Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Charles Bukowski
Sapatos
sapatos no armário como lírios de Páscoa,
meus sapatos sozinhos neste momento,
e outros sapatos com outros sapatos
como cães andando por avenidas,
e o fumo por si só não basta
e eu recebi uma carta de uma mulher num hospital,
amor, ela diz, amor,
mais poemas,
mas não escrevo,
não me entendo,
ela me manda fotografias do hospital
tiradas do ar,
mas me lembro dela em outras noites,
não morrendo,
sapatos com saltos como adagas
parados ao lado dos meus,
como essas noites fortes
podem mentir pra caramba,
como essas noites ficam quietas afinal
meus sapatos no armário
sobrevoados por casacões e camisas desengonçadas,
e eu olho para o buraco deixado pela porta
e as paredes, e não
escrevo.
meus sapatos sozinhos neste momento,
e outros sapatos com outros sapatos
como cães andando por avenidas,
e o fumo por si só não basta
e eu recebi uma carta de uma mulher num hospital,
amor, ela diz, amor,
mais poemas,
mas não escrevo,
não me entendo,
ela me manda fotografias do hospital
tiradas do ar,
mas me lembro dela em outras noites,
não morrendo,
sapatos com saltos como adagas
parados ao lado dos meus,
como essas noites fortes
podem mentir pra caramba,
como essas noites ficam quietas afinal
meus sapatos no armário
sobrevoados por casacões e camisas desengonçadas,
e eu olho para o buraco deixado pela porta
e as paredes, e não
escrevo.
1 218
Charles Bukowski
Apenas Uma Noite
a mais recente aparelhagem pendendo sobre meu travesseiro recebe
luz da rua pela janela por entre a névoa do álcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
você era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
você é
o ramalhete
de ontem tão tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mãos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pão e gás e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verão muito pequeno, e
aí já é
inverno de novo
e você está arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cão late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.
luz da rua pela janela por entre a névoa do álcool
eu era o filhote de uma puritana que me surrava quando
o vento agitava folhas de relva que os olhos conseguiam ver
se mexendo e
você era uma
menina do convento observando as freiras espanarem
a areia de Las Cruces dos mantos de Deus.
você é
o ramalhete
de ontem tão tristemente
invadido. eu beijo seus pobres
seios enquanto minhas mãos tateiam em busca do amor
neste apartamento barato em Hollywood cheirando a
pão e gás e tristeza.
avançamos por rotas lembradas
os mesmos degraus velhos de guerra lisinhos com centenas de
passos, 50 amores, 20 anos.
e nos concedem um verão muito pequeno, e
aí já é
inverno de novo
e você está arrastando pelo piso
uma coisa pesada e embaraçosa
e a descarga soa no banheiro, um cão late
a porta de um carro é batida com força...
algo nos fugiu inescapavelmente, tudo,
ao que parece, e eu acendo um cigarro e
aguardo a mais velha maldição
de todas.
1 003
Fernanda Botelho
Amnésia
Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas:
penas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.
Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).
E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.
E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.
penas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.
Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).
E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.
E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.
1 718
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Princesa da Cidade Extrema Ou a Morte Dos Ritos
Quando o palácio do rei do Estio foi invadido
Isô princesa da Cidade Extrema
Inclinou gravemente a cabeça pequena
E em seu sorriso de coral os dentes brilharam como grãos de arroz
Quando levaram sua colecção de jades
O seu leito de sândalo
O sorriso franziu sua narina fina
Suas pestanas acenaram como borboletas
Quando levaram suas jarras vermelhas seus livros de estampas
Ela continuou flexível e serena
Suas pestanas aplaudiram como leques pretos
Seus lábios recitaram a sentença antiga:
Aquele que é despojado fica livre
No lago viu-se
Ela mesma era
Flexível e brilhante como seda
Fresca e macia como jade
Colorida e preciosa como estampa
Serena como seda dormiu nessa noite sobre esteiras
Porém a aurora do tempo novo despontou na cidade
Quando ela acordou
O cortejo das mãos não acorreu
A mão que na jarra põe a flor
A mão que acende o incenso
A mão que desenrola o tapete
A mão que faz cantar a música das harpas
A longa subtil mão precisa que pinta o contorno dos olhos
A mão fresca e lenta que derrama os perfumes
Mão nenhuma invoca o espírito dos deuses
Protectores do tecto
Mão nenhuma dispõe o ritual antiquíssimo que introduz
O fogo linear do dia
Mão nenhuma traça o gesto que constrói
A forma celeste do dia
As vozes dizem:
Ergue-te sozinha
Não és ídolo não és divina
Nenhuma coisa é divina
Como seda no chão cai desprendida
Assim ela esvaída
Quando a si torna não torna à sua imagem
Tudo é abolido e bebido em repentina voragem
O colóquio dos bambus calou-se
Nem a rã coaxa
Como caule ao vento seu pescoço fino baloiça
Suas pestanas permanecem imóveis como as do cego que há milénios
Junto da ponte não vê o rio
Em seus vestidos tropeça como o cego
Suas mãos tacteiam o ar
Muito alto ouve ranger o céu
São os deuses rasgando suas sedosas bandeiras de vento
Para não ouvir o silvo dos gumes acerados
Mergulha no lago até ao lodo
Depois flutua muitos dias
No centro da corola que formam
Os seus largos vestidos espalhados
Isô princesa da Cidade Extrema
Inclinou gravemente a cabeça pequena
E em seu sorriso de coral os dentes brilharam como grãos de arroz
Quando levaram sua colecção de jades
O seu leito de sândalo
O sorriso franziu sua narina fina
Suas pestanas acenaram como borboletas
Quando levaram suas jarras vermelhas seus livros de estampas
Ela continuou flexível e serena
Suas pestanas aplaudiram como leques pretos
Seus lábios recitaram a sentença antiga:
Aquele que é despojado fica livre
No lago viu-se
Ela mesma era
Flexível e brilhante como seda
Fresca e macia como jade
Colorida e preciosa como estampa
Serena como seda dormiu nessa noite sobre esteiras
Porém a aurora do tempo novo despontou na cidade
Quando ela acordou
O cortejo das mãos não acorreu
A mão que na jarra põe a flor
A mão que acende o incenso
A mão que desenrola o tapete
A mão que faz cantar a música das harpas
A longa subtil mão precisa que pinta o contorno dos olhos
A mão fresca e lenta que derrama os perfumes
Mão nenhuma invoca o espírito dos deuses
Protectores do tecto
Mão nenhuma dispõe o ritual antiquíssimo que introduz
O fogo linear do dia
Mão nenhuma traça o gesto que constrói
A forma celeste do dia
As vozes dizem:
Ergue-te sozinha
Não és ídolo não és divina
Nenhuma coisa é divina
Como seda no chão cai desprendida
Assim ela esvaída
Quando a si torna não torna à sua imagem
Tudo é abolido e bebido em repentina voragem
O colóquio dos bambus calou-se
Nem a rã coaxa
Como caule ao vento seu pescoço fino baloiça
Suas pestanas permanecem imóveis como as do cego que há milénios
Junto da ponte não vê o rio
Em seus vestidos tropeça como o cego
Suas mãos tacteiam o ar
Muito alto ouve ranger o céu
São os deuses rasgando suas sedosas bandeiras de vento
Para não ouvir o silvo dos gumes acerados
Mergulha no lago até ao lodo
Depois flutua muitos dias
No centro da corola que formam
Os seus largos vestidos espalhados
1 152
Charles Bukowski
Notificação
os cisnes se afogam em água imunda,
retirem os avisos,
testem os venenos,
isolem a vaca
do touro,
a peônia do sol,
tirem os beijos de alfazema da minha noite,
coloquem as sinfonias nas ruas
como mendigos,
deixem as unhas de prontidão,
açoitem as costas dos santos,
atordoem sapos e ratos para o gato da alma,
queimem as pinturas arrebatadoras,
mijem no amanhecer,
meu amor
está morto.
retirem os avisos,
testem os venenos,
isolem a vaca
do touro,
a peônia do sol,
tirem os beijos de alfazema da minha noite,
coloquem as sinfonias nas ruas
como mendigos,
deixem as unhas de prontidão,
açoitem as costas dos santos,
atordoem sapos e ratos para o gato da alma,
queimem as pinturas arrebatadoras,
mijem no amanhecer,
meu amor
está morto.
