Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Daniel Faria
O meu projecto de morrer
O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 165
António Franco Alexandre
fico aguardando telegramas, os azuis
recados.
os poderes da manhã já pouco duram.
à superfície o som move na boca
um pouco sopro.
não julgues que me importam as roldanas
do tempo no teu
corpo
são certos os abismos de cartão
e falsa a neve que nos cobre os passos.
de graça a terra nos dispõe na foto
e a idade inventa nomes que a dissipem
descobre-me impacientes os recados o
envelope da urgência o intervalo
de A Pequena Face
os poderes da manhã já pouco duram.
à superfície o som move na boca
um pouco sopro.
não julgues que me importam as roldanas
do tempo no teu
corpo
são certos os abismos de cartão
e falsa a neve que nos cobre os passos.
de graça a terra nos dispõe na foto
e a idade inventa nomes que a dissipem
descobre-me impacientes os recados o
envelope da urgência o intervalo
de A Pequena Face
1 319
Albano Dias Martins
As palavras
em trânsito
Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.
in:O Mesmo
Nome(1996)
Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.
in:O Mesmo
Nome(1996)
1 251
Albano Dias Martins
Enquanto
o amor,enquanto a morte
Enquanto aguardas
e as urnas vazias
recolhem a poeira do verão.
Enquanto,
já submissos, os touros
do sol a soturnos
desígnios entregam
seu furor.
Enquanto,
sob a casa, agora
as térmitas repousam, momentanea
mente reverdecem
meus eucaliptos de água
e ouro.
Enquanto
o amor.
Enquanto
a morte.
Enquanto.
in:Os
Remos Escaldantes(1983)
Enquanto aguardas
e as urnas vazias
recolhem a poeira do verão.
Enquanto,
já submissos, os touros
do sol a soturnos
desígnios entregam
seu furor.
Enquanto,
sob a casa, agora
as térmitas repousam, momentanea
mente reverdecem
meus eucaliptos de água
e ouro.
Enquanto
o amor.
Enquanto
a morte.
Enquanto.
in:Os
Remos Escaldantes(1983)
1 147
Pablo Neruda
XXII
Amor, amor aquele e aquela,
se já não são, para onde foram?
Ontem, ontem disse a meus olhos
quando voltaremos a ver-nos?
E quando se muda a paisagem
são tuas mãos ou tuas luvas?
Quando canta o azul da água
como foge o rumor do céu?
se já não são, para onde foram?
Ontem, ontem disse a meus olhos
quando voltaremos a ver-nos?
E quando se muda a paisagem
são tuas mãos ou tuas luvas?
Quando canta o azul da água
como foge o rumor do céu?
635
António Ramos Rosa
Uma Caligrafia Calma
Quem dispõe de uma cor
ou linha
e forma o espaço no tempo
e o espaço acaricia
a fluida razão de uma caligrafia
o dia (hipótese)
inerte. Sem nenhum sopro
ou voo de escrita.
A loucura fácil dos vocábulos.
Um fogo?
Outra razão de ser.
Razão-surpresa.
Um novo alento
nas palavras-mãos.
Uma linha, um bloco, uma cor — o espaço.
Separadas sílabas.
Pétalas.
O tempo necessário de atingir as margens.
Quem habita o bloco transparente?
Compacto?
A noite varre.
A noite varrerá.
Quem dispõe de uma cor feliz
modula
a carícia de ser.
Um bloco na noite.
Um bloco de acaso.
Uma caligrafia calma, isenta,
liberta um bloco do espaço.
ou linha
e forma o espaço no tempo
e o espaço acaricia
a fluida razão de uma caligrafia
o dia (hipótese)
inerte. Sem nenhum sopro
ou voo de escrita.
A loucura fácil dos vocábulos.
Um fogo?
Outra razão de ser.
Razão-surpresa.
Um novo alento
nas palavras-mãos.
Uma linha, um bloco, uma cor — o espaço.
Separadas sílabas.
Pétalas.
O tempo necessário de atingir as margens.
Quem habita o bloco transparente?
Compacto?
A noite varre.
A noite varrerá.
Quem dispõe de uma cor feliz
modula
a carícia de ser.
Um bloco na noite.
Um bloco de acaso.
Uma caligrafia calma, isenta,
liberta um bloco do espaço.
1 027
Maurício Batarce
Gotas de Sentimeto
Quantos ventos soprarão agora?
De onde surgirão meus passos?
Nunca busquei olhares para mim
E agora as imagens me ardem.
Me lembro do que fui
E me revivo a todo momento que sou.
A vida me surge como cruel verdade
E o chão que surge me some.
Escrevo de acordo com a música
E busco o fim através da fuga.
Resumo o que vejo e sinto
Em simples palavras de acalanto...
O tempo passa e não percebo,
Minha perspicácia parece falir...
Escrevo sem pensar,
Através de sonhos que vão e voltam
A me acordar.
Não me reconheço em meus passos
E procuro novos contatos.
Descubro a verdade do que sou
E em meus olhos encontro revelações
De quem um dia me amou...
De onde surgirão meus passos?
Nunca busquei olhares para mim
E agora as imagens me ardem.
Me lembro do que fui
E me revivo a todo momento que sou.
A vida me surge como cruel verdade
E o chão que surge me some.
Escrevo de acordo com a música
E busco o fim através da fuga.
Resumo o que vejo e sinto
Em simples palavras de acalanto...
O tempo passa e não percebo,
Minha perspicácia parece falir...
Escrevo sem pensar,
Através de sonhos que vão e voltam
A me acordar.
