Poemas neste tema

Velhice e Envelhecimento

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Versos À Boca da Noite

Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva. . .
Uma aceitação maior de tudo,
e o medo de novas descobertas.

Escreverei sonetos de madureza?
Darei aos outros a ilusão de calma?
Serei sempre louco? sempre mentiroso?
Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo?

Há muito suspeitei o velho em mim.
Ainda criança, já me atormentava.
Hoje estou só. Nenhum menino salta
de minha vida, para restaurá-la.

Mas se eu pudesse recomeçar o dia!
Usar de novo minha adoração,
meu grito, minha fome. . . Vejo tudo
impossível e nítido, no espaço.

Lá onde não chegou minha ironia,
entre ídolos de rosto carregado,
ficaste, explicação de minha vida,
como os objetos perdidos na rua.

As experiências se multiplicaram:
viagens, furtos, altas solidões,
o desespero, agora cristal frio,
a melancolia, amada e repelida,

como essa indecisão entre dois mares,
entre duas mulheres, duas roupas.
Toda essa mão para fazer um gesto
que de tão frágil nunca se modela.

e fica inerte, zona de desejo
selada por arbustos agressivos.
(Um homem se contempla sem amor,
se despe sem qualquer curiosidade.)

Mas vêm o tempo e a idéia de passado
visitar-te na curva de um jardim.
Vem a recordação, e te penetra
dentro de um cinema, subitamente.

E as memórias escorrem do pescoço,
do paletó, da guerra, do arco-íris;
enroscam-se no sono e te perseguem,
à busca de pupila que as reflita.

E depois das memórias vem o tempo
trazer novo sortimento de memórias,
até que, fatigado, te recuses
e já não saibas se a vida é ou foi.

Esta casa, que miras de passagem,
estará no Acre? na Argentina? em ti?
que palavra escutaste, aonde, quando?
seria indiferente ou solidária?

Um pedaço de ti rompe a neblina,
voa talvez para a Bahia e deixa
outros pedaços, dissolvidos no atlas,
em País-do-riso e em tua ama preta.

Que confusão de coisas ao crepúsculo!
Que riqueza! sem préstimo, é verdade.
Bom seria captá-las e compô-las
num todo sábio, posto que sensível:

Uma ordem, uma luz, uma alegria
baixando sobre o peito despojado.
E já não era o furor dos vinte anos
nem a renúncia às coisas que elegeu,

mas a penetração no lenho dócil,
um mergulho em piscina, sem esforço,
um achado sem dor, uma fusão,
tal uma inteligência do universo

comprada em sal, em rugas e cabelo.
1 137
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Habilitação Para a Noite

Vai-me a vista assim baixando
ou a terra perde o lume?
Dos cem prismas de uma jóia,
quantos há que não presumo.

Entre perfumes rastreio
esse bafo de cozinha.
Outra noite vem descendo
com seu bico de rapina.

E não quero ser dobrado
nem por astros nem por deuses,
polícia estrita do nada.

Quero de mim a sentença
como, até o fim, o desgaste
de suportar o meu rosto.
1 384
Adélia Prado

Adélia Prado

Neurolinguística

Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.
1 519
Marcelo Gama

Marcelo Gama

A uma Velhinha

No dia de Natal

Boas festas, velhinha! Eu te dou boas festas,
nestes versos que faço à glória dessas cãs
lavadas pelo pranto, as tuas cãs honestas,
— lindo corado ao sol de trinta mil manhãs.

Consente que eu te beije as mãos mumificadas,
trêmulas de sentir o frio dos desenganos;
mãos secas, espetrais, tiritantes, cansadas
de tanto abençoar durante oitenta anos.

E tomem essas mãos — camélias fenecidas,
que ora o amor elevou, quais ramos de oliveira,
ora o ódio agitou, crispadas, contraídas —
os versos em que evoco a tua vida inteira.

Já no tempo em que os teus cabelos foram pretos
e se usavam bandós, e os toucavas de flores,
um poeta de então fizera-te uns sonetos.
onde muito falava em — olhos sonhadores!

Inda os sabes de cor! — Os netos que os confrontem
com os versos de agora... E pões-te a recitar...
Bons tempos!... E parece entanto que foi ontem...
Não te podes conter... e ficas a chorar...

Choras... Que a tua vida é uma flor em desfolhos...
Sonhavam, velam hoje os teus olhos tristonhos.
Os sonhos, noutro tempo, erravam nos teus olhos;
os teus olhos, agora, é que erram pelos sonhos...

(...)


Publicado no livro Via Sacra (1902).

In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.49-50

NOTA: Poema composto de 20 quadra
1 246
Adélia Prado

Adélia Prado

Mais Uma Vez

Não quero mais amar Jonathan.
Estou cansada deste amor sem mimos,
destinado a tornar-se um amor de velhos.
Oh! nunca falei assim —
um amor de velhos.
Ainda bem que é mentira.
Mesmo que Jonathan me olvide
e esta canção desafine
como um bolero ruim,
permaneço querendo a bicicleta holandesa
e mais tarde a cripta gótica
pra nossos ossos dormirem.
Ó Jonathan,
não depende de você
que a cornucópia invisível jorre ouro.
Nem de mim.
Quero enfear o poema
pra te lançar meu desprezo,
em vão.
Escreve-o quem me dita as palavras,
escreve-o por minha mão.
1 209
Mariana Ianelli

Mariana Ianelli

Diário

No teu
rosto me contaste
Todas as noites de suicídio interminadas
As juras de amar tua mãe (todas quebradas)
A reconciliação de ti contigo
Na recordação do vaso dando
Milhões de rosas ressequidas
No tempo ultrapassado
Em que resolveste retornar a tua casa.
No teu rosto me revelaste
Todos os montes que galgaras
Num desfile infantil de marcar passo
Revelaste todo fim de tardinha
Em que o gás da rua não te quis iluminar,
Vejo nas tuas olheiras
Como levaste tempo em abraçar
Teu próprio busto,
Revolvidos, contundentes, os teus braços,
Na amizade de ti contigo...
No teu rosto vi os sinais da vergonha
Por teres desejado um filho
Que engordasse tuas ancas,
Vi os indícios desaforados da velhice
E dos pecados menores,
Reconheci nos teus beiços fechados
O amor sofrido que tiveste a ti mesmo
E aos teus ímpetos de inspiração
Para amar a alguém mais.
No teu rosto a carga que há
Por não teres mostrado
Que quiseste um abraço
Da tua maior amiga,
A carga que há por te arrependeres
Do pacto irresponsável
De te casares com um homem,
Como numa folia desastrada.
No teu rosto me contaste o teu rosto,
Gaze de pele vestindo a tua caveira
E esse é hoje nosso melhor segredo,
Eu juro.

