Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Moreira Campos

Moreira Campos

Minhas Sombras

Como gostar de festas,
se logo se apresentam
e são convivas os meus mortos,
que antes já habitavam a dor e a conformação?
Nem sei bem onde estão enterrados,
se eu mesmo tive necessidade de braçadas fortes
para não soçobrar, de todo.

Minha irmã
(primeira companheira de brinquedos)
cancelou-se aos cinco anos
e morreu aos quarenta
de solidão e desamparo,
e é espinho longo e agudo
profundamente encravado,
profundamente,
no mais sensível da carne
(como encarar seus olhos magoados?).

Nesta noite de Natal
é de sangue, silêncio e queixa
(porque nem sequer terá direito à revolta)
o leito de meu irmão
na ala anônima do hospital.

De resto, nasci com a consciência
de que a dor é geratriz da vida.
A dose de uísque
tornar-me-ia apenas mais absurdo.

Como gostar de festas,
se eles estão presentes
e são convivas deste estranho banquete?

1 133
Herberto Helder

Herberto Helder

4G

A arte íngreme que pratico escondido no sono pratica-se
em si mesma. A morte serve-a.
Serve-se dela. Arte da melancolia e do instinto.
Quando agarro a cara, a rotação do mundo faz rodar
a olaria astronómica: uma cara
chamejante, múltipla, luxuosa.
Deus olha-a.
E a arte alta do sono fica pesada:
— Mel, o mel em brasa, a substância
potente, elementar, ardente, obscura, doce de uma doçura
fortíssima,
o mel,
arrebatada. Uma arte inextricável que,
pela doçura, enche as bolsas cruas
da carne, embriaga, queima tudo, mata,
mata.
1 021
Raimundo Correia

Raimundo Correia

Tristeza de Momo

Pela primeira vez, ímpias risadas
Susta em prantos o deus da zombaria;
Chora, e vingam-se dele, nesse dia,
Os silvanos e as ninfas ultrajadas;

Trovejam bocas mil escancaradas,
Rindo; arrombam-se os diques da alegria,
E estoira descomposta vozeria
Por toda a selva, e apupos e pedradas.

Fauno o indigita; a Náiade o caçoa;
Sátiros vis, da mais indigna laia,
Zombam. Não há quem dele se condoa!

E Eco propaga a formidável vaia,
Que além, por fundos boqueirões reboa,
E, como um largo mar, rola e se espraia...


In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.8
3 421
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Três Respostas Em Face de Deus

Familles, je vous hais! foyers clos; portes refermées; possessions jalouses
du bonheur.
A. Gide

C'est l'ami ni ardent ni faible. L'ami.
Rimbaud

…ô Femme, monceau d'entrailles, pitié douce Tu n'est jamais la soeur de
charité, jamais
Rimbaud

Sim, vós sois... (eu deveria ajoelhar dizendo os vossos nomes!)
E sem vós quem se mataria no presságio de alguma madrugada?
À vossa mesa irei murchando para que o vosso vinho vá bebendo
De minha poesia farei música para que não mais vos firam os seus acentos
dolorosos
Livres as mãos e serei Tântalo — mas o suplício da sede vós o vereis
apenas nos meus olhos
Que adormeceram nas visões das auroras geladas onde o sol de sangue não
caminha...

E vós!... (Oh, o fervor de dizer os vossos nomes angustiados!)
Deixai correr o vosso sangue eterno sobre as minhas lágrimas de ouro!
Vós sois o espírito, a alma, a inteligência das coisas criadas
E a vós eu não rirei — rir é atormentar a tragédia interior que ama o
silêncio
Convosco e contra vós eu vagarei em todos os desertos
E a mesma águia se alimentará das nossas entranhas tormentosas.

E vós, serenos anjos... (eu deveria morrer dizendo os vossos nomes!)

