Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Eu Achei Que Ia Me Dar Bem

eu tinha acabado de vomitar fora da porta do meu carro
misturas vermelhas, vinho, cerveja e uísque.
tarde da noite no sábado
não, cedo na manhã de domingo;
eu não aguentaria muito mais; eu estava sempre
me matando
indo parar em cadeias, hospitais, soleiras de porta, pisos...
traduzido para 7 línguas
tema de meia dúzia de cursos de lit. moderna,
eu ainda não sabia nada,
não queria saber;
forcei o último jato
fechei a porta
e rodei a leste pelo Sunset –
quando vi uma coisa com longos cabelos loiros
vomitando, realmente botando pra
fora – expelindo a vida podre o trago podre –
as calças femininas caídas e arrastadas no chão,
bunda nua sob o luar hollywoodiano de cartolina –
a coisa estava realmente passando mal:
ela arfava, então andava um pouquinho,
arfava, aquela bunda branca toda,
e eu pensei, caralho, vou me dar bem –
já faz uns 2 anos e estou cansado de escrever sobre
punhetas –
mas quando me aproximei
percebi que não eram calças femininas e sim masculinas;
era só um garoto de cabelo comprido com uma grande bunda pelada,
mas ora, como dizia o meu amigão Benny –
“qual diabo é a diferença?”
e eu estava prestes a parar junto dele
quando a viatura o viu
e se intrometeu entre nós
e os dois tiras saltaram
bem felizes e empolgados com seu achado –
“ei, mãe, quê que cê tá fazendo com o furo
de fora?”
o garoto afastou as pernas, jogou os braços para o ar.
“ei, você!”, um dos tiras gritou para mim.
desliguei meus faróis e caí fora devagar como se eu não tivesse
escutado. aí pisei fundo na primeira
à direita. na Gramercy Place com Hollywood Blvd. eu parei
abri a porta e
vomitei de novo.
pobre filho da puta, pensei, em vez de
levá-lo pra casa ou para um hospital
vão levá-lo pra cadeia – aquela bunda branca toda.
talvez eles se aproveitem um pouco. bem, era tarde demais para
mim.
fechei a porta, liguei os faróis, rodei em frente,
tentando lembrar onde eu
morava.
1 101
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Aqui Nesta Cave Dos Soluços

Aqui nesta cave dos soluços
como um ventre vazio
deixo entrar o sol
e um mínimo insecto
me distrai
606
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Outro

Às vezes, na hora trêmula em que os espaços desmancham-se em neblina
E a gaze da noite se esgarça suspensa na bruma dormente
Eu sinto sobre o meu ser uma presença estranha que me faz despertar
angustiado
E me faz debruçar à janela sondando os véus que se emaranham dentre as
folhas...
Fico... e muita vez os meus olhos se desprendem misteriosamente das
minhas órbitas
E presos a mim vão penetrando a noite e eu vou me sentindo encher da
visão que os leva.
V ozes e imagens chegam a mim, mas eu inda sou e por isso não vejo
V ozes enfermas chegam a mim — são como vozes de mães e de irmãs
chorando
Corpos nus de crianças, seios estrangulados, bocas opressas na última
angústia
Mulheres passando atônitas, espectros confusos, diluídos como as visões
lacrimosas.
E de repente eu sou arrancado como um grito e parto e penetro em meus
olhos
E estou sobre o ponto mais alto, sobre o abismo que desce para a aurora que
sobe
Onde na hora extrema o rio humano se despeja vertiginosamente e de onde
surgirá
Lívido e descarnado, quando o pálido sangue do Sol morrendo escorrer da
face verde das montanhas.

Mas por que estranho desígnio foi diferente a angústia daquela manhã
tristíssima
Por que não vieram até mim as lamentações de todas as madrugadas
Por que quando eu caminhei para o sofrimento, foi o meu sofrimento que
[eu vi estendido sobre as coisas como a morte?
Ai de mim! a piedade ferira o meu coração e eu era o mais desamparado
O consolo estava nas minhas palavras e eu era o único inconsolável
A riqueza estivera nas minhas mãos e eu era pobre como os olhos dos
cegos...
Na solidão absoluta de mil léguas foi o meu corpo que eu vi acorrentado ao
pântano infinito
Foi a minha boca que eu vi se abrindo ao beijo da água ulcerada de flores
leprosas.
Dormiam sapos sobre a podridão das vitórias moribundas
E vapores úmidos subiam fétidos como as exalações dos campos de guerra.
Eu estava só como o homem sem Deus no meio do tempo e sobre minha
cabeça pairavam as aves da maldição
E a vastidão desolada era grande demais para os meus pobres gritos de
agonia.
De fora eu vi e senti medo — como que um ávido polvo me prendia os pés
ao fundo da lama
Eu gritei para o miserável que erguesse os braços e buscasse a
[música que estava no pântano e na pele desfeita das flores intumescidas
Mas ele já nada parecia ouvir — era como o mau ladrão crucificado.

