Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Álvares de Azevedo
ESPERANÇAS
Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte
Oh! si elle m'eût aimé...
ALFRED DE VIGNY, Chatterton
Se a ilusão de minh'alma foi mentida
E, leviana, da árvore da vida,
As flores desbotei...
Se por sonhos do amor de uma donzela
Imolei meu porvir e o ser por ela
Em prantos esgotei...
Se a alma consumi na dor que mata
E banhei de uma lágrima insensata
A última esperança,
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como dos mares pela noite infinda
A estrela da bonança!
Como nas folhas do Missal do templo
Os mistérios de Deus em ti contemplo
E na tu'alma os sinto!
Às vezes, delirante, se eu maldigo
As esperanças que sonhei contigo,
Perdoa-me, que minto!
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como do peito a aspiração infinda
Que me influi o viver...
E como a nuvem de azulado incenso...
Como eu amo esse afeto único, imenso
Que me fará morrer!
Rompeste a alva túnica luzente
Que eu doirava por ti de amor demente
E aromei de abusões...
Deste-me em troco lágrimas aspérrimas...
Ah! que morreram a sangrar misérrimas
As minhas ilusões!
Nos encantos das fadas da ventura
Podes dormir ao sol da formosura
Sempre bela e feliz!
Irmã dos anjos, sonharei contigo:
A alma a quem negaste o último abrigo
Chora... não te maldiz!
Chora e sonha e espera: a negra sina
Talvez no céu se apague em purpurina
Alvorada de amor...
E eu acorde no céu num teu abraço
E repouse tremendo em teu regaço
Teu pobre sonhador!
Primeira Parte
Oh! si elle m'eût aimé...
ALFRED DE VIGNY, Chatterton
Se a ilusão de minh'alma foi mentida
E, leviana, da árvore da vida,
As flores desbotei...
Se por sonhos do amor de uma donzela
Imolei meu porvir e o ser por ela
Em prantos esgotei...
Se a alma consumi na dor que mata
E banhei de uma lágrima insensata
A última esperança,
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como dos mares pela noite infinda
A estrela da bonança!
Como nas folhas do Missal do templo
Os mistérios de Deus em ti contemplo
E na tu'alma os sinto!
Às vezes, delirante, se eu maldigo
As esperanças que sonhei contigo,
Perdoa-me, que minto!
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como do peito a aspiração infinda
Que me influi o viver...
E como a nuvem de azulado incenso...
Como eu amo esse afeto único, imenso
Que me fará morrer!
Rompeste a alva túnica luzente
Que eu doirava por ti de amor demente
E aromei de abusões...
Deste-me em troco lágrimas aspérrimas...
Ah! que morreram a sangrar misérrimas
As minhas ilusões!
Nos encantos das fadas da ventura
Podes dormir ao sol da formosura
Sempre bela e feliz!
Irmã dos anjos, sonharei contigo:
A alma a quem negaste o último abrigo
Chora... não te maldiz!
Chora e sonha e espera: a negra sina
Talvez no céu se apague em purpurina
Alvorada de amor...
E eu acorde no céu num teu abraço
E repouse tremendo em teu regaço
Teu pobre sonhador!
2 068
Álvares de Azevedo
DESALENTO
Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte
Por que havíeis passar tão doces dias?
A. F. DE SERPA PIMENTEL
Feliz daquele que no livro d'alma
Não tem folhas escritas
E nem saudade amarga, arrependida,
Nem lágrimas malditas!
Feliz daquele que de um anjo as tranças
Não respirou sequer
E nem bebeu eflúvios descorando
Numa voz de mulher...
E não sentiu-lhe a mão cheirosa e branca
Perdida em seus cabelos,
Nem resvalou do sonho deleitoso
A reais pesadelos...
Quem nunca te beijou, flor dos amores,
Flor do meu coração,
E não pediu frescor, febril e insano
Da noite à viração!
Ah! feliz quem dormiu no colo ardente
Da huri dos amores,
Que sôfrego bebeu o orvalho santo
Das perfumadas flores...
E pôde vê-la morta ou esquecida
Dos longos beijos seus,
Sem blasfemar das ilusões mais puras
E sem rir-se de Deus!
Mas, nesse doloroso sofrimento
Do pobre peito meu,
Sentir no coração que à dor da vida
A esperança morreu!...
Que me resta, meu Deus? aos meus suspiros
Nem geme a viração...
E dentro, no deserto do meu peito,
Não dorme o coração!
Primeira Parte
Por que havíeis passar tão doces dias?
A. F. DE SERPA PIMENTEL
Feliz daquele que no livro d'alma
Não tem folhas escritas
E nem saudade amarga, arrependida,
Nem lágrimas malditas!
