Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Luci Collin

Luci Collin

declaração

que disparate tentar falar de amor
num poema______neste poema

não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta

sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade

sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci
671
Pedro Nava

Pedro Nava

Ventania

Pro Mário


O vento veio maluco lá do alto do Bonfim
e veio chorando da tristura do cemitério.

Zuniu na praça do mercado
assuviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,

O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.

O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo..

Co-nhe-ceu papudo?

1926


In: REVISTA VERDE, Cataguases, ano 1, n.3, p.23, nov. 1927

NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 19 mar. 1926: "Essa poesia me entusiasmou de verdade. Acho linda e das milhores coisas que você tem me mandado. Além da boniteza real da poesia acho que você está empregando com um talento firme o abrasileiramento da sua expressão. Discordo de certos processos, principalmente 'O obelisco cortou ele pelo meio'. Acho que você deve matutar mais sobre isso
1 870
José Armelim

José Armelim

A Vida é Esta

A vida abana, sacode
É um leque
A vida é esta
Queima, pica
É piri-[iri
Fogo a arder.
A vida é esta
Cifrão prá frente
Cifrão pra trás
Tudo a contar,
Descontar, conter.
A vida é esta
Um berlinde
Gira, rola,
Salta, desliza
Um ping-pong
Bate, resvala
A vida é esta.
Um elástico
Puxa, estica
Torce, dobra
A vida é esta.
Uma dança
Baila, rebola
Ginga, contorna
A vida é esta.
Um jogo
Disputa, goleia
Ganha, perde
A vida é esta.
Uma ferida
Amola, remói
Dói, dói, dói-dói...
E é assim a vida
Enfim, uma grande dor.

889
Herberto Helder

Herberto Helder

17

como de facto dia a dia sinto que morro muito,
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
568
Marília Garcia

Marília Garcia

em loop, a fala do soldado

vivo numa caixa preta
de 20 centímetros.
vejo o mundo por um visor,
no meio uma cruz
para mirar as coisas
prédios  estradas   objetos   cachorros.

tudo que passa pelo quadro
vira alvo, então penso em algo
linear: você já reparou que algumas imagens
se repetem? de repente,
um cisco no olho.
“eu vivo numa caixa preta”,
disse. estamos sentados
lado a lado no trem
— em silêncio — os dois de calça verde
e camisa branca.
sei que não está tudo bem,
levanto o olhar tentando alcançar
o dele e ouço apenas a voz
de frente para o alvo.
vivo numa caixa preta, diz,
e eu não sei como parar
a repetição.
704
Donizete Galvão

Donizete Galvão

Diante de Uma Fotografia

O Tietê não é o Neva.
E nada no Curtume
lembra a sua Peter.
Galpões de fábricas
estendem-se sem rigor,
sem história ou forma.
Sucessão de chaminés,
caos de telhas de zinco.
Este é o lugar da cadela esquálida,
dos trens que gemem no subúrbio,
dos peões vestidos de azul e graxa,
dormindo ao meio-dia na calçada.
Na fila do almoço, o rebanho todo
estende suas bandejas de plástico.
Há fuligem nas janelas, nos olhos,
na sola dos sapatos. Nos cérebros.
Anna, as sereias do Báltico
não cantam aqui suas cantigas.
No mar das impossibilidades,
deixaram-me uma fotografia.
Vejo você - estrangeiríssima.
A curta franja dos cabelos.
O nariz forte. O desenho da boca.
A mão pousada no pescoço
que Modigliani um dia desenhou.
E no olhar felino, cinza-claro,
pressinto paixão e dor contida.
Anna Ahkmátova,
poeta de nome inventado,
lança sobre mim o claro raio
dos teus olhos líquidos,
para que minha alma não vire pedra.
Não quero morrer de sede,
sem ouvir a voz da língua.
858
José Armelim

José Armelim

Augusta

A azáfama é enorme!
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.

