Poemas neste tema
Trabalho e Profissão
Heitor C. Gonçalves
Menestréis
Quão enfadonho
Seria
Todo o trabalho
Da formiga
Não fosse
O canto
da cigarra
Seria
Todo o trabalho
Da formiga
Não fosse
O canto
da cigarra
858
Jônatas Batista
A Aranha
Estende o fio fino e a fina trama tece
a diligente aranha, em contínuo labor.
E, a trabalhar, assim, naturalmente esquece
a atormentada lida — o sofrimento e a dor.
E vai e vem e volve e, em volteios, parece
que uma dansa executa, em medido rigor...
Por fim, se imobiliza ou finge que adormece,
à carícia da luz, no mórbido calor...
O cérebro trabalha: — O pensamento é a teia
que se estende, se liga e prende e se enrodeia
em torno dessa oculta e diligente aranha...
O poeta, em fios de ouro, as malhas urde e tece...
No labor que o fascina, a própria mágoa esquece
e a crias a sorrir, moscas de luz apanha...
a diligente aranha, em contínuo labor.
E, a trabalhar, assim, naturalmente esquece
a atormentada lida — o sofrimento e a dor.
E vai e vem e volve e, em volteios, parece
que uma dansa executa, em medido rigor...
Por fim, se imobiliza ou finge que adormece,
à carícia da luz, no mórbido calor...
O cérebro trabalha: — O pensamento é a teia
que se estende, se liga e prende e se enrodeia
em torno dessa oculta e diligente aranha...
O poeta, em fios de ouro, as malhas urde e tece...
No labor que o fascina, a própria mágoa esquece
e a crias a sorrir, moscas de luz apanha...
1 139
Ildásio Tavares
Glosa
Mote
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Gil Vicente
Houve tempo e sacrifício
Houve sonho e muita lida
Mas no trato do ofício
Só houve ilusões perdidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas... "
Há vozes que sempre falam
Na escura noite envolvidas
Mas todas vozes se calam
E se perdem diluídas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nosso corpo fez-se estrume,
Nossas forças são tolhidas,
Nossa espada está sem gume,
Nossas dores repetidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas..."
Sempre à margem dos processos
Nossas bocas são retidas
Para nós só há inversos
Todas luzes são vendidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas.
Estruturas poderosas
Todas podres, corrompidas
Nos compram e vendem gulosas
Cada vez mais entupidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nem sangue de muitas mortes
Nos trouxe a luz escondida,
Poderes sempre mais fortes
Nos levaram de vencida —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nas trevas de há muito e tanto
Marchamos safras sofridas,
Amargando nosso canto
Em vozes enrouquecidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Distante brilha esperança
De promessas esquecidas;
Atrás ficou a lembrança
De derrotas cometidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Mas em cores diferentes
As danças serão corridas
Não pensem os poderosos
Que as almas nos têm vencidas
Somos muitos e teimosos
Nossas cabeças erguidas
Sob o fardo dos milênios
Marcham tenções decididas,
Várias faces, vários gênios,
todos faces retorcidas, —
Nós teremos a chegança
Será nossa a esperança,
Nós teremos nossas vidas.
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Gil Vicente
Houve tempo e sacrifício
Houve sonho e muita lida
Mas no trato do ofício
Só houve ilusões perdidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas... "
Há vozes que sempre falam
Na escura noite envolvidas
Mas todas vozes se calam
E se perdem diluídas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nosso corpo fez-se estrume,
Nossas forças são tolhidas,
Nossa espada está sem gume,
Nossas dores repetidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas..."
Sempre à margem dos processos
Nossas bocas são retidas
Para nós só há inversos
Todas luzes são vendidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas.
Estruturas poderosas
Todas podres, corrompidas
Nos compram e vendem gulosas
Cada vez mais entupidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nem sangue de muitas mortes
Nos trouxe a luz escondida,
Poderes sempre mais fortes
Nos levaram de vencida —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nas trevas de há muito e tanto
Marchamos safras sofridas,
Amargando nosso canto
Em vozes enrouquecidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Distante brilha esperança
De promessas esquecidas;
Atrás ficou a lembrança
De derrotas cometidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Mas em cores diferentes
As danças serão corridas
Não pensem os poderosos
Que as almas nos têm vencidas
Somos muitos e teimosos
Nossas cabeças erguidas
Sob o fardo dos milênios
Marcham tenções decididas,
Várias faces, vários gênios,
todos faces retorcidas, —
Nós teremos a chegança
Será nossa a esperança,
Nós teremos nossas vidas.
