Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

Ciranda dos Meninos da Cidade Grande

Senhora Dona Sancha
coberta de ouro e prata
que anjos são esses
que andam rodeando
pelas ruas da cidade
dia e noite noite e dia
padre-nosso! ave-maria!?...

É o anjo-fujão-de-casa
que veio de circo em circo
andando no trem de carga
ou no aéreo porta-mala.

É o anjo-luz-dos-sapatos
(vai graxa negra, patrão?)
ajoelhado aos pés do homem
que é quem lhe deve perdão.

É o anjo-da-guarda-dos-carros
pastor de ovelhas de lata
assobiando na flauta
da sua garganta asmática.

É o anjo-do-amendoim
(nem um pouco afrodisíaco)
fugindo ao rapa do fisco,
ao seu medo e à sua anemia.

(...)

É o anjo-torto-e-raquítico
apodrecendo faminto
e amamentando na esquina
com leite de mãe menina.

É o anjo-dos-restaurantes
catando as migalhas das mesas
onde os problemas do mundo
naufragam em mar de cerveja.

É o anjo-da-rosa-noturna
vendendo aos noivos que riem
o aroma sem cor de seu mundo
e a murcha flor de sua vida.

É o anjo-carregador
chupando a laranja podre
que cai do excessivo cesto
da despesa das patroas.

(...)

É o anjo-rei-dos-mendigos,
filho de mãe postiça
orfão de pai foragido
adotivo do Juizado.

É o anjo-do-sexo-triste
herdeiro da tara e sífilis
no seu promíscuo exercício
nos quatro cantos das ruas.

É o anjo-das-negras-nuvens
que saem da boca do vício
puxando o sonho proibido
do ópio que o faz mais livre.

É o anjo-assaltante-franzino,
o corpo atrás do revólver,
matando o ódio do amor
em cada tiro assassino.

Senhora Dona Sancha
dê seu ouro dê sua prata
que estes anjos não são anjos
são os filhos da cidade
— nossos filhos, mãe de asfalto —
rodeando dia e noite noite e dia
sem pai nosso! e sem maria.

1975

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Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.36-38. (Sélesis, 13
1 475
Joaquim Azinhal Abelho

Joaquim Azinhal Abelho

Comoção Rural

Já não há quem queira dar
uma filha a um ganhão…
Senhor Pai, senhora mãe,
que grande desolação.

Já bati a sete portas
por mais de mil e uma vez;
Vá-se embora seu ganhão,
disseram com altivez…
A minha filha é prendada,
não é para qualquer tunante,
sabe ler, sabe escrever
e todo o seu consoante.
O que é que tem um ganhão?
Um azinho dum pau torto;
só vive das tristes ervas,
não tem onde cair morto.

Os olhos já não são olhos,
estão estão desfeitos em chorar,
porque a um pobre ganhão
já não há quem queira dar
nem mulher para dormir
nem a filha para mulher;
nem quem o ajude a vestir,

nem quem o ajude a morrer.
Ramos secos, estéreis flores,
pedras de arestas cortantes
perdidas num vendaval,
perdidas numa aflição…
Eu já não posso gritar;
Senhor Pai, senhora Mãe,
que grande desolação
nestes matagais com longes,
aonde os anjos se afundam
em humus e punição!

(in Antologia de Poetas Alentejanos)

435
Silva Avarenga

Silva Avarenga

O Jasmineiro

Rondó XI

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

Ache Glaura na frescura
Destas penhas encurvadas
Moles heras abraçaras
Com ternura a vegetar.

Ache mil e mil Napéias,
E inda mais e mais Amores,
Do que mostra o campo flores,
Do que areias tem o mar.

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

Branda Ninfa que me escutas
Desse monte cavernoso,
Nem o raio luminoso
Nestas grutas possa entrar.

Hás de ver com dor, e espanto,
Como pálida a Tristeza
Dos seixinhos na aspereza
Faz meu pranto congelar,

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

Glaura bela, que resiste
Aos rigores da saudade,
Veja em muda soledade
Sono triste bocejar.

Sobre o musgo em rocha fria
Adormeça ao som das águas,
E sonhando injustas mágoas,
Chegue um dia a suspirar.

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

Com seus olhos Glaura inflame
Os desejos namorados,
Que em abelhas transformados,
Novo enxame cubra o ar.

Vinde, abelhas amorosas,
Sem temer o meu desgosto,
Doce néctar no seu rosto
Entre rosas procurar.

Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.

