Tristeza e Melancolia
Fontoura Xavier
Flor da Decadência
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.
De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois um som cavado — a enxada do coveiro!
Minhalma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.
— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!
Goulart de Andrade
Kosmos
Nos olhos; no cabelo em desalinho.
O mar bravo, a floresta, o torvelinho;
E as neves da montanha em tua alvura
Possuis na voz a música e a frescura
Da água corrente; o sussurrar do ninho
Na surdina sutil do teu carinho,
Em que o calor ao travo se mistura...
Cheiras como um vergel! Tens a tristeza
De uma tarde hibernal, em que anda imerso
Teu amor — meu algoz e minha presa —
Em tua alma e teu corpo acha meu verso
Todas as convulsões da natureza
E as harmonias todas do universo.
Vinicius de Moraes
Medo de Amar
A estrada está parada, não leva a nenhum lugar
A areia do tempo escorre de entre meus dedos
Ai que medo de amar!
O sol põe em relevo todas as coisas que não pensam
Entre elas e eu, que imenso abismo secular...
As pessoas passam, não ouvem os gritos do meu silêncio
Ai que medo de amar!
Uma mulher me olha, em seu olhar há tanto enlevo
Tanta promessa de amor, tanto carinho para dar
Eu me ponho a soluçar por dentro, meu rosto está seco
Ai que medo de amar!
Dão-me uma rosa, aspiro fundo em seu recesso
E parto a cantar canções, sou um patético jogral
Mas viver me dói tanto! e eu hesito, estremeço...
Ai que medo de amar!
E assim me encontro: entro em crepúsculo, entardeço
Sou como a última sombra se estendendo sobre o mar
Ah, amor, meu tormento!... como por ti padeço...
Ai que medo de amar!
Guerra-Duval
Versos da Noite Má
primaveras e rosas rosicler;
já autuneja o verde das verbenas
e o perfume pueril do vetiver.
Abrem os goivos tristes, goivos roxos,
como o viúvo pio roxo de mochos;
roreja sonolenta, lenta a chuva,
— triste noivado roxo de viúva...
A Noite cega, a imensa Noite impura
cobre a Luxúria e o Crime pelos mundos.
(A sombra desleal da Noite escura
lembra os teus olhos fúnebres, profundos!)
No campanário da última esperança
dobra a mortos o sino da Lembrança.
..........................................................
— É noite de assassinos esta noite,
E a minhalma não tem onde se acoitei
Manuel António Pina
Sob escombros
de tão próximo, quase podias ouvir
o silêncio do mundo pulsando
onde também tu eras mundo, coisa pulsante.
Extinguiu-se esse canto
não na morte
mas na vida excluída
da clarividência da infância
e de tudo o que pulsa,
fins e começos,
e corrompida pela estridência
e pela heterogeneidade.
Agora respondes por nomes supostos,
habitante de países hábeis e reais,
e precisas de ajuda para as coisas mais simples,
o pensamento, o sofrimento, a solidão.
A música, só voltarás a escutá-la
numa noite lívida,
uma noite mais vulnerável do que todas
(o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento)
um pouco antes de adormece
sob escombros.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 360 | Assírio & Alvim, 2012
Charles Bukowski
Marchando Pela Geórgia
churrasco ao ar livre
somos indesejados e ardentes somos ardentes e indesejados
somos
um indesejado
incêndio
nós chiamos e fritamos
até o osso
as brasas do Inferno de Dante estalam e crepitam embaixo de
nós
e
acima do céu é uma mão aberta
e
as palavras de homens sábios são inúteis
este não é um mundo agradável, um mundo agradável este
não é...
vamos lá, experimente este agradável poema de asa de frango queimada
é quente é duro sem muita
carne
mas é tristemente sensato
e uma ou duas mordidas o devoram por inteiro
assim
Ernâni Rosas
Perdi-me
sombra de Luz em corpo de olor vago,
a saudade é um passado que cinzela
em presente, a legenda desse orago".
"Errasse em densa noite de beleza,
pisasse incerto, um falso solo de umbra...
sonho-me Orfeu... o Luar, que me deslumbra...
é marulho de luz na profundeza!..."
