Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Garotas Calmas E Limpas Em Vestidos de Algodão

tudo o que eu sempre conheci sempre foram putas,
[ex-prostitutas,
loucas. vejo homens com mulheres calmas e
gentis – vejo-os nos supermercados,
caminhando juntos na rua,
eu os vejo em seus apartamentos: pessoas em
paz, vivendo juntas. sei que essa paz
é apenas parcial, mas
existe paz, muitas horas e dias de paz.

tudo o que eu sempre conheci foram boleteiras, alcoólatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.

quando uma vai
outra vem
pior do que sua antecessora.

vejo tantos homens com garotas calmas e limpas em
vestidos de algodão
garotas com rostos que não são de predadoras ou de
feras.

“nunca traga uma puta junto com você,” eu digo para
[meus
poucos amigos, “eu me apaixonarei por ela.”

“você não consegue suportar uma boa mulher, Bukowski.”
preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que da máquina de escrever, mais do que do
meu automóvel, mais do que de
Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que posso
senti-la no ar, posso senti-la
na ponta dos dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir a expectativa da minha risada,
posso vê-la acariciar um gato,
posso vê-la dormir,
posso ver seus chinelos no chão.

eu sei que ela existe
mas em que parte deste planeta ela está
enquanto as putas continuam me encontrando?
1 241
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Que Eles Querem

Vallejo escrevendo sobre
solidão enquanto morria de
fome;
a orelha de Van Gogh rejeitada por uma
puta;
Rimbaud correndo para a África
em busca de ouro e encontrando
um caso incurável de sífilis;
Beethoven ficou surdo;
Pound foi arrastado pelas ruas
numa gaiola;
Chatterton tomou veneno para rato;
o cérebro de Hemingway pingando dentro
do suco de laranja;
Pascal cortando os pulsos na banheira;
Artaud trancado com os loucos;
Dostoiévski de pé contra um muro;
Crane pulando na hélice de um barco;
Lorca baleado na estrada pelo exército
espanhol;
Berryman pulando de uma ponte;
Burroughs atirando na mulher;
Mailer esfaqueando a sua;
– é isso o que eles querem:
o danado dum show
uma placa luminosa
no meio do inferno.
é isso o que eles querem,
aquele bando de
estúpidos
inarticulados
tranquilos
seguros
admiradores de
carnavais.
1 222
José Miguel Silva

José Miguel Silva

8 MM — Joel Schumacher (1998)

Só o mal pode vencer o mal, pois o bem não tem
poder; tem apenas compaixão, fadiga e compaixão.
É por isso que um polícia não consegue
manter limpos os sapatos. E quando chega a casa
nenhum filho o felicita. Ouve da mulher:
«Patife - a carpete! - estragaste a minha vida!»
Não sei se a culpa é minha ou de ninguém,
mas romperam-se as comportas e a lama
corre livre na cidade do homem.
Quem tem asas pode talvez salvar-se;
mas quem for sozinho, que vontade de morrer.
1 222
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

DIFERENÇA

meu amor ouve fado
não rodopia
apenas baila e espreita.

eu gosto de tango.

minha mãe sempre diz:
seus olhos são trágicos.
750
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Guru

grande barba negra
me diz
que eu não sinto
terror

olho pra ele
minhas tripas chacoalham
cascalho

vejo seus olhos
voltados pra cima

ele é forte

tem unhas sujas

e penduradas nas paredes:
armas embainhadas.

ele sabe das coisas:

livros
as vantagens
o melhor caminho para
casa

gosto dele
mas creio que ele
mente

(não tenho certeza de que
ele mente)

sua esposa se senta
num canto
escuro

quando a conheci
era a mulher
mais
linda
que eu já tinha
visto

agora ela se
tornara
sua gêmea

talvez não por culpa
dele:

talvez a coisa
nos faça a todos
assim

no entanto, logo que deixei
a casa deles
senti terror

a lua parecia
doente

minhas mãos escorregavam
no
volante

manobro meu
carro
e desço a
ladeira

quase bato
num
carro azul-esverdeado
estacionado

enterre-me para sempre,
Beatriz

poeta hesitante, ha
haha

cão enjeitado do
terror.
1 153
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quanta tristeza e amargura afoga

Quanta tristeza e amargura afoga
Em confusão a 'streita Vida! Quanto
Infortúnio mesquinho
Nos oprime supremo!
Feliz ou o bruto que nos verdes campos
Pasce, para si mesmo anónimo, e entra
Na morte como em casa;
Ou o sábio que, perdido
Na ciência, a fútil vida austera eleva
Além da nossa, como o fumo que ergue
Braços que se desfazem
A um céu inexistente.