976
Adélia Prado

Adélia Prado

Salve Rainha

A melancolia ameaça.
Queria ficar alegre
sem precisar escrever,
sem pensar
que labor de abelhas
e voo de borboletas
precisam desse registro.
Chorando seus casamentos
vejo mulheres que conheci na infância
como crianças felizes.
A vida é assim, Senhor?
Desabam mesmo
pele do rosto e sonhos?
Não é o que anuncio
— já vejo o fim destas linhas,
isto é um poema, tem ritmo,
obedece à ordem mais alta
e parece me ignorar.
Me acontecem maus sonhos:
a casa só tem uma porta,
casa-prisão,
paredes altas, cômodos estreitos.
Chamo pelo homem, ele já se foi,
quem se volta é um negro,
indiferente.
A criança que se perdera,
ou deixei perder-se de mim,
é um menino-lobo,
eu a encontro grunhindo,
com um casal velho de negros.
Por que os negros de novo?
Por que este sonho?
Gasto minhas horas em pedir socorro,
esgotando-me, monja extramuros,
em produzir espaços de silêncio
para encontrar Tua voz.
É medo meu apregoado amor,
uma fita gravada, meu contentamento.
O primeiro santo do Brasil
invocou para um pobre:
“Post-partum, Virgo Inviolata permansisti.
Dei Genitrix, intercede pro nobis.”
Ó Virgem,
volte à minha alma a alegria,
também eu
estendo a mão a esta esmola.
1 197
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Amizades & Exílios

(Lembrando Ivan Otero)
Belo
vens caminhando pela praia.
De pronto, não te reconheço.
Tens os cabelos brancos
embora sejas belo e forte
como ontem
quando íamos ao colégio
e as colegas te amavam
e os colegas te invejavam
no teatro e nos esportes.
Trinta anos cortados de exílio
mulher, polícia e filhos. “Ah! o amor!
ah! o amor (nos confessamos)
nunca o entenderemos.”
Conferimos os fios de nossas brancas barbas
que derramam sabedoria
em ondas sobre a areia.
Não somos sequer dois sábios chineses
senão dois náufragos brasileiros
sobraçando destroços pessoais numa praia tropical.
1 057
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Maja Thurup

