Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Amadeu Amaral
Jamais
A Gastão Bousquet
Jamais, jamais encontrarei aquela
que eu procurava pelo mundo outrora,
como quem mira um céu que não se estrela,
um véu de névoa que não se evapora.
Jamais, jamais. E, solitária vela,
vai-se a Esperança, Desalento em fora.
Jamais há de cessar esta procela,
jamais há de raiar aquela aurora.
Há de morrer esta vontade pura
(o coração aniquilado diz-mo)
na intimidade das secretas mágoas.
E este imenso tesouro de ternura
será como um regato num abismo,
rolando oculto as cristalinas águas.
Publicado no livro Névoa (1910).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.81. (Obras de Amadeu Amaral
Jamais, jamais encontrarei aquela
que eu procurava pelo mundo outrora,
como quem mira um céu que não se estrela,
um véu de névoa que não se evapora.
Jamais, jamais. E, solitária vela,
vai-se a Esperança, Desalento em fora.
Jamais há de cessar esta procela,
jamais há de raiar aquela aurora.
Há de morrer esta vontade pura
(o coração aniquilado diz-mo)
na intimidade das secretas mágoas.
E este imenso tesouro de ternura
será como um regato num abismo,
rolando oculto as cristalinas águas.
Publicado no livro Névoa (1910).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.81. (Obras de Amadeu Amaral
1 313
Aureliano Lessa
Mensagem
(...)
Eu inocente,
Ora voando,
Ora pousando,
Para buscar
Meu alimento,
Não tinha assento.
Eu não podia
Pousar nas flores
De mais licores
Para os chupar;
O vento dava
E me levava...
Um desgraçado,
(De certo o era!)
Disse-me: espera.
Animal lindo,
Vem adoçar
Meu pranto infindo.
Conta a Augusta
Os meus amores,
Que colhe flores
Sem suspirar:
Quanto suspiro,
Quanto deliro.
Conta que viste,
Já sem encanto,
Meu rosto pranto
Triste banhar;
Ah! dize à bela
Que a causa é ela,
Conta que sorves
Da flor a vida
E que, bebida,
Vais divagar;
Que assim sem norte
Dá-me ela a morte.
Conta-lhe quanto
És inconstante
Sem um instante
Jamais parar:
Que tal, ingrata,
Ela me mata...
Co'as asas liba o pólen da cheirosa
Rosa
Que no jasmíneo seio a donzela
Zela,
Mostra-lhe esquivo perto o mais orlado
Lado
Das franjas tuas: se ela te demanda.
Manda
Veloz adejo aonde não percorre...
Corre
Para quem pressuroso aqui te aguarda:
Guarda
Contra ferros de amor laços amenos
Menos
Que os que meu extremo aqui prepara
Para
Uma paixão feliz que não se esvai.
Vai...
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
Eu inocente,
Ora voando,
Ora pousando,
Para buscar
Meu alimento,
Não tinha assento.
Eu não podia
Pousar nas flores
De mais licores
Para os chupar;
O vento dava
E me levava...
Um desgraçado,
(De certo o era!)
Disse-me: espera.
Animal lindo,
Vem adoçar
Meu pranto infindo.
Conta a Augusta
Os meus amores,
Que colhe flores
Sem suspirar:
Quanto suspiro,
Quanto deliro.
Conta que viste,
Já sem encanto,
Meu rosto pranto
Triste banhar;
Ah! dize à bela
Que a causa é ela,
Conta que sorves
Da flor a vida
E que, bebida,
Vais divagar;
Que assim sem norte
Dá-me ela a morte.
Conta-lhe quanto
És inconstante
Sem um instante
Jamais parar:
Que tal, ingrata,
Ela me mata...
Co'as asas liba o pólen da cheirosa
Rosa
Que no jasmíneo seio a donzela
Zela,
Mostra-lhe esquivo perto o mais orlado
Lado
Das franjas tuas: se ela te demanda.
Manda
Veloz adejo aonde não percorre...
Corre
Para quem pressuroso aqui te aguarda:
Guarda
Contra ferros de amor laços amenos
Menos
Que os que meu extremo aqui prepara
Para
Uma paixão feliz que não se esvai.
Vai...
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
1 196
Ribeiro Couto
Fado de Maria Serrana
Se a memória não me engana,
Pediste-me um fado triste:
Triste Maria Serrana,
Por que tal fado pediste?
Na serra, a fonte e as ovelhas
Eram só os teus cuidados;
Tinhas as faces vermelhas,
Hoje tens lábios pintados.
Hoje de rica tens fama
E toda a cidade é tua;
Tens um homem que te chama
Ao canto de cada rua.
Mas ai! pudesses de novo
Tornar à serra, Maria!
Se não te perdoasse o povo,
A serra te perdoaria.
Lá te espera o mesmo monte,
E a casa junto ao caminho,
E a água da mesma fonte
Que diz teu nome baixinho.
Secos teus olhos de mágoa,
Se não tivessem mais pranto,
Choraria aquela água
Que já por ti chorou tanto.
Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Guitarra e Violão.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.42
Pediste-me um fado triste:
Triste Maria Serrana,
Por que tal fado pediste?
Na serra, a fonte e as ovelhas
Eram só os teus cuidados;
Tinhas as faces vermelhas,
Hoje tens lábios pintados.
Hoje de rica tens fama
E toda a cidade é tua;
Tens um homem que te chama
Ao canto de cada rua.
Mas ai! pudesses de novo
Tornar à serra, Maria!
