Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meu pobre amigo, não tenho compaixão que te dar.

Meu pobre amigo, não tenho compaixão que te dar.
A compaixão custa, sobretudo sincera, e em dias de chuva.
Quero dizer: custa sentir em dias de chuva.
Sintamos a chuva e deixemos a psicologia para outra espécie de céu.

Com que então problema sexual?
Mas isso depois dos quinze anos é uma indecência.
Preocupação com o sexo oposto (suponhamos) e a sua psicologia —
Mas isso é estúpido, filho.
O sexo oposto existe para ser procurado e não para ser compreendido.
O problema existe para estar resolvido e não para preocupar.
Compreender é ser impotente.
E você devia revelar-se menos.
"La Colére de Samson", conhece?
"La femme, enfant malade et [...]"
Mas não é nada disso.
Não me mace, nem me obrigue a ter pena!
Olhe: tudo é literatura.
Vem-nos tudo de fora, como a chuva.
A maneira? Se nós somos páginas aplicadas de romances?
Traduções, meu filho.
Você sabe porque está tão triste? É por causa de Platão,
Que você nunca leu.
E um soneto de Petrarca, que você desconhece, sobrou-lhe errado,
E assim é a vida.
Arregace as mangas da camisa civilizada
E cave terras exactas!
Mais vale isso que ter a alma dos outros.
Não somos senão fantasmas de fantasmas,
E a paisagem hoje ajuda muito pouco.
Tudo é geograficamente exterior.
A chuva cai por uma lei natural
E a humanidade ama porque ama falar no amor.
983
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meu coração. o almirante errado

Meu coração. o almirante errado
Que comandou a armada por haver
Tentou caminho onde o negou o Fado,
Quis ser feliz quando o não pôde ser.

E assim, [fechado?], absurdo, postergado,
Dado ao que nos resulta de se abster,
Não foi dado, não foi dado, não foi dado
E o verso errado deixa-o entender.

Mas há compensações absolutórias
Na sombra — no silencio da derrota

Que tem mais rosas de alma que as vitórias.

E assim surgiu, Imperial, a frota
Carregada de anseios e de glórias
Com que o almirante prosseguiu na rota.
869
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Floresta

Sobre o dorso possante do cavalo
Banhado pela luz do sol nascente
Eu penetrei o atalho, na floresta.
Tudo era força ali, tudo era força
Força ascencional da natureza.
A luz que em torvelinhos despenhava
Sobre a coma verdíssima da mata
Pelos claros das árvores entrava
E desenhava a terra de arabescos.
Na vertigem suprema do galope
Pelos ouvidos, doces, perpassavam
Cantos selvagens de aves indolentes.
A branda aragem que do azul descia
E nas folhas das árvores brincava
Trazia à boca um gosto saboroso
De folha verde e nova e seiva bruta.
Vertiginosamente eu caminhava
Bêbado da frescura da montanha
Bebendo o ar estranguladamente.
Às vezes, a mão firme apaziguava
O impulso ardente do animal fogoso
Para ouvir de mais perto o canto suave
De alguma ave de plumagem rica
E após, soltando as rédeas ao cavalo
Ia de novo loucamente à brida.

De repente parei. Longe, bem longe
Um ruído indeciso, informe ainda
Vinha às vezes, trazido pelo vento.
Apenas branda aragem perpassava

E pelo azul do céu, nenhuma nuvem.
Que seria? De novo caminhando
Mais distinto escutava o estranho ruído
Como que o ronco baixo e surdo e cavo
De um gigante de lenda adormecido.

A cachoeira, Senhor! A cachoeira!
Era ela. Meu Deus, que majestade!
Desmontei. Sobre a borda da montanha
Vendo a água lançando-se em peitadas
Em contorções, em doidos torvelinhos
Sobre o rio dormente e marulhoso
Eu tive a estranha sensação da morte.