952
Adélia Prado

Adélia Prado

A Face de Deus É Vespas

Queremos ser felizes.
Felizes como os flagelados da cheia,
que perderam tudo
e dizem-se uns aos outros nos alojamentos:
‘Graças a Deus, podia ser pior!’
Ó Deus, podemos gemer sem culpa?
Desde toda a vida a tristeza me acena,
o pecado contra Vosso Espírito
que é espírito de alegria e coragem.
Acho bela a vida e choro
porque a vida é triste,
incruenta paixão servida de seringas,
comprimidos minúsculos e dietas.
Eu não sei quem sou.
Sem me sentir banida experimento degredo.
Mas não recuso os marimbondos armando suas caixas
porque são alegres como posso ser,
são dádivas,
mistérios cuja resposta agora é só uma luz,
a pacífica luz das coisas instintivas.
1 007
Herberto Helder

Herberto Helder

28

a última bilha de gás durou dois meses e três dias,
com o gás dos últimos dias podia ter-me suicidado,
mas eis que se foram os três dias e estou aqui
e só tenho a dizer que não sei como arranjar dinheiro para
outra bilha,
se vendessem o gás a retalho comprava apenas o gás da morte,
e mesmo assim tinha de comprá-lo fiado,
não sei o que vai ser da minha vida,
tão cara, Deus meu, que está a morte,
porque já me não fiam nada onde comprava tudo,
mesmo coisas rápidas,
se eu fosse judeu e se com um pouco de jeito isto por
aqui acabasse nazi,
já seria mais fácil,
como diria o outro: a minha vida longa por muito pouco,
uma bilha de gás,
a minha vida quotidiana e a eternidade que já ouvi dizer que
a habita e move,
não me queixo de nada no mundo senão do preço das bilhas de gás,
ou então de já mas não venderem fiado
e a pagar um dia a conta toda por junto:
corpo e alma e bilhas de gás na eternidade
— e dizem-me que há tanto gás por esse mundo fora,
países inteiros cheios de gás por baixo!
2013.
1 198
D. Pedro II

D. Pedro II

I - À Morte do Príncipe D Pedro

Pode o artista pintar a imagem morta
Da mulher, por quem dera a própria vida.
À esposa que a ventura vê perdida
Casto e saudoso beijo inda conforta.

A imitar-lhe os exemplos nos exorta
O amigo na extrema despedida...
Mas dizer o que sente a alma partida
Do pai, a quem, oh Deus, tua espada corta.

A flor de seu futuro, o filho amado;
Quem o pode, Senhor, se mesmo o Teu
Só morrendo livrou-nos do pecado,

Se a terra à voz do Gólgota tremeu
E o sangue do Cordeiro Imaculado
Até o próprio céu enegreceu!


In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas.

NOTA: O poema se refere à morte do quarto e último filho de D. Pedro II com a Imperatriz D. Teresa Cristina Maria, em 185
1 702
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Tankas

"He querido adaptar a nuestra prosodia la estrofa
japonesa que consta de un primer verso de cinco sílabas,
de uno de siete, de uno de cinco y de dos últimos de siete.
Quién sabe cómo sonarán estos ejercicios a oídos orientales.
La forma original prescinde asimismo de rimas".

1
Alto en la cumbre
todo el jardín es luna,
luna de oro.
Más precioso es el roce
de tu boca en la sombra.

2
La voz del ave
que la penumbra esconde
ha enmudecido.
Andas por tu jardín.
Algo, lo sé, te falta.

3
La ajena copa,
la espada que fue espada
en otra mano,
la luna de la calle,
¿dime, acaso no bastan?

4
Bajo la luna
el tigre de oro y sombra
mira sus garras.
No sabe que en el alba
han destrozado un hombre.

5
Triste la lluvia
que sobre el mármol cae,
triste ser tierra.
Triste no ser los días
del hombre, el sueño, el alba.

6
No haber caído,
como otros de mi sangre,
en la batalla.
Ser en la vana noche
el que cuenta las sílabas.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 343 e 344 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 849
Adélia Prado

Adélia Prado

Códigos

O perfume das bananas é escolar e pacífico.
Quando a mãe disse: filha, vovô morreu, pode falhar de
[aula,
eu achei morrer muito violoncelírico.
Abriam-se as pastas no começo da aula,
os lápis de ponta fresca recendiam.
O rapaz de espinhas me convocava aos abismos,
nem comia as goiabas,
desnorteada de palpitações.
Filho da puta se falava na minha casa,
desgraçado nunca, porque graça é de Deus.
No teatro ou no enterro,
o sexofone me põe atrás do moço,
porque as valsas convergem, os lençóis estendidos,
abril, anil, lavadeira no rio,
os domingos convergem.
O entre-parênteses estaca pra convergir com mais força:
no curso primário estudei entusiasmada o esqueleto
[humano da galinha.
Quero estar cheia de dor mas não quero a tristeza.
Por algum motivo fui parida incólume,
entre escorpiões e chuva.
1 228
Alcides Werk

Alcides Werk

Soneto Aberto Sobre A Morte

Hoje é dia de festa nesta casa:
festa dos círios e das lamparinas.
Um corpo magro sobre a mesa, e a porta
de esteira aberta para os companheiros.

