Poemas neste tema

Tempo e Passagem

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teu inútil dever

Teu inútil dever
Quanta obra faça cobrirá a terra
Como ao que a fez, nem haverá de ti
Mais que a breve memória.
1 627
António Cabrita

António Cabrita

ANTERIOR À CARNE

Eis o passe-vite: um Deus trabalha em ti,
ilegalmente. Não se deslinda o que o atrai
às junções, a ideia fixa, mas o teu corpo
é o seu placebo, o seu sistema de radares.
Que guerra o move, exterior ao monte de feno
onde dormitas? Que afago atraiu o abelhão
que flamejou num intenso negrume a mão?
E porquê esta, inocente, que nunca depenou
perdiz? Fala-se do Tempo, um crânio
que se locomove a vapor
contra a evidência galopante das imagens.
O abismo alça-se, dentro,
anterior à carne. Fuck!
632
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

E o sentimento de que a vida passa

E o sentimento de que a vida passa
E o senti-la a passar
Toma em mim tal intensidade
De desolado e confrangido horror
Que a esse próprio horror, horror eu tenho,
Por ele e por senti-lo, e por senti-lo
Como tal.
Feliz a humanidade que, a não ser
Em momentos febris e desolados,
Não sente o esvair da existência
(E há quem a sinta com tristeza imensa)
Mas eu... eu não a sinto fugir-me,
Penso-a a fugir-me e em lugar de tristeza
Só esse horror é meu, silente e fundo.
1 416
Filipa Leal

Filipa Leal

Apocalipse now

Minutos antes do fim do mundo, os poetas
retiraram as vírgulas aos textos e os títulos aos textos
e a roupa ao corpo e os anéis aos dedos
porque não havia tempo
para tanta ostentação.

Porém os amantes que, à mesma hora, entretidos
liam um ao outro poemas de amor
no barroco banco do jardim
não imaginavam
o trabalho que aquilo lhes dava.
735
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Gesso

Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
— O gesso muito branco, as linhas muito puras —
Mal sugeria imagem de vida
(Embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina amarelo-suja.
Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na da minha humanidade irônica de tísico.
Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos, recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo mordente da pátina...
Hoje este gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.
4 676
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Noturno da Mosela

A noite... O silêncio...
Se fosse só o silêncio!
Mas esta queda d'água que não pára! que não pára!
Não é de dentro de mim que ela flui sem piedade?...
A minha vida foge, foge — e sinto que foge inutilmente!
O silêncio e a estrada ensopada, com dois reflexos intermináveis...

Fumo até quase não sentir mais que a brasa e a cinza em minha boca.
O fumo faz mal aos meus pulmões comidos pelas algas.
O fumo é amargo e abjeto. Fumo abençoado, que és amargo e abjeto!

Uma pequenina aranha urde no peitoril da janela a teiazinha levíssima.

Tenho vontade de beijar esta aranhazinha...

No entanto em cada charuto que acendo cuido encontrar o gosto que faz esquecer...
Os meus retratos... Os meus livros... O meu crucifixo de marfim...
E a noite...

Petrópolis, 1921
1 660
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Triste horror d'alma, não evoco já

Triste horror d'alma, não evoco já
Com grata saudade tristemente
Estas recordações da juventude!
Já não sinto saudades como há pouco
Inda as sentia. Vai-se-me desmaiando,
Co'a força de pensar, contínuo e árido,
Toda a verdura e flor do pensamento.
Ao recordar agora apenas sinto
Como um cansaço só de ter vivido,
Desconsolado e mudo sentimento
De ter deixado atrás parte de mim,
E saudade de não ter saudade,
Saudade de tempos em que a tinha.
Se a minha infância agora evoco, vejo (
Estranho! — como uma outra criatura
Que me era amiga, numa vaga
Objectivada subjectividade.
Ora a infância me lembra como um sonho,
Ora a uma distância sem medida
No tempo, desfazendo-me em espanto;
E a sensação que sinto ao perceber
Que vou passando, já tem mais de horror
Que tristeza, apavora-me e confrange
E nada evoca nada a não ser o mistério
Que o Tempo tem fechado em sua mão.
Mas a dor é maior!
1 133
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Noturno do Morro do Encanto

Este fundo de hotel é um fim de mundo!
Aqui é o silêncio que tem voz. O encanto
Que deu nome a este morro, põe no fundo
De cada coisa o seu cativo canto.