984
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mal do Século

Como se não bastasse o mundo de tristezas
entre céu e terra,
principalmente em terra,
vem o agrônomo, descobre
o vírus da tristeza nas laranjeiras.
1 378
Scarlett Maciel

Scarlett Maciel

Variações

De novo,
Me vem à alma essa fome de palavras
Que não existe em mim.
Essa busca envolvida na tão companheira insônia.
Vazio repleto de ânsia.
Pelo quê?
Mundo?
Vida?
E é sempre o amor que vem de mim.
Por mim,
Pela minha alma.
Não existe outra base.
Acabo de ver Rimbaud.
Todos os escritores deveriam nascer mortos!
Será a felicidade,
Exatamente escondida,
À espera do bote,
Atrás da loucura, insanidade d’alma?
Me vejo em tantas coisas, lugares.
Principalmente palavras e sentimentos alheios.
Dentro de loucura, depressão, tristeza...
Sempre isso.
Não muda.
E é sempre a mesma fome por o desconhecido.
Vontade de falar o que não sinto.
Mostrar e fazer brilhar no coração do mundo
A minha ever confusa pessoa.
Tão cheia de teorias
Que nunca acham o caminho da prática.
E o desespero não vem!
Será você o meu anjo,
que dorme agora?
Essa fúria de pensar...
Mas não me sai nada
E o coração já não agüenta.
Precisa de ar.
O frio lá de fora não me atinge a alma nesse segundo.
Parado no tempo
Sei que não resiste.
É muito!
E com toda esta fome o medo não vem.
Estou só (sem ele)
Pela mesma sentença de sempre.
Carregar a fome das palavras nas costas
E devorá-las sem tomar.
Nem eu vejo.
É ato superior.

810
Silva Avarenga

Silva Avarenga

A Roseira

Rondó LII

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

Quando Glaura me dizia
Que era sua esta roseira,
De esperança lisonjeira
Me senda consolar.
Mas a sorte, que invejosa
Este alívio não consente,
Não há mal que não invente
Rigorosa em maltratar.

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

Da risonha primavera
Esperei os dias belos:
Glaura... oh dor! os teus cabelos
Quem Pudera coroar.
Já não vives oh que mágoa!
E a roseira que foi tua,
Eu a vejo estéril, nua,
Junto d’água desmaiar.

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

Parca iníqua, atroz, funesta,
Era teu o infausto agouro;
Já levaste o meu tesouro,
Mais não resta que roubar.

Nem às flores permitiste...
Oh! que bárbara impiedade!
Fica só cruel saudade,
Fica o triste suspirar.

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

De teus ramos a beleza
Era o mimo destes prados;
Move agora, ó ímpios fados!
De tristeza a lamentar.
Horrorosos são meus males;
Tudo encontro em névoa escura;
Vem comigo a desventura
Estes vales assombrar.

Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!

1 118
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Malvindo

Vive dando cabeçada.
Navegou mares errados,
perdeu tudo que não tinha,
amou a mulher difícil,
ama torto cada vez
e ama sempre, desfalcado,
com o punhal atravessado
na garganta ensandecida.
Este, o triste cavaleiro
de tristíssima figura
que nem mesmo teve a graça
de estar ao lado de Alonso
e poder narrar eventos
nos quais entrou de mau jeito
mas com sabor de epopeia.
Nada a fazer com este tipo
avesso a qualquer romança
ou ode, apenas terráqueo,
ou nem isso, extraterráqueo,
de quem não se ouve um grito
mais além do que gemido,
nem uma palavra lúcida
varando o cerne das coisas
que esperam ser reveladas
e nós todos pressentimos.
Inútil corpo, alma inútil
se não transfunde alegria
e esperança de renovo
no universo fatigado
em que repousa e não ousa.
Sua ficha — foi rasgada,
por ausência de sinais.
Seu nome — por que sabê-lo?
E sua vida completa
já nem é vida, é jamais.
1 155
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Let us rest. Every hour is not the next.

Let us rest. Every hour is not the next.
May this wreathe round with more than emptiness
The meaning of the ciphered living text
We owe to living and to thought confess.

Let us rest. Every hour is not the last.
A consolation comes from being late
Even at happiness, lest near winds blast
The present flower and fate still follow fate.

Let us rest. Power is useless and life vain.
To ask means to be answered with not giving.
To move towards pleasure is to walk on pain,
And having to live takes life out of living.

So there is no true thought nor just behest,
Nor pomp worthing having. Let us rest.
1 058
Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

V [Canto ao arrumar a cama

Canto ao arrumar a cama,
canto
diligente verônica
oficiando os passos
da paixão cotidiana.

