Poemas neste tema

Tristeza e Melancolia

Leal de Souza

Leal de Souza

A Dama de Luto

Entre as musas e ao som das liras, na negrura
Das vestes retratando a dor a que está presa,
Sob o teto feliz da glória e da beleza,
Encontrei, linda e grave, essa nobre figura...

Em seu lábio o ouro vibra e, olente, a voz fulgura,
E sua alma, em clarões espirituais acesa,
Põe, como halos de sombra, auréolas de tristeza
A cabeça pagã da imortal formosura.

Dela, que o agro pesar consola a quem a aviste,
—Fora do mundo, além da vida, sob a Terra,
Na escura paz da morte o bem mais alto existe.

E porque eu meço o horror de suas mágoas, — erra
O meu vulto espectral de cavaleiro triste,
Nas paisagens cristãs que o seu olhar encerra.

744
Jonas da Silva

Jonas da Silva

Vesperal

Erma tarde litúrgica em declínio...
Há no espaço uma estranha barcarola
E o cadáver do Sol em nuvens rola,
O apunhalado príncipe sanguíneo.

Que na terra haja o luto, haja o assassínio
Mas ao crente amedronta e desconsola
O crime junto aos céus, junto à corola
Das estrelas — as rosas de alumínio.

Logo depois que os mármores vetustos
Desças, ó Noite, do pesar, dos sustos,
Depois que as asas de albatroz envergues,

Há de a Lua surgir pálida e etérea,
A Lua, a triste lâmpada sidérea,
O sorriso do azul para os albergues.

1 155
Jonas da Silva

Jonas da Silva

Anátema

Pois que o Mal te fascina e os céus insultas
E não vês nas estrelas fulgurantes
Mais que rochas perdidas, que diamantes
Atirados da terra em catapultas;

Pregarás entre as gentes mais incultas
O teu Verbo de púrpuras flamantes
E em torno a Paz e o Caos, como era dantes,
E o silêncio das cousas já sepultas.

Falarás a linguagem dos videntes
E ninguém nunca há de prestar ouvido
a essas trostes parábolas gementes.

Baterás aos palácios de cem portas
Dos corações e encontrarás, vencido,
Os corações como cidades mortas.

1 035
Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

Flor da Decadência

Sou como o guardião dos tempos do mosteiro!
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.

De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois um som cavado — a enxada do coveiro!

Minhalma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.

— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!

1 169
Irineu Filho

Irineu Filho

Caravana

No alto do céu o sol fuzila...
Embaixo se abre amplo deserto:
Desolação funda e tranqüila
Ao longe paira, paira perto...

Embaixo se abre amplo deserto...
E nem, sequer, um ruído tento
Ao longe paira, paira perto,
Nem mesmo sopra um débil vento.

E nem, sequer, um ruído lento
Quebra, por fim, tal solidão,
Nem mesmo sopra um débil vento,
Fazendo erguer o pó do chão...

Quebra, por fim, tal solidão
Grande tropel que, em marcha insana,
Fazendo erguer o pó do chão,
Vem caminhando — é a caravana!

Grande tropel que, em marcha insana,
Pela planície zombadora
Vem caminhando — é a Caravana
Morta de sede abrasadora!...

Pela planície zombadora
Ei-la que passa e segue adiante,
Morta de sede abrasadora,
Penosamente, vacilante...

Ei-la que passa e segue adiante...
E, sombra, agora, além se desfaz,
Penosamente, vacilante...
Tristeza cruel volve tenaz.

1 011
Hardi Filho

Hardi Filho

Esdrúxulo

A prata, o caviar, a mesa elástica,
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.

O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.

Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio

De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.

Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.

1 321
Ferro do Lago

Ferro do Lago

Soneto

As horas escorrem lentas
na goteira dos segundos:
dentro das tardes cinzentas
erram lamentos profundos.

As estrelas sonolentas
são olhos de moribundos,
refletem lutas cruentas
desenroladas nos mundos...

Sou triste, porém me oculto
dos outros, no desencanto
que é meu e de mais ninguém:

não quero, em meio ao tumulto
dos tristes, sorver o espanto
que os encarcera também.