Houve ampla cobertura da imprensa e da televisão, e a senhora estava para escrever um livro sobre tudo isso. O nome da senhora era Hester Adams, duas vezes divorciada, dois filhos. Tinha 35 anos, e alguém poderia imaginar que essa seria sua última jogada. As rugas estavam aparecendo, os peitos estavam caindo já há algum tempo, os tornozelos e as panturrilhas estavam engrossando, já havia sinais de uma barriga. A América aprendeu que a beleza reside apenas na juventude, especialmente para a mulher. Mas Hester Adams tinha a sombria beleza da frustração e da perda vindoura; era algo que rastejava por cima dela, a perda vindoura, e dava-lhe alguma coisa sexualmente atrativa, como uma mulher desesperada para quem o tempo está passando enquanto ela continua sentada em um bar cheio de homens. Hester tinha olhado ao redor, visto poucos sinais de ajuda vindos dos homens americanos e entrou em um avião para a América do Sul. Entrou na selva com sua câmera, sua máquina de escrever portátil, seus tornozelos que estão engrossando, sua pele branca e arranjou para si um canibal, um canibal negro: Maja Thurup. Maja Thurup tinha uma cara com um bom aspecto. Seu rosto parecia estar marcado por mil ressacas e mil tragédias. E era verdade: passara por mil ressacas, mas todas as tragédias tinham a mesma origem: Maja Thurup tinha o pau maior do que a média, muito maior do que a média. Nenhuma garota na aldeia o aceitava. Tinha provocado a morte de duas garotas com seu instrumento. Uma tinha sido penetrada pela frente e a outra por trás. Não fazia diferença.
Maja era um homem solitário que bebia e pensava em sua solidão até que Hester Adams chegou com um guia e sua pele branca e uma câmera. Depois das apresentações formais e algumas bebidas perto do fogo, Hester tinha entrado na cabana de Maja e aguentado tudo o que Maja Thurup podia meter e ainda pediu por mais. Era um milagre para ambos, e os dois se casaram em uma cerimônia tribal de três dias, durante a qual homens capturados de tribos inimigas eram assados e comidos em meio a danças, encantamentos e embriaguez. Foi depois da cerimônia, depois que as ressacas passaram que os problemas começaram. O pajé, notando que Hester não partilhara da carne assada do homem da tribo inimiga (decorada com abacaxi, azeitona e nozes), anunciou para todos que não se tratava de uma deusa branca, mas uma das filhas de um deus mau chamado Ritikan. (Séculos atrás, Ritikan tinha sido expulso do céu tribal por se recusar a comer qualquer coisa além de vegetais, frutas e nozes.) O anúncio causou dissensão na tribo, e dois amigos de Maja Thurup foram imediatamente assassinados por terem sugerido que a habilidade de Hester de lidar com todo o tamanho do pau de Maja era em si um milagre e o fato de que ela não ingeria outras formas de carne humana poderia ser perdoado, pelo menos temporariamente. Hester e Maja fugiram para a América, para North Hollywood para ser mais preciso, onde Hester deu início aos procedimentos para tornar Maja Thurup um cidadão americano. Sendo uma antiga professora de colégio, Hester começou a instruir Maja no uso de roupas e da língua inglesa, a beber cervejas e vinhos da Califórnia, a assistir a televisão e a se alimentar de comidas compradas no Safety Market mais próximo. Maja não apenas via televisão, mas também aparecia nela com Hester, e eles declararam seu amor publicamente. Então voltaram para seu apartamento em North Hollywood e fizeram amor. Depois Maja sentou no meio do tapete com seus livros de gramática inglesa, bebendo cerveja e vinho e cantando cantos nativos e tocando bongô. Hester trabalhava em seu livro sobre Maja e Hester. Uma grande editora estava esperando. Tudo que Hester precisava fazer era escrever.
Certa manhã, eu estava na cama lá pelas oito horas. No dia anterior eu perdera quarenta dólares em Santa Anita, minhas economias na conta do California Federal estavam se tornando perigosamente baixas e eu não tinha escrito uma história decente em um mês. O telefone tocou. Levantei, pigarreei, tossi e atendi ao telefone.
– Chinaski?
– Sim?
– Aqui é Dan Hudson.
Dan dirigia a revista Flare de Chicago. Ele pagava bem. Era o editor e o diretor.
– Olá, Dan, nossa.
– Olha, tenho algo para você.
– Claro, Dan. O que é?
– Quero que você entreviste uma puta que casou com um canibal. Torne o sexo GRANDE. Misture amor com horror, sabe?
– Sei. Tenho feito isso minha vida toda.
– Pago quinhentos dólares se conseguir entregar antes do prazo final, que é 27 de março.
– Dan, por quinhentos dólares consigo fazer do Burt Reynolds uma lésbica.
Dan me passou o endereço e um número de telefone. Levantei, joguei água na cara, tomei dois Alka-Seltezers, abri uma garrafa de cerveja e telefonei para Hester Adams. Contei-lhe que queria dar publicidade a sua relação com Maja Thurup como uma das maiores histórias de amor do século XX. Para os leitores da revista Flare. Afirmei-lhe que isso ajudaria Maja a obter sua cidadania americana. Ela concordou com a entrevista, e marcamos para a primeira hora da tarde.
Era um apartamento no terceiro andar de um prédio sem elevador. Ela abriu a porta. Maja estava sentado no chão, com seu bongô, bebendo uma garrafa de um vinho do Porto direto do gargalo. Estava descalço, vestia calças jeans apertadas e uma camiseta branca com listras pretas, zebrada. Hester estava vestindo uma roupa idêntica. Trouxe-me uma garrafa de cerveja, peguei um cigarro do maço na mesa de café e comecei a entrevista.
– Quando você viu Maja pela primeira vez?
Hester me deu uma data. Também disse a hora com exatidão e o lugar.
– Quando você começou a perceber os primeiros sentimentos de amor por Maja? Quais foram exatamente as circunstâncias que desencadearam a relação?
– Bem – disse Hester –, foi quando...
– Ela me ama quando eu meto o troço nela – disse Maja do tapete.
– Ele aprendeu inglês muito rapidamente, não é mesmo?
– Sim, ele é brilhante.
Maja pegou a garrafa e tomou um bom gole.
– Meto o troço nela, ela dizer “Oh meu deus oh meu deus oh meu deus!” Rá, rá, rá, rá!
– Maja tem um corpo fantástico – ela disse.
– Ela engole também – disse Maja –, ela engole bem. Garganta profunda, rá, rá, rá!
– Amei Maja desde o começo – disse Hester. – Foram seus olhos, seu rosto... tão trágico. E o jeito que ele caminhava. Ele caminha, bem, ele caminha meio que como um tigre.
– Porra – disse Maja –, trepamos e esporreamos, porra, foda, porra. Estou ficando cansado.
Maja bebeu mais um pouco. Ele me olhou.
– Você fode ela. Eu cansei. Ela grande túnel faminto.
– Maja tem um senso de humor muito peculiar – disse Hester. – Isso foi outra coisa que me fez amá-lo ainda mais.
– A única coisa que você gosta em mim – disse Maja – é o meu caralho poste telefônico.
– Maja está bebendo desde a manhã – disse Hester –, você terá de perdoá-lo.
– Talvez seja mais adequado que eu volte quando ele estiver melhor.
– Acho que sim.
Hester marcou um novo horário comigo, duas da tarde do dia seguinte.
Tudo corria bem. Eu precisava de fotografias. Conhecia um fotógrafo totalmente arruinado, um tal de Sam Jacoby que era bom e cobraria barato. Levei-o até lá comigo. Era uma tarde ensolarada com apenas uma fina camada de poluição no ar. Subimos e toquei a campainha. Não houve resposta. Toquei a campainha mais uma vez. Maja abriu a porta.
– Hester não está – ele disse. – Foi à loja de conveniências.
– Tínhamos hora marcada para as duas da tarde em ponto. Gostaria de entrar e esperar.
Entramos e sentamos.
– Mim tocar tambor para você – disse Maja.
Ele tocou o tambor e cantou alguns cantos da floresta. Ele era muito bom. Estava bebendo outra garrafa de vinho do Porto. Ainda estava vestindo sua camiseta listrada ao estilo zebra e seus jeans.
– Foder, foder, foder – ele disse. – É só o que ela quer. Ela me deixa louco.
– Sente falta da floresta, Maja?
– Você não caga contra a corrente, paizinho.
– Mas ela ama você, Maja.
– Rá, rá, rá!
Maja fez outro solo no tambor. Mesmo bêbado ele era bom.
Quando Maja acabou, Sam me perguntou:
– Você acha que ela pode ter uma cerveja na geladeira?
– Pode ser.
– Minha cabeça não está boa. Preciso de uma cerveja.
– Vai lá. Traga duas. Depois compro mais para ela. Eu devia ter trazido algumas.
Sam levantou-se e foi até a cozinha. Ouvi a porta da geladeira se abrindo.
– Estou escrevendo um artigo sobre você e Hester – disse para Maja.
– Mulher buracão. Nunca enche. Como um vulcão.
Ouvi Sam vomitando na cozinha. Ele bebia muito. Sabia que estava de ressaca. Mas ainda assim era um dos melhores fotógrafos em atividade. Então tudo ficou quieto. Sam voltou caminhando. Sentou-se. Não trouxe a cerveja.
– Eu tocar tambor mais uma vez – disse Maja.
Ele tocou novamente. Ainda estava tocando bem. Embora não tão bem como da outra vez. O vinho estava pegando.
– Vamos sair daqui – Sam me disse.
– Tenho que esperar por Hester – respondi.
– Cara, vamos embora – disse Sam.
– Vocês querem um pouco de vinho? – Maja ofereceu.
Levantei e fui até a cozinha buscar uma cerveja. Sam me seguiu. Fui em direção à geladeira.
– Por favor, não abra essa porta! – ele disse.
Sam caminhou até a pia e vomitou mais uma vez. Olhei para a porta da geladeira. Não a abri. Quando Sam acabou, eu disse:
– Tudo bem. Vamos embora.
Caminhamos até a sala da frente, onde Maja ainda estava sentado tocando seu bongô.
– Eu tocar tambor mais uma vez – ele disse.
– Não, obrigado, Maja.
Saímos e descemos a escada e ganhamos a rua. Entramos no meu carro. Dei a partida e arranquei. Não sabia o que dizer. Sam não disse nada. Estávamos no bairro comercial. Dirigi até um posto de gasolina e disse ao frentista para encher o tanque com gasolina comum. Sam saiu do carro e foi até um telefone público para ligar para a polícia. Vi Sam sair da cabine telefônica. Paguei pela gasolina. Não consegui minha entrevista. Fiquei sem os meus quinhentos dólares. Esperei enquanto Sam voltava para o carro.
– Ao sul de lugar nenhum
1 501
Adélia Prado