Toda a alma do azul esvai-se em lua...
nimba-lhe a face um crepe de Elegia...
É alvor do dia numa rosa nua,
que as minhas mãos cruéis sonham colher...
mas ao tocar desfolha-se mais fria,
que a sombra de meus dedos a tremer...
Manuel António Pina
O retrato
como quem tomba da varanda à rua
onde está?, em que lembrança sua
ou em que sepultura do passado,
sufocado, com a boca atafulhada ainda de sonhos?
O seu nome é agora menos um nome que uma doença rara
que te desfigurou a cara, uma doença sem nome e sem cura;
cabereis os dois na mesma sepultura?
o de alguém perguntando por um estranho
algures, onde o Lexotan se tornou literatura.
Caberemos todos na mesma sepultura?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 353 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
Salmo
para baixo, mudas e estagnadas. Meto-lhes os dedos nos orifícios do corpo - os ouvidos, o nariz, a boca, o sexo, - e tiro-os
cheios de pus, de sangue podre, de restos de algodão. Por dentro,
elas falam-me numa voz marítima, cujo sentido surge e desaparece
no ritmo das marés loucas de setembro. Digo para mim próprio
que já sabia tudo isto; que aqueles corpos estavam previstos
no curso de alguns astros de infância; que não perdi nada,
afinal, em ter esperado tanto tempo.
E o horizonte abre-se-me na continuação das conchas vermelhas
do crepúsculo. Deus é um coral queimado pelo rumor monótono
dos ventos. Entro no pórtico da morte - e encontro
navios ancorados, o poço seco das águas
letais, almas adormecidas pelo tédio da infinita espera. Sento-me
no banco, sob o relógio e o tejadilho da ponte, uma carruagem
vazia brota-me dos olhos num iluminismo final. Cuspi um êxtase celeste no tropel dos evangelhos.
"- Conhecíeis o fim da história? O alucinado
incêndio das vésperas? A corrupção dos sinos na memória?"
[nas nuvens
inabaláveis no céu da frase.]
Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", pág. 313 | Quetzal Editores, 1999
José Miguel Silva
8 MM — Joel Schumacher (1998)
poder; tem apenas compaixão, fadiga e compaixão.
É por isso que um polícia não consegue
manter limpos os sapatos. E quando chega a casa
nenhum filho o felicita. Ouve da mulher:
«Patife - a carpete! - estragaste a minha vida!»
Não sei se a culpa é minha ou de ninguém,
mas romperam-se as comportas e a lama
corre livre na cidade do homem.
Quem tem asas pode talvez salvar-se;
mas quem for sozinho, que vontade de morrer.
Hardi Filho
Esdrúxulo
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
Charles Bukowski
De Um Cão Velho Em Seu Porre
do que isso – você só vai
ficando bom –
uma garrafa virada e
vazia –
os poemas fervilhando na sua
cabeça
mas
a meio caminho entre os 60 e
os 70
você detém a mão
antes de abrir a
segunda garrafa –
às vezes
não abre
pois após 50 anos de
bebedeira pesada
você pode presumir
que essa garrafa adicional
vai te mandar
balbuciando para
uma casa de repouso
ou te conceder
um derrame
sozinho na sua
casa
os gatos mastigando a
sua carne
enquanto a névoa matinal
penetra pela tela
quebrada.
a gente nem pensa no
fígado
e se o fígado
não pensa na
gente, tudo
bem.
mas de fato parece
que quanto mais bebemos
tanto melhores as palavras
ficam.
a morte não importa
mas a derradeira inconveniência
da quase-morte é o pior dos
tormentos.
vou encerrar a noite
com
cerveja.
José Miguel Silva
Não sei se são os trinta anos
cada vez me assusta mais a solidão.
Aos vinte anos, aos vinte e cinco,
figurava o paraíso como um quarto vazio,
onde o silêncio de um livro ressoava
pela noite dentro. Protegia dos amigos
minhas horas, dos irmãos, dos apelos
do telefone. Como um cego de nascença,
estudava a escuridão. Sonhava-me
recluso numa ilha de fragais, rodeado
de trincheiras, distante de pracetas,
acenos, convites para jantar:
O lamento era o meu hobby preferido.
