Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Elegia do Rei de Sião

Pobre rei de Sião que morreu de desgosto
por não ter um filho varão.
Pobre rei de Bangkok educado em Oxford,
pequenino, bonito, decorativo,
que morreu especialmente para nos comover.
O filho que desejava, a Ásia não deu
e seu desejo de um filho era maior do que a Ásia.
Pobre rei de Sião, que Camões não cantou.
Amou três mulheres em vez de dez mil
e nenhuma lhe deu um filho varão.

De sua costela real nasceu uma pequenina siamesa.
Ao vê-la, o rei caiu para trás como vim europeu,
adoeceu, bebeu um veneno terrível e morreu.

Seu coração enegreceu de repente,
o corpo ficou todo fofo.

Depois queimaram o corpo fofo e o coração preto numa fogueira esplêndida
e a alma do rei de Sião fugiu entre os canais.

Pobre reizinho de Sião.
1 617
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Apelo

Que te vale, minha alma, essa paisagem fria
Essa terra onde parecem repousar virgens distantes?
Que te importa essa calma, essa tarde caindo sem vozes
Esse ar onde as nuvens se esquecem como adeuses?
Que te diz o adormecimento dessa montanha extática
Onde há caminhos tão tristes que ninguém anda neles
E onde o pipilo de um pássaro que passa de repente
Parece suspender uma lágrima que nunca se derrama?
Para que te debruças inutilmente sobre esse ermo
E buscas um grito de agonia que nunca te chegará a tempo
Que são longos, minha alma, os espaços perdidos...
Ah, chegar! chegar depois de tanta ausência
E despontar como um santo dentro das ruas escuras
Bêbado dos seios da amada cheios de espuma!
1 140
José Saramago

José Saramago

Jogo do Lenço

Trago no bolso do peito
Um lenço de seda fina,
Dobrado de certo jeito.
Não sei quem tanto lhe ensina
Que quanto faz é bem feito.

Acena nas despedidas,
Quando a voz já lá não chega
Por distâncias desmedidas.
Depois, no bolso aconchega
As saudades permitidas.

Também o suor salgado,
Às vezes, enxugo a medo,
Que o lenço é mal empregado.
E quando me feri um dedo,
Com ele o trouxe ligado.

Nunca mais chegava ao fim
Se as graças todas dissesse
Deste meu lenço e de mim,
Mas uma coisa acontece
De que não sei porque sim:

Quando os meus olhos molhados
Pedem auxílio do lenço,
São pedidos escusados.
E é bem por isso que penso
Que os meus olhos, se molhados,
Só se enxugam no teu lenço.
1 298
Daniel Francoy

Daniel Francoy

Este jardim foi construído

Este jardim foi construído para que a morte pareça benevolente
e não seja mais do que alguns botões secos de rosas
ainda presos aos ramos ou um punhado de pétalas secas
ao redor das raízes – um idílico cenário para que nele
vivêssemos jovens e não tivéssemos terror maior
do que os animais que desconhecem a palavra morte
e foi construído tendo como alicerce um princípio fundamental
para a tranquilidade de nossa agonia: o princípio da distração,
mas agora há um espelho diante do jardim
e ninguém consegue ser distraído de um espelho.

No começo, a atenção sobre cada detalhe do jardim refletido
causa certo encantamento: a beleza da louça do chá da tarde,
a placidez no semblante das estátuas, a ascensão tortuosa
e dolorosa das flores que buscam o céu com um sentimento
de profunda irmandade, a clareira de grama gasta e batida
no local em que dançamos, certos efeitos de claridade
nas horas em que sol parece evocar a pureza da água,
nós mesmos sentados – deuses que riem.