Adélia Prado

Mulheres

Ainda me restam coisas
mais potentes que hormônios.
Tenho um teclado e cito com elegância
Os Maias, A Civilização Asteca.
Falo alto, às vezes, para testar a potência,
afastar as línguas de trapo me avisando da velhice:
‘Como estás bem!’
Aos trinta anos tinha vergonha de parecer jovenzinha,
idade hoje em que as mulheres ainda maravilhosas se
[processam
ácidas e perfeitas como a legumes no vinagre.
De qualquer modo, se o mundo acabar
a culpa é nossa.
2 130
Adélia Prado

Adélia Prado

Dádivas

Como boas senhoras brincam as marrecas,
falsas mofinas debicando nos filhos.
Ruflares, respingos, grasnares,
que bom estar no mundo
a esta hora do dia!
De maneira perfeita tudo é bom,
até mulheres boçais amam gerânios,
não se tem certeza de que vamos morrer,
velhas se consentem em suas vulvas,
agradecendo a Deus por seus maridos.
Até eu, pudica, arrisco: Ei, baby!
Meu corpo me ama e quer reciprocidade.
São os relógios
o mais obsoleto dos inventos.
1 093
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nº 6

vou ficar com o cavalo 6
numa tarde chuvosa
um copo de café de papel
na mão
tudo prestes a começar,
o vento fazendo rodopiar
pequenas cambaxirras do
grande telhado superior,
os jóqueis partindo
para uma corrida intermediária
silenciosos
e a garoa fazendo
todas as coisas
de uma só vez
quase iguais,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu debaixo da tribuna principal
sensível aos
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos passam
levando seus pequenos homens
consigo –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o desabrochar
das flores.

De alguma maneira o dinheiro se esvaiu depois disso e logo eu abandonei as corridas e fiquei sentado em meu apartamento, esperando que a licença de noventa dias acabasse. Meus nervos estavam em frangalhos graças à bebida e à ação. Não é nenhuma novidade que as mulheres dão em cima dos homens. Quando você pensa que terá um tempinho para respirar, basta erguer os olhos e outra já está por ali. Alguns dias depois de retornar ao trabalho, a outra já estava por ali. Fay. Fay era grisalha e sempre se vestia de preto. Dizia que era um protesto contra a guerra. Mas se Fay queria protestar contra a guerra, por mim tudo bem. Era uma espécie de escritora e frequentava algumas oficinas literárias. Tinha ideias sobre como Salvar o Mundo. Se ela pudesse salvá-lo para mim, isto também estaria bem. Estivera vivendo dos cheques da pensão alimentícia de um antigo marido – tinham tido três filhos –, e a mãe também lhe mandava algum dinheiro de vez em quando. Fay nunca tivera mais do que um ou dois empregos na vida.
Enquanto isso, Janko tinha uma nova história de merda. Ele me mandava pra casa a cada manhã com a cabeça doendo. Naquela época eu vinha recebendo inúmeras multas de trânsito. Parecia que a cada vez que eu olhava pelo retrovisor lá estavam as sirenes vermelhas. Um carro-patrulha ou uma moto.
Certa noite cheguei em casa tarde. Estava realmente acabado. Sacar a chave e levá-la até a fechadura estava no limite das minhas forças. Segui até o quarto e lá estava Fay na cama, lendo The New Yorker e comendo chocolates. Ela sequer disse olá.
Fui até a cozinha e procurei alguma coisa para comer. Não havia nada na geladeira. Resolvi me servir um copo d’água. Fui até a pia. Estava entulhada de porcaria. Fay gostava de guardar potes vazios e suas tampas. Os pratos sujos enchiam metade da pia e, flutuando sobre a água, junto com alguns pratos de papel, estavam os potes e as tampas.
Retornei ao quarto no exato momento em que Fay punha na boca um pedaço de chocolate.
– Veja bem, Fay – eu disse –, sei que você quer salvar o mundo. Mas será que você não pode começar pela cozinha?
– Cozinhas não são importantes – ela disse.
Era difícil bater numa mulher grisalha, de modo que eu simplesmente segui para o banheiro e deixei que a água enchesse a banheira. Um banho escaldante talvez pudesse esfriar os nervos. Quando a banheira se encheu tive medo de entrar nela. Meu corpo estropiado havia, àquela altura, endurecido de tal maneira que eu temia me afogar ali dentro.
Fui até a sala e depois de um esforço consegui tirar as calças, as cuecas, os sapatos, as meias. Retornei ao quarto e galguei a cama até junto a Fay. Não conseguia me ajeitar. Cada vez que eu me movia, o custo era alto.
O único momento em que você está sozinho, Chinaski, pensei, é quando você dirige para o trabalho ou volta dele.
Finalmente consegui encontrar uma posição sobre minha barriga. Meu corpo todo doía. Logo eu estaria de volta no trabalho. Se eu conseguisse dar um jeito de dormir, isso me ajudaria. Com alguma frequência, podia ouvir o som de uma página sendo virada, de um chocolate sendo comido. Havia sido uma de suas noites de oficina. Se ela pudesse ao menos apagar as luzes.
– Como estava a oficina? – perguntei, deitado de bruços.
– Estou preocupada com Robby.
– Oh – perguntei –, o que está acontecendo?
Robby era um cara perto dos quarenta que tinha vivido com a mãe desde que nascera. Tudo o que ele escrevia, segundo tinham me informado, eram histórias muito engraçadas sobre a Igreja Católica. Robby realmente tirava sarro dos católicos. As revistas apenas não estavam prontas para Robby, embora tivesse sido publicado uma vez num jornal canadense. Certa vez, numa das minhas noites de folga, eu tinha visto Robby. Levei Fay até esta mansão onde eles se encontravam para ler suas coisas.
– Oh! Este é o Robby! – Fay dissera. – Ele escreve essas histórias divertidíssimas sobre a Igreja Católica!
Ela havia me apontado o cara. Robby estava de costas para a gente. Sua bunda era larga e grande e molenga; ficava pendurada dentro das calças. Será que eles não veem isso?, pensei.
– Você não quer entrar? – Fay tinha perguntado.
– Talvez na próxima semana...
Fay pôs outro chocolate na boca.
– Robby está preocupado. Perdeu seu emprego de entregador. Diz que não consegue escrever sem estar empregado. Precisa do sentimento de segurança. Diz que não será capaz de escrever nada enquanto não encontrar outro trabalho.
– Caralho – eu disse –, já sei onde podemos arranjar um emprego.
– Onde? Como?
– Estão contratando gente lá nos Correios, a torto e a direito. O salário não é mau.
– OS CORREIOS! ROBBY É SENSÍVEL DEMAIS PARA TRABALHAR NOS CORREIOS!
– Desculpe – eu disse –, achei que valia a pena tentar. Boa noite.
Fay não me respondeu. Estava furiosa.
– Cartas na rua
1 153
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Conferindo o Tempo