Se não te perdoasse o povo,
A serra te perdoaria.
Lá te espera o mesmo monte,
E a casa junto ao caminho,
E a água da mesma fonte
Que diz teu nome baixinho.
Secos teus olhos de mágoa,
Se não tivessem mais pranto,
Choraria aquela água
Que já por ti chorou tanto.
Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Guitarra e Violão.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.42
1 113
Ribeiro Couto
Viola Caipira no Sítio Vista Alegre
A casa de palha
À beira do rio.
A noite se orvalha
De estrelas remotas.
É noite de frio,
Geada nas grotas,
Café no fogão.
Café, aguardente
E fumo de rolo
Picado na mão.
Viola plangente...
Lá fora o monjolo
Batendo no chão.
Bem-querer ingrato
Que a negra candonga
Deixou no mulato.
Noite longa, longa,
A noite do mato.
Publicado no livro Cancioneiro do Ausente (1943).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.37
À beira do rio.
A noite se orvalha
De estrelas remotas.
É noite de frio,
Geada nas grotas,
Café no fogão.
Café, aguardente
E fumo de rolo
Picado na mão.
Viola plangente...
Lá fora o monjolo
Batendo no chão.
Bem-querer ingrato
Que a negra candonga
Deixou no mulato.
Noite longa, longa,
A noite do mato.
Publicado no livro Cancioneiro do Ausente (1943).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.37
1 102
Joaquim Cardozo
Canto do Homem Marcado
Sou um homem marcado...
Em país ocupado
Pelo estrangeiro.
Sou marinheiro
Desembarcado;
Marcho na bruma das madrugadas;
Mas —
Trago das águas
A substância
Da claridade.
DA CLARIDADE!
Sou o indefinido,
O inesperado
Viajante da tarde nua,
Que uma dor augusta comoveu...
Tudo a renuncia,
Tudo
O que eu conservo
De altivo e puro,
Sob o meu manto adormeceu.
Em outros tempos e antigos
Plantei alfaces, vendi craveiros,
Fui hortelão, fui jardineiro;
E a escura terra...
Terra
Dos meus canteiros,
Sempre arqueava o dorso
Ao gesto amigo
De minha mão.
Hoje provo, na boca, um desgosto,
Hoje tenho, no sangue, um sinal
Que não foi e não é das algemas
Da prisão da Vida,
Nem do jugo da Terra,
Nem do pecado original.
Muito bem sei, senhores,
Que sou um sonho cravado na morte,
Que sou um homem ferido no olhar...
E que trago, bem viva, entre as nódoas do mundo,
A mancha do meu país natal.
Sou um homem manchado de sombra
No sonho, no sangue, no olhar,
Sou um homem marcado...
Em país ocupado
Pelo estrangeiro.
Mas esta marca temerária
Entre a cinza das estrelas
Há de um dia se apagar!
Por isso é que me amparo às mãos dispersas da noite...
E pelos pés difusos do vento é que marcho
Na bruma das madrugadas...
Trazendo das águas a substância
Da claridade
E um cheiro manso
De manhã fria...
Oh! Soledade!
Oh! Harmonia!
1952
Publicado no livro Signo estrelado (1960). Poema integrante da série Elegias.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.76-7
Em país ocupado
Pelo estrangeiro.
Sou marinheiro
Desembarcado;
Marcho na bruma das madrugadas;
Mas —
Trago das águas
A substância
Da claridade.
DA CLARIDADE!
Sou o indefinido,
O inesperado
Viajante da tarde nua,
Que uma dor augusta comoveu...
Tudo a renuncia,
Tudo
O que eu conservo
De altivo e puro,
Sob o meu manto adormeceu.
Em outros tempos e antigos
Plantei alfaces, vendi craveiros,
Fui hortelão, fui jardineiro;
E a escura terra...
Terra
Dos meus canteiros,
Sempre arqueava o dorso
Ao gesto amigo
De minha mão.
Hoje provo, na boca, um desgosto,
Hoje tenho, no sangue, um sinal
Que não foi e não é das algemas
Da prisão da Vida,
Nem do jugo da Terra,
Nem do pecado original.
Muito bem sei, senhores,
Que sou um sonho cravado na morte,
Que sou um homem ferido no olhar...
E que trago, bem viva, entre as nódoas do mundo,
A mancha do meu país natal.
Sou um homem manchado de sombra
No sonho, no sangue, no olhar,
Sou um homem marcado...
Em país ocupado
Pelo estrangeiro.
Mas esta marca temerária
Entre a cinza das estrelas
Há de um dia se apagar!
Por isso é que me amparo às mãos dispersas da noite...
E pelos pés difusos do vento é que marcho
Na bruma das madrugadas...
Trazendo das águas a substância
Da claridade
E um cheiro manso
De manhã fria...
Oh! Soledade!
Oh! Harmonia!
1952
Publicado no livro Signo estrelado (1960). Poema integrante da série Elegias.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.76-7
2 045
Ribeiro Couto
Monólogo da Noite
Esta noite estou triste e não sei a razão.
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...
A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.
Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.
Publicado no livro Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1920/1922 (1924).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.8
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...
A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.
Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.
Publicado no livro Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1920/1922 (1924).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.8
1 506
Colombina
Maldição
Maldito sejas tu que eu encontrei na vida,
como se não bastasse a tormenta sofrida
sem culpa e sem perdão;
por tudo o que eu quis ser e que alcançar não pude;
por toda essa amargura e toda essa inquietude
da minha solidão.