Oh, não estivesse ele tão longe de meus pés e eu o calcaria como um verme
Não fosse minha náusea e eu o iria matar no seu martírio
Não existisse a minha incompreensão e eu lhe desfaria a carne entre meus
dedos.
Porque a sua vida está presa à minha e é preciso que eu me liberte
Porque ele é o desespero vão que mata a serenidade que quer brotar em
mim
Porque as suas úlceras doem numa carne que não é a dele.
Mas algum dia quando ele estiver dormindo eu esquecerei tudo e afrontarei
o pântano.
Mesmo que pereça eu o esmagarei como uma víbora e o afogarei na lama
podre
E se eu voltar eu sei que as visões passadas não mais povoarão os meus
olhos distantes
Eu sei que terei forças para comer a terra e ficar escorrendo em sangue

como as árvores
Parado diante da beleza, agasalhando os príncipes e os monges, na
contemplação da poesia eterna.
1 242
Emílio Moura

Emílio Moura

Renúncia

Se eu cheguei a esta renúncia total, foi porque o meu sofrimento me transfigurou sem que eu o percebesse.
Aqui estou, tímido e humilde.
Parece que aqui estou há séculos.

Meus olhos já não compreendem outra realidade.

A realidade que amei dorme na sombra.

1 069
Herberto Helder

Herberto Helder

Três Canções do Epiro - Canção da Laranja Vermelha

Disseram-me que estás doente, laranja vermelha.
Estás doente da garganta, e eu estou mal da cabeça.
— Sobre as lajes em volta da igreja,
estavam sentadas três raparigas
atando os cabelos com fitas verdes.
Três túmulos se abriram e deles saíram
três belos rapazes.
Ó coração doloroso, consola-te a ti mesmo —
dores iguais a essas já o mundo viu muitas.
Coração doloroso que não estás só no mundo.
1 101
Adélia Prado

Adélia Prado

Para Perpétua Memória

Depois de morrer, ressuscitou
e me apareceu em sonhos muitas vezes.
A mesma cara sem sombras, os graves da fala
em cantos, as palavras sem pressa,
inalterada, a qualidade do sangue,
inflamável como o dos touros.
Seguia de opa vermelha, em procissão,
uma banda de música e cantava.
Que cantasse, era a natureza do sonho.
Que fosse alto e bonito o canto, era sua matéria.
Aconteciam na praça sol e pombos
de asa branca e marrom que debandavam.
Como um traço grafado horizontal,
seu passo marcial atrás da música,
o canto, a opa vermelha, os pombos,
o que entrevi sem erro:
a alegria é tristeza,
é o que mais punge.
1 331
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Três Respostas Em Face de Deus

Familles, je vous hais! foyers clos; portes refermées; possessions jalouses
du bonheur.
A. Gide

C'est l'ami ni ardent ni faible. L'ami.
Rimbaud

…ô Femme, monceau d'entrailles, pitié douce Tu n'est jamais la soeur de
charité, jamais
Rimbaud

Sim, vós sois... (eu deveria ajoelhar dizendo os vossos nomes!)
E sem vós quem se mataria no presságio de alguma madrugada?
À vossa mesa irei murchando para que o vosso vinho vá bebendo
De minha poesia farei música para que não mais vos firam os seus acentos
dolorosos
Livres as mãos e serei Tântalo — mas o suplício da sede vós o vereis
apenas nos meus olhos
Que adormeceram nas visões das auroras geladas onde o sol de sangue não
caminha...

E vós!... (Oh, o fervor de dizer os vossos nomes angustiados!)
Deixai correr o vosso sangue eterno sobre as minhas lágrimas de ouro!
Vós sois o espírito, a alma, a inteligência das coisas criadas
E a vós eu não rirei — rir é atormentar a tragédia interior que ama o
silêncio
Convosco e contra vós eu vagarei em todos os desertos
E a mesma águia se alimentará das nossas entranhas tormentosas.

