Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Marcela Bueno

Marcela Bueno

Por fim lhe traí

Sentirei no corpo a brisa
Que sopra leve, desapercebida,
Passando suavemente pela vida
Que custei tanto para conseguir...

Assim serei borboleta,
Assim serei sereia,
O que será feito de mim?
Ao voar todas as manhãs
Por campos compenetrados de mistério
Com o rosto sério a me subestimar...

Sentirei por dentro um frio,
Vou querer afundar meu olhar
Na poça mais suja da rua
E ali indagar o pensar:
"Serei a sereia sua?"
Cantarei para seu espelho
Aquelas velhas músicas que lembram
Todos que já lhe esqueceram.

Eu levarei você comigo para o abrigo
Da chuva tola que molha o jardim
E você irá, sem mim,
Para o paraíso
Esta será a estória do Alecrim...
...o menino do mato que nasceu
Sem ser semeado...;
Como o nosso amor.

Sentirei a chuva, enfim
Caindo sobre mim,
Caindo e levando tudo
O que custei para conseguir.

Parece divertido ficar aqui lhe esperando,
Você que não chega na hora marcada
E não há nada mais triste,
Inconfundivelmente chato,
Do que amar sem ser amada.

Por fim, eu lhe traí.

Preferi o vento
À este sentimento
Que menti
Ser sincero no momento...

848
Gilka Machado

Gilka Machado

Odor dos manacás

De onde vem esta voz, este fundo lamento
com vagas vibrações de violino em surdina?
De onde vem esta voz que, nas asas, o vento
me traz, na hora violácea em que o dia declina?

Esta voz vegetal, que o meu olfato atento
ouve, certo é a expansão de uma mágoa ferina,
é o odor que os manacás soltam, num desalento,
sempre que a brisa os plange e as frondes lhes inclina.

Creio, aspirando-o, ouvir, numa metempsicose,
a alma errante e infeliz de uma extinta criatura
chamar ansiosamente outra alma que a despose...

Uma alma que viveu sozinha e incompreendida,
mas que, mesmo gozando uma vida mais pura,
inda chora a ilusão frustada noutra vida.



1 629
Rita Barém de Melo

Rita Barém de Melo

Que pensas?

Que pensas agora, que dor tão profunda
As fibras do peito me vem estalar?
Talvez de saudades tualma se inunda,
Que a vida passada te faz recordar!

Também esta mente saudosa delira,
Que flor da tristeza só vem oscular,
Em pranto dorido minh alma suspira
Sonhando contigo num doce lembrar.

As juras sagradas que em tão meigo enleio
Juraste é o a fala convulsa damor,
Ainda palpitam aqui neste seio,
Qu enluta amargoso, pungente tristor!

E sempre a lembrança da louca ternura
Abrasa a minhalma de longa paixão,
Que desse passado, rosal de ventura,
Eu tenho o perfume no meu coração!

Ai doces momentos em férvido pranto,
Te digo chorando bem trêmulo - adeus...
Ai doces momentos, d enlevo tão santo,
Ai vida d amores tão puros, meu Deus!

(Porto Alegre, 8 de outubro de 1856)



1 267
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Um poeta esteve na guerra

Um poeta esteve na guerra
dia a dia longos anos.
Participou do caos,
da astúcia, da fome.

Um poeta esteve na guerra.
Por entre a neve e a metralha
conheceu mundos e homens.
Homens que matavam e homens
que somente morriam.

Um poeta esteve na guerra
como qualquer, matando.
Para falar da guerra
tem apenas o pranto.

1 730
Rita Barém de Melo

Rita Barém de Melo

Minha lira a suspirar

Minha lira a suspirar,
Que dizes nesta canção?
São saudades são amores
Dessa flor - recordação! -

Minha lira a suspirar,
Que cantas com tanto ardor?
- Mais prantos do que sorrisos,
Mais tristezas que amor! -

Minha lira a suspirar,
Que tanges nesse amargor?
Não tens nas cordas sensíveis
Nem uma singela flor?