É preciso algum tempo – mas não tempo maior
do que o percurso de uma tarde – para que a imagem refletida
comece a causar certo incômodo. Então são moscas
que pousam sobre o resto de comida nos pratos
e voam em torno de nossas cabeças? E este bolor
no coração das estátuas não é incompatível
com o clima de sol perpétuo? Há também galhos
quebrados, com trapos sujos de sangue presos
aos espinhos, como que a delimitar o local
onde ocorreu uma cena de violência pouco comentada
durante o sarau. E sob o chão da clareira
não há sinais da presença de um formigueiro
e isso não explica por que nunca dançamos descalços
e por que enterramos os mortos em caixões?
745
Daniel Francoy

Daniel Francoy

Para pichar nos muros da cidade sitiada

Agora não há mais nada entre nós e o fim do mundo.
Toda quarentena é falha.
Eu tenho medo do ar que você respira.
A contagem dos mortos é sempre imprecisa.
Agora vivemos a vida adiada.
Há algo mais do que pássaros e ratos aqui.
Não confie no lucro anunciado.
Há homens com rifles nas esquinas.
Tudo o que conheci está sepultado.
Você ainda acredita que há dias sem mortos?
668
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Sinos de Oxford

Cantai, sinos, sinos
Cantai pelo ar
Que tão puros, nunca
Mais ireis cantar
Cantai leves, leves
E logo vibrantes
Cantai aos amantes
E aos que vão amar.

Levai vossos cantos
Às ondas do mar
E saudai as aves
Que vêm de arribar
Em bandos, em bandos
Sozinhas, do além
Oh, aves! ó sinos
Arribai também!

Sinos! dóceis, doces
Almas de sineiros
Brancos peregrinos
Do céu, companheiros
Indeléveis! rindo
Rindo sobre as águas
Do rio fugindo...
Consolai-me as mágoas!

Consolai-me as mágoas
Que não passam mais
Minhas pobres mágoas
De quem não tem paz.
Ter paz… tenho tudo
De bom e de bem...
Respondei-me, sinos:
A morte já vem?
1 233
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Explicação

Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo o mundo tem sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de fôlha-de-flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.

Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.

Meu verso me agrada sempre. . .
Êle às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.

Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.

Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.

Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola. . .
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
c sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.

Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era. . .
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.

Quem me fêz assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.

Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?
1 768
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Malvindo

Vive dando cabeçada.
Navegou mares errados,
perdeu tudo que não tinha,
amou a mulher difícil,
ama torto cada vez
e ama sempre, desfalcado,
com o punhal atravessado
na garganta ensandecida.
Este, o triste cavaleiro
de tristíssima figura
que nem mesmo teve a graça
de estar ao lado de Alonso
e poder narrar eventos
nos quais entrou de mau jeito
mas com sabor de epopeia.
Nada a fazer com este tipo
avesso a qualquer romança
ou ode, apenas terráqueo,
ou nem isso, extraterráqueo,
de quem não se ouve um grito
mais além do que gemido,
nem uma palavra lúcida
varando o cerne das coisas
que esperam ser reveladas
e nós todos pressentimos.
Inútil corpo, alma inútil
se não transfunde alegria
e esperança de renovo
no universo fatigado
em que repousa e não ousa.
Sua ficha — foi rasgada,
por ausência de sinais.
Seu nome — por que sabê-lo?
E sua vida completa
já nem é vida, é jamais.
1 155
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Princesa da Cidade Extrema Ou a Morte Dos Ritos

Quando o palácio do rei do Estio foi invadido
Isô princesa da Cidade Extrema
Inclinou gravemente a cabeça pequena
E em seu sorriso de coral os dentes brilharam como grãos de arroz
Quando levaram sua colecção de jades
O seu leito de sândalo
O sorriso franziu sua narina fina
Suas pestanas acenaram como borboletas
Quando levaram suas jarras vermelhas seus livros de estampas
Ela continuou flexível e serena
Suas pestanas aplaudiram como leques pretos
Seus lábios recitaram a sentença antiga:
Aquele que é despojado fica livre
No lago viu-se
Ela mesma era
Flexível e brilhante como seda
Fresca e macia como jade
Colorida e preciosa como estampa
Serena como seda dormiu nessa noite sobre esteiras
Porém a aurora do tempo novo despontou na cidade
Quando ela acordou
O cortejo das mãos não acorreu
A mão que na jarra põe a flor
A mão que acende o incenso
A mão que desenrola o tapete
A mão que faz cantar a música das harpas
A longa subtil mão precisa que pinta o contorno dos olhos
A mão fresca e lenta que derrama os perfumes
Mão nenhuma invoca o espírito dos deuses
Protectores do tecto
Mão nenhuma dispõe o ritual antiquíssimo que introduz
O fogo linear do dia
Mão nenhuma traça o gesto que constrói
A forma celeste do dia
As vozes dizem:
Ergue-te sozinha
Não és ídolo não és divina
Nenhuma coisa é divina
Como seda no chão cai desprendida
Assim ela esvaída
Quando a si torna não torna à sua imagem
Tudo é abolido e bebido em repentina voragem
O colóquio dos bambus calou-se
Nem a rã coaxa
Como caule ao vento seu pescoço fino baloiça
Suas pestanas permanecem imóveis como as do cego que há milénios
Junto da ponte não vê o rio
Em seus vestidos tropeça como o cego
Suas mãos tacteiam o ar
Muito alto ouve ranger o céu
São os deuses rasgando suas sedosas bandeiras de vento
Para não ouvir o silvo dos gumes acerados
Mergulha no lago até ao lodo
Depois flutua muitos dias
No centro da corola que formam
Os seus largos vestidos espalhados
1 152
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Estrela Polar