Maldito sejas tu, pelas noites sem sono,
pelos dias sem sol e as horas de abandono,
de tristeza sem fim...
Pelo amor que esbanjei, generosa, às mãos-cheias,
e apenas vi florir pelas searas alheias
e nunca para mim.
Pelos passos que dei sem rumo, desnorteada,
nas trevas tateando... (é sempre escura a estrada,
quando a gente vai só).
Por toda essa extensão de enganos percorrida,
pela enseada de paz para sempre perdida
e transformada em pó...
Maldito sejas tu, que por capricho, um dia,
do meu ser transformaste a serena harmonia
num rugir de paixão.
Maldito sejas tu! Teu riso, tua boca!
Para cuja mentira e hipocrisia é pouca
a minha maldição.
Maldito sejas tu, que infiltraste em meu sangue
todo o calor macio, aveludado e langue
da tua voz sem par.
Por tudo o que eu perdi por te haver encontrado,
pelo tempo tão longo e tão triste passado,
em silêncio a chorar...
Maldito sejas tu... Mas, se um dia voltasses,
e o remorso no olhar, e lágrimas nas faces,
me pedisses perdão,
eu, na porta entreaberta e mal iluminada,
sem nada te dizer, sem perguntar-te nada,
te estenderia a mão.
Publicado no livro Sândalo: versos (1941). Poema integrante da série Flamas.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
como se não bastasse a tormenta sofrida
sem culpa e sem perdão;
por tudo o que eu quis ser e que alcançar não pude;
por toda essa amargura e toda essa inquietude
da minha solidão.
Maldito sejas tu, pelas noites sem sono,
pelos dias sem sol e as horas de abandono,
de tristeza sem fim...
Pelo amor que esbanjei, generosa, às mãos-cheias,
e apenas vi florir pelas searas alheias
e nunca para mim.
Pelos passos que dei sem rumo, desnorteada,
nas trevas tateando... (é sempre escura a estrada,
quando a gente vai só).
Por toda essa extensão de enganos percorrida,
pela enseada de paz para sempre perdida
e transformada em pó...
Maldito sejas tu, que por capricho, um dia,
do meu ser transformaste a serena harmonia
num rugir de paixão.
Maldito sejas tu! Teu riso, tua boca!
Para cuja mentira e hipocrisia é pouca
a minha maldição.
Maldito sejas tu, que infiltraste em meu sangue
todo o calor macio, aveludado e langue
da tua voz sem par.
Por tudo o que eu perdi por te haver encontrado,
pelo tempo tão longo e tão triste passado,
em silêncio a chorar...
Maldito sejas tu... Mas, se um dia voltasses,
e o remorso no olhar, e lágrimas nas faces,
me pedisses perdão,
eu, na porta entreaberta e mal iluminada,
sem nada te dizer, sem perguntar-te nada,
te estenderia a mão.
Publicado no livro Sândalo: versos (1941). Poema integrante da série Flamas.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 921
Joaquim Cardozo
Não tenho pátria, nem glória
(...)
O RETIRANTE
Não tenho pátria, nem glória...
Embora — sinal da fome —
Nas páginas secas da história
Haja o meu nome e renome.
Mateus, Bastião e Catirina entrando outra vez em cena,
encontram o retirante e a ele se dirigem.
MATEUS
Como é que vens acabado
Velho amigo, meu irmão
Há tanto tempo largado
Pelas sendas do sertão.
RETIRANTE
Sou, de acabado, tão pouco...
A pouco estou reduzido,
Ouve cantar galo rouco
Meu coração comovido...
(pausa)
RETIRANTE
(continuando):
Sou uma sombra sem corpo,
Sou um rosto sem pessoa,
Um vento sem ar soprando,
Sem som, um canto, uma loa.
Nem as palavras definem
O meu tão grande vazio,
Todo o gesto que me exprime
Todo o meu gesto é baldio.
Todo o ardor que em mim renasce
Se extingue com um assovio...
Em mim não há claridades
Sou, apagado, um pavio.
O tecido que me veste
Não tem trama, nem cadeia.
Meus passos são muito leves
Não deixam marca na areia.
Meu andar é curto e breve
Mas contém a vastidão
Como é leve o que me pesa
Meu ausente matolão.
Perto vou, mas vou por longe
Vou junto, mas vou sozinho
Em sombra: burel de monge
Caminho meu descaminho.
(...)
In: CARDOZO, Joaquim. O coronel de Macambira: bumba-meu-boi em dois quadros. Introd. Osmar Barbosa. Il. Poty. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.68-69. (Prestígio). Poema integrante da série 2o. quadro.
O RETIRANTE
Não tenho pátria, nem glória...
Embora — sinal da fome —
Nas páginas secas da história
Haja o meu nome e renome.
Mateus, Bastião e Catirina entrando outra vez em cena,
encontram o retirante e a ele se dirigem.
MATEUS
Como é que vens acabado
Velho amigo, meu irmão
Há tanto tempo largado
Pelas sendas do sertão.
RETIRANTE
Sou, de acabado, tão pouco...
A pouco estou reduzido,
Ouve cantar galo rouco
Meu coração comovido...
(pausa)
RETIRANTE
(continuando):
Sou uma sombra sem corpo,
Sou um rosto sem pessoa,
Um vento sem ar soprando,
Sem som, um canto, uma loa.
Nem as palavras definem
O meu tão grande vazio,
Todo o gesto que me exprime
Todo o meu gesto é baldio.
