Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Manuel Bandeira
Verdes Mares
Clama uma voz amiga: — “Aí tem o Ceará.”
E eu, que nas ondas punha a vista deslumbrada,
Olho a cidade. Ao sol chispa a areia doirada.
A bordo a faina avulta e toda a gente já
Desce. Uma moça ri, quebrando o panamá.
— “Perdi a mala!” um diz de cara acabrunhada.
Sobre as águas, arfando, uma breve jangada
Passa. Tão frágil! Deus a leve, onde ela vá.
Esmalta ao fundo a costa a verdura de um parque.
E enquanto a grita aumenta em berros e assobios
Rudes, na confusão brutal do desembarque:
Fitando a vastidão magnífica do mar,
Que ressalta e reluz: — “Verdes mares bravios...”
Cita um sujeito que jamais leu Alencar.
1908
A ROSA
À vista incerta,
Os ombros langues,
Pierrot aperta
Às mãos exangues
De encontro ao peito.
Alguma cousa
O punge ali
Que ele não ousa
Lançar de si,
O pobre doido!
Uma sombria
Rosa escarlata
Em agonia
Faz que lhe bata
O coração...
Sangrenta rosa
Que evoca a louca,
A voluptuosa,
Volúvel boca
De sua amada...
Ah, com que mágoa,
Com que desgosto
Dois fios de água
Lavam-lhe o rosto
De faces lívidas!
Da veste branca
À larga túnica
Por fim arranca
A rosa púnica
Em um soluço.
E parecia,
Jogando ao chão
A flor sombria,
Que o coração
Ele arrancara!...
E eu, que nas ondas punha a vista deslumbrada,
Olho a cidade. Ao sol chispa a areia doirada.
A bordo a faina avulta e toda a gente já
Desce. Uma moça ri, quebrando o panamá.
— “Perdi a mala!” um diz de cara acabrunhada.
Sobre as águas, arfando, uma breve jangada
Passa. Tão frágil! Deus a leve, onde ela vá.
Esmalta ao fundo a costa a verdura de um parque.
E enquanto a grita aumenta em berros e assobios
Rudes, na confusão brutal do desembarque:
Fitando a vastidão magnífica do mar,
Que ressalta e reluz: — “Verdes mares bravios...”
Cita um sujeito que jamais leu Alencar.
1908
A ROSA
À vista incerta,
Os ombros langues,
Pierrot aperta
Às mãos exangues
De encontro ao peito.
Alguma cousa
O punge ali
Que ele não ousa
Lançar de si,
O pobre doido!
Uma sombria
Rosa escarlata
Em agonia
Faz que lhe bata
O coração...
Sangrenta rosa
Que evoca a louca,
A voluptuosa,
Volúvel boca
De sua amada...
Ah, com que mágoa,
Com que desgosto
Dois fios de água
Lavam-lhe o rosto
De faces lívidas!
Da veste branca
À larga túnica
Por fim arranca
A rosa púnica
Em um soluço.
E parecia,
Jogando ao chão
A flor sombria,
Que o coração
Ele arrancara!...
965
José Mário Rodrigues
CONQUISTA
Acorda-me a voz do morto
e o falar desnecessário dos vivos
me faz adormecer.
Dá muito trabalho ser feliz.
Tiram-me o sossego esses abandonados:
ora avançam sobre os relógios
ora acomodam-se entorpecidos
pelas calçadas.
Os assassinatos, os sequestros, os assaltos
não mudam apenas os destinos:
nos calam pelo espanto.
Por isso, agora,
o esquecimento é minha conquista.
Dá muito trabalho ser feliz.
e o falar desnecessário dos vivos
me faz adormecer.
Dá muito trabalho ser feliz.
Tiram-me o sossego esses abandonados:
ora avançam sobre os relógios
ora acomodam-se entorpecidos
pelas calçadas.
Os assassinatos, os sequestros, os assaltos
não mudam apenas os destinos:
nos calam pelo espanto.
Por isso, agora,
o esquecimento é minha conquista.
Dá muito trabalho ser feliz.
716
Manuel Bandeira
A Sereia de Lenau
Quando na grave solidão do Atlântico
Olhavas da amurada do navio
O mar já luminoso e já sombrio,
Lenau! teu grande espírito romântico
Suspirava por ver dentro das ondas
Até o álveo profundo das areias,
A enxergar alvas formas de sereias
De braços nus e nádegas redondas.
Ilusão! que sem cauda aqueles seres,
Deixando o ermo monótono das águas,
Andam em terra suscitando mágoas,
Misturadas às filhas das mulheres.
Nikolaus Lenau, poeta da amargura!
Uma te amou, chamava-se Sofia.
E te levou pela melancolia
Ao oceano sem fundo da loucura.
Olhavas da amurada do navio
O mar já luminoso e já sombrio,
Lenau! teu grande espírito romântico
Suspirava por ver dentro das ondas
Até o álveo profundo das areias,
A enxergar alvas formas de sereias
De braços nus e nádegas redondas.
Ilusão! que sem cauda aqueles seres,
Deixando o ermo monótono das águas,
Andam em terra suscitando mágoas,
Misturadas às filhas das mulheres.
Nikolaus Lenau, poeta da amargura!
Uma te amou, chamava-se Sofia.
E te levou pela melancolia
Ao oceano sem fundo da loucura.
1 182
Felipe Larson
I´M GOING DOWN
Eu quero ter, alguém pra mim
Ai vem você e pisa em mim
Eu não tô legal
O nosso prazer chegou ao fim
Difícil dizer, mas espero teu sim
Isso é tão normal
Mas quando tudo mudar
Você vai notar
Que eu to ficando mal
Quando a chuva chegar
E o tempo passar
I´m going down!
