Poemas neste tema

Velhice e Envelhecimento

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Agora

abundante; arranque o rótulo;
as grandes armas foram
baixadas.
nada a fazer agora senão
sentar no sol
e refletir sobre como você veio
do passado para o
presente.
agora você sabe... o quê? que
não havia nada de tão especial
em você
afinal de contas.
você ficava se metendo em brigas
que não lhe diziam
respeito, você dava um passo
maior do que a perna.
você deveria ter relaxado
mais.
você absorveu demais e te
queimaram –
bebida demais, mulheres demais,
livros demais.
não tinha tanta importância assim.
agora você vê os minutos que te sobem correndo
pelos braços.
você ouve os cães latindo.
você está cansado o bastante para ouvir
agora.
você é um velho numa cadeira
num pátio
no mundo.
uma folha cai na sua barriga branca
e isso é tudo que
existe.
1 107
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Encurralado

bem, disseram que acabaria
assim: velho. talento esgotado. sem encontrar a
palavra

ouvindo os passos
escuros, eu me viro
olho para trás...

ainda não, cão velho...
muito em breve.

agora
eles se reúnem falando de
mim: “sim, aconteceu, ele
já era... é
triste...”

“ele nunca foi grande coisa,
foi?”

“bem, não, mas agora...”

agora
eles estão comemorando a minha queda
em tabernas que já não
frequento.

agora
eu bebo sozinho
nesta máquina
defeituosa

enquanto as sombras assumem
formas

eu luto na lenta
retirada

agora
minha promessa de outrora
definhando
definhando

agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas

foi uma belíssima
luta

ainda
é.
1 272
Adélia Prado

Adélia Prado

O Holocausto

Uns calores no corpo inauguraram-se,
há avisos de que um ciclo se fecha
sobre o que em mim nunca mais
será rosa ou cetim.
No entanto, entre flores dessecadas
e fotografias — hoje tornadas risíveis —
perduram inalterados
cardumezinhos, corolas,
hastes dançando à viração da tarde.
Como é possível peixes tão pequeninos
e este amarelo, o amarelo?
Os peixinhos ficam na água e não se afogam!
Tomai minha vida, ainda direi a Deus
pra lhe provar minha alegria.
Hoje quero rir desta invenção engraçada:
“uma carroça cheia de diabos”.
Carroças são pacíficas
e a tais diabos gritos afugentam.
Na raiz da tristeza este anticorpo:
o que quer que seja o amarelo,
dele é feita minha alma e sua felicidade,
a beleza do mundo e a alma de Cristo.
1 239
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Pobre Noite

acho que estou no primeiro
período a seco da minha vida.
chegando aos 62
a gente teme a senilidade e
um fim
para a sorte.
bebo devagar
dois grandes copos de vinho
e encaro
a página em branco.
sempre veio com tamanha
facilidade.
sempre dei risada dos
escritores que proclamavam que
a criação era
dolorosa.
mudo de estação
no rádio, sirvo-me de
mais vinho.
"papai", ela abre a
porta, "você tem
fósforos?"
"com certeza", eu digo e
lhe passo uns
livros.
ela sai.
Henry Miller está morto.
Saroyan. Jeffers.
Nelson Algren.
Todos eles já estão mortos
há um bom tempo.
"papai", ela volta,
"esta caneta que estou usando é
horrível. você tem alguma
outra caneta?"
"com certeza", eu digo e
lhe passo uma caneta
boa.
"há fumaça demais
nesta sala!"
ela abre a janela.
"você devia deixar um pouco
dessa fumaça sair!"
"você tem razão",
eu digo.
ela sai
e eu gosto da sua
preocupação.
mas então eu estou só
com minha página em branco
outra vez.
a) então
escrevi tudo isso para
preencher o espaço
em branco.
b) então chegou a decisão
de rasgar tudo ou
guardar.
c) será que
fiz
a coisa certa?
1 049
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Idade

a decência de suar em uma cadeira de balanço
está reservada aos velhos generais ou aos antigos
estadistas enquanto as tardes florescem com
garotinhas que não têm nada a fazer a não ser rir
e passar por perto.
para mim
quando os dedos forem embora o cérebro terá ido embora.
não haverá mais nada para erguer o
copo e eu ficarei por aí pensando em
camisolas brancas e piranhas
e blocos de noite com ratos no lugar dos olhos.
quando os dedos falharem no copo eu terei
falhado
e a alma
em um velho saco de papel marrom
dirá adeus
assim como as sebes dizem adeus
assim como os canhões parados nos parques perguntando-se o que
vem aí.
667
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Dia Maldito