Feliz daquele que de um anjo as tranças
Não respirou sequer
E nem bebeu eflúvios descorando
Numa voz de mulher...
E não sentiu-lhe a mão cheirosa e branca
Perdida em seus cabelos,
Nem resvalou do sonho deleitoso
A reais pesadelos...
Quem nunca te beijou, flor dos amores,
Flor do meu coração,
E não pediu frescor, febril e insano
Da noite à viração!
Ah! feliz quem dormiu no colo ardente
Da huri dos amores,
Que sôfrego bebeu o orvalho santo
Das perfumadas flores...
E pôde vê-la morta ou esquecida
Dos longos beijos seus,
Sem blasfemar das ilusões mais puras
E sem rir-se de Deus!
Mas, nesse doloroso sofrimento
Do pobre peito meu,
Sentir no coração que à dor da vida
A esperança morreu!...
Que me resta, meu Deus? aos meus suspiros
Nem geme a viração...
E dentro, no deserto do meu peito,
Não dorme o coração!
2 061
Antero de Quental
Consulta
Chamei em volta do meu frio leito
As memórias melhores de outra idade,
Formas vagas, que às noites, com piedade,
Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito…
E disse-lhes: No mundo imenso e estreito
Valia a pena, acaso, em ansiedade
Ter nascido? Dizei-mo com verdade,
Pobres memórias que eu ao seio estreito.
Mas elas perturbaram-se – coitadas!
E empalideceram, contristadas,
Ainda a mais feliz, a mais serena…
E cada uma delas, lentamente,
Com um sorriso mórbido, pungente,
Me respondeu: – Não, não valia a pena!
As memórias melhores de outra idade,
Formas vagas, que às noites, com piedade,
Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito…
E disse-lhes: No mundo imenso e estreito
Valia a pena, acaso, em ansiedade
Ter nascido? Dizei-mo com verdade,
Pobres memórias que eu ao seio estreito.
Mas elas perturbaram-se – coitadas!
E empalideceram, contristadas,
Ainda a mais feliz, a mais serena…
E cada uma delas, lentamente,
Com um sorriso mórbido, pungente,
Me respondeu: – Não, não valia a pena!
2 853
Álvares de Azevedo
DESÂNIMO
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
Estou agora triste. Há nesta vida
Páginas torvas que se não apagam,
Nódoas que não se lavam... se esquecê-las
De todo não é dado a quem padece...
Ao menos resta ao sonhador consolo
No imaginar dos sonhos de mancebo!
Oh! voltai uma vez! eu sofro tanto!
Meus sonhos, consolai-me! distraí-me!
Anjos das ilusões, as asas brancas
As névoas puras, que outro sol matiza.
Abri ante meus olhos que abraseiam
E lágrimas não tem que a dor do peito
Transbordem um momento...
E tu, imagem,
Ilusão de mulher, querido sonho,
Na hora derradeira, vem sentar-te,
Pensativa e saudosa no meu leito!
O que sofres? que dor desconhecida
Inunda de palor teu rosto virgem?
Por que tu'alma dobra taciturna,
Como um lírio a um bafo d'infortúnio?
Por que tão melancólica suspiras?
Ilusão, ideal, a ti meus sonhos,
Como os cantos a Deus se erguem gemendo!
Por ti meu pobre coração palpita...
Eu sofro tanto! meus exaustos dias
Não sei por que logo ao nascer manchou-os
De negra profecia um Deus irado.
Outros meu fado invejam... Que loucura!
Que valem as ridículas vaidades
De uma vida opulenta, os falsos mimos
De gente que não ama? Até o gênio
Que Deus lançou-me à doentia fronte,
Qual semente perdida num rochedo,
Tudo isso que vale, se padeço!
Nessas horas talvez em mim não pensas:
Pousas sombria a desmaiada face
Na doce mão e pendes-te sonhando
No teu mundo ideal de fantasia...
Se meu orgulho, que fraqueia agora,
Pudesse crer que ao pobre desditoso
Sagravas uma idéia, uma saudade...
Eu seria um instante venturoso!
Mas não... ali no baile fascinante,
Na alegria brutal da noite ardente,
No sorriso ebrioso e tresloucado
Daqueles homens que, pra rir um pouco,
Encobrem sob a máscara o semblante,
Tu não pensas em mim. Na tua idéia
Se minha imagem retratou-se um dia
Foi como a estrela peregrina e pálida
Sobre a face de um lago...
Segunda Parte
Estou agora triste. Há nesta vida
Páginas torvas que se não apagam,
Nódoas que não se lavam... se esquecê-las
De todo não é dado a quem padece...