Não me reconheço em meus passos
E procuro novos contatos.
Descubro a verdade do que sou
E em meus olhos encontro revelações
De quem um dia me amou...
1 002
Maurício Batarce
Passos Temporais
A verdadeira vida vivida
Deve ser regada de mundo.
Os sonhos devem buscar
As grandes distâncias
E os olhos devem estar ligados
À verdade.
Na verdadeira vida vivida
Tudo funciona em harmonia.
A procura de nossas origens
Faz parte dela
E o passado serve como ponte
Para o que somos.
A verdadeira vida vivida
Nos transmite a voz da maturidade,
Demonstrando nosso presente a cada instante.
Nessa verdade, quando menos se espera,
O tempo já se foi.
O homem que é preso ao relógio
Leva rasteiras em sua verdadeira vida vivida.
Cada passo do ponteiro
É uma eternidade a menos
E o começo de uma nova eternidade.
Na verdadeira vida vivida
Escutamos o caminhar para o futuro
E aos poucos chegamos ao infinito.
As verdadeiras vidas vividas
Nada mais são do que
Verdadeiros passos temporais...
Deve ser regada de mundo.
Os sonhos devem buscar
As grandes distâncias
E os olhos devem estar ligados
À verdade.
Na verdadeira vida vivida
Tudo funciona em harmonia.
A procura de nossas origens
Faz parte dela
E o passado serve como ponte
Para o que somos.
A verdadeira vida vivida
Nos transmite a voz da maturidade,
Demonstrando nosso presente a cada instante.
Nessa verdade, quando menos se espera,
O tempo já se foi.
O homem que é preso ao relógio
Leva rasteiras em sua verdadeira vida vivida.
Cada passo do ponteiro
É uma eternidade a menos
E o começo de uma nova eternidade.
Na verdadeira vida vivida
Escutamos o caminhar para o futuro
E aos poucos chegamos ao infinito.
As verdadeiras vidas vividas
Nada mais são do que
Verdadeiros passos temporais...
780
Murillo Mendes
Pós-Poema
O anteontem - não do tempo mas de mim -
Sorri sem jeito
E fica nos arredores do que vai acontecer
Como menino que pela primeira vez põe calça comprida.
Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,
Trata-se de substituir o lado pelo centro.
O que é da pedra também pode ser do ar.
O que é da caveira pertence ao corpo:
Não se trata de ser ou não ser,
Trata-se de ser e não ser.
Sorri sem jeito
E fica nos arredores do que vai acontecer
Como menino que pela primeira vez põe calça comprida.
Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,
Trata-se de substituir o lado pelo centro.
O que é da pedra também pode ser do ar.
O que é da caveira pertence ao corpo:
Não se trata de ser ou não ser,
Trata-se de ser e não ser.
694
Ana Martins Marques
Relógio
De que nos serviria
um relógio?
se lavamos as roupas brancas:
é dia
as roupas escuras:
é noite
se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia
se abres com os dedos um figo
maduro:
noite
se derramamos água:
dia
se entornamos vinho:
noite
quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentasse cantar:
dia
quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite
se adoçamos o chá:
dia
se não o adoçamos:
noite
se varremos a casa ou a enceramos:
dia
se nela passamos panos úmidos:
noite
se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia
se temos febre, cólicas, inflamações:
noite
aspirinas, raio-x, exame de urina:
dia
ataduras, compressas, unguentos:
noite
se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
dia
se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo escuro:
noite
se bato claras em neve:
dia
se cozinho beterrabas grandes:
noite
se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia
se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite
(extensões e cimos:
dia
camadas e dobras:
noite)
se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia
se deixas a água fervendo
sozinha:
noite
se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia
se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite
se um pinguim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia
se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite
se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia
se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite
se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia
se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite
de que nos serviria
um relógio?
um relógio?
se lavamos as roupas brancas:
é dia
as roupas escuras:
é noite
se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia
se abres com os dedos um figo
maduro:
noite
se derramamos água:
dia
se entornamos vinho:
noite
quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentasse cantar:
dia
quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite
se adoçamos o chá:
dia
se não o adoçamos:
noite
se varremos a casa ou a enceramos:
dia
se nela passamos panos úmidos:
noite
se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia
se temos febre, cólicas, inflamações:
noite
aspirinas, raio-x, exame de urina:
dia
ataduras, compressas, unguentos:
noite
se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
dia
se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo escuro:
noite
se bato claras em neve:
dia
se cozinho beterrabas grandes:
noite
se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia
se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite
(extensões e cimos:
dia
camadas e dobras:
noite)
se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia
se deixas a água fervendo
sozinha:
noite
se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia
se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite
se um pinguim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia
se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite
se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia
se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite
se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia
se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite
de que nos serviria
um relógio?