nos velhos tempos
após as corridas eu costumava terminar com uma
amarela alta ou uma branca louca em algum quarto
de motel
mas agora estou com 70 e tenho que levantar quatro vezes
toda noite para mijar
e quase que a única coisa a me preocupar é
o tráfego nas vias expressas.
hoje eu perdi $810,00 nas corridas e quando
tentei entrar na via expressa um
tipo em um Camaro vermelho quase me jogou
fora da estrada (automóveis vermelhos sempre
me aborreceram) então me mandei atrás dele e dirigimos lado a lado.
dando uma olhada nele vi que era um cara magro
que parecia com um contador, então baixei
minha janela e berrei para ele enquanto
buzinava, informando-o de que ele era um pedaço de
merda subnormal mas ele só continuou a olhar
para a frente por isso pisei fundo e o deixei para
trás e meu pensamento seguinte foi, será que
devo contar isso à minha mulher?
e então rapidamente uma voz de algum lugar
respondeu, não seja trouxa, meu chapa, ela
só vai tornar isso uma piada sem graça.
"oh, hahaha! ele provavelmente nem viu
que você estava lá!"
se um homem vive por 70 anos ele aprende
duas ou três coisas - a primeira sendo: não faça confidências
desnecessárias
para sua mulher.
a segunda sendo: outros podem às vezes
entendê-lo mas
ninguém o entenderá
melhor que sua
mulher.
635
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Especial De 1990

gasto pelos anos
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
1 118
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Cavalo 7

dois velhos atrás de mim estão conversando.
"olhe o cavalo 7. dá pule de 35.
como é que pode, pule de 35?"
"é, para mim também parece bom", diz
o outro velho.
"vamos apostar nele."
eles se levantam para fazer as apostas.
já apostei 40 na ponta
no segundo favorito.
ganho a cada quatro de cinco dias na
pista de corridas. não parece ser
um problema.
abro meu jornal, leio o caderno de
finanças, fico deprimido, mudo para a primeira
página procurando roubo, estupro, assassinato.
os dois velhos voltam.
"olha, o cavalo 7 agora dá pule de 40",
diz um deles.
"não acredito!", diz o
outro.
os cavalos vão para a partida, a
bandeira se ergue, eles
saem.
é uma milha e 1/16 avos, eles
dão a primeira volta, correm pela reta,
dão a última volta, seguem pela reta final,
alcançam a chegada.
o 20 favorito ganha por uma cabeça, paga
$7,80. eu ganho $116,00.
há silêncio atrás de mim.
então um dos velhos diz, "o cavalo 7
não correu nada".
"nada", diz o outro. "não consigo entender
isso."
"vai ver o jóquei nem tentou", diz
seu amigo.
"deve ser isso", diz
o outro.
como a maioria dos outros do mundo
eles acreditam que o fracasso
é causado por algum fator
para além deles.
observo os dois velhos enquanto eles
se debruçam sobre o boletim das corridas
para fazer uma seleção no
próximo páreo.
"ih, olha essa!", diz um deles.
"tem Red Rabbit com 10 para 1
na lista. ele parece melhor
que o favorito."
"vamos apostar nele", diz o outro
velho.
eles deixam seus lugares e se movem delicadamente até o
guichê de apostas.
628
Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Lavoura

As minhas mãos

já foram robustas

já plantaram

sementes de milho

nas terras dos filisteus

hoje só semeiam

as lavouras do adeus.

2 260
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

LIII Ó montes altos

Ó montes altos, vales abatidos,
Verdes ribeiras de correntes rios,
Ora por baixo de bosques sombrios,
Ora por largos campos estendidos;

Onde mais claro vejo repetidos
Meus mal considerados desvarios
De pensamentos vãos, baixos e frios,
Emendados tão mal, quão mal sentidos.

Passei a mocidade sem proveito,
Antes contra meu Deos acrescentando
Culpas a quantas culpas tenho feito;

Cuja pena a velhice está pejando
Para passar da morte o passo estreito,
Se não se no seu sangue for nadando.
599
Frei Agostinho da Cruz

Frei Agostinho da Cruz

LI À morte

Os correos da morte são chegados,
Por caminhos antigos, impedidos,
Mal com meus olhos, mal com meus ouvidos,
Mal com meus pés, do chão mal levantados.

E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco, meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossivel será serem contados.

Se não viera a morte acompanhada
Da conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.