Lira minha que suspiras,
Não tens na vida (que dor)
Uma voz que fale ardente,
Ardentes falas damor?!

Lira minha que suspiras,
Como tu meiga quem é?
Mas triste lira não podes
Na ventura teres fé!

Lira minha que suspiras,
Na ventura tu não crês?
Mau condão fadou-te, lira,
Tão jovem, por que descrês?...

Minha lira a suspirar
Continua já não tens crença,
Na dita quem infiltrou-te
Essa profunda descrença?

Minha lira a suspirar
Só tens hinos damargor,
Só cantos de sofrimento,
Endeixas de muita dor!

(Março de 1856)

1 261
Lenilde Freitas

Lenilde Freitas

A Florbela Espanca

Conheço a casa
onde o acordar é infeliz

Na mesma rua, outras casas cintilam
no matiz em que os sonhos aterrissam

Um pássaro cuja plumagem é um pincel
voando torto despinta o céu

A casa que eu conheço
chove por dentro

enquanto a alma
de que lá mora

trinca no centro.

855
Roseli Silveira

Roseli Silveira

Definições

Sou fria e quase muda,
Quando quero ser terna,
Quando quero ser tua.

Sou pedra lisa e dura,
Que jamais canta
E que não se mostra viva,
Jamais.
Sou raiz que adentra pela terra,
Sou poeira que desaparece no ar.
Sou, quem sabe, o brilho na fresta da janela,
Que parece corpóreo,
Quando brilha o luar.

Sou água que evapora,
Sou nuvem que deságua,
Sou o sal que salga a água,
Sou a lágrima salgada
Que rolou do teu olhar...



370
Carla Dias

Carla Dias

Ausência

Bebi... sim...

de gole em gole, refrescou-se o silêncio
com a balbúrdia
da tua sofisticada
ausência.

Enveredou-se
pela trilha estreita,
Gritando,
voluptuosidade
ao inverno
e ao sol que gela.

Pouco a pouco,
reviram-se papéis
sobre a mesa
na hora do jantar.

Palavras sobrevoam
a fome latente.
Parece bonito,
mas quase arde.
Lentamente,
sedas se arrastam
pelo chão
da tua ausência.

Assim como meu corpo,
cravado em dúvidas,
no sofá,
retrata nosso momento fatal.

Não me traga
um rosto
quase pálido
de vida.

Traga-me
o perfume
engarrafado
no teu sorriso.

Assim
a ausência passa
e com ela
o grande perigo.

Perder...

965
Maria Isabel

Maria Isabel

A hora vazia

Onde as humildes palavras
Que ingenuamente disseste?
Onde os gestos dos teus braços
Nascidos para enlaçar?

Cansaste. O sol do deserto
Secou tua alma de fonte.
Morreu nos dedos do inútil
A tua frágil canção.

Não mais ouvirás soluços,
Não mais na noite deserta
Descobrirás desesperos.
Corpos virão sobre as ondas,
Diante dos teus olhos secos.

Houve uma voz nos teus lábios
Quente e viva. Quando foi?

Hoje a fadiga, hoje o sono.
Hoje, trágica e vazia,
A hora de contemplar.

786
Leila Mícollis

Leila Mícollis

Sempre, de vez em quando

Toda vez que amanheço
de porre, sem ter bebido,
é prenuncio de tempestades.
Os calos não doem
com a mudança do tempo,
mas meu coração dispara
e o olfato fica mais aguçado
que faro de perdigueiro.
Nestas horas,
não adianta ninguém me dizer
que "viver é experimentar",
porque o máximo que eu consigo
é avaliar as avarias
causadas pelos arpões.

914
Lenilde Freitas

Lenilde Freitas

A Sylvia Plath



Ouve os pombos, S...
o arrulho que eles fazem.
São sempre tão delicadas
as margaridas
e imprensada entre ladrilhos
cresce a grama.
Ouve os pombos, S...
se o tédio te aprisiona
entre estas asas úmidas
que não chegam às estrelas
nem vêem seu brilho.
Ouve, S... o arrulho que eles fazem.
Viver é doce. Cada dia tem seu som
cada som, sua gama.