1 786
Tchicaya U Tam'si
Através de tempo e rio
Um dia será preciso se pôr
a andar alto os ventos
como as folhas das árvores
para o estrume para o fogo
que importa
outras eras farão de nossas almas
silícios
porto para os pés desnudos
estaremos em todos os caminhos
porto para a sede
porto para o amor
porto para o tempo
nós vimos a areia
nós vimos a espuma
que a ignora
vimos os rios e as árvores
quem dirá
nós acreditamos
nós acreditamos
quem negará
pegamos carpas enchemos as redes
bastava um gesto com o polegar
o mundo estava salvo pelo silêncio
mas então
o mar salta a espuma
mas então
a espuma derruba o mar
ao longe se vão os sete rios
para saber a quem cantam as folhas
resta ainda um rio
e a chave dos sonhos nos seus flancos
mas quanto a saber por que
cantam as folhas
ah mágoa mágoa
hurra as trovoadas
caminhar com punhos fechados
caminhar
contar as estrelas
e saltar acima das jângals
para tanto não ser hiena nem jiboia
depois aplaudir um rio
e as corças e as zebras e as gazelas
depois saltar com ele alto a lâmina
a formiga diz
vou esfolar o búfalo
ah deixe o rio
venha cá mulher-rã
as libélulas dançavam
veladas de azul e de pólen
resta o rio
e o arco-íris
à beira um ancião
ancião lava tua chaga
mas diz a minha mãe diz a meu pai
eis-me mulher-jacaré
ó mãe amante-crocodilo
ó pai mulher-jacaré
ancião lava tua chaga
os peixes das águas avistaram essas lágrimas
cuspiram para salvar aquelas lágrimas
mas as gaivotas fecharam a cara
pobre afogada guarda teu leito de rio
resta-nos esse rio
e o arco-íris
em relevo
dos papagaios portadores de totens
a savana entre seus troncos
faz dançar fulvos viscosos
e eu gritei
por sobre as jângal
fica a direitura do caminho esquecido
mas eis a areia
ao longe é o mar
mas eis o ovo
uma crista ao redor
de sua vida
se calar ou simplesmente chorar
a criança dorme
a mãe se esquece
a coruja ulula
a lua está tranquila
o tempo passa
a lua desaparece
a flor d’água se quebra
a criança dorme
morre sua mãe
os jacarés partiam a água
com a cauda
a coruja ressona não espere a noite
pois não basta gritar estupro
assim saltou o astro inicial
pois o escorpião nunca foi um vicioso
mil formigas vão esfolar o búfalo
que degolou o cordeiro diante dos homens
café bananas algodão tapioca
morre morre quem quiser
não basta recriar o estupro
uma manhã
uma clara manhã
não mais totens e seus papagaios
uma manhã
uma clara manhã
não mais folhas em parte alguma
ao longe se foram
sete rios de ondas perdidas
a criança dorme
o atabaque sua
a lua está tranquila
o tempo passa
sobre suas montarias de silêncios
(tradução de Leo Gonçalves)
À travers temps et fleuve
Tchicaya U Tam´si
Un jour il faudra se prendre
marcher haut les vents
comme les feuilles des arbres
pour un fumier pour un feu
qu’importe
d’autres âges feront de nos âmes
des silex
gare aux pieds nus
nous serons sur tous les chemins
gare à la soif
gare à l’amour
gare au temps
nous avons vu le sable
nous avons vu l’écueil
qui l’ignore
nous avons les fleuves et les arbres
qui le dira
nous avons cru
nous avons cru
qui le niera
nous avons pris des carpes plein nos filets
il suffisait d’un coup de pouce
le monde était sauvé par le silence
mais voici
la mer saute l’écueil
mais voici
l’écueil culbute la mer
au loin s’en vont les sept fleuves
à savoir pour qui chantent les feuilles
il reste un fleuve
et la clé des songes dans ses flancs
mais quant à savoir pourquoi
chantent les feuilles
ah chagrin chagrin
hourra les tonneres
marcher les poings fermés
marcher d’abord
compter les étoiles
et sauter par-dessus les jungles
pour cela n’être ni hyène ni python
puis applaudir un fleuve
et les biches et les zèbres et les gazelles
puis bondir avec lui haut la lame
la fourmi dit
je vais dépecer le buffle
hé quitte le fleuve
viens-t’en femme grenouille
les libellules dansaient
voilées d’azur et de pollent
il reste le fleuve
et l’arc-en-ciel
en bordure un vieil homme
vieil homme lave ta plaie
mais dis à ma mère dis à mon père
me voici femme caïman
me voici amante-crocodile
ô mère amante-crocodile
ô père femme-caïman
vieil homme lave ta plaie
les poissons de l’eau ont vu ces larmes
ils ont craché pour sauver ces larmes-là
mais les mouettes ont fait la moue
pauvre noyée garde ton lit de fleuve
il nous reste ce fleuve
et l’arc-en-ciel
en saillie
des perroquets porteurs de totems
la brousse entre ses troncs
fait danser des fleuves visqueux
et j’ai crié
par-dessus les jungles
est la droiture du chemin oublié
mais voici le sable
au loin est la mer
mais voici l’œuf
une coquille entoure
sa vie
se taire ou simplement pleurer
l’enfant dort
la mère s’oublie
la chouette ulule
la lune est tranquille
le temps passe
la lune disparaît
la fleur d’eau se brise
l’enfant dort
se meurt sa mère
les caïmans cassaient l’eau
avec leur queues
le hibou somnole n’attendez la nuit
car il ne suffit pas de crier au viol
ainsi a sauté l’astre initial
car le scorpion ne fut jamais vicieux
un mille de fourmis va dépecer le buffle
qui a égorgé l’agneau devant les hommes
café bananes coton tapioca
meure meure qui voudra
il ne suffit pas de recréer le viol
un matin
un clair matin
plus de totems et leurs perroquets
un matin
un clair matin
plus de feuilles nulle parte
au loin s’en sont allés
sept fleuves à flots perdus
l’enfant dort
le tam-tam s’ébruite
la lune est tranquille
le temps passe
sur ses montures de silences
(1957)
a andar alto os ventos
como as folhas das árvores
para o estrume para o fogo
que importa
outras eras farão de nossas almas
silícios
porto para os pés desnudos
estaremos em todos os caminhos
porto para a sede
porto para o amor
porto para o tempo
nós vimos a areia
nós vimos a espuma
que a ignora
