Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

15 - THE NIGHT‑LIGHT

THE WRONG CHOICE


THE NIGHT LIGHT

Nurse, I known now
That love is vain.
When I was small
You used to sing
And soothe my brow
Till calm seemed pain.
That song recall
And to me bring.

I wish to feel
Again that child
That you made sleep
Singing so low,
So low that real
Things were beguiled
To make me weep
At seeing them go.

Nurse, by my bed
Sing me again
That song. I love
Hoping for't now.
My heart has bled
Till joy seems pain.
Sing softly above
My caressed brow

O regions lost
In dreams and sleep!
O fairy tales
You did not tell,
But that were tossed
Out of the deep
Of your song's waves
And surge and spell!

Sing as if you
Were listening.
Sing as if I
Had no more world
Than all night through
Hearing you sing,
While my breath sly
On my breast curled.

Why did I live
Beyond those hours
When you sung songs
Perhaps of queens
My dream believes,
Perhaps of flowers,
Whose lost scent throngs
Through my sense-screens?

Why did I lose
What I had not
But was your voice,
My heart and night?
Why did I choose
Life, love and thought,
With a wrong choice
And a false right?

Lullaby nurse,
Again for me.
Sing 'till I find
My heart less lone,
And life, life's hearse,
Leaving dreams free,
Shrink undefined
Into the Unknown.

You are no more
My nurse that sings,
My childhood een
Made me again.
No: you are the hour
Of sleep, that brings
That scene no-scene,
That pain no-pain;

Hallowed and dim,
Brotherly night,
Wherein my soul
Is haunted past
The hollow rim
Of my delight
And the low dole
Of pain and haste;

Merged in the dark,
Sunk past the bed
Into a peace
Of being nought,
Shadowy bark
Abandoned,
Abstract release
From self and thought.
4 332
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XXXV - Good. I have done. My heart weighs. I am sad.

Good. I have done. My heart weighs. I am sad.
The outer day, void statue of lit blue,
Is altogether outward, other, glad
At mere being not-I (so my aches construe).
I, that have failed in everything, bewail
Nothing this hour but that I have bewailed,
For in the general fate what is't to fail?
Why, fate being past for Fate, 'tis but to have failed.
Whatever hap or stop, what matters it,
Sith to the mattering our will bringeth nought?
With the higher trifling let us world our wit,
Conscious that, if we do t, that was the lot
The regular stars bound us to, when they stood
Godfathers to our birth and to our blood.
4 203
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ALENTEJO SEEN FROM THE TRAIN

ALENTEJO SEEN FROM THE TRAIN

Nothing with nothing around it
And a few trees in between
None of which very clearly green,
Where no river or flower pays a visit.
If there be a hell, I've found it,
For if ain't here, where the Devil is it?

1907
5 482
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não leio já; queria abrir um livro

Não leio já; queria abrir um livro
E ver, de chofre, ali, a ciência toda...
Queria ao menos poder crer que, lendo,
E em prolongadas horas lendo e lendo,
No fim alguma cousa me ficava
Do essencial do mundo, que eu subia
Até ao menos cada vez mais perto
Do mistério... Que ele, inda que inatingido,
Ao menos dele que eu [me] aproximava...
Não fosse tudo um (...)
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...

Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro...
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler p'ra não sonhar e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu môo
E remôo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse (...) abismo não há nada...

Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes
Eu parava de ler para seguir
Os cortejos em mim... Amor, orgulho,
— Crenças inda! — pintavam os meus sonhos...
E com muita insistência[?], eu era (...)
O amante de belezas (...)
E o rei de povos vagos e submissos;
E quer em braços que eu sonhava, ou entre
As filas (...) prostradas, eu vivia
Sublimes nadas, alegrias sem cor.
Mas
Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto
Evoco em mim... Só um deserto aonde
Não a cor dum areal, nem um ar morto
Posso sonhar... Mas tendo só a ideia,
Tendo da cor o pensamento apenas,
Vazio, oco, sem calor nem frio,
Sem posição, nem direcção, nem (...)
Só o vazio lugar do pensamento...
755
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MEANTIME

MEANTIME

Far away, far away,
Far away from here...
There is no worry after joy
Or away from fear
Far away from here.

Her lips were not very red,
Nor her hair quite gold.
Her hands played with rings.
She did not let me hold
Her hands playing with gold.