13/06/1926 (Presença, nº 6, 18 de Julho de 1927)
2 114
Martha Medeiros

Martha Medeiros

foram tantas noites de insônia

foram tantas noites de insônia
roubando os poucos anos que tinha
perdi a conta dos prantos
contei carneiros e os dias
e os dias nunca passavam
ou passavam e eu não via
ficava um aperto no peito
nem tudo entendia como era
mas que era bonito eu sabia
1 032
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Na sala de leitura da insónia

Na sala de leitura da insónia,
Quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.

Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.

No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.
Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.

Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida
– olhai –
Sou o novo modelo para o fracasso
1 013
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Vazia

Já deslembrada, perdida
na agonia da sede.
Obscura e sem lugar
morta vivendo em luz cega.

Sempre a areia do deserto
e calcinadas as frases
sem lucidez nem repouso,
imagens despedaçadas.

Qual o último país?
Qual o silêncio do mar?
Do seu nulo amor errante
resta o seu halo inquieto.

Era um secreto jardim
de obscura transparência,
era um corpo, era um recinto
de silenciosa alegria.

Ausência, menos que água,
estrangeira e solitária,
busca a esfera azul e limpa,
a nitidez de um lugar.

Amante escura, longínqua,
que pátria no seu desterro,
que presságio de sossego,
que dom impossível tem?

Sua viagem é um exílio
no vazio transparente
onde cristal não cintila
nem um liso mundo gira.

Só no ardor se ultrapassa
e vibra já sem fronteiras,
a derradeira, a primeira,
num sopro que inscreve a vida.
1 056
Charles Bukowski

Charles Bukowski

462-0614

agora recebo muitas chamadas de telefone.
todas iguais.
“é Charles Bukowski,
o escritor?”
“sim,” eu lhes respondo.
e eles dizem que entendem minha
escrita,
alguns deles são escritores
ou querem ser escritores
e estão em empregos estúpidos e
horríveis
e não conseguem nem encarar a sala
o apartamento
as paredes
essa noite...
querem alguém com quem possam
conversar,
não podem acreditar
que não posso ajudá-los
que não conheço as palavras.
não podem acreditar
que agora mesmo
me dobro em meu quarto
segurando minhas entranhas
e dizendo
“Jesus Jesus Jesus,
de novo não!”
eles não podem acreditar
que as pessoas mal-amadas
as ruas
a solidão
as paredes
também são minhas.
e quando desligo o telefone
eles acham que escondi o
jogo.

não escrevo a partir da sabedoria.
quando o telefone toca
eu também gostaria de ouvir palavras
que pudessem aliviar um pouco alguma
dessas coisas.

é por isso que meu nome está na
lista.
1 041
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Que dia? Que olhar?

Cheguei demasiado tarde
e já todos se tinham ido embora
restavam paeis velhos, vidas mortas,
identidade, sujidade, eternidade.

Comeram o meu corpo e
beberam o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca;
e escreveram a minha Obra Completa;
sobro, desapossado, eu.

Resta-me ver televisão,
votar, passear o cão
(a cidadania!). Prosa também podia,
e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria.

Pôr-me aos tiros na cara como Chamfort?
Dar em aforista ou ainda pior?
Mudar de cidade? Desabitar-me?
Posmodernizar-me? Experienciar-me?

Com que palavras e sem que palavras?
Os substantivos rareiam, os verbos vagueiam
por salões vazios e incendiados
entregando-se a guionistas e aparentados.


Cheira excessivamente a morte por aqui
como no fim de uma batalha cansada
de feridas antigas, e eu sobrevivi
do lado errado e pela razão errada.