Ao menos resta ao sonhador consolo
No imaginar dos sonhos de mancebo!
Oh! voltai uma vez! eu sofro tanto!
Meus sonhos, consolai-me! distraí-me!
Anjos das ilusões, as asas brancas
As névoas puras, que outro sol matiza.
Abri ante meus olhos que abraseiam
E lágrimas não tem que a dor do peito
Transbordem um momento...
E tu, imagem,
Ilusão de mulher, querido sonho,
Na hora derradeira, vem sentar-te,
Pensativa e saudosa no meu leito!
O que sofres? que dor desconhecida
Inunda de palor teu rosto virgem?
Por que tu'alma dobra taciturna,
Como um lírio a um bafo d'infortúnio?
Por que tão melancólica suspiras?
Ilusão, ideal, a ti meus sonhos,
Como os cantos a Deus se erguem gemendo!
Por ti meu pobre coração palpita...
Eu sofro tanto! meus exaustos dias
Não sei por que logo ao nascer manchou-os
De negra profecia um Deus irado.
Outros meu fado invejam... Que loucura!
Que valem as ridículas vaidades
De uma vida opulenta, os falsos mimos
De gente que não ama? Até o gênio
Que Deus lançou-me à doentia fronte,
Qual semente perdida num rochedo,
Tudo isso que vale, se padeço!
Nessas horas talvez em mim não pensas:
Pousas sombria a desmaiada face
Na doce mão e pendes-te sonhando
No teu mundo ideal de fantasia...
Se meu orgulho, que fraqueia agora,
Pudesse crer que ao pobre desditoso
Sagravas uma idéia, uma saudade...
Eu seria um instante venturoso!
Mas não... ali no baile fascinante,
Na alegria brutal da noite ardente,
No sorriso ebrioso e tresloucado
Daqueles homens que, pra rir um pouco,
Encobrem sob a máscara o semblante,
Tu não pensas em mim. Na tua idéia
Se minha imagem retratou-se um dia
Foi como a estrela peregrina e pálida
Sobre a face de um lago...
3 204
Cruz e Sousa
MADONA DA TRISTEZA
Últimos Sonetos
Quando te escuto e te olho reverente
e sinto a tua graça triste e bela
de ave medrosa, tímida, singela,
fico a cismar enternecidamente.
Tua voz, teu olhar, teu ar dolente
toda a delicadeza ideal revela
e de sonhos e lágrimas estrela
o meu ser comovido e penitente.
Com que mágoa te adoro e te contemplo,
ó da Piedade soberano exemplo,
flor divina e secreta da Beleza!
Os meus soluços enchem os espaços,
quando te aperto nos estreitos braços,
solitária madona da Tristeza!
Quando te escuto e te olho reverente
e sinto a tua graça triste e bela
de ave medrosa, tímida, singela,
fico a cismar enternecidamente.
Tua voz, teu olhar, teu ar dolente
toda a delicadeza ideal revela
e de sonhos e lágrimas estrela
o meu ser comovido e penitente.
Com que mágoa te adoro e te contemplo,
ó da Piedade soberano exemplo,
flor divina e secreta da Beleza!
Os meus soluços enchem os espaços,
quando te aperto nos estreitos braços,
solitária madona da Tristeza!
3 086
Cruz e Sousa
COGITAÇÃO
Últimos Sonetos
Ah! mas então tudo será baldado?!
Tudo desfeito e tudo consumido?!
No Ergástulo d'ergástulos perdido
tanto desejo e sonho soluçado?!
Tudo se abismará desesperado,
do desespero do Viver batido,
na convulsão de um único Gemido
nas entranhas da Terra concentrado?!
Nas espirais tremendas dos suspiros
a alma congelará nos grandes giros,
rastejará e rugirá rolando?!
Ou, entre estranhas sensações sombrias,
melancolias e melancolias,
no eixo da alma de Hamlet irá girando ?!
Ah! mas então tudo será baldado?!
Tudo desfeito e tudo consumido?!
No Ergástulo d'ergástulos perdido
tanto desejo e sonho soluçado?!
Tudo se abismará desesperado,
do desespero do Viver batido,
na convulsão de um único Gemido
nas entranhas da Terra concentrado?!
Nas espirais tremendas dos suspiros
a alma congelará nos grandes giros,
rastejará e rugirá rolando?!
Ou, entre estranhas sensações sombrias,
melancolias e melancolias,
no eixo da alma de Hamlet irá girando ?!
1 538
Felipe Vianna
VIDA
Dança dourado luar
No reflexo espelhado do mar.
Este amor platônico
As ondas vêm à praia chorar.
Choras porque tens consciência
Que o que tens é só referência
Já que a verdadeira lua não podes abraçar
Deves contentar-te apenas com a luz do luar.