Eu vi a estrela polar
Chorando em cima do mar
Eu vi a estrela polar
Nas costas de Portugal!
Desde então não seja Vênus
A mais pura das estrelas
A estrela polar não brilha
Se humilha no firmamento
Parece uma criancinha
Enjeitada pelo frio
Estrelinha franciscana
Teresinha, mariana
Perdida no Pólo Norte
De toda a tristeza humana.
1 407
José Saramago

José Saramago

Soneto Atrasado

De Marília os sinais aqui ficaram,
Que tudo são sinais de ter passado:
Se de flores vejo o chão atapetado,
Foi que do chão seus pés as levantaram.

Do riso de Marília se formaram
Os cantos que escuto deleitado,
E as águas correntes neste prado
Dos olhos de Marília é que brotaram.

O seu rasto seguindo, vou andando,
Ora sentindo dor, ora alegria,
Entre uma e outra a vida partilhando:

Mas quando o sol se esconde, a noite fria
Sobre mim desce, e logo, miserando,
Após Marília corro, após o dia.
1 362
José Saramago

José Saramago

Natal

Nem aqui, nem agora. Vã promessa
Doutro calor e nova descoberta
Se desfaz sob a hora que anoitece.
Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.
Dessa velha ilusão desenganemos:
É dia de Natal. Nada acontece.
2 427
Daniel Francoy

Daniel Francoy

OS LIMITES DO INVERNO

Serpenteio, nos limites do inverno,
por uma alameda de condomínios
com nomes de principados e prédios
com nomes de ilhas mediterrâneas.
Entre mim e o outro, intransponível,
uma fria e úmida aragem.
A cidade aparece lá embaixo
sob a garoa: opaca, névoa leitosa.
A imensidão é uma força que fracassa
e a chuva é alheia ao cão que arrasta a pata,
ao cadáver enterrado na semana passada,
às rachaduras na parede da casa de família,
ao pássaro gris que luta para se manter em voo
e ao lixo na margem do rio
em meio à bruxa assassinada.
709
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Soneto de Londres

Que angústia estar sozinho na tristeza
E na prece! que angústia estar sozinho
Imensamente, na inocência! acesa
A noite, em brancas trevas o caminho

Da vida, e a solidão do burburinho
Unindo as almas frias à beleza
Da neve vã; oh, tristemente assim
O sonho, neve pela natureza!

Irremediável, muito irremediável
Tanto como essa torre medieval
Cruel, pura, insensível, inefável

Torre; que angústia estar sozinho! ó alma
Que ideal perfume, que fatal
Torpor te despetala a flor do céu?

Londres, 1939
1 157
João Lobeira

João Lobeira

Amigos, Eu Nom Posso Bem Haver

Amigos, eu nom posso bem haver,
nem mal, se mi nom vem de mia senhor;
e pois m'ela faz mal e desamor,
bem vos posso com verdade dizer:
       que a mim aveo em guisa tal
       que vi todo meu bem por gram meu mal.

Ca vi ela, de que m'assi avém,
que já nom posso, assi Deus mi perdom!,
d'al haver bem, nem mal, se dela nom;
e pois end'hei mal, posso dizer bem
       que a mim aveo em guisa tal
       que vi todo meu bem por gram meu mal.