Em cima o rio vinha espumejante
Apertado entre as pedras pardacentas
Rápido e se sacudindo em branca espuma.
De repente era o vácuo embaixo, o nada
A queda célere e desamparada
A vertigem do abismo, o horror supremo
A água caindo, apavorada, cega
Como querendo se agarrar nas pedras
Mas caindo, caindo, na voragem
E toda se estilhaçando, espumecente.

Lá fiquei longo tempo sobre a rocha
Ouvindo o grande grito que subia
Cheio, eu também, de gritos interiores.
Lá fiquei, só Deus sabe quanto tempo
Sufocando no peito o sofrimento
Caudal de dor atroz e inapagável
Bem mais forte e selvagem do que a outra.
Feita ela toda da desesperança
De não poder sentir a natureza
Com o espírito em Deus que a fez tão bela.

Quando voltei, já vinha o sol mais alto
E alta vinha a tristeza no meu peito.
Eu caminhei. De novo veio o vento
Os pássaros cantaram novamente
De novo o aroma rude da floresta
De novo o vento. Mas eu nada via.
Eu era um ser qualquer que ali andava
Que vinha para o ponto de onde viera
Sem sentido, sem luz, sem esperança
Sobre o dorso cansado de um cavalo.
1 314
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Estou escrevendo sonetos regulares

Estou escrevendo sonetos regulares
(Ou quase regulares) como um poeta...
Mas se eu dissesse a alguém a dor completa
Que me faz ter tais gestos e tais ares,
(...)

Ninguém acreditava. Ó grandes mares
Da emoção subindo em névoa preta
Até a mágoa ser como a do asceta.
(...)
Com um estalido de "mola de pressão"
Fecho a carteira dos apontamentos
Onde fixei a minha indecisão,

Não sou meu ser, nem sou meus pensamentos,
A minha vida é um príncipe ao balcão
1 370
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu procurei primeiro o pensamento,

Eu procurei primeiro o pensamento,
Eu quis, depois, a imortalidade...
Um como o outro só deram ao meu ser
A sombra fria dos seus vultos negros
Na noite eterna longe dos meus braços...
Eu procurei depois o amor e a vida
P'ra ver se ali esqueceria a dor
Do pensamento e da ciência firme
Da certeza da morte. Mas o amor
É para quem guardou a alma inteira,
E não podia haver amor pr'a mim.
Depois na acção cega e violenta, onde eu
Afogasse de vez toda a consciência
Da vida, quis lançar meu frio ser...
Mas aquilo da alma condenada
Que me fizera em tudo um espectador,
De mim, do mundo, do que quer que fosse,
Proibiu-me outra cousa que assistir
Aos [...] dos outros e aos meus
Friamente de fora, sempre tendo
No fundo do meu ser o mesmo horror...
Ah, mas cansei a dor dentro de mim...
E hoje tenho sono do meu ser...
Dormir, dormir, de dentro d'alma, como
Um Deus que adormecesse e cujo sono
Fora um repouso de tamanho eterno
E feliz absorção em infinito
De inconsciência boa.
1 338
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

HERE AND THERE

Here is the same as there, my friend,
All places in this world are like.
If doomed thy life in grief to spend,
What change can then thy fate amend,
What from thy soul the pain can strike?

When pain doth wound the tired heart
And grief doth tie the fevered eye,
Some joy indeed the world's great art
May to thy pained soul impart -
What's this if joy in thee not lie?

When on my restless couch I lie
And count the throbbing of my breath,
I see the joy of earth and sky
Yet hate it all; why should not I
So keep my coward mind from death?

True joy comes not from outward show
But in our deepest soul doth rest.
What matter if the sun can glow
And stars at night look sweetly so
When hearts are by their grief opprest?

For when the darkness weighs thy thought,
And night doth fall upon thy soul,
Are not again thy sorrows brought?
Is not thy mind in shadows caught?
Do fears not back upon thee roll?