Vós cujos pequenos seios se iluminavam misteriosamente à minha presença
silenciosa!
V ossa lembrança é como a vida que não abandona o espírito no sono
Vós fostes para mim o grande encontro...
E vós também, ó árvores de desejo! Vós, a jetatura de Deus enlouquecido
Vós sereis o demônio em todas as idades.
1 040
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quanta tristeza e amargura afoga

Quanta tristeza e amargura afoga
Em confusão a 'streita Vida! Quanto
Infortúnio mesquinho
Nos oprime supremo!
Feliz ou o bruto que nos verdes campos
Pasce, para si mesmo anónimo, e entra
Na morte como em casa;
Ou o sábio que, perdido
Na ciência, a fútil vida austera eleva
Além da nossa, como o fumo que ergue
Braços que se desfazem
A um céu inexistente.


13/06/1926 (Presença, nº 6, 18 de Julho de 1927)
2 115
Marly de Oliveira

Marly de Oliveira

Perdi a capacidade de assombro

Perdi a capacidade de assombro
mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço
que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga
chama, que me movia no mínimo
gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se
na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato
com o mundo, pérola radiosa, vão pecúlio,
uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga
união com o que existe,
triste alfaia.

1 396
Yone Giannetti Fonseca

Yone Giannetti Fonseca

ENTRE O SONHO E O NOJO

Nenhum panorama
Além desta tarde
De cimento e lama

Nenhum desafogo
No jogo incansável
Entre o sonho e o nojo.

Nenhuma surpresa
No gozo da prenda:
Só cara ou coroa.

Nenhuma palavra
Tão desnecessária
Que não seja caça.

Somente o recalque
Desta virgindade
Disfarçada em atos.

Nenhum desenlace,
Apenas a lágrima
Inundando a alma.

À beira do rio
O mapa das praias
Como uma miragem.

Nenhuma verdade
Tão inteira e intacta,
Que não se descarte.

Somente o desastre
Deste com sem arte
De não ser abstrato.


Nenhuma memória,
Nenhum estandarte
Somente um ensaio

Que ninguém repara,
Sempre uma cachaça
Inundando a carne.
1 044
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Estivemos oito dias esperando

Estivemos oito dias esperando
por um bergantim
de nossa companhia se perdera: como não veio
mandou o Capitão pôr uma cruz na ilha e nela
atada
uma carta emburilhada em cera
e nela
dizia ao Capitão do bergantim
o que fizesse vindo ali ter:
e emburilhada em cera e mel
fincada com punhal no coração
esta é uma carta, amor, é teu canto de morte —
epitáfio
da primavera:
naquela madrugada
do Hospital dos Espanhóis:
quando teus olhos foram se afundando
na doce caravela de teu corpo,
a herança
de um quinhão de luz tocou aos meus e a camarinha
doou ao coração sua parte de ar
e no formal de partilha o silêncio
era só meu e o rumor
de uma voz — individido —
sucedeu ao ouvido solitário:
o amante da amada morta tem um ouvido a mais
et video cherubim ac seraphim
et audio:
no rádio de Paquita o tango de ontem
é agora mais forte sobre a rua
Benjamim Constant e no Largo da Glória, ó Paulo Flerrúng,
as merencórias putas são mais tristes
batem mais os relógios pela madrugada no sobrado
de Alice
e no bar do Soares se contemplam mais
as cadeiras espectantes:
partiu quem repartia
comigo o ar e a luz e o silêncio e o rumor
e de ar e de luz e de silêncio e vozes
resultou, amor, mais rico o teu cantor — e agora
resta
percorrer teu inventário e nele
a doação de um anel, de uma estrela,
de um céu de agosto e a promessa
da resposta ao beijo na defunta boca — e quem
pudera cantar — que voz se modulara dentro
deste quarto quando
das maçãs do silêncio vive a morte
de teu rosto — na maçã
de teu rosto — pálida rosa entre as outras flores:
pois à pálida rosa submissa
a rosa de ferro do rosto de Albrecht Engels
flor cinérea dos olhos de Heinz Lorenz e outros
guerreiros alemães:
celebravam a princesa morta
e Chagall e Edgar e os cárceres se abriram
requiem para a infanta morta
Guido Corti e Edmondo di Robilant, dos condados
de Veneza:
à pálida rosa respondia a flor
de mármore do rosto dos fidalgos de Itália
e Enrico Marchesini era florentino e chorava
e Amleto Albieri era vêneto — e chorava
e George Blass, o formoso velho, era do sul da
Alemanha — e chorava
e celebrava a lágrima o melhor azul de seus olhos
renanos
e Meyer-Clason viera da Westphalia — e chorava
os sinos dobraram nas lpueiras e entre os poetas
— entre
Marcos Konder e os outros — entre bons ladrões
bons assassinos tomados de doçura — e
a doçura
pungira o duro olhar de Manoel Bento e o belo
inesquecido rosto de Frau Malik — viera de Bonn
am Rheín e chorava
erue, Domine, trenavam vozes
Padre Frederico Prfllwitz — viera da Prússia e
chorava
viera o Padre Fernando do Rio Comprido — e
chorava
e Frei Meinulfo da Baviera e chorava
e o Padre José — de Turim — e chorava
e Monsenhor Felício Magaldi era napolitano e
chorava
e o Padre Waldir era alagoano — e chorava
e o grande rosto compassivo de Castro Pinto —
chorava.