Não sei se são os trinta anos, a chuva,
o sabor de mais um dia derrubado
nos transportes colectivos,
A queda maligna das primeiras folhas;
não sei o que é, talvez o teu amor
comece, pouco a pouco, a civilizar-me.
Agora, se chego a casa e tu não estás,
corro a pôr música, abro janelas,
agarro-me ao telefone, como um náufrago,
incapaz de suportar por um segundo
o terror emboscado debaixo da cama,
atrás das estantes, dentro de mim.
José Miguel Silva
Salão de beleza (1ª impressão)
de quem vive o abandono das cidades.
O que fazes, terra vã, nesse passo movediço
de carreta funerária, os lábios uma taça
esbotenada, os olhos como duas pás de cinza,
o que esperas tu à porta da Beleza?
Ditirâmbica ilusão, descordoada lira
cujo timbre nenhum salmo recupera,
por que tintas queres vestir-te para o baile,
se a morte, esse fácil D. Juan, que não sabe
dizer não, é o único galã que permanece
na penumbra do salão e tu própria
já não sabes muito bem
a que santo encomendar as tuas pernas.
Charles Bukowski
A Morte de Uma Esplêndida Vizinhança
no qual você subia uma escada
para ganhar um boquete
e havia um grande motociclista
lá sentado
usando sua jaqueta com suástica.
ele ficava lá pra farejar você
se você fosse um
tira
e pra proteger as garotas
se você não fosse.
ficava bem em cima da
Loja de Sanduíches Submarinos da Philadelphia
lá em L.A.
para onde as garotas desciam
quando o movimento
ficava fraco
e onde elas comiam outra
coisa.
o cara que administrava a
loja de sanduíches
detestava as garotas
ele não gostava de
atendê-las
mas tinha
medo de não
atender.
aí um dia
fui fazer uma visita
e o motociclista não estava lá
tampouco as garotas
estavam,
e não tinha sido uma simples
batida
tinha sido um
tiroteio:
havia buracos de bala
na porta
no alto da
escada.
entrei na loja de submarinos
pra pegar um sanduíche e uma
cerveja
e o proprietário me
disse
“as coisas estão melhores
agora”.
depois disso
precisei sair da cidade
por alguns
dias
e quando voltei
e andei
até a loja de sanduíches
vi que a janela
de vidro recozido
tinha sido
arrebentada
e estava coberta por
tábuas.
dentro as paredes
e o balcão tinham sido
enegrecidos por
fogo.
mais ou menos na mesma
época
minha namorada enlouqueceu
e começou a dar para um homem
depois
do outro.
quase tudo que era bom estava
acabado.
dei um mês de aviso prévio
ao meu senhorio e me mudei em
3 semanas.
Heitor Lima
Cinzas
Tudo passou, tudo se fez em poeira...
E na minha alma, que o abandono assusta,
Morre a luz da esperança derradeira.
O amor mais casto, a aspiração mais justa
Têm a desilusão para fronteira...
Um momento de sonho às vezes custa
O sacrifício da existência inteira!
Chama efêmera, o amor! Baldado surto,
A glória! Ah! coração mesquinho e raso...
Ah! pensamento presumido e curto...
E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,
— Tudo se perderá no mesmo ocaso
E se confundirá na mesma ruína.
Manuel António Pina
Arte poétca
Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 309 | Assírio & Alvim, 2012
José Miguel Silva
Salão de beleza (2ª impressão)
à saída do salão de beleza.
Apesar dos muitos e pesados passos
que deixou na terra, do lastro insuportável
de seus anos movediços,
ainda encontra forças para arrastar a alma
até ao reverso de um espelho e desenhar,
de memória, o sanguíneo traço dos lábios,
armar o cabelo para mais uma ilusão.
Admirável a tenacidade das ervas
que à enxurrada opõem a verdura de um grito
e resistem à lição de Marco Aurélio,
ao prolongado cerco da realidade.
Admiráveis porque vestem de gala
para mais uma dança, já solitária,
num baile de fantasmas, todo mental,
sem dar crédito à melancolia nem ouvidos
ao tirânico juízo da crua, da falsa
da estúpida carreta fúnebre.