Exibo ao meu espelho atônito
os lençóis que estampam o corpo
do senhor que nunca me salvou
da crucificação no pranto.

E canto porque canto,
sem esperanças de glória
ou de ressurreição.


Poema integrante da série Suíte Doméstica.

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Canteiro de obras. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebarã)
1 362
Artur Eduardo Benevides

Artur Eduardo Benevides

Soneto de Mágoa e de Esperança

Por que de mim te alongas ou te afastas?
Será que em ti perdi meu gesto e rosto?
As minhas horas todas já são gastas
Em sonhar-te ditosa ou sem desgosto.

És glória, luz e amor. E eu? Sol-posto.
Mas, fugindo de mim, tu me vergastas
E deixas-me ferido, e pobre, exposto
Às vinganças do tempo, iconoclastas.

Para agradar-te, finjo que sou jovem.
Busco enganar-te, a ver se te comovem
As palavras que oferto, de afeição,

A fim de que, qual dádiva, me olhes
Com toda a tua graça e não desfolhes
As pétalas da última ilusão.

1 626
Sinésio Cabral

Sinésio Cabral

Destinos Iguais

Eu leio em teu semblante desenhada
na sua plenitude a própria vida
de quem se sente em vida desolada,
sem sol e sem calor, desiludida.

Decerto, contrafeita, amargurada,
por vezes, entre amigas, esquecida,
tu ficas em silêncio, ó bem-amada,
e eu fico a contemplar-te, assim, querida.

E Deus nos fala pela voz dos sinos.
Ao lusco-fusco, sinto em tua prece
fervor e contrição. A noite desce.

Perdidos no tumulto dos destinos
traçados para todos os mortais,
parece que nós dois somos iguais.

850
Artur Eduardo Benevides

Artur Eduardo Benevides

De um Tema de Ronsard

Por que, tão bela sendo, me maltratas,
Se sabes que me dóis e me magoas
E me deixas igual a essas pessoas
De almas quase errantes, inexatas?

Abri-te a porta e a vida, mas me matas
E não ouves as súplicas e loas.
Eu te daria tantas cousas boas,
Mas te afastas qual som de serenatas.

A vida é curta, Amada, para tudo.
O tempo fica logo tão desnudo
Que brilho, e sonho, e viço — tudo passa.

Só temo que se um dia resolveres
Aceitar de uma vez os meus quereres
Eu já seja, num cais, velha barcaça.

1 258
Abrahão Cost'Andrade

Abrahão Cost'Andrade

Hidrofobia

Lívido olhar
destravava o outono
de brava tristeza.

952
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

No Espelho

Vi as marcas do tempo em meu rosto.
Profundas,
como os abismos em meu coração.
Vi também caminhos.
Caminhos traçados em minhas retinas,
aquáticas,
sufocadas,
quase afogadas,
em minha tristeza.
Vi minhas marcas de infância,
infantis cicatrizes,
camufladas em um rosto jovem,
melancólico.
Vi meus lábios,
vermelhos
— sangrentos —,
riscados como papel,
por palavras,
em explosões metafóricas.

Mas vi também um corpo.
Um corpo duro,
petrificado,
como um rosto no espelho...

Salvador, 08 de janeiro de 1997

945
Sidónio Muralha

Sidónio Muralha

Romance

Depois daquela noite os teus seios incharam;
as tuas ancas alargaram-se;
e os teus parentes admiraram-se
e falaram, falaram…
Porque falaram duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural?
Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval…
Mas tudo terminou porque falaram.
Tu fraquejaste e tudo terminou.
– Os teus seios desincharam;
só a tristeza ficou.
Ficou a tristeza duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural…
– Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval…
599
Araripe Coutinho

Araripe Coutinho

O Amor Jaz

O amor jaz no cacto do jardim
e cada espinho exposto à luz do corpo
é um pedaço morto de cada um de nós
o corpo é feito de taças
- cheias e vazias -
vitrais de luas engolindo a noite
pousando gozos nas sombras das ruas,

Além das veias todo amor é sangue
sangue de um sorvete de solidão amarga
assim morrendo
assim tão suave inflama
dentro da alma
além da madrugada.

Rendidos já não buscamos a enseada
o sorvete que falo
vem das almas
das almas das mulheres nunca amadas
que sempre pelas taças
vertem lágrimas
e bebem gotas de amores mortos.

1 306
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Queda

A tarde cai. Nós caímos na tarde
numa antecipação de morte sem dor.
Em um desvão do corpo bruxuleia a chama
que o dia claro alimentava, ardência.

