Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Aníbal Raposo

Aníbal Raposo

Fim do Século

Procuramos planícies de entendimento
Encontramos muralhas de distância

Já não sabemos rir
Os músculos da cara contraem-se
Em oportunos esgares a que chamamos riso

Perdemos toda a inocência
Compramos as amizades que interessam
Nos hipermercados das pequenas vaidades

Temos um mar chão
Deixaram-nos tão pobres que não o fruímos

Já não sabemos do cheiro
Do funcho, do incenso e da hortelã
Vendem-nos agora odores engarrafados a preços
astronómicos
O burlão prospera...
O burlado é um tolo com status!

Como poderemos apreciar a singeleza das coisas
Se passamos por elas a duzentos à hora?

Não bebemos a natureza nos espaços abertos
Pagamos para utilizar passadeiras rolantes

Programamos os nossos momentos de amor
E a melodia dos nossos cânticos...

816
Mariana Ianelli

Mariana Ianelli

Testamento

"Chora,
irmão pequeno, chora,
Cumpre a tua dor, exerce o rito da agonia.
Porque cumprir a dor é também
cumprir o seu próprio destino."
(Mário de Andrade - Rito do Irmão Pequeno)
A vida, para desejares
viver.
Um rosto emprestado de Deus
suscita da calada
para ser um rosto de homem,
teu voto de beleza.
O tempo de vir
é fortuna que não escolheste,
tua mãe é o primeiro regaço que não escolheste,
primeiro amor para amar, exaltado e fiel.
Mais tarde, o teu corpo desiludido
ou transformado em fonte,
um amigo arrastado no vento,
adágio seduzido,
mais tarde e de novo o silêncio,
que já não é o teu sereno,
mas uma tristeza inimiga
mais leal para ti que o teu corpo,
que o teu nome sonoro
e as concessões pela mãe.
Procuras um amor natural
como quando nada sabias,
mas a perda de Deus te ensinou,
como aos outros, a desconfiar.
Uma doçura é tão próxima,
mas e o teu pavor de amar ...
Na concha acanhada, durante,
escutas o sangue no passeio pelos dedos,
escutas no peito uma autonomia ignota.
Daí compreendes o sigiloso
de perseverar e doer ...
Tu és a vida que não veio,
e que mais sinceramente, no entanto,
está perto da tua nitidez.
És teu próprio filho emudecido, desatento.
Mesmo que sintas frio, como sentes.

904
Susana Pestana

Susana Pestana

Uma Lágrima

Passou por mim uma voz
Um estoiro!
Equilibrado na luz do dia
derradeiras esperanças
mostradas pela realidade acordada
Um despertar sem aviso
Um olhar entreaberto nas metades agitadas.
de um dia adulto...
O brilho nos olhos
Infantilidades adormecidas!

Tu

Criança que espreitas às escondidas
dentro da minha vida num quarto pequeno.
De olhos arregalados
Congelados num momento de dor
em feridas que se deslizam
no despertar de uma lágrima que não rola.
Uma apenas!
Sabedora lágrima que és, minha amiga
foge desse olhar arranhado pelos anos
e sobrevoa por galhos rijos e carinhosos.
vultos aquecidos por momentos.
Cresce por fora
voa!

878
Luiz Felipe Coelho

Luiz Felipe Coelho

Fora da História

Loucos
monumentos de pedra e tijolo
erguidos a deuses cruéis e a reis insanos
guerras inglórias, impérios exaustos
heróis, profetas e santos
todos povoam o passado,
gravemente.

Tudo é lógico, tudo está registrado em pedras, em papéis, em lendas,
explicam guias turísticos e professores de História
enquanto olhamos pela janela.

Os poderosos venceram batalhas, construíram impérios
massacraram, escravizaram, consolidaram reinos,
salvaram seus povos, fizeram palácios, muralhas e estradas,
sua glória final erguida em pirâmides para os mortos,
gigantescos palácios, templos para os deuses que os protegeram.

Os práticos venceram a Natureza drenando pântanos,
lendo os calendários escritos pelas estrêlas,
ensinando o cultivo de plantas,
construindo canais e cidades,
buscando a imortalidade na cura das doenças,
reescrevendo a superfície da Terra.

Os bons e sábios venceram o Mal,
falaram com a voz da santidade,
convertendo milhões com a sua dor e a sua palavra
(quando tudo isto já for vaga memória
e a maldade tiver reconquistado as almas,
poderemos ainda olhar suas estátuas de olhar solene
e seus coloridos vitrais).