Mas o que é a vida
Se não apenas um espelho
De uma coisa já ida
Que nunca veio.
24/06/2001
No reflexo espelhado do mar.
Este amor platônico
As ondas vêm à praia chorar.
Choras porque tens consciência
Que o que tens é só referência
Já que a verdadeira lua não podes abraçar
Deves contentar-te apenas com a luz do luar.
Mas o que é a vida
Se não apenas um espelho
De uma coisa já ida
Que nunca veio.
24/06/2001
891
Felipe Larson
A CHUVA DE 1751
A tempestade que cai lá fora
Não dá para agüentar
Está na hora de parar de chover
Estou com as pernas doendo
De tanto correr da chuva
Da chuva lá de fora
A chuva que caiu
Não vai poder cair mais
E não vai poder cair
Pois já choveu demais
E agora o que eu faço
Será que me joga na poça d'água
Pra me molhar
Pra me molhar de uma vez
E eu não, não quero mais
Chorar pelos cantos outra vez
Não dá para agüentar
Está na hora de parar de chover
Estou com as pernas doendo
De tanto correr da chuva
Da chuva lá de fora
A chuva que caiu
Não vai poder cair mais
E não vai poder cair
Pois já choveu demais
E agora o que eu faço
Será que me joga na poça d'água
Pra me molhar
Pra me molhar de uma vez
E eu não, não quero mais
Chorar pelos cantos outra vez
843
Felipe Larson
I´M GOING DOWN
Eu quero ter, alguém pra mim
Ai vem você e pisa em mim
Eu não tô legal
O nosso prazer chegou ao fim
Difícil dizer, mas espero teu sim
Isso é tão normal
Mas quando tudo mudar
Você vai notar
Que eu to ficando mal
Quando a chuva chegar
E o tempo passar
I´m going down!
Por sua causa, no que me meti
Não tenho alma, pois a vendi
Eu não fiz por mal
Mas quando tudo mudar
Você vai notar
Eu to ficando mal
Mas quando tudo sumir
A estrela cair
Eu vou ficar legal
Ai vem você e pisa em mim
Eu não tô legal
O nosso prazer chegou ao fim
Difícil dizer, mas espero teu sim
Isso é tão normal
Mas quando tudo mudar
Você vai notar
Que eu to ficando mal
Quando a chuva chegar
E o tempo passar
I´m going down!
Por sua causa, no que me meti
Não tenho alma, pois a vendi
Eu não fiz por mal
Mas quando tudo mudar
Você vai notar
Eu to ficando mal
Mas quando tudo sumir
A estrela cair
Eu vou ficar legal
760
Felipe Larson
DESLIGADO!
Eu andava tão desligado e desatento
Que não notava as coisas ao meu redor
Uma nuvem escura e um peso na alma
Nada me levantava a moral de ser normal
Eu quero uma conversa franca e clara
Falando das verdades e das ficções
Sobre o que aconteceu sem saber aonde
Usando a inspiração com revolução
Tudo parece tão calmo que até estranho
Não é legal esse silêncio que chegou
Todos se calaram e sumiram daqui
Mas a cidade anda meio estranha demais
Quero novidades boas nesse momento
Pois não agüento mais esse silêncio
O desespero de um grito não ouvido
E algo diferente surgia no olhar
Mas quem sabe tudo é um começo
De uma nova geração
Que não notava as coisas ao meu redor
Uma nuvem escura e um peso na alma
Nada me levantava a moral de ser normal
Eu quero uma conversa franca e clara
Falando das verdades e das ficções
Sobre o que aconteceu sem saber aonde
Usando a inspiração com revolução
Tudo parece tão calmo que até estranho
Não é legal esse silêncio que chegou
Todos se calaram e sumiram daqui
Mas a cidade anda meio estranha demais
Quero novidades boas nesse momento
Pois não agüento mais esse silêncio
O desespero de um grito não ouvido
E algo diferente surgia no olhar
Mas quem sabe tudo é um começo
De uma nova geração
765
Ricardo Miró
A última gaivota
Como uma franja agitada, rasgada
do manto da tarde, em rápido vôo
se esfuma o bando pelo céu
buscando, acaso, uma ribeira desconhecida.
Atrás, muito longe, segue uma gaivota
que com crescente e persistente desejo
vai da solidão rasgando o véu
por alcançar o bando, já remoto.
Da tarde surgiu a casta estrela
e achou sempre voando a esquecida,
da rápida patrulha atrás a hulha.
História de minha vida compreendida,
porque eu sou, qual gaivota aquela,
ave deixada atrás pelo bando!
do manto da tarde, em rápido vôo
se esfuma o bando pelo céu
buscando, acaso, uma ribeira desconhecida.
