Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Tarde de Maio

Como esses primitivos que carregam por toda parte o
[maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa. . .
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

18 - SUMMER MOMENTS

SUMMER MOMENTS

I

The sky is blue
The glad grass green.
My sad eyes woo
The alien scene.

O could my heart
Partake of it
And feel no smart
Feeling life flit!

I have no home,
No hours save pain.
Sweet breezes, come
Into my brain!

Great river so
Quiet and true,
Teach me to go
Through life like you!

I have no rest.
My flowers have faded.
What was that quest
My will evaded?

Even what I wish
I care not for.
My heart is rich
And my love poor.

O golden day,
Come into me
And my soul ray
With sunlit glee!

Let me be merely
A window-pane
You pass through, clearly
A warmed no-pain.

I faint and shiver
Hearing life come.
O passing river,
Where is my home?

O happy hours
That the fields wear,
Fresh summer showers!
O my despair!

O glad horizons!
O happy hills!
What pain imprisons
My struggling wills?

What is between
Myself and me?
What should have been
Lest this should be?

My life no more
Ever to be
Than a lone shore
Struck by the sea!

What fate, what power
Of dark despair
Makes each fair hour
Taste as not fair?

O for some rest!
Give me a home,
A hope, a nest
Not to stray from!

Somewhere in life
Sure there must be
Something not strife
Waiting for me.

Lead me to it,
O happy day!
Make my heart fit
Thy going away!

Wake me the hopes
At least, though false.
My spirit gropes
Round prison-walls.

Low voice of streams,
Sweet summer's wife –
Why made I dreams
My only life?
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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Pietá

Já lívido repousa em seu regaço.
Já não escuta, não vê, não ri, não fala.
Aquele que foi Seu filho, Ela o embala
Morto, alheia a tempo e espaço.

O mistério parou no limiar dos assombros.
Dos irados profetas, das rígidas escrituras
Sobra um Deus morto; e os únicos escombros
São a atónita aflição das criaturas.

Eles choram, vários, como vários são
Sua revolta e sua dor. Absorto,
O olhar da Mãe escorre, inútil, no chão.
Ela, o que chora? O Deus parado - ou o filho morto?

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

16 - LULLABY

LULLABY *

My heart is full of lazy pain
And an old English lullaby
Comes out of that mist of my brain.

Upon my lap my sovereign sits
And sucks upon my breast;
Meantime his love maintains my life
And gives my sense her rest.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

I would give all my singing trade
To be the distant English child
For whom this happy song was made.

When thou hast taken thy repast,
Repose, my babe, on me;
So may thy mother and thy nurse
Thy cradle also be.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullably, mine only joy!

There must have been true happiness
Near where this song was sung to small
White hands clutching a mother's dress.

I grieve that duty doth not work
All that my wishing would,
Because I would not be to thee
But in the best I should.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

O what a sorrow comes to me
Knowing the bitterness I have
While that child had this lullaby!

Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine,
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

My heart aches to be able to weep.
O to think of this song being sung
And the child smiling in its sleep!

Upon my lap my sovereign sits
And sucks upon my breast;
Meantime his love maintains my life
And gives my sense her rest.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

I was a child too, but would now
Be the child, and no other hearing
This song low-breathed upon its brow.

When thou hast taken thy repast,
Repose, my babe, on me,
So may thy mother and thy nurse
Thy cradle also be.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

O that I could return to that
Happy time that was never mine
And which I live but to regret!

I grieve that duty doth not work
All that my wishing would,
Because I would not be to thee
But in the best I should.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

Ay, sing on in my soul, old voice,
So motherfully laying to sleep
The babe that quietly doth rejoice.

Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

Sing on and let my heart not weep
Because sometime a child could have
This song to lull him into sleep!

Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

Somehow somewhere I heard this song,
I was part of the happiness
That lived its idle lines along.

Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy
Sing lullaby, mine only joy!

Ay, somehow, somewhere I was that
Child, and my heart lay happy asleep.
Now – oh my sad and unknown fate!