Beatas, terço, cafezinho, estórias,
o choro inútil da mulher sozinha,
a promessa do céu dos escolhidos
e uma herança de palha e de abandono.

Brasileiro, do norte, agricultor.
Semeou, semeou a vida inteira,
fez o campo florir por tantas vezes,

alimentou mil pássaros vadios,
foi sempre bom, mas nunca teve sorte,
e se vestiu de trapos para a morte.

1 136
Octavian Paler

Octavian Paler

Autorretrato ante o espelho quebrado

Quando finalmente seriam os sonhos mais tangíveis, dei-me conta: também as paixões envelhecem. Não sou capaz de assegurar minhas próprias vontades. Não me faltaram, decerto, metas falsas e entusiasmos pueris. Jamais minha imaginação concebeu um mundo sem ti. Ainda que não assumas o comum e paranóico orgulho de imaginar-te ao centro do mundo, algo sempre duro de admitir, faltou-te inteligência ou capacidade para aceitar que ninguém ensina o que quer que seja, exceto retratos amarelados, velhas fotos lançadas à lixeira tão logo partas. Aos outros, somos marionetes bufas, personagens melhores [ou atuantes patéticos]. Todas as certezas que já tive esvaíram-se, sem ressalva alguma. Também as alegrias passadas assumem tom melancólico na lembrança. O passado é vivo, integra o presente e o influencia na proporção do conflito diário. “Daqui a pouco” transforma-se em “mais tarde”. Comecei a perceber que, de atores em cena, tornamo-nos figurantes. E a memória revolve-se em perdão. A lembrança tem um dom estivo, dá-nos o verão como estação de destino. Hoje, sobram-me dúvidas; fito o céu apenas com a esperança de um guarda-chuva, como todos aqui em Bucareste, que, sob nenhum lirismo, admiram e respiram fumaça [quando chove, inevitavelmente pisamos em poças múltiplas]. Associando-me a outros, a atmosfera, de tão dura, não me permite integrar, e acabo sempre só. Porque busco alguma coisa [pouca coisa mas algo] e sou errante num mundo de tudo que te dá nada. A humanidade tomou o lugar do próprio homem. Hoje, preciso apenas de um muro para levantar e, por não o encontrar, eis o desespero. Uma vida medíocre é justificável. A mediocridade das ilusões, todavia, é inescusável. E continuamos sonhando, mais e mais [sem limites]. Por quê? Talvez, possa-me abandonar sobre a imagem quebrada do espelho, sem o temor do pecado. Soube que há uma língua atualmente falada por um homem apenas. Como discutir? O mistério mais sutil é a banalidade. Nesse cotidiano, guardo contigo meu segredo supremo. Seria a criação do universo uma obra banal? As estrelas apontam, todas as noites, nossa morte [ou vida constelada emudecida]. Deus criou o homem e confiou ao diabo a tarefa do desfazimento. O diabo não tem limites. Seria a linguagem o extremo dessa falta?
Atentei-me demais ao detalhe, perdi o foco?
[vou reescrever]
(tradução livre João Monteiro)
(in Autoportret într-o oglinda sparta, Ed. Albatros, Bucareste, 2007)
462
Marília Garcia

Marília Garcia

plano b

hola, spleen, disse. nos cruzamos em
uma lagoa de atol. sentada no banco de trás
olhava pelo vidro azul cobalto
a 3000 quilômetros do ponto em
que o deixara.
                        hola, spleen, disse. você ainda vai me ver
três vezes antes do fim. uma linha esconde
outra linha, a voz esconde o que pré-
existe entre os dois. pensava na carta sem remetente
em alguma maneira de dizer pensava nas
esculturas sonoras (não havia
um plano c? para onde
seguia)

era como descobrir o sulco
fechado de um disco e ficar
rodando no loop daquela melodia
circular. precisa de uma língua
que defina isso

hola, spleen, disse.
mas não falava da latitude
no mapa, eram peixes
no fundo do oceano com a cartilagem
luminosa derretendo nos olhos
e a única preocupação quando
entrou era o som por detrás da voz dela:
saber se está triste há um ano
ou há 24 horas.