Cai a tarde... Como foi? tarde
é um cair na faixa sigilosa
do ser imóvel em que nos transformamos
e essa hora de exploração do dia,
fria.

Não importa o sol regresse com o prestígio
de reinventar a vida albente.
A tarde, a triste tarde caiu. Caímos
imorredouramente.
1 532
Antônio de Oliveira

Antônio de Oliveira

Décima

Tanto Pirene chorou
Que em fonte se converteu:
Mas Diana que a ofendeu
Por que em fonte a transformou?
Porque como desejou
Ter uma fonte perene
(Qual a famosa Hipocrene)
De Pirene a fonte faz:
Porque no nome já traz
O ser perene Pirene.

1 256
Argemiro de Paula Garcia Filho

Argemiro de Paula Garcia Filho

Imola 1

Em Imola se imola
um sonho
um mito
um herói.
Em Imola se esfola
a pele
a carne
e dói,
como dói,
saber que a vida segue
ainda que o sonho acabe.
Mas se os sonhos são etéreos,
se os mitos são lendas
e os heróis tem sangue,
nos restam apenas
as mãos,
os calos,
as cãs,
resta-nos erguer o destino.
Porque as pirâmides foram erguidas
por homens
e os nossos heróis sempre morrem,
no final.

Macaé, 29/06/94

896
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Zona de Belo Horizonte, Anos 20

A festa de aniversário de Pingo de Ouro
acaba em frege.
Maria Pinguinho corre nervosa à delegacia
para soltar a Alemãzinha
engalfinhada com Maria Triste
no véu de cocaína e éter.

Serão sempre assim as mulheres perdidas,
e perdidas porque nunca se acham
mesmo no véu de cocaína e éter?
1 055
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Nota Social

O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto êle faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos. . .
O poeta está melancólico.

Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.

O poeta entra no elevador
o poeta sobe
o poeta fecha-se no quarto.

O poeta está melancólico
1 863
Adão Ventura

Adão Ventura

Natal

um natal lerdo
num lençol de embira
mesmo qu´uma fonte
de estimada ira.

um menino lama
num anzol que fira
algum porte e corpo
e alma de safira.

um menino cápsula
de tesoura e crime
— ritual de crisma
sem fé ou parafina.

um menino-corpo
de machado e chão
a arrastar cueiros
de chistes e trovão.

1 288
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Política

A Mário Casasanta


Vivia jogado em casa.
Os amigos o abandonaram
quando rompeu com o chefe político.
O jornal governista ridicularizava seus versos,
os versos que êle sabia bons.
Sentia-se diminuído na sua glória
enquanto crescia a dos rivais
que apoiavam a Câmara em exercício.

Entrou a tomar porres
violentos, diários.
E a desleixar os versos.
Se já não tinha discípulos.
Se só os outros poetas eram imitados.

Uma ocasião em que não tinha dinheiro
para tomar o seu conhaque
saiu à toa pelas ruas escuras.
Parou na ponte sobre o rio moroso,
o rio que lá em baixo pouco se importava com êle
e no entanto o chamava
para misteriosos carnavais.
E teve vontade de se atirar
(só vontade).


Depois voltou para casa
livre, sem correntes
muito livre, infinitamente
livre livre livre que nem uma besta
que nem uma coisa.
4 642
Branquinho da Fonseca

Branquinho da Fonseca

Castanheiros, Irmãos

Ó castanheiros de folhas de ouro,
Carregados de ouriços que são ninhos
Onde as castanhas dormem como noivos!

Troncos abertos,

Casas abertas,
Ao vosso abrigo
Dormem os pobres,
Pegam no sono,
Passam as noites
Quando cai neve!

Peitos vazios,
Escancarados,
Sem nada dentro,
Nem coração!
Dais lume, calor
E dais sustento para a mesa,
E dais o mais que eu não sei!...

Ó castanheiros de folhas de ouro,
Apenas sou vosso irmão
Em que a terra vos criou
E criou-me a mim também;
Em que vós ergueis os braços
Suplicantes para os céus
E eu também levanto os meus...

Ah! Castanheiros, mas eu
Grito e vós ficais calados!
Seremos, por isto só,
Irmãos? Seremos? Não sei:
Vós tendes roupas de rei,
Eu tenho roupas de Job;
Vós só gritais quando o vento
Vos abre a boca e fustiga:
Então ergueis um clamor...
— Não calo nunca no peito
A dor do meu sofrimento
E nunca chego a dize-la,
Nem há ninguém que me diga.

Ó castanheiros de folha de ouro,
Não,
Eu não sou vosso irmão!...

2 088