Mas a que vivo ou morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.
735
José Paulo Paes

José Paulo Paes

Canção do adolescente

Se mais bem olhardes
notareis que as rugas
umas são postiças
outras literárias.
Notareis ainda
o que mais escondo:
a descontinuidade
do meu corpo híbrido.

Quando corto a rua
para me ocultar
as mulheres riem
(sempre tão agudas!)
do meu corpo.

Que força macabra
misturou pedaços
de criança e homem
para me criar?

Se quereis salvar-me
desta anatomia,
batizai-me depressa
com as inefáveis
as assustadoras
águas do mundo.
1 609
Flávio Sátiro Fernandes

Flávio Sátiro Fernandes

Ode aos noventanos

Ao meu pai,
nos seus noventa anos.

O tempo é rio
por onde flui o existir.

A energia
que podia se extinguir
renasce,
tocada pelas asas
das borboletas que,
na manhã clara,
se libertam
do capulho alvinitente
do algodoal.

No mimetismo geográfico,
a compreensão dos mistérios
que a alma revolve
no seu dia-a-dia.

Viver é o desafio.
A casa é o desafio.
O pão é o desafio.
Andar é o desafio.
Ver é o desafio.
Ouvir é o desafio.

Vida de vaidade despojada.
Verdade em aço forjada.

835
Flávio Sátiro Fernandes

Flávio Sátiro Fernandes

O Ponto de Cem Réis

O Ponto de Cem Réis
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.

Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...

O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.

Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.

O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.

786
Jaime Gil de Biedma

Jaime Gil de Biedma

Contra Jaime Gil de Biedma

Que adianta, gostaria de saber, mudar de casa,
deixar para trás uma cave mais negra
que a minha fama – e já é dizer muito –,
por cortinas brancas
e arranjar criada,
renunciar à vida de boémio,
se vens tu depois, calaceiro,
embaraçoso hóspede, pateta vestido com meus fatos,
zangão de colmeia, inútil, néscio,
com tuas mãos lavadas,
sujar-me a casa e comer no meu prato?

Acompanham-te os balcões dos bares
derradeiros da noite, os chulos, as floristas,
as ruas mortas da alvorada
e os ascensores de luz amarelenta
quando, bêbado, chegas
e páras a olhar no espelho
a cara destruída,
com olhos ainda violentos
que não queres fechar. E se te increpo,
ris-te, recordas-me o passado
e dizes que envelheço.

Poderia lembrar-te que já não tens graça.
Que teu estilo casual, teu desenfado
chegam a ser truculentos
quando se tem mais de trinta anos,
e o teu encantador
sorriso de jovem sonolento
– certo de agradar – é um resto pungente,
um propósito patético.
Enquanto me fitas com teus olhos
de verdadeiro órfão, e choras
e me prometes que não o fazes mais.

Se não fosses tão puta!
E se eu não soubesse, há algum tempo,
que és forte quando sou débil
e que és débil quando me enfureço...
De teus regressos guardo uma impressão confusa
de pânico, pena e descontentamento,
e o desespero
e a impaciência e o ressentimento
de voltar a sofrer, outra vez mais,
a humilhação imperdoável
da excessiva intimidade.

Com muito custo, levar-te-ei pra cama,
como quem vai ao inferno
para dormir contigo.
Morrendo a cada passo de impotência,
tropeçando nos móveis,
às cegas, atravessamos o andar
torpemente abraçados, vacilando
de álcool e soluços reprimidos.
Oh ignóbil servidão de amar seres humanos,
e a mais ignóbil
que é amar-se a si próprio!

(de Poemas Póstumos)

1 592
Moacy Cirne

Moacy Cirne

Poema final

o homem só,
velho e cansado,
olha para a frente
e nada vê.
olha para os lados
e nada vê.
olha para o fim do mundo
e nada vê.
entre
o espanto dos suicidas
e
o silêncio dos desamados,
o homem cansado,
velho e só,
olha para o poema
e nada vê.
será
que os sinos
dobrarão por ele?
1 350
Adrienne Rich