Pois bem nem mal nom m'é senom o seu,
e que mi o bem falec'e o mal hei,
e pois meu tempo tod'assi passei,
com gram verdade posso dizer eu
       que a mim aveo em guisa tal
       que vi todo meu bem por gram meu mal.
648
João Lobeira

João Lobeira

Se Soubess'ora Mia Senhor

Se soubess'ora mia senhor
que muit'a mi praz d'eu morrer
ante ca sa ira temer,
(que houv' e que sempre temi
mais ca morte, des que a vi)
pesar-lh'-ia mais doutra rem
d'eu morrer, pois a mi praz en.

Esto entend'eu do seu amor,
ca, des que a vi, vi-lh'haver
sempre pesar do meu prazer
e sempre sanha contra mi;
e por esto entend'eu assi:
que da morte, que m'ora vem,
pesar-lh'-á, porque é meu bem.

Desto sõo já sabedor;
e ar prazer-mi-á de saber:
des que eu mort'[assi] prender,
que[m] lhi sofrerá des ali
tantas coitas com'eu sofri?
Eu creo que lhi falrá quem,
pero m'ela tev'em desdém,

des que a vi; e se pavor
eu nom houvesse de viver
(o que Deus nom leixe seer),
diria quanto mal prendi
dela, por bem que a servi,
e de como errou o sem
contra mi; mais nom mi convém.
526
Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

Não tenho pátria, nem glória

(...)

O RETIRANTE

Não tenho pátria, nem glória...
Embora — sinal da fome —
Nas páginas secas da história
Haja o meu nome e renome.

Mateus, Bastião e Catirina entrando outra vez em cena,
encontram o retirante e a ele se dirigem.

MATEUS

Como é que vens acabado
Velho amigo, meu irmão
Há tanto tempo largado
Pelas sendas do sertão.

RETIRANTE

Sou, de acabado, tão pouco...
A pouco estou reduzido,
Ouve cantar galo rouco
Meu coração comovido...

(pausa)

RETIRANTE
(continuando):

Sou uma sombra sem corpo,
Sou um rosto sem pessoa,
Um vento sem ar soprando,
Sem som, um canto, uma loa.

Nem as palavras definem
O meu tão grande vazio,
Todo o gesto que me exprime
Todo o meu gesto é baldio.

Todo o ardor que em mim renasce
Se extingue com um assovio...
Em mim não há claridades
Sou, apagado, um pavio.
O tecido que me veste
Não tem trama, nem cadeia.
Meus passos são muito leves
Não deixam marca na areia.
Meu andar é curto e breve
Mas contém a vastidão
Como é leve o que me pesa
Meu ausente matolão.

Perto vou, mas vou por longe
Vou junto, mas vou sozinho
Em sombra: burel de monge
Caminho meu descaminho.

(...)


In: CARDOZO, Joaquim. O coronel de Macambira: bumba-meu-boi em dois quadros. Introd. Osmar Barbosa. Il. Poty. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.68-69. (Prestígio). Poema integrante da série 2o. quadro.
1 211
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Soneto a Octávio de Faria

Não te vira cantar sem voz, chorar
Sem lágrimas, e lágrimas e estrelas
Desencantar, e mudo recolhê-las
Para lançá-las fulgurando ao mar?

Não te vira no bojo secular
Das praias, desmaiar de êxtase nelas
Ao cansaço viril de percorrê-las
Entre os negros abismos do luar?

Não te vira ferir o indiferente
Para lavar os olhos da impostura
De uma vida que cala e que consente?

Vira-te tudo, amigo! coisa pura
Arrancada da carne intransigente
Pelo trágico amor da criatura.

Oxford, 1939
1 134
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Queda

A tarde cai. Nós caímos na tarde
numa antecipação de morte sem dor.
Em um desvão do corpo bruxuleia a chama
que o dia claro alimentava, ardência.

Cai a tarde... Como foi? tarde
é um cair na faixa sigilosa
do ser imóvel em que nos transformamos
e essa hora de exploração do dia,
fria.

Não importa o sol regresse com o prestígio
de reinventar a vida albente.
A tarde, a triste tarde caiu. Caímos
imorredouramente.
1 530
João Mendes de Briteiros

João Mendes de Briteiros

Estranho Mal E Estranho Pesar

Estranho mal e estranho pesar
é hoje o meu de quantos outros som
no mundo já, pois [a] mia senhor nom
praz que eu moira, mais quer que assi
haj'a viver a gram pesar de mim.
E por aquesto, assi Deus me perdom,
muito m'é grave de viver e nom
posso viver se est'hei a passar.