Naquela tarde sobre o lgarapé das Almas no país
do Pará
a velha Maria Cândida sentiu um nó nas entranhas
transfigurou-se de súbito à beira das águas e
clamou a Manuel e Lourdes e Antônio e
João e Zaida
e aos vizinhos atônitos
apontando a vitória-régia que se afundava nas
águas ao terral de junho:
— Magdalena está morrendo — é a flor
da morte no rosto da princesa" —
e no rosto
mongol do velho pai, da velha mãe
no igarapé dos olhos dourados
a pétala da morta desmaiava.

Pois canto agora sua sombra:
já rosa entre as mulheres — conhecido
foi seu corpo ao macho à borboleta ao óleo-santo
e à manjerona em flor:
entre formas
de brisa e moldes de luar
é lida a sua forma — e sabe dela
a raiz da relva — e à volta
das hortelãs cheirosas
Yugo Kusakabe — era japonês — e chorava
e lavrou-lhe a pedra da sepultura e por ali
sei o caminho do homem em sua mocidade.

Sentado junto à Ponte Vecchio o poeta
examinava o mapa de Eleusis e ensinava aos pés
várzea, lezíria e vertentes do monte
e a lira de Tibulo a tiracolo
pastor da morte a morte o pastoreia
venho de onde para onde parto
Madgalena
da raça dos Mourões
na adega do sepulcro amadurece
a ancoreta do vinho desejado —
sou o axnante de bronze: da espada empunho os
copos
e nos copos de seu vinho com a ponta da espada
mergulhe a macerar-se o coração
e da romã partida
regale-se na lágrima a semente
de amor e morte para sempre
esparzida em teu vôo
E as amantes na alcova e os algozes no ergástulo e
o confessor na extrema-unção e o médico
na autópsia sobre o peito hão de
encontrar-me
de teu pássaro e teu nome a tatuagem azul

.........................
(e ainda cantarei de ti)
.....................

E foi o funeral — esse — de Magdalena domadora
de coração
nas moradas altas do cemitério — testemunha
Efraín — e uma palmeira
cresceu de súbito de sua fina cintura — lembra
Bárbara —
e seu jeito guarda
na boca desse frade alemão
nome de milagre —
good night, sweet Princess,
amadures
no chão da sepultura
e da haste do florido corpo
nas auroras eternas
te encontrarei, formosa, e a mão
arredondada às curvas morenas
macia de madeixas a mão
demorarei no fruto de teu rosto
e à luz dos olhos
põe-te um vestido verde
por formosura
como a pera
quando madura.