She is something past,
Far away from pain.
Joy can touch her not, nor hope
Enter her domain,
Neither love in vain.

Perhaps at some day beyond
Shadows and light
She will think of me and make
All me a delight
All away from sight.
5 001
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Cantilena

O solitude! O pauvreté!
Musset

O céu parece de algodão.
O dia morre. Choveu tanto!
As minhas pálpebras estão
Como embrumadas pelo pranto

Sinto-o descer devagarinho,
Cheio de mágoa e mansidão.
A minha testa quer carinho,
E pede afago a minha mão.

Debalde o rio docemente
Canta a monótona canção:
Minh'alma é um menino doente
Que a ama acalenta mas em vão.

A névoa baixa. A obscuridade
Cresce. Também no coração
Pesada névoa de saudade
Cai. Ó pobreza! Ó solidão!

Clavadel, 1913
1 205
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Madrugada

As estrelas tremem no ar frio, no céu frio...
E no ar frio pinga, levíssima, a orvalhada.
Nem mais um ruído corta o silêncio da estrada,
Senão na ribanceira um vago murmáúrio.

Tudo dorme. Eu, no entanto, olho o espaço sombrio,
Pensando em ti, ó doce imagem adorada!...
As estrelas tremem no ar frio, no céu frio,
E no ar frio pingam as gotas da orvalhada...

E enquanto penso em ti, no meu sonho erradio,
Sentindo a dor atroz dessa ânsia incontentada,
— Fora, aos beijos glaciais e cruéis da geada,
Tremem as flores, treme e foge, ondeando, o rio,

E as estrelas tremem no ar frio, no céu frio...
1 414
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Epígrafe

Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e perguntou tristemente — se eu a reconhecia?
O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do frangalho de fantasia do que do
seu ar de extrema penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sorriso se lhe transmudou em ricto amargo. E os olhos ficaram baços, como duas poças de água suja...
Então, para cortar o soluço que adivinhei subindo de sua garganta, puxei-a
para ao pé de mim e, com doçura:
— Tu és a minha esperança de felicidade e cada dia que passa eu te quero
mais, com perdida volúpia, com desesperação e angústia...
860
Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

Era um moinho sem vento

Era um moinho sem vento,
uma palmeira sem chão,
estrela sem firmamento,
tristeza sem solidão.

(Queria agarrar o tempo,
vê-lo na palma da mão.
Ir ao contrário volvendo-o,
fechá-lo no seu galpão.
Depois soltá-lo em silêncio,
segui-lo na direção
que a vida com seus inventos
perdeu em libertação.)

Deu o vento no moinho,
teve a palmeira seu chão,
teve a estrela o seu caminho
e a tristeza, a solidão.

(Tentou gritar que era tarde,
que a vida perdia em vão.
Veio um anjo de alvaiade,
cantou-lhe alguma canção.
Depois olhou-o espantado,
jogou as asas no chão,
tirou a rosa dos lábios
e pôs-lhe o tempo na mão.)


Publicado no livro Sintaxe invisível (1967).

In: TELES, Gilberto Mendonça. Os melhores poemas. Seleção de Luiz Busatto. São Paulo: Global, 1993. p. 54. (Os Melhores poemas, 27
1 917
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

19 - EMPTINESS

EMPTINESS

The day sickens into the lake
The colour that its pallor wears.
A loss of outline overtakes
The landscape, and the horizon bears
Like a defeated flag the dim
Purposelessness of its dead rim.

Let my heart forsake everything.
I shall be richer by all I.
Every breath, each passing wing
Takes me from myself. The whole sky
Eats into my self-consciousness
And detracts from my true distress.

For my true sorrow is not that
The day is sad as I am sad,
But that no moment can abate
The pain that I but pain have had
To take with me and see and feel
While life goes by like a mere wheel.

No: vaguer things than skies and plains
Are dark and lowered o'er in me;
My sorrows are more empty pains
Than of which plains can symbols be;
And my void weight of life and self
Resembles nothing but itself.
4 512
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

PRAYER

PRAYER

Our lady of Useless Tears,
Thine is my heart's best shrine.
I am sick with the gorging years,
I am drunk with the bitter wine
Of having but cares and fears,
Of knowing but how to pine.