Adrienne Rich

Instantâneos de Uma Nora

1.
Você, uma vez a bela de Shreveport,
cabelos tingidos de hena, a pele como pêssego,
ainda manda fazer vestidos como os que se usavam então,
e toca um prelúdio de Chopin
chamado por Cortot: “Deliciosas reminiscências
flutuam como perfume pela memória”.
Sua mente agora, mofando como bolo de casamento,
pesada de experiências inúteis, pródiga
em suspeitas, rumores, fantasias,
desmoronando sob o fio
do mero fato. Na primavera da vida.
Inquieta, o olhar faiscante, sua filha
limpa as colheres de chá, cresce para outro lado.
2.
Dando com a cafeteira na pia
ela escuta o reproche dos anjos, e fita
o céu desgrenhado para além de jardins impecáveis.
Não faz mais de uma semana desde que disseram:Não tenha paciência.
Da próxima foi: Seja insaciável.
E depois:Salve-se. Aos demais, não poderá salvar.
Por vezes tem deixado a água da torneira lhe escaldar o braço,
um fósforo queimar-lhe a unha do dedão,
ou posto a mão sobre a chaleira
bem na lã do vapor. São provavelmente anjos
posto que já nada a magoa, excetuando
a areia de cada manhã indo de encontro aos olhos.
3.
Uma mulher pensante dorme com monstros.
O bico que a agarra, ela se torna. E a Natureza,
este ainda cômodo, destampado baú
cheio detempora e mores
enche-se de tudo:…………… as flores de laranjeira cobertas de orvalho,
os contraceptivos, os terríveis seios
de Boadiceia sob orquídeas e cabeças chatas de raposa.
Duas belas mulheres, trancadas em discussão,
ambas orgulhosas, argutas, sutis, ouço que gritam
por sobre a maiólica e os cacos de vidro
como Fúrias encurraladas para longe de suas presas:
A discussãoad feminam, todos os velhos punhais
que enferrujaram em minhas costas, o seu adentro
ma semblable, ma soeur!
IV.
Conhecendo-se bem demais uma na outra
seus dons sem puro desfrute, mas espinhos
a agulha afiada contra uma ponta de escárnio…
Lendo enquanto espera
aquecer o ferro,
escrevendo,Minha vida – encostada pelos cantos
naquela despensa em Amherst enquanto as geleias fervem e escumam,
ou, com maior frequência,
de olhos fitos e embicada e obstinada como uma ave,
tirando poeira a todo o triquetraque da vida cotidiana.
5.
Dulce ridens, dulce loquens
ela depila as pernas até brilharem
como petrificadas presas de mamute.
6.
Quando canta Corina a seu alaúde
não são dela nem letra nem música;
somente os longos cabelos descaindo-se
sobre a bochecha, somente a canção
da seda contra os joelhos,
e mesmo estes
ajustam-se nos reflexos de um olho.
Empertigada, trêmula e insatisfeita, ante
uma porta destrancada, a jaula das jaulas,
diga-nos, sua ave, sua trágica máquina –
será istofertilisante douleur? Esmagada
pelo amor, para ti a única reação natural,
estarás acirrada a ponto
de arrombar os segredos do cofre? a Natureza,
nora, mostrou-te enfim os livros de contabilidade
que seu próprio filho sempre ignorou?
7.
Ter neste incerto mundo alguma posição
inabalável é
da maior importância.
…………………………………….Assim escreveu
uma mulher, em parte boa e em parte audaz,
que lutou com o que não compreendia de todo.
Poucos homens a seu redor teriam feito mais,
portanto a rotularam puta, megera, engodo.
8.
Morreis todos aos quinze anos”, disse Diderot,
mudando-se metade em lenda, metade em convenção.
No entanto, olhos sonham equivocamente
por detrás de janelas fechadas, empastadas de vapor.
Deliciosamente, tudo o que poderíamos ter sido,
tudo o que fomos – fogo, lágrimas,
espírito, gosto, ambição martirizada –
agita-se como a lembrança do adultério recusado
o seio murcho e esvaziado de nossa “meia idade”.
9.
Não que se faça bem, mas
que se faça e ponto? Pois bem, pense
nas possibilidades! ou ignore-as para sempre.
Estes luxos da criança precoce,
a querida inválida do Tempo –
abdicaríamos, minhas caras, se nos fosse dado?
Nossa praga foi também nossa sinecura:
mero talento nos bastava –
brilho em rascunhos e fragmentos.
Não mais suspirem, minhas senhoras.
………………………………………………………..O tempo é macho
e em suas taças bebe ao belo.
Divertidas pelo galanteio, ouvimos
enquanto nos louvam as mediocridades,
indolência lida como abnegação,
desleixo lido como intuição refinada,
cada deslize perdoado, o único crime sendo
estampar uma sombra demasiado notável
ou sumariamente destruir o molde.
Para isso, a solitária,
o gás lacrimogênio, os estilhaços.
Poucas pleiteam este tipo de honra.
13.
……………………………………………………….Bom,
ela posterga sua chegada, que lhe deve parecer
tão pouco clemente quanto a própria história.
A mente cheia ao vento, vejo-a mergulhar
de seios e relanceando pelas correntezas,
tomando a luz sobre si,
pelo menos tão bela quanto qualquer menino
ou helicóptero,
…………………………………………..empertigada, chegando ainda,
suas finas hélices fazendo o ar recuar
mas sua carga
já nenhuma promessa:
entregue
palpável
nossa.
1958 – 1960
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
1 105
Orpingalik