1 231
Manuel Laranjeira

Manuel Laranjeira

PALAVRAS DUM FAN'TASMA

Aquela doce e mística suicida
que me visita pela noite morta,
vim agora encontrá-la à minha porta
esperando por mim, toda transida...

Prendeu-me nos seus braços desvairados,
longamente, em silêncio, como louca..
E ainda sinto o consolo dessa boca,
beijando-me nos olhos desolados....

Depois pôs-se a dizer-me em voz baixinha:
– "Bem vês, meu pobre amor, ela não tinha
um coração como eu...

Alma de sacrifício – nunca a viste
igual à minha!... e a minha não te deu
felicidade alguma... se isso existe..."
678
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

TOMÁMOS A VILA DEPOIS DUM INTENSO BOMBARDEAMENTO

TOMÁMOS A VILA DEPOIS DUM INTENSO BOMBARDEAMENTO

A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
– Dos que bóiam nas banheiras –
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

E o da criança loura?
4 264
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A WINTER DAY

I

'Tis a void winter day, sad as a moan.
A sense of loneliness, as of a stone
Upon a grave, or of a rock in sea
Rests like a mighty shadow over me.
I am unnerved, unminded by the pall
Of solemn clouds that, weighty over all,
Curtail the vision; and upon mine ear

The City's rumble brings despair and fear
To crush my spirit free and wild.
        The rain,
Reiterated horribly, again
Beast with its drops at my cold window‑pane
With such a sound as makes us know it cold.
The world is ghostly, undaylike and old,
And weary passengers, with cautious tread,
Yet hurried, walk within the streets soul‑dead
In the unkindness of their hue of lead.

The streets are streamlets, and perpetual
A sound of little waters, on roof, on wall,
Down in the streets, in pipes, in window‑glass
And into rooms doth wetly come and pass.
        All is the rain's.
All is pale wetness, darkness inly cold,
A sentiment of waste things and of old
Making all things exterior sorrows, pains;
And all we hear and feel and know and see
Is wrapt around as with a masking cloak
In inconceivable monotony.

All in the houses and up from the street
Is a long watery shuffle of heavy feet,
A sound of drenched garments, and a sense
Of a sad chillness, latently intense.
Through cracks in doors and windows a gust cold
Of wind penetrates like a memory of old
Times to make freeze my body, ill reclined
Upon a couch, a sufferer with my mind.

Life in the streets is sad, a monotone
More dull than usual ordinariness:
Business and work have lost their usual stress,
The vender's cries are each of them a moan
Grotesque, desolate, as forlorn and half‑dead
Hearts might produce which make a war (?) attempt
At talking normally, as if they not bled.
Half‑childish urchins, gloriously unkempt
Laugh at the water that cart‑wheels upshed.

The muddy urchins in the streets that play
Make shades of envy in my soul to stay.
Couples, some newly‑married, others not,
Who in the commonness of their no‑thought

Have a deep happiness I would not have,
A joy to which I would prefer the grave,
Pass in the street. some gay and some sedate.
I feel me no like men in any way.
I envy those - I speak true - without hate
And without admiration, isolate (?).
I would that l were happy as they are
But not with that their happiness. Thus far
Such living as theirs is were unto me
Misery, penury, monotony.

Alas for all who dream! Alas for us,
Poor poets, more or less mad, more or less
Foolish! In this consists true happiness!
In knowing how to be monotonous.
Happy are they who can see without sorrow
        To‑day yield us to‑morrow
And yet to‑morrow and to‑day to them
Different days because different days,
Which are to me (save that they pass) the same.

II

The view I have of this cold winter day,
The deep depression that makes my thoughts stray
Is but a symbol and a synthesis
Of what my life perpetually is.