It is useless to pray to thee,
But my heart is full of pain.
Thy glance would be charity,
Even if the look were disdain.
Give me that I may be
A child like thine again.

My sense of me is all tears.
I pity my heart too much.
O a cradle for my fears
And the hem of thy garment to clutch!
O wert thou alive and near us,
And thy hand a hand that could touch!

I do not know how to pray.
My heart is a torn pall.
See how my hair grows gray.
O teach my lips to call
On thy name night and day
As if that name were all.

My fathers' faith doth rise
To my lips this sick hour.
I pray to thee with mine eyes
Rosaries of anguish. O dower
My soul with a least sweet lies
Of thy suffering son's power!

I have forgotten the taste
Of faith, and ache for prayer.
My heart is a garden laid waste.
O thy hand on my hair
Like a mother's hand let rest
And let me die with it there!
4 640
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Delírio

Que será que desperta em mim neste momento
Uma inquietação que é quase uma agonia?
Há um soluço lá fora... É o soluço do vento,
E parece sair de minh'alma sombria.

Por que, na solidão desta tarde que morre,
Sinto o pulso bater em pancadas de medo?
Por que de instante a instante uma lembrança ocorre,
À que estremeço como a um terrível segredo?

Por que pensei em minha mãe agonizante?
Por que me acode a voz daquele amigo morto?
Será a sombra da morte aquela névoa errante,
E morrerei desamparado e sem conforto?...

Como a casa é deserta! E como a tarde é fria!
Plange cada vez mais o soluço do vento,
E parece sair de minh'alma sombria.
Desânimo... Desesperança... Desalento...

Mãos femininas... Mãos ou de amante ou de esposa,
Quem me dera sentir em minha árida fronte
O aroma que impregnais, tocando, em cada cousa...
À carícia da brisa... A frescura da fonte...

Mas nenhuma virá, no instante em que me morro,
Dar-me a consolação deste longo martírio.
Nenhuma escutará o grito de socorro
Do meu penoso, do meu trágico delírio.

Que me importa o passado? À minha natureza
Repugna essa volúpia enorme da saudade
Ó meu passado, ruinaria sem beleza!
Eu abomino a tua escura soledade.

O tempo... Horas de horror e tédio da memória...
Ah, quem mo reduzira ao minuto que passa,
— Fosse ele de paixão inerte e merencória,
Na solitude, no silêncio e na desgraça!

Clavadel, 1914
936
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Desalento

Uma pesada, rude canseira
Toma-me todo. Por mal de mim,
Ela me é cara... De tal maneira,
Que às vezes gosto que seja assim...

É bem verdade que me tortura
Mais do que as dores que já conheço.
E em tais momentos se me afigura
Que estou morrendo... que desfaleço...

Lembrança amarga do meu passado...
Como ela punge! Como ela dói!
Porque hoje o vejo mais desolado,
Mais desgraçado do que ele foi...

Tédios e penas cuja memória
Me era mais leve que a cinza leve,
Pesam-me agora... contam-me a história
Do que a minh'alma quis e não teve...

O ermo infinito do meu desejo
Alonga, amplia cada pesar...
Pesar doentio... Tudo o que vejo
Tem uma tinta crepuscular...

Faço em segredo canções mais tristes
E mais ingênuas que as de Fortúnio:
Canções ingênuas que nunca ouvistes,
Volúpia obscura deste infortúnio...

Às vezes volvo, por esquecê-la,
À vista súplice em derredor.
Mas tenho medo de que sem ela
A desventura seja maior...

Sem pensamentos e sem cuidados,
Minh'alma tímida e pervertida,
Queda-se de olhos desencantados
Para o sagrado labor da vida...

Teresópolis, 1912
1 043
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPITAPH - Here lies who thought himself the best

EPITAPH

Here lies who thought himself the best
Of poet’s in the world’s extend;
In life he had not joy nor rest.

He filled with madness many a song,
And at whatever age he died
Thus many days he lived too long.

He lived im powerless egotism,
His soul tumultuous and disordered
By thought and feeling’s endless schism.

In everything he had a foe
And without courage bore his part
In life’s interminable woe.

He was a slave to grief and fear
And incoherent thoughts he had
And wishes unto madness near.

Those whom he loved, by arts of ill
He treated worse than foes; but he
His own worst enemy was still.