Por sua causa, no que me meti
Não tenho alma, pois a vendi
Eu não fiz por mal
Mas quando tudo mudar
Você vai notar
Eu to ficando mal
Mas quando tudo sumir
A estrela cair
Eu vou ficar legal
Ai vem você e pisa em mim
Eu não tô legal
O nosso prazer chegou ao fim
Difícil dizer, mas espero teu sim
Isso é tão normal
Mas quando tudo mudar
Você vai notar
Que eu to ficando mal
Quando a chuva chegar
E o tempo passar
I´m going down!
Por sua causa, no que me meti
Não tenho alma, pois a vendi
Eu não fiz por mal
Mas quando tudo mudar
Você vai notar
Eu to ficando mal
Mas quando tudo sumir
A estrela cair
Eu vou ficar legal
760
Manuel Bandeira
Flores Murchas
Pálidas crianças
Mal desabrochadas
Na manhã da vida!
Tristes asiladas
Que pendeis cansadas
Como flores murchas!
Pálidas crianças
Que me recordais
Minhas esperanças!
Pálidas meninas
Sem amor de mãe,
Pálidas meninas
Uniformizadas,
Quem vos arrancara
Dessas vestes tristes
Onde a caridade
Vos amortalhou!
Pálidas meninas
Sem olhar de pai,
Ai quem vos dissera,
Ai quem vos gritara:
— Anjos, debandai!
Mas ninguém vos diz
Nem ninguém vos dá
Mais que o olhar de pena
Quando desfilais,
Açucenas murchas,
Procissão de sombras!
Ao cair da tarde
Vós me recordais
— Ó meninas tristes! —
Minhas esperanças!
Minhas esperanças
— Meninas cansadas,
Pálidas crianças
A quem ninguém diz:
— Anjos, debandai!...
Mal desabrochadas
Na manhã da vida!
Tristes asiladas
Que pendeis cansadas
Como flores murchas!
Pálidas crianças
Que me recordais
Minhas esperanças!
Pálidas meninas
Sem amor de mãe,
Pálidas meninas
Uniformizadas,
Quem vos arrancara
Dessas vestes tristes
Onde a caridade
Vos amortalhou!
Pálidas meninas
Sem olhar de pai,
Ai quem vos dissera,
Ai quem vos gritara:
— Anjos, debandai!
Mas ninguém vos diz
Nem ninguém vos dá
Mais que o olhar de pena
Quando desfilais,
Açucenas murchas,
Procissão de sombras!
Ao cair da tarde
Vós me recordais
— Ó meninas tristes! —
Minhas esperanças!
Minhas esperanças
— Meninas cansadas,
Pálidas crianças
A quem ninguém diz:
— Anjos, debandai!...
1 822
Manuel Bandeira
Rondó do Palace Hotel
No hall do Palace o pintor
Cícero Dias entre o Pão
De Açúcar e um caixão de enterro
(É um rei andrógino que enterram?)
Toca um jazz de pandeiros com a mão
Que o Blaise Cendrars perdeu na guerra.
Deus do céu, que alucinação!
Há uma criatura tão bonita
Que até os olhos parecem nus:
Nossa Senhora da Prostituição!
— “Garçom, cinco martínis!” Os
Adolescentes cheiram éter
No hall do Palace.
Aqui ninguém dá atenção aos préstitos
(Passa um clangor de clubes lá fora):
Aqui dança-se, canta-se, fala-se
E bebe-se incessantemente
Para esquecer a dor daquilo
Por alguém que não está presente
No hall do Palace.
Cícero Dias entre o Pão
De Açúcar e um caixão de enterro
(É um rei andrógino que enterram?)
Toca um jazz de pandeiros com a mão
Que o Blaise Cendrars perdeu na guerra.
Deus do céu, que alucinação!
Há uma criatura tão bonita
Que até os olhos parecem nus:
Nossa Senhora da Prostituição!
— “Garçom, cinco martínis!” Os
Adolescentes cheiram éter
No hall do Palace.
Aqui ninguém dá atenção aos préstitos
(Passa um clangor de clubes lá fora):
Aqui dança-se, canta-se, fala-se
E bebe-se incessantemente
Para esquecer a dor daquilo
Por alguém que não está presente
No hall do Palace.
584
Josely Vianna Baptista
Oficina Revelação
“Chorar com lágrimas é sinal de dor moderada; chorar sem lágrimas é sinal de maior dor;
e chorar com riso é sinal de dor suma e excessiva.”
(Padre Antonio Vieira)
Aqui não se veem olhos
que abriguem lágrimas.
Só artifícios.
O fogo aceso nos latões de lixo.
Aqui não se veem olhos
que abriguem lágrimas.
No charco frio,
um ramalhete macera suas pétalas.
Aqui não se veem olhos
que abriguem lágrimas.
Cornijas riem
do arrulho rouco dos pombos
nos umbrais.
Aqui não se veem olhos
que abriguem lágrimas.
Só trilhos sujos.
E a pompa fúnebre dos caminhões
de entulho.
Ao rés do chão,
como um insulto,
uma moeda brilha no bueiro
sob o casulo adormecido
de um vulto.
Aqui não se veem ilhas
que abriguem náufragos
(mas sob as gazes frias
da geada
saxífragas florescem
entre as pedras
– como dádivas.)
e chorar com riso é sinal de dor suma e excessiva.”
(Padre Antonio Vieira)
Aqui não se veem olhos
que abriguem lágrimas.
Só artifícios.
O fogo aceso nos latões de lixo.
Aqui não se veem olhos
que abriguem lágrimas.
No charco frio,
um ramalhete macera suas pétalas.
Aqui não se veem olhos
que abriguem lágrimas.
Cornijas riem
do arrulho rouco dos pombos
nos umbrais.