Estamos, meu vizinho e eu,
envelhecendo
no espelho do elevador.
É uma operação diária e complicada.
Um no outro, conferimos nosso avanço
comentando a decrepitude dos mais velhos.
O elevador desce, e avançamos sorrindo
como se houvesse flores no abismo.
992
Adélia Prado

Adélia Prado

Tenda E Cimitarra

O amor de Mahmoud
me põe mal-acostumada.
Corro o perigo de me deitar na preguiça,
querer comida na boca.
Meu amor por ele é sincero
mas muito judiador:
Tem Nossa Senhora no seu terra, benzinho?
Tem borboletas lá?
Quero comprar coisas no bazar de vocês,
pechinchar por sinais,
trocar simpatias com o turco maravilhoso
me olhando fixo e escuro
de tanta paixão por mim.
Mahmoud cerra os dentes de raiva,
cospe espadas em curva feito lua e
mesmo delicado me morde,
grunhindo na língua dele
uns belos sons que não entendo.
Mahmoud, nosso amor está prestes
a ficar conjugal, agora estou segura
de que nunca vais ver que envelheci.
1 016
Adélia Prado

Adélia Prado

Balido

Setenta anos redondos,
assim não se quebra o verso.
Na verdade tenho mais.
E então?
Respeito me insulta,
repele fantasias de rapto,
namoros no jardim cheirando a malva.
Quero um paranormal a me ensinar piano,
Consuelo dá aulas, mas seu toque é um martelo
e eu venero pianos.
Mãe não rima com nada,
nem velha,
só aparece telha, ovelha, orelha,
nada que preste. Cansei.
Tem um senhor distinto
querendo arrasar meu ego.
Com certeza minto.
Volta e meia estou perplexa
e toda rima que achei é circunflexa.
1 100
Adélia Prado

Adélia Prado

Mais Potente Que Hormônios

Falei sem me dar conta
de que falava coisa teosófica:
Tudo que eu peço Deus me dá.
Desde sempre vivi na eternidade.
Poeta velho é como o Rei Davi,
donzelas são escolhidas
pra lhe aquecer os ossos.
Todas o querem, ainda que, incendiadas,
só lhe restem palavras.
1 100
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Os Últimos Dias do Garoto Suicida

posso me ver agora
depois de todos esses dias e noites de suicídio
sendo arrastado em uma cadeira de rodas numa dessas casas de repouso estéreis
(claro, isto apenas se eu tiver sorte e for famoso)
por uma enfermeira retardada e aborrecida...
então me sentarei muito ereto em minha cadeira...
quase cego, os olhos voltados para a parte escura de meu crânio
à procura da
misericórdia da morte...
“Não é um dia lindo, sr. Bukowski?”
“Ó, claro, claro...”
as crianças cruzam por mim e eu sequer existo
e mulheres adoráveis passeiam por ali
com quadris enormes e deliciosos
e traseiros fogosos e firmes e quentes e tudo o mais
implorando para serem amadas
e eu sequer
existo...
“É o primeiro dia de sol em 3 dias,
sr. Bukowski.”
“Ó, claro, claro.”
lá estou eu sentado muito ereto em minha cadeira de rodas,
mais branco do que uma folha de papel
exangue,
desmiolado, uma aposta perdida, eu, Bukowski,
perdido...
“Não é um dia lindo, sr. Bukowski?”
“Ó, claro, claro...” mijando no meu pijama, a baba me escorrendo
da boca.
2 jovens estudantes passam correndo –
“Ei, você viu aquele velho?”
“Deus, sim, é de embrulhar o estômago!”
depois de todas as ameaças em fazê-lo
uma outra pessoa cometeu suicídio por mim
afinal.
a enfermeira detém a cadeira, arranca uma rosa do canteiro próximo,
coloca-a na minha mão.
não sei nem mesmo
o que ela é. poderia ser muito bem o meu pau
por todo o bem
que faz.
1 482
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sandra