He of himself did ever sing,
Incapable of modesty,
Lock’d in his wild imagining.

Useless was all his toiless trouble
Empty of sense his fears and pains
And many of them were ignoble.

Vile thus and worthless his distress;
His words, though bitterer far than hate,
His bitter soul could not express.
.........

Let not a healthy mind pollute
His grave, but fitly there will pass
The traitor and the prostitute;

The drunkard and the wencher there
May pass, but quick, lest they should ponder,
Perchance, that pleasure is but air.

Each weak and execrable mind
Which plagued man with its rotteness
Its conscious master here will find.

Conscious, for in him he could tell
Madness and ill were what they were,
But neither did he will to quell.

Pass by therefore ye who can weep,
Let rotteness work in neglect,
While the rough winds the dead leaves sweep.

His slumbering brother to the sod
Not even in imagining
Disturb not with the name of God.

But let him lie and peace for ever
Far from the eyes and mouth of men
And from what him from them did sever.

He was a thing that God had wrought
And to the sin of having lived
He joined the crime of having thought.

Alexander Search, Julho de 1907
5 094
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

APPROACHING

APPROACHING

With dragging steps severe, like creeping hate,
Through the black silence of my conscious brain
I hear madness advance, and feel with pain
The ground it treads on writhe and palpitate.
How to avoid its coming soon or late
How not to feel the mind’s grand vainly strain,
But rooted lie awaiting its dread reign
That cometh inopposable as fate?

If only madness came as lightning doth –
Suddenly – that were the least greatest ill...
But oh! to feel with consciousness’ clear sight
Reason’s day go to twilight in swift growth,
And the twilight of reason, pale and chill,
Darken towards impenetrable night.

Alexander Search, 23/03/1909
4 257
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

DESOLATION

DESOLATION

Here where the rugged hills
Their gnarled loose bases grip into the earth,
And nothing save the sorrow of our birth
From seeing the seeing spirit fills,
Here where, among the grim, deserted stones,
Na hope of green for desertness atones,
Or water's sound
Make sweet the solitude around,
Here may I lay
This day
My head
Upon the ground and say
No better bed
Can he who has but himself for life have,
Nor better grave.

The sterile part
Of love, feeling, was given me.
Fom the humanness even of a broken heart
God set me free.
Out of my destiny no flower was made
To grow.
All in me fated was not even to fade
Or e'en a vain and transient glory show.

The very need
For love or joy or the human part of thought,
Pride, and the abstract greed
For truth, that lifts the heart and doth allot
A value of self and world to consciousness –
Even this bliss
My empty heart has not.

O weary born,
Faded begun.
Gone from unseen shores to seen shores forlorn,
Sent out of sun-gone unto unborn sun!
The singer of his wish
To sing no song,
The poor spendthrift rich
With knowing not fo, what to long.
The Hyperion dispossessed
Ere birth
Of that sun-mansion set out beyond rest
Above the wide-lit stretches of the earth.

The uncrowned king
That never saw the land
Of which he oft doth sing,
And whose lost path he cannot understand
Nor know to dream steps him there to bring.
The priest deferred
From the inner shrine.
The thought but never uttered word,
The fore spilt wine,
The anxiousness for hope, the cold divine
Of anguish that no anguish human is,
The solitary pine
On the cold hill of consciousness.

The hour
The lord
Returns
Back to the polluted bower,
Home to the intransitable ford,
Again to the ice-padlocked burns:
The shadow
Fixedly thrown
On the green meadow
By a tree overgrown
With leaves, but fruitless, flowerless and lone.

The last
Sight of a shore
Which the unhalting ship doth pass
And where it never shall pass more;
But where the heart-dim sailor knows
Homes are happy because not his,
Lips warm because never his lips to kiss,
Gardens fair because therein grows
The unfound rose,
Hours soft, fate fresh, life a real fair elf
Because somewhere outside himself.


16/10/1916
4 443
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Um Sorriso

Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moutas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.

À viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
— Foi então que senti sorrir o meu desgosto...

Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos...
Depois o céu... e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos...

A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada...
1 095
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Como a noite é longa!

Como a noite é longa!
Toda a noite é assim...
Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.
Vem pr'ao pé de mim...

Amei tanta coisa...
Hoje nada existe.
Aqui ao pé da cama
Canta-me, minha ama,
Uma canção triste.