Atrás, muito longe, segue uma gaivota
que com crescente e persistente desejo
vai da solidão rasgando o véu
por alcançar o bando, já remoto.
Da tarde surgiu a casta estrela
e achou sempre voando a esquecida,
da rápida patrulha atrás a hulha.
História de minha vida compreendida,
porque eu sou, qual gaivota aquela,
ave deixada atrás pelo bando!
898
César Vallejo
O pão nosso
Bebe-se o café da manhã...úmida terra
de cemitério cheira a sangue amado.
Cidade de inverno...A mordaz cruzada
de uma carreta que arrastar parece
uma emoção de jejum encadeada!
Quisera-se bater em todas as portas,
e perguntar por não sei quem, e logo
ver aos pobres, e, chorando quietos
dar pedacinhos de pão fresco a todos.
E saquear aos ricos seus vinhedos
com as duas mãos santas
que a um golpe de luz
voaram desencravadas da Cruz!
Pestana matinal, não vos levanteis!
O pão nosso de cada dia dá-nos,
Senhor...!
Todos os meus ossos são alheios
eu talvez os roubei!
Eu vim a dar-me o que acaso esteve
destinado para outro;
e penso que, se não houvesse nascido,
outro pobre tomasse este café!
Eu sou um mau ladrão...Aonde irei!
E nesta hora fria, em que a terra
transcende ao pó humano e é tão triste,
quisesse eu bater em todas as portas,
e suplicar a não sei quem, perdão,
e fazer-lhe pedacinhos de pão fresco
aqui, no forno de meu coração...!
de cemitério cheira a sangue amado.
Cidade de inverno...A mordaz cruzada
de uma carreta que arrastar parece
uma emoção de jejum encadeada!
Quisera-se bater em todas as portas,
e perguntar por não sei quem, e logo
ver aos pobres, e, chorando quietos
dar pedacinhos de pão fresco a todos.
E saquear aos ricos seus vinhedos
com as duas mãos santas
que a um golpe de luz
voaram desencravadas da Cruz!
Pestana matinal, não vos levanteis!
O pão nosso de cada dia dá-nos,
Senhor...!
Todos os meus ossos são alheios
eu talvez os roubei!
Eu vim a dar-me o que acaso esteve
destinado para outro;
e penso que, se não houvesse nascido,
outro pobre tomasse este café!
Eu sou um mau ladrão...Aonde irei!
E nesta hora fria, em que a terra
transcende ao pó humano e é tão triste,
quisesse eu bater em todas as portas,
e suplicar a não sei quem, perdão,
e fazer-lhe pedacinhos de pão fresco
aqui, no forno de meu coração...!
1 378
César Vallejo
Pedra preta sobre pedra branca
Morrerei em Paris com aguaceiro,
um dia do qual tenho já a lembrança.
Morrerei em Paris - e não me apresso -
talvez em uma quinta-feira, como é hoje, de outono.
Quinta-feira será, porque hoje, quinta, que proseio
estes versos, os úmeros hei posto
a mau e, jamais como hoje, hei voltado
com todo meu caminho, a ver-me só.
César Vallejo há morto, lhe batiam
todos sem que ele lhes faça nada
davam-lhe forte com um pau e duro
Também com uma corda, são testemunhos
os dias de quinta e os ossos úmeros,
a solidão, a chuva, os caminhos...
um dia do qual tenho já a lembrança.
Morrerei em Paris - e não me apresso -
talvez em uma quinta-feira, como é hoje, de outono.
Quinta-feira será, porque hoje, quinta, que proseio
estes versos, os úmeros hei posto
a mau e, jamais como hoje, hei voltado
com todo meu caminho, a ver-me só.
César Vallejo há morto, lhe batiam
todos sem que ele lhes faça nada
davam-lhe forte com um pau e duro
Também com uma corda, são testemunhos
os dias de quinta e os ossos úmeros,
a solidão, a chuva, os caminhos...
1 432
Manuel Machado
Outono
No parque, eu só...
Hão fechado
e, esquecido
no parque velho, só
Hão-me deixado.
A folha seca
vagamente
indolente
roça o solo...
Nada sei,
nada quero,
nada espero,
Nada...
Só
no parque hão-me deixado
esquecido,
...e hão fechado.
Hão fechado
e, esquecido
no parque velho, só
Hão-me deixado.
A folha seca
vagamente
indolente
roça o solo...
Nada sei,
nada quero,
nada espero,
Nada...
Só
no parque hão-me deixado
esquecido,
...e hão fechado.
1 014
Mario Benedetti
Ontem
Ontem passou o passado lentamente
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.
Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.
Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza
com sua pegada de espanto e de reprovação.
Foi fazendo da dor um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te a sós com a noite.
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.
Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.
Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza
com sua pegada de espanto e de reprovação.
Foi fazendo da dor um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te a sós com a noite.
3 000
Manuel Machado
Melancolia
Sinto-me, às vezes, triste
como uma tarde do outono velho;
de saudades sem nomes,
de aflições melancólicas tão cheio...
Meu pensamento, então,
vaga junto às tumbas dos mortos
e em torno dos ciprestes e salgueiros
que abatidos, se inclinam... e me lembro
de historias tristes, sem poesia... Historias
que têm quase brancos meus cabelos.
como uma tarde do outono velho;
de saudades sem nomes,
de aflições melancólicas tão cheio...
Meu pensamento, então,
vaga junto às tumbas dos mortos
e em torno dos ciprestes e salgueiros
que abatidos, se inclinam... e me lembro
de historias tristes, sem poesia... Historias
que têm quase brancos meus cabelos.
1 330
Antonio Machado
Tenho andado muitos caminhos
Tenho andado muitos caminhos
tenho aberto muitas veredas;
tenho navegado em cem mares
e atracado em cem ribeiras
Em todas partes tenho visto
caravanas de tristeza
orgulhosos e melancólicos
borrachos de sombra negra.
E pedantes ao pano
que olham, calam e pensam
que sabem, porque não bebem
o vinho das tabernas
Má gente que caminha
e vai empestando a terra...
E em todas partes tenho visto
pessoas que dançam ou jogam,
quando podem, e lavoram
seus quatro palmos de terra.
Nunca, se chegam a um lugar
perguntam a onde chegam.
Quando caminham, cavalgam
lombos de mula velha.
E não conhecem a pressa
nem mesmo nos dias de festa.
Onde há vinho, bebem vinho,
onde não há vinho, água fresca.
tenho aberto muitas veredas;
tenho navegado em cem mares
e atracado em cem ribeiras
Em todas partes tenho visto
caravanas de tristeza
orgulhosos e melancólicos
borrachos de sombra negra.
E pedantes ao pano
que olham, calam e pensam
que sabem, porque não bebem
o vinho das tabernas
Má gente que caminha
e vai empestando a terra...
E em todas partes tenho visto
pessoas que dançam ou jogam,
quando podem, e lavoram
seus quatro palmos de terra.
Nunca, se chegam a um lugar
perguntam a onde chegam.
Quando caminham, cavalgam
lombos de mula velha.
E não conhecem a pressa
nem mesmo nos dias de festa.
Onde há vinho, bebem vinho,
onde não há vinho, água fresca.
2 230
Gabriela Mistral
A flor do ar
Eu a encontrei por meu destino,
de pé a metade da pradaria,
governadora do que passe,
do que lhe fale e que a veja.
E ela me disse: "Sobe ao monte".
Eu nunca deixo a pradaria,
e me cortas as flores brancas
como neves, duras e delicadas".
Subi à acida montanha,
busquei as flores onde alvejam,
entre as rochas existindo
meio dormidas e despertas.
Quando desci com minha carga,
a encontrei a metade da pradaria.
e fui cubrindo-a frenética
com uma torrente de açucenas
e sem olhar-se a brancura,
ela me disse: "Tu carregas
agora só flores vermelhas.
Eu não posso passar a pradaria".
Subi as penas com o veado
e busquei flores de demência,
as que avermelham e parecem
que de vermelho vivam e morram
de pé a metade da pradaria,
governadora do que passe,
do que lhe fale e que a veja.
E ela me disse: "Sobe ao monte".
Eu nunca deixo a pradaria,
e me cortas as flores brancas
como neves, duras e delicadas".
Subi à acida montanha,
busquei as flores onde alvejam,
entre as rochas existindo
meio dormidas e despertas.
Quando desci com minha carga,
a encontrei a metade da pradaria.
e fui cubrindo-a frenética
com uma torrente de açucenas
e sem olhar-se a brancura,
ela me disse: "Tu carregas
agora só flores vermelhas.
Eu não posso passar a pradaria".
Subi as penas com o veado
e busquei flores de demência,
as que avermelham e parecem
que de vermelho vivam e morram
1 921
Alfonsina Storni
Diante do mar
Oh, mar, enorme mar, coração feroz
de ritmo desigual, coração mau,
eu sou mais tenra que esse pobre pau
que, prisioneiro, apodrece nas tuas vagas.
Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda,
eu passei a vida a perdoar,
porque entendia, mar, eu me fui dando:
"Piedade, piedade para o que mais ofenda".
Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.
Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.