Orpingalik

Meu fôlego

Esta é minha canção: canção poderosa.
Unaija-unaija.
Desde o outono deito-me aqui,
desamparado e doente,
como se fosse filho de mim mesmo.
Em angústia, desejaria que minha mulher
tivesse outra cabana,
outro homem por refúgio,
firme e seguro como o gelo do inverno.
Unaija-unaija.
E desejaria que minha mulher
encontrasse protetor melhor,
agora que me faltam as forças
para erguer-me da cama.
Unaija-unaija.
Você conhece a si mesmo?
Como você entende pouco de si!
Estirado e débil sobre meu banco,
minha única força está em minha memória.
Unaija-unaija.
Caça! Grande caça,
correndo adiante de mim,
permita-me reviver aquilo.
Deixe-me esquecer minha fraqueza
remembrando o passado.
Unaija-unaija.
Eu trago à memória aquele grande branco,
o urso polar,
aproximando-se com patas erguidas,
seu focinho na neve -
convencido, enquanto me atacava,
que entre nós dois
ele era o único macho.
Unaija-unaija.
Lançou-me ao solo repetidamente:
mas exausto por fim,
sentou-se sobre um banco de gelo,
e lá descansaria
insciente de que eu o terminaria.
Ele pensava ser o único macho em redor.
Mas eu estava ali,
Unaija-unaija.
Nem hei de esquecer o grande oleoso,
o leão-marinho que matei
em uma placa de gelo antes da aurora,
enquanto meus amigos em casa
deitavam-se como com os mortos,
frágeis com a fome,
famintos na má sorte.
Apressei-me para casa,
carregado de carne e óleo,
como se estivesse correndo sobre o gelo
em busca de uma fenda para respirar.
Era porém leão-marinho experiente
que me cheirara imediatamente -
mas antes que pudesse fugir
minha lança enterrava-se
em sua garganta.
É como foi.
Agora deito-me em meu banco,
doente demais para sequer
conseguir óleo para a lâmpada de minha mulher.
O tempo, o tempo mal parece passar,
mesmo que aurora siga aurora,
e a primavera aproxime-se da vila.
Unaija-unaija.
Quanto tempo mais devo deitar-me aqui?
Quanto tempo? Quanto tempo ela terá
que implorar por óleo para sua lâmpada,
peles de rena para seu corpo,
e carne para sua comida?
Eu, desastre débil:
ela, mulher indefesa.
Unaija-unaija.
Você conhece a si mesmo?
Como você entende pouco de si!
Aurora segue aurora,
e a primavera aproxima-se da vila.
Unaija-unaija.
.
.
.
809
Edith Sitwell

Edith Sitwell

CÂNTICO DE DIDO

O meu Sol da Morte é ao invés para as profundas
O que o Grande Sol Celeste é para as alturas
Em calor violento
Quando Sirius se vem deitar aos pés do Sol.
O meu Sol da Morte é só profundidade, o sol celeste
Altura só, e os ares do mundo inteiro jazem entre
Esses sóis
Agora apenas o Cão se senta ao pé do meu esquife
Em que jazo ardendo por meu coração. Os cinco cães dos sentidos
Já não mais caçam.
Após a conflagração do Estio
Da juventude, e seus violentos sóis,
As minhas veias da vida, que tão altas iam que os rios portentosos
de África e de Ásia só regatos pareciam,
Secaram, e o Tempo qual fogo
Aos ossos mudou em nódulos de rubis como os horizontes da luz;

Para lá dos Verões está a peónia em botão
Nas veias, e os grandes péans do sangue
O empório da rosa!
E todavia julguei meu leito de amor meu esquife o mais alto
Sol dos céus, a altura aonde Sirius arde,
E julguei-o depois Sol da Morte, e que nada havia de fundo
Abaixo... Mas agora sei
Que mesmo os cães de caça no coração e nos céus
Acabam por dormir.