908
Guerra-Duval

Guerra-Duval

Versos da Noite Má

Desmaiam alegrias e açucenas,
primaveras e rosas rosicler;
já autuneja o verde das verbenas
e o perfume pueril do vetiver.

Abrem os goivos tristes, goivos roxos,
como o viúvo pio roxo de mochos;
roreja sonolenta, lenta a chuva,
— triste noivado roxo de viúva...

A Noite cega, a imensa Noite impura
cobre a Luxúria e o Crime pelos mundos.
(A sombra desleal da Noite escura
lembra os teus olhos fúnebres, profundos!)

No campanário da última esperança
dobra a mortos o sino da Lembrança.
..........................................................
— É noite de assassinos esta noite,
E a minhalma não tem onde se acoitei

922
Goulart de Andrade

Goulart de Andrade

Kosmos

Tens a aurora na boca e a noite escura
Nos olhos; no cabelo em desalinho.
O mar bravo, a floresta, o torvelinho;
E as neves da montanha em tua alvura

Possuis na voz a música e a frescura
Da água corrente; o sussurrar do ninho
Na surdina sutil do teu carinho,
Em que o calor ao travo se mistura...

Cheiras como um vergel! Tens a tristeza
De uma tarde hibernal, em que anda imerso
Teu amor — meu algoz e minha presa —

Em tua alma e teu corpo acha meu verso
Todas as convulsões da natureza
E as harmonias todas do universo.

1 390
Félix Pacheco

Félix Pacheco

Símbolo dos Símbolos

Caveira! Tu conténs a Síntese do Mundo!
Trazes dentro de ti o impalpável Mistério.
És o louro mudado em tinhorão funéreo,
És o Azul transformado em báratro profundo!

Destronados Satãs de olhar meditabundo,
Andam dentro de ti como num cemitério,
E os Faustos doutorais, de aspecto mudo e sério,
Descem do informe Caos ao tenebroso fundo.

Cabalístico signo exótico do Nada,
Sofres, e a tua Dor, Caveira, é sufocada,
Gemes, e o teu gemido esvai-se em Ironia...

Resta-te agora só, depois de tantas glórias,
A lembrança cruel das passadas vitórias
E essa amar a expressão de funda nostalgia!

1 005
Heitor Lima

Heitor Lima

Cinzas

A última brasa ardeu na cinza adusta:
Tudo passou, tudo se fez em poeira...
E na minha alma, que o abandono assusta,
Morre a luz da esperança derradeira.

O amor mais casto, a aspiração mais justa
Têm a desilusão para fronteira...
Um momento de sonho às vezes custa
O sacrifício da existência inteira!

Chama efêmera, o amor! Baldado surto,
A glória! Ah! coração mesquinho e raso...
Ah! pensamento presumido e curto...

E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,
— Tudo se perderá no mesmo ocaso
E se confundirá na mesma ruína.

998
Ernâni Rosas

Ernâni Rosas

Perdi-me

"Perdi-me... toda uma ânsia me revela
sombra de Luz em corpo de olor vago,
a saudade é um passado que cinzela
em presente, a legenda desse orago".

"Errasse em densa noite de beleza,
pisasse incerto, um falso solo de umbra...
sonho-me Orfeu... o Luar, que me deslumbra...
é marulho de luz na profundeza!..."

Toda a alma do azul esvai-se em lua...
nimba-lhe a face um crepe de Elegia...
É alvor do dia numa rosa nua,

que as minhas mãos cruéis sonham colher...
mas ao tocar desfolha-se mais fria,
que a sombra de meus dedos a tremer...

1 061
Félix Pacheco

Félix Pacheco

Símbolo d’arte

Se o meu verso não fora o agonizar de um lírio,
E o suave funeral de um crisântemo roxo,
Diluindo-se, murchando, à vaga luz de um círio,
Entre o planger de um sino e o gargalhar de um mocho;

Se, essas flores do mal, em pleno desabrocho,
Eu não sentira em mim, num êxtase e em delírio,
Meu orgulho de rei julgara vesgo e frouxo,
Pois a glória de um sol não vale esse martírio.