(na volta, passa a colecionar
objetos. a vingança começa num
aquário:
            é como furar a realidade
com a realidade, ele dizia, ficar no quarto
medindo o nível do mar
para descobrir onde pôr
os peixes)
605
D. Dinis

D. Dinis

Pero Eu Dizer Quisesse

Pero eu dizer quisesse,
creo que nom saberia
dizer, nem er poderia,
per poder que eu houvesse,
a coita que o coitado
sofre, que é namorado;
nem er sei quem mi o crevesse

senom aquel a quem desse
amor coita todavia,
qual a mim dá noit'e dia;
este cuido que tevesse
que dig'eu muit'aguisado;
ca outr'homem nom é nado
que esto creer podesse.

E por en quem bem soubesse
esta coita, bem diria,
e sol nom duvidaria,
que coita que Deus fezesse,
nem outro mal aficado,
nom fez tal, nem é pensado
d'homem que lhi par posesse.
671
Régis Bonvicino

Régis Bonvicino

RB Resolve Ser Poeta

Nas páginas de "La Rosa Profunda"
descubro que escolhi
a mais curiosa das profissões humanas,
salvo que todas, a seu modo, o são.

Como os alquimistas
que buscaram a pedra filosofal
no azougue fugitivo,
farei com que as palavras comuns
— naipes marcados do tahur, moeda da plebe —
rendam a magia que foi sua
quando Thor era o nume e o estrépito,
o trovão e a prece.

No dialeto de hoje,
direi, de minha forma, as coisas eternas;
tratarei de não ser indigno
do grande eco de Camões.

Este pó(eta) que sou será invulnerável.

Se uma mulher compartilhar de meu amor,
meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos;
se uma mulher desdenhar meu amor,
farei de minha tristeza uma música,
um alto rio que siga ressoando no tempo.

Viverei de esquecer-me.

Serei a cara que entrevejo e esqueço,
Judas que aceita
a divina missão de ser traidor,
Calibán no lamaçal,
um soldado mercenário que morre
sem temor e sem fé,
Polícrates que vê com espanto
o anel devolvido pelo destino,
serei o amigo que me odeia.

O Rubáiyát me dará o rouxinol
e os Texperts as palavras-espadas.

Máscaras, agonias, ressurreições,
desmancharam e mancharam minha sorte:
e, alguma vez, talvez agora,
eu seja Jorge Luis Borges.


In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987.

NOTA DE RÉGIS BONVICINO: Tradução-encarnação do poema "Browning Resuelve Ser Poeta", de Jorge Luis Borges, do livro LA ROSA PROFUND
1 521
Luís Anriques

Luís Anriques

Tristeza, dor e cuidado

Tristeza, dor e cuidado,
leixai-me, que me quereis?
Por ventura não sabeis
que sou já desesperado?

Sabei vós que vivo morto
sem esperança de vivo,
nem espero já conforto
de amor cruel, esquivo.
E pois sou já condenado,
vossas forças não mostreis,
ca sabei, se não sabeis,
que sou já desesperado.
856
D. Dinis

D. Dinis

Que Estranho Que Mi É, Senhor

Que estranho que mi é, senhor,
e que gram coita d'endurar,
quando cuid'em mi, de nembrar
de quanto mal fui sofredor
des aquel dia que vos vi;
       e tod'este mal eu sofri
       por vós e polo voss'amor.

Ca des aquel tempo, senhor,
que vos vi e oí falar,
nom perdi coitas e pesar,
nem mal, nom podia maior,
e aquesto passou assi:
       e tod'este mal sofri
       por vós e polo voss'amor.

E por en seria, senhor,
gram bem de vos amercear
de mim, que hei coita sem par,
de qual vós sodes sabedor
que passou e passa per mi;
       e tod'este mal sofri
       por vós e polo voss'amor.
763
Régis Bonvicino

Régis Bonvicino

Dias em Seguida

estoit il lors temps de moy taire?
françois villon

vida — a que me convidas?
aos becos sem saída,
às noites mal dormidas,
à esperança perdida,
ao dano dos inseticidas,
à brasília podrida,
à fé de n. s. aparecida,
às idéias traídas,
às poesias reunidas,
às migalhas do rei midas,
às verdades não vividas,
aos dias em seguida?

vida — a que me condenas?
à retribuição das penas,
ao riso das hienas,
aos banqueiros da onzena,
ao assassino de viena,
à boa alma de mecenas,
ao remorso de madalena,
ao socorro da sirena,
ao torpor das cantilenas,
à calvície de melena,
ao destino das antenas,
a morrer apenas?