I cannot do but hope; as mine
Thy mind I see to hopes doth bend;
I in my land and thou in thine
We suffer both - our griefs entwine.
Here is the same as there, my friend.
1 369
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Natal de longe

Natal! Natal!
A boca o diz,
A mão o escreve,
O coração já não sente.

Que a emoção,
Vibração
Das asas da fantasia
No voo do pensamento,
Deixou-se ficar parada
Só porque a noite está quente;
Só porque ser indolente
É como parar na estrada
E desistir da jornada,
Sem coragem de voltar
Pelo caminho tão rude!

Natal! Natal!

A doce força que tinha
Devorou-a a latitude.

2 034
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Tarde

Na hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas
Meu espírito te sentiu.
Ele te sentiu imensamente triste
Imensamente sem Deus
Na tragédia da carne desfeita.

Ele te quis, hora sem tempo
Porque tu eras a sua imagem, sem Deus e sem tempo.
Ele te amou
E te plasmou na visão da manhã e do dia
Na visão de todas as horas
Ó hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas.
1 114
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Triste, a paisagem tem ciprestes só

Triste, a paisagem tem ciprestes só.
Órbitas cegas, de chorar por água,
Os tanques estancam sua sede em pó
E o seu silêncio enche o jardim de mágoa.

Ao buxo, há muito que ninguém dá norma,
Só répteis amam, no caramanchel.
E o velho fauno branco, hoje sem forma,
Envolto dhera, toma a cor do fel.

Galgos, cisnes, pavões, festivas flores,
Tudo se foi. No vácuo, o tempo escorre.
Folha arrastada aos vergéis exteriores,
Transposto o muro, inda que verde morre.

1 767
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Epílogo?

(Fausto (numa cama) acordando, abre as olhos)

Vivo! Pois vivo ainda! Torno a ver-te,
Pálida luz, silente luz da tarde,
Que ora me enleias dum calado horror!
Onde estou? Onde estive? Ferve em mim,
Numa quietação indefinida,
Um eco de tumultos e de sombras
E uma coorte como de fantasmas
Oscilantes. E luzes, cantos, gritos,
Desejos, lágrimas, chamas e corpos,
Num referver (...) e misturado
Numa esvaída confusão nocturna,
Como tendo piedade de deixar-me
Sinto passar em mim, como visões.
Nem com esforço recordar-me posso
Se são fantasmas ou vagas lembranças;
Não me lembro de vida alguma minha
E o necessário esforço desejado
P'ra recordar-me não o posso ter.

A forte central luz do meu pensar
Qu'iluminando forte e unamente
Fazia o meu ser um, já se apagou.
Restam-me sombras e dispersas luzes
Tremeluzentes vãs cintilações
Que me cansam de vagas e ilusórias.
Para quê sofrer mais? Não haverei
Ainda o sono que me pede a mente
Atormentada de febrilidades
E erros esvaídos de sentir?
Já me cansa e me doi sentir-me a mim,
E perceber que existo e que há uma vida
Comigo, vaga e desprendidamente,
Qual vinho numa taça. E já não tenho
Força para entornar a taça e enfim
Acabar. Nem desejo nem espero
Nem temo, n'apatia do meu ser.
Para que pois viver? Quero a morte,
E ao sentir os seus passos
Alegremente e apagadamente,
Me voltarei lento para o seu lado
Deixando enfim cair sobre o meu braço
Minha cabeça, olhos cerrados, quentes
De choro vago já meio esquecido.

Mas onde estou? Que casa é esta? Quarto
Rude, simples — não sei, não tenho força
Para observar — quarto cheio de luz
Escura e demorada que na tarde
Outr'ora eu... Mas qu'importa? A luz é triste,
Eu conheço-a.
1 443
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vejo que delirei.

