas bastante foi que vissem
um ninho entre flores.
Túmida e sangrenta,
da escura folhagem surge
lenta, lenta, a lua.
Lavando e cantando,
o riacho e as lavadeiras,
cantando e lavando.
Quebrado o relógio,
fez-se eternidade o tempo
desmecanizado.
Por entre os telhados,
mamoeiras, bananeiras
— bem domesticados.
Numa folha escrevo
todo um poema: seu nome.
Na folha de um trevo.
Na concha rosada
de uma pétala, uma pérola
de orvalho, engastada.
Bagunça, arruaça,
nenhuma... a não ser dos pombos,
os donos da praça.
Sombra do seu corpo
diz que sou, mas foge e faz
sombra em minha vida.
Seixo — ao léu rolado,
rolarrolando... exilado
peso-de-papel.
Causa de desgosto,
a mensagem vai no rosto
como tatuagem.
Na ramada nua
pousado, um corvo, calado,
vê nascendo a lua.
Na clara do céu
flutua — lua de fogo —
a gema do sol.
Acaso... um acaso?
Ou proposital derrame
de tintas no ocaso?
Difuso e em surdina,
o rumor de uma cascata
dentro de uma neblina.
Pétalas caídas
ou borboletas dormidas
que o vento desperta?
Não lhe serve a prosa.
Só em linguagem poética
diga o nome "rosa".
1 188
Pablo Neruda
Prólogo - Tendes Que Ouvir-Me
Eu fui cantando errante,
entre as uvas
da Europa e
sob o vento,
sob o vento na Ásia.
O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.
O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.
Pareciam os homens
inimigos,
mas a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
que os despertava:
a claridade do mundo.
Eu entrei nas casas quando
comiam na mesa,
vinham das fábricas,
riam ou choravam.
Todos eram iguais.
Todos tinham olhos
para a luz, buscavam
os caminhos.
Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.
Todos.
Por isso
eu busquei entre as uvas
e o vento
o melhor dos homens.
Agora tendes de ouvir-me.
entre as uvas
da Europa e
sob o vento,
sob o vento na Ásia.
O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.
O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.
Pareciam os homens
inimigos,
mas a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
que os despertava:
a claridade do mundo.
Eu entrei nas casas quando
comiam na mesa,
vinham das fábricas,
riam ou choravam.
Todos eram iguais.
Todos tinham olhos
para a luz, buscavam
os caminhos.
Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.
Todos.
Por isso
eu busquei entre as uvas
e o vento
o melhor dos homens.
Agora tendes de ouvir-me.
1 170
Ona Gaia
Quando a alma
Quando a alma
parece despedir-se
e o corpo ficar
no centro do mundo
tudo gira e passa
tudo é circular
e nada sai do lugar.
O que haverá de fazer-se
quando a razão é dúvida
e a emoção é turva ?
Para além das mil besteiras
que povoam cada instante
( infinito )
da perplexidade,
a ação é ativa.
A Era celerada
- os egos cotidianos
só entram pelo cano -
e o eterno tempo
desenham nuvens ao vento!
parece despedir-se
e o corpo ficar
no centro do mundo
tudo gira e passa
tudo é circular
e nada sai do lugar.
O que haverá de fazer-se
quando a razão é dúvida
e a emoção é turva ?
Para além das mil besteiras
que povoam cada instante
( infinito )
da perplexidade,
a ação é ativa.
A Era celerada
- os egos cotidianos
só entram pelo cano -
e o eterno tempo
desenham nuvens ao vento!
813
Pablo Neruda
Os amantes de Capri
A ilha sustenta em seu centro a alma como uma moeda
que o tempo e o vento limparam deixando-a pura
como amêndoa intacta e agreste cortada na pele da safira
e ali nosso amor foi a torre invisível que treme na fumaça,
o orbe vazio deteve sua cauda estrelada e a rede com os peixes do céu
porque os amantes de Capri fecharam os olhos e um rouco relâmpago cravou no silvante circuito marinho
o medo que fugiu dessangrando-se e ferido de morte
como a ameaça de um peixe espantoso por súbito arpão derrotado:
e depois no mel oceânico navega a estátua de proa,
nua, enlaçada pelo incitante ciclone masculino.
que o tempo e o vento limparam deixando-a pura
como amêndoa intacta e agreste cortada na pele da safira
e ali nosso amor foi a torre invisível que treme na fumaça,
o orbe vazio deteve sua cauda estrelada e a rede com os peixes do céu
porque os amantes de Capri fecharam os olhos e um rouco relâmpago cravou no silvante circuito marinho
o medo que fugiu dessangrando-se e ferido de morte
como a ameaça de um peixe espantoso por súbito arpão derrotado:
e depois no mel oceânico navega a estátua de proa,
nua, enlaçada pelo incitante ciclone masculino.