Aqui não se veem olhos
que abriguem lágrimas.
Só trilhos sujos.
E a pompa fúnebre dos caminhões
de entulho.
Ao rés do chão,
como um insulto,
uma moeda brilha no bueiro
sob o casulo adormecido
de um vulto.
Aqui não se veem ilhas
que abriguem náufragos
(mas sob as gazes frias
da geada
saxífragas florescem
entre as pedras
– como dádivas.)
754
Vinicius de Moraes
Mormaço
No silêncio morno das coisas do meio-dia
Eu me esvaio no aniquilamento dos agudíssimos do violino
Que a menina pálida estuda há anos sem compreender.
Eu sinto o letargo das dissonâncias harmônicas
Do vendedor de modinhas e da pedra do amolador
Que trazem a visão de mulheres macilentas dançando no espaço
Na moleza das espatifadas da carne.
Eu vou pouco a pouco adormecendo
Sentindo os gritos do violino que penetram em todas as frestas
E ressecam os lábios entreabertos na respiração
Mas que dão a impressão da mediocridade feliz e boa.
Que importa que a imagem do Cristo pregada na parede seja a verdade...
Eu sinto que a verdade é a grande calma do sono
Que vem com o cantar longínquo dos galos
E que me esmaga nos cílios longos beijos luxuriosos...
Eu sinto a queda de tudo na lassidão...
Adormeço aos poucos na apatia dos ruídos da rua
E na constância nostálgica da tosse do vizinho tuberculoso
Que há um ano espera a morte que eu morro no sono do meio-dia.
Eu me esvaio no aniquilamento dos agudíssimos do violino
Que a menina pálida estuda há anos sem compreender.
Eu sinto o letargo das dissonâncias harmônicas
Do vendedor de modinhas e da pedra do amolador
Que trazem a visão de mulheres macilentas dançando no espaço
Na moleza das espatifadas da carne.
Eu vou pouco a pouco adormecendo
Sentindo os gritos do violino que penetram em todas as frestas
E ressecam os lábios entreabertos na respiração
Mas que dão a impressão da mediocridade feliz e boa.
Que importa que a imagem do Cristo pregada na parede seja a verdade...
Eu sinto que a verdade é a grande calma do sono
Que vem com o cantar longínquo dos galos
E que me esmaga nos cílios longos beijos luxuriosos...
Eu sinto a queda de tudo na lassidão...
Adormeço aos poucos na apatia dos ruídos da rua
E na constância nostálgica da tosse do vizinho tuberculoso
Que há um ano espera a morte que eu morro no sono do meio-dia.
1 100
Manuel Bandeira
Rondó dos Cavalinhos
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O sol tão claro lá fora,
E em minh'alma — anoitecendo!
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Alfonso Reyes partindo,
E tanta gente ficando...
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando...
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minh'alma — anoitecendo!
E nós, cavalões, comendo...
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O sol tão claro lá fora,
E em minh'alma — anoitecendo!
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
Alfonso Reyes partindo,
E tanta gente ficando...
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando...
Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minh'alma — anoitecendo!
1 570
Vinicius de Moraes
Vazio
A noite é como um olhar longo e claro de mulher.
Sinto-me só.
Em todas as coisas que me rodeiam
Há um desconhecimento completo da minha infelicidade.
A noite alta me espia pela janela
E eu, desamparado de tudo, desamparado de mim próprio
Olho as coisas em torno
Com um desconhecimento completo das coisas que me rodeiam.
Vago em mim mesmo, sozinho, perdido
Tudo é deserto, minha alma é vazia
E tem o silêncio grave dos templos abandonados.
Eu espio a noite pela janela
Ela tem a quietação maravilhosa do êxtase.
Mas os gatos embaixo me acordam gritando luxúrias
E eu penso que amanhã...
Mas a gata vê na rua um gato preto e grande
E foge do gato cinzento.
Eu espio a noite maravilhosa
Estranha como um olhar de carne.
Vejo na grade o gato cinzento olhando os amores da gata e do gato preto
Perco-me por momentos em antigas aventuras
E volto à alma vazia e silenciosa que não acorda mais
Nem à noite clara e longa como um olhar de mulher
Nem aos gritos luxuriosos dos gatos se amando na rua.
Sinto-me só.
Em todas as coisas que me rodeiam
Há um desconhecimento completo da minha infelicidade.
A noite alta me espia pela janela
E eu, desamparado de tudo, desamparado de mim próprio
Olho as coisas em torno
Com um desconhecimento completo das coisas que me rodeiam.
Vago em mim mesmo, sozinho, perdido
Tudo é deserto, minha alma é vazia
E tem o silêncio grave dos templos abandonados.
Eu espio a noite pela janela
Ela tem a quietação maravilhosa do êxtase.
Mas os gatos embaixo me acordam gritando luxúrias
E eu penso que amanhã...
Mas a gata vê na rua um gato preto e grande
E foge do gato cinzento.
Eu espio a noite maravilhosa
Estranha como um olhar de carne.
Vejo na grade o gato cinzento olhando os amores da gata e do gato preto
Perco-me por momentos em antigas aventuras
E volto à alma vazia e silenciosa que não acorda mais
Nem à noite clara e longa como um olhar de mulher
Nem aos gritos luxuriosos dos gatos se amando na rua.
1 156
Manuel Bandeira
Letra para Heitor dos Prazeres
— Juriti-pepena
Tão perto do fim...
— Grande é minha pena,
Nem há outra assim!
— Juriti-pepena,
Qual é tua pena?
Conta para mim!
— Não posso, me'irmão,
Que ela está lá dentro,
Muito lá no fundo
De meu coração.
— Juriti-pepena,
É pena de amor?
— Não, é de paixão.
— Ah, agora te entendo:
Não há maior pena.