Vejo que delirei.
Nem delirando fui feliz; mas fui-o
Apenas para obter esse cansaço
Que não obtive outrora: desejar
A morte enfim. Eis a felicidade
Suprema: recear nem duvidar,
Mas estar de prazer e dor tão lasso
A nada já sentir, longe de mim
Como era antigamente: e também longe
Dos homens do (...) natural
Estranho! com saudade só me lembro
Do meu grão tempo de infelicidade,
Saudade não, e um orgulho (que é só
O que dela me resta hoje) e não quero
Àquele tempo regressar. Já nada quero!
Caí e a queda assim me transformou!
Saudosamente ainda me lembra
D'ultra acordado estar, mas a queda
Tirou já o desejo de voltar
(Se pudesse). Deixou só um sentimento
De desejar eterna quietação
Ânsia cansada de não mais viver;
Ambição vaga de fechar os olhos
E vaga esperança de não mais abri-los.
Meu cérebro esvaído não lamenta
Nem sabe lamentar. Tumultuárias
Ideias mistas do meu ser antigo
E deste, surgem e desaparecem
Sem deixar rastos à compreensão.
E ainda com elas, sonhos que parecem
Memórias dessa infância, dessas vozes
Já deslembradas, vãs, incoerentes,
Amargas, vãs desorganizações
Que nem deixam sofrer. Vem pois, oh Morte!
Sinto-te os passos! Grito-te! O teu seio
Deve ser, suave e escutar o teu coração
Como ouvir melodia estranha e vaga
Que enleva até ao sono, e passa o sono.
Nada, já nada posso, nada, nada...
Vais-te, Vida. Sombras descem. Cego. Oh Fausto!

                                (Expira)
1 388
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Rua da Amargura

A minha rua é longa e silenciosa como um caminho que foge
E tem casas baixas que ficam me espiando de noite
Quando a minha angústia passa olhando o alto.
A minha rua tem avenidas escuras e feias
De onde saem papéis velhos correndo com medo do vento
E gemidos de pessoas que estão eternamente à morte.
A minha rua tem gatos que não fogem e cães que não ladram
Tem árvores grandes que tremem na noite silente
Fugindo as grandes sombras dos pés aterrados.
A minha rua é soturna...
Na capela da igreja há sempre uma voz que murmura louvemos
Sozinha e prostrada diante da imagem
Sem medo das costas que a vaga penumbra apunhala.

A minha rua tem um lampião apagado
Na frente da casa onde a filha matou o pai
Porque não queria ser dele.
No escuro da casa só brilha uma chapa gritando quarenta.

A minha rua é a expiação de grandes pecados
De homens ferozes perdendo meninas pequenas
De meninas pequenas levando ventres inchados
De ventres inchados que vão perder meninas pequenas.
É a rua da gata louca que mia buscando os filhinhos nas portas das casas.

É a impossibilidade de fuga diante da vida
É o pecado e a desolação do pecado
É a aceitação da tragédia e a indiferença ao degredo
Como negação do aniquilamento.

É uma rua como tantas outras
Com o mesmo ar feliz de dia e o mesmo desencontro de noite.
É a rua por onde eu passo a minha angústia
Ouvindo os ruídos subterrâneos como ecos de prazeres inacabados.
É a longa rua que me leva ao horror do meu quarto
Pelo desejo de fugir à sua murmuração tenebrosa
Que me leva à solidão gelada do meu quarto...

Rua da amargura...
1 191
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Vigília

Eu às vezes acordo e olho a noite estrelada
E sofro doidamente.
A lágrima que brilha nos meus olhos
Possui por um segundo a estrela que brilha no céu.

Eu sofro no silêncio
Olhando a noite que dorme iluminada
Pavorosamente acordado à dor e ao silêncio
Pavorosamente acordado!

Tudo em mim sofre.
Ao peito opresso não basta o ar embalsamado da noite
Ao coração esmagado não basta a lágrima triste que desce,
E ao espírito aturdido não basta a consolação do sofrimento.
Há qualquer coisa fora de mim, não sei, no vago
Como que uma presença indefinida
Que eu sinto mas não tenho.