1 166
Charles Bukowski
Para Jane
225 dias sob a relva
e você sabe mais do que eu.
há muito que levaram seu sangue,
você é um graveto seco numa cesta.
é assim que funciona?
nesse quarto
as horas de amor
ainda fazem sombras.
quando você partiu
levou junto quase
tudo.
nas noites me ajoelho
perante tigres
que não me deixam em paz.
o que você foi
não vai acontecer de novo.
os tigres me encontraram
e eu não me importo.
e você sabe mais do que eu.
há muito que levaram seu sangue,
você é um graveto seco numa cesta.
é assim que funciona?
nesse quarto
as horas de amor
ainda fazem sombras.
quando você partiu
levou junto quase
tudo.
nas noites me ajoelho
perante tigres
que não me deixam em paz.
o que você foi
não vai acontecer de novo.
os tigres me encontraram
e eu não me importo.
2 169
Carvalho Aranha
Mundo Interior
Faz dias, (quantos?) despertei, chorando.
Alguém morreu dentro de mim; parece
Que sinto badalar, saudoso e brando
Um velho sino, convidando à prece.
Dlin, dlon; dlin, dlon... Os ecos despertando
Tal som semelha a voz de quem padece,
Voz desolada, estertorosa, quando
A grande Vaga do Infinito desce...
Ouço um confuso soluçar, em torno;
E a alma pirilampeja, comovida,
Num derradeiro raio, baço e morno.
E escuto, agora, em trêmulos, plangente,
Vibrar o sino, em funeral à vida,
Que, em meu olhar, é como o Sol poente...
Alguém morreu dentro de mim; parece
Que sinto badalar, saudoso e brando
Um velho sino, convidando à prece.
Dlin, dlon; dlin, dlon... Os ecos despertando
Tal som semelha a voz de quem padece,
Voz desolada, estertorosa, quando
A grande Vaga do Infinito desce...
Ouço um confuso soluçar, em torno;
E a alma pirilampeja, comovida,
Num derradeiro raio, baço e morno.
E escuto, agora, em trêmulos, plangente,
Vibrar o sino, em funeral à vida,
Que, em meu olhar, é como o Sol poente...
873
Alberto de Oliveira
Velha Fazenda - III
— "... Vi um por um, oh! provação tremenda!
Nunca me há de esquecer aquele dia!
Debandar os escravos da fazenda.
A esta, em idos tempos de alegria,
Chamara, porque as tinha, de "Esperança",
"Desengano" melhor lhe chamaria.
Ah! dor nenhuma, como a da lembrança
Da ventura que foi, na desventura
Ferir mais fundo o coração alcança!
Tanta grandeza há pouco! e eis que da altura
Do meu sonho resvalo e me subverto
Chão adentro em rasgada sepultura!
Ergo-me, tonto ainda, olho — o deserto!
Falo — silêncio! movo os braços — nada!
Somente a solidão ao peito aperto.
Minha "Esperança" desesperançada!
Com que ouvidos te ouvi então o rouco
Arrastado mugido da boiada!
Pus-me a chorar, como criança ou louco,
(Esta fraqueza, amigo, não te encubro)
Pus-me a chorar. Naquele mês, em pouco,
A flor do cafezal, filha de Outubro,
Reclamando a colheita, a rir-se agora,
Já mudada se achava em fruto rubro.
Naquele mês a várzea se melhora
Com a estação mais regrada e água da serra;
Ao sol pompeando, todo caule enflora;
Viça o vesco faval, com o humor que encerra;
Os grãos amojam nas espigas de ouro;
Racha com as grossas túberas a terra.
Mas com que mãos colher tanto tesouro?
As mãos Maio as levou, levando o escravo,
Maio agora tornado sestro agouro.
Meu mal, assim pensando, aflito agravo;
Nas terras, nas lavouras em abandono
Em desesperação os olhos cravo.
Depois, a pouco e pouco, um meio sono
Me vem. Olho estas cousas com fastio,
E deixo-as ir, como se vai sem dono
Barco largado na tensão do rio."
Publicado no livro Poesias, 1904/1911: terceira série (1913). Poema integrante da série Natália.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
Nunca me há de esquecer aquele dia!
Debandar os escravos da fazenda.
A esta, em idos tempos de alegria,
Chamara, porque as tinha, de "Esperança",
"Desengano" melhor lhe chamaria.
Ah! dor nenhuma, como a da lembrança
Da ventura que foi, na desventura
Ferir mais fundo o coração alcança!
Tanta grandeza há pouco! e eis que da altura
Do meu sonho resvalo e me subverto
Chão adentro em rasgada sepultura!
Ergo-me, tonto ainda, olho — o deserto!
Falo — silêncio! movo os braços — nada!
Somente a solidão ao peito aperto.
Minha "Esperança" desesperançada!
Com que ouvidos te ouvi então o rouco
Arrastado mugido da boiada!
Pus-me a chorar, como criança ou louco,
(Esta fraqueza, amigo, não te encubro)
Pus-me a chorar. Naquele mês, em pouco,
A flor do cafezal, filha de Outubro,
Reclamando a colheita, a rir-se agora,
Já mudada se achava em fruto rubro.
Naquele mês a várzea se melhora
Com a estação mais regrada e água da serra;
Ao sol pompeando, todo caule enflora;
Viça o vesco faval, com o humor que encerra;
Os grãos amojam nas espigas de ouro;
Racha com as grossas túberas a terra.
Mas com que mãos colher tanto tesouro?
As mãos Maio as levou, levando o escravo,
Maio agora tornado sestro agouro.
Meu mal, assim pensando, aflito agravo;
Nas terras, nas lavouras em abandono
Em desesperação os olhos cravo.
Depois, a pouco e pouco, um meio sono
Me vem. Olho estas cousas com fastio,
E deixo-as ir, como se vai sem dono
Barco largado na tensão do rio."
Publicado no livro Poesias, 1904/1911: terceira série (1913). Poema integrante da série Natália.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
2 459
Sousa Caldas
Soneto I [Oito anos apenas eu contava
Oito anos apenas eu contava,
Quando a fúria do mar, abandonando
A vida, em frágil lenho e demandando
Novos climas, da Pátria me ausentava.
Desde então à tristeza começava
O tenro peito a ir acostumando;
E mais tirana sorte adivinhando
Em lágrimas o Pai, e a Mãe deixava.
Entre ferros, pobreza, enfermidade
Eu vejo, ó Céus! que dor! que iníqua sorte!
O começo da mais risonha idade.
A velhice cruel, (ó dura Morte!)
Que faz temer tão triste mocidade,
Para poupar-me, descarrega o corte.
Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).
In: VARNHAGEN, F.A. Florilégio da poesia brasileira. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1987. t.2, p.124. (Coleção Afrânio Peixoto, 5)
NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
Quando a fúria do mar, abandonando
A vida, em frágil lenho e demandando
Novos climas, da Pátria me ausentava.
Desde então à tristeza começava
O tenro peito a ir acostumando;
E mais tirana sorte adivinhando
Em lágrimas o Pai, e a Mãe deixava.
Entre ferros, pobreza, enfermidade
Eu vejo, ó Céus! que dor! que iníqua sorte!
O começo da mais risonha idade.
A velhice cruel, (ó dura Morte!)
Que faz temer tão triste mocidade,
Para poupar-me, descarrega o corte.
Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).