Todo o ardor que em mim renasce
Se extingue com um assovio...
Em mim não há claridades
Sou, apagado, um pavio.
O tecido que me veste
Não tem trama, nem cadeia.
Meus passos são muito leves
Não deixam marca na areia.
Meu andar é curto e breve
Mas contém a vastidão
Como é leve o que me pesa
Meu ausente matolão.
Perto vou, mas vou por longe
Vou junto, mas vou sozinho
Em sombra: burel de monge
Caminho meu descaminho.
(...)
In: CARDOZO, Joaquim. O coronel de Macambira: bumba-meu-boi em dois quadros. Introd. Osmar Barbosa. Il. Poty. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.68-69. (Prestígio). Poema integrante da série 2o. quadro.
1 212
Frei Francisco de São Carlos
Soneto [Entre férreos grilhões preso, e seguro
Entre férreos grilhões preso, e seguro
Suspira o delinquente desvalido
Aguçando o punhal do seu gemido
A estreiteza cruel do cárcere escuro.
Sentistes bom Lorena, e o sangue puro
Que o peito vos inflama esclarecido
Determinou da mágoa condoído
Dar ao réu novo asilo, menos duro.
Remata-se a estrutura; e o triste passa
A sentir no pesar menor violência
E a lograr na prisão mais larga praça.
E para vossa glória alta Excelência
Beijando está nas aras da alegria
Os troféus que erigiu vossa clemência.
In: POETAS da Academia do Senado da Câmara de S. Paulo. Pref. Antônio Soares Amora. Notas Domingos Carvalho da Silva. São Paulo: Clube de Poesia, 1956. p.53-60. (Documentos, 3).
NOTA: Referência à cadeia mandada construir pelo governador Bernardo José de Loren
Suspira o delinquente desvalido
Aguçando o punhal do seu gemido
A estreiteza cruel do cárcere escuro.
Sentistes bom Lorena, e o sangue puro
Que o peito vos inflama esclarecido
Determinou da mágoa condoído
Dar ao réu novo asilo, menos duro.
Remata-se a estrutura; e o triste passa
A sentir no pesar menor violência
E a lograr na prisão mais larga praça.
E para vossa glória alta Excelência
Beijando está nas aras da alegria
Os troféus que erigiu vossa clemência.
In: POETAS da Academia do Senado da Câmara de S. Paulo. Pref. Antônio Soares Amora. Notas Domingos Carvalho da Silva. São Paulo: Clube de Poesia, 1956. p.53-60. (Documentos, 3).
NOTA: Referência à cadeia mandada construir pelo governador Bernardo José de Loren
1 239
Cruz e Sousa
Olhos
A Grécia d’Arte, a estranha claridade
D’aquela Grécia de beleza e graça,
Passa, cantando, vai cantando e passa
Dos teus olhos na eterna castidade.
Toda a serena e altiva heroicidade
Que foi dos gregos a imortal couraça,
Aquele encanto e resplendor de raça
Constelada de antiga majestade,
Da Atenas flórea toda o viço louro,
E as rosas e os mirtais e as pompas d’ouro,
Odisséias e deuses e galeras...
Na sonolência de uma lua aziaga,
Tudo em saudade nos teus olhos vaga,
Canta melancolias de outras eras!...
Publicado no livro Faróis (1900). Segundo de uma série de sete sonetos sobre o corpo feminino.
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinenses de Cultura, 1985. p.90
D’aquela Grécia de beleza e graça,
Passa, cantando, vai cantando e passa
Dos teus olhos na eterna castidade.
Toda a serena e altiva heroicidade
Que foi dos gregos a imortal couraça,
Aquele encanto e resplendor de raça
Constelada de antiga majestade,
Da Atenas flórea toda o viço louro,
E as rosas e os mirtais e as pompas d’ouro,
Odisséias e deuses e galeras...
Na sonolência de uma lua aziaga,
Tudo em saudade nos teus olhos vaga,
Canta melancolias de outras eras!...
Publicado no livro Faróis (1900). Segundo de uma série de sete sonetos sobre o corpo feminino.
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinenses de Cultura, 1985. p.90
2 495
Capinan
Canção de Minha Descoberta
Eis-me resignado.
Fugi de tudo que fui
E pelo caminho de minha renúncia
Venho buscar banceiras novas.
Agora persigo a palavra nova
Por eles que esperam com o coração amargo
E o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
E ficar em paz com a morte dos desgraçados
Caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas.
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
Agitados de dor pela mão dos homens.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 8
Fugi de tudo que fui
E pelo caminho de minha renúncia
Venho buscar banceiras novas.
Agora persigo a palavra nova
Por eles que esperam com o coração amargo
E o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
E ficar em paz com a morte dos desgraçados
Caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas.
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
Agitados de dor pela mão dos homens.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 8
1 229
Edimilson de Almeida Pereira
O Decifrar Constante
O passar na tarde
apanha o tempo
no infinito recortado.
Um frete oferece
Coco de Cabo Frio
ontem Abacaxi de Marataízes.
As meninas pulam amarelinha
sem nenhum velar profundo
Meninas de Cabo Frio
Meninas de Cabo Frio
Disseram a tristeza passaria
quem o disse passou passou.
Publicado no livro Dormundo (1985).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.26
apanha o tempo
no infinito recortado.
Um frete oferece
Coco de Cabo Frio
ontem Abacaxi de Marataízes.