977
Sylvia Plath

Sylvia Plath

Criança

O olho claro é a coisa mais bonita em você.
Quem dera enchê-lo de patos e cores,
Zôo do novo,

Nomes em que você pensa –
Campânula-de-abril, Cachimbo-de-índio,
Pequenino

Caule sem espinhos,
Lago em cujas margens, imagens
Pudessem ser clássicas e imensas

Não esse tenso
Torcer de mãos, esse teto
Escuro e sem estrela.

1 230
Leila Mícollis

Leila Mícollis

A seco

Tem coisas que a gente só diz de porre
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.

Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez
responsáveis por tamanha estupidez.

E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose... afetiva.

1 054
Eugénia Tabosa

Eugénia Tabosa

Esse olhar

Esse olhar parado
sem hoje nem passado
Esse olhar sem espera
como canto preso
em boca entreaberta
Esse olhar cansado
desfeito
sem jeito
não grita
não chora
Esse olhar desarmado
como barco sem leme
Existe
Não posso ignorá-lo!

1 012
Angela Santos

Angela Santos

Compromisso

Esquecerei
a Poesia
com que me digo e a ti chego
mas Poética será sempre minha forma de sentir......

assim moldada, forjada, foi.

Se devo sufocar o grito, sufocarei!
se devo estancar o rio
onde corre a força que me faz dizer, estancarei!
se devo sentir,
só por dentro de mim, sentirei !
mas guardarei acesa, ainda que só lembrança
a Clara Luz
em que um dia mergulhei.

1 191
Angela Santos

Angela Santos

A Contas com Deus

Há dias
em que à conversa com Deus
O chamo para o ajuste de contas....

E ainda que o Verbo seja,
Deus, não me responde!

Há dias
em que quebrando os remos
contra as vagas
cansa-me remar...

E pergunto:
quando aportarei?
E o que seja o Verbo
não me responde!

Há dias
em que não suporto as horas
e pergunto....
Até quando?
E o que seja o Verbo
o insustentável silencio me devolve

Há dias
em que o silencio aceito
e não pergunto
espero só de outro modo
saber ....

Porquê
o que seja o Verbo
o mais que perfeito
amor consentiu,
sem me doar o tempo
da sua infinita forma
conjugar?

1 105
Angela Santos

Angela Santos

Enquanto a tarde

cai...

Ao meu lado,
na placidez da tarde que finda
Num quarto qualquer , de uma qualquer cidade
Dormes, serenamente, esquecida de tudo
(quiça de mim também)....

Fico atenta aos resquícios de claridade
Que não me deixam cair nesse torpor
Que desce até ti, decifro os ruídos
Que invadem o quarto, onde me sinto estrangeira

Não durmo, mergulho nos sinais
Que chegam do lado de fora ...
Neles procuro as coisas pequenas
Que afastam de mim os fantasmas
Que invadem a vigília

Prefiro a vida, os minúsculos
Sinais da vida, a qualquer não
no teu silencio, nas minhas omissões...
salvar a vida nesse gesto inoportuno
de rir até da tristeza que escorre das ausências.

947
Joaquim Pessoa

Joaquim Pessoa

Outono

Uma lâmina de ar
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.
2 284
Fernando Tavares Rodrigues

Fernando Tavares Rodrigues

Confissão

Entre números
e cifrões transfigurado
Como se também fosse o que fingia.
E o amor por amar que me doía
Neste corpo de amor desocupado.

Assim vestia, dia a dia, o meu ofício
Dessa cor que não serve os namorados:
A gravata, o colarinho de silício
E os gestos tão iguais, tão estudados

Para ganhar um pão que nunca quis
Virei os meus sonhos do avesso
Em vez de continuar a ser feliz.

