Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Herberto Helder

Herberto Helder

Teoria Sentada - Vi

É a colina na colina, colina
das colinas frias.
Colina devagar por ela acima, brotando
sobre a raiz da colina. Oh fria raiz deitada
na pedra sinistra fria da raiz
da colina. Na húmida
treva pedra vazia, na alegria
abstracta dos fogos, das águas oh sombrias.
Colina profunda, colina de
colina muda. Mexendo nos fogos,
nas águas extremas vazias, nas massas
nocturnas unas — respirando.
Batendo os leves pêlos nas gotas frias
das águas,
e as pesadas estrelas nas veias sombrias.
Colina acocorada na raiz ríspida
da colina, feroz por ela abaixo, ladeada
pelas paredes direitas da melancolia. É
a colina na colina. Depois para cima, colina
das colinas amargas estremes.
De alegria para cima, na audácia das brutas
assimetrias. Colina de pé
sobre as visões, as culpas,
os crimes — batendo os pés unidos na boca
aberta das mães sinistras e vazias. Colina
na colina nas colinas das ilusões
quentes, duras, puras, sombrias. Colina
em baixo e para cima.
É a colina em cima com árvores redondas,
vivas, rápidas e oh frias.
Arvorezinhas da colina, vazias.
##RETRATÍSSIMO OU NARRAÇÃO DE UM HOMEM DEPOIS DE MAIO
Retratoblíquo sentado.
Retratimensamente de/lado, no/acto
conceptual de/ver quantos vivos quantos
dando folhas sobre os mortos de topázio.
Mãosagora, veloz rosto, visão pura.
Esquerdo ao/lado, fogo
junto à cabeça. E mais fogo à/direita por/detrás
da mão estreita pegando no ar
como num livro. Julgo ser eu.
Eu às/portas do sono, e não
se sabe se venho do sono, oh nem se
me empolgo numa ilusão
sombria. Eu oh nem se
me entro para um sonho extenuante.
Sono empurrado de inspiração
terrena.

Retratobliquamente livre e martelado
em sua leveza.
Com algum espinho meio/visível perto
da cabeça. Como se a cabeça
fosse uma rosa venenosa, ou coisa
inclinada e dolorosa. Para ser defendida
ou ferida no/acto
da exaltação. Retrato frio. Num grau
de ausência, num degrau de alucinação.
Frio nas fronteiras do concreto, e ardente
perto perto.
Por/cima, nuvens de cinza revoltada.
Em/baixo, fruta aberta.
Fundos de paisagem veemente e incompleta.

Imaginativa, a roupa; e as pregas, precipitadas.
Que cheiraria a suor um/pouco,
e a tabaco. Por/cima
do colarinho vago o caloroso
sorriso de ironia é quasexacto. Boquimpura contínua — mente/regenerada
pelo amor e, pelo amor, tornada
soturna e abrupta.
Morte ao/meio como alta
alta desarmonia. Que os poderes oh confundia.

Ou talvez toda a força se movimente
para o centro do retrato.
E a morte se urda do próprio modo como
a carne alimenta o silêncio compacto
no/meio do retrato.
Talvez este ser se abisme em seu núcleo
central. E toda a figura se levante, na arquitectura
da cadeira, por virtude desse nó
ou núcleo trágico. Assim como uma pura
concepção em/torno de um delírio
vingativo e transacto.

Qualquer coisa no retrato ressalta
do espírito de um homem que foi assassinado.
Há um punhal implícito.
Sangue desdobrado.
A cadeira é alta e existe dentro do fogo.
O sexo suposto está masculino. O livro
entreposto à vida e à visão
é um livro feroz e ao mesmo tempo destruído
pela beleza.
Este homem não fala, porque se fez pedra extrema
fechada.
Sua idade ouve-se a si/mesma, infiltrada
até ao terror.