Meu sofrimento é o maior de todos os sentimentos
Porque ele não precisou a visão que flutua
E não a precisará jamais.
A dor estará em mim e eu estarei na dor
Em todas as minhas vigílias...
Eu sofrerei até o último dia
Porque será meu último dia o último dia da minha mocidade.
1 242
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Poeta

A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante.
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza
E a sua alma é uma parcela do infinito distante
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.

Ele é o eterno errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibilidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes
Olhando o espaço imenso da sua alma.
O poeta sorri.
Sorri à vida e à beleza e à amizade
Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.
O poeta é bom.
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras
Sua alma as compreende na luz e na lama
Ele é cheio de amor para as coisas da vida
E é cheio de respeito para as coisas da morte.
O poeta não teme a morte.
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.
A sua poesia é a razão da sua existência
Ela o faz puro e grande e nobre
E o consola da dor e o consola da angústia.

A vida do poeta tem um ritmo diferente
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.
1 185
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

RESOLUTION

Why do I waste in dreams fruitless and vain
The substance of my youth in idle tears?.
Why do I count with feverish eye the years
And number with sad heart the ways of pain?

Why should I weep thus, since there is no gain
To me, to men from sighings and from fears?
Since from afar at me the future sneers,
The while the past with me cannot remain.

High Heaven, that errs not and that wills not wrong
To each on earth doth give a work to do,
A distant recompense and rest remote;

I'll to my work then, so God make me strong
To bring the Demons of mine own self to
Their knees, and take the Devil by the throat.
1 034
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

BEGINNING

Darkness and storm outside make inward gloom,
Quiet and home within and useless pain
Weigh down upon me as a wasted life,
        Save where from the vile tomb
Of day there comes a semblance of a strife
Through the blown varying of the pallid rain.

Before the thunder shall the mansion shake
A blankly‑smiling day informs our eyne,
And there is here a ghastness and a gale
        That make my frail form quake;
And strange to me who think all things must quail,
A voice is raised in joy ­- alas! not mine.

Why cannot youth be joyous, full of love?
Why am I made the corpse that woes and fears
And problems grim and world‑enigmas dire
        Should like a body wove
Close to my nature, in which is a fire
The feverous source of Iying pains and tears?

Blow hard, thou wind; look pale, thou awful day!
Ye cannot in your dread and horror match
The thing that I bear in me and is me,
        These idle thoughts that stray
Subordinate to the deep agony
Of him who hears the gate of reason's latch
Fall with a sound of termination,
As of a thing locked past and for e'er done.
1 460
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Desde quando alguma vez anoiteceu

Desde quando alguma vez anoiteceu
E à angústia de que a terra se cobriu
Só pasmo nas esferas respondeu;
Desde quando alguma flor emurcheceu
E a criança que válida se ria
De repente calada apodreceu;
Desde quando a algum estio sucedeu
Um outro outono e a árvore se despiu
E a primeira cabeça encaneceu;
Desde quando alguma coisa que nasceu
Sem que o pedisse, sem remédio se degrada
E acaba, sob a terra que a comeu,
Dispersa entre os átomos dispersos,
Se acumula a tristeza deste dia
E a razão destes versos.

1 843
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

CONVENTION

Mother of slaves and fools, Thou who dost hold
Within Thine iron chains enslaved mankind,
Old in Thy yoke and in their slavery blind,
Harden'd to grief and woo, corrupt and cold,

But in the craven following, as of old,
Of those old ways, unwise, unfirm, unkind,
Bound ever in the animal bonds that bind
Fish, bird and beast in flock and herd and fold.

The light hath fallen of many a cherished name,
And many a land of love hath been the nurse,
But man's worn heart is evermore the same ­-

Unwilling ever to shake off the curse,
Once self‑inflicted, and the time‑grown shame
That loads the weary, lightless universe.
1 422
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Que domingo solene, ocioso e lasso

Que domingo solene, ocioso e lasso!
Tão triste; o sol inunda a tarde toda,
Festivo como um guizo numa boda
Onde a noiva morreu, desfeita em espaço...