vimos os rios e as árvores
quem dirá
nós acreditamos
nós acreditamos
quem negará
pegamos carpas enchemos as redes
bastava um gesto com o polegar
o mundo estava salvo pelo silêncio
mas então
o mar salta a espuma
mas então
a espuma derruba o mar
ao longe se vão os sete rios
para saber a quem cantam as folhas
resta ainda um rio
e a chave dos sonhos nos seus flancos
mas quanto a saber por que
cantam as folhas
ah mágoa mágoa
hurra as trovoadas
caminhar com punhos fechados
caminhar
contar as estrelas
e saltar acima das jângals
para tanto não ser hiena nem jiboia
depois aplaudir um rio
e as corças e as zebras e as gazelas
depois saltar com ele alto a lâmina
a formiga diz
vou esfolar o búfalo
ah deixe o rio
venha cá mulher-rã
as libélulas dançavam
veladas de azul e de pólen
resta o rio
e o arco-íris
à beira um ancião
ancião lava tua chaga
mas diz a minha mãe diz a meu pai
eis-me mulher-jacaré
ó mãe amante-crocodilo
ó pai mulher-jacaré
ancião lava tua chaga
os peixes das águas avistaram essas lágrimas
cuspiram para salvar aquelas lágrimas
mas as gaivotas fecharam a cara
pobre afogada guarda teu leito de rio
resta-nos esse rio
e o arco-íris
em relevo
dos papagaios portadores de totens
a savana entre seus troncos
faz dançar fulvos viscosos
e eu gritei
por sobre as jângal
fica a direitura do caminho esquecido
mas eis a areia
ao longe é o mar
mas eis o ovo
uma crista ao redor
de sua vida
se calar ou simplesmente chorar
a criança dorme
a mãe se esquece
a coruja ulula
a lua está tranquila
o tempo passa
a lua desaparece
a flor d’água se quebra
a criança dorme
morre sua mãe
os jacarés partiam a água
com a cauda
a coruja ressona não espere a noite
pois não basta gritar estupro
assim saltou o astro inicial
pois o escorpião nunca foi um vicioso
mil formigas vão esfolar o búfalo
que degolou o cordeiro diante dos homens
café bananas algodão tapioca
morre morre quem quiser
não basta recriar o estupro
uma manhã
uma clara manhã
não mais totens e seus papagaios
uma manhã
uma clara manhã
não mais folhas em parte alguma
ao longe se foram
sete rios de ondas perdidas
a criança dorme
o atabaque sua
a lua está tranquila
o tempo passa
sobre suas montarias de silêncios
(tradução de Leo Gonçalves)
:
À travers temps et fleuve
Tchicaya U Tam´si
Un jour il faudra se prendre
marcher haut les vents
comme les feuilles des arbres
pour un fumier pour un feu
qu’importe
d’autres âges feront de nos âmes
des silex
gare aux pieds nus
nous serons sur tous les chemins
gare à la soif
gare à l’amour
gare au temps
nous avons vu le sable
nous avons vu l’écueil
qui l’ignore
nous avons les fleuves et les arbres
qui le dira
nous avons cru
nous avons cru
qui le niera
nous avons pris des carpes plein nos filets
il suffisait d’un coup de pouce
le monde était sauvé par le silence
mais voici
la mer saute l’écueil
mais voici
l’écueil culbute la mer
au loin s’en vont les sept fleuves
à savoir pour qui chantent les feuilles
il reste un fleuve
et la clé des songes dans ses flancs
mais quant à savoir pourquoi
chantent les feuilles
ah chagrin chagrin
hourra les tonneres
marcher les poings fermés
marcher d’abord
compter les étoiles
et sauter par-dessus les jungles
pour cela n’être ni hyène ni python
puis applaudir un fleuve
et les biches et les zèbres et les gazelles
puis bondir avec lui haut la lame
la fourmi dit
je vais dépecer le buffle
hé quitte le fleuve
viens-t’en femme grenouille
les libellules dansaient
voilées d’azur et de pollent
il reste le fleuve
et l’arc-en-ciel
en bordure un vieil homme
vieil homme lave ta plaie
mais dis à ma mère dis à mon père
me voici femme caïman
me voici amante-crocodile
ô mère amante-crocodile
ô père femme-caïman
vieil homme lave ta plaie
les poissons de l’eau ont vu ces larmes
ils ont craché pour sauver ces larmes-là
mais les mouettes ont fait la moue
pauvre noyée garde ton lit de fleuve
il nous reste ce fleuve
et l’arc-en-ciel
en saillie
des perroquets porteurs de totems
la brousse entre ses troncs
fait danser des fleuves visqueux
et j’ai crié
par-dessus les jungles
est la droiture du chemin oublié
mais voici le sable
au loin est la mer
mais voici l’œuf
une coquille entoure
sa vie
se taire ou simplement pleurer
l’enfant dort
la mère s’oublie
la chouette ulule
la lune est tranquille
le temps passe
la lune disparaît
la fleur d’eau se brise
l’enfant dort
se meurt sa mère
les caïmans cassaient l’eau
avec leur queues
le hibou somnole n’attendez la nuit
car il ne suffit pas de crier au viol
ainsi a sauté l’astre initial
car le scorpion ne fut jamais vicieux
un mille de fourmis va dépecer le buffle
qui a égorgé l’agneau devant les hommes
café bananes coton tapioca
meure meure qui voudra
il ne suffit pas de recréer le viol
un matin
un clair matin
plus de totems et leurs perroquets
un matin
un clair matin
plus de feuilles nulle parte
au loin s’en sont allés
sept fleuves à flots perdus
l’enfant dort
le tam-tam s’ébruite
la lune est tranquille
le temps passe
sur ses montures de silences
(1957)
900
Ana Martins Marques
jardim
a mesa de lata
a cobra verde da mangueira
os canteiros bobos de manjericão
e mato
as rosas enrugadas como tias
atraindo formigas como xícaras mal lavadas
os brinquedos esquecidos
estragando-se de espaço
servidos todos de seu alimento
de sol e nuvem
Da série “Arquitetura de interiores”
a cobra verde da mangueira
os canteiros bobos de manjericão
e mato
as rosas enrugadas como tias
atraindo formigas como xícaras mal lavadas
os brinquedos esquecidos
estragando-se de espaço
servidos todos de seu alimento
de sol e nuvem
Da série “Arquitetura de interiores”
684
Carlos Drummond de Andrade
Legado
Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.