José Miguel Silva
Sinopse
desejei: as tardes à janela, sem vizinhos nem
ardis, a injustiça reduzida ao mecanismo
natural da bicharada, o lavradio do amor
a tempo inteiro.
Só me falta, para tudo
proteger em cobardia, uma campânula
de cego na cabeça, aprender a fechar olhos
e ouvidos ao avanço hertziano da desdita.
Então serei feliz e integral como um cadáver.
Charles Bukowski
Quente
fogo em atravessar uma sala
há fogo nos olhos do gato e há fogo nas bolas
do gato
e o relógio de pulso rasteja como cobra pela parte de trás da
cômoda
e a geladeira contém 9.000 sonhos congelados e picantes
e enquanto ouço as sinfonias de compositores mortos
sou consumido por uma alegre tristeza
há fogo nas paredes
e as lesmas no jardim só querem amor
e há fogo nas pragas daninhas
estamos ardendo ardendo ardendo
há fogo num copo d’água
os túmulos da Índia sorriem como enamorados filhos da mãe
as fiscais de estacionamento choram sozinhas à uma da manhã nas noites chuvosas
há fogo nas rachaduras das calçadas
e
durante a noite toda enquanto fiquei bebendo e datilografando estes
onze ou doze poemas
a energia elétrica ficou caindo e voltando
tem um vento feroz lá fora
e entre as quedas e as voltas
fiquei sentado aqui no escuro
máquina elétrica (haha) desligada luzes apagadas rádio desligado
bebendo no escuro
acendendo cigarros no escuro
saía fogo dos fósforos
estamos todos ardendo juntos
irmãos e irmãs ardentes
eu gosto eu gosto eu gosto
disso.
José Miguel Silva
5
cores, colmeias de melífluo sentido.
Eu nunca vi senão prefácios à destruição.
Nas linhas dum rosto via medo farpado,
na curva dum ombro, o peso que suporta.
Encarava com descrença o sorriso das praças,
na cabeça dum menino lia o mapa do inferno
e no amor o combustível da ganância.
Não sei como foi, eu nunca soube fechar
os olhos e dormir como os demais.
E se olhava para dentro de mim, era ainda
pior: uma paisagem abjecta entre colunas
de mercúrio, de enxofre, de metais pesados
como a consciência. Fui, em suma, um triste,
um homem estacado na fronteira entre
verdade e pânico, e desconfiado, sempre,
de qualquer ideia de consolação. Retirado,
no final, para um respiro de montanha,
esforcei-me por manter a ilusão de ser
o último elo na cadeia antropológica,
o nec plus ultra da insanidade.
José Miguel Silva
Nocturno
da imperfeição das coisas
que trazemos para casa
com o pó da rua
quando a tarde finda
e não temos água quente
para lavar a cabeça.
Tentamos regular
com açudes de orações
o curso da tristeza
mudamos de cadeira
e levamos a noite
a dizer oxalá
como se a palavra
praticasse anestesia.
José Miguel Silva
Brief encounter - David Lean (1945)
se enamoram uma da outra,
estamos perante um caso fragrante
de romantismo inglês. A princesa,
o dragão e o senhor chapéu de coco:
tanto basta para um drama
em que o remorso é o artista
principal. São assim os infelizes,
não conseguem partir um prato
sem ficar tolhidos pelo sentimento
de culpa. E por isso, sentem eles,
o melhor é estar quieto na berma
do sofá, e ter medo de tudo,
de tudo menos da infelicidade.
José Miguel Silva
Os melhores anos da minha vida
passaram comigo ausente, passaram
numa corrente subterrânea.
Não me apercebi de nada, distraído
com a queda das folhas,
a densa mistura de pão e desordem.
Estava tudo em aberto, mas eu não sabia
senão de pequenas querelas,
e tímidos passos à toa, sempre à espera
de não ter futuro. Sentado, como um pobre,
sobre o poço de petróleo,
eu media com tesouras as semanas,
misturava-me com livros, ansiava
pelo dia em que deixasse de sangrar.
Os melhores anos da minha vida
troquei-os por isto.