In: VARNHAGEN, F.A. Florilégio da poesia brasileira. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1987. t.2, p.124. (Coleção Afrânio Peixoto, 5)
NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
983
Carlyle Martins
Tapera
É quase ruína em meio à selva espessa e bruta,
Dentro da solidão, sem amparo e sem dono,
A tapera que, no ermo, unicamente escuta,
O vento a perpassar, na indolência do outono.
Noite morta. Em redor, o matagal se enluta.
Há um sombrio torpor de tristeza e abandono,
Como se a alma da terra, após contínua luta,
No silêncio dormisse um prolongado sono.
Passam, no alto, a cantar, aves de mau agouro...
Tudo quieto. Há uni mistério, uma angústia infinita,
No véu da escuridão, que no espaço se eleva.
Não brilham no céu plúmbeo e triste os astros de ouro!
E ela, na solitude em que a saudade habita,
É um es erro ue assombra o próprio horror da treva.
Dentro da solidão, sem amparo e sem dono,
A tapera que, no ermo, unicamente escuta,
O vento a perpassar, na indolência do outono.
Noite morta. Em redor, o matagal se enluta.
Há um sombrio torpor de tristeza e abandono,
Como se a alma da terra, após contínua luta,
No silêncio dormisse um prolongado sono.
Passam, no alto, a cantar, aves de mau agouro...
Tudo quieto. Há uni mistério, uma angústia infinita,
No véu da escuridão, que no espaço se eleva.
Não brilham no céu plúmbeo e triste os astros de ouro!
E ela, na solitude em que a saudade habita,
É um es erro ue assombra o próprio horror da treva.
888
Carlyle Martins
Boiada
Verde largo é o sertão! No claro firmamento
De um azul de safira, alto, esplêndido e lindo,
O sol é um dardo de oiro. E, num tropel violento,
Passa ao longe a boiada, entre poeira, mugindo.
Tudo quieto ao redor. Em passo tardo e lento,
No áspero desdobrar do caminho ermo e infindo,
À canção do vaqueiro, os bois, em movimento,
Vão vencendo a distância e, em tumulto, seguindo
Ficou longe a fazenda! E os bois, de olhos doridos,
Irmanando-se à paz da imensa natureza,
Têm saudades, talvez: — soltam fundos mugidos...
Vendo-os, quanta amargura o espírito me invade!
— Sinto que esse mugir, de profunda tristeza,
Quer dizer, mas não pode, o que seja a Saudade!
De um azul de safira, alto, esplêndido e lindo,
O sol é um dardo de oiro. E, num tropel violento,
Passa ao longe a boiada, entre poeira, mugindo.
Tudo quieto ao redor. Em passo tardo e lento,
No áspero desdobrar do caminho ermo e infindo,
À canção do vaqueiro, os bois, em movimento,
Vão vencendo a distância e, em tumulto, seguindo
Ficou longe a fazenda! E os bois, de olhos doridos,
Irmanando-se à paz da imensa natureza,
Têm saudades, talvez: — soltam fundos mugidos...
Vendo-os, quanta amargura o espírito me invade!
— Sinto que esse mugir, de profunda tristeza,
Quer dizer, mas não pode, o que seja a Saudade!
1 115
Nuno Júdice
Uma palidez de alma
Uma palidez de alma limita o número. Círculo
em formação - e do centro se desprende ile-
gível luz. Com as mãos rasgo o limite, também
eu entro na oca circunferência onde a lira
doente tocou o ocaso.
O silêncio substitui a exuberante vegetação
das vozes. Amortalha o horizote um crepúsculo
de risos. Entre sombras, vagueia ainda o corpo
opaco do mudo mensageiro, cujo regresso saudei
da submarina folhagem.
Na lenta enumeração os meus olhos se fixam.
Do acaso a distante música os atinge; rodam
suspensos da cavidade do rosto. Um jorro
branco irrompe o som,
e da ferida aberta os lábios omitem o verso.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 20 | Na regra do jogo, 1982
em formação - e do centro se desprende ile-
gível luz. Com as mãos rasgo o limite, também
eu entro na oca circunferência onde a lira
doente tocou o ocaso.
O silêncio substitui a exuberante vegetação
das vozes. Amortalha o horizote um crepúsculo
de risos. Entre sombras, vagueia ainda o corpo
opaco do mudo mensageiro, cujo regresso saudei
da submarina folhagem.
Na lenta enumeração os meus olhos se fixam.
Do acaso a distante música os atinge; rodam
suspensos da cavidade do rosto. Um jorro
branco irrompe o som,
e da ferida aberta os lábios omitem o verso.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 20 | Na regra do jogo, 1982
890
Raquel Nobre Guerra
Quem nunca hesitou
Quem nunca hesitou na paragem do 28
e pensou: ali vai a metáfora da minha vida.
E nem por pensá-lo escapou ao açude
de mandar parar tanta gente só por si.
Não é possível ser feliz com tanta correspondência
e entre nós que vamos em itinerários românticos
a cruz na porta da tabacaria é tão-só o aviso
para lavar a cabeça contra o pessimismo.
Se não te aconchega o lumaréu de estar vivo
não te aflijas quando predizem a meteorologia
uma estação no inferno será sempre o destino
e pensou: ali vai a metáfora da minha vida.
E nem por pensá-lo escapou ao açude
de mandar parar tanta gente só por si.
Não é possível ser feliz com tanta correspondência
e entre nós que vamos em itinerários românticos
a cruz na porta da tabacaria é tão-só o aviso
para lavar a cabeça contra o pessimismo.
Se não te aconchega o lumaréu de estar vivo
não te aflijas quando predizem a meteorologia
uma estação no inferno será sempre o destino
1 410
Sousa Caldas
Salmo CXXXVI [Nas praias que o Eufrates rega
Super fluminis Babylonis...
Nas praias que o Eufrates rega,
Abatidos nos sentamos,
De pranto amaro as banhamos,
Com saudades de Sion.
Dos salgueiros que as guarnecem,
Nossos doces instrumentos
Pendem, ludíbrio dos ventos,
Sinal da nossa aflição.
Esses mesmos que as cadeias
Para os nossos pés teceram,
Sem ter dó de nós disseram:
— "Vossas cítaras tocai;
"Um dos hinos que algum dia,
"Pelo templo ressoava
"De Sion, quando louvava
"O seu DEUS, — vinde, cantai".
— Como havemos de cantar,
Sob estranhos, duros Céus,
Em terra alheia e distante,
As canções do nosso DEUS?
Possa eu ver a minha destra
De langor entorpecer,
Ó Sion! se me esquecer
Dos saudosos muros teus.
Possa a minha língua fria
Às roucas fauces grudar-se;
Se a saudade tua, um dia,
De meu peito se riscar:
Se Tu não fores o objeto
De meu sonoroso canto;
Se o meu prazer, meu encanto,
De Ti só não começai.
Lembrai-vos, ó meu SENHOR!
Dos cruéis filhos de Edom;
Do dia em que seu furor
Jerusalém arrasou.
"Abatei-a, destrui-a,
"Dela não fique vestígio,
"À cinza e pó reduzi-a":
Assim Edom proclamou:
— Ó Babilônia malvada!
Bem haja o que te igualar
À nossa sorte, e teus muros,
Quais os nossos, arrasar!
Cativar possa ele cedo
Os malditos filhos teus,
E todos contra um penedo,
Para punir-te, esmagar!
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: salmos de Davi vertidos em ritmo potuguês. Org. pref. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1820. v.
Nas praias que o Eufrates rega,
Abatidos nos sentamos,
De pranto amaro as banhamos,
Com saudades de Sion.
Dos salgueiros que as guarnecem,
Nossos doces instrumentos
Pendem, ludíbrio dos ventos,
Sinal da nossa aflição.
Esses mesmos que as cadeias
Para os nossos pés teceram,
Sem ter dó de nós disseram:
— "Vossas cítaras tocai;
"Um dos hinos que algum dia,
"Pelo templo ressoava
"De Sion, quando louvava
"O seu DEUS, — vinde, cantai".