As meninas pulam amarelinha
sem nenhum velar profundo
Meninas de Cabo Frio
Meninas de Cabo Frio
Disseram a tristeza passaria
quem o disse passou passou.
Publicado no livro Dormundo (1985).
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.26
1 330
Pedro Nava
Ventania
Pro Mário
O vento veio maluco lá do alto do Bonfim
e veio chorando da tristura do cemitério.
Zuniu na praça do mercado
assuviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,
O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.
O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo..
Co-nhe-ceu papudo?
1926
In: REVISTA VERDE, Cataguases, ano 1, n.3, p.23, nov. 1927
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 19 mar. 1926: "Essa poesia me entusiasmou de verdade. Acho linda e das milhores coisas que você tem me mandado. Além da boniteza real da poesia acho que você está empregando com um talento firme o abrasileiramento da sua expressão. Discordo de certos processos, principalmente 'O obelisco cortou ele pelo meio'. Acho que você deve matutar mais sobre isso
O vento veio maluco lá do alto do Bonfim
e veio chorando da tristura do cemitério.
Zuniu na praça do mercado
assuviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,
O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.
O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo..
Co-nhe-ceu papudo?
1926
In: REVISTA VERDE, Cataguases, ano 1, n.3, p.23, nov. 1927
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 19 mar. 1926: "Essa poesia me entusiasmou de verdade. Acho linda e das milhores coisas que você tem me mandado. Além da boniteza real da poesia acho que você está empregando com um talento firme o abrasileiramento da sua expressão. Discordo de certos processos, principalmente 'O obelisco cortou ele pelo meio'. Acho que você deve matutar mais sobre isso
1 873
D. Pedro II
I - À Morte do Príncipe D Pedro
Pode o artista pintar a imagem morta
Da mulher, por quem dera a própria vida.
À esposa que a ventura vê perdida
Casto e saudoso beijo inda conforta.
A imitar-lhe os exemplos nos exorta
O amigo na extrema despedida...
Mas dizer o que sente a alma partida
Do pai, a quem, oh Deus, tua espada corta.
A flor de seu futuro, o filho amado;
Quem o pode, Senhor, se mesmo o Teu
Só morrendo livrou-nos do pecado,
Se a terra à voz do Gólgota tremeu
E o sangue do Cordeiro Imaculado
Até o próprio céu enegreceu!
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas.
NOTA: O poema se refere à morte do quarto e último filho de D. Pedro II com a Imperatriz D. Teresa Cristina Maria, em 185
Da mulher, por quem dera a própria vida.
À esposa que a ventura vê perdida
Casto e saudoso beijo inda conforta.
A imitar-lhe os exemplos nos exorta
O amigo na extrema despedida...
Mas dizer o que sente a alma partida
Do pai, a quem, oh Deus, tua espada corta.
A flor de seu futuro, o filho amado;
Quem o pode, Senhor, se mesmo o Teu
Só morrendo livrou-nos do pecado,
Se a terra à voz do Gólgota tremeu
E o sangue do Cordeiro Imaculado
Até o próprio céu enegreceu!
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas.
NOTA: O poema se refere à morte do quarto e último filho de D. Pedro II com a Imperatriz D. Teresa Cristina Maria, em 185
1 702
Capinan
O Rebanho e o Homem
O rebanho trafega com tranquilidade o caminho:
É sempre uma surpresa ao rebanho que ele chegue
Ao campo ou ao matadouro.
Nenhuma raiva
Nenhuma esperança o rebanho leva.
Pouco importa que a flor sucumba aos cascos
Ou ainda que sobreviva.
Nenhuma pergunta o rebanho não diz:
Até na sede ele é tranquilo
Até na guerra ele é mudo.
O rebanho não pronuncia,
Usa a luz mas nunca explica a sua falta,
Usa o alimento sem nunca se perguntar
Sobre o rebanho o sexo
Que ele nunca explicara
E as fêmeas cobertas
Recebem a fecundidade sem admiração.
A morte ele desconhece e a sua vida.
No rebanho não há companheiros,
Há cada corpo em si sem lucidez alguma.
O rebanho não vê a cara dos homens
Aceita o caminho e vai escorrendo
Num andar pesado sobre os campos.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 8
É sempre uma surpresa ao rebanho que ele chegue
Ao campo ou ao matadouro.
Nenhuma raiva
Nenhuma esperança o rebanho leva.
Pouco importa que a flor sucumba aos cascos
Ou ainda que sobreviva.
Nenhuma pergunta o rebanho não diz:
Até na sede ele é tranquilo
Até na guerra ele é mudo.
O rebanho não pronuncia,
Usa a luz mas nunca explica a sua falta,
Usa o alimento sem nunca se perguntar
Sobre o rebanho o sexo
Que ele nunca explicara
E as fêmeas cobertas
Recebem a fecundidade sem admiração.
A morte ele desconhece e a sua vida.
No rebanho não há companheiros,
Há cada corpo em si sem lucidez alguma.
O rebanho não vê a cara dos homens
Aceita o caminho e vai escorrendo
Num andar pesado sobre os campos.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 8
1 990
Moacyr Felix
Poema do Cego, da Noite e do Mar
A Fernando Mendes Viana
I
Lágrimas de cego
trazei-me uma pérola
da noite e do mar.
Nas águas cansadas
meus olhos nadaram
em nadas de nada
e vão se afogar!