Ouço o tempo, segundo por segundo,
Urdir a lenta eternidade. Enquanto
Fátima ao pó de estrelas sitibundo
Lança a misericórdia do seu manto.

Teu nome é uma lembrança tão antiga,
Que não tem som nem cor, e eu, miserando,
Não sei mais como o ouvir, nem como o diga.

Falta a morte chegar... Ela me espia
Neste instante talvez, mal suspeitando
Que já morri quando o que eu fui morria.

Petrópolis, 21.2.1953
1 005
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE LAST OF THINGS

Weep for the last of things,
For the farewell that they give
As if with a glance alone
To the things that remain and live.

Weep for the noble minds
That have past like froth away;
Weep for the bodies fair
Now less than dust or day.

Weep for the smallest trifles
Of our life, that is made of them;
Weep for each unaccomplished,
Each dream known at last a dream.

Weep for nations and kingdoms
That are dreams within the past,
For creeds and for religions,
For idols dim down‑cast.

Though their glory were a vile one
And a blessing their decay,
Yet they are things that have been,
Have been and gone away.

Weep for all joys departed,
For many a departed pain:
The heart one day shall desire
That they could come back again.

Weep for all things that are gone
And for those that are not past,
For the heart that sees them knows
That they also shall not last.

To all that passes pertaineth
A shred of our sympathy,
A tear for all things departed,
For departing things a sigh.
1 956
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

WAS...

The wave hath burst white upon the beach.
        Speak no more of it.
The leaf hath rotted. No more can it teach
        But a moral for joy unfit.

The day hath ended. Who speaks of its morn
        But must think of its night?
The old corpse is rotting. That it was once born
        Seems a lie to the sight.

The heart hath broken; no more can it throb
        With deep love or care.
Its voice hath vanished; no more can it sob
        In its deep despair.

Thus all things do crumble and all doth pass,
        But not always forgot:
For we feel it deep, and in the heart «was»
        Meaneth but «is nob».
1 469
Filipa Leal

Filipa Leal

Ode louca

Todos os homens têm o seu rio.
Lamentam-no sentados no interior das casas
de interior e como o poeta que escreve a lápis
apagam a memória com a sua água.
Os rios abandonam os homens que envelhecem
longe da infância, e eles choram
o reflexo absurdo na distância.
Por vezes, enlouquecem os rios, os homens,
os poetas nas palavras repetidas
que buscam uma ode que lhes diga
a textura. Todos procuram o mesmo:
um lugar de água mais limpa
ou um espelho que não lhes negue
a hipótese do reflexo.
O rio sofre mais do que o homem,
o poeta,
porque dele se espera que nos devolva
a imagem de tudo, menos de si próprio.
Todos os rios têm o seu narciso,
mas poucos, muito poucos,
o simples reflexo das suas águas.
579
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Elegia de Verão

O sol é grande. O coisas
Todas vas, todas mudaves!
(Como esse "mudaves",
Que hoje é "mudáveis"
E já não rima com "aves".)

O sol é grande. Zinem as cigarras
Em Laranjeiras.
Zinem as cigarras: zino, zino, zino...
Como se fossem as mesmas
Que eu ouvi menino.

Ó verões de antigamente!
Quando o Largo do Boticário
Ainda poderia ser tombado.
Carambolas ácidas, quentes de mormaço;
Água morna das caixas-d'água vermelha de ferrugem;
Saibro cintilante...

O sol é grande. Mas, ó cigarras que zinis,
Não sois as mesmas que eu ouvi menino.
Sois outras, não me interessais...

Dêem-me as cigarras que eu ouvi menino.
1 289
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dos montes, dos vales,

Dos montes, dos vales,
Das luzes, das flores
O prazer vem;
Que importa, pois, Tempo, que te resvales?
Riamos, que amores pra outros amores,
        São o Além!

Há risos e beijos
E olhares e abraços
        De amor,

E risos e olhares acendem desejos,
E dizem matar-me em corpos e braços
        Num estertor.

E como a verdade
E a existência
É o prazer nu,
Dancemos
1 454
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

PASSAGEM DAS HORAS [c]

PASSAGEM DAS HORAS

Vivo todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,
E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.
Não me subordino senão por atavismo,
E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.

Das terrasses de todos os cafés de todas as cidades
Acessíveis à imaginação
Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,
Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,
Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.

No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,
Vou ao lado dela sem ela saber.
No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,
Mas antes do encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.
Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me, não há modo de eu não estar em toda a parte.
O meu privilégio é tudo
(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).