Empobreci porque entender aflige,
empobreci porque entender sufoca,
abençoada seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como a espuma.
Mar, eu sonhava ser como tu és,
além nas tardes em que a minha vida
sob as horas cálidas se abria...
Ah, eu sonhava ser como tu és.
Olha para mim, aqui, pequena, miserável,
com toda a dor que me vence, com o sonho todos;
mar, dá-me, dá-me o inefável empenho
de tornar-me soberba, inacessível.
Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade,
Ar do mar!... Oh, tempestade! Oh, enfado!
Pobre de mim, sou um recife
E morro, mar, sucumbo na minha pobreza.
E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!
Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança...
A minha vida deve ter sido horrível,
deve ter sido uma artéria incontível
e é apenas cicatriz que sempre dói.
de ritmo desigual, coração mau,
eu sou mais tenra que esse pobre pau
que, prisioneiro, apodrece nas tuas vagas.
Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda,
eu passei a vida a perdoar,
porque entendia, mar, eu me fui dando:
"Piedade, piedade para o que mais ofenda".
Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.
Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.
Empobreci porque entender aflige,
empobreci porque entender sufoca,
abençoada seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como a espuma.
Mar, eu sonhava ser como tu és,
além nas tardes em que a minha vida
sob as horas cálidas se abria...
Ah, eu sonhava ser como tu és.
Olha para mim, aqui, pequena, miserável,
com toda a dor que me vence, com o sonho todos;
mar, dá-me, dá-me o inefável empenho
de tornar-me soberba, inacessível.
Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade,
Ar do mar!... Oh, tempestade! Oh, enfado!
Pobre de mim, sou um recife
E morro, mar, sucumbo na minha pobreza.
E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!
Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança...
A minha vida deve ter sido horrível,
deve ter sido uma artéria incontível
e é apenas cicatriz que sempre dói.
1 377
Alfonsina Storni
Dorme tranqüilo
Falaste a palavra que enamora
meus ouvidos. Já esqueceste? Bom.
Dorme tranqüilo, deve estar sereno
e charmoso o teu rosto a toda hora.
Quando encanta a boca sedutora
deve ser fresca, seu dizer ameno;
Para teu ofício de amante não é bom
o rosto ardido de quem muito chora.
Reclamam-te destinos mais gloriosos
que o de levar, entre os negros poços
das olheiras, o olhar em duelo.
Cobre de belas vítimas o solo!
Mais dano ao mundo fez a espada fátua
de algum bárbaro rei e tem estátua.
meus ouvidos. Já esqueceste? Bom.
Dorme tranqüilo, deve estar sereno
e charmoso o teu rosto a toda hora.
Quando encanta a boca sedutora
deve ser fresca, seu dizer ameno;
Para teu ofício de amante não é bom
o rosto ardido de quem muito chora.
Reclamam-te destinos mais gloriosos
que o de levar, entre os negros poços
das olheiras, o olhar em duelo.
Cobre de belas vítimas o solo!
Mais dano ao mundo fez a espada fátua
de algum bárbaro rei e tem estátua.
907
José Angel Buesa
Poema do renunciamento
Passarás por minha vida sem saber que passaste
Passarás em silêncio por meu amor e, ao passar,
fingirei um sorriso, como um doce contraste
de dor de querer-te... e jamais o saberás.
Sonharei com o nácar virginal de tua testa;
sonharei com teus olhos de esmeralda de mar;
sonharei com teus lábios desesperadamente;
sonharei com teus beijos... e jamais o saberás
Talvez passes com outro que te diga ao ouvido
essas frases que ninguém como eu te dirá;
e afogando para sempre meu amor inadvertido,
te amarei mais que nunca... e jamais saberás.
Eu te amarei em silêncio, como algo inacessível,
como um sonho que nunca conseguirei realizar;
e o longínquo perfume de meu amor impossível
roçará teus cabelos... e jamais o saberás
E se um dia uma lágrima denuncia meu tormento
o tormento infinito que devo ocultar
te direi sorridente: "não é nada...foi o vento".
Me enxugarei a lágrima... e jamais o saberás
Passarás em silêncio por meu amor e, ao passar,
fingirei um sorriso, como um doce contraste
de dor de querer-te... e jamais o saberás.
Sonharei com o nácar virginal de tua testa;
sonharei com teus olhos de esmeralda de mar;
sonharei com teus lábios desesperadamente;
sonharei com teus beijos... e jamais o saberás
Talvez passes com outro que te diga ao ouvido
essas frases que ninguém como eu te dirá;
e afogando para sempre meu amor inadvertido,
te amarei mais que nunca... e jamais saberás.