Se vinte ou dez vezes
foram o céu cúmplice
da súbita chama
que dardeja o eterno
sobre a onda a rolar,
por que é que se afogam
depois tão vazios
de todos os séculos
que acharam no mar?
Entre o velame e a âncora,
que lances definem
perdido ou ganhando
no jogo jogado
na noite e no mar?
Lágrimas de cego,
trazei-me uma pérola
da noite e do mar.
Mortalha ou morada
dos barcos tão brancos
de prata e de espanto,
ó lua a luar,
que devo eu doar
à dona dos prantos?
Mostrai-me entre os ramos
da noite e do ar
a pausa madura
da Vida a cantar
no cerne da vida
que amarga a doçura
que ondula este mar.
Lágrimas de cego,
trazei-me uma pérola
da noite e do mar...
(...)
Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.90-91
NOTA: Poema composto de 2 parte
I
Lágrimas de cego
trazei-me uma pérola
da noite e do mar.
Nas águas cansadas
meus olhos nadaram
em nadas de nada
e vão se afogar!
Se vinte ou dez vezes
foram o céu cúmplice
da súbita chama
que dardeja o eterno
sobre a onda a rolar,
por que é que se afogam
depois tão vazios
de todos os séculos
que acharam no mar?
Entre o velame e a âncora,
que lances definem
perdido ou ganhando
no jogo jogado
na noite e no mar?
Lágrimas de cego,
trazei-me uma pérola
da noite e do mar.
Mortalha ou morada
dos barcos tão brancos
de prata e de espanto,
ó lua a luar,
que devo eu doar
à dona dos prantos?
Mostrai-me entre os ramos
da noite e do ar
a pausa madura
da Vida a cantar
no cerne da vida
que amarga a doçura
que ondula este mar.
Lágrimas de cego,
trazei-me uma pérola
da noite e do mar...
(...)
Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.90-91
NOTA: Poema composto de 2 parte
1 244
Rubens Rodrigues Torres Filho
Clorofila
Verde mar, verde rio e verde pranto
que choveria em verdes matas prisioneiras
aprisionadas neste longo e frio amante
que fui, para nós dois, na sexta-feira
da solidão.
As borboletas lúcidas na treva
que por artes de ausência vêm caindo
em chuvas-lantejoulas vão cobrindo
as lajes destes bosques, clorofila
irrespirável.
São páginas colhidas, escolhidas
que este vazio por dentro desescreve
e o tempo reinscreve do outro lado.
E nós, por dois ou três, unidos por engano,
partilhamos o frio, que só nos damos
sob condição, à espreita ou de tocaia.
Por trás do olhar dos lírios vai roendo
algum sutil inseto iluminado
que sabe dos desertos e a cavá-los
galopa nesse nada que o devora.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
que choveria em verdes matas prisioneiras
aprisionadas neste longo e frio amante
que fui, para nós dois, na sexta-feira
da solidão.
As borboletas lúcidas na treva
que por artes de ausência vêm caindo
em chuvas-lantejoulas vão cobrindo
as lajes destes bosques, clorofila
irrespirável.
São páginas colhidas, escolhidas
que este vazio por dentro desescreve
e o tempo reinscreve do outro lado.
E nós, por dois ou três, unidos por engano,
partilhamos o frio, que só nos damos
sob condição, à espreita ou de tocaia.
Por trás do olhar dos lírios vai roendo
algum sutil inseto iluminado
que sabe dos desertos e a cavá-los
galopa nesse nada que o devora.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 646
Régis Bonvicino
RB Resolve Ser Poeta
Nas páginas de "La Rosa Profunda"
descubro que escolhi
a mais curiosa das profissões humanas,
salvo que todas, a seu modo, o são.
Como os alquimistas
que buscaram a pedra filosofal
no azougue fugitivo,
farei com que as palavras comuns
— naipes marcados do tahur, moeda da plebe —
rendam a magia que foi sua
quando Thor era o nume e o estrépito,
o trovão e a prece.
No dialeto de hoje,
direi, de minha forma, as coisas eternas;
tratarei de não ser indigno
do grande eco de Camões.
Este pó(eta) que sou será invulnerável.
Se uma mulher compartilhar de meu amor,
meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos;
se uma mulher desdenhar meu amor,
farei de minha tristeza uma música,
um alto rio que siga ressoando no tempo.
Viverei de esquecer-me.
Serei a cara que entrevejo e esqueço,
Judas que aceita
a divina missão de ser traidor,
Calibán no lamaçal,
um soldado mercenário que morre
sem temor e sem fé,
Polícrates que vê com espanto
o anel devolvido pelo destino,
serei o amigo que me odeia.
O Rubáiyát me dará o rouxinol
e os Texperts as palavras-espadas.
Máscaras, agonias, ressurreições,
desmancharam e mancharam minha sorte:
e, alguma vez, talvez agora,
eu seja Jorge Luis Borges.
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987.
NOTA DE RÉGIS BONVICINO: Tradução-encarnação do poema "Browning Resuelve Ser Poeta", de Jorge Luis Borges, do livro LA ROSA PROFUND
descubro que escolhi
a mais curiosa das profissões humanas,
salvo que todas, a seu modo, o são.
Como os alquimistas
que buscaram a pedra filosofal
no azougue fugitivo,
farei com que as palavras comuns
— naipes marcados do tahur, moeda da plebe —
rendam a magia que foi sua
quando Thor era o nume e o estrépito,
o trovão e a prece.
No dialeto de hoje,
direi, de minha forma, as coisas eternas;
tratarei de não ser indigno
do grande eco de Camões.