Mas, mas, mas
e os apaixonados felizes,
os que faziam loucuras à espera de um olhar,
que não entendiam diferenças
entre noite e dia, entre sonhar e viver,
e sua felicidade, incontáveis gotas de chuva
a se armazenar em secretos lençóis,
onde estão as lembranças de seus feitos?

E os amargurados,
a olhar sem ver as ondas em algum cais,
a beber sem notar um vinho entre estranhos,
e suas lembranças, reflexos do sol no orvalho
que temem perder com o calor do dia,
doloridas farpas infeccionadas que lhes restam,
em que estranhos templos suas memórias repousarão,
que ruínas conhecerão as suas sombras?

Mas a História a êles não registra,
aos que atravessaram o ar com palavras,
suaves promessas eternas,
para que macias mãos pousassem nas suas,
aos que possuíam longos silêncios
que não conseguiam mais carregar,
quadros de tristeza e dor pintados dentro de si
com lágrimas há muito secas.

Não eram poderosos,
não eram práticos,
não eram bons nem sábios,
nada sabemos deles
mas os entendemos
e estes, sim
fizeram tudo.

921
Odete Silva

Odete Silva

Vazio

Rasguei
livros envelhecidos pelos meus olhos
que nada me dizem de ti

Pintei quadros na parede do meu quarto
mas, não eras tu quem vi......

Percorri o rasto dos teus passos,
só minha sombra me seguiu

Nos lábios alimentei beijos com néctar de bem-querer
mas, a espera foi tão amarga......

quis amar-te sobre pétalas morenas,
no chão perfumado do teu corpo,
quando só ausência bateu á minha porta.

A noite veio vazia de ti,
vestida de fantasmas absortos
com as mãos petrificadas
pela solidão do dia.

665
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Triste, a paisagem tem ciprestes só

Triste, a paisagem tem ciprestes só.
Órbitas cegas, de chorar por água,
Os tanques estancam sua sede em pó
E o seu silêncio enche o jardim de mágoa.

Ao buxo, há muito que ninguém dá norma,
Só répteis amam, no caramanchel.
E o velho fauno branco, hoje sem forma,
Envolto dhera, toma a cor do fel.

Galgos, cisnes, pavões, festivas flores,
Tudo se foi. No vácuo, o tempo escorre.
Folha arrastada aos vergéis exteriores,
Transposto o muro, inda que verde morre.

1 769
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Que domingo solene, ocioso e lasso

Que domingo solene, ocioso e lasso!
Tão triste; o sol inunda a tarde toda,
Festivo como um guizo numa boda
Onde a noiva morreu, desfeita em espaço...

Medeia a eternidade, em cada passo
Que, sem intuito, dá quem passa; à roda
Parece dormir tudo; e incomoda,
Ponderável, no ar, um embaraço...

Toda a tristeza do domingo à tarde.
Sobe dos homens para o céu, que arde,
O apego à vida dum olhar que morre.

Sombras sugerem aflições incertas...
E das janelas sôfregas, abertas,
Morno, o silêncio como num pranto escorre...

1 911
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Desde quando alguma vez anoiteceu

Desde quando alguma vez anoiteceu
E à angústia de que a terra se cobriu
Só pasmo nas esferas respondeu;
Desde quando alguma flor emurcheceu
E a criança que válida se ria
De repente calada apodreceu;
Desde quando a algum estio sucedeu
Um outro outono e a árvore se despiu
E a primeira cabeça encaneceu;
Desde quando alguma coisa que nasceu
Sem que o pedisse, sem remédio se degrada
E acaba, sob a terra que a comeu,
Dispersa entre os átomos dispersos,
Se acumula a tristeza deste dia
E a razão destes versos.

1 843
Marcelo Ribeiro

Marcelo Ribeiro

Da Tua Casa à Minha

Todas
as casas de portas fechadas
E o caminho enebriante à minha frente
Tão escuras que são as estradas
Que me conduzem novamente
A mansão sombria de minhas discórdias

Poucos são os transeuntes que me aparecem
Vagabundos de lirismo arcaico que se apetecem
Da chama do umbral da noite
Molhando os dedos e apagando a vela trêmula
No sepulcro sacro do castiçal da boêmia

Resgatam temas de valentia
Em que brigavam por lemas de alforria:
Libertar a alma e o corpo
Amar à exaustão e revelia!