Se, na terra que piso, algum prêmio ambiciono,
É o deserto, a cabala, o claustro, a esfinge, o outono,
O calmo encanto da noite e a augusta paz da morte...

E o meu símbolo darte, o ideal que me fascina,
É a tristeza a florir a graça feminina,
Como um farol pressago a iluminar o norte!

967
Carlyle Martins

Carlyle Martins

Tapera

É quase ruína em meio à selva espessa e bruta,
Dentro da solidão, sem amparo e sem dono,
A tapera que, no ermo, unicamente escuta,
O vento a perpassar, na indolência do outono.

Noite morta. Em redor, o matagal se enluta.
Há um sombrio torpor de tristeza e abandono,
Como se a alma da terra, após contínua luta,
No silêncio dormisse um prolongado sono.

Passam, no alto, a cantar, aves de mau agouro...
Tudo quieto. Há uni mistério, uma angústia infinita,
No véu da escuridão, que no espaço se eleva.

Não brilham no céu plúmbeo e triste os astros de ouro!
E ela, na solitude em que a saudade habita,
É um es erro ue assombra o próprio horror da treva.

890
Carlyle Martins

Carlyle Martins

Boiada

Verde largo é o sertão! No claro firmamento
De um azul de safira, alto, esplêndido e lindo,
O sol é um dardo de oiro. E, num tropel violento,
Passa ao longe a boiada, entre poeira, mugindo.

Tudo quieto ao redor. Em passo tardo e lento,
No áspero desdobrar do caminho ermo e infindo,
À canção do vaqueiro, os bois, em movimento,
Vão vencendo a distância e, em tumulto, seguindo

Ficou longe a fazenda! E os bois, de olhos doridos,
Irmanando-se à paz da imensa natureza,
Têm saudades, talvez: — soltam fundos mugidos...

Vendo-os, quanta amargura o espírito me invade!
— Sinto que esse mugir, de profunda tristeza,
Quer dizer, mas não pode, o que seja a Saudade!

1 115
Celso Pinheiro

Celso Pinheiro

Gilbués

Gilbués! Gilbués! ó terra alvissareira,
Como uma flor sonhando aos ósculos do clima!
Que ternura, que amor, que glória é que te anima,
Ó soberba porção da Pátria Brasileira?!...

Foi aqui que pousou a sílfide primeira,
Esfolhando, a cantar, o bogari da Rima,
E a Santa Primavera, em coleios de esgrima,
Semeou graças, perdões e alou-se feiticeira...

Ó doce Gilbués de Serras e Malhadas,
As blandícias de um céu de seda e de veludo,
Como um desdobramento eterno de Alvoradas!

Que pena eu te avistar sob a angustura louca
Da Mágoa que me põe no inferno deste entrudo:
— Fel no coração, fel nos olhos, fel na boca!...

1 312
Carvalho Aranha

Carvalho Aranha

Mundo Interior

Faz dias, (quantos?) despertei, chorando.
Alguém morreu dentro de mim; parece
Que sinto badalar, saudoso e brando
Um velho sino, convidando à prece.

Dlin, dlon; dlin, dlon... Os ecos despertando
Tal som semelha a voz de quem padece,
Voz desolada, estertorosa, quando
A grande Vaga do Infinito desce...

Ouço um confuso soluçar, em torno;
E a alma pirilampeja, comovida,
Num derradeiro raio, baço e morno.

E escuto, agora, em trêmulos, plangente,
Vibrar o sino, em funeral à vida,
Que, em meu olhar, é como o Sol poente...

876
Álvaro Viana

Álvaro Viana

White Birds

Ando a sonhar uns pobres sonhos brancos,
Cheios de tédio e de desesperança.
Pela estrada da Morte não descansa
Quem só vive a pedir e nada alcança.

Tantos pecados vis, tantos arrancos,
Para arrancar-me a túnica dos flancos
Onde as feridas de combates francos
Ainda sangram na dor que se não cansa.

Mãos em cruz, a pedir por quem espera
A ilusão derradeira nesta vida,
já não sou, ai de mim! quem dantes era.

A sombra estreita de unia cruz — mais nada:
Sob um monte de terra revolvida
Dormirá a Esperança, enluarada.