Pobre, pobre, pobre
Juriti-pepena!
Tão perto do fim...
— Grande é minha pena,
Nem há outra assim!
— Juriti-pepena,
Qual é tua pena?
Conta para mim!
— Não posso, me'irmão,
Que ela está lá dentro,
Muito lá no fundo
De meu coração.
— Juriti-pepena,
É pena de amor?
— Não, é de paixão.
— Ah, agora te entendo:
Não há maior pena.
Pobre, pobre, pobre
Juriti-pepena!
657
Álvares de Azevedo
DESÂNIMO
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
Estou agora triste. Há nesta vida
Páginas torvas que se não apagam,
Nódoas que não se lavam... se esquecê-las
De todo não é dado a quem padece...
Ao menos resta ao sonhador consolo
No imaginar dos sonhos de mancebo!
Oh! voltai uma vez! eu sofro tanto!
Meus sonhos, consolai-me! distraí-me!
Anjos das ilusões, as asas brancas
As névoas puras, que outro sol matiza.
Abri ante meus olhos que abraseiam
E lágrimas não tem que a dor do peito
Transbordem um momento...
E tu, imagem,
Ilusão de mulher, querido sonho,
Na hora derradeira, vem sentar-te,
Pensativa e saudosa no meu leito!
O que sofres? que dor desconhecida
Inunda de palor teu rosto virgem?
Por que tu'alma dobra taciturna,
Como um lírio a um bafo d'infortúnio?
Por que tão melancólica suspiras?
Ilusão, ideal, a ti meus sonhos,
Como os cantos a Deus se erguem gemendo!
Por ti meu pobre coração palpita...
Eu sofro tanto! meus exaustos dias
Não sei por que logo ao nascer manchou-os
De negra profecia um Deus irado.
Outros meu fado invejam... Que loucura!
Que valem as ridículas vaidades
De uma vida opulenta, os falsos mimos
De gente que não ama? Até o gênio
Que Deus lançou-me à doentia fronte,
Qual semente perdida num rochedo,
Tudo isso que vale, se padeço!
Nessas horas talvez em mim não pensas:
Pousas sombria a desmaiada face
Na doce mão e pendes-te sonhando
No teu mundo ideal de fantasia...
Se meu orgulho, que fraqueia agora,
Pudesse crer que ao pobre desditoso
Sagravas uma idéia, uma saudade...
Eu seria um instante venturoso!
Mas não... ali no baile fascinante,
Na alegria brutal da noite ardente,
No sorriso ebrioso e tresloucado
Daqueles homens que, pra rir um pouco,
Encobrem sob a máscara o semblante,
Tu não pensas em mim. Na tua idéia
Se minha imagem retratou-se um dia
Foi como a estrela peregrina e pálida
Sobre a face de um lago...
Segunda Parte
Estou agora triste. Há nesta vida
Páginas torvas que se não apagam,
Nódoas que não se lavam... se esquecê-las
De todo não é dado a quem padece...
Ao menos resta ao sonhador consolo
No imaginar dos sonhos de mancebo!
Oh! voltai uma vez! eu sofro tanto!
Meus sonhos, consolai-me! distraí-me!
Anjos das ilusões, as asas brancas
As névoas puras, que outro sol matiza.
Abri ante meus olhos que abraseiam
E lágrimas não tem que a dor do peito
Transbordem um momento...
E tu, imagem,
Ilusão de mulher, querido sonho,
Na hora derradeira, vem sentar-te,
Pensativa e saudosa no meu leito!
O que sofres? que dor desconhecida
Inunda de palor teu rosto virgem?
Por que tu'alma dobra taciturna,
Como um lírio a um bafo d'infortúnio?
Por que tão melancólica suspiras?
Ilusão, ideal, a ti meus sonhos,
Como os cantos a Deus se erguem gemendo!
Por ti meu pobre coração palpita...
Eu sofro tanto! meus exaustos dias
Não sei por que logo ao nascer manchou-os
De negra profecia um Deus irado.
Outros meu fado invejam... Que loucura!
Que valem as ridículas vaidades
De uma vida opulenta, os falsos mimos
De gente que não ama? Até o gênio
Que Deus lançou-me à doentia fronte,
Qual semente perdida num rochedo,
Tudo isso que vale, se padeço!
Nessas horas talvez em mim não pensas:
Pousas sombria a desmaiada face
Na doce mão e pendes-te sonhando
No teu mundo ideal de fantasia...
Se meu orgulho, que fraqueia agora,
Pudesse crer que ao pobre desditoso
Sagravas uma idéia, uma saudade...
Eu seria um instante venturoso!
Mas não... ali no baile fascinante,
Na alegria brutal da noite ardente,
No sorriso ebrioso e tresloucado
Daqueles homens que, pra rir um pouco,
Encobrem sob a máscara o semblante,
Tu não pensas em mim. Na tua idéia
Se minha imagem retratou-se um dia
Foi como a estrela peregrina e pálida
Sobre a face de um lago...
3 204
Álvares de Azevedo
DESALENTO
Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte
Por que havíeis passar tão doces dias?
A. F. DE SERPA PIMENTEL
Feliz daquele que no livro d'alma
Não tem folhas escritas
E nem saudade amarga, arrependida,
Nem lágrimas malditas!
Feliz daquele que de um anjo as tranças
Não respirou sequer
E nem bebeu eflúvios descorando
Numa voz de mulher...
E não sentiu-lhe a mão cheirosa e branca
Perdida em seus cabelos,
Nem resvalou do sonho deleitoso
A reais pesadelos...
Quem nunca te beijou, flor dos amores,
Flor do meu coração,
E não pediu frescor, febril e insano
Da noite à viração!