1 167
Natércia Freire
O Rosto que não tem Rosto
Eu tinha uns olhos de neve
no tempo do vendaval;
sob os olhos, flores geladas;
por sobre o espelho tremente
finas bagas de cristal.
O tempo do vendaval
governa ainda os meus dias.
E um arrais de neves frias
põe cansaços de metal
nas doces melancolias.
Nas noites de lume fosco
sobre a água corredia,
um rosto que não tem rosto
e que se esfuma no dia
preside ao branco cenário
de uma única harmonia ...
Vendaval de mãos tão frias:
deslaça-me estes cabelos,
abre-me os braços sem elos,
faz de mim águas sombrias,
sem canto de rouxinóis
nem folhagem protetora,
nem melodias de aurora,
nem mansos beijos de sóis.
Inunda-me estes ouvidos
de raízes muito velhas;
põe longe as festas vermelhas
que eu tive nos meus sentidos,
e de uma vez para sempre
livra-me toda de mim.
no tempo do vendaval;
sob os olhos, flores geladas;
por sobre o espelho tremente
finas bagas de cristal.
O tempo do vendaval
governa ainda os meus dias.
E um arrais de neves frias
põe cansaços de metal
nas doces melancolias.
Nas noites de lume fosco
sobre a água corredia,
um rosto que não tem rosto
e que se esfuma no dia
preside ao branco cenário
de uma única harmonia ...
Vendaval de mãos tão frias:
deslaça-me estes cabelos,
abre-me os braços sem elos,
faz de mim águas sombrias,
sem canto de rouxinóis
nem folhagem protetora,
nem melodias de aurora,
nem mansos beijos de sóis.
Inunda-me estes ouvidos
de raízes muito velhas;
põe longe as festas vermelhas
que eu tive nos meus sentidos,
e de uma vez para sempre
livra-me toda de mim.
1 257
Carlinhos Brown
Frases Ventias
Teu beijo
Cata-vento
Que assobia
Frases ventias
Pra ti sem mim
Pelo portão que escorre a calmaria
Nos utensílios
Que a vi servir
Saladas em lavouras de agonia
Com ar de amor
Que mal dormia
Yá,yá
Como porção de arroz
Na água escura
Na desventura de ver o dia
Toda canção de amor
agora é tua
Põe o tecido
Que tu tecia
Arranca esse ardor
Que a moda surta
Carrega meu amor
Com pés de frutas
Cata-vento
Que assobia
Frases ventias
Pra ti sem mim
Pelo portão que escorre a calmaria
Nos utensílios
Que a vi servir
Saladas em lavouras de agonia
Com ar de amor
Que mal dormia
Yá,yá
Como porção de arroz
Na água escura
Na desventura de ver o dia
Toda canção de amor
agora é tua
Põe o tecido
Que tu tecia
Arranca esse ardor
Que a moda surta
Carrega meu amor
Com pés de frutas
1 853
Pablo Neruda
O Porto Porto
O porto porto de Valparaiso
mal vestido de terra
Contou-me: — não sabe navegar —
suporta a investida,
vendaval, terremoto,
onda marinha,
todas as forças batem
nos seus narizes rotos.
Valparaiso, cão pobre
ladrando pelos cerros,
os pés da terra
e as mãos do mar
lhe batem.
Porto porto que não pode sair
a seu destino aberto na distância
e uiva
sozinho
como um trem de inverno
para a solidão
para o mar implacável.
mal vestido de terra
Contou-me: — não sabe navegar —
suporta a investida,
vendaval, terremoto,
onda marinha,
todas as forças batem
nos seus narizes rotos.
Valparaiso, cão pobre
ladrando pelos cerros,
os pés da terra
e as mãos do mar
lhe batem.
Porto porto que não pode sair
a seu destino aberto na distância
e uiva
sozinho
como um trem de inverno
para a solidão
para o mar implacável.
1 224
Pablo Neruda
XVII - A ilha
Oh torre da luz, triste formosura
que dilatou no mar estátuas e colares,
olho calcário, insígnia da água extensa, grito
de albatroz enlutado, dente do mar, esposa
do vento oceânico, oh rosa separada
do tronco do rosal despedaçado
que a profundidade converteu em arquipélago,
oh estrela natural, diadema verde,
só em tua solitária dinastia,
inatingível ainda, evasiva, deserta
como uma gota, como uma uva, como o mar.
que dilatou no mar estátuas e colares,
olho calcário, insígnia da água extensa, grito
de albatroz enlutado, dente do mar, esposa
do vento oceânico, oh rosa separada
do tronco do rosal despedaçado
que a profundidade converteu em arquipélago,
oh estrela natural, diadema verde,
só em tua solitária dinastia,
inatingível ainda, evasiva, deserta
como uma gota, como uma uva, como o mar.
1 014
Carlos Nóbrega
O Mar
Oh grande falta de sombra
incendiada
Azul que arde.
Só sal e
vento e sol e
coisa infinda.
Eterna tarde.
incendiada
Azul que arde.