é a alta e magra
donzela do quarto
de brincos
coberta por um longo
vestido
está sempre alta
em sapatos de salto
espírito
boletas
trago
Sandra se inclina
em sua cadeira
inclina-se em direção a
Glendale
aguardo que sua cabeça
bata na maçaneta
do guarda-roupa
enquanto ela tenta
acender
um novo cigarro num
outro já quase
consumido
aos 32 ela gosta de
jovens limpos
imaculados
com rostos semelhantes ao fundo
de pires recém-comprados
depois de se vangloriar
a não mais poder
acabou me trazendo seus prêmios
para que eu desse uma olhada:
garotos nulos, loiros e silenciosos
que
a) sentam
b) levantam
c) falam
ao seu comando
às vezes ela traz um
às vezes dois
às vezes três
para que eu os
veja
Sandra fica muito bem em
vestidos longos
Sandra pode partir provavelmente
o coração de um homem
espero que ela encontre
um.

Comecei a receber cartas de uma garota de Nova York. Seu nome era Mindy. Ela havia encontrado alguns dos meus livros por acaso, mas o melhor a respeito de suas cartas era que ela raramente mencionava algo sobre escrita exceto para dizer que ela não era uma escritora. Escrevia sobre as mais variadas coisas e sobre homens e sobre sexo em particular. Mindy tinha 25, escrevia à mão, e sua caligrafia era estável, sensível, com uma pitada de humor. Eu respondia suas cartas e era sempre uma alegria encontrar uma das dela na minha caixa de correio. Muitas pessoas dizem as coisas bem melhor em cartas do que em conversas, e algumas pessoas conseguem escrever cartas criativas, artísticas, mas quando tentam um poema, um conto ou um romance, tornam-se pretensiosas.
Então Mindy mandou algumas fotografias. Caso se pudesse confiar em sua veracidade, ela era bem bonita. Escrevemo-nos por mais algumas semanas e então ela mencionou que em breve tiraria duas semanas de férias.
– Por que você não pega um avião até aqui? – sugeri.
– Tudo bem – ela respondeu.
Começamos a nos telefonar. Por fim ela me deu a data de chegada de seu voo no L.A. International.
– Estarei lá – disse a ela –, nada poderá me impedir.
Sentei-me no aeroporto e esperei. Nunca se pode ter certeza com esse negócio de fotos. Não há garantias. Sentia-me prestes a vomitar. Acendi um cigarro e me veio um engulho. Por que eu fazia essas coisas? Não a queria mais agora. E Mindy voava de Nova York para cá. Eu conhecia um número grande de mulheres. Por que esse negócio de mais e mais mulheres? O que eu estava tentando fazer? Casos novos são excitantes, mas também dão um trabalho dos diabos. O primeiro beijo, a primeira foda sempre são um pouco dramáticos. As pessoas eram interessantes no início. Então mais tarde, devagar mas inevitavelmente, todas as imperfeições e as demências começariam a se manifestar. Eu seria então cada vez menos interessante para elas; e elas se tornariam cada vez menos importantes para mim.
Eu era velho e feio. Talvez por isso fosse tão bom meter nessas jovens garotas. Eu era o King Kong e elas flexíveis e macias. Será que eu estava tentando enganar a morte? Ficando com essas jovens eu tinha esperanças de não envelhecer, não me sentir um caco? Eu só não queria envelhecer sem dignidade, simplesmente desistir, estar morto antes da morte chegar.
O avião de Mindy pousou e começou a taxiar. Senti que estava a perigo. As mulheres me conheciam de antemão, pois haviam lido meus livros. Eu já havia me exposto. Por outro lado, eu não sabia nada delas. Eu era o verdadeiro jogador. Eu podia ser morto, ter minhas bolas cortadas. Chinaski castrado. Poemas de amor de um eunuco.
Fiquei esperando por Mindy. Os passageiros saíram pelo portão.
Oh, tomara que não seja aquela.
Ou aquela.
Especialmente aquela outra.
Bem, aquela ali estaria bem! Veja que pernas, que rabo, e esses olhos...
Uma delas veio em minha direção. Torci para que fosse ela. Era a melhor de todo o grupo. Eu não podia ter tanta sorte. Ela se aproximou e sorriu:
– Eu sou a Mindy.
– Estou feliz que você seja a Mindy.
– Estou feliz que você seja o Chinaski.
– Você precisa pegar alguma bagagem?
– Sim, trouxe o suficiente para uma longa estada!
– Vamos esperar no bar.
Entramos e encontramos uma mesa. Mindy pediu uma vodca com tônica. Pedi uma vodca-7.[14] Ah, quase em perfeita harmonia. Acendi-lhe o cigarro. Ela tinha uma ótima aparência, quase virginal. Era difícil de acreditar. Era baixinha, loira e perfeita de corpo. Era mais natural do que sofisticada. Era fácil olhá-la nos olhos, de um azul-esverdeado. Usava dois brincos pequenos. E usava sapatos de salto. Havia dito a Mindy que saltos altos me excitavam.
– Bem – ela disse –, você está assustado?
– Agora nem tanto. Gosto de você.
– Você é bem melhor pessoalmente do que nas fotos – ela disse. – Não acho você nem um pouco feio.
– Obrigado.
– Oh, não quis dizer que você é bonito, não no sentido que as pessoas dão pro termo. Seu rosto parece comum. Mas seus olhos... eles são lindos. São selvagens, loucos, como os olhos de um animal surgindo de uma floresta em chamas. Deus, alguma coisa desse tipo. Não sou muito boa com as palavras.
– Acho que você é linda – eu disse. – E muito gentil. É bom estar perto de você. Estou feliz de estarmos juntos. Beba. Precisamos de mais bebida. Você é como suas cartas.
Tomamos a segunda rodada e fomos buscar sua bagagem. Orgulhava-me estar ao lado de Mindy. Ela caminhava com estilo. Muitas mulheres com belos corpos apenas se arrastavam, como se fossem criaturas sobrecarregadas de peso. Mindy deslizava.
Eu seguia pensando, isso é bom demais. Isso simplesmente não é possível.
– Mulheres
1 207
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Quem, Diabos, É Tom Jones?