* The «Lullaby» quoted is the 134th. poem in Palgrave's Golden Treasury. It was taken by him from Martin Peerson's Private Music, a Song-Book of 1620. The «Lullaby» is here given twice over, and the last stanza twice again.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Previsão do Tempo

O espírito de rebelião
também chamado de tristeza e desânimo
começou de novo sua ronda sinistra.
Sua treva e seu frio são de inferno.
Por causa de maio, esperava dias felizes;
e ensolarado até agora só o recado de Albertina,
escolhida pra cantar Jesus é o pão do céu.
Pão sem manteiga, Albertina,
é bom que o saiba.
É com ervas amargas que o comemos.
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Antero de Quental

Antero de Quental

Nox

Noite, vão para ti meus pensamentos,
quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno mal , que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece, alguns momentos...

Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o mundo, te esquecesses,

E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!

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Cláudio Manuel da Costa

Cláudio Manuel da Costa

I (Sonetos) [Para cantar de amor tenros cuidados

Para cantar de amor tenros cuidados,
Tomo entre vós, ó montes, o instrumento;
Ouvi pois o meu fúnebre lamento;
Se é, que de compaixão sois animados:

Já vós vistes, que aos ecos magoados
Do trácio Orfeu parava o mesmo vento;
Da lira de Anfião ao doce acento
Se viram os rochedos abalados.

Bem sei, que de outros gênios o Destino,
Para cingir de Apolo a verde rama,
Lhes influiu na lira estro divino;

O canto, pois, que a minha voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz digno entre vós também de fama.


Publicado no livro Obras (1768).

In: COSTA, Cláudio Manuel da. Obras. Introd. cronol. e bibliogr. Antônio Soares Amora. Lisboa: Bertrand, 1959. (Obras primas da língua portuguesa
4 979 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

REGRET

REGRET

I would that I were again a child
And a child you sweet and pure,
That we might be free and wild
In our consciousness obscure;
That we might play fantastic games
Under trees silent and shady,
That we might have fairy-book names,
I be a lord, you a lady.

And all were a strong ignorance
And a healthy want of thought,
And many a prank, many a dance
Our unresting feet had wrought;
And I would act well a clown's part
To your childish laughter winning,
And I would call you my sweetheart
And the name would have no meaning.

Or sitting close we each other would move
With tales that now gone are sad;
We would have no sex, would feel no love,
Good without fighting the bad.
And a flower would be our life's delight
And a nutshell boat our treasure:
We would lock it in a cupboard at night
As in memory a pleasure.

We would spend hours and days like a wealth
Of goodness too great to cloy,
We would deep enjoy innocence and health
Knowing not we did enjoy...
Ah, what bitterest is is that alone
Now one feeling in me I trace –
That knowledge of what from us hath gone
And of what it left in its place.


Alexander Search

May 29th. 1907
4 767 1
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Buenos Aires [2]

Y la ciudad, ahora, es como un plano
De mis humillaciones y fracasos;
Desde esa puerta he visto los ocasos
Y ante ese mármol he aguardado en vano.
Aquí el incierto ayer y el hoy distinto
Me han deparado los comunes casos
De toda suerte humana; aquí mis pasos
Urden su incalculable laberinto.
Aquí la tarde cenicienta espera
El fruto que le debe la mañana;
Aquí mi sombra en la no menos vana
Sombra final se perderá, ligera.
No nos une el amor sino el espanto;
Será por eso que la quiero tanto.


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 261 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 430 1
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Alma demais

Alma demais pra viver,
Alegria do meu peito.
Ai tanto sonho perdido,
Ai tanto sonho desfeito!
1 511 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SONNET - Could I say what I think, could I express

SONNET

Could I say what I think, could I express
My every hidden and too-silent though,
And bring my feelings, in perfection wrought,
To one unforced point of living stress.

Could I breathe forth my soul, could I confess
The inmost secrets to my nature brought;
I might be great, yet none to me hath taught
A language well to figure my distress.

Yet day and night to me new whispers bring,
And night, and day from me old whispers take...
Oh for a word, one phrase in which to fling

All that I think and feel, and so to wake
The world; but I am dumb and cannot sing,
Dumb as You clouds before the thunders break.

Alexander Search, May 1904
4 755 1
Antero de Quental

Antero de Quental

Uma amiga

Aqueles que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que a noite evoca o sentimento...

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim... mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnecê-lo!