Assisto a tudo e definitivamente.
Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,
Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira
Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso
Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinquenta
Que não seja para mim por uma galanteria deposta.

Fui educado pela Imaginação,
Viajei pela mão dela sempre,
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira.
1 607
Amália Bautista

Amália Bautista

A vida responsável

Conduzir mas sem ter um acidente,
comprar massas e desodorizantes
e cortar as unhas às minhas filhas.

Madrugar outra vez e ter cuidado
em não dizer inconveniências,
esmerar-me na prosa de umas folhas
e estou-me nas tintas para elas,
retocar de vermelho cada face.

Lembrar-me da consulta ao pediatra,
responder ao correio, estender roupa,
declarar rendimentos, ler uns livros,
fazer umas chamadas telefónicas.

Bem gostaria de me dar ao luxo
de ter o tempo todo que quisesse
para fazer só coisas esquisitas,
coisas desnecessárias, prescindíveis
e, sobretudo, inúteis e patetas.

Por exemplo, amar-te com loucura.
104
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Furadeira

nosso livro de casamento,
diz ali.
dou uma olhada.
eles duraram dez anos.
foram jovens uma vez.
agora eu durmo na cama dela.
ele telefona:
“quero minha furadeira de volta.
deixe-a separada.
pegarei as crianças às
dez.”
ao chegar ele espera do lado
de fora.
as crianças vão com
ele.
ela volta para a cama
e eu estico uma perna
encosto-a nela.
eu também tinha sido jovem.
as relações humanas simplesmente não são
duráveis.
pensei nas mulheres que passaram por
minha vida.
elas parecem inexistentes.

“ele levou a furadeira?” pergunto.

“sim, levou.”

me pergunto se um dia terei que voltar para
buscar minha bermuda
e meu disco com a gravação
da Academy of St. Martin in the Fields? suponho que
sim.
1 230
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Outra Cama

outra cama
outra mulher

mais cortinas
outro banheiro
outra cozinha

outros olhos
outro cabelo
outros
pés e dedos.

todos à procura.
a busca eterna.

você fica na cama
ela se veste para o trabalho
e você se pergunta o que aconteceu
à última
e à outra antes dela...
é tudo tão confortável –
esse fazer amor
esse dormir juntos
a suave delicadeza...

após ela partir você se levanta e usa
o banheiro dela,
é tudo tão intimidante e estranho.
você retorna para a cama e
dorme mais uma hora.

quando você vai embora é com tristeza
mas você a verá novamente
quer funcione, quer não.

você dirige até a praia e fica sentado
em seu carro. é quase meio-dia.

– outra cama, outras orelhas, outros
brincos, outras bocas, outros chinelos, outros
vestidos
cores, portas, números de telefone.

você foi, certa vez, suficientemente forte para viver sozinho.
para um homem beirando os sessenta você deveria ser mais sensato.

você dá a partida no carro e engata a primeira,
pensando, vou telefonar para Janie logo que chegar,
não a vejo desde sexta-feira.
1 290
Antônio Olinto

Antônio Olinto

Soneto de Natal

“Mudaria o Natal ou mudei eu?”
 Machado de Assis

Mudaria o Natal ou mudo iria
mudar sempre o menino o mundo em tudo?
Ou fui só quem mudei, e meu escudo
novidadeiro, múltiplo, daria

ao mudadiço mito da alegria
em noite tão mutável jeito mudo?
O homem é mudador, muda de estudo,
de mucama, de verso, pouso, dia,

porque a muda modula esse desnudo
renascimento em palha, e molda e afia
o instrumento da troca, o fim miúdo,

a noite amena erguendo-se em poesia.
Mudei eu sempre sem saber que mudo
ou somente o Natal me mudaria?
816
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Chove muito, chove excessivamente...

Chove muito, chove excessivamente...
Chove e de vez em quando faz um vento frio...
Estou triste, muito triste, corno se o dia fosse eu.

Num dia no meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah nesse tempo eu era mais feliz»
Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?...
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração...
1 507
Antônio Olinto

Antônio Olinto

Teoria do Homem

O começo do homem é o fim do homem  
o começo é o fim
o começo é o homem
o homem é o fim
meço o homem pelo fim
o fim é a medida a medida é o começo
a medida é o meio o meio é o medo
o vulto é o vento
o vento bate na bandeira
parece passo na pressa
o passo é a pressa
a pressa é o modo
o modo é o mito
o mito é a meta
o fim é o mito
o mito é o começo
o começo do homem é o fim do homem
o fim do homem é o começo do homem.
701
Antônio Olinto

Antônio Olinto

VII

Asa da humildade
no corpo desistido.
Era uma fimbria que me perseguia
no contato da pele desnudada,
talvez nuvem que baixasse muito,
memoria que o tempo não matasse.
Como entender a voz das águas brancas
no horizonte de gente derramada?