Ah! feliz quem dormiu no colo ardente
Da huri dos amores,
Que sôfrego bebeu o orvalho santo
Das perfumadas flores...
E pôde vê-la morta ou esquecida
Dos longos beijos seus,
Sem blasfemar das ilusões mais puras
E sem rir-se de Deus!
Mas, nesse doloroso sofrimento
Do pobre peito meu,
Sentir no coração que à dor da vida
A esperança morreu!...
Que me resta, meu Deus? aos meus suspiros
Nem geme a viração...
E dentro, no deserto do meu peito,
Não dorme o coração!
Primeira Parte
Por que havíeis passar tão doces dias?
A. F. DE SERPA PIMENTEL
Feliz daquele que no livro d'alma
Não tem folhas escritas
E nem saudade amarga, arrependida,
Nem lágrimas malditas!
Feliz daquele que de um anjo as tranças
Não respirou sequer
E nem bebeu eflúvios descorando
Numa voz de mulher...
E não sentiu-lhe a mão cheirosa e branca
Perdida em seus cabelos,
Nem resvalou do sonho deleitoso
A reais pesadelos...
Quem nunca te beijou, flor dos amores,
Flor do meu coração,
E não pediu frescor, febril e insano
Da noite à viração!
Ah! feliz quem dormiu no colo ardente
Da huri dos amores,
Que sôfrego bebeu o orvalho santo
Das perfumadas flores...
E pôde vê-la morta ou esquecida
Dos longos beijos seus,
Sem blasfemar das ilusões mais puras
E sem rir-se de Deus!
Mas, nesse doloroso sofrimento
Do pobre peito meu,
Sentir no coração que à dor da vida
A esperança morreu!...
Que me resta, meu Deus? aos meus suspiros
Nem geme a viração...
E dentro, no deserto do meu peito,
Não dorme o coração!
2 060
Vinicius de Moraes
Olhos Mortos
Algum dia esses olhos que beijavas tanto
Numa carícia sem mistérios
Olharão para o céu e pararão.
Nesse dia nem o teu beijo angelizante
Poderá novamente despertá-los.
A luz que lhes boiava nas pupilas
Tu a verás talvez na face magra
Do Cristo prisioneiro entre as mãos crispadas.
Eles serão brancos — a imagem desse céu alto e suspenso
Que foi a sua última visão.
Eles não te dirão mais nada.
Não te falarão aquela linguagem extraordinária
Que te repousava como uma música longínqua.
Não olharão mais nada que uma distância qualquer, longe
Uma distância que nem tu nem ninguém saberá qual é.
Eles estarão abertos, compreensivos da morte, parados
Nem tu conseguirás mais despertá-los.
E eu te peço — tu que tanto amavas repousá-los
Com a luz clara do teu olhar sem martírios —
Não os prendas à angústia triste do teu pranto.
Silêncio... silêncio... Beija-os ainda e vai...
Deixa-os fitando eternamente o céu.
Numa carícia sem mistérios
Olharão para o céu e pararão.
Nesse dia nem o teu beijo angelizante
Poderá novamente despertá-los.
A luz que lhes boiava nas pupilas
Tu a verás talvez na face magra
Do Cristo prisioneiro entre as mãos crispadas.
Eles serão brancos — a imagem desse céu alto e suspenso
Que foi a sua última visão.
Eles não te dirão mais nada.
Não te falarão aquela linguagem extraordinária
Que te repousava como uma música longínqua.
Não olharão mais nada que uma distância qualquer, longe
Uma distância que nem tu nem ninguém saberá qual é.
Eles estarão abertos, compreensivos da morte, parados
Nem tu conseguirás mais despertá-los.
E eu te peço — tu que tanto amavas repousá-los
Com a luz clara do teu olhar sem martírios —
Não os prendas à angústia triste do teu pranto.
Silêncio... silêncio... Beija-os ainda e vai...
Deixa-os fitando eternamente o céu.
778
Manoel Herzog
FIM DE NOITE
Tão louco que a noite
Se esvai num minuto
Tão louco que escuto
Vozes que não ouço.
Tão louco que dentro
De mim grita um fauno
Que toca uma flauta,
Tão louco que é calmo
Tão louco que d’antes
Já fora de noite
Agora amanhece
E eu aqui, tão louco.
Louco fim de noite
No fim solitário.
Riam-se os malandros
Deste pobre otário.
Tão louco, maluco,
Caduco e demente
Cena deprimente
De final de festa
Tão louco me sinto
Doido quando todos
Ficaram caretas
E eu pareço um bobo
Que ainda me rio,
Que ainda, até, flerto,
Tão louco, coberto
Das razões da vida.
Tão louco me tenho
No final de tudo.
Todos se arrumaram,
E eu fiquei sozinho.
Se esvai num minuto
Tão louco que escuto
Vozes que não ouço.
Tão louco que dentro
De mim grita um fauno
Que toca uma flauta,
Tão louco que é calmo
Tão louco que d’antes
Já fora de noite
Agora amanhece
E eu aqui, tão louco.
Louco fim de noite
No fim solitário.
Riam-se os malandros
Deste pobre otário.
Tão louco, maluco,
Caduco e demente
Cena deprimente
De final de festa
Tão louco me sinto
Doido quando todos
Ficaram caretas
E eu pareço um bobo
Que ainda me rio,
Que ainda, até, flerto,
Tão louco, coberto
Das razões da vida.
Tão louco me tenho
No final de tudo.
Todos se arrumaram,
E eu fiquei sozinho.
703
Vinicius de Moraes
Quietação
No espaço claro e longo
O silêncio é como uma penetração de olhares calmos...
Eu sinto tudo pousado dentro da noite
E chega até mim um lamento contínuo de árvores curvas.
Como desesperados de melancolia
Uivam na estrada cães cheios de lua.