Era uma princesa
Que amou... Já não sei...
Como estou esquecido!
Canta-me ao ouvido
E adormecerei...

Que é feito de tudo?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,
Dormir a sorrir
E seja isto o fim.
1 642
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vai redonda e alta

Vai redonda e alta
A lua. Que dor
É em mim um amor?...
Não sei que me falta...

Não sei o que quero.
Nem posso sonhá-lo...
Como o luar é ralo
No chão vago e austero!...

Ponho-me a sorrir
P'ra a ideia de mim...
E tão triste, assim
Como quem está a ouvir

Uma voz que o chama
Mas não sabe d'onde
(Voz que em si se esconde)
E Só a ela ama...

E tudo isto é o luar
E a minha dor
Tornado exterior
Ao meu meditar...

Que desassossego!
Que inquieta ilusão!
E esta sensação
Oca, de ser cego

No meu pensamento,
Na rainha vontade...
Ah, a suavidade
Do luar sem tormento

Batendo na alma
De quem só sentisse
O luar, e existisse
Só p'ra a sua calma.
1 370
Lila Ripoll

Lila Ripoll

Canção da Chuva

Cai uma chuva tão fina
que quase nem molha a gente.
É uma música em surdina
que apenas a alma sente.

Junto meu rosto à vidraça
e olho a rua sem pensar.
Fico em estado de graça,
como quem vai comungar.

Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida,
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!

Senhora tu não devias
permitir tantos enganos.
Há excesso de alegrias,
e excesso de desenganos.

Por onde andaram meus passos
vi sinais de desalentos.
Vaguei por muitos espaços
e senti todos os ventos.

Ventos do sul, vento norte,
ventos do leste e do oeste,
tão diversos como a sorte
que tu, na vida, nos deste.

Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida —
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!


Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).

In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.4
2 016
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Ruço

Muda e sem trégua
Galopa a névoa, galopa a névoa.

Minha janela desmantelada
Dá para o vale do desalento.

Sombrio vale! Não vejo nada
Senão a névoa que toca o vento.

Lá vão os dias de minha infância
— Imagens rotas que se desmancham:

O vento do largo na praia,
O meu vestidinho de saia:

Aquele corvo, o vôo torvo,
O meu destino aquele corvo!

O que eu cuidava do mundo mau!
Os ladrões com cara de pau!

As histórias que faziam sonhar;
E os livros: Simplício olha pra o ar,

João Felpudo, Viagem à roda do mundo
Numa casquinha de noz.

À nossa infância, ó minha irmã, tão longe de nós!
1 084
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Silhueta

Na sala obscura, onde branqueja
A mancha ebúrnea do teclado,
Morre e revive, expira, arqueja
O estribilho desesperado.

Um Pierrot de vestes de seda
Negra, ele próprio toca e canta.
O timbre múrmuro segreda
Uma dor que sobe à garganta.

E uma tristeza de tal sorte
Vem nessa pobre voz humana,
Que se pensa em fugir na morte
À miséria cotidiana.

Como a voz, também a mão geme.
E na parede se debruça
A sombra pálida, que treme,
De uma garganta que soluça...
1 589
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Baladilha Arcaica

Na velha torre quadrangular
Vivia a Virgem dos Devaneios...
Tão alvos braços... Tão lindos seios...
Tão alvos seios por afagar...

A sua vista não ia além
Dos quatro muros que a enclausuravam
E ninguém via — ninguém, ninguém —
Os meigos olhos que suspiravam.

Entanto fora, se algum zagal,
Por noites brancas de lua cheia,
Ali passava, vindo do val,
Em si dizia: — Que torre feia!

Um dia a Virgem desconhecida
Da velha torre quadrangular
Morreu inane, desfalecida,
Desfalecida de suspirar...
1 161
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Confidência

Tudo o que existe em mim de grave e carinhoso
Te digo aqui como se fosse ao teu ouvido...
Só tu mesma ouvirás o que aos outros não ouso
Contar do meu tormento obscuro e impressentido.

Em tuas mãos de morte, ó minha Noite escura!
Aperta as minhas mãos geladas. E em repouso
Eu te direi no ouvido a minha desventura
E tudo o que em mim há de grave e carinhoso.

1918
1 051