Harpa humilde
para as canções menores
no acolhimento da lembrança finda
e areia, e coisa, e vento
na exaltação da ultima palavra,
a de antes da fraqueza consentida,
a do silencio insubmisso.

Esta humildade
como inicio de aflito testemunho
de atos renascidos na paisagem.
Apenas carne conformada na figura
em braços, lábios, coxas e vazios,
tentativa de único semblante,
de marca firmada no chão
para construir com ternura
a coragem do afastamento.
586
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE SEPULCHRE

Mystery, mystery is here
That brings a joy with a fear.

Oh, that Death should greater be
Than Time and Space and all we see,
That Change should deeper be than thought
And Time, like a portentous tomb,
Should feel corruption in its womb
        Yet itself crumble like its rot!

For e'en the sepulchre's cold stones
Shall have a death like the dead bones
They shut in.
        (What coffer can lock
Corruption out? or rottenness
What wit with cell and bolt can mock?)

Ay, even marble shall like bodies die
A death, shall have an end. The passer-by
        Shall tread the dust of the stone
                That on the grave did lie,
                In dust now like each bone.
        For to Corruption all must go,
        The difference in this alone:
        That some things rot quick and some slow.

Ay, the hard stone will wear away
Making the day when it was rock
Unreal as a distant day.

Only a Shadow none do know,
By the lock'd door of Time and Space,
With obscure and peculiar grace
        Keeps watch never to go.
1 535
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Os mortos! Que prodigiosamente

Os mortos! Que prodigiosamente
E com que horrível reminiscência
Vivem na nossa recordação deles!

A minha velha tia na sua antiga casa, no campo
Onde eu era feliz e tranquilo e a criança que eu era...
Penso nisso e uma saudade toda raiva repassa-me...
E, além disso, penso, ela já morreu há anos...
Tudo isto, vendo bem, é misterioso como um lusco-fusco...
Penso, e todo o enigma do universo repassa-me.
Revejo aquilo na imaginação com tal realidade
Que depois, quando penso que aquilo acabou
E que ela está morta,
Encaro com o mistério mais palidamente
Vejo-o mais escuro, mais impiedoso, mais longínquo
E nem choro, de atento que estou ao terror da vida...

Como eu desejaria ser parte da noite,
Parte sem contornos da noite, um lugar qualquer no espaço
Não propriamente um lugar, por não ter posição nem contornos,
Mas noite na noite, uma parte dela, pertencendo-lhe por todos os lados
E unido e afastado companheiro da minha ausência de existir...

Aquilo era tão real, tão vivo, tão actual!...
Quando em mim o revejo, está outra vez vivo em mim...
Pasmo de que coisa tão real pudesse passar...
E não existir hoje e hoje ser tão diverso...
Corre para o mar a água do rio, abandona a minha vista,
Chega ao mar e perde-se no mar,
Mas a água perde-se de si-própria?
Uma coisa deixa de ser o que é absolutamente
Ou pecam de vida os nossos olhos e os nossos ouvidos
E a nossa consciência exterior do Universo?
Onde está hoje o meu passado?
Em que baú o guardou Deus que não sei dar com ele?
Quando o revejo em mim, onde é que o estou vendo?
Tudo isto deve ter um sentido — talvez muito simples —
Mas por mais que pense não atino com ele.
1 404
Álvaro Guerra

Álvaro Guerra

antimemória

Viemos do mundo para o mundo
do nosso lugar para o lugar
e perdemos a memória de onde viemos
só o ar que respiramos nos não custa o esforço visível
dor mínima
dor habituada
em tecidos que se usam e se rompem
o resto é nunca nos inscrevermos
senão com violência
entre as acumuladas pedras da cidade
(ou) sobre o caprichoso húmus
inventando o esquecimento
e perseguindo a inventada liberdade
do infinito sempre interrogando
um regresso
uma despedida
suamos a passagem
soamos a rangente esperança
somos amos desta soma de anos não somados
consolamentum excomungado
redenção crucificada
sabemos que acabar lutando é começar
e da beleza é tudo o que sabemos
1 047