O silêncio pesado que desce
Curva todas as coisas religiosamente
E o murmúrio que sobe é como uma oração da noite...
Eu penso em ti.
Minha boca cicia longamente o teu nome
E eu busco sentir no ar o aroma morno da tua carne.
Vejo-te ainda na visão que te precisou no espaço
Ouvindo de olhos dolentes as palavras de amor que eu te dizia
Fora do tempo, fora da vida, na cessação suprema do instante
Ouvindo, junto de mim, a angústia apaixonada da minha voz
Num desfalecimento.
Pelo espaço claro e longo
Vibra a luz branca das estrelas.
Nem uma aragem, tudo parado, tudo silêncio
Tudo imensamente repousado.
E eu cheio de tristeza, sozinho, parado
Pensando em ti.
O silêncio é como uma penetração de olhares calmos...
Eu sinto tudo pousado dentro da noite
E chega até mim um lamento contínuo de árvores curvas.
Como desesperados de melancolia
Uivam na estrada cães cheios de lua.
O silêncio pesado que desce
Curva todas as coisas religiosamente
E o murmúrio que sobe é como uma oração da noite...
Eu penso em ti.
Minha boca cicia longamente o teu nome
E eu busco sentir no ar o aroma morno da tua carne.
Vejo-te ainda na visão que te precisou no espaço
Ouvindo de olhos dolentes as palavras de amor que eu te dizia
Fora do tempo, fora da vida, na cessação suprema do instante
Ouvindo, junto de mim, a angústia apaixonada da minha voz
Num desfalecimento.
Pelo espaço claro e longo
Vibra a luz branca das estrelas.
Nem uma aragem, tudo parado, tudo silêncio
Tudo imensamente repousado.
E eu cheio de tristeza, sozinho, parado
Pensando em ti.
1 267
Manoel Herzog
AMOR INDIGENTE
Aquele amor cantando pelos bêbados
É o mesmo amor que em mim é reprimido
Por quem diz: “Faça assim, não faça assado”.
Eu não suporto ninguém no comando.
Aquele amor que trago sufocado
O dia todo e que te entrego à noite
É o mesmo amor que têm os vagabundos,
Mas, meu amor, não chores só por isso.
O meu amor não pode ser mais puro
Pois meu amor nasceu numa sarjeta,
O meu amor nasceu alcoolizado,
Blasfema, arruma confusões, e apanha.
O meu amor, que às vezes te acompanha
Se dói por não acompanhar-te sempre
É porque o meu amor às vezes sente
Vontade de ir só por aí, vagando.
O meu amor, que eu acabo te dando,
Não, ele não é teu, nem meu tampouco –
Entende, meu amor é muito louco,
Demora a levantar e perde a hora.
O meu amor bate o ponto atrasado
E, quando chega no trabalho, chora.
É o mesmo amor que em mim é reprimido
Por quem diz: “Faça assim, não faça assado”.
Eu não suporto ninguém no comando.
Aquele amor que trago sufocado
O dia todo e que te entrego à noite
É o mesmo amor que têm os vagabundos,
Mas, meu amor, não chores só por isso.
O meu amor não pode ser mais puro
Pois meu amor nasceu numa sarjeta,
O meu amor nasceu alcoolizado,
Blasfema, arruma confusões, e apanha.
O meu amor, que às vezes te acompanha
Se dói por não acompanhar-te sempre
É porque o meu amor às vezes sente
Vontade de ir só por aí, vagando.
O meu amor, que eu acabo te dando,
Não, ele não é teu, nem meu tampouco –
Entende, meu amor é muito louco,
Demora a levantar e perde a hora.
O meu amor bate o ponto atrasado
E, quando chega no trabalho, chora.
810
Gonçalves Crespo
A Sesta
Na rede, que um negro moroso balança,
Qual berço de espumas,
Formosa crioula repousa e dormita,
Enquanto a mucamba nos ares agita
Um leque de plumas.
Na rede perpassam as trêmulas sombras
Dos altos bambus;
E dorme a crioula de manso embalada,
Pendidos os braços da rede nevada
Mimosos e nus.
A rede, que os ares em torno perfuma
De vivos aromas,
De súbito pára, que o negro indolente
Espreita lascivo da bela dormente
As túmidas pomas.
Na rede suspensa de ramos erguidos
Suspira e sorri
A lânguida moça cercada de flores;
Aos guinchos dá saltos na esteira de cores
Felpudo sagui.
Na rede, por vezes, agita-se a bela,
Talvez murmurando
Em sonhos as trovas cadentes, saudosas,
Que triste colono por noites formosas
Descanta chorando.
A rede nos ares de novo flutua,
E a bela a sonhar!
Ao longe nos bosques escuros, cerrados,
De negros cativos os cantos magoados
Soluçam no ar.
Na rede olorosa, silêncio! deixa-a
Dormir em descanso!...
Escravo, balança-lhe a rede serena;
Mestiça, teu leque de plumas acena
De manso, de manso...
O vento que passe tranqüilo, de leve,
Nas folhas do ingá;
As aves que abafem seu canto sentido;
As rodas do engenho não façam ruído,
Que dorme a Sinhá!
Publicado no livro Miniaturas (1871).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
Qual berço de espumas,
Formosa crioula repousa e dormita,
Enquanto a mucamba nos ares agita
Um leque de plumas.
Na rede perpassam as trêmulas sombras
Dos altos bambus;
E dorme a crioula de manso embalada,
Pendidos os braços da rede nevada
Mimosos e nus.
A rede, que os ares em torno perfuma
De vivos aromas,
De súbito pára, que o negro indolente
Espreita lascivo da bela dormente
As túmidas pomas.