Choram por damas perdidas
E rememoram alegres as perdidas damas
Sonham voltar a saborear deliciosas comidas
E depois roncar solenemente
Em não mais que confortáveis e esquecidas camas

O pouco que sonham lhes é muito
E seu canto é somente onírico e mudo
Não atingem aos nossos peitos
Reverberam, quanto muito
À outros corações vagabundos

Há cachorros que lhes lambem
As chagas que os iguais, sim, mortais
Lhes conferiram em encontros informais
Pois para a morte, a fome, o frio e a violência
Não existe formalidade
Basta um terno e gravata
Carro importado e caneta refinada
Para assinar qualquer suja bravata

Esperam por nova chance
Um amor, emprego, sonhos apenas
E antes que a impossível imagem da felicidade se apague
Mais um fino trago de cachaça num só lance
A esquentar corpo, alma e melenas

São estes os únicos seres que avisto
Quando retorno da tua casa
Já que teus olhos ficaram cravados em meu peito
876
Taumaturgo Vaz

Taumaturgo Vaz

Minha Madrinha

Aqui na terra, desiludido
Tonto, perdido,
Saio das cinzas deste vulcão,
Para ouvir missa na capelinha,
Lá, onde mora Minha Madrinha,
Nossa Senhora da Conceição!

Ao pé do nicho branco e enflorado,
Ajoelhado,
De olhos abertos fitos no altar,
Rezo baixinho... Santa alegria!
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça! Graça sem par!

Mãe de Jesus! Flor do Carinho!
Secai os cardos do meu caminho!
Livrai-me do ódio de Humanidade!
Da inveja torpe, da iniqüidade
E da traição,
Que ora andam soltos e voejando,
Como de Corvos um negro bando,
Sob a amplidão!
Tende Piedade, doce Rainha!
Minha Madrinha! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!

Olhai, oh Virgem, quantos tormentos
Sofrem os justos! Quantos lamentos
Soltos aos ventos!
Quanta miséria! Quanto pesar!
Cessai, oh Virgem, esta Agonia,
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça, Graça sem par!

Lá nos Palácios o oiro e o incenso,
Risos e danças, um mundo imenso
De luz e pompas, sedas e aromas,
Lembrando os velhos tempos de Roma
A era negra da perdição!
E fora, o pranto, o frio, a fome...
Tudo que é triste, fere e consome
os pobres velhos e as criancinhas!
Vinde por eles, Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!

De olhos abertos fico rezando
Fora do mundo, junto do altar,
Vendo chegar o doce bando
Das esperanças,
— Anjos formosos, meigas crianças
Rubras centelhas
Dos céus descidos para o Perdão!
E, como a Virgem tudo adivinha,
Ri-se bondosa. Salve Rainha!
Cheia de Graça! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!

1 406
Raul Machado

Raul Machado

Póstuma

Noite fechada, lúgubre, sombria.
Céu escuro, tristíssimo, nevoento,
Relâmpagos, trovões, água, invernia
E vento e chuva, e chuva e muito vento!

Abro um pouco a janela, úmida e fria;
Quedo a ver e a escutar, por um momento
O rugido feroz da ventania
E o rasgar dos fuzis no firmamento.

Quero vê-la no céu... e o céu escuro!
E, sem temer que chova e o vento açoite,
Abro mais a janela... abro, e murmuro:

Ah! talvez acalmasse o meu tormento,
—Se eu pudesse chorar, como esta noite!
—Se eu pudesse gemer, corno este vento!

1 647
Soares Bulcão

Soares Bulcão

Mater

Floreces na penumbra anônima do albergue,
Sob o humilde casal de pobres infelizes,
Onde mora a honradez, e a cuja sombra se ergue
A árvore da desgraça onde o amor fez raízes.

Ao mundo, sem que a dor teu ânimo se vergue,
Surges predestinada às fundas cicatrizes,
E passam sem deixar quem o teu passo enxergue,
Vás, embora, onde vás, pises por onde pises.

Segues a tua estrada entre flores e espinhos;
Ora esbarras na treva, ora na luz, e dentre
O universal rumor fere-te a voz dos ninhos;

E o teu sonho é tão grande, e a missão tão profunda,
Que desprezas a dor, porque trazes no ventre,
— Fonte de eterna vida — a dor que em ti fecunda!

985
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Natal de longe

Natal! Natal!
A boca o diz,
A mão o escreve,
O coração já não sente.

Que a emoção,
Vibração
Das asas da fantasia
No voo do pensamento,
Deixou-se ficar parada
Só porque a noite está quente;
Só porque ser indolente
É como parar na estrada
E desistir da jornada,
Sem coragem de voltar
Pelo caminho tão rude!