Este pó(eta) que sou será invulnerável.
Se uma mulher compartilhar de meu amor,
meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos;
se uma mulher desdenhar meu amor,
farei de minha tristeza uma música,
um alto rio que siga ressoando no tempo.
Viverei de esquecer-me.
Serei a cara que entrevejo e esqueço,
Judas que aceita
a divina missão de ser traidor,
Calibán no lamaçal,
um soldado mercenário que morre
sem temor e sem fé,
Polícrates que vê com espanto
o anel devolvido pelo destino,
serei o amigo que me odeia.
O Rubáiyát me dará o rouxinol
e os Texperts as palavras-espadas.
Máscaras, agonias, ressurreições,
desmancharam e mancharam minha sorte:
e, alguma vez, talvez agora,
eu seja Jorge Luis Borges.
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987.
NOTA DE RÉGIS BONVICINO: Tradução-encarnação do poema "Browning Resuelve Ser Poeta", de Jorge Luis Borges, do livro LA ROSA PROFUND
1 521
Claudio Willer
Previsão do Tempo
I
eles estavam nus antes de viajar
no extremo da rua, as cortinas
como as haviam deixado
pensavam conhecer como pensavam possuir
a terra e o paraíso confundiam-se
no matiz das melancolias
na pedra transparente
apenas mais um passo
e nada mais
ainda uma distorção
proposital, perigosa
como até agora
evitando participar
salões voltados na mesma direção
dois ou três hábitos aceitáveis
do tamanho de uma unha
e assim mesmo
a torrente caía / as chamas espalhavam-se
junto com a cor dos olhos
II
Invertendo inteiramente a rua em liberdade
em um amplo existente
depois de matar
acostumados a aceitar tudo
sempre calmos e solícitos como uma oração
entre o início e o arremate
In: WILLER, Claudio. Anotações para um apocalipse. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1964
eles estavam nus antes de viajar
no extremo da rua, as cortinas
como as haviam deixado
pensavam conhecer como pensavam possuir
a terra e o paraíso confundiam-se
no matiz das melancolias
na pedra transparente
apenas mais um passo
e nada mais
ainda uma distorção
proposital, perigosa
como até agora
evitando participar
salões voltados na mesma direção
dois ou três hábitos aceitáveis
do tamanho de uma unha
e assim mesmo
a torrente caía / as chamas espalhavam-se
junto com a cor dos olhos
II
Invertendo inteiramente a rua em liberdade
em um amplo existente
depois de matar
acostumados a aceitar tudo
sempre calmos e solícitos como uma oração
entre o início e o arremate
In: WILLER, Claudio. Anotações para um apocalipse. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1964
1 256
Antônio Barreto
Sobre as Virtudes da Preguiça
Não devemos fazer nada em Agosto.
Agosto, dizem os jornais mais corajosos,
é sombrio, anticatólico e meditabundo.
Assim posto, não devemos fazer nada em Agosto.
Agosto é o mês das bruxas, das rixas e das tragédias.
Devemos ficar trancados em casa, em Agosto,
comendo salgadinhos e rezando às Almas
que as almas sempre soltam suas rédeas
mesmo quando não as queremos soltas.
Não devemos fazer nada em Agosto:
alguma coisa tenebrosa lhe cavalga o dorso.
Assim, devemos ficar à toa em Agosto
Esperando a morte, sem remorso.
In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.64. Poema integrante da série Revelações do Abismo.
Agosto, dizem os jornais mais corajosos,
é sombrio, anticatólico e meditabundo.
Assim posto, não devemos fazer nada em Agosto.
Agosto é o mês das bruxas, das rixas e das tragédias.
Devemos ficar trancados em casa, em Agosto,
comendo salgadinhos e rezando às Almas
que as almas sempre soltam suas rédeas
mesmo quando não as queremos soltas.
Não devemos fazer nada em Agosto:
alguma coisa tenebrosa lhe cavalga o dorso.
Assim, devemos ficar à toa em Agosto
Esperando a morte, sem remorso.
In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.64. Poema integrante da série Revelações do Abismo.
1 568
Régis Bonvicino
Não Pode
poeta não pode sentir ódio
poeta não pode gostar
de automóvel
o poeta
não pode criar filhos
se vai à europa
é por brilho ou compromisso
nunca por troça ou prazer
sua tarefa: fazer
fazer fazer
VeRsOsTeXtOs
martírio
pequeno burguês
tókio nun restaurante japonês
o poeta é o que
se esqueceu
de viver
bem e com idéias?
o sofrimento: sua
platéia
(o mundo, massa maçante,
alcatéia!)
seu marketing-musa: a
lamentação
obsessão obsessão obsessão
assim
um lacaio de lacan num divã
qualquer
(ou eco imaginário de tristan edouard
corbiere)
o poeta não tem casa
de campo
seu lazer: papel
em branco
maçã, maçada
a existência não passa
de uma observação obstinada
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
poeta não pode gostar
de automóvel
o poeta
não pode criar filhos
se vai à europa
é por brilho ou compromisso
nunca por troça ou prazer
sua tarefa: fazer
fazer fazer
VeRsOsTeXtOs
martírio
pequeno burguês
tókio nun restaurante japonês
o poeta é o que
se esqueceu
de viver
bem e com idéias?
o sofrimento: sua
platéia
(o mundo, massa maçante,
alcatéia!)
seu marketing-musa: a
lamentação
obsessão obsessão obsessão
assim
um lacaio de lacan num divã
qualquer
(ou eco imaginário de tristan edouard
corbiere)
o poeta não tem casa
de campo
seu lazer: papel
em branco
maçã, maçada
a existência não passa
de uma observação obstinada
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
1 294
Eudoro Augusto
Final de Século
A coisa anda meio difícil
pra quem não dispensa uma alegria.