Não tem amor senão do amor.
E um homem devastado pelo pensamento da alegria.
Deus vive nele um tempo obscuro
de esquecimento. Este homem mora
nas coisas miúdas transpostas,
comparadas, alvitradas, justapostas.
Vive em/arco.
Pensa em/espírito de fogueira.
Tem toda a mão queimada até ao silêncio
atroz. Rodearam-lhe a voz.
Contudo, seu ser é destinado à alegria verdadeira.

Se adormecesse, deveria ser acordado.
Ou deveria recostar-se na cadeira, ca — ir
em sua/própria fantasia
calma. Não há nele vida celeste,
nem malícia de alma.
Há uma assimetria insondável, um destino ou
desatino casto e demorado.
Por isso é que está de/lado.
Existe, ao/centro, uma força assombrosa.
Nele tudo ousa.

Vai morrer imensamente (ass)assinado.
1961-62.
1 085
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

V

Dentro da noite que construo aos poucos
para meu próprio uso, tudo é sombra
em que repouse a vista, salvo a lua
eventual, que me ilumine o espaço
que falta eliminar e meça o tempo
em que me esqueço a contemplar o tédio
que descasco e rejeito, em que dispenso
a luz do dia, excesso que não quero
ou não mereço, luxo que desprezo
sem sombra de arrependimento ou luto.
Aqui onde me resto tudo é meu
e mudo, e a noite me cai muito leve
sobre os ombros frios, como um manto, ou como
um outro pano mais definitivo.
693
Herberto Helder

Herberto Helder

Três Canções do Epiro - Canção da Laranja Vermelha

Disseram-me que estás doente, laranja vermelha.
Estás doente da garganta, e eu estou mal da cabeça.
— Sobre as lajes em volta da igreja,
estavam sentadas três raparigas
atando os cabelos com fitas verdes.
Três túmulos se abriram e deles saíram
três belos rapazes.
Ó coração doloroso, consola-te a ti mesmo —
dores iguais a essas já o mundo viu muitas.
Coração doloroso que não estás só no mundo.
1 101
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Lugar Pra Relaxar

ser um jovem tolo e pobre e feio
não dá um aspecto muito bom às paredes.
tantos fins de tarde, examinando as paredes
sem nada pra beber
nada pra fumar
nada pra comer
(nós bebíamos meus contracheques depressa).
ela sempre sabia o momento de ir embora.
ela me fez passar por sua faculdade –
ela me deu meu mestrado e meu doutorado,
e ela sempre voltava,
ela queria um lugar pra relaxar
um lugar pra pendurar suas roupas.
ela afirmava que eu era muito engraçado,
que eu a fazia rir
mas eu não estava tentando ser
engraçado.
ela tinha pernas lindas e era
inteligente mas simplesmente não se importava,
e toda a minha fúria e todo o meu humor e
toda a minha loucura eram mero entretenimento
para ela: eu estava atuando pra ela
como uma espécie de marionete numa espécie de inferno de mim mesmo.
algumas vezes quando ela ia embora eu tinha suficiente
vinho barato e suficientes cigarros
para ouvir o rádio e olhar as
paredes e ficar bêbado em grau suficiente para escapar
dela.
mas ela sempre voltava para me testar
mais uma vez.
eu me lembro dela em especial.
outras mulheres melhores fizeram com que eu me sentisse tão
mal
quanto naqueles fins de tarde
dando aquela caminhada de três quilômetros do trabalho para casa
dobrando no beco
olhando a janela no alto
e encontrando a cortina fechada.
ela me ensinou a agonia dos amaldiçoados
e dos inúteis.
todo mundo quer tempo bom, sorte boa, sonhos
bons.
para mim era um palpite arriscado numa pista comprida,
fazia frio e a impossível aposta não deu
em nada.
eu a enterrei cinco anos depois de a ter conhecido,
raramente a tendo visto nos últimos três.
só havia quatro pessoas diante da sepultura:
o padre
a senhoria dela
o filho dela e eu.
isso não importava:
todas aquelas caminhadas pelo beco
na esperança de uma luz por trás da cortina.
todas aquelas dúzias de homens que a tinham fodido
não estavam lá
e um dos homens que a tinham amado
estava: “Meu louco garoto do almoxarifado da
loja de departamentos”, ela me chamava.
614
Emílio Burlamaqui

Emílio Burlamaqui

Ninguém

Saio à rua, ninguém fala comigo.
Entretanto, descuidado, não falo com ninguém.
Volto à casa, ninguém deixou recado.
Porém já é tarde, durmo, esqueço,
E não telefono para ninguém.