"Que dia? Que olhar?"
(Beckett, "Dias felizes")
Que feridas? Que estanda-
te? Que alheias cicatrizes?

Estou diante de uma porta (de uma forma)
com o - como dizer? - coração
(um sítio sem lugar, uma situação)
cheio de palavras últimas e discórdia.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 304 e 305 | Assírio & Alvim, 2012




1 140
Manuel António Pina

Manuel António Pina

O grito

Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;

e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.

Presente, apenas presente;
a memória, presente,
a esperança, presente.

E, no entanto, houvera um tempo
em que tínhamos sido talvez felizes,
quando não nos dizia respeito a felicidade,

e em que tínhamos estado perto
de alguma coisa maior que nós
ou do nosso exacto tamanho.

Como um animal devorando-se
por dentro a si mesmo,
consumira-se, porém,

o pouco que nos pertencera, os dias e as noites,
a certeza e o deslumbramento, a cerejeira e a
palavra "cerejeira" ainda em carne na jovem boca.

Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse,
nenhuma renúncia que nos prendesse
ou nos libertasse, nenhuma compaixão que

nos devolvesse o ser
ou o mesmo,
ou fosse a morada de algo inumano como um coração.

Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior,
nenhumas pálpebras se abriam,
como poderíamos não nos ter perdido?

Entre 10 elevado a mais infinito
e 10 elevado a menos infinito,
uma indistinta presença impalpável na indiferença azul,

sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 310 e 311 | Assírio & Alvim, 2012


3 555
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Caminhar Através de Corredores Intermináveis

Caminhar através de corredores intermináveis
brancos
Caminhar entre paredes lisas brancas
sem que nenhuma porta se abra sem que
nenhuma luz me ilumine
a não ser esta
sem sombra
sem origem

Quartos vazios amplos e vazios
mas sem dimensões concretas corredores
paredes brancas
o lugar está exposto
com uma evidência violenta irrecusável

Uma figura surge no centro de uma sala
É a mesma de outrora
e é a única aqui neste momento
De pé e destroçada ela vacila
É preciso desenhá-la, fixá-la talvez
A imagem repercute-se
no espelho

É este o corpo idêntico nu e nulo?

A figura desvanece-se por ser tão só imagem?

Próximo o lugar ausente reflexos Não são
palavras Neste momento surgem espaços
profundidades manchas cintilantes
Clareiras
647
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Noite Em Que Trepei Com Meu Despertador

certa vez
passando fome na Filadélfia
eu ocupava um quartinho
caía a tarde e a noite chegava
e me postei junto à janela no 3° andar
no escuro e olhei para uma
cozinha que ficava no outro lado do 2° andar
e avistei uma bela garota loira
abraçar um jovem e ali beijá-lo
com o que parecia ser fome
e fiquei parado a olhá-los até que se
separassem.
então dei meia-volta e acendi a luz do quarto.
vi minha cômoda e suas gavetas
e meu despertador sobre ela.
peguei o relógio
e o levei pra cama comigo
trepei com ele até que os ponteiros caíssem fora.
depois saí e vaguei pelas ruas
até sentir meus pés se encherem de bolhas.
quando voltei fui até a janela
e olhei pra baixo e lá pro outro lado
e a luz na cozinha deles estava
apagada.
1 202
Martha Medeiros

Martha Medeiros

tinha na época pouco mais que

tinha na época pouco mais que
treze mas já sabia que as pessoas
mentiam às vezes e intuía que meu
destino seria melancólico caso eu
não tomasse uma medida urgente
inventei então de ser alguém
que atravessaria paredes e
sem que ninguém percebesse
colheria dados para um poema
que um dia escreveria
mesmo que você não lesse


mas você está lendo e agora
sabe tudo a meu respeito, a dor
que trago, o amor que sinto, a
fera doce que satisfaz seu maior
instinto e que não conhece nenhum
retrato mais perfeito
1 087
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sorte

o que está mal a respeito disso
tudo
é ver as pessoas
bebendo café e
esperando. gostaria de
embebê-los todos
na sorte. eles precisam
disso. precisam bem
mais do que eu.