In: BONVICINO, Régis. 33 poemas. São Paulo: Iluminuras: Secretaria de Estado da Cultura, 1990.

NOTA: Publicado no Folhetim de 01 jan. 1988; Este poema foi escrito no dia do 88o. aniversário da Repúblic
1 423
Rubens Rodrigues Torres Filho

Rubens Rodrigues Torres Filho

Clorofila

Verde mar, verde rio e verde pranto
que choveria em verdes matas prisioneiras
aprisionadas neste longo e frio amante
que fui, para nós dois, na sexta-feira
da solidão.

As borboletas lúcidas na treva
que por artes de ausência vêm caindo
em chuvas-lantejoulas vão cobrindo
as lajes destes bosques, clorofila
irrespirável.

São páginas colhidas, escolhidas
que este vazio por dentro desescreve
e o tempo reinscreve do outro lado.
E nós, por dois ou três, unidos por engano,
partilhamos o frio, que só nos damos
sob condição, à espreita ou de tocaia.

Por trás do olhar dos lírios vai roendo
algum sutil inseto iluminado
que sabe dos desertos e a cavá-los
galopa nesse nada que o devora.


In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 642
D. Dinis

D. Dinis

De Muitas Coitas, Senhor, Que Levei

De muitas coitas, senhor, que levei
des que vos soubi mui gram bem querer,
par Deus, nom poss'hoj'eu mi escolher
end'a maior; mais per quant'eu passei,
       de mal em mal e peior de peior,
       nom sei qual é maior coita, senhor.

Tantas coitas levei e padeci
des que vos vi, que nom poss'hoj'osmar
end'a maior, tantas forom sem par;
mais de tod'esto que passou per mi,
       de mal em mal e peior de peior,
       nom sei qual é maior coita, senhor.

Tantas coitas passei dê'la sazom
que vos eu vi, [senhor], per bõa fé,
que nom poss'osmar a maior qual é;
mais das que passei, se Deus mi perdom,
       de mal em mal e peior de peior,
       nom sei qual é maior coita, senhor.
724
D. Dinis

D. Dinis

Proençaes Soem Mui Bem Trobar

Proençaes soem mui bem trobar
e dizem eles que é com amor;
mais os que trobam no tempo da flor
e nom em outro, sei eu bem que nom
ham tam gram coita no seu coraçom
qual m'eu por mia senhor vejo levar.

Pero que trobam e sabem loar
sas senhores o mais e o melhor
que eles podem, sõo sabedor
que os que trobam quand'a frol sazom
há e nom ante, se Deus mi perdom,
nom ham tal coita qual eu hei sem par.

Ca os que trobam e que s'alegrar
vam eno tempo que tem a color
a frol consig'e, tanto que se for
aquel tempo, log'em trobar razom
nom ham, nem vivem [em] qual perdiçom
hoj'eu vivo, que pois m'há de matar.
1 530
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Browning resuelve ser poeta

Por estos rojos laberintos de Londres
descubro que he elegido
la más curiosa de las profesiones humanas,
salvo que todas, a su modo, lo son.
Como los alquimistas
que buscaron la piedra filosofar
en el azogue fugitivo,
haré que las comunes palabras
-naipes marcados del tahúr, moneda de la plebe-
rindan la magia que fue suya
cuando Thor era el numen y el estrépito,
el trueno y la plegaria.
En el dialecto de hoy
diré a mi vez las cosas eternas;
trataré de no ser indigno
del gran eco de Byron.
Este polvo que soy será invulnerable.
Si una mujer comparte mi amor
mi verso rozará la décima esfera de los cielos concéntricos;
si una mujer desdeña mi amor
haré de mi tristeza una música,
un alto río que siga resonando en el tiempo.
Viviré de olvidarme.
Seré la cara que entreveo y olvido,
seré Judas que acepta
la divina misión de ser traidor,
seré Calibán en la ciénaga,
seré un soldado mercenario que muere
sin temor y sin fe,
seré Polícrates que ve con espanto
el anillo devuelto por el destino,
seré el amigo que me odia.
El persa me dará el ruiseñor y Roma la espada.
Máscaras, agonías, resurrecciones,
destejerán y tejerán mi suerte
y alguna vez seré Robert Browning.


"La rosa profunda" (1975)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 390 e 391 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 073