946
Araújo Filho

Araújo Filho

Fatalismo

Foi meu erro idear maior altura,
para um Sonho tão Pobre e pequenino:
— Ninguém torna em ventura a desventura,
que é mais forte o desígnio do Destino.

Ninguém pode mudar a noite escura
em dia azul, sem nuvens, cristalino...
Da vida, a estrada é tão agreste e dura
que leva muita vez ao desatino.

Gira em torno de tudo uma Alta Força,
que, com letras de fogo, escreve a sorte
de cada Ser... Escreve, e passa adiante...

E do que escrito foi, não há quem torça
ou mude uma só letra, nem durante
a vida, nem também depois da morte.

835
Aluízio Medeiros

Aluízio Medeiros

Canto do Século

Nunca mais ouvirei violinos em surdina
nem pianos em surdina
nem cantos litúrgicos suavíssimos
nem músicas de sinos e de órgãos nunca mais.
O espírito mecânico do século esmagou as doces melodias
Nunca mais riscos de fogo de esferas vermelhas
nem a cabeleira azul de Olga flutuando no espaço
nem alvas gaivotas revoando nunca mais.
O céu está plúmbeo o céu está plúmbeo.
Nunca mais veleiros singrando serenamente os mares
nem canções de águas claras nunca mais.
O navio de aço levou a namorada para a distância
para a bruma silenciosa da distância.
Os mares estão revoltos os mares estão revoltos.
O barulho do mundo sólido desabou com estrondo.
Universo que desfalece que desfalece.
Ai de mim! Estou esmagado estou cego. Ai de mim!
Um anjo metálico com asas de hélices
me arrebatará para cima das nuvens.

936
Batista Cepelos

Batista Cepelos

Ecce Homo

Trazendo à Natureza uma pujança brava
A doirada sazão do viço e da alegria,
Dispersada por tudo, a Vida triunfava,
Enquanto o Sol, por toda a esfera, ria... ria...

Ria de flor em flor; no inseto que passava,
Ria; nas virações, no azul, na pedra fria,
No pássaro gentil, na furna esconsa e cava,
Ria; por toda parte, em suma, ria... ria...

E o Rei da Criação, o Homem, pausado e lento,
Cravou o olhar no céu, numa grande tristeza,
Que era a sombra talvez de um grande pensamento...

E, alto, na solidão, que lhe aumentava o porte,
Em meio às expansões joviais da Natureza,
Ele tinha na fronte a palidez da morte...

1 301
Ana Maria Ramiro

Ana Maria Ramiro

Lembranças

Em um final de tarde ensolarado
sigo por uma estrada poeirenta
meus dedos tocam galhos rebuscados
art nouveau do acaso e do momento.

E se um belo caboclo, com malícia
me acenar ainda, à distância
Ansiarei seu toque, uma carícia
que guardarei como paixão de infância.

Mas tudo não passa de lembranças
enquanto eu piso a pedra fria
e o sol da tarde, e a bonança
se foram em um nebuloso dia.

Assim a vida passa indiferente
levando o viço, o gozo e a emoção
Ficam porém as lembranças gravadas na mente,
e a dor das paixões, cravada no coração.

903
Alcides Freitas

Alcides Freitas

O Bambu

Exposto ao dia, à noite, à beira da lagoa,
Onde se miram, rindo, as boninas do prado,
Vive um velho bambu, velho, curvo e delgado,
A escutar a canção que o triste vento entoa...

Jamais os leves pés de um trovador alado,
Desses que pela mata andam cantando à toa,
Pousara-lhe num ramo! Apenas o povoa
Alta noite, agourento, um corujão rajado...

E vive, — arcaico monge a gemer solitário, —
A sua dor sem fim, o seu viver mortuário,
Tristonho a refletir no fundo azul das águas...

Como o bambu da mata, exposto ao sol e ao vento,
Do deserto sem fim de meu padecimento,
Triste nos olhos teus reflito as minhas mágoas!...

1 861
Alcides Freitas

Alcides Freitas

Hamlet

Não sei que estranha dor meu peito dilacera,
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!

Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!

Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...

Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...

839