sento nos cafés
e os vejo a
esperar. não creio
que haja muito mais
a fazer. as moscas
vão pra lá e pra cá
nos vidros das janelas
e bebemos nosso
café e fingimos
não olhar uns
para os outros.
espero junto com eles.
entre o movimento
das moscas
as pessoas vagueiam.
1 313
Ruy Belo

Ruy Belo

Cinco palavras cinco pedras

Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando OS deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 148 | Editorial Presença Lda., 1984
2 098
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Imaginação E Realidade

há muitas mulheres solteiras no mundo
com um ou dois ou três filhos
e alguém se pergunta aonde foram os maridos
ou aonde foram
os amantes
deixando para trás
todas essas mãos e esses olhos e esses pés
e essas vozes.
ao passar por suas casas
gosto de abrir armários e
olhar o que há dentro
ou então debaixo da pia
ou no guarda-roupa –
espero encontrar o marido
ou o amante e ele me dirá:
“ei, parceiro, você não percebeu as
estrias, ela tem estrias
e peitos caídos e come
cebolas o tempo todo e peida... mas
sou um cara habilidoso. posso consertar coisas,
sei como usar um torno mecânico e
troco sozinho o óleo do carro. sei jogar
sinuca, boliche, posso chegar em 5º ou
6º em qualquer maratona por
aí. tenho um jogo de tacos de
golfe, lanço a bola a longas distâncias. sei
onde fica o clitóris e o que fazer com
ele. tenho um chapéu de caubói com as abas
dobradas para cima.
sou bom com o laço e com os punhos
conheço os últimos passos de dança.”

e eu direi, “veja só, estou de saída”.
e sumirei antes que ele acabe me desafiando
para uma queda de braços
ou me conte uma piada bagaceira
ou me mostre a tatuagem no seu
bíceps direito em movimento.

mas de fato
tudo o que encontro no armário são
xícaras de café e pratos marrons, grandes e rachados
e debaixo da pia uma pilha de trapos
endurecidos, e no guarda-roupa – mais cabides
do que roupas, e é só quando ela me mostra
o álbum e as fotos dele –
tão bom quanto uma calçadeira, ou um carrinho de
supermercado cujas rodas não estão emperradas –
que a dúvida íntima se desfaz, e as
páginas avançam e ali está uma criança com
um traje de banho vermelho e lá está
a outra
perseguindo uma gaivota em Santa Mônica.
e a vida se torna triste e nada perigosa
e, dessa maneira, boa o suficiente:
tê-la para lhe trazer uma xícara de café em
uma daquelas xícaras sem que ele
apareça.
1 214
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Cena de Inverno

Parada no meio do campo, na tarde de chuva,
a mulher não avança para o meio da estrada, nem recua
para perto da casa. Apanha chuva, com a cabeça virada
para o chão, como se esperasse que a terra a engula,
ou que o céu se esqueça dela, e as nuvens se afastem.

Numa tarde de chuva, no meio do campo, há mulheres
que não sabem para onde ir; e entre a casa e a estrada
ficam paradas, ouvindo o ruído da chuva, e pensando
na vida que as levou para o meio do campo, indecisas
entre a terra e o céu, enquanto a chuva não pára.

Ao ver a mulher parada no meio do campo, pensei
em chamá-la, para que saísse de dentro da lama; mas
continuei o meu caminho, como se ela não existisse,
sabendo que se parasse ao lado dela também eu olharia
para o chão, até que a terra me engolisse.

1 499
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Isso Então...