E vós, serenos anjos... (eu deveria morrer dizendo os vossos nomes!)

Vós cujos pequenos seios se iluminavam misteriosamente à minha presença
silenciosa!
V ossa lembrança é como a vida que não abandona o espírito no sono
Vós fostes para mim o grande encontro...
E vós também, ó árvores de desejo! Vós, a jetatura de Deus enlouquecido
Vós sereis o demônio em todas as idades.
1 039
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta de Orfeu a Eurídice (4)

Nessas tardes em que despias o coração, e mo
entregavas num gesto de orvalho primaveril, o calor
de um sorriso de olhos fechados atravessava-me
a alma, e misturava-se com a terra húmida
das sensações. Podia dizer-te: este é o pólen que nenhum
insecto poderá roubar da corola onde se fabbrica o éter
do amor; e ouvir o teu riso, dissipando um temporal
de emoções. Nós éramos um - e essa unidade dividia-nos,
quando no seu interior estremecia uma hesitação,
corrompendo o espanto do outro.

Porque não pôde ser assim, sempre, e a ilusão
se dissipou como se uma corrente de ar tivesse atravessado
o quarto, levando com a sua passagem o brilho que
os teus lhos me davam? Ou não existe já, esse amor,
nalgum compartimento do caminho que nos abre
a agonia da ausência? Tu,
na decisão do teu silêncio; e eu, escudado pelo vazio que
envolve os seres que a vida rejeita. Mas que outras provas
querias? Só o teu nome, repetido na clausura
do inferno? Ou a secura dos lábios que o dizem, como
se a palavra não absorvesse o doce bálsamo
do teu corpo?

Vê o que ouso: esta vontade de perecer,
um sonho de eternidade, a ilusão do encontro
para além do humano, onde os deuses se
dissipam com a primeira luz do dia. Falo de mim, então,
como se o meu tempo fosse outro; rompo as fronteiras
que o divino impõe, e essas que eu próprio me coloco,
seguindo o caminho de um astro hostil. Alinho
na berma todas as perguntas que não voltarão a ter resposta: Onde estás? Que negra cortina desceu
sobre o passeio de onde eu te via chegar, enquanto a esplanada
se enchia com os nómadas estivais? Quando voltarei a ouvir a tua voz cansada, agora que um lamento
de pálpebras se sobrepõe a esse fogo de artifício que
batia contra as janelas do norte?

Mas é outro movimento de raízes. Empurra-as
uma fermentação de fogo na fulgurância dos campos. Lembras-te?
O sémen que escorre pela pedra, enquanto o teu rosto
se transforma - ó amante melancólica do outono,
por quem os sinos chamam, e cuja beleza escorre numa pele
de nuvem, encobrindo a tristeza que adivinho
numa súbita inflexão de voz. Falo, por fim, da medida
das palavras: o que te obriga a cortar este tempo que nos resta
com a lâmina do desânimo? Possuí-te sobre a pedra
da vida, limpando o musgo das convicções; e é aí
que te reencontro, como se o céu mantivesse o azul,
imóvel, sugerindo a harmonia do presente.

Falo-te, ainda, ó última das mulheres amadas, como
se me pertencesses! E um sabor de cinza nasce do silêncio
que me responde.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 52 a 54 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018









1 263
Adélia Prado

Adélia Prado

Dois Vocativos

A maravilha dá de três cores:
branca, lilás e amarela,
seu outro nome é bonina.
Eu sou de três jeitos:
alegre, triste e mofina,
meu outro nome eu não sei.
Ó mistério profundo!
Ó amor!
2 776
Charles Bukowski

Charles Bukowski

As Condições

atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
marcado pelo verme,
contestado por uma população mundial
que a mim não tem referência.
atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
meus amigos, quase nunca houve
um tempo amável.
demonstrei coragem, bebedeira e
medo.
o coração segue funcionando
em meio ao terror inquestionável.

sob as condições do sol
preparo-me para largar
o labor, a dor e qualquer
honra que reste.
1 165
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Que Mui Leda Que Eu Mia Madre Vi

Que mui leda que eu mia madre vi
quando se foi meu amigo daqui,
e eu nunca fui leda nem dormi,
       amiga, depois que s'el foi daquém;
       e ora já dizem-mi del que vem,
       e mal grad'haja mia madre por en.

