Poemas neste tema

Vento e Ar

Grazia Deledda

Grazia Deledda

Nós somos sardos

Somos espanhóis, africanos, fenícios, cartagineses,
romanos, árabes, pisanos, bizantinos, piemonteses.
Somos as giestas de ouro amarelo que pendem nas trilhas rochosas
como grandes lâmpadas acesas.
Somos a solidão selvagem, o silêncio imenso e profundo
o esplendor do céu, a branca flor do cisto.
Somos o domínio ininterrupto do lentisco,
das ondas que escorrem os granitos antigos, da rosa selvagem,
do vento, da imensidão do mar.
Somos uma terra antiga de longos silêncios,
de horizontes vastos e puros, de plantas sombrias,
de montanhas queimadas pelo sol e pela vendetta.
Nós somos sardos.
690
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Vidas No Lixo

o vento sopra forte esta noite
e é um vento frio
e eu fico pensando nos
garotos na rua.
espero que alguns tenham uma garrafa
de tinto.

é quando você está na rua
que percebe que
tudo
tem dono
e que há fechaduras em
tudo.
é assim que uma democracia
funciona:
você obtém o que puder,
tenta manter o que obteve
e acrescenta algo
se possível.

é assim que uma ditadura
funciona também
só que ela ou escraviza ou
destrói seus
desamparados.

nós simplesmente esquecemos
os nossos.

nos dois casos
é um vento
forte
e frio.
1 472
Nálu Nogueira

Nálu Nogueira

A pele e o vento

Quando a madrugada vem
e o Vento sopra
a pele em poesia desabrocha
dizendo nua os versos de
arrepios.

E se o Vento sopra sussurrante
como uma brisa morna estremecendo
os pêlos
a Pele, que é poesia,
mergulha em desvarios
e canta para a lua seus versos
de delírios
e espera suplicante o toque
redentor.

(até que o vento, em sopros
de amor
se deita sobre a Pele
e suas mãos segura.)

então a Pele, agora em loucura
sente os cabelos longos do Vento
lhe fazerem cócegas; ouve os
sussurros do Vento em suas costas
sente sobre si o peso do desejo

e cândida, rende-se;
lânguida, deita-se;
ávida, molha-se;

sente nas costas o peso
do Vento
e treme;
agita-se;
inunda-se;
e sonha;

tem dentro de si o corpo
do Vento
e tranca-se;
e move-se;
e geme;
e goza
(grávida, imensa, grata, plena);

quando a madrugada vem
e o Vento sopra
a Pele em poesia desabrocha
e a vida inteira fica
diferente.

2 520
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Luar

O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma.
1 403
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

49. Oscila — E Eis a Palavra — E É Uma Palavra

49
Oscila — e eis a palavra — e é uma palavra
da boca ávida e vértebra ou plátano
preenche o ar unânime do lugar
da boca e suas unhas singulares.

Pelo quarto onde as ondas batem
é um verso de mulher um olhar de
mulher que pela janela irriga
as vértebras do vento e da linguagem.

Exausto cresce oscila ao olhar a imagem
de uma linguagem do livro da linguagem
sob os golpes desferidos pelo martelo do ar.
923
Francisco José Rodrigues

Francisco José Rodrigues

Amarugens

Trazem as ondas amarugens fortes
Que banham o meu corpo já amargo;
Trazem as ondas amarugens tais
Que se unem mais às amarugens minhas.

Por certo, de ondas faz-se a vida toda
E de amarugens duplamente vindas
Da própria vida e das origens nossas...
Por certo, de ondas faz-se a vida e o tempo.

São ondas que se quebram, ondas fortes
Quem em sal se exaurem ou na branca escuma
Que o vento arrasta em sua boca enorme.

Trazem as ondas amarugens, só.
Por certo, de ondas faz-se a vida toda
— Ondas tão fortes mas que em sal se exaurem!

958
Fernanda dos Santos

Fernanda dos Santos

A menina e a Brisa

Um sopro vem
vem mansinho
devagarinho ;
Um vento vem ,
vem ligeiro ,
faceiro .

O primeiro :
- calor ( de amor )
O segundo :
- vapor ( de tempo a girar nos ponteiros )

E respira a
acetinada pele da nuca .
E sacode ,
confunde os fios que escorrem
suave .

Ela não se move .
O sopro e o vento
se misturam e
a sensação engrandece ,
pele enrubresce ,
e a muda telepática
de tocar róseos úmidos
é concebido .