é o mesmo que antes
ou que da outra vez
ou da vez anterior a essa.
eis um pau
e eis uma boceta
e eis um problema.

a cada vez
você pensa
bem eu aprendi desta vez:
vou dizer a ela que faça isso
e eu farei isto,
já não quero a coisa toda,
só um pouco de conforto
e um pouco de sexo
e apenas um mínimo de
amor.

agora novamente espero
e os anos vão escasseando.
tenho meu rádio
e as paredes da cozinha
são amarelas.
sigo esvaziando as garrafas
à espera
dos passos.

espero que a morte reserve
menos do que isto.
1 502
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Noite de Natal, Sozinho

noite de Natal, sozinho,
num quarto de motel
junto à costa
perto do Pacífico –
ouviu?

eles tentaram fazer desse lugar algo
espanhol, há
tapeçarias e lâmpadas, e
o banheiro é limpo, há
minibarras de sabonete
rosa.

não nos encontrarão por
aqui:
as piranhas ou as damas ou
os adoradores
de ídolos.

lá na cidade
eles estão bêbados e em pânico
furando sinais vermelhos
arrebentando suas cabeças
em homenagem ao aniversário de
Cristo. isso é uma beleza.

em breve terei terminado esta garrafa de
rum porto-riquenho.
pela manhã vomitarei e tomarei
banho, voltarei para
casa, comerei um sanduíche à uma da tarde,
estarei no meu quarto por volta das
duas,
estirado na cama,
esperando o telefone tocar,
sem responder,
meu feriado é uma
evasão, minha razão
não é.
2 370
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Em Lisboa

(fim dos anos 60)

Bebi numa taça a cera derretida do passado.
À superficial análise sentia-se um sabor humano
a desgraça; mas quando, seca, a língua a percorria,
um autêntico pavão animal abria o seu leque
descendo,
como um deus, pela escadaria ampla do corpo.
À transparência manual do pescoço surgia, então,
um outonal jardim do Luxemburgo, de madrugada,
enquanto as cúpulas das igrejas e palácios emergiam
da noturna névoa. Os barulhos da cidade juntavam-se,
no aro frio, com um sussurro de mar tempestuoso.
Tudo confluía numa determinada imagem de Norte.
Mas logo, dissipada a primitiva impressão do sonho,
chegavas com os teus dedos reais e ambos,
naquele recanto do café,
víamos chegar o inverno,
o beco sem saída das nossas vidas,
o tédio oficial dos primeiros jornais do dia.


Nuno Júdice | "Por dentro do fruto da chuva", 2004

874
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ESTADO DE ALMA

ESTADO DE ALMA

Inutilmente vivida
Acumula-se-me a vida
Em anos, meses e dias;
Inutilmente vivida,
Sem dores nem alegrias,
Mas só em monotonias
De mágoa incompreendida...

Mágoa sem fogo de vida
Que a faça viva e sentida;
Mas a mágoa de mãos frias
E inaptas para arte ou lida,
Nem para gestos de agonias
Ou mostras de alma vencida.

Nada: inerte e dolorida,
A minha dor se extasia
Por não ser, e tem só vida
Para em torno a noite fria
Sentir vaga e indefinida...


18/01/1910
5 061
Charles Bukowski

Charles Bukowski

12:18 A.M.

decapitado no meio da
noite
coçando os lados do meu corpo
estou coberto de mordidas
livro aos chutes minhas pernas brancas dos lençóis
enquanto as sirenes soam
há um disparo de arma de fogo.

vou à cozinha
em busca de um copo d’água
destruir o devaneio de uma barata
destruir a própria barata.
um vendaval vem do norte
enquanto o homem no apartamento
da frente
enfia seu pau no rabo de sua
filha de 4
anos.

escuto os gritos
acendo um charuto
enfio-o nos lábios de minha
cabeça decapitada.
é um corona
envelhecido
um Medalist Naturáles, Nº 7.

retorno ao banheiro
com um inseticida.
aperto a válvula.
sai o spray. tenho
náuseas,
penso em antigas batalhas
em amores mortos.

tanta coisa acontece na escuridão
ainda que amanhã
o sol continue seguindo seu rumo,
você receberá uma multa se estacionar
do lado sul de uma rua numa
quinta-feira
ou do lado norte na
sexta.

a eficiência do sol e da
lei
protege a sanidade.

alguma coisa me morde.
disparo
enlouquecidamente o spray em meus
lençóis.

volto-me
vejo o espelho na escuridão –
o charuto
a pança flácida
meu reflexo
envelhecido.

dou uma risada.

é bom que eles não
saibam.

pego minha cabeça

coloco-a novamente em meu
pescoço

entro sob os lençóis e

não consigo dormir.
878