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Ivaldo Gomes

Ivaldo Gomes

Ao norte de mim

E o mundo gira em círculos,
Cada vez mais fechados.
É como se fosse uma roda,
A moer minhas esperanças
Sem dó nem piedade.

E gira o mundo em mim,
E muda os fusos
E difusos eu fico,
Eu vou.

E olho o norte da
Minha bússola amorosa,
E o magnético aponta.
O meu desapontamento.

E fico girando os pensamentos,
Ungüentos dos meus
Sonhos, desejos.
Lembro dos beijos,
Dados em ti.
Do universo de
Encantos do céu
Da tua boca.

E rouca fica a voz,
O violão e o verso.
E no reverso dos dias,
Ao Norte de mim.

E rola a vida lá fora...
E gira o desejo no peito...

E o meu astrolábio,
Salgado da maresia,
Molhados dos pingos
Das lágrimas.
Que caem assim.

Ai de mim, prisioneiro.
Desse olhar, que roda, roda,
Ao Norte de mim.

879 1
Chico Buarque

Chico Buarque

A Banda

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Pra ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor

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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

El paseo de Julio

Juro que no por deliberación he vuelto a la calle
de alta recova repetida como un espejo,
de parrillas con la trenza de carne de los Corrales,
de prostitución encubierta por lo más distinto: la música.

Puerto mutilado sin mar, encajonada racha salobre,
resaca que te adheriste a la tierra: Paseo de Julio,
aunque recuerdos míos, antiguos hasta la ternura, te saben,
nunca te sentí patria.

Sólo poseo de ti una deslumbrada ignorancia,
una insegura propiedad como la de los pájaros en el aire,
pero mi verso es de interrogación y de prueba
y para obedecer lo entrevisto.

Barrio con lucidez de pesadilla al pie de los otros,
tus espejos curvos denuncian el lado de fealdad de las caras,
tu noche calentada en lupanares pende de la ciudad.

Eres la perdición fraguándose un mundo
con los reflejos y las deformaciones de éste;
sufres de caos, adoleces de irrealidad,
te empeñas en jugar con naipes raspados a la vida;
tu alcohol mueve peleas,
tus griegas manosean envidiosos libros de magia.

¿Será porque el infierno es vacío
que es espuria tu misma fauna de monstruos
y la sirena prometida por ese cartel es muerta y de cera?

Tienes la inocencia terrible
de la resignación, del amanecer, del conocimiento,
por los días del destino
y que ya blanco de muchas luces, ya nadie,
sólo codicia lo presente, lo actual, como los hombres viejos.

Detrás de los paredones de mi suburbio, los duros carros
rezarán con varas en alto a su imposible dios de hierro y de polvo,
pero, ¿qué dios , que ídolo, que veneración la tuya, Paseo de Julio?
Tu vida pacta con la muerte;
toda felicidad, con sólo existir, te es adversa.


"Cuaderno San Martín" (1929)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 104 e 105 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A low, sad wind fills the lone night

A low, sad wind fills the lone night
With its one solitary sound.
I have forgotten what delight
Delight has, in the vague around
All sleep is consecrated ground.

Alas for all I ever hoped!
The sheep crop what it lies beneath.
Its grave is where the mountain sloped
When mountains were, but now the heath
Is all the life above its death.

Moan, solitary wind that wakes
When the day sleeps! Moan vague and low!
That which I never was now slakes
Its thirst where reeds cluster round lakes
Of silence, or mute rivers go.

To-morrow shall be yesterday
Lest life forget what it is ever.
I shall myself cast this away
That I am now, and myself sever
From what of me weeps by this river.

This river of the haunted night
That under stars I do not see
Has neither purpose nor delight.
Moan, solitary wind, and be
This life’s unchanging, shoreless sea!

13/3/1933

now takes
Its sleep where reeds dip into lakes
4 893 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

20 - MONOTONY

MONOTONY

Each hot and shaded ember
Includes the outer wet.
Let us, my life, remember
Our thoughts info regret.

The meaning wind blows colder
Upon the wetted pane.
Our hearts, alas!, feel older
In seeking to live again.

The night hurts. Each red ember
To hotter redness fret!
Alas! When I remember
I wish I could forget.

What vague and cold gusts enter
My soul as by a door!
My soul is the living centre
Of dreams that are no more.