E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.
Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.
De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.
E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.
Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.
De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.
2 669
Carlos Drummond de Andrade
Encontro
Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.
Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.
Ó meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas
por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.
Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.
Ó meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas
por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.
5 250
Carlos Drummond de Andrade
Os Velhos
Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre! —
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm’idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável
de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nas felpudas redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milênios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre! —
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm’idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável
de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nas felpudas redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milênios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.
1 723
Carlos Drummond de Andrade
Inscrição Tumular
O instante de corola o instante de vida
o instante de sentimento o instante de conclusão
o instante de memória
e muitos outros instantes sem razão e sem verso.
o instante de sentimento o instante de conclusão
o instante de memória
e muitos outros instantes sem razão e sem verso.
1 187
Mário Donizete Massari
Estação
Perdi o trem,
mas encontrei alguém
que assim como eu,
esperava o trem.
O trem já se vai . . .
O trem lá se vai . . .
E ficamos nós;
no embarque da estação
passageiros do
tempo em vão
Adversos os caminhos,
distintas as classes sociais
Mas presos ao destino
de ver o trem partindo
sem qualquer[discriminação.
Pó da mesma estrada
cor da noite e cor do sal
ficamos nós
passageiros do dia a dia
presos à estação
Sem qualquer discriminação
mas encontrei alguém
que assim como eu,
esperava o trem.
O trem já se vai . . .
O trem lá se vai . . .
E ficamos nós;
no embarque da estação
passageiros do
tempo em vão
Adversos os caminhos,
distintas as classes sociais
Mas presos ao destino
de ver o trem partindo
sem qualquer[discriminação.
Pó da mesma estrada
cor da noite e cor do sal
ficamos nós
passageiros do dia a dia
presos à estação
Sem qualquer discriminação
975
Angela Santos
Às Voltas
Com o Tempo
Ao
longo da avenida, numa tarde soalheira de Inverno, anunciando já
o seu fim, aqui e ali a cidade se polvilha de gente. As praças
e jardins se enchem de pessoas que desfrutam de amenas conversas aproveitando
o tempo que se ameniza.
Só
as pequenas cidades ainda oferecem isso que vai rareando em nossos dias:
o contacto das pessoas que se cruzam diariamente, na rua, em um café
ao dobrar de uma esquina, no mercado, esse lugar vivo onde a compra
e venda se faz de forma direta, com as pessoas trocando impressões,
discutindo preços.
Desses
encontros ainda se faz a vida cotidiana das gentes que não foram
submergidas pela azafama das grandes metrópoles, que não
vivem a tortura da pressa, a ameaça dos "salteadores" modernos
, espreitando uma oportunidade para o saque do dia, e que vivem o tempo
a um outro compasso, de forma tal que não reiteram a permanente
queixa da modernidade: a falta de tempo.
O
Tempo parece ter-se tornado um bem escasso. Não temos mais tempo
para ir num cinema, não temos tempo para ficar parados uns minutos
que sejam e escutar a voz do silencio; deixamos de ter tempo para saborear
a leitura de um bom livro; não temos tempo para nossas crianças,
reclamando atenção, emitindo sinais de que deixamos de
dar conta, sabe Deus a que preço.
Na
correria e falta de tempo, que se lhe associa, vamos também perdendo
a memória e esquecemos que há dias especiais, porque marcam
momentos únicos e irrepetíveis em nossas vidas. É
aquele dia que guardávamos como "o dia em que conheci você";
a data marcada na agenda para o encontro dos colegas de formatura; o
aniversário do amigo de longa data. Lembramos depois. Tantas
vezes tarde demais, ao folhear a agenda cujo prazo expirou no ano transato.
Deixamos de ter tempo, e vamos perdendo a memória das coisas
importantes, as que são importantes para nós e para aqueles
que amamos, datas, acontecimentos, pessoas que deveriam estar vivos
em nós e não adormecidos numa agenda ultrapassada.
O
nosso tempo é também ele caraterizado por uma certa amnésia,
a que nos convém, porque a memória abre feridas, e aquela
outra que nos causam, pelo adormecimento das mentes, o entorpecimento
do corpo, pelo acenar do fácil e do "el dorado" que alguém
oferta a troco de" nada", na aparência, mas que para além
de nos esvaziar a alma nos esvazia do resto.