Natal! Natal!

A doce força que tinha
Devorou-a a latitude.

2 036
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Minha alma é obelisco corroído

Minha alma é obelisco corroído
Ou apenas quem sabe? inacabado.
A memória dum fasto já esquecido
Ou dum outro talvez antecipado.

Só sei que lhe não sei qual o sentido;
E o erro foi, assim, ter procurado
O que tenha talvez desaparecido
Ou não fosse jamais concretizado.

Na encruzilhada, os viandantes raros,
Se os olhos para ela erguem, avaros,
Não conservam, sequer, a sua imagem.

Mas erguida, sem nexo, longa e triste,
Ela sabe que é, sente que existe,
Na dor com que ensombrece esta paisagem.

1 786
Sânzio de Azevedo

Sânzio de Azevedo

Soneto

Já que buscas um sonho e não o alcanças,
pastor de enganos, cala a tua avena!
Foram-se todas as ovelha mansas
que conduzias na manhã serena...

Da tua terra fértil mas pequena
tirou-te um dia a sede das andanças!
Partiste, então; mas nessa idade amena
tangias um rebanho de esperanças!

Hoje, nas tardes tristes e vermelhas,
anda a apascentar outras ovelhas,
e estás perdido de intranqüilidades...

Buscas (não vês?) um bem que não existe;
e nem percebes que vagueias, triste,
conduzindo um rebanho de saudades...

1 117
Zito Batista

Zito Batista

Meu Coração

Meu coração é um lúgubre convento:
Dentro dele, a rezar noites inteiras,
As minhas ilusões — tristonhas freiras
Vivem presas de estranho desalento...

E ouvindo, às vezes, queixas agourentas,
E ameaças de morte e sofrimento,
— Soluçando, no escuro isolamento,
Falam de amor as pobres prisioneiras...

No entanto outrora, alegre, iluminado,
Como a igreja formosa em que se canta
A missa azul da crença e do conforto...

Meu coração foi céu alcandorado,
Onde imperava, ingenuamente santa,
A Forma viva do meu Sonho morto!

976
Sebastião Corrêa

Sebastião Corrêa

Se Assim Fosse

Se a dura sorte me apontasse, um dia,
Outro destino, a mim, outra ventura,
E me arrancasse desta vida escura,
Outra seria, então, minha alegria.

Se o coração de quem meus passos guia,
Compreendesse a extensão desta amargura,
Talvez sentisse a mesma desventura
Que às vezes sinto, em transes de agonia.

Se essa visão querida, que meus olhos
Viram, tivesse o coração humano,
Um coração que conhecesse o amor,

Certo, me não teria entre os abrolhos,
Nem eu padeceria o desengano,
No exílio escuro a que me trouxe a dor.

725
Zito Batista

Zito Batista

Monólogo de um Cego

Falaram-me do sol! Maravilhoso o sol
Refulgindo na altura...
Ah! se eu pudesse ver, assim como um farol
Imenso e inacessível
Em vertigens de luz sobre as nossas cabeças!...
E — eterna desventura —
Eu fiquei a pensar: por que o sol invencível
Não rasga o negro véu de minha noite espessa
Quando brilha na altura?

Falaram-me das florestas e das aves!
Das aves, cujo canto
Põe na minha alma em febre uns arrepios suaves
De vaga nostalgia...
Ah! se eu pudesse ver as aves e as florestas!
Soberbo o meu encanto!
Se eu pudesse aclarar a minha noite sombria,
Quando ouvisse enlevado em delírios e festas
Num soberbo canto
Todo poema de amor das aves nas florestas!

E o mar? Onde o mais belo símbolo da vida?
o mar é um rebelado!
Que vive noite e dia em soluços gemendo
De cólera incontida,
A investir contra o céu como um tigre esfaimado!
É lindo o mar no seu desespero tremendo!
Eu não o vejo não! Mas chega aos meus ouvidos
E escuto alucinado
A música fatal dos seus grandes gemidos!
Há toda uma história enorme a interpretar
Nesse choro convulsivo e incessante do mar...

Ah! que destino o meu! que desgraçada sorte
Me traçou, pela terra, a mão de um Deus Brutal!
Na vida, em vez da vida, anda comigo a morte,
A escuridão sem fim...
Tenho a envolver-me o corpo a asa torpe do mal.
E falam-me do céu, das aves e das flores;
E dizem que o mundo é um paraíso, assim,
Todo cheio de luz, de aroma, de esplendores!
E eu creio! Eu creio em tudo...
Os homens têm razão! eu creio e desejara
Vendo sumir-se ao longe a minha noite amara
Ver o mar, ver o sol no firmamento mudo
A brilhar!... a brilhar...