Eu te amarei em silêncio, como algo inacessível,
como um sonho que nunca conseguirei realizar;
e o longínquo perfume de meu amor impossível
roçará teus cabelos... e jamais o saberás
E se um dia uma lágrima denuncia meu tormento
o tormento infinito que devo ocultar
te direi sorridente: "não é nada...foi o vento".
Me enxugarei a lágrima... e jamais o saberás
1 423
Roberto Juarroz
Poema dedicado a Antonio Porchia
Havemos amado juntos tantas coisas
que é difícil amá-las separados.
Parece que se houveram afastado de repente
ou que o amor fora uma formiga
escalando os declives do céu.
Havemos vivido juntos tanto abismo
que sem você tudo parece superfície,
orbita de simulados que resvalam,
tensão sem extensões,
vigilância de corpos sem presença.
Havemos perdido juntos tanto nada
que o hábito persiste e se da volta
e agora tudo é ganância de nada.
O Tempo se converte em anti-tempo
porque já não o pensas.
Havemos calado e falado juntos
que até calar e falar são duas traições,
duas substâncias sem justificação,
dois substitutos.
O havemos buscado todo.
O havemos falado todo.
O havemos deixado todo.
Unicamente não nos deram tempo
para encontrar o buraco de tua morte
ainda que fora também para deixá-lo.
que é difícil amá-las separados.
Parece que se houveram afastado de repente
ou que o amor fora uma formiga
escalando os declives do céu.
Havemos vivido juntos tanto abismo
que sem você tudo parece superfície,
orbita de simulados que resvalam,
tensão sem extensões,
vigilância de corpos sem presença.
Havemos perdido juntos tanto nada
que o hábito persiste e se da volta
e agora tudo é ganância de nada.
O Tempo se converte em anti-tempo
porque já não o pensas.
Havemos calado e falado juntos
que até calar e falar são duas traições,
duas substâncias sem justificação,
dois substitutos.
O havemos buscado todo.
O havemos falado todo.
O havemos deixado todo.
Unicamente não nos deram tempo
para encontrar o buraco de tua morte
ainda que fora também para deixá-lo.
1 137
Mario Benedetti
Rosto de ti
Tenho uma solidão
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão
Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor
sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti
Estou cheio de sombras
de noites e desejos
de risos e de alguma maldição
Meus hóspedes concorrem
concorrem como sonhos
com seus rancores novos
sua falta de candura
eu lhe ponho uma vassoura
atrás da porta
porque quero estar só
com meu rosto de ti
Porém o rosto de ti
olha a outra parte
com seus olhos de amor
que já não amam
como vives
que buscam a sua fome
olham e olham
e apagar a jornada
as paredes se vão
fica a noite
as nostalgias se vão
não fica nada
Já meu rosto de ti
fecha os olhos
E é uma solidão
tão desolada
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão
Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor
sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti
Estou cheio de sombras
de noites e desejos
de risos e de alguma maldição
Meus hóspedes concorrem
concorrem como sonhos
com seus rancores novos
sua falta de candura
eu lhe ponho uma vassoura
atrás da porta
porque quero estar só
com meu rosto de ti
Porém o rosto de ti
olha a outra parte
com seus olhos de amor
que já não amam
como vives
que buscam a sua fome
olham e olham
e apagar a jornada
as paredes se vão
fica a noite
as nostalgias se vão
não fica nada
Já meu rosto de ti
fecha os olhos
E é uma solidão
tão desolada
2 828
Henriqueta Lisboa
Canção do berço vazio
Canção do berço vazio
nunca a ninguém acalenta,
nenhuma voz a cantou.
Canção de lábios cerrados
que estremeceu no silëncio
muito antes de ter princípio.
Canção de peito oprimido
que não encontra palavras
porque nem o berço existe.
Ah! quem sonhara acalantos,
fontes escorrendo leite
para inconcebidos anjos?
Num país irmão da noite
canção da loucura mansa
para ouvidos que não ouvem...
Canção do berço vazio
entrecortada de pratos
e de risos escondidos...
Lá do outro lado do mundo
canção sem nenhum sentido
pobre louca está cantando.
nunca a ninguém acalenta,
nenhuma voz a cantou.
Canção de lábios cerrados
que estremeceu no silëncio
muito antes de ter princípio.
Canção de peito oprimido
que não encontra palavras
porque nem o berço existe.
Ah! quem sonhara acalantos,
fontes escorrendo leite
para inconcebidos anjos?
Num país irmão da noite
canção da loucura mansa
para ouvidos que não ouvem...
Canção do berço vazio
entrecortada de pratos
e de risos escondidos...
Lá do outro lado do mundo
canção sem nenhum sentido
pobre louca está cantando.
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