É
verdade que as conversas são como as cerejas, umas puxam as outras,
e por isso mesmo tergiversei sobre a vida moderna, quando queria mesmo
era falar de como ainda é possível encontrar nichos de
mundos quase perdidos. Mundos de comunicação real e profícua,
por oposição a essa outra forma de comunicação
massiva, que nos coloca no centro de um dilema e contradição:
nos aproxima, realizando o prodígio de nada mais poder ser ignorado
por ser distante, e irremediavelmente nos afasta da vida aqui e agora.
Nunca estivemos tão próximos, agora que a globalização
se tornou um palavrão de bolso, mas em boa verdade, talvez nunca
antes se tenha sofrido tanto de solidão.
E,
quem sabe, para espantar a solidão e cultivar o gosto pelas trocas
humanas, é que nessas tardes soalheiras, as pracinhas e a avenida
sobranceira ao oceano se enchem de pessoas em busca do sol de inverno,
mais apreciado, porque tem sabor de coisa rara.
Não
é possível passar indiferente às personagens que
inundam esses lugares, na sua maioria jovens estudantes ou desocupados
e homens idosos. Estes esperam que a tarde anuncie o seu final, para
depois de cumprida a tarefa do dia, que é afinal cumprir mais
um dia, regressarem a suas casas, ou a seus lares de acolhimento. Esses
outros que esmolam, de igual modo aguardam a vinda da noite para se
acolherem nos recantos mais abrigados e iluminados das cidades.
Essa
gente de pele sulcada, cabelos a que o tempo emprestou a cor da neve,
uns de cigarro ao canto da boca deambulando pelas cidades, outros em
pequenos grupos aqui e ali, são o que sem pudor chamamos de "nossos
velhos", mas na verdade são a nossa memória, e mais que
passada prospetiva. E é na medida em que nos acordam para um
futuro que sempre chega, que preferimos, tantas vezes esquecê-los.
O velho continente, envelhecido, esquece os que vão envelhecendo.
Vivemos
de forma orgiástica o endeusamento da beleza e da juventude,
mas um dia, se tivermos a felicidade de viver longos dias, tomaremos
a estrada da velhice. Pudéssemos encara-la como uma espécie
de "idade do ouro" o momento único de realizarmos a síntese
de nossas vidas.
Vamos
perdendo a memória, mergulhados no turbilhão do dia que
passa. Aqui e agora sendo a dimensão primordial de nossa existência,
jamais nos deveria fazer perder de vista o futuro. Nas praças
e jardins das cidades, ele surge na forma de um quadro vivo: um dia
poderemos estar ao fim da tarde saboreando o sol num banco de jardim,
ou seja ter a felicidade de chegar a "velho". Nesse momento da vida,
já não andaremos às voltas com o Tempo, do que
seja te-lo ou da sua falta, já que é o momento de convivermos
de perto com a eternidade. Então, teremos todo o tempo do mundo.
Ao
longo da avenida, numa tarde soalheira de Inverno, anunciando já
o seu fim, aqui e ali a cidade se polvilha de gente. As praças
e jardins se enchem de pessoas que desfrutam de amenas conversas aproveitando
o tempo que se ameniza.
Só
as pequenas cidades ainda oferecem isso que vai rareando em nossos dias:
o contacto das pessoas que se cruzam diariamente, na rua, em um café
ao dobrar de uma esquina, no mercado, esse lugar vivo onde a compra
e venda se faz de forma direta, com as pessoas trocando impressões,
discutindo preços.
Desses
encontros ainda se faz a vida cotidiana das gentes que não foram
submergidas pela azafama das grandes metrópoles, que não
vivem a tortura da pressa, a ameaça dos "salteadores" modernos
, espreitando uma oportunidade para o saque do dia, e que vivem o tempo
a um outro compasso, de forma tal que não reiteram a permanente
queixa da modernidade: a falta de tempo.
O
Tempo parece ter-se tornado um bem escasso. Não temos mais tempo
para ir num cinema, não temos tempo para ficar parados uns minutos
que sejam e escutar a voz do silencio; deixamos de ter tempo para saborear
a leitura de um bom livro; não temos tempo para nossas crianças,
reclamando atenção, emitindo sinais de que deixamos de
dar conta, sabe Deus a que preço.
Na
correria e falta de tempo, que se lhe associa, vamos também perdendo
a memória e esquecemos que há dias especiais, porque marcam
momentos únicos e irrepetíveis em nossas vidas. É
aquele dia que guardávamos como "o dia em que conheci você";
a data marcada na agenda para o encontro dos colegas de formatura; o
aniversário do amigo de longa data. Lembramos depois. Tantas
vezes tarde demais, ao folhear a agenda cujo prazo expirou no ano transato.
Deixamos de ter tempo, e vamos perdendo a memória das coisas
importantes, as que são importantes para nós e para aqueles
que amamos, datas, acontecimentos, pessoas que deveriam estar vivos
em nós e não adormecidos numa agenda ultrapassada.
O
nosso tempo é também ele caraterizado por uma certa amnésia,
a que nos convém, porque a memória abre feridas, e aquela
outra que nos causam, pelo adormecimento das mentes, o entorpecimento
do corpo, pelo acenar do fácil e do "el dorado" que alguém
oferta a troco de" nada", na aparência, mas que para além
de nos esvaziar a alma nos esvazia do resto.
É
verdade que as conversas são como as cerejas, umas puxam as outras,
e por isso mesmo tergiversei sobre a vida moderna, quando queria mesmo
era falar de como ainda é possível encontrar nichos de
mundos quase perdidos. Mundos de comunicação real e profícua,
por oposição a essa outra forma de comunicação
massiva, que nos coloca no centro de um dilema e contradição:
nos aproxima, realizando o prodígio de nada mais poder ser ignorado
por ser distante, e irremediavelmente nos afasta da vida aqui e agora.