No cais, o lenço de ninguém se agita
Enquanto entre nós a distância se faz.
E eu, estranhamente, fico olhando o mar,
Sem atinar, sem acenar,
Sem adeus.

O trem chega, a distância se desfaz.
E, no meio de uma multidão indistinta
Que não me diz mais nada,
Distingo ninguém tentando me dizer alguma coisa.
Apesar disso, passo apressado sem escutar
Aquilo que ninguém queria me contar.

Por que será então que,
Mesmo eu não correspondendo a tanta fidelidade
E a tão exato desvelo,
A presença de ninguém persiste assim
Tão intensa e tão densa
Junto a mim?

Será que, qual ave preta
E tal como noutra história,
Ninguém se afastará de mim
Nunca mais?

845
Reynaldo Jardim

Reynaldo Jardim

Receituário

De que fel preparava
as porções que servia?
O papel que rasgava
era eu que escrevia?
De que erva era o chá
que o bule fervia?
De que águas o mar
que cortava de fria?
De que sal o tempero
que azedava o meu dia?
De que fogo o luar
que furioso latia?
De que medos a tarde
mastigava e mordia?
De que arte marcial
o furor apreendia?
De que livro infernal
as lições consumia?
De que bem, de que mal
se chorava, se ria?
De que torvo quintal
suas flores colhia?
703
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Poema para Velhos

onde se fala da emoção imperdoável — e vergonhosa
— das lembranças do País chamado Infância.
Nas comarcas de Infância havia vida.
O que fiz dessa vida? Que sei eu?
Onde estão os anseios desse tempo?
Pois havia, no então, as borboletas
de asas azuis, que agora já não vejo,
as quais eu perseguia, sob as sombras
das bananeiras e dos laranjais.
Que fazer, neste instante, para vê-las
em viagem de volta aos tempos idos?

É muito tarde, Amor, é muito tarde.

Cantava o sabiá sobre as palmeiras
que os ventos marinheiros balançavam
como as brisas beijavam as bandeiras.
Como tornar atrás, sem instrumentos,
sem mapas nem roteiros, destruídos
no fragor dos combates os sextantes?

É muito tarde, Amor, é muito tarde.

Os perfumes de Infância, nos cabelos
da bem-amada, onde estarão nesta hora?
As pipas coloridas, os campinhos
de várzea, num País de Juventude?
Tudo isso acabou. Toda a pureza
morreu, estraçalhada pelas Máquinas.
As crianças de agora se realizam
na frieza dos seus computadores,
curtindo os seus Heróis da Violência,
com sangue, sangue. E cada vez mais sangue.

Não pisaram, jamais, terras de Infância.

já não creem no Lobo, na Avozinha
do Chapeuzinho, a Casa da Floresta
construída de puro chocolate.

Papai Noel existe, com certeza,
para aqueles que sempre creram nele.

A Pequena Sereia, Os Três Porquinhos,
sandálias de cristal da Cinderela,
e João, Maria, os Ovos de Ouro, tudo,
mesmo o Patinho Feio que era um cisne,
já não são coisas da imaginação.
São tevês, são cinema, sem o apelo
das histórias de Infância.

(Capineiro
do meu Pai, por que me cortas o cabelo?
Minha mãe me penteou, minha Madrasta me enterrou,
pelo figo da figueira que o pássaro picou... )

É muito tarde, Amor, é muito tarde.