por duas semanas
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[15].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
1 067
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Mesa

E não gostavas de festa…
Ó velho, que festa grande
hoje te faria a gente.
E teus filhos que não bebem
e o que gosta de beber,
em torno da mesa larga,
largavam as tristes dietas,
esqueciam seus fricotes,
e tudo era farra honesta
acabando em confidência.
Ai, velho, ouvirias coisas
de arrepiar teus noventa.
E daí, não te assustávamos,
porque, com riso na boca,
e a nédia galinha, o vinho
português de boa pinta,
e mais o que alguém faria
de mil coisas naturais
e fartamente poria
em mil terrinas da China,
já logo te insinuávamos
que era tudo brincadeira.
Pois sim. Teu olho cansado,
mas afeito a ler no campo
uma lonjura de léguas,
e na lonjura uma rês
perdida no azul azul,
entrava-nos alma adentro
e via essa lama podre
e com pesar nos fitava
e com ira amaldiçoava
e com doçura perdoava
(perdoar é rito de pais,
quando não seja de amantes).
E, pois, todo nos perdoando,
por dentro te regalavas
de ter filhos assim… Puxa,
grandessíssimos safados,
me saíram bem melhor
que as encomendas. De resto,
filho de peixe… Calavas,
com agudo sobrecenho
interrogavas em ti
uma lembrança saudosa
e não de todo remota
e rindo por dentro e vendo
que lançaras uma ponte
dos passos loucos do avô
à incontinência dos netos,
sabendo que toda carne
aspira à degradação,
mas numa via de fogo
e sob um arco sexual,
tossias. Hem, hem, meninos,
não sejam bobos. Meninos?
Uns marmanjos cinquentões,
calvos, vividos, usados,
mas resguardando no peito
essa alvura de garoto,
essa fuga para o mato,
essa gula defendida
e o desejo muito simples
de pedir à mãe que cosa,
mais do que nossa camisa,
nossa alma frouxa, rasgada…
Ai, grande jantar mineiro
que seria esse… Comíamos,
e comer abria fome,
e comida era pretexto.
E nem mesmo precisávamos
ter apetite, que as coisas
deixavam-se espostejar,
e amanhã é que eram elas.
Nunca desdenhe o tutu.
Vá lá mais um torresminho.
E quanto ao peru? Farofa
há de ser acompanhada
de uma boa cachacinha,
não desfazendo em cerveja,
essa grande camarada.
Ind’outro dia… Comer
guarda tamanha importância
que só o prato revele
o melhor, o mais humano
dos seres em sua treva?
Beber é pois tão sagrado
que só bebido meu mano
me desata seu queixume,
abrindo-me sua palma?
Sorver, papar: que comida
mais cheirosa, mais profunda
no seu tronco luso-árabe,
e que bebida mais santa
que a todos nos une em um
tal centímano glutão,
parlapatão e bonzão!
E nem falta a irmã que foi
mais cedo que os outros e era
rosa de nome e nascera
em dia tal como o de hoje
para enfeitar tua data.
Seu nome sabe a camélia,
e sendo uma rosa-amélia,
flor muito mais delicada
que qualquer das rosas-rosa,
viveu bem mais do que o nome,
porém no íntimo claustrava
a rosa esparsa. A teu lado,
vê: recobrou-se-lhe o viço.
Aqui sentou-se o mais velho.
Tipo do manso, do sonso,
não servia para padre,
amava casos bandalhos;
depois o tempo fez dele
o que faz de qualquer um;
e à medida que envelhece,
vai estranhamente sendo
retrato teu sem ser tu,
de sorte que se o diviso
de repente, sem anúncio,
és tu que me reapareces
noutro velho de sessenta.
Este outro aqui é doutor,
o bacharel da família,
mas suas letras mais doutas
são as escritas no sangue,
ou sobre a casca das árvores.
Sabe o nome da florzinha
e não esquece o da fruta
mais rara que se prepara
num casamento genético.
Mora nele a nostalgia,
citadino, do ar agreste,
e, camponês, do letrado.
Então vira patriarca.
Mais adiante vês aquele
que de ti herdou a dura
vontade, o duro estoicismo.
Mas, não quis te repetir.
Achou não valer a pena
reproduzir sobre a terra
o que a terra engolirá.
Amou. E ama. E amará.
Só não quer que seu amor
seja uma prisão de dois,
um contrato, entre bocejos
e quatro pés de chinelo.
Feroz a um breve contato,
à segunda vista, seco,
à terceira vista, lhano,
dir-se-ia que ele tem medo
de ser, fatalmente, humano.
Dir-se-ia que ele tem raiva,
mas que mel transcende a raiva,
e que sábios, ardilosos
recursos de se enganar
quanto a si mesmo: exercita
uma força que não sabe
chamar-se, apenas, bondade.
Esta calou-se. Não quis
manter com palavras novas
o colóquio subterrâneo
que num sussurro percorre
a gente mais desatada.
Calou-se, não te aborreças.
Se tanto assim a querias,
algo nela ainda te quer,
à maneira atravessada
que é própria de nosso jeito.
(Não ser feliz tudo explica.)
Bem sei como são penosos
esses lances de família,
e discutir neste instante
seria matar a festa,
matando-te — não se morre
uma só vez, nem de vez.
Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
para serem longamente
reencarnadas noutro morto.
Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres.
Estamos todos como éramos
antes de ser, e ninguém
dirá que ficou faltando
algum dos teus. Por exemplo:
ali ao canto da mesa,
não por humilde, talvez
por ser o rei dos vaidosos
e se pelar por incômodas
posições de tipo gauche,
ali me vês tu. Que tal?
Fica tranquilo: trabalho.
Afinal, a boa vida
ficou apenas: a vida
(e nem era assim tão boa
e nem se fez muito má).
Pois ele sou eu. Repara:
tenho todos os defeitos
que não farejei em ti,
e nem os tenho que tinhas,
quanto mais as qualidades.
Não importa: sou teu filho
com ser uma negativa
maneira de te afirmar.
Lá que brigamos, brigamos,
opa! que não foi brinquedo,
mas os caminhos do amor,
só amor sabe trilhá-los.
Tão ralo prazer te dei,
nenhum, talvez… ou senão,
esperança de prazer,
é, pode ser que te desse
a neutra satisfação
de alguém sentir que seu filho,
de tão inútil, seria
sequer um sujeito ruim.
Não sou um sujeito ruim.
Descansa, se o suspeitavas,
mas não sou lá essas coisas.
Alguns afetos recortam
o meu coração chateado.
Se me chateio? demais.
Esse é meu mal. Não herdei
de ti essa balda. Bem,
não me olhes tão longo tempo,
que há muitos a ver ainda.
Há oito. E todos minúsculos,
todos frustrados. Que flora
mais triste fomos achar
para ornamento de mesa!
Qual nada. De tão remotos,
de tão puros e esquecidos
no chão que suga e transforma,
são anjos. Que luminosos!
que raios de amor radiam,
e em meio a vagos cristais,
o cristal deles retine,
reverbera a própria sombra.
São anjos que se dignaram
participar do banquete,
alisar o tamborete,
viver vida de menino.
São anjos; e mal sabias
que um mortal devolve a Deus
algo de sua divina
substância aérea e sensível,
se tem um filho e se o perde.
Conta: catorze na mesa.
Ou trinta? serão cinquenta,
que sei? se chegam mais outros,
uma carne cada dia
multiplicada, cruzada
a outras carnes de amor.
São cinquenta pecadores,
se pecado é ter nascido
e provar, entre pecados,
os que nos foram legados.
A procissão de teus netos,
alongando-se em bisnetos,
veio pedir tua bênção
e comer de teu jantar.
Repara um pouquinho nesta,
no queixo, no olhar, no gesto,
e na consciência profunda
e na graça menineira,
e dize, depois de tudo,
se não é, entre meus erros,
uma imprevista verdade.
Esta é minha explicação,
meu verso melhor ou único,
meu tudo enchendo meu nada.
Agora a mesa repleta
está maior do que a casa.
Falamos de boca cheia,
xingamo-nos mutuamente,
rimos, ai, de arrebentar,
esquecemos o respeito
terrível, inibidor,
e toda a alegria nossa,
ressecada em tantos negros
bródios comemorativos
(não convém lembrar agora),
os gestos acumulados
de efusão fraterna, atados
(não convém lembrar agora),
as fina-e-meigas palavras
que ditas naquele tempo
teriam mudado a vida
(não convém mudar agora),
vem tudo à mesa e se espalha
qual inédita vitualha.
Oh que ceia mais celeste
e que gozo mais do chão!
Quem preparou? que inconteste
vocação de sacrifício
pôs a mesa, teve os filhos?
quem se apagou? quem pagou
a pena deste trabalho?
quem foi a mão invisível
que traçou este arabesco
de flor em torno ao pudim,
como se traça uma auréola?
quem tem auréola? quem não
a tem, pois que, sendo de ouro,
cuida logo em reparti-la,
e se pensa melhor faz?
quem senta do lado esquerdo,
assim curvada? que branca,
mas que branca mais que branca
tarja de cabelos brancos
retira a cor das laranjas,
anula o pó do café,
cassa o brilho aos serafins?
quem é toda luz e é branca?
Decerto não pressentias
como o branco pode ser
uma tinta mais diversa
da mesma brancura… Alvura
elaborada na ausência
de ti, mas ficou perfeita,
concreta, fria, lunar.
Como pode nossa festa
ser de um só que não de dois?
Os dois ora estais reunidos
numa aliança bem maior
que o simples elo da terra.
Estais juntos nesta mesa
de madeira mais de lei
que qualquer lei da república.
Estais acima de nós,
acima deste jantar
para o qual vos convocamos
por muito — enfim — vos querermos
e, amando, nos iludirmos
junto da mesa
vazia.
2 010
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ó Tu, Sublime Puta Encanecida