Na rede suspensa de ramos erguidos
Suspira e sorri
A lânguida moça cercada de flores;
Aos guinchos dá saltos na esteira de cores
Felpudo sagui.
Na rede, por vezes, agita-se a bela,
Talvez murmurando
Em sonhos as trovas cadentes, saudosas,
Que triste colono por noites formosas
Descanta chorando.
A rede nos ares de novo flutua,
E a bela a sonhar!
Ao longe nos bosques escuros, cerrados,
De negros cativos os cantos magoados
Soluçam no ar.
Na rede olorosa, silêncio! deixa-a
Dormir em descanso!...
Escravo, balança-lhe a rede serena;
Mestiça, teu leque de plumas acena
De manso, de manso...
O vento que passe tranqüilo, de leve,
Nas folhas do ingá;
As aves que abafem seu canto sentido;
As rodas do engenho não façam ruído,
Que dorme a Sinhá!
Publicado no livro Miniaturas (1871).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
2 232
Vinicius de Moraes
Desde Sempre
Na minha frente, no cinema escuro e silencioso
Eu vejo as imagens musicalmente rítmicas
Narrando a beleza suave de um drama de amor.
Atrás de mim, no cinema escuro e silencioso
Ouço vozes surdas, viciadas
Vivendo a miséria de uma comédia de carne.
Cada beijo longo e casto do drama
Corresponde a cada beijo ruidoso e sensual da comédia
Minha alma recolhe a carícia de um
E a minha carne a brutalidade do outro.
Eu me angustio.
Desespera-me não me perder da comédia ridícula e falsa
Para me integrar definitivamente no drama.
Sinto a minha carne curiosa prendendo-me às palavras implorantes
Que ambos se trocam na agitação do sexo.
Tento fugir para a imagem pura e melodiosa
Mas ouço terrivelmente tudo
Sem poder tapar os ouvidos.
Num impulso fujo, vou para longe do casal impudico
Para somente poder ver a imagem.
Mas é tarde. Olho o drama sem mais penetrar-lhe a beleza
Minha imaginação cria o fim da comédia que é sempre o mesmo fim
E me penetra a alma uma tristeza infinita
Como se para mim tudo tivesse morrido.
Eu vejo as imagens musicalmente rítmicas
Narrando a beleza suave de um drama de amor.
Atrás de mim, no cinema escuro e silencioso
Ouço vozes surdas, viciadas
Vivendo a miséria de uma comédia de carne.
Cada beijo longo e casto do drama
Corresponde a cada beijo ruidoso e sensual da comédia
Minha alma recolhe a carícia de um
E a minha carne a brutalidade do outro.
Eu me angustio.
Desespera-me não me perder da comédia ridícula e falsa
Para me integrar definitivamente no drama.
Sinto a minha carne curiosa prendendo-me às palavras implorantes
Que ambos se trocam na agitação do sexo.
Tento fugir para a imagem pura e melodiosa
Mas ouço terrivelmente tudo
Sem poder tapar os ouvidos.
Num impulso fujo, vou para longe do casal impudico
Para somente poder ver a imagem.
Mas é tarde. Olho o drama sem mais penetrar-lhe a beleza
Minha imaginação cria o fim da comédia que é sempre o mesmo fim
E me penetra a alma uma tristeza infinita
Como se para mim tudo tivesse morrido.
1 105
Manoel Herzog
O HOMEM QUE VIROU SAMBA
Altino vive na rua
Não bebe, não fuma pedra
Só vive na rua, mendigo.
Às vezes toma chuva e nem liga
Dorme atrás do cemitério
E seu cobertor fede a mijo.
Dizem que Altino tinha casa
Era mecânico da Volks, ganhava bem
Tudo na vida dele ia.
Um dia a mulher de Altino
Largou ele e foi morar na rua
Com um velho mendigo
Que não tinha merda nenhuma pra oferecer pra ela.
Depois dessa desilusão Altino agarrou de ser mendigo
Talvez na esperança que ela volte pra ele
Já que ela gosta é disso.
Não bebe, não fuma pedra
Só vive na rua, mendigo.
Às vezes toma chuva e nem liga
Dorme atrás do cemitério
E seu cobertor fede a mijo.
Dizem que Altino tinha casa
Era mecânico da Volks, ganhava bem
Tudo na vida dele ia.
Um dia a mulher de Altino
Largou ele e foi morar na rua
Com um velho mendigo
Que não tinha merda nenhuma pra oferecer pra ela.
Depois dessa desilusão Altino agarrou de ser mendigo
Talvez na esperança que ela volte pra ele
Já que ela gosta é disso.
721
Manuel Bandeira
Versos para Joaquim
Joaquim, a vontade do Senhor é às vezes difícil de aceitar.
Tanto Simeão desejoso de ouvir o celeste chamado!
Por que então chamar a que estava apenas a meio de sua tarefa?
A indispensável?
A insubstituível?
(Por isso sorri com lágrimas quando te vi, antes da missa, ajeitar o laço de fita nos cabelos de tua caçulinha)
Ah, bem sei, Joaquim, que o teu coração é tão grande quanto o da mãe melhor.
Mas que tristeza! Ela foi demais, estou de mal com Deus.
— Joaquim, a vontade do Senhor é às vezes inaceitável.
Tanto Simeão desejoso de ouvir o celeste chamado!
Por que então chamar a que estava apenas a meio de sua tarefa?
A indispensável?
A insubstituível?
(Por isso sorri com lágrimas quando te vi, antes da missa, ajeitar o laço de fita nos cabelos de tua caçulinha)
Ah, bem sei, Joaquim, que o teu coração é tão grande quanto o da mãe melhor.
Mas que tristeza! Ela foi demais, estou de mal com Deus.
— Joaquim, a vontade do Senhor é às vezes inaceitável.