1 118
Edgar Allan Poe
Beloved Physician
The pulse beats ten and intermits;
God nerve the soul that ne'er forgets
In calm or storm, by night or day,
Its steady toil, its loyalty.
[. . . ]
[. . . ]
The pulse beats ten and intermits;
God shield the soul that ne'er forgets.
[. . . ]
[. . . ]
The pulse beats ten and intermits;
God guide the soul that ne'er forgets.
[. . . ]
[. . . ] so tired, so weary,
The soft head bows, the sweet eyes close,
The faithful heart yields to repose.
God nerve the soul that ne'er forgets
In calm or storm, by night or day,
Its steady toil, its loyalty.
[. . . ]
[. . . ]
The pulse beats ten and intermits;
God shield the soul that ne'er forgets.
[. . . ]
[. . . ]
The pulse beats ten and intermits;
God guide the soul that ne'er forgets.
[. . . ]
[. . . ] so tired, so weary,
The soft head bows, the sweet eyes close,
The faithful heart yields to repose.
1 267
Capinan
Aprendizagem
(I)
Como entre homem e ave sobrevive imagem
busquei em mim, e éramos parecidos
mas, quando edifiquei, achei-me
pois cada espécie está em seu ato.
O homem é um ato homem. o pássaro, um ato pássaro.
(II)
Das coisas mais simples minha textura tornou-se
tanto da iniciação a severidade do que sei
(o homem faz a bala, a bala mata o homem
derruba-se o cavalo, cai o rei).
Na premissa de noites custosas
aprendi meu rosto, os olhos e mais sentidos,
não nascendo a vida em episódios
mas em ciclos, em fases, dolorosos ciclos de noite.
A vida é consciência de seu exercício
e até saber-se mais homem que ave
é preciso sensibilidade como peixes
e o vínculo da prática à própria imagem.
(III)
Agora que me sei não pássaro
mas homem ato, guardando vínculos
sou um gesto particular dos atos
do homem geral em geral ofício.
Sou assim compreendido de outros.
O que eu seria outro ser não fôra,
embora juntos na inteireza do todo,
diversos de carne, fôssemos a classe;
ato classe, homem ato, homem classe.
E pela classe minha palavra seria repugnância,
coragem de permanecer e dizer,
fosse poesia ou pornografia.
Como entre homem e ave sobrevive imagem
busquei em mim, e éramos parecidos
mas, quando edifiquei, achei-me
pois cada espécie está em seu ato.
O homem é um ato homem. o pássaro, um ato pássaro.
(II)
Das coisas mais simples minha textura tornou-se
tanto da iniciação a severidade do que sei
(o homem faz a bala, a bala mata o homem
derruba-se o cavalo, cai o rei).
Na premissa de noites custosas
aprendi meu rosto, os olhos e mais sentidos,
não nascendo a vida em episódios
mas em ciclos, em fases, dolorosos ciclos de noite.
A vida é consciência de seu exercício
e até saber-se mais homem que ave
é preciso sensibilidade como peixes
e o vínculo da prática à própria imagem.
(III)
Agora que me sei não pássaro
mas homem ato, guardando vínculos
sou um gesto particular dos atos
do homem geral em geral ofício.
Sou assim compreendido de outros.
O que eu seria outro ser não fôra,
embora juntos na inteireza do todo,
diversos de carne, fôssemos a classe;
ato classe, homem ato, homem classe.
E pela classe minha palavra seria repugnância,
coragem de permanecer e dizer,
fosse poesia ou pornografia.
1 311
Capinan
Canto Grave e Profundo
É pesado o desabar das horas no fim do céu,
que se faz tempo e tempo para socorrer
o sangue derramado nos campos de pedra e sol
dos que foram feitos morrer
sem estender a mão para o fruto
semeado e que se fez em resposta
ao trabalho da mão nos campos de pedra e sol
no mundo em processo de classes superpostas.
E o trigo foi para outros lábios
que não os que bendisseram a chuva
e choraram o sol com a fome dos filhos
e o pão foi servido na mesa de homens
que não os que bendisseram a chuva:
e é novamente preciso semear os campos de pedra e sol.
que se faz tempo e tempo para socorrer
o sangue derramado nos campos de pedra e sol
dos que foram feitos morrer
sem estender a mão para o fruto
semeado e que se fez em resposta
ao trabalho da mão nos campos de pedra e sol
no mundo em processo de classes superpostas.
E o trigo foi para outros lábios
que não os que bendisseram a chuva
e choraram o sol com a fome dos filhos
e o pão foi servido na mesa de homens
que não os que bendisseram a chuva:
e é novamente preciso semear os campos de pedra e sol.
1 343
Bocage
Arrimado às duas portas
Arrimado às duas portas
Pingue boticário estava,
E brandamente acenou
A um doutor que passava.