Nunca estivemos tão próximos, agora que a globalização
se tornou um palavrão de bolso, mas em boa verdade, talvez nunca
antes se tenha sofrido tanto de solidão.
E,
quem sabe, para espantar a solidão e cultivar o gosto pelas trocas
humanas, é que nessas tardes soalheiras, as pracinhas e a avenida
sobranceira ao oceano se enchem de pessoas em busca do sol de inverno,
mais apreciado, porque tem sabor de coisa rara.
Não
é possível passar indiferente às personagens que
inundam esses lugares, na sua maioria jovens estudantes ou desocupados
e homens idosos. Estes esperam que a tarde anuncie o seu final, para
depois de cumprida a tarefa do dia, que é afinal cumprir mais
um dia, regressarem a suas casas, ou a seus lares de acolhimento. Esses
outros que esmolam, de igual modo aguardam a vinda da noite para se
acolherem nos recantos mais abrigados e iluminados das cidades.
Essa
gente de pele sulcada, cabelos a que o tempo emprestou a cor da neve,
uns de cigarro ao canto da boca deambulando pelas cidades, outros em
pequenos grupos aqui e ali, são o que sem pudor chamamos de "nossos
velhos", mas na verdade são a nossa memória, e mais que
passada prospetiva. E é na medida em que nos acordam para um
futuro que sempre chega, que preferimos, tantas vezes esquecê-los.
O velho continente, envelhecido, esquece os que vão envelhecendo.
Vivemos
de forma orgiástica o endeusamento da beleza e da juventude,
mas um dia, se tivermos a felicidade de viver longos dias, tomaremos
a estrada da velhice. Pudéssemos encara-la como uma espécie
de "idade do ouro" o momento único de realizarmos a síntese
de nossas vidas.
Vamos
perdendo a memória, mergulhados no turbilhão do dia que
passa. Aqui e agora sendo a dimensão primordial de nossa existência,
jamais nos deveria fazer perder de vista o futuro. Nas praças
e jardins das cidades, ele surge na forma de um quadro vivo: um dia
poderemos estar ao fim da tarde saboreando o sol num banco de jardim,
ou seja ter a felicidade de chegar a "velho". Nesse momento da vida,
já não andaremos às voltas com o Tempo, do que
seja te-lo ou da sua falta, já que é o momento de convivermos
de perto com a eternidade. Então, teremos todo o tempo do mundo.
1 060
Francisco Orban
1975
Éramos 33 poetas
apesar das falhas no céu
apesar dos talhos na carne
33 poetas
amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte
das baleias e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguem morreria
no Outono.
33 poetas
como Maria Cristina
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e bunda morena de porcelana
33 poetas
como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia
33 poetas como tantos
esperando a polícia todo dia
fosse inverno, verão ou primavera.
Isso no tempo do "milagre"
quando eu ia correndo pro
ginásio
e o tempo estava estancado
não era como agora
Éramos como Edgar, caçador
de balões
heroi como todos nós
que sabia subir em jaqueira
e nunca pensou que iria
enlouquecer
33 poetas
como janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais da certo
apesar do mistério da Bahia
e da dialética das ruas
em plena terça-feira de
carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como o meu amigo Ernesto
que um dia chegou em casa
e estourou os miolos
com um 38 emprestado
33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
"Marta, um homem não é um trombone"
como Gregório
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal
solto,
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto.
Se desse pra fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventania sumidos
e beberia contigo
nas fontes, nas águas, nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos.
Onde está Luiz
sumido em 1975?
ninguem sabe
ninguem responde
havia o cheiro de cilade
e sonho
como em São Paulo
sovrevoando
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1975
-Anônimos membros do
degredo unânime-
Como em Santa Teresa
longe da Av. São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas
inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde para sempre se baniram
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que o vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes, as cópulas,
músicas sobrariam no ar
o tempo, uma rede blindada
faria apagar na memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda não subisse
em Jaqueiras,
Ernesto ainda não tomasse
a sua cerveja gelada,
Cristina ainda com sua boca
de fada,
o tempo com sua malha
de máquinas
telha frágil, nó desatado
não viu sua face aguada
só viu seu lado concreto
que não vai pro mar
dá pro deserto
e assim se proclamou
súdito vitalício da
cidade
senhor da dor e da saudade
embora no calendário do tempo
eu não vejo o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões
velhos e gastos
tomarem de assalto
o dia.
apesar das falhas no céu
apesar dos talhos na carne
33 poetas
amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte
das baleias e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguem morreria
no Outono.
33 poetas
como Maria Cristina
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e bunda morena de porcelana
33 poetas
como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia
33 poetas como tantos
esperando a polícia todo dia
fosse inverno, verão ou primavera.
Isso no tempo do "milagre"
quando eu ia correndo pro
ginásio
e o tempo estava estancado
não era como agora
Éramos como Edgar, caçador
de balões
heroi como todos nós
que sabia subir em jaqueira
e nunca pensou que iria
enlouquecer
33 poetas
como janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais da certo
apesar do mistério da Bahia
e da dialética das ruas
em plena terça-feira de
carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como o meu amigo Ernesto
que um dia chegou em casa
e estourou os miolos
com um 38 emprestado
33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
"Marta, um homem não é um trombone"
como Gregório
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal
solto,
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto.
Se desse pra fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventania sumidos
e beberia contigo
nas fontes, nas águas, nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos.