Ela foi [mui] leda, poilo viu ir,
e eu mui triste, poilo vi partir
de mi, ca nunca mais pudi dormir,
       amiga, depois que s'el foi daquém;
       e ora já dizem-mi del que vem
       e mal grad'haja mia madre por en.

De[s] quando s'el foi daqui a [e]l- rei,
foi mia madre mui led[a], e[u] o sei,
[e] eu fui [mui] triste sempr'e chorei,
       amiga, depois que s'el foi daquém;
       e ora já dizem-mi del que vem
       e mal grad'haja mia madre por en.
550
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Canção de Blues

perdão pelo território do meu pranto –
é impróprio, eu sei,
talvez até
hostil

mas o bacon está queimando
o bacon está queimando

noites altas
armadas com metralhadoras
circundam minha tonta e covarde
cama

o bacon
está
queimando

então limpemos nossos tolos
traseiros
finjamos que somos coisas
agradáveis e significativas

não é esse o som
para tentar lograr
o truque mais sujo de
todos?
1 033
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Tempo Concreto

O tempo duro
com estas unhas de pedra
este hálito pobre
de órgãos esfomeados
estas quatro paredes de cinza e álcool
este rio negro correndo nas noites como um esgoto

O tempo magro
em que minhas mãos divididas
nitidamente separadas e caídas
ao longo dum corpo de cansaço
pedem o precipício a hecatombe clara
o acontecimento decisivo

O tempo fecundo
dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres
repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias
das ruas agrestes e pequenas da mágoa
familiar e precisa como uma esmola certa

O tempo escuro
da peste consentida do vício proclamado
da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos
da fome concreta dum sonho proibido
e do sabor amargo não sei de que remorso

O tempo ausente
dos olhos dum desejo de claras cidades
em que acenamos perdidos às soluções erguidas
com vozes bem distintas de cadáveres opressores
com gritos sufocados de problemas supostos

O tempo presente
das circunstâncias ferozes que erguem muros reais
dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos
das anedotas contadas num outro mundo de cafés
e das vidas dos outros sempre fracassadas

O tempo dos sonhos
sem coragem para poder vivê-los
com muralhas de mortos que não querem morrer
com razões demais para poder viver
com uma força tão grande que temos de abafar
no fragor dos versos disfarçados

O tempo implacável
onde jurámos de pé viver até ao fim
maiores do que nós ser todo o grito nu
pureza conquistada no seio da vida impura
um raio de sol de sangue na face devastada

O tempo das palavras
numa circulação sombria como um poço
de ecos incontrolados
de timbres inesperados
como moedas de sangue cunhadas numa noite
demasiado curta e com luar demais

O tempo impessoal
em que fingimos ter um destino qualquer
para que nos conheçam os amigos forçados
para que nós próprios nos sintamos humanos
e este fardo de trevas esta dor sem limites
a possamos levar numa mala portátil

O tempo do silêncio
em que o riso postiço dos fregueses da vida
finge ignorá-lo enquanto soluçamos
de raiva de razão reprimida revolta
e os senhores de bom senso passeiam divertidos

O tempo da razão
em que os versos são soldados comprimidos
que guardam as armas dentro do coração
que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue
a tinta de escrever duma nova canção
750
Carla Dias

Carla Dias

Chove

Chove tuas lágrimas ...
tingem de azul minha visão,
de que a paz é frágil
e a febre é da paixão.

Onde caminham tuas estórias,
descabidas, íntegras estórias?
Passam pela vida e marcam hora
para virar destino ... cada estória.

Chove e tuas mãos jogam-se ao vento,
encharcam de calor um corpo tenso.
Tocam os fantasmas e os devoram ...
apresentam minutos feito horas.

Ensina-me a ser sereno e louco,
controvérsia explícita,
que desfaz enganos e dá de ombros
às mais piegas feridas.

Como viver tão triste e sem cantar,
não escrever versos?
E até patrocinar o esquecimento ...
parir pseudo tédio?

Chove dos teus olhos a madrugada ...
chove tua sina.
Chove e ainda quer enxergar o mar
que cai do céu na tua vida.