Ó tu, sublime puta encanecida,
que me negas favores dispensados
em rubros tempos, quando nossa vida
eram vagina e fálus entrançados,

agora que estás velha e teus pecados
no rosto se revelam, de saída,
agora te recolhes aos selados
desertos da virtude carcomida.

E eu queria tão pouco desses peitos,
da garupa e da bunda que sorria
em alva aparição no canto escuro.

Queria teus encantos já desfeitos
re-sentir ao império do mais puro
tesão, e da mais breve fantasia.
1 214
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Chamado

Na rua escura o velho poeta
(lume de minha mocidade)
já não criava, simples criatura
exposta aos ventos da cidade.

Ao vê-lo curvo e desgarrado
na caótica noite urbana,
o que senti, não alegria,
era, talvez, carência humana.

E pergunto ao poeta, pergunto-lhe
(numa esperança que não digo)
para onde vai — a que angra serena,
a que Pasárgada, a que abrigo?

A palavra oscila no espaço
um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparências sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino.

E foi-se para onde a intuição,
o amor, o risco desejado
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.
1 171
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Campo de Flores

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus — ou foi talvez o Diabo — deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer um vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.
1 765
Fernando Correia Pina

Fernando Correia Pina

Longa ia a noite

Longa ia a noite e a mulher sem sono,
incendiada pela treta das novelas,
atirava-se a mim num abandono
que por três vezes me fez ver as estrelas.

Para quem sente a vida em seu outono
e já se cansou de soprar velas.
noite assim é mais prisão que trono,
fonte não de prazer mas de sequelas.

Ora, caía eu nos braços de Morfeu
quando a fera de novo acometeu
gritando - ai! mete mais o teu caralho!

Mas eu que mais não tinha que meter,
quase que a medo, só consegui dizer -
espera um pouco, meu amor, que eu vou ao talho.

1 212