Startle yet more each ember!
Make the fire nearer yet!
How easy it is to remember
When memory means regret!

The wetting wind is higher
All round my senses lone.
My eyes leave not the fire,
My lips a vague name moan.

Shift uselessly each ember!
All our soul is regret.
We regret what we remember
And regret what we forget.

O colder and wilder blowing
The wind through the wet gloom!
On the grave of my past is glowing
A red rose in full bloom.

A darkness lakes each ember.
I stir them not, yet fret.
Our life is to remember
And our wish to forget.

My mystery comes to touch
My shoulder till I dread.
The red rose is dead. Such
As I was is now dead.

Could I wish to forget, pale ember,
Without pining or regret!
Or could I wish to remember
Without wishing to forget!
4 493 1
Florbela Espanca

Florbela Espanca

O Fado

Corre a noite, de manso num murmúrio,
Abre a rosa bendita do luar...
Soluçam ais estranhos de guitarra...
Oiço, ao longe, não sei que voz chorar...

Há um repoiso imenso em toda a terra,
Parece a própria noite a escutar...
E o canto vai subindo e vai morrendo
Num anseio de saudade a palpitar!...

É o fado. A canção das violetas:
Almas de tristes, almas de poetas,
Pra quem a vida foi uma agonia!

Minha doce canção dos deserdados,
Meu fado que alivias desgraçados,
Bendito sejas tu! Ave-Maria!...
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José Duro

José Duro

Alvíssima

(Oração)

Como a Noite, Senhor,é linda
Com seus cabelos de luar…
Não chores mais, Lua bemvinda
Que me fazes também chorar…

Sorrisos do luar d’uma Caveira oca,
Sorrisos do luar enfeitiçando os brejos
Sorrisos do luar a angelizar a boca,
Sorrisos do luar onde escondi meus beijos…

Orações do luar dos lábios de nós ambos,
Orações do luar que os astros não rezaram,
Orações do luar a consagrar os tambos,
Orações do luar, das almas que noivaram.

Cabelos do luar, aveludados, frios,
Cabelos do luar em tranças latescentes;
Cabelos do luar — alvíssimas serpentes,
Cabelos do luar banhando-se nos rios…

Aromas do luar em revoadas francas,
Aromas do luar, a perfumar o céu…
Aromas do luar, sonâmbulos ao léu,
Aromas do luar, por noites todas brancas…

Brancuras do luar dispersas pelos montes…
Brancuras do luar — finos lençois de gelo…
Brancuras do luar, olhai o sete estrelo,
Brancuras do luar, a namorar as fontes…

Veludos do luar tecidos pela lua,
Veludos do luar, de lírios e de rosas…
Veludos do luar, ó vestes preciosas
Veludos do luar vestindo a noite nua…

Trémulos de luar — litanias peregrinas,
Trémulos de luar — ó harmonias cérulas,
Trémulos de luar, nas bocas aspérulas
Trémulos de luar, e lábios das boninas…

Tristezas do luar caindo-nos no peito,
Tristezas do luar, como um dobrar profundo…
Tristezas do luar anestisiando o Mundo,
Tristezas do luar, em lágrimas desfeito…

Lágrimas do luar da Lua aventureira,
Lágrimas do luar, da débil flor dos linhos…
Lágrimas do luar da mágua derradeira,
Lágrimas do luar, de moços e velhimhos…

Saudades do luar, na rama dos ciprestes,
Saudades do luar, há mochos a cantar…
Saudades do luar, são almas a chorar…
Saudades do luar, as podridões agrestes…

Velhinhos corações a verter sangue e máguas,
Velhinhos corações de mocidade negras,
Velhinhos corações — doridas toutinegras,
Velhinhos corações aos tombos pelas frágoas.

Vamos todos pedir à Lua sacrossanta
Na aspiração do Amor, na comunhão do Bem
Que o seu bendito olhar, o seu olhar de Santa,
Nos abençõe agora e para sempre amén!

(in Antologia de Poetas Alentejanos)

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Florbela Espanca

Florbela Espanca

À tua porta

À tua porta há um pinheiro manso
De cabeça pendida, a meditar,
Amor! Sou eu, talvez, a contemplar
Os doces sete palmos do descanso.