How deep my thoughts in pain and sadness are!
How wreck'd my soul in its intense despair!
How desolate, disconsolately mute
My heart is of the words that like scents shoot
From the full flower of true youthfulness!
How locked am I within my own distress!
How in the tragic circle soul‑confined
        Of my abhorred self!
Not one ambition leads me - power nor pelf,
No wish for fame, no love of poor mankind.
But I am weary, desolate and cold
E'vn as this winter day. I have grown old
In watching dreams go by and pass away
        Leaving a memory pure and bright
        Of aught that was and died as light
Without the living horror of decay.

Is this thy life, irresolute soul of mine?
How pale the sun of thy sad morn doth shine!
How it forebodes the cloudiness that comes
Outstretched wings of the storm whose muffled drums
Of warning in the paling day are heard
Deep in the distance lesseningly blurred.

Thou look'st not death nor evil in the face
Poor soul despairing in life's troubled race!
All forms of life, all things have been to thee
Mutations of eternal misery.
All years, all homes to thee have been
In the same drama many a change of scene.
Thou hast not learned to live, but thou dost cling
Madly to life (dreading Death's night severe),
As if life or the world were anything!
1 723
Manuel Laranjeira

Manuel Laranjeira

DIÁLOGO COM UM FANTASMA:

– "Ó fantasma de alguém que soube amar
e teve um coração grande e perfeito,
porque é que vens agora soluçar,
muito abraçada a mim, quando me deito?

Porque é que tu me beijas a chorar
e me apertas calada contra o peito,
ó morta que me vinhas visitar,
debruçada a sorrir sobre o meu leito?"

E o fantasma responde-me alterado:
– "Eu sofro porque sofres. Desgraçado,
vais gozar a desgraça de viver...

Agora que tu amas, é que a vida
te dirá como é vá e aborrecida,
sem ninguém que nos possa compreender..."
663
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Desperta a Nudez

Desperta a nudez espalha-se o silêncio
e a nostalgia acende-se como uma sombra clara.
Tudo o que vemos é longe entre margens de sono.
Arde e repousa a casa numa frescura imensa.
Inclinam-se os campos à memória mais antiga.

É a ausência que sabe em transparência líquida
a ternura mais funda das águas esquecidas.
Que júbilo de lâmpadas, de ervas e de rodas
brancas nos caminhos, que frescura tão limpa!
A solidão levanta os ombros e carrega

os volumes vazios da agonia. Toda a substância
se aligeira e desnuda na espessura.
Ver é quase nascer e ver ondear o vento.
Há uma presença branca de uma nuvem esquecida.
Alto, uma linha de silêncio se ilumina.
1 078
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

NOVA ILUSÃO

NOVA ILUSÃO

No rarear dos deuses e dos mitos
Deuses antigos, vós ressuscitais
Sob a forma longínqua de ideais
Aos enganados olhos sempre aflitos.

Do que vós concebeis mais circunscritos,
Desdenhais a alma exterior dos ritos
E o sentimento que os gerou guardais.

Lá para além dos seres, ao profundo
Meditar, surge, grande e impotente
O sentimento da ilusão do mundo.

Os falsos ideais do Aparente
Não o atingem – único final
Neste entenebrecer universal.


06/11/1909
4 462
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

DOLORA

POEMAS DISPERSOS


DOLORA

Dantes quão ledo afectava
Uma atroz melancolia!
Poeta triste ser queria
E por não chorar chorava.

Depois, tive que encontrar
A vida rígida e má.
Triste então chorava já
Porque tinha que chorar.

Num desolado alvoroço
Mais que triste não me ignoro.
Hoje em dia apenas choro
Porque já chorar não posso.


19/11/1908
4 379
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ESTADO DE ALMA

ESTADO DE ALMA

Inutilmente vivida
Acumula-se-me a vida
Em anos, meses e dias;
Inutilmente vivida,
Sem dores nem alegrias,
Mas só em monotonias
De mágoa incompreendida...