— Como havemos de cantar,
Sob estranhos, duros Céus,
Em terra alheia e distante,
As canções do nosso DEUS?
Possa eu ver a minha destra
De langor entorpecer,
Ó Sion! se me esquecer
Dos saudosos muros teus.
Possa a minha língua fria
Às roucas fauces grudar-se;
Se a saudade tua, um dia,
De meu peito se riscar:
Se Tu não fores o objeto
De meu sonoroso canto;
Se o meu prazer, meu encanto,
De Ti só não começai.
Lembrai-vos, ó meu SENHOR!
Dos cruéis filhos de Edom;
Do dia em que seu furor
Jerusalém arrasou.
"Abatei-a, destrui-a,
"Dela não fique vestígio,
"À cinza e pó reduzi-a":
Assim Edom proclamou:
— Ó Babilônia malvada!
Bem haja o que te igualar
À nossa sorte, e teus muros,
Quais os nossos, arrasar!
Cativar possa ele cedo
Os malditos filhos teus,
E todos contra um penedo,
Para punir-te, esmagar!
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: salmos de Davi vertidos em ritmo potuguês. Org. pref. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1820. v.
1 045
Herberto Helder
Lugar - Vii
Pequenas estrelas que mudam de cor, frias
pêras ao alto
de raízes queimadas, ainda doces, profundamente
cor de turquesa — eu tudo sei.
Como a época leve que entra,
como as crianças que despertam e sorriem
lapidarmente, e morrem
sem que se note, na própria clareira viva
do seu sorriso.
A onda que envolve os peixes, e dos peixes
absorve o rápido estremecimento — eu tudo sei.
Porque mudo, queimo-me.
Porque as ondas me batem na boca.
Pequenas estrelas passadas de cor para cor, pêras
que rolam de um degrau
para outro degrau de amadurecimento. Enquanto
estou deitado sob o céu brutal, e a noite
avança terrivelmente plácida.
E por baixo a terra vive, abstracta
e espalhada.
Quero dizer: eu tudo sei.
Junto aos ossos em gelo bate uma veia
que sobe, quente; que em silêncio ascende
e bate na língua: — Eu amo o pão que amadurece
no fogo.
Amo a ideia que a morte alimenta
agora na noite. Cinza sobre pepitas.
O açafrão nas pedras encarnadas.
Cerro os olhos para ouvir durante toda a noite,
e todo o mês, e recomeçando no interior
da minha vida—o sangue.
Amarga e difusa loucura do sangue
cercado pelo mundo — eu tudo sei.
Humildade e esgotamento e, quando
a boca estremece, tarefa e depois solidão.
Sei como se pensa obscuramente.
Vejo que a luz se encurva nos campos de urtigas,
e a mão se encurva na luz.
A mão que retém a faca e desliza
sobre a mesa ao encontro do pão maduro.
Porque eu amo a fome.
E eis que todo esse puro tempo passado
se levanta, enquanto respiro debaixo da luz.
Com a dor dentro, levanta-se; com
um forte delírio e a luz imensa — e eu sei.
Ouçam: é neste país onde cheiro
um ramo de sal, a terra pútrida.
Amo a penumbra de uma cara, a brancura
parada de um sorriso no meio da água
profundamente esquecida — sei
tudo, tudo.
Que nada existe e as coisas nascem no tocar
de minha mão inundada.
E é preciso esperar enquanto se morre,
e fica o campo sob o céu que se queima
preciosamente.
Tenho agora a idade — e sei tudo.
Digo: minha alegria é tenebrosa.
E eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva
apaixonada.
Desejaria estar em cima, no meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.
Tanto desejaria ser destruído
por um lento milagre interior.
Cegar com o rosto contra um ramo abrupto
de relâmpagos.
Eu sei. Quero dizer: eu amo
essa morte no meio da luz, entre crisálidas e gotas,
à noite, de dia —
quando o mês se extingue num supremo amadurecimento.
pêras ao alto
de raízes queimadas, ainda doces, profundamente
cor de turquesa — eu tudo sei.
Como a época leve que entra,
como as crianças que despertam e sorriem
lapidarmente, e morrem
sem que se note, na própria clareira viva
do seu sorriso.
A onda que envolve os peixes, e dos peixes
absorve o rápido estremecimento — eu tudo sei.
Porque mudo, queimo-me.
Porque as ondas me batem na boca.
Pequenas estrelas passadas de cor para cor, pêras
que rolam de um degrau
para outro degrau de amadurecimento. Enquanto
estou deitado sob o céu brutal, e a noite
avança terrivelmente plácida.
E por baixo a terra vive, abstracta
e espalhada.
Quero dizer: eu tudo sei.
Junto aos ossos em gelo bate uma veia
que sobe, quente; que em silêncio ascende
e bate na língua: — Eu amo o pão que amadurece
no fogo.
Amo a ideia que a morte alimenta
agora na noite. Cinza sobre pepitas.
O açafrão nas pedras encarnadas.
Cerro os olhos para ouvir durante toda a noite,
e todo o mês, e recomeçando no interior
da minha vida—o sangue.
Amarga e difusa loucura do sangue
cercado pelo mundo — eu tudo sei.
Humildade e esgotamento e, quando
a boca estremece, tarefa e depois solidão.
Sei como se pensa obscuramente.
Vejo que a luz se encurva nos campos de urtigas,
e a mão se encurva na luz.
A mão que retém a faca e desliza
sobre a mesa ao encontro do pão maduro.
Porque eu amo a fome.
E eis que todo esse puro tempo passado
se levanta, enquanto respiro debaixo da luz.
Com a dor dentro, levanta-se; com
um forte delírio e a luz imensa — e eu sei.
Ouçam: é neste país onde cheiro
um ramo de sal, a terra pútrida.
Amo a penumbra de uma cara, a brancura
parada de um sorriso no meio da água
profundamente esquecida — sei
tudo, tudo.
Que nada existe e as coisas nascem no tocar
de minha mão inundada.
E é preciso esperar enquanto se morre,
e fica o campo sob o céu que se queima
preciosamente.
Tenho agora a idade — e sei tudo.
Digo: minha alegria é tenebrosa.
E eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva
apaixonada.
Desejaria estar em cima, no meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.
Tanto desejaria ser destruído
por um lento milagre interior.
Cegar com o rosto contra um ramo abrupto
de relâmpagos.
Eu sei. Quero dizer: eu amo
essa morte no meio da luz, entre crisálidas e gotas,
à noite, de dia —
quando o mês se extingue num supremo amadurecimento.
1 069
Herberto Helder
Lugar - Vi
Às vezes penso: o lugar é tremendo.
E sobre os mortos, além da linguagem.
Lugar que se transforma rodando contra a boca.
Em certos dias, habitado por crianças
de uma infelicidade obscura, sobre
o verão. Por duros e belos
peixes entre as mãos perfurando
o sono de Deus.
E eu trago uma criança com um ombro
mergulhado no sangue, e o outro
ombro metido no sono triste.
Que pensa sempre, dentro de suas águas,
e é ameaçada por uma intraduzível beleza.
Muitas crianças caminham para o silêncio
de uma semana ambígua, quando
o verão anda de um lado para outro
e se desarruma por dentro.
O verão começa pelas partes mortas.
Ao longe, nas fronteiras da ilusão.
Crianças básicas fazem de mim uma rosa
iracunda, e atiram-na
contra a boca de Deus.
Para diante, através das águas estivais.
Não queiram viver em mim, quando entram
como espelhos as vozes virgens.
Ou morrer, se as colinas se aproximam
tão perto do rosto, e estremecendo
com muitas vozes.
Tão respirando, as colinas que se toldam
como povos embriagados.
Eu digo: não desejem amar-me, morrer
de mim. Porque destruo com aboca
o beijo transformado.
Morro em todas as pessoas que a delicadeza consome.
Digam-me devagar quais os vocábulos alarmantes.
Uma história de crianças com folhas
dispersas é sempre
uma história de morte. Embora a doçura
levede sua alma cega, crianças, eis como digo:
são uma musa devoradora.