Como as, outras histórias, sob a Lua
e sob os copiares, Lobisomens
e Mulas sem Cabeça, e Curupiras
com seus pés para trás, como antevendo
o para trás que cresce em tudo, agora.
E Anhangá, e a Alamoa, e o Negrinho
do Pastoreio entregue ao formigueiro.
Tudo morreu, nas garras do Progresso,
que é um bem, que é um mal inevitável.

A leitura está morta. Os livros todos
deverão ser lançados às fogueiras.
— Menos os bestasséleres que vendem
como vende o pão-quente em padaria.

Resta agora a pergunta: como então
apertar mãos de Acab e de Simbad,
encontrar Aladim, seu servo, o Gênio,
escutar Sherazade, noite a noite?

Tudo acabou, e os sons da vida nova
são pios de Corujas, retalhando
as mortalhas do tempo, do meu Tempo.
Habita agora o Corvo no meu quarto.
Nunca mais voltarei a Infância, a antiga
pátria dos sonhos bons, das esperanças.

É muito tarde, Amor, é muito tarde.
1 443
Edmundo de Bettencourt

Edmundo de Bettencourt

Ondulação

O luar ondula
fluindo e refluindo
para não acabar a maré cheia
nesta praia onde
ponderável eu me encontro indo
— o pensamento em rumos ignorados
e ao sabor dos presságios. . .

Em breve, à minha volta no areal,
esperanças, de branco, vaporosas,
chorando alto naufrágios
à vista da magia de seus mundos,
com suas lágrimas,
quais enxadas na terra, poderosas,
cavarão sulcos fundos.

E elas ali se hão de enterrar
quando o luar fugir...
Mas com elas enterrarei os meus insultos
à minha nobre angústia de vibrar,
à minha vã desgraça de sentir!

1 059
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Arabico-Andaluzes - Bolhas

Troca-me a prata peio oiro do vinho — digo eu ao copeiro. — Dá-me vinho
novo.

Vinho para a minha dor. E logo ao cimo sobrenadam, como espuma, as
bolhas:

brancos dedos de um bebedor petrificado, na mão retendo eternamente a sua
taça.
976
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

Misturam-se ao rumor do mar

Misturam-se ao rumor do mar,

mas são e serão sempre o que são:
ecos de tentativas de conversa

               em línguas estranhas entre elas,

dentro dos tumbeiros, a caminho
de novos sucessivos desastres.

                Como ouvi-las sem tentar inter-

pretá-las, dada a total impossibi-
lidade de ignorar suas cadências,

                suas inflexões, o granulado dos

seus timbres, seu quê de coisa e de
água fluindo em meio a água e mais

                água e um nunca se acabar de água?
693
Edmundo de Bettencourt

Edmundo de Bettencourt

Sugestão

Entro na igreja majestosa e calma,
erro na sombra sob as arcarias.
Anda no ar silêncio, e a minha alma
toma a frieza das colunas frias...

Numa capela triste aonde espalma,
dourado lustre, chamas fugidias,
tocam-me o peito as sete duma palma,
a evocar-me de Cristo as agonias.

Começa o som do órgão, morno, errante,
o aroma do incenso penetrante
como as garras aduncas do tormento.

E já o desejo acre de esquecer,
ao longe o mundo eu só escutar e ver,
coração me nasce brando e lento. . .

1 080
José Saramago

José Saramago

Jogo do Lenço

Trago no bolso do peito
Um lenço de seda fina,
Dobrado de certo jeito.
Não sei quem tanto lhe ensina
Que quanto faz é bem feito.

Acena nas despedidas,
Quando a voz já lá não chega
Por distâncias desmedidas.
Depois, no bolso aconchega
As saudades permitidas.

Também o suor salgado,
Às vezes, enxugo a medo,
Que o lenço é mal empregado.
E quando me feri um dedo,
Com ele o trouxe ligado.