Até uma boa e sincera tristeza
anda cada vez mais rara
com essa moda de alto astral a qualquer preço.
Se alguém acha que este mundo
anda meio cafajeste, ou ainda mais,
não sou eu que vou contradizer.
Mas na verdade, tudo mudou
muito pouco.
Um ou outro mito,
aqui e ali um grito,
mais ou menos aflito.
O que varia mesmo é o som do apito
de acordo com o bairro, conforme o gueto.
Em alguns a polícia acode e sacode;
em outros se salva quem pode.
A carne continua fraca.
Mormente a da mucosa,
mais frágil, mais perigosa.
A lua tem seus caprichos.
Os poderosos mentem,
as filas aumentam,
a cerveja anda nojenta
e o rapaz da TV diz que vai ser mais eficaz
o combate ao tráfico de drogas.
Por mim, espero apenas
a passagem vertiginosa dos riscos voadores.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
pra quem não dispensa uma alegria.
Até uma boa e sincera tristeza
anda cada vez mais rara
com essa moda de alto astral a qualquer preço.
Se alguém acha que este mundo
anda meio cafajeste, ou ainda mais,
não sou eu que vou contradizer.
Mas na verdade, tudo mudou
muito pouco.
Um ou outro mito,
aqui e ali um grito,
mais ou menos aflito.
O que varia mesmo é o som do apito
de acordo com o bairro, conforme o gueto.
Em alguns a polícia acode e sacode;
em outros se salva quem pode.
A carne continua fraca.
Mormente a da mucosa,
mais frágil, mais perigosa.
A lua tem seus caprichos.
Os poderosos mentem,
as filas aumentam,
a cerveja anda nojenta
e o rapaz da TV diz que vai ser mais eficaz
o combate ao tráfico de drogas.
Por mim, espero apenas
a passagem vertiginosa dos riscos voadores.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
1 076
Régis Bonvicino
Dias em Seguida
estoit il lors temps de moy taire?
françois villon
vida — a que me convidas?
aos becos sem saída,
às noites mal dormidas,
à esperança perdida,
ao dano dos inseticidas,
à brasília podrida,
à fé de n. s. aparecida,
às idéias traídas,
às poesias reunidas,
às migalhas do rei midas,
às verdades não vividas,
aos dias em seguida?
vida — a que me condenas?
à retribuição das penas,
ao riso das hienas,
aos banqueiros da onzena,
ao assassino de viena,
à boa alma de mecenas,
ao remorso de madalena,
ao socorro da sirena,
ao torpor das cantilenas,
à calvície de melena,
ao destino das antenas,
a morrer apenas?
In: BONVICINO, Régis. 33 poemas. São Paulo: Iluminuras: Secretaria de Estado da Cultura, 1990.
NOTA: Publicado no Folhetim de 01 jan. 1988; Este poema foi escrito no dia do 88o. aniversário da Repúblic
françois villon
vida — a que me convidas?
aos becos sem saída,
às noites mal dormidas,
à esperança perdida,
ao dano dos inseticidas,
à brasília podrida,
à fé de n. s. aparecida,
às idéias traídas,
às poesias reunidas,
às migalhas do rei midas,
às verdades não vividas,
aos dias em seguida?
vida — a que me condenas?
à retribuição das penas,
ao riso das hienas,
aos banqueiros da onzena,
ao assassino de viena,
à boa alma de mecenas,
ao remorso de madalena,
ao socorro da sirena,
ao torpor das cantilenas,
à calvície de melena,
ao destino das antenas,
a morrer apenas?
In: BONVICINO, Régis. 33 poemas. São Paulo: Iluminuras: Secretaria de Estado da Cultura, 1990.
NOTA: Publicado no Folhetim de 01 jan. 1988; Este poema foi escrito no dia do 88o. aniversário da Repúblic
1 424
Lila Ripoll
Canção da Chuva
Cai uma chuva tão fina
que quase nem molha a gente.
É uma música em surdina
que apenas a alma sente.
Junto meu rosto à vidraça
e olho a rua sem pensar.
Fico em estado de graça,
como quem vai comungar.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida,
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Senhora tu não devias
permitir tantos enganos.
Há excesso de alegrias,
e excesso de desenganos.
Por onde andaram meus passos
vi sinais de desalentos.
Vaguei por muitos espaços
e senti todos os ventos.
Ventos do sul, vento norte,
ventos do leste e do oeste,
tão diversos como a sorte
que tu, na vida, nos deste.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida —
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.4
que quase nem molha a gente.
É uma música em surdina
que apenas a alma sente.
Junto meu rosto à vidraça
e olho a rua sem pensar.
Fico em estado de graça,
como quem vai comungar.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida,
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Senhora tu não devias
permitir tantos enganos.
Há excesso de alegrias,
e excesso de desenganos.
Por onde andaram meus passos
vi sinais de desalentos.
Vaguei por muitos espaços
e senti todos os ventos.
Ventos do sul, vento norte,
ventos do leste e do oeste,
tão diversos como a sorte
que tu, na vida, nos deste.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida —
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.4
2 016