Estão ligadas a toda a grande idade,
à terrífica fantasia do tempo.
Porque falam no esgotamento e, enquanto dormem,
sonham com seu ombro fendendo o sangue,
entrando no poder de Deus.
Tenho uma criança profunda em todos os lugares.
Desabitai-me a beleza que bati na pedra,
abaixado e louco.
E que a mulher se desabite da solidão que tive,
enquanto falei ao alto, inspirado
pelo assassínio do amor.
Desabitai-me da minha fome e da neve
onde fui brilhante brilhante.
LUGAR 143
Brilhante como o trigo escorrido nos dedos.
Gomo os pés sugeridos em volta da cinza.
A tristeza do verão é um modo de saber.
Ou ser puro. Ou estar afastado.
E preciso abandonar-se no meio da tarefa,
enquanto o crime é o autor, embebido.
Conheço crianças esgotantes pelo sono
onde acordam.
É preciso que Deus se liberte dos meus dons.
Que se não perca em minha fabulosa
ironia.
Também vi crianças empurradas nos meses.
Pela leveza da luz, empurradas
crianças supremas. Vi-as da mais subtil
matéria, com cerejas, com mãos.
Porque Deus é tão leve como a água atravessada.
Água que iracundos peixes rompem em todos os lugares.
Porque um poema alude ao mistério.
E eu ia pelo ar
de um canto de devotamento, eu
amava e amava.
E então levanto de mim próprio, contra
a inspiradora confusão,
as mãos de crianças preciosas caídas em sangue.
Mãos que Deus exerce no sono.
Deixai às crianças minhas zonas primitivas.
Minha terna loucura.
Deixai-as virar a alma para o lado,
de cara contra uma fria onda.
Em mim é que nascem e vivem com nomes
castos, e esquecem.
E de repente se lembram, e se esquecem
de tudo.
Porque são delicadíssimas.
E verdadeiras.
Abandonai-me no mês de Deus aberto,
com as crianças sorrindo com grãos de sal.
Esse Deus sobre as patas ao lado
de catedrais difusas.
Onde encosto meu rosto da cor
assaltada das lágrimas.
Cor de quando tudo pára.
É a minha voz que se ouve para diante da noite,
voz tremente e limpa.
Voz acocorada depois numa obra obscura.
Voz bebida em si própria.
Meu sangue percorre os mortos
que me beijam no escuro com sua boca
de barro fechado.
O sangue passa por toda a doçura.
Os mortos tremem, luzem com o dom
em mim voltado para a sua solidão.
E criam, em cadeia, a mãe
descida em silêncio, mais remota
por detrás dos dons.
Um galho de sangue bate contra seus ouvidos.
Mãe afogada empoeiras interiores.
E chegada então ao cimo da escada.
Olhando pelos meus dons dentro, olhando
o meu dom.
Olhando toda a minha força, ela
ao cimo de uma escada terrível, olhando
dentro de uma doçura mortal
a solidão dos meus dons. Olhando
inteiramente.
Deixai-me em todos os lugares, em cada
mês que principia.
Casulos e campânulas são imagens misturadas.
Sobre o nocturno tema de Deus, despeço-me de todos.
Não me sabem as crianças, e eu sei
todas as crianças num poema prédio em chamas.
Nos meus dons.
E então penso: o lugar é terrível.
E sobre os mortos, além da linguagem.
Lugar que se transforma rodando contra a boca.
Em certos dias, habitado por crianças
de uma infelicidade obscura, sobre
o verão. Por duros e belos
peixes entre as mãos perfurando
o sono de Deus.
E eu trago uma criança com um ombro
mergulhado no sangue, e o outro
ombro metido no sono triste.
Que pensa sempre, dentro de suas águas,
e é ameaçada por uma intraduzível beleza.
Muitas crianças caminham para o silêncio
de uma semana ambígua, quando
o verão anda de um lado para outro
e se desarruma por dentro.
O verão começa pelas partes mortas.
Ao longe, nas fronteiras da ilusão.
Crianças básicas fazem de mim uma rosa
iracunda, e atiram-na
contra a boca de Deus.
Para diante, através das águas estivais.
Não queiram viver em mim, quando entram
como espelhos as vozes virgens.
Ou morrer, se as colinas se aproximam
tão perto do rosto, e estremecendo
com muitas vozes.
Tão respirando, as colinas que se toldam
como povos embriagados.
Eu digo: não desejem amar-me, morrer
de mim. Porque destruo com aboca
o beijo transformado.
Morro em todas as pessoas que a delicadeza consome.
Digam-me devagar quais os vocábulos alarmantes.
Uma história de crianças com folhas
dispersas é sempre
uma história de morte. Embora a doçura
levede sua alma cega, crianças, eis como digo:
são uma musa devoradora.
Estão ligadas a toda a grande idade,
à terrífica fantasia do tempo.
Porque falam no esgotamento e, enquanto dormem,
sonham com seu ombro fendendo o sangue,
entrando no poder de Deus.
Tenho uma criança profunda em todos os lugares.
Desabitai-me a beleza que bati na pedra,
abaixado e louco.
E que a mulher se desabite da solidão que tive,
enquanto falei ao alto, inspirado
pelo assassínio do amor.
Desabitai-me da minha fome e da neve
onde fui brilhante brilhante.
LUGAR 143
Brilhante como o trigo escorrido nos dedos.
Gomo os pés sugeridos em volta da cinza.
A tristeza do verão é um modo de saber.
Ou ser puro. Ou estar afastado.
E preciso abandonar-se no meio da tarefa,
enquanto o crime é o autor, embebido.
Conheço crianças esgotantes pelo sono
onde acordam.
É preciso que Deus se liberte dos meus dons.
Que se não perca em minha fabulosa
ironia.
Também vi crianças empurradas nos meses.
Pela leveza da luz, empurradas
crianças supremas. Vi-as da mais subtil
matéria, com cerejas, com mãos.
Porque Deus é tão leve como a água atravessada.
Água que iracundos peixes rompem em todos os lugares.
Porque um poema alude ao mistério.
E eu ia pelo ar
de um canto de devotamento, eu
amava e amava.
E então levanto de mim próprio, contra
a inspiradora confusão,
as mãos de crianças preciosas caídas em sangue.
Mãos que Deus exerce no sono.
Deixai às crianças minhas zonas primitivas.
Minha terna loucura.
Deixai-as virar a alma para o lado,
de cara contra uma fria onda.
Em mim é que nascem e vivem com nomes
castos, e esquecem.
E de repente se lembram, e se esquecem
de tudo.
Porque são delicadíssimas.
E verdadeiras.
Abandonai-me no mês de Deus aberto,
com as crianças sorrindo com grãos de sal.
Esse Deus sobre as patas ao lado
de catedrais difusas.
Onde encosto meu rosto da cor
assaltada das lágrimas.
Cor de quando tudo pára.
É a minha voz que se ouve para diante da noite,
voz tremente e limpa.
Voz acocorada depois numa obra obscura.
Voz bebida em si própria.
Meu sangue percorre os mortos
que me beijam no escuro com sua boca
de barro fechado.
O sangue passa por toda a doçura.
Os mortos tremem, luzem com o dom
em mim voltado para a sua solidão.
E criam, em cadeia, a mãe
descida em silêncio, mais remota
por detrás dos dons.
Um galho de sangue bate contra seus ouvidos.
Mãe afogada empoeiras interiores.
E chegada então ao cimo da escada.
Olhando pelos meus dons dentro, olhando
o meu dom.
Olhando toda a minha força, ela
ao cimo de uma escada terrível, olhando
dentro de uma doçura mortal
a solidão dos meus dons. Olhando
inteiramente.
Deixai-me em todos os lugares, em cada
mês que principia.
Casulos e campânulas são imagens misturadas.
Sobre o nocturno tema de Deus, despeço-me de todos.