Nunca mais chegava ao fim
Se as graças todas dissesse
Deste meu lenço e de mim,
Mas uma coisa acontece
De que não sei porque sim:

Quando os meus olhos molhados
Pedem auxílio do lenço,
São pedidos escusados.
E é bem por isso que penso
Que os meus olhos, se molhados,
Só se enxugam no teu lenço.
1 298
Herberto Helder

Herberto Helder

Canções de Camponeses do Japão - Arrozal de Madrugada

Às quatro da manhã, arranco
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
1 198
José Saramago

José Saramago

Soneto Atrasado

De Marília os sinais aqui ficaram,
Que tudo são sinais de ter passado:
Se de flores vejo o chão atapetado,
Foi que do chão seus pés as levantaram.

Do riso de Marília se formaram
Os cantos que escuto deleitado,
E as águas correntes neste prado
Dos olhos de Marília é que brotaram.

O seu rasto seguindo, vou andando,
Ora sentindo dor, ora alegria,
Entre uma e outra a vida partilhando:

Mas quando o sol se esconde, a noite fria
Sobre mim desce, e logo, miserando,
Após Marília corro, após o dia.
1 362
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Todo o Meu Amor É Dedicado a Ela (Para A.M.)

astutamente armado com argumentos para o papa
abro meu caminho em meio às pessoas não elétricas
buscando razões para minha morte e meu viver;
é um dia encantador para aqueles que gostam dos dias –
para aqueles que aguardam a noite
como eu, aí o dia é uma merda e a merda é para
os esgotos,
e eu abro a porta de um minúsculo café
e uma garçonete vestindo azul-escuro
se aproxima como se o meu pedido fosse ela.
“3 pernas de faisão”, eu lhe digo,
“as costas de um frango e 2 garrafas de razoável vinho
francês.”
ela sai
contorcendo-se em seu azul
e todo o meu amor é dedicado a ela
mas não há jeito,
e fico sentado encarando as plantas
e falo às plantas, com minha mente:
não dá pra vocês me amarem?
não dá pra algo acontecer aqui?
precisam as calçadas ser sempre calçadas, precisam os generais
continuar rindo em seus sonhos,
precisa sempre continuar sendo
que nada é verdade?
eu olho à minha esquerda e vejo um homem enfiando o dedo no nariz;
ele esfrega o resíduo embaixo de uma
cadeira; é bem verdade, eu penso, eis a sua
verdade, e eis o seu amor:
ranho endurecendo embaixo de uma cadeira durante
noites quentes quando o inferno chega e simplesmente
cospe em cima de
você todo.
plantas, repito, vocês não podem?
e eu quebro parte de uma folha de alocásia
e o teto todo se racha e abre
o céu é uma escadaria para baixo,
a garçonete se aproxima e fala:
“isso é tudo, senhor?”
e eu falo “sim, obrigado, isso
basta”.
953
Herberto Helder

Herberto Helder

Canção Tártara

O rosto da minha amada cobriu-se de sangue.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.

Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.

Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.

Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
1 249
Eliane Pantoja Vaidya

Eliane Pantoja Vaidya

Conta Akutagawa

Conta Akutagawa
que Bashô
o notável mestre
do hai-kai
estava morrendo.
Em seu quarto
reunidos
os mais queridos discípulos.
O silêncio estava presente
nem lua havia
e se distinguiam soluços e suspiros.
O maior poeta daquela Terra
agora morria
cercado de seus amigos.
Ah Quimera, ilusão graciosa
os que choravam o faziam
cada um por si
nenhum por ele.
Bashô olhou em torno
o coração árido
daqueles que o cercavam
— Terra morta —
Só os rostos eram quentes
e as lágrimas naturais.

807
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Dos Peles-Vermelhas - Pintura Na Areia

Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.

Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
1 261
Manoel Elias Filho

Manoel Elias Filho

Restos

Do amor intensoNa calada da noiteDo fogo do sexoSobraram restosVestígios, marcas.Do encontroSobrou a fuga.Da sociedadeRestou a insegurançaDo ser humanoRestou pedaçosTrapos de um serDivisão, confusão.Que da verdadeRestou a mentira.Que da razãoRestou a loucura.E da realidadeRestou a fantasiaPedaços de mimRestos de vocêSobras de todosRestos do mundo.