909
Natasha Tinet

Natasha Tinet

mice follies

nunca tive um olho mágico que funcionasse
atrás da porta, há sempre um aquário opaco
com peixes que não sabem que respiram
eu toco o relevo das minhas guelras
e abro todas as torneiras da casa
os pés envelhecidos se abrem em cortes de pele morta
deslizam no rinque de gelo da cozinha
já assistimos a esse desenho
torcíamos pelo rato, crescemos
somos o gato achatado contra a parede
preciso fazer um telefonema que não quero
me desculpe esse domingo no peito
eu não esperava escrever agora
mas, na esquina, uma cega disputa trocados
com um saxofonista, conheço esse jazz
você sabe, deus é um sádico
o diabo só tem uma grande autoestima.
729
Carla Dias

Carla Dias

O Estar Humano

Falta, e às vezes tanto,
que deito, choro e adormeço ...
e chego onde nunca estaria
se pudesse escolher.
Quando escolho, é como se estivesse
rompendo-se a magia.
Deixo que me escolham,
os dias bons e os difíceis,
as alegrias e o deboche,
a vergonha e a ... sede.
Sou um ser que sofre de ser,
que ama de amor,
e deita na grama
olhando o céu de fim de tarde.
E datilografo papéis, somo, subtraio.
Espero o instante em que nada
me faça sentir deslocada,
sem espaço ...
esperando que a crueza da vida
me cante em acontecimentos.

887
Martha Medeiros

Martha Medeiros

Tristeza É Quando Chove

tristeza é quando chove
quando está calor demais
quando o corpo dói
e os olhos pesam
tristeza é quando se dorme pouco
quando a voz sai fraca
quando as palavras cessam
e o corpo desobedece
tristeza é quando não se acha graça
quando não se sente fome
quando qualquer bobagem
nos faz chorar
tristeza é quando parece
que não vai acabar
2 213
Adélia Prado

Adélia Prado

A Serenata

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
— só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
1 277
Adélia Prado

Adélia Prado

Psicórdica

Vamos dormir juntos, meu bem,
sem sérias patologias.
Meu amor é este ar tristonho
que eu faço pra te afligir,
um par de fronhas antigas
onde eu bordei nossos nomes
com ponto cheio de suspiros.
1 427
Emílio Burlamaqui

Emílio Burlamaqui

Ninguém

Saio à rua, ninguém fala comigo.
Entretanto, descuidado, não falo com ninguém.
Volto à casa, ninguém deixou recado.
Porém já é tarde, durmo, esqueço,
E não telefono para ninguém.

No cais, o lenço de ninguém se agita
Enquanto entre nós a distância se faz.
E eu, estranhamente, fico olhando o mar,
Sem atinar, sem acenar,
Sem adeus.

O trem chega, a distância se desfaz.
E, no meio de uma multidão indistinta
Que não me diz mais nada,
Distingo ninguém tentando me dizer alguma coisa.
Apesar disso, passo apressado sem escutar
Aquilo que ninguém queria me contar.

Por que será então que,
Mesmo eu não correspondendo a tanta fidelidade
E a tão exato desvelo,
A presença de ninguém persiste assim
Tão intensa e tão densa
Junto a mim?

Será que, qual ave preta
E tal como noutra história,
Ninguém se afastará de mim
Nunca mais?

844
Adélia Prado

Adélia Prado

Canção de Amor

Veio o câncer no fígado, veio o homem
pulando da cama no chão e andando
de gatinhas, gritando: ‘me deixa, gente,
me deixa’, tanta era sua dor sem remédio.
Veio a morte e nesta hora H, a camisa sem botão.
Eu supliquei: eu prego, gente, eu prego,
mas, espera, deixa eu chorar primeiro.
Ah, disseram Marta e Maria, se estivésseis aqui,
nosso irmão não teria morrido. Espera, disse Jesus,
deixa eu chorar primeiro.
Então se pode chorar? Eu posso então?
Se me perguntassem agora da alegria da vida,
eu só tinha a lembrança de uma flor miudinha.
Pode não ser só isso, hoje estou muito triste,
o que digo, desdigo. Mas a Palavra de Deus
é a verdade. Por isso esta canção tem o nome que tem.
1 572
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Poema para Velhos

onde se fala da emoção imperdoável — e vergonhosa
— das lembranças do País chamado Infância.
Nas comarcas de Infância havia vida.
O que fiz dessa vida? Que sei eu?
Onde estão os anseios desse tempo?
Pois havia, no então, as borboletas
de asas azuis, que agora já não vejo,
as quais eu perseguia, sob as sombras
das bananeiras e dos laranjais.
Que fazer, neste instante, para vê-las
em viagem de volta aos tempos idos?