Sou eu que para ti agito e lanço,
Como um grito, meus ramos pelo ar,
Sou eu que estendo os braços a chamar
Meu sonho que se esvai e não alcanço.

Eu que do sol filtro os ruivos brilhos
Sobre as loiras cabeças dos teus filhos
Quando o meio-dia tomba sobre a serra...

E, à noite, a sua voz dolente e vaga
É o soluço da minha alma em chaga:
Raiz morta de sede sob a terra!
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Nas salas da embaixada

Nas salas da embaixada
A arquiduquesa sorria...
Coitada... mesmo se via,
tão branca, tão chateada...

E gente entrava e saía
Nas salas de embaixada.
E a arquiduquesa sorria
Cada vez mais chateada...

De vez em quando ao piano
Valsas tocava, coitada
E até ao fim sorria
Sempre branca e chateada...
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Fabio di Ojuara

Fabio di Ojuara

Íntimo

Na alma
há mágoa
anágua
nua.
Teu âmago,
meu âmago.
Amor.

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Chico Buarque

Chico Buarque

Carolina

Carolina
Nos seus olhos fundos
Guarda tanta dor
A dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei que não vai dar
Seu pranto não vai nada mudar
Eu já convidei para dançar
É hora, já sei, de aproveitar
Lá fora, amor
Uma rosa nasceu
Todo mundo sambou
Uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo
Pela janela, ói que lindo
Mas Carolina não viu

Carolina
Nos seus olhos tristes
Guarda tanto amor
O amor que já não existe
Eu bem que avisei, vai acabar
De tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar
Agora não sei como explicar
Lá fora, amor
Uma rosa morreu
Uma festa acabou
Nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela
O tempo passou na janela
Só Carolina não viu

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Florbela Espanca

Florbela Espanca

As Quadras D’Ele Iii

[1]
Há em tudo quanto fitas
Pureza igual à dos céus,
Até são belos meus olhos
Quando lá poisam os teus!

[2]
Que filtro embriagante
Me deste tu a beber?
Até me esqueço de mim
E não te posso esquecer!...

[3]
Está tudo quanto olho
Na ’scuridão mais intensa,
Faltou de teus olhos lindos
A luz profunda e imensa...

[4]
Viver sozinha no mundo
É a minha triste sorte.
Ai quem me dera trocá-la
Embora fosse p’la morte!

[5]
Teus lábios cor das papoilas,
Vermelhos como o carmim,
Não são lábios nem papoilas
São pedaços de cetim.

[6]
Quando um peito amargurado
Adora seja quem for,
Por muito infame que seja
Bendito seja esse amor!

[7]
Tenho por ti uma paixão
Tão forte e acrisolada,
Que até adoro a saudade
Quando por ti é causada.

[8]
Às vezes quando anoitece
Cai em meu peito tal mágoa!...
Quero cantar. E num instante
Sinto os olhos rasos d’água!

[9]
Quando me não quiseres mais
Mata-me por piedade!
Deixares-me a vida, sem ti
É bem maior crueldade!

[10]
Queria ser a erva humilde
Que pisasses algum dia,
Pra debaixo de teus pés
Morrer em doce agonia.

[11]
Há beijos na tua boca
Pode colhê-los quem quer.
Só eu não posso. Vê tu
Que desgraçada mulher!

[12]
Quem me dera um coração
Que por mim bata somente.
Dai-me essa esmola, Senhor,
Para que eu morra contente.

[13]
Há no fado das vielas
Notas tão sentimentais,
Tão delicadas, tão belas,
Que não s’esquecem jamais!

[14]
Andam teus olhos de luto;
Sempre eles de negro andaram,
Pelas feridas que fizeram
Pelas mortes que causaram.

[15]
Olhos negros, noite infinda
Sede meu norte, meu guia,
Ó noite escura e bendita
Sê o meu sol, o meu dia!

[16]
Gosto imenso dumas flores
Muito escuras, quase pretas,
Modestas, lindas graciosas
Que se chamam violetas.

Por isso quando eu morrer,
Em prova do teu amor
Inunda de violetas
O caixão aonde eu for.

[17]
Não sei que têm meus versos;
Alegres quero fazê-los
Mas ficam-me sempre tristes
Como a cor dos teus cabelos.
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