922
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Para Aquelas 3

enlouquecendo
sentado de bobeira ouvindo valsas
de Chopin, tendo dormido com 3 mulheres diferentes
em 3 diferentes estados
em duas semanas, o ritmo tem sido
difícil, sentado em bares de aeroporto
de mãos dadas com lindas mulheres
que leram Tolstói, Turguêniev e
Bukowski.
espantoso quão completamente uma mulher pode dar seu
amor – quando quer
fazer isso.
agora as mulheres estão longínquas
e fico aqui sentado de pés descalços
barba por fazer, bebendo cerveja e
ouvindo essas valsas
de Chopin, e
pensando em cada uma das mulheres
e me pergunto se elas pensam em mim
ou será que eu sou só um livro de poemas
perdido no meio de outros livros de poemas?
perdido no meio de Turguêniev e Tolstói.
não importa. elas deram o bastante.
quando tocarem meu livro agora
vão reconhecer os contornos do meu corpo
vão reconhecer minha risada e meu amor e
minha tristeza.
meus agradecimentos.
1 013
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Definição

o amor não passa de farol aceso à
noite cortando a névoa
o amor não passa de uma tampinha de cerveja
na qual você pisa a caminho
do banheiro
o amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado
o amor é o que acontece um dia por
ano
um ano a cada dez
o amor são os gatos esmagados
do universo
o amor é um jornaleiro na
esquina que
desistiu
o amor são as primeiras 3 filas de
potenciais matadores no
Olympic Auditorium
o amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
o amor é o que desapareceu com a
era dos encouraçados de batalha
o amor é o telefone tocando
e a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa
o amor é traição
o amor é o bebum
sendo queimado no beco
o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio
o amor é chuva batendo no telhado
do hotel mais barato
de Los Angeles
o amor é o seu pai que
detestava você dentro de um caixão
o amor é um cavalo com a
perna quebrada
tentando ficar de pé
enquanto 55.000 pessoas
observam
o amor é o nosso jeito de ferver
como a lagosta
o amor é um cigarro de filtro
preso na sua boca e
aceso pela ponta errada
o amor é tudo que dissemos
que não era
o amor é o Corcunda de
Notre Dame
o amor é a pulga que você não consegue
encontrar
o amor é o mosquito
o amor são 50 granadeiros
o amor é o mais vazio dos
urinóis
o amor é uma rebelião em Quentin
o amor é um manicômio lotado
o amor é um burro cagando numa
rua de moscas
o amor é um banco de bar quando
ninguém está sentado nele
o amor é um filme do Hindenburg
se desmanchando em pedaços
em tempos que ainda gritam
o amor é Dostoiévski na
roleta
o amor é o que rasteja
pelo chão
o amor é a sua mulher dançando
apertada nos braços de um estranho
o amor é uma mulher velha
beliscando um naco de pão
o amor é uma palavra usada
constantemente
muitíssimo constantemente
o amor são telhados vermelhos e telhados
verdes e telhados azuis
e voar em aviões a jato
isso é tudo.
1 734
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Anjos Sem Asas Meus Anjos Pesados

De boca sem voz
As fadas que disseram os maus fados
Falavam de vós

De mãos dadas em círculos dançantes
Infinita valsa
Todos brilhavam como diamantes
Madrugada falsa

E eu chorando e cantando fui levada
Pálida e morta
Até à taciturna encruzilhada
Duma estrada torta
1940
1 207
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Cometi Um Erro

me estiquei até o alto do armário
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.
ela foi embora depois disso e não a vi
desde então. não está na casa dela.
continuo indo lá, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lá e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.
sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.
dirijo pelas ruas
a um centímetro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.
1 076
José Saramago

José Saramago

Dia Não

De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens simuladas
Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco seja rude
Como pedras calcinadas
Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
Que não finja mascaradas
De vergonha se recolha
Se as faces sentir molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas
E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas

Ah que saudades do sim
Nestas rimas desoladas
1 509