Mal que chega o bom Galeno,
Diz o outro com ar jocundo:
"Unamo-nos, meu doutor,
E demos cabo do Mundo!"
Pingue boticário estava,
E brandamente acenou
A um doutor que passava.
Mal que chega o bom Galeno,
Diz o outro com ar jocundo:
"Unamo-nos, meu doutor,
E demos cabo do Mundo!"
1 740
Francisco Miguel de Moura
Militância
semente que tentou florir
na rocha impossível, aqui.
por trás da farda
de brim cáqui floriano
preso na hierarquia.
por trás do capacete duro
uma cabeça ágil,
fervente,
por trás da violência de escravo
(no dever?)
há um homem ferido e acorrentado
(seja paz, seja guerra)
por trás dos olhos ligeiros
de lince, de lança
há o homem-fome,
o homem-faz-medo-a-criança
por trás, os olhos feridos
de distância
e o comum dia-a-dia.
tu vês (por profissão)
o campo de batalha
no inimigo-irmão.
saber ser leal ao dono
e diferes do cão.
embora tudo isto,
a cachaça e a sífilis
(e a gota de sangue do coração).
na rocha impossível, aqui.
por trás da farda
de brim cáqui floriano
preso na hierarquia.
por trás do capacete duro
uma cabeça ágil,
fervente,
por trás da violência de escravo
(no dever?)
há um homem ferido e acorrentado
(seja paz, seja guerra)
por trás dos olhos ligeiros
de lince, de lança
há o homem-fome,
o homem-faz-medo-a-criança
por trás, os olhos feridos
de distância
e o comum dia-a-dia.
tu vês (por profissão)
o campo de batalha
no inimigo-irmão.
saber ser leal ao dono
e diferes do cão.
embora tudo isto,
a cachaça e a sífilis
(e a gota de sangue do coração).
849
Emiliano Perneta
Solidão
Que bom se eu fosse aquele lavrador,
Que eu nunca pude ser e que eu não sou,
Que depois de lavrar os campos, flor,
Centeio, milho e trigo semeou...
Esse trabalho nunca lhe amargou,
Mas à hora doce e triste de sol-pôr,
Tanta canseira o pobre desfolhou,
Tanto fez, que semeou a própria dor...
E oh! que amargura, quando a noite vem,
Toda dum roxo frio de lilás...
Quem dera ser o lavrador, porém!
Entrar em casa, a mesa posta, os seus
Em derredor, a consciência em paz,
E tudo em paz, louvado seja Deus!
Que eu nunca pude ser e que eu não sou,
Que depois de lavrar os campos, flor,
Centeio, milho e trigo semeou...
Esse trabalho nunca lhe amargou,
Mas à hora doce e triste de sol-pôr,
Tanta canseira o pobre desfolhou,
Tanto fez, que semeou a própria dor...
E oh! que amargura, quando a noite vem,
Toda dum roxo frio de lilás...
Quem dera ser o lavrador, porém!
Entrar em casa, a mesa posta, os seus
Em derredor, a consciência em paz,
E tudo em paz, louvado seja Deus!
2 824
Jorge Luis Borges
Spinoza
Las traslúcidas manos del judío
labran en la penumbra los cristales
y la tarde que muere es miedo y frío.
(Las tardes a las tardes son iguales.)
Las manos y el espacio de jacinto
que palidece en el confín del Ghetto
casi no existen para el hombre quieto
que está soñando un claro laberinto.
No lo turba la fama, ese reflejo
de sueños en el sueño de otro espejo,
ni el temeroso amor de las doncellas.
Libre de la metáfora y del mito
labra un arduo cristal: el infinito
mapa de Aquel que es todas Sus estrellas.
(1964)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 243 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
labran en la penumbra los cristales
y la tarde que muere es miedo y frío.
(Las tardes a las tardes son iguales.)
Las manos y el espacio de jacinto
que palidece en el confín del Ghetto
casi no existen para el hombre quieto
que está soñando un claro laberinto.
No lo turba la fama, ese reflejo
de sueños en el sueño de otro espejo,
ni el temeroso amor de las doncellas.
Libre de la metáfora y del mito
labra un arduo cristal: el infinito
mapa de Aquel que es todas Sus estrellas.
(1964)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 243 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 355
Bocage
A um mau médico
Doutor, até do hospital
Te sacode enfermo bando.
Qual será disto a causal?
É porque, em tu receitando,
Qualquer doença é mortal.
Te sacode enfermo bando.
Qual será disto a causal?
É porque, em tu receitando,
Qualquer doença é mortal.
2 375
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