E por en sempre todo[s] m'estranhar
devia[m] esto, com mui gram razom,
pois as mias coitas o meu coraçom
sofrer nom pode; mais sei que, des i,
tanto [so]fresse[m] com'eu sofr'aqui:
hei a viver sem grad'e, des entom,
viv'em pesar; por en me[u] coraçom
nom pode já tanto mal endurar.
636
João Mendes de Briteiros

João Mendes de Briteiros

Que Pret'esteve de Me Fazer Bem

Que pret'esteve de me fazer bem
Nostro Senhor, e nom mi o quis fazer,
quand'entendeu que podera morrer
por vós, senhor! Que logo nom morri!
Matando-m'El fezera-me bem i,
tal que tevera que m'era gram bem.

Ante me quis leixar perder o sem
por vós, senhor; des i soub'alongar
meu bem, que era em mi a morte dar,
e quis que já sempre eu vivess'assi,
em gram coita como sempre vivi,
e que m'houvesse perdudo meu sem.

E vej'eu que mal coraçom me tem
Nostro Senhor, assi El me perdom:
nom me deu morte, que de coraçom
Lhe roguei sempr'e muito Lha pedi,
mais deu-me vida, a pesar de mim,
desejando a que m'em pouco tem.

Atal ventura quis El dar a mim:
fez-me veer-vos e ar fez log'i
a vós que nom déssedes por mi rem.
635
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Meus Amigos, Que Sabor Haveria

Meus amigos, que sabor haveria
d'a mui gram coita, 'm que vivo, dizer
em um cantar que querria fazer;
e pero direi-vos como querria,
se Deus quisesse, dizê-lo: assi
que houvessem todos doo de mi
e nom soubessem por quem mi o dizia!

E por esto rogo Santa Maria
que m'ajud'i; e que me dê poder
per que eu torne na terra viver,
u mia senhor vi em tam grave dia
- sem outras coitas que depois sofri.
Ca nom vivera rem do que vivi,
senom cuidando com'i tornaria!

Mas cativ'eu! De melhor que querria,
de poder eu na terra guarecer,
u a cuidass'eu a poder veer
dôs mil dias ũa vez em um dia?
Já eu est'houv'e perdi-o per mim!
Mas tam mal dia ante nom perdi
os olhos e quant'al no mund'havia!

Ca, par Deus, meor míngua me faria!
285
João Mendes de Briteiros

João Mendes de Briteiros

Amiga, Bem [S]Ei Que Nom Há

Amiga, bem [s]ei que nom há
voss'amigo nẽum poder
de vos falar nem vos veer,
e vedes por que o sei já:
       porque vos vej'ambos andar
       mui tristes e sempre chorar.

Encobride[s]-vos sobejo
de mim, e já o feito eu sei
e poridade vos terrei,
mais vedes por que o vejo:
       porque vos vej'ambos andar
       mui tristes e sempre chorar.

Come se fosse o feito meu,
vos guardarei quant'eu poder,
e negar-mi-o nom há mester,
ca vedes por que o sei eu:
       porque vos vej'ambos andar
       mui tristes e sempre chorar.

Nem choredes, ca o pesar
sol Deus tost'em prazer tornar.
611
Isabel Mendes Ferreira

Isabel Mendes Ferreira

a sombra é a pedra fosforescente

a sombra é a pedra fosforescente. única e visível parte de um todo que relevo.
como jóia ou substância.
papel de veludo.
a desnudar o invisível.
são de claros e escuros os teus olhos. declaro.
para amanhã ser. amanhecendo-te um ser liso e vegetal.
segredo côncavo. na planura da lucidez. alimento feroz de todos os silêncios. pedra. e terra. nascentes curvas. que te esgrimo. na candura dos dias. em desordem.
e

/um sulco. um nome e um adeus/
assim . em fundo. ao fundo.
uma frágil navalha. a colher a saliva. a mudar os cantos da melancolia.
/não de fera/________. chaga ou escama
um sulco. mordente. mordaz.
_________________________ouço o respirar!
600