Medeia a eternidade, em cada passo
Que, sem intuito, dá quem passa; à roda
Parece dormir tudo; e incomoda,
Ponderável, no ar, um embaraço...

Toda a tristeza do domingo à tarde.
Sobe dos homens para o céu, que arde,
O apego à vida dum olhar que morre.

Sombras sugerem aflições incertas...
E das janelas sôfregas, abertas,
Morno, o silêncio como num pranto escorre...

1 911
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.

Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.
Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador.
Também pertenço...
Ninguém conclui sem mim, é claro,
E estar triste é ter ideias destas.
Ó meu capricho entre terraços aristocráticos,
Comes açorda em mangas de camisa no meu coração.
1 344
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Ele Atacou Os Moinhos de Vento, Sim

algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo
agora que as leiteiras gritam obscenidades
em dialetos diversos,
o moinho foi fechado,
há assassinatos em massa nas
lanchonetes,
o frade Tuck está ferrado,
os Estados Unidos aparecem em 17o nas
nações com maior longevidade do
indivíduo,
e ninguém limpa o para-brisa.

a besta dorme em Beverly Hills,
Van Gogh é um bilionário ausente,
o Homem de Marte dá um ás de
espadas,
Hollywood vira novela,
o cavalo cavalga o jóquei,
a puta chupa o congresso,
o gato tem só uma vida restante,
a rua sem saída é um psiquiatra,
a mesa está servida com fantasias da cabeça do peixe,
o sonho bate como um porrete na latrina
dos homens,
os sem-teto são roubados,
os dados são viciados,
a cortina está baixada,
os assentos estão vazios,
o vigia se suicidou,
as luzes estão apagadas,
ninguém espera por Godot
algo que nos faça prosseguir é necessário
ao extremo,
absurdamente,
agora mesmo
na floresta em chamas
no mar moribundo
nos sonetos maçantes
e nos desperdiçados
nasceres do sol,
algo é necessário
aqui
além dessa música
podre,
dessas décadas ceifadas,
desse lugar desse jeito,
desse tempo,
o seu,
mutilado, cuspido
para longe,
as costas de um espelho, a
teta de uma porca;
semente sobre rocha,
fria,
nem mesmo a morte de
uma barata
agora.
962
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Os Dias Gloriosos

os rios mortos correm para trás em direção a lugar nenhum,
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.

você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.

os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.

sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.

você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”

o desperdício
mas a coragem da
aposta.

de onde virá o aluguel devido?

vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.

eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.

é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”

“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”

o telefone batido com força.
poder.

sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.

“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”

andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.

4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.

você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.

existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
978
Lúcio José Gusman

Lúcio José Gusman

Obsessão

Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
Quando moves as pupilas
e semicerras as pálpebras,
vejo-a
num espiral frenético
a me chamar e enfeitiçar.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
E eu fico a contemplá-la
extasiado, mudo e triste,
com vontade de acompanhá-la.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
E eu fico a contemplá-la,
extasiado, mudo e triste,
sem poder acompanhar-lhe o vôo.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos.
Uma borboleta linda...
linda... linda...

846
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

CANÇÃO ABRUPTA

CANÇÃO ABRUPTA

O céu de todos os universos
Cobre em meu ser todo o verão...
Vai p'ra as profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!

Quê? Não me fica se te opões?
Pois leva-o, guarda-o, bem ou mal
Eu tenho muitos corações
É um privilégio intelectual

Madonna que vais comprar couves
Não te esqueças de me esquecer
O teu perfil dá-me trabalho
Quero (...)

Bem sei, o teu perfil persiste
Amo-te e é triste não poder
Deixar de amar-te sem estar triste...
Se és mulher que em verdade existe
Raios te parta! Vai morrer!
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