Só sal e
vento e sol e
coisa infinda.
Eterna tarde.
605
Yu Xuanji
Para Feiqing em uma noite de inverno
Baixa poema invoco-te à luz da lanterna
à noite insone renego o frio das cobertas
Folhas ocupam o pátio como ao vento a dor
Entre as cortinas em gaze a lua declina
Triste a seguir a estrada uma estranha até o fim
em florescer e murchar conhece-se a flor
mesmo desconhecido seu pouso entre os plátanos
Encerra a tarde um arco os pardais em alarde
1 010
Mafalda Veiga
Por todo este mundo
Saiu à rua, indiferente
Seguiu pra longe
Longe do olhar de toda a gente
Na luz intacta da madrugada
Seguiu sem norte e sem estrada
Descalça na terra molhada
Despiu o corpo e o pensamento
Seguiu o vento
Esqueceu a mágoa de acabar
E o tempo perdeu-se do tempo
E o chão raso fez-se mar
No mundo que somos por dentro
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir
Segui o rasto do calor
Na areia quente
O sol doía como o fogo
Incendiou a cor do dia
Levou no corpo a ventania
E um beijo roubado do amor
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir.
Seguiu pra longe
Longe do olhar de toda a gente
Na luz intacta da madrugada
Seguiu sem norte e sem estrada
Descalça na terra molhada
Despiu o corpo e o pensamento
Seguiu o vento
Esqueceu a mágoa de acabar
E o tempo perdeu-se do tempo
E o chão raso fez-se mar
No mundo que somos por dentro
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir
Segui o rasto do calor
Na areia quente
O sol doía como o fogo
Incendiou a cor do dia
Levou no corpo a ventania
E um beijo roubado do amor
Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir.
1 086
Lalla Romano
Se é verdade que o gelo
Se é verdade que o gelo
suplantará o tímido calor
de nossas mãos agarradas
e que outro destino não teremos
na terra banhada da chuva
das folhas do outono
é certo então que ao pó retornam os mundos
As eras se abaterão sem rumor
como castelos de cinzas
sobre a lareira que já ninguém toca
na casa desabitada
só o vento fará gemer as portas
até que apodreçam sob o céu
quando até mesmo o teto tenha desabado
Eis tudo o que restará da casa
e do Eterno se dirá o Ausente
:
Se è vero che il gelo
soppianterà il timido calore
delle nostre mani avvinte
e noi non avremo altra sorte
nella terra bagnata dalla pioggia
delle foglie d'autunno
è vero che andranno in polvere i mondi
Le ere franeranno senza rumore
come castelli di cenere
sul focolare che nessuno smuove
nella casa disabitata
solo il vento farà gemere le porte
finchè imputridiranno sotto il cielo
quando anche il tetto si sarà scoperchiato
Questo e non altro rimarrà della casa
e l'Eterno sarà detto l'Assente
suplantará o tímido calor
de nossas mãos agarradas
e que outro destino não teremos
na terra banhada da chuva
das folhas do outono
é certo então que ao pó retornam os mundos
As eras se abaterão sem rumor
como castelos de cinzas
sobre a lareira que já ninguém toca
na casa desabitada
só o vento fará gemer as portas
até que apodreçam sob o céu
quando até mesmo o teto tenha desabado
Eis tudo o que restará da casa
e do Eterno se dirá o Ausente
:
Se è vero che il gelo
soppianterà il timido calore
delle nostre mani avvinte
e noi non avremo altra sorte
nella terra bagnata dalla pioggia
delle foglie d'autunno
è vero che andranno in polvere i mondi
Le ere franeranno senza rumore
come castelli di cenere
sul focolare che nessuno smuove
nella casa disabitata
solo il vento farà gemere le porte
finchè imputridiranno sotto il cielo
quando anche il tetto si sarà scoperchiato
Questo e non altro rimarrà della casa
e l'Eterno sarà detto l'Assente
848
Mafalda Veiga
Restolho
geme o restolho triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário
geme o restolho preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem côr e sem vontade
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa é enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário
geme o restolho preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem côr e sem vontade
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa é enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
2 323
Péricles Eugênio da Silva Ramos
Prenúncio
1
Passa o vento,
as folhas tremem:
a sombra se inquieta.
2
Do topo dos ipês
cai a sombra:
rendada, sonhadora, espiritual.
O sol, os ipês, a sombra;
o tempo, o homem, sua sombra:
breve passagem pela terra,
e a grande sombra,
constelar, definitiva, irmã das pedras.
In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
Passa o vento,
as folhas tremem:
a sombra se inquieta.
2
Do topo dos ipês
cai a sombra:
rendada, sonhadora, espiritual.
O sol, os ipês, a sombra;
o tempo, o homem, sua sombra:
breve passagem pela terra,
e a grande sombra,
constelar, definitiva, irmã das pedras.
In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
1 089