1 351
Manuel Bandeira
Variações Sérias em Forma de Soneto
Vejo mares tranquilos, que repousam,
Atrás dos olhos das meninas sérias.
Alto e longe elas olham, mas não ousam
Olhar a quem as olha, e ficam sérias.
Nos recantos dos lábios se lhes pousam
Uns anjos invisíveis. Mas tão sérias
São, alto e longe, que nem eles ousam
Dar um sorriso âquelas bocas sérias.
Em que pensais, meninas, se repousam
Os meus olhos nos vossos? Eles ousam
Entrar paragens tristes de tão sérias!
Mas poderei dizer-vos que eles ousam?
Ou vão, por injunções muito mais sérias.
Lustrar pecados que jamais repousam?
Atrás dos olhos das meninas sérias.
Alto e longe elas olham, mas não ousam
Olhar a quem as olha, e ficam sérias.
Nos recantos dos lábios se lhes pousam
Uns anjos invisíveis. Mas tão sérias
São, alto e longe, que nem eles ousam
Dar um sorriso âquelas bocas sérias.
Em que pensais, meninas, se repousam
Os meus olhos nos vossos? Eles ousam
Entrar paragens tristes de tão sérias!
Mas poderei dizer-vos que eles ousam?
Ou vão, por injunções muito mais sérias.
Lustrar pecados que jamais repousam?
1 455
Álvares de Azevedo
ESPERANÇAS
Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte
Oh! si elle m'eût aimé...
ALFRED DE VIGNY, Chatterton
Se a ilusão de minh'alma foi mentida
E, leviana, da árvore da vida,
As flores desbotei...
Se por sonhos do amor de uma donzela
Imolei meu porvir e o ser por ela
Em prantos esgotei...
Se a alma consumi na dor que mata
E banhei de uma lágrima insensata
A última esperança,
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como dos mares pela noite infinda
A estrela da bonança!
Como nas folhas do Missal do templo
Os mistérios de Deus em ti contemplo
E na tu'alma os sinto!
Às vezes, delirante, se eu maldigo
As esperanças que sonhei contigo,
Perdoa-me, que minto!
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como do peito a aspiração infinda
Que me influi o viver...
E como a nuvem de azulado incenso...
Como eu amo esse afeto único, imenso
Que me fará morrer!
Rompeste a alva túnica luzente
Que eu doirava por ti de amor demente
E aromei de abusões...
Deste-me em troco lágrimas aspérrimas...
Ah! que morreram a sangrar misérrimas
As minhas ilusões!
Nos encantos das fadas da ventura
Podes dormir ao sol da formosura
Sempre bela e feliz!
Irmã dos anjos, sonharei contigo:
A alma a quem negaste o último abrigo
Chora... não te maldiz!
Chora e sonha e espera: a negra sina
Talvez no céu se apague em purpurina
Alvorada de amor...
E eu acorde no céu num teu abraço
E repouse tremendo em teu regaço
Teu pobre sonhador!
Primeira Parte
Oh! si elle m'eût aimé...
ALFRED DE VIGNY, Chatterton
Se a ilusão de minh'alma foi mentida
E, leviana, da árvore da vida,
As flores desbotei...
Se por sonhos do amor de uma donzela
Imolei meu porvir e o ser por ela
Em prantos esgotei...
Se a alma consumi na dor que mata
E banhei de uma lágrima insensata
A última esperança,
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como dos mares pela noite infinda
A estrela da bonança!
Como nas folhas do Missal do templo
Os mistérios de Deus em ti contemplo
E na tu'alma os sinto!
Às vezes, delirante, se eu maldigo
As esperanças que sonhei contigo,
Perdoa-me, que minto!
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como do peito a aspiração infinda
Que me influi o viver...
E como a nuvem de azulado incenso...
Como eu amo esse afeto único, imenso
Que me fará morrer!
Rompeste a alva túnica luzente
Que eu doirava por ti de amor demente
E aromei de abusões...
Deste-me em troco lágrimas aspérrimas...
Ah! que morreram a sangrar misérrimas
As minhas ilusões!
Nos encantos das fadas da ventura
Podes dormir ao sol da formosura
Sempre bela e feliz!
Irmã dos anjos, sonharei contigo:
A alma a quem negaste o último abrigo
Chora... não te maldiz!
Chora e sonha e espera: a negra sina
Talvez no céu se apague em purpurina
Alvorada de amor...
E eu acorde no céu num teu abraço
E repouse tremendo em teu regaço
Teu pobre sonhador!
2 068
Manuel Bandeira
Mal Sem Mudança
Da América infeliz porção mais doente,
Brasil, ao te deixar, entre a alvadia
Crepuscular espuma, eu não sabia
Dizer se ia contente ou descontente.
Já não me entendo mais. Meu subconsciente
Me serve angústia em vez de fantasia,
Medos em vez de imagens. E em sombria
Pena se faz passado o meu presente.
Ah, se me desse Deus a força antiga,
Quando eu sorria ao mal sem esperança
E mudava os soluços em cantiga!
Bem não é que a alma pede e não alcança.
Mal sem motivo é o que ora me castiga,
E ainda que dor menor, mal sem mudança.
25.7.1957
Brasil, ao te deixar, entre a alvadia
Crepuscular espuma, eu não sabia
Dizer se ia contente ou descontente.
Já não me entendo mais. Meu subconsciente
Me serve angústia em vez de fantasia,
Medos em vez de imagens. E em sombria
Pena se faz passado o meu presente.
Ah, se me desse Deus a força antiga,
Quando eu sorria ao mal sem esperança
E mudava os soluços em cantiga!
Bem não é que a alma pede e não alcança.
Mal sem motivo é o que ora me castiga,
E ainda que dor menor, mal sem mudança.
25.7.1957
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