E hoje só sei que o não mereço,
Que a imagem que criei já não condiz
Com aquele que, mesmo assim, ainda pareço.

1 092
Joaquim Pessoa

Joaquim Pessoa

Ícaro

A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.
1 679
Angela Santos

Angela Santos

Gingle Bells

Gingle
Bells
Segundo dia do mês da celebração
Natividade, a alegria…
mas não se esquece
o que escorre por fora dos dias da festa

Luzes, ruas serpenteadas, tristeza e alegria
olhos de agua rasos, fartura, falta,
miséria, desperdício,descaminhos,
almas vazias e a imensa solidão…
dos que vão sozinhos
pelas avenidas feridas de Neóns

Gingle Bells
nas vitrines, nos corações que comerciam
na imaginação pura e sem enfeites das crianças,
nos olhos de quem vai ao frio
sentir que está longe de tudo
e guarda esbatida, a memória longínqua
de uma noite de Natal.

"We Wish a Merry Christmas"
cantam sorridentes pais-natais
dentro de redomas longe do alcance
de quem não sabe outra língua
e fixa com olhos de espanto
o boneco barbudo articulado
Perdidos, apressados, massificados
não reparamos…
atiramos os dias pela janela
guardando o brilho nos olhos
para a festa marcada nos calendários.

Natal
quotidianamente impresso
em nossas vidas e gestos
diária celebração, era o Natal que eu queria
ter
sem uivos que rompam a nossa surdez
ou ilusórios mundos de luz
sem marcas na agenda que insistem lembrar
que é dia da vida acontecer.

723
Fernando Pinto do Amaral

Fernando Pinto do Amaral

Escotomas

Não sei
o que é um espírito. Ninguém
conhece a fundo a luz do seu abismo
enquanto o vento, à noite, vai abrindo
as infinitas portas de uma casa
vazia. A minha voz
procura responder a outra voz,
ao choro dos espectros que celebram
a sua missa negra, o seu eterno
sobressalto. Num ermo
da cidade magoada escuto ainda
o rumor de um oráculo,
a febre de um adeus que se prolonga
no estertor dos ponteiros de um relógio,
nesse ritmo feroz, na pulsação
do meu sangue exilado que recorda
um abrigo divino. pai nosso, que estás
entre o céu e a terra, conduz-me
ao precipício onde hibernou a alma
e ensina-me a romper a madrugada
como se a minha face fosse
um estilhaço da tua
e nela derretessem, por milagre,
estas gotas de gelo ou de cristal
que não sabem ser lágrimas.

1 968
Angela Santos

Angela Santos

Ao Sul

Nas
terras do sul
há uma lonjura que entra pelos olhos
Instala-se na alma e deixa-se ficar

Nas terras do sul
há homens cansados, colados às paredes
brancas de cal lisa

A planície entende-se e lembra o mar
outras vezes lembra
um deserto vasto a perder de vista
E os homens do sul
cansados de olhar o que foi planície
e parece mar
quando o sol abrasa perdem-se na miragem
que os desertos guardam

Nas terras do sul
há um destino vago e dias de incerteza
e é junto às árvores
que se erguem a prumo e a sombra espelham
que param cansados e choram a terra
com seu olhar vago, seu olhar sem rumo

E na corda a prumo que à arvore se enlaça
em silencio acenam um ultimo adeus
ao sol, à planície, ao vazio ao mundo.

978
Angela Santos

Angela Santos

Meninos

Olho
os meninos que habitam a rua
casa que abriga
quem dentro das casas escoa os restos
da sua alma nua

E nas noites frias
em bando se juntam, sacudindo o frio
que trazem colado à pele e à vida,

Meninos,
perdidos pelas esquinas
nem sabem que existe um tempo adiante
que já não conjugam,
futuro imperfeito cravado nos dias.

E os meninos olham-nos
com seus olhos fundos que nos desafiam
e sentimos medo… não sentimos culpa!

1 088