1 190
Alfred Edward Housman

Alfred Edward Housman

SAY, LAD

Tens que fazer, meu rapaz?
Não tardes, que o tempo foge.
O trabalho a dois se faz?
Aqui me tens para hoje.

Manda por mim, que eu hei-de ir.
Por mim chama, que ouvirei.
Usa-me antes de eu partir
Pra onde não prestarei.

Antes que a carne envelheça,
E morta seja a vontade.
E o lábio já nem estremeça
Dizendo: - Rapaz, é tarde.

1 227
Washington Queiroz

Washington Queiroz

O Xamã e os Deuses

O xamã era um menino;
um menino que guardava
os deuses em um laço;
que criava estrelas,
que era jaguar e azul;
bebia fumaça
e a esparzia sobre a terra,
carinhosamente alisando-a.
Mas era bem velho o xamã:
o tempo - redomoinho de ancestrais -
vergava-o, fazendo-lhe rugas
e paciência,
para poder guardar
em seu laço os deuses
que, segundo ele me contara,
são todos meninos e meninas
como ele.

837
Al Berto

Al Berto

Vigílias

pernoito
no interior do corpo desarrumado
o medo invade o penumbroso corredor
descubro uma cintilação de água no estuque
uma cicatriz de cristais de bolor abre-se
porosa ao contacto dos dedos indica
que não haverá esquecimento ou brisa
para limpar o tempo imemorial da casa

deste simulado sono ficou-lhe o amargo iodo
as madeiras enceradas cobertas de poeira
ervas secas à chuva molhos de rosmaninho
junquilhos, bocas de lobo silenas, trevo
mas nenhuma fuga foi recomeçada
a infância permanece triste onde a abandonei
quase não vive
no entanto ouço-a respirar dentro de mim

agora tudo é diferente
recomeço a viver a partir do vazio
da treva dos dias em silêncio
por entre a pele e um feixe de magnificas veias
sinto o pássaro da velhice arrastando as asas

onde desenvolve o calmo voo lunar

enumero cuidadosamente os objectos, classifico-os
por tamanhos por texturas, por funções
quero deixar tudo arrumado quando a loucura vier
da extremidade aguçada do corpo alado
e o rosto for devassado por um estilhaço de asa

então a vida abater-se-á sobre a folha de papel
onde verso a verso
me ilumino e me desgasto.

6 273
Luiz Carlos Freitas

Luiz Carlos Freitas

Linda Mãe

Se entendesse tudo, e porque existe,
Teria, quem sabe, o dom de ser,
Alegre como a alma de alguém que insiste,
Em viver, setenta anos, para eu crer,
Consciente de que nem sempre te mereci,
Ter MÃE, é minha LINDA ainda viver !

A cansei, quando ainda pequenino,
Tive sorte ! Não tivestes só as meninas.
Teu sorriso, quando veio um , masculino,
Dependi tanto dessa, LINDA , heroína ,
Que ao impor seu instinto feminino,
Sem preferir, me fez, seu primeiro menino.

Se entendesse tudo, e porque existe,
Mesmo pequeno, não a faria, tanto sofrer,
Teria, quem sabe, o dom de ser,
Escolhido tendo de ti o que persiste,
Heroína prá setenta anos servir,
Sem nunca, um dos filhos preferir,
Te agradeço, LINDA, por nascer !

Luiz Carlos Freitas , 26 / 10 / 96

1 007
Mário Hélio

Mário Hélio

13-III(Quid Novi)

a velhice das plantas
acostumadas a serem o que são
sem perguntarem o que são?
quid novi?
o ovni que sobrevvvvou rapidamente a mente
da cidade sumiu depois com o vazio?
quid novi?
o velho sempre argumentar-se que há de novo?
a velha olhada no espelho
depois estilhaçado e volvido ao que era antes
de ser?
quid novi? a morte aditiva? a vida minutiva?
quid novi? a velocidade? a passivilidade? as idades
todas?
e depois de tantotempo perdido em procurar ven-
cer o tempo constatar que não há tempo nunca houve
quid novi?
a morte?
morremos todo dia e não percebemos
eu não sei porque nos preocupamos
tu não existes insistes
ecoas coas asas ásperas do nada
entretanto sentimorste presente
irreconhecível irrepreensível.
não falas com ninguém, te ouvimos.
quem dera fôssemos eli-
eli-
minando tudo
e não restasse morte
pra manchar ávida a vida.
quid novi?
nada há,
e passa a existir
ao se negar.

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