Não me sabem as crianças, e eu sei
todas as crianças num poema prédio em chamas.
Nos meus dons.
E então penso: o lugar é terrível.
1 092
José Saramago
Natal
Nem aqui, nem agora. Vã promessa
Doutro calor e nova descoberta
Se desfaz sob a hora que anoitece.
Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.
Dessa velha ilusão desenganemos:
É dia de Natal. Nada acontece.
Doutro calor e nova descoberta
Se desfaz sob a hora que anoitece.
Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.
Dessa velha ilusão desenganemos:
É dia de Natal. Nada acontece.
2 428
Herberto Helder
Teoria Sentada - Vi
É a colina na colina, colina
das colinas frias.
Colina devagar por ela acima, brotando
sobre a raiz da colina. Oh fria raiz deitada
na pedra sinistra fria da raiz
da colina. Na húmida
treva pedra vazia, na alegria
abstracta dos fogos, das águas oh sombrias.
Colina profunda, colina de
colina muda. Mexendo nos fogos,
nas águas extremas vazias, nas massas
nocturnas unas — respirando.
Batendo os leves pêlos nas gotas frias
das águas,
e as pesadas estrelas nas veias sombrias.
Colina acocorada na raiz ríspida
da colina, feroz por ela abaixo, ladeada
pelas paredes direitas da melancolia. É
a colina na colina. Depois para cima, colina
das colinas amargas estremes.
De alegria para cima, na audácia das brutas
assimetrias. Colina de pé
sobre as visões, as culpas,
os crimes — batendo os pés unidos na boca
aberta das mães sinistras e vazias. Colina
na colina nas colinas das ilusões
quentes, duras, puras, sombrias. Colina
em baixo e para cima.
É a colina em cima com árvores redondas,
vivas, rápidas e oh frias.
Arvorezinhas da colina, vazias.
##RETRATÍSSIMO OU NARRAÇÃO DE UM HOMEM DEPOIS DE MAIO
Retratoblíquo sentado.
Retratimensamente de/lado, no/acto
conceptual de/ver quantos vivos quantos
dando folhas sobre os mortos de topázio.
Mãosagora, veloz rosto, visão pura.
Esquerdo ao/lado, fogo
junto à cabeça. E mais fogo à/direita por/detrás
da mão estreita pegando no ar
como num livro. Julgo ser eu.
Eu às/portas do sono, e não
se sabe se venho do sono, oh nem se
me empolgo numa ilusão
sombria. Eu oh nem se
me entro para um sonho extenuante.
Sono empurrado de inspiração
terrena.
Retratobliquamente livre e martelado
em sua leveza.
Com algum espinho meio/visível perto
da cabeça. Como se a cabeça
fosse uma rosa venenosa, ou coisa
inclinada e dolorosa. Para ser defendida
ou ferida no/acto
da exaltação. Retrato frio. Num grau
de ausência, num degrau de alucinação.
Frio nas fronteiras do concreto, e ardente
perto perto.
Por/cima, nuvens de cinza revoltada.
Em/baixo, fruta aberta.
Fundos de paisagem veemente e incompleta.
Imaginativa, a roupa; e as pregas, precipitadas.
Que cheiraria a suor um/pouco,
e a tabaco. Por/cima
do colarinho vago o caloroso
sorriso de ironia é quasexacto. Boquimpura contínua — mente/regenerada
pelo amor e, pelo amor, tornada
soturna e abrupta.
Morte ao/meio como alta
alta desarmonia. Que os poderes oh confundia.
Ou talvez toda a força se movimente
para o centro do retrato.
E a morte se urda do próprio modo como
a carne alimenta o silêncio compacto
no/meio do retrato.
Talvez este ser se abisme em seu núcleo
central. E toda a figura se levante, na arquitectura
da cadeira, por virtude desse nó
ou núcleo trágico. Assim como uma pura
concepção em/torno de um delírio
vingativo e transacto.
Qualquer coisa no retrato ressalta
do espírito de um homem que foi assassinado.
Há um punhal implícito.
Sangue desdobrado.
A cadeira é alta e existe dentro do fogo.
O sexo suposto está masculino. O livro
entreposto à vida e à visão
é um livro feroz e ao mesmo tempo destruído
pela beleza.
Este homem não fala, porque se fez pedra extrema
fechada.
Sua idade ouve-se a si/mesma, infiltrada
até ao terror.
Não tem amor senão do amor.
E um homem devastado pelo pensamento da alegria.
Deus vive nele um tempo obscuro
de esquecimento. Este homem mora
nas coisas miúdas transpostas,
comparadas, alvitradas, justapostas.
Vive em/arco.
Pensa em/espírito de fogueira.
Tem toda a mão queimada até ao silêncio
atroz. Rodearam-lhe a voz.
Contudo, seu ser é destinado à alegria verdadeira.
Se adormecesse, deveria ser acordado.
Ou deveria recostar-se na cadeira, ca — ir
em sua/própria fantasia
calma. Não há nele vida celeste,
nem malícia de alma.
Há uma assimetria insondável, um destino ou
desatino casto e demorado.
Por isso é que está de/lado.
Existe, ao/centro, uma força assombrosa.
Nele tudo ousa.
Vai morrer imensamente (ass)assinado.
1961-62.
das colinas frias.
Colina devagar por ela acima, brotando
sobre a raiz da colina. Oh fria raiz deitada
na pedra sinistra fria da raiz
da colina. Na húmida
treva pedra vazia, na alegria
abstracta dos fogos, das águas oh sombrias.
Colina profunda, colina de
colina muda. Mexendo nos fogos,
nas águas extremas vazias, nas massas
nocturnas unas — respirando.
Batendo os leves pêlos nas gotas frias
das águas,
e as pesadas estrelas nas veias sombrias.
Colina acocorada na raiz ríspida
da colina, feroz por ela abaixo, ladeada
pelas paredes direitas da melancolia. É
a colina na colina. Depois para cima, colina
das colinas amargas estremes.
De alegria para cima, na audácia das brutas
assimetrias. Colina de pé
sobre as visões, as culpas,
os crimes — batendo os pés unidos na boca
aberta das mães sinistras e vazias. Colina
na colina nas colinas das ilusões
quentes, duras, puras, sombrias. Colina
em baixo e para cima.
É a colina em cima com árvores redondas,
vivas, rápidas e oh frias.
Arvorezinhas da colina, vazias.
##RETRATÍSSIMO OU NARRAÇÃO DE UM HOMEM DEPOIS DE MAIO
Retratoblíquo sentado.
Retratimensamente de/lado, no/acto
conceptual de/ver quantos vivos quantos
dando folhas sobre os mortos de topázio.
Mãosagora, veloz rosto, visão pura.
Esquerdo ao/lado, fogo
junto à cabeça. E mais fogo à/direita por/detrás
da mão estreita pegando no ar
como num livro. Julgo ser eu.
Eu às/portas do sono, e não
se sabe se venho do sono, oh nem se
me empolgo numa ilusão
sombria. Eu oh nem se
me entro para um sonho extenuante.
Sono empurrado de inspiração
terrena.
Retratobliquamente livre e martelado
em sua leveza.
Com algum espinho meio/visível perto
da cabeça. Como se a cabeça
fosse uma rosa venenosa, ou coisa
inclinada e dolorosa. Para ser defendida
ou ferida no/acto
da exaltação. Retrato frio. Num grau
de ausência, num degrau de alucinação.
Frio nas fronteiras do concreto, e ardente
perto perto.
Por/cima, nuvens de cinza revoltada.
Em/baixo, fruta aberta.
Fundos de paisagem veemente e incompleta.
Imaginativa, a roupa; e as pregas, precipitadas.
Que cheiraria a suor um/pouco,
e a tabaco. Por/cima
do colarinho vago o caloroso
sorriso de ironia é quasexacto. Boquimpura contínua — mente/regenerada
pelo amor e, pelo amor, tornada
soturna e abrupta.
Morte ao/meio como alta
alta desarmonia. Que os poderes oh confundia.