Mágoa sem fogo de vida
Que a faça viva e sentida;
Mas a mágoa de mãos frias
E inaptas para arte ou lida,
Nem para gestos de agonias
Ou mostras de alma vencida.

Nada: inerte e dolorida,
A minha dor se extasia
Por não ser, e tem só vida
Para em torno a noite fria
Sentir vaga e indefinida...


18/01/1910
5 061
Bocage

Bocage

O autor aos seus versos

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

2 688
Celso Emilio Ferreiro

Celso Emilio Ferreiro

Tempo de chorar

Hei de chorar sin bágoas duro pranto
polas pombas de luz aferrolladas,
polo esprito vencido baixo a noite
da libertá prostituída.
As espadas penduran silandeiras
coma unha chuvia fría diante os ollos
e teño que chorar na sombra fuxidía
diste pútrido vento
que arromba a lealtá e pon cadeas
no corazón dos homes xenerosos.

Pois que somente os ollos me deixaron
para chorar por iles longos ríos,
hei navegar periplos, descubertas
por tempos que han de vir cheos de escumas,
por onde o día nasce,
alí onde xermola o mundo novo.
Pois que o que chora vive, iremos indo;
indo, chorando, andando,
salvaxe voz que ha de trocarse en ira,
en coitelo de berros e alboradas
para rubir ao cumio dos aldraxes.

E pois que cada tempo ten seu tempo,
iste é o tempo de chorar.

2 319
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

DEPOIS DA FEIRA

DEPOIS DA FEIRA

Vão vagos pela estrada,
Cantando sem razão
A última esp'rança dada
À última ilusão.
Não significam nada.
Mimos e bobos são.

Vão juntos e diversos
Sob um luar de ver,
Em que sonhos imersos
Nem saberão dizer,
E cantam aqueles versos
Que lembram sem querer.

Pajens de um morto mito,
Tão líricos!, tão sós!,
Não têm na voz um grito,
Mal têm a própria voz;
E ignora-os o infinito
Que nos ignora a nós.


(Presença, nº 16, Novembro de 1928)
4 985
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

GOMES LEAL

GOMES LEAL

Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a tristeza, a solidão.
Oito luas fatais fitam no espaço.

Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A plúmbea mão
Lhe ergueu ao alto o aflito coração,
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.

Inúteis oito luas da loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão e desgraça e amargura!

Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestígios de maligna formosura:
É a lua além de Deus, álgida e ignota.


(Cancioneiro, Maio de 1930)
4 353
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ABDICAÇÃO

ABDICAÇÃO

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu ceptro e coroa, – eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas, de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.


(Ressurreição, nº 9, Fevereiro de 1920)
4 675
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MARINHA

MARINHA

Ditosos a quem acena
Um lenço de despedida!
São felizes: têm pena...
Eu sofro sem pena a vida.

Doo-me até onde penso,
E a dor é já de pensar,
Órfão de um sonho suspenso
Pela maré a vazar...

E sobe até mim, já farto
De improfícuas agonias,
No cais de onde nunca parto,
A maresia dos dias.


(Presença, nº 5, Junho de 1927)
7 725
Bocage

Bocage

A Camões

Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu quando os cotejo!
Igual causa nos fez perdendo o Tejo
Arrostar co sacrílego gigante:

Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante:

Lubíbrio, como tu, da sorte dura,
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura:

Modelo meu tu és... Mas, ó tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da natureza.

2 310
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Onda que, enrolada, tornas,

Onda que, enrolada, tornas,
Pequena, ao mar que te trouxe
E ao recuar te transtornas
Como se o mar nada fosse,

Porque é que levas contigo
Só a tua cessação,
E, ao voltar ao mar antigo,
Não levas meu coração?

Há tanto tempo que o tenho
Que me pesa de o sentir.
Leva-o no som sem tamanho
Com que te ouço fugir!


09/05/1934
4 696