É muito tarde, Amor, é muito tarde.

Cantava o sabiá sobre as palmeiras
que os ventos marinheiros balançavam
como as brisas beijavam as bandeiras.
Como tornar atrás, sem instrumentos,
sem mapas nem roteiros, destruídos
no fragor dos combates os sextantes?

É muito tarde, Amor, é muito tarde.

Os perfumes de Infância, nos cabelos
da bem-amada, onde estarão nesta hora?
As pipas coloridas, os campinhos
de várzea, num País de Juventude?
Tudo isso acabou. Toda a pureza
morreu, estraçalhada pelas Máquinas.
As crianças de agora se realizam
na frieza dos seus computadores,
curtindo os seus Heróis da Violência,
com sangue, sangue. E cada vez mais sangue.

Não pisaram, jamais, terras de Infância.

já não creem no Lobo, na Avozinha
do Chapeuzinho, a Casa da Floresta
construída de puro chocolate.

Papai Noel existe, com certeza,
para aqueles que sempre creram nele.

A Pequena Sereia, Os Três Porquinhos,
sandálias de cristal da Cinderela,
e João, Maria, os Ovos de Ouro, tudo,
mesmo o Patinho Feio que era um cisne,
já não são coisas da imaginação.
São tevês, são cinema, sem o apelo
das histórias de Infância.

(Capineiro
do meu Pai, por que me cortas o cabelo?
Minha mãe me penteou, minha Madrasta me enterrou,
pelo figo da figueira que o pássaro picou... )

É muito tarde, Amor, é muito tarde.

Como as, outras histórias, sob a Lua
e sob os copiares, Lobisomens
e Mulas sem Cabeça, e Curupiras
com seus pés para trás, como antevendo
o para trás que cresce em tudo, agora.
E Anhangá, e a Alamoa, e o Negrinho
do Pastoreio entregue ao formigueiro.
Tudo morreu, nas garras do Progresso,
que é um bem, que é um mal inevitável.

A leitura está morta. Os livros todos
deverão ser lançados às fogueiras.
— Menos os bestasséleres que vendem
como vende o pão-quente em padaria.

Resta agora a pergunta: como então
apertar mãos de Acab e de Simbad,
encontrar Aladim, seu servo, o Gênio,
escutar Sherazade, noite a noite?

Tudo acabou, e os sons da vida nova
são pios de Corujas, retalhando
as mortalhas do tempo, do meu Tempo.
Habita agora o Corvo no meu quarto.
Nunca mais voltarei a Infância, a antiga
pátria dos sonhos bons, das esperanças.

É muito tarde, Amor, é muito tarde.
1 441
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Vedes, Amigo, Ond'hei Gram Pesar

Vedes, amigo, ond'hei gram pesar:
sei muitas donas que sabem amar
seus amigos e soem-lhis falar
e nom lho sabem, assi lhis avém;
e nós sol que o queiramos provar,
       log'é sabud'e nom sei eu per quem.

Tal dona sei eu, quando quer veer
seu amigo, a que sabe bem querer,
que lho nom podem per rem entender
o[s] que cuidam que a guarda[m] mui bem;
e nós sol que o queiramos fazer,
       log'é sabud'e nom sei eu per quem.

Com'eu querria, nom se guis'assi:
falar vosco, que morredes por mi,
com'outras donas falam, e des i
nunca lhis mais podem entender rem;
e nós [sol] ante que cheguemos i,
       log'é sabud'e nom sei eu per quem.

Coita lhi venha qual ora a nós vem
per quem nos a nós tod'este mal vem.
538
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

Misturam-se ao rumor do mar

Misturam-se ao rumor do mar,

mas são e serão sempre o que são:
ecos de tentativas de conversa

               em línguas estranhas entre elas,

dentro dos tumbeiros, a caminho
de novos sucessivos desastres.

                Como ouvi-las sem tentar inter-

pretá-las, dada a total impossibi-
lidade de ignorar suas cadências,

                suas inflexões, o granulado dos

seus timbres, seu quê de coisa e de
água fluindo em meio a água e mais

                água e um nunca se acabar de água?
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