Ou talvez toda a força se movimente
para o centro do retrato.
E a morte se urda do próprio modo como
a carne alimenta o silêncio compacto
no/meio do retrato.
Talvez este ser se abisme em seu núcleo
central. E toda a figura se levante, na arquitectura
da cadeira, por virtude desse nó
ou núcleo trágico. Assim como uma pura
concepção em/torno de um delírio
vingativo e transacto.
Qualquer coisa no retrato ressalta
do espírito de um homem que foi assassinado.
Há um punhal implícito.
Sangue desdobrado.
A cadeira é alta e existe dentro do fogo.
O sexo suposto está masculino. O livro
entreposto à vida e à visão
é um livro feroz e ao mesmo tempo destruído
pela beleza.
Este homem não fala, porque se fez pedra extrema
fechada.
Sua idade ouve-se a si/mesma, infiltrada
até ao terror.
Não tem amor senão do amor.
E um homem devastado pelo pensamento da alegria.
Deus vive nele um tempo obscuro
de esquecimento. Este homem mora
nas coisas miúdas transpostas,
comparadas, alvitradas, justapostas.
Vive em/arco.
Pensa em/espírito de fogueira.
Tem toda a mão queimada até ao silêncio
atroz. Rodearam-lhe a voz.
Contudo, seu ser é destinado à alegria verdadeira.
Se adormecesse, deveria ser acordado.
Ou deveria recostar-se na cadeira, ca — ir
em sua/própria fantasia
calma. Não há nele vida celeste,
nem malícia de alma.
Há uma assimetria insondável, um destino ou
desatino casto e demorado.
Por isso é que está de/lado.
Existe, ao/centro, uma força assombrosa.
Nele tudo ousa.
Vai morrer imensamente (ass)assinado.
1961-62.
1 085
Paulo Henriques Britto
V
Dentro da noite que construo aos poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
693
Herberto Helder
Três Canções do Epiro - Canção da Laranja Vermelha
Disseram-me que estás doente, laranja vermelha.
Estás doente da garganta, e eu estou mal da cabeça.
— Sobre as lajes em volta da igreja,
estavam sentadas três raparigas
atando os cabelos com fitas verdes.
Três túmulos se abriram e deles saíram
três belos rapazes.
Ó coração doloroso, consola-te a ti mesmo —
dores iguais a essas já o mundo viu muitas.
Coração doloroso que não estás só no mundo.
Estás doente da garganta, e eu estou mal da cabeça.
— Sobre as lajes em volta da igreja,
estavam sentadas três raparigas
atando os cabelos com fitas verdes.
Três túmulos se abriram e deles saíram
três belos rapazes.
Ó coração doloroso, consola-te a ti mesmo —
dores iguais a essas já o mundo viu muitas.
Coração doloroso que não estás só no mundo.
1 101
Charles Bukowski
Um Lugar Pra Relaxar
ser um jovem tolo e pobre e feio
não dá um aspecto muito bom às paredes.
tantos fins de tarde, examinando as paredes
sem nada pra beber
nada pra fumar
nada pra comer
(nós bebíamos meus contracheques depressa).
ela sempre sabia o momento de ir embora.
ela me fez passar por sua faculdade –
ela me deu meu mestrado e meu doutorado,
e ela sempre voltava,
ela queria um lugar pra relaxar
um lugar pra pendurar suas roupas.
ela afirmava que eu era muito engraçado,
que eu a fazia rir
mas eu não estava tentando ser
engraçado.
ela tinha pernas lindas e era
inteligente mas simplesmente não se importava,
e toda a minha fúria e todo o meu humor e
toda a minha loucura eram mero entretenimento
para ela: eu estava atuando pra ela
como uma espécie de marionete numa espécie de inferno de mim mesmo.
algumas vezes quando ela ia embora eu tinha suficiente
vinho barato e suficientes cigarros
para ouvir o rádio e olhar as
paredes e ficar bêbado em grau suficiente para escapar
dela.
mas ela sempre voltava para me testar
mais uma vez.
eu me lembro dela em especial.
outras mulheres melhores fizeram com que eu me sentisse tão
mal
quanto naqueles fins de tarde
dando aquela caminhada de três quilômetros do trabalho para casa
dobrando no beco
olhando a janela no alto
e encontrando a cortina fechada.
ela me ensinou a agonia dos amaldiçoados
e dos inúteis.
todo mundo quer tempo bom, sorte boa, sonhos
bons.
para mim era um palpite arriscado numa pista comprida,
fazia frio e a impossível aposta não deu
em nada.
eu a enterrei cinco anos depois de a ter conhecido,
raramente a tendo visto nos últimos três.
só havia quatro pessoas diante da sepultura:
o padre
a senhoria dela
o filho dela e eu.
isso não importava:
todas aquelas caminhadas pelo beco
na esperança de uma luz por trás da cortina.
todas aquelas dúzias de homens que a tinham fodido
não estavam lá
e um dos homens que a tinham amado
estava: “Meu louco garoto do almoxarifado da
loja de departamentos”, ela me chamava.
não dá um aspecto muito bom às paredes.
tantos fins de tarde, examinando as paredes
sem nada pra beber
nada pra fumar
nada pra comer
(nós bebíamos meus contracheques depressa).
ela sempre sabia o momento de ir embora.
ela me fez passar por sua faculdade –
ela me deu meu mestrado e meu doutorado,
e ela sempre voltava,
ela queria um lugar pra relaxar
um lugar pra pendurar suas roupas.
ela afirmava que eu era muito engraçado,
que eu a fazia rir
mas eu não estava tentando ser
engraçado.
ela tinha pernas lindas e era
inteligente mas simplesmente não se importava,
e toda a minha fúria e todo o meu humor e
toda a minha loucura eram mero entretenimento
para ela: eu estava atuando pra ela
como uma espécie de marionete numa espécie de inferno de mim mesmo.
algumas vezes quando ela ia embora eu tinha suficiente
vinho barato e suficientes cigarros
para ouvir o rádio e olhar as
paredes e ficar bêbado em grau suficiente para escapar
dela.
mas ela sempre voltava para me testar
mais uma vez.
eu me lembro dela em especial.
outras mulheres melhores fizeram com que eu me sentisse tão
mal
quanto naqueles fins de tarde
dando aquela caminhada de três quilômetros do trabalho para casa
dobrando no beco
olhando a janela no alto
e encontrando a cortina fechada.
ela me ensinou a agonia dos amaldiçoados
e dos inúteis.
todo mundo quer tempo bom, sorte boa, sonhos
bons.
para mim era um palpite arriscado numa pista comprida,
fazia frio e a impossível aposta não deu
em nada.
eu a enterrei cinco anos depois de a ter conhecido,
raramente a tendo visto nos últimos três.
só havia quatro pessoas diante da sepultura:
o padre
a senhoria dela
o filho dela e eu.
isso não importava:
todas aquelas caminhadas pelo beco
na esperança de uma luz por trás da cortina.
todas aquelas dúzias de homens que a tinham fodido
não estavam lá
e um dos homens que a tinham amado
estava: “Meu louco garoto do almoxarifado da
loja de departamentos”, ela me chamava.
614
Emílio Burlamaqui
Ninguém
Saio à rua, ninguém fala comigo.
Entretanto, descuidado, não falo com ninguém.
Volto à casa, ninguém deixou recado.
Porém já é tarde, durmo, esqueço,
E não telefono para ninguém.
No cais, o lenço de ninguém se agita
Enquanto entre nós a distância se faz.
E eu, estranhamente, fico olhando o mar,
Sem atinar, sem acenar,
Sem adeus.
O trem chega, a distância se desfaz.
E, no meio de uma multidão indistinta
Que não me diz mais nada,
Distingo ninguém tentando me dizer alguma coisa.
Apesar disso, passo apressado sem escutar
Aquilo que ninguém queria me contar.