Mas o meu grande sonho, o meu sonho infinito
É outro, um outro ainda: o que me faz chorar
E há de, em fúria, arrancar-me o derradeiro grito
Quando eu daqui me for, aos trambolhões, a esmo,
É a ânsia indefinida, o desejo profundo
De conhecer o que há de mais original no mundo,
De conhecer a mim mesmo!

Porque a julgar, talvez, pelo mal que me oprime
Eu devo ser, por força, um monstro desconforme.
Na eterna expiação do mais nefando crime
Atado ao poste real de minha dor enorme!...

1 084
Taumaturgo Vaz

Taumaturgo Vaz

Ri

Não conheces da vida o negro drama...
Não conheces a dor jamais vencida...
Viver rindo?! cuidado que na lida
Não te queime do amor a ardente chama.

Nunca sintas o fel que nos derrama
Dentro do peito essa ilusão perdida...
Ai! nunca saibas como dói a vida
Quando a gente é distante de quem ama.

Nunca saibas que o mundo é feito apenas
De amarguras cruéis, de duras penas
E de espinhos que a gente vão ferindo...

Sim! que a vida te corra sempre mansa!
Que tu sejas assim, sempre criança
E passes neste mundo sempre rindo!...

1 019
Raul Machado

Raul Machado

Lágrimas de Cera

Quando Estela morreu choravam tanto!
Chovia tanto nessa madrugada!
— Era o pranto dos seus, casado ao pranto
Da Natureza — mãe desventurada

Ninguém podia ver-lhe o rosto santo,
A fronte nívea, a pálpebra cerrada,
Que não sentisse logo, em cada canto
Dos olhos uma lágrima engastada !

Ah! ... não credes, bem sei, porque não vistes!
Mas, quando ela morreu, chorava tudo!
Até dois círios, lânguidos e tristes,

Acendidos à sua cabeceira,
Iam chorando, no seu pranto mudo,
Um rosário de lágrimas de cera!

1 687
Paulo Véras

Paulo Véras

Oferenda

Trago nas mãos
um resto da noite passada
e entre os dedos o suco das estrelas
que como sábias irmãs
me fizeram companhia

Faltou tua orelhinha de búzio
onde eu escutava as marés
e retirava o sal amargo
com a língua em arpão

Esta memória de hoje
é apenas o retrato morto
de um corpo com impressões digitais
sobre a pele
Uma lembrança
que traz de volta
uma dor antiga
uma ferida que é uma boca
de tão aberta

E este peito
está tão cinzento
que chego a pensar
que chove nas vísceras

908
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Do Canto V:

Viagem Dentro e ao Redor de um Canteiro/
Seus Pronomes Relativos ou Passeio no Quintal:
Antilhas

tem de seu a vegetal baga,
de gente, essa servilidade
e em todas as prestanças úteis,
o querer-ser e ser o que é.

em forma de glândula e pêlo,
a angústia sai pelas folhas
e a tristeza de coisa estampa
a palidez de suas flores.

na maturidade, enrubece
a agridoce ovóide baga,
na substância de polpa aquosa;
tenção de não-servir contente.

816
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Poemas dos meus Sapatos Marrons

(Novamente Engraxados)

Um par de sapatos, que vida não leva!

Ontem, o meu cartou alto:
pisou casa de menina lorde
foi acariciado com o mimo
vermelho do tapete.

Inda me lembro como anoitecera
rabugento anteontem.
De manhã, antes de sairmos
lavei-lhe a cara com a escova.

Hoje, foi um dos seus dias mais tristes:
meteu-se numa poça dágua sem querer
pisou uma rã morta
e estalou uma barata.

956
Jonas da Silva

Jonas da Silva

Coração

Meu coração é um velho alpendre em cuja
Sombra se escuta pela noite morta
o som de um passo e o gonzo de uma porta
Que a umidade dos tempos enferruja.

Quem vai passando pela estrada torta
Que leva ao alpendre, dessa estrada fuja!
Lá só se encontra a fúnebre coruja
E a Dor, que a prece ao caminhando exorta.

Se um dia abrindo o casarão sombrio
Um abrigo buscasses contra o frio
E entrasses, doce criatura langue,

Fugirias tremente vendo a um lado
A Crença morta, o Sonho estrangulado
E o cadáver do Amor banhado em sangue!

1 780