Um segundo
uma brisa .

Uma pulsação
de início .

877
Flávio Villa-Lobos

Flávio Villa-Lobos

À Espreita

Inventar uma lua cheia
que ilumine teu caminho
parece ser minha saga,
meu inevitável destino.

Aprisionar a furiosa ventania
que ameaça teus cabelos
parece ser minha magia,
minha força na ponta dos dedos.

Dobrar a copa das árvores
e na tempestade
proteger-te das águas
parece ser minha sina,
meu cuidado extremo.

Impedir o sol forte
de banhar-te
a pele maravilhosa
parece ser minha derradeira
metamorfose:
transmutar-me em espessa
nuvem negra
e filtrar os raios
do ardente mormaço.

Parece ser minha ventura
acompanhar-te,
viver à sombra de teus passos
e quando exausta chegares
ao fim da longa e inútil
jornada,
de braços abertos
esperar-te.

857
Geir Campos

Geir Campos

Fogueira

Os gnomos do bosque desabotoam
as toscas pelerines de cortiça
forradas com cetim púrpura e ouro:
o mais sanguíneo deles inaugura
um inferno menor, e todos dançam,
enquanto as labaredas tremem como
mãos de noivas sem tálamo, acenando
para o vento cantor que as chora ausentes
— e também chora, nas árvores altas,
a mágoa obscura de não serem flautas.

1 137
Geir Campos

Geir Campos

Haicai

Vento da manhã
varre as folhas pelo chão
do dia que nasce.

Olhos de afogado:
são de ver coisas terríveis
no fundo do mar.

1 283
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

O essencial é ter o vento

O essencial é ter o vento.
Compra-o; compra-o depressa,
A qualquer preço.
Dá por ele um princípio, uma ideia,
Uma dúzia ou mesmo dúzia e meia
Dos teus melhores amigos, mas compra-o.
Outros, menos sagazes
E mais convencionais,
Te dirão que o preciso, o urgente,
É ser o jogador mais influente
Dum trust de petróleo ou de carvão.
Eu não:
O essencial é ter o vento.
E agora que o Outono se insinua
No cadáver das folhas
Que atapeta a rua
E o grande vento afina a voz
Para requiem do Verão,
A baixa é certa.
Compra-o; mas compra-o todo,
De modo
Que não fique sopro ou brisa
Nas mãos de um concorrente
Incompetente.

1 486
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Sombra do Vento

A sombra do vento

a sombra e o vento

para respirar

no vento     na sombra
549
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nudez de Frase

Nudez de frase

branca

na cor do vento
575
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Tronco a Corda Branca

O tronco     a corda branca

e alta

na boca

ao vento
1 064
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Raízes do Sono

As raízes do sono

e da terra

sob o vento do sono
1 226
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Ar

O ar

um sulco

os dedos

o círculo de água     ou cal
1 092
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Ar Passa

O ar                 passa

a t r a v é s d a s p a l a v r a s
523
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Vento Sopra Sobre As Ervas

O vento sopra sobre as ervas

e os cabelos

sopra

sobre as ervas

as árvores     os cabelos
1 089
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

É Quase Um Rosto

É quase     um rosto

no vento

é o rosto no vento
526
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Água E o Vento

A água e o vento

palavras vivas

a água     o vento
526
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Movimento do Repouso

O movimento do repouso
a trama do sol sem figura
o vento ou o sol
ou talvez
o sopro do sol
um sopro quente perdido
tão rápido no silêncio sob as árvores
1 168
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Será Viva Entre Acidentes

Será viva entre acidentes
demolida
a móvel coluna imperceptível
que estaca e se dobra na retina

Um novo furor na espessura cálida
abre-se ao vento e o vento
desnuda investe     a água nua
de uma figura incerta principia

Posso dizer terra fogo ou pedra
porque o limiar está limpo
e a limpidez do ar se afirma
nas sílabas
e na nudez obscura desta página
1 046
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ei-La Despida Ou

Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada

A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde

O vento é a inteligência libertada

E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
1 025
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Superfície da Água Móvel

A superfície da água móvel
agita as nuvens
a claridade é urgente
para a linha única a marca
branca

O que germina na espessura
oscila em mil percursos
Os juncos seguem os meandros da água subterrânea
o ar move-se dança sobre a areia
As palavras dizem o que diz o ar
1 100