Por que será então que,
Mesmo eu não correspondendo a tanta fidelidade
E a tão exato desvelo,
A presença de ninguém persiste assim
Tão intensa e tão densa
Junto a mim?
Será que, qual ave preta
E tal como noutra história,
Ninguém se afastará de mim
Nunca mais?
Entretanto, descuidado, não falo com ninguém.
Volto à casa, ninguém deixou recado.
Porém já é tarde, durmo, esqueço,
E não telefono para ninguém.
No cais, o lenço de ninguém se agita
Enquanto entre nós a distância se faz.
E eu, estranhamente, fico olhando o mar,
Sem atinar, sem acenar,
Sem adeus.
O trem chega, a distância se desfaz.
E, no meio de uma multidão indistinta
Que não me diz mais nada,
Distingo ninguém tentando me dizer alguma coisa.
Apesar disso, passo apressado sem escutar
Aquilo que ninguém queria me contar.
Por que será então que,
Mesmo eu não correspondendo a tanta fidelidade
E a tão exato desvelo,
A presença de ninguém persiste assim
Tão intensa e tão densa
Junto a mim?
Será que, qual ave preta
E tal como noutra história,
Ninguém se afastará de mim
Nunca mais?
845
Reynaldo Jardim
Receituário
De que fel preparava
as porções que servia?
O papel que rasgava
era eu que escrevia?
De que erva era o chá
que o bule fervia?
De que águas o mar
que cortava de fria?
De que sal o tempero
que azedava o meu dia?
De que fogo o luar
que furioso latia?
De que medos a tarde
mastigava e mordia?
De que arte marcial
o furor apreendia?
De que livro infernal
as lições consumia?
De que bem, de que mal
se chorava, se ria?
De que torvo quintal
suas flores colhia?
as porções que servia?
O papel que rasgava
era eu que escrevia?
De que erva era o chá
que o bule fervia?
De que águas o mar
que cortava de fria?
De que sal o tempero
que azedava o meu dia?
De que fogo o luar
que furioso latia?
De que medos a tarde
mastigava e mordia?
De que arte marcial
o furor apreendia?
De que livro infernal
as lições consumia?
De que bem, de que mal
se chorava, se ria?
De que torvo quintal
suas flores colhia?
703
Edmir Domingues
Poema para Velhos
onde se fala da emoção imperdoável — e vergonhosa
— das lembranças do País chamado Infância.
Nas comarcas de Infância havia vida.
O que fiz dessa vida? Que sei eu?
Onde estão os anseios desse tempo?
Pois havia, no então, as borboletas
de asas azuis, que agora já não vejo,
as quais eu perseguia, sob as sombras
das bananeiras e dos laranjais.
Que fazer, neste instante, para vê-las
em viagem de volta aos tempos idos?
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Cantava o sabiá sobre as palmeiras
que os ventos marinheiros balançavam
como as brisas beijavam as bandeiras.
Como tornar atrás, sem instrumentos,
sem mapas nem roteiros, destruídos
no fragor dos combates os sextantes?
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Os perfumes de Infância, nos cabelos
da bem-amada, onde estarão nesta hora?
As pipas coloridas, os campinhos
de várzea, num País de Juventude?
Tudo isso acabou. Toda a pureza
morreu, estraçalhada pelas Máquinas.
As crianças de agora se realizam
na frieza dos seus computadores,
curtindo os seus Heróis da Violência,
com sangue, sangue. E cada vez mais sangue.
Não pisaram, jamais, terras de Infância.
já não creem no Lobo, na Avozinha
do Chapeuzinho, a Casa da Floresta
construída de puro chocolate.
Papai Noel existe, com certeza,
para aqueles que sempre creram nele.
A Pequena Sereia, Os Três Porquinhos,
sandálias de cristal da Cinderela,
e João, Maria, os Ovos de Ouro, tudo,
mesmo o Patinho Feio que era um cisne,
já não são coisas da imaginação.
São tevês, são cinema, sem o apelo
das histórias de Infância.
(Capineiro
do meu Pai, por que me cortas o cabelo?
Minha mãe me penteou, minha Madrasta me enterrou,
pelo figo da figueira que o pássaro picou... )
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Como as, outras histórias, sob a Lua
e sob os copiares, Lobisomens
e Mulas sem Cabeça, e Curupiras
com seus pés para trás, como antevendo
o para trás que cresce em tudo, agora.
E Anhangá, e a Alamoa, e o Negrinho
do Pastoreio entregue ao formigueiro.
Tudo morreu, nas garras do Progresso,
que é um bem, que é um mal inevitável.
A leitura está morta. Os livros todos
deverão ser lançados às fogueiras.
— Menos os bestasséleres que vendem
como vende o pão-quente em padaria.
Resta agora a pergunta: como então
apertar mãos de Acab e de Simbad,
encontrar Aladim, seu servo, o Gênio,
escutar Sherazade, noite a noite?
Tudo acabou, e os sons da vida nova
são pios de Corujas, retalhando
as mortalhas do tempo, do meu Tempo.
Habita agora o Corvo no meu quarto.
Nunca mais voltarei a Infância, a antiga
pátria dos sonhos bons, das esperanças.
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
— das lembranças do País chamado Infância.
Nas comarcas de Infância havia vida.
O que fiz dessa vida? Que sei eu?
Onde estão os anseios desse tempo?
Pois havia, no então, as borboletas
de asas azuis, que agora já não vejo,
as quais eu perseguia, sob as sombras
das bananeiras e dos laranjais.
Que fazer, neste instante, para vê-las
em viagem de volta aos tempos idos?
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Cantava o sabiá sobre as palmeiras
que os ventos marinheiros balançavam
como as brisas beijavam as bandeiras.
Como tornar atrás, sem instrumentos,
sem mapas nem roteiros, destruídos
no fragor dos combates os sextantes?
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Os perfumes de Infância, nos cabelos
da bem-amada, onde estarão nesta hora?
As pipas coloridas, os campinhos
de várzea, num País de Juventude?
Tudo isso acabou. Toda a pureza
morreu, estraçalhada pelas Máquinas.
As crianças de agora se realizam
na frieza dos seus computadores,
curtindo os seus Heróis da Violência,
com sangue, sangue. E cada vez mais sangue.
Não pisaram, jamais, terras de Infância.
já não creem no Lobo, na Avozinha
do Chapeuzinho, a Casa da Floresta
construída de puro chocolate.
Papai Noel existe, com certeza,
para aqueles que sempre creram nele.
A Pequena Sereia, Os Três Porquinhos,
sandálias de cristal da Cinderela,
e João, Maria, os Ovos de Ouro, tudo,
mesmo o Patinho Feio que era um cisne,
já não são coisas da imaginação.
São tevês, são cinema, sem o apelo
das histórias de Infância.
(Capineiro
do meu Pai, por que me cortas o cabelo?
Minha mãe me penteou, minha Madrasta me enterrou,
pelo figo da figueira que o pássaro picou... )
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
Como as, outras histórias, sob a Lua
e sob os copiares, Lobisomens
e Mulas sem Cabeça, e Curupiras
com seus pés para trás, como antevendo
o para trás que cresce em tudo, agora.
E Anhangá, e a Alamoa, e o Negrinho
do Pastoreio entregue ao formigueiro.
Tudo morreu, nas garras do Progresso,
que é um bem, que é um mal inevitável.
A leitura está morta. Os livros todos
deverão ser lançados às fogueiras.
— Menos os bestasséleres que vendem
como vende o pão-quente em padaria.
Resta agora a pergunta: como então
apertar mãos de Acab e de Simbad,
encontrar Aladim, seu servo, o Gênio,
escutar Sherazade, noite a noite?
Tudo acabou, e os sons da vida nova
são pios de Corujas, retalhando
as mortalhas do tempo, do meu Tempo.
Habita agora o Corvo no meu quarto.
Nunca mais voltarei a Infância, a antiga
pátria dos sonhos bons, das esperanças.
É muito tarde, Amor, é muito tarde.
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