Onde está Luiz
sumido em 1975?
ninguem sabe
ninguem responde
havia o cheiro de cilade
e sonho
como em São Paulo
sovrevoando
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1975
-Anônimos membros do
degredo unânime-
Como em Santa Teresa
longe da Av. São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas
inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde para sempre se baniram
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que o vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes, as cópulas,
músicas sobrariam no ar
o tempo, uma rede blindada
faria apagar na memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda não subisse
em Jaqueiras,
Ernesto ainda não tomasse
a sua cerveja gelada,
Cristina ainda com sua boca
de fada,
o tempo com sua malha
de máquinas
telha frágil, nó desatado
não viu sua face aguada
só viu seu lado concreto
que não vai pro mar
dá pro deserto
e assim se proclamou
súdito vitalício da
cidade
senhor da dor e da saudade
embora no calendário do tempo
eu não vejo o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões
velhos e gastos
tomarem de assalto
o dia.
1 082
Francisco Orban
Rio de Janeiro
Noite densa de falas e pontes
que país sangrado é esse
de falsos horizontes e profetas?
No meu tempo não era bem assim,
meus inimigos tinham a cara aberta
meus amigos banhavam-se na maresia
os bondes passavam sob as pontes de luzes
do Rio de janeiro
e não havia canção muda nos meus versos.
Mas o meu tempo também é hoje
de circos derrubados e elefantes proscritos
de noites decretadas e frios ofícios
de trens partindo e vidas divididas.
No meu tempo também era assim,
as luzes do Rio de janeiro me diziam
um animal de sonho espreitava a vida oficial
que eu vivia
e eu amava as pontes de luzes dos Rio,
que eram de marfim e eu não sabia.
que país sangrado é esse
de falsos horizontes e profetas?
No meu tempo não era bem assim,
meus inimigos tinham a cara aberta
meus amigos banhavam-se na maresia
os bondes passavam sob as pontes de luzes
do Rio de janeiro
e não havia canção muda nos meus versos.
Mas o meu tempo também é hoje
de circos derrubados e elefantes proscritos
de noites decretadas e frios ofícios
de trens partindo e vidas divididas.
No meu tempo também era assim,
as luzes do Rio de janeiro me diziam
um animal de sonho espreitava a vida oficial
que eu vivia
e eu amava as pontes de luzes dos Rio,
que eram de marfim e eu não sabia.
903
José Saramago
EPÍLOGO - Catorze de junho
Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.
1 312
Henriqueta Lisboa
De súbito cessou a vida
De súbito cessou a vida.
Foram simples palavras breves.
Tudo continuou como estava.
O mesmo teto, o mesmo vento,
o mesmo espaço, os mesmos gestos,
Porém como que eternizados.
Unção, calor, surpresa, risos
tudo eram chapas fotográficas
há muito tempo reveladas.
Todas as cousas tinham sido
e se mantinham sem reserva
numa sucessão automática.
Passos caminhavam no assoalho,
talheres batiam nos dentes,
janelas se abriam, fechavam.
Vinham noites e vinham luas,
madrugadas com sino e chuva.
Sapatos iam na enxurrada.
Meninas chegavam gritando.
Nasciam flores de esmeralda
no asfalto! mas sem esperança.
Jornais prometiam com zelo
em grandes tópicos vermelhos
o fim de uma guerra. Guerra?
Os que não sabiam falavam.
Quem não sentia tinha o pranto.
(O pranto era ainda o recurso
de velhas cousas coniventes.)
Nem o menor sinal de vida.
Tão-só no fundo espelho a face
lívida, a face lívida.
de A face lívida (1945)
Foram simples palavras breves.
Tudo continuou como estava.
O mesmo teto, o mesmo vento,
o mesmo espaço, os mesmos gestos,
Porém como que eternizados.
Unção, calor, surpresa, risos
tudo eram chapas fotográficas
há muito tempo reveladas.
Todas as cousas tinham sido
e se mantinham sem reserva
numa sucessão automática.
Passos caminhavam no assoalho,
talheres batiam nos dentes,
janelas se abriam, fechavam.
Vinham noites e vinham luas,
madrugadas com sino e chuva.
Sapatos iam na enxurrada.
Meninas chegavam gritando.
Nasciam flores de esmeralda
no asfalto! mas sem esperança.
Jornais prometiam com zelo
em grandes tópicos vermelhos
o fim de uma guerra. Guerra?
Os que não sabiam falavam.
Quem não sentia tinha o pranto.
(O pranto era ainda o recurso
de velhas cousas coniventes.)
Nem o menor sinal de vida.
Tão-só no fundo espelho a face
lívida, a face lívida.
de A face lívida (1945)
1 129
Carlos Drummond de Andrade
A Um Varão, Que Acaba de Nascer
Chegas, e um mundo vai-se
como animal ferido,
arqueja. Nem aponta
uma forma sensível,
pois já sabemos todos
que custa a modelar-se
uma raiz, um broto.
E contudo vens tarde.
Todos vêm tarde. A terra
anda morrendo sempre,
e a vida, se persiste,
passa descompassada,
e nosso andar é lento,
curto nosso respiro,
e logo repousamos
e renascemos logo.
(Renascemos? talvez.)
Crepita uma fogueira
que não aquece. Longe.
Todos vêm cedo, todos
chegam fora de tempo,
antes, depois. Durante,
quais os que aportam? Quem
respirou o momento,
vislumbrando a paisagem
de coração presente?
Quem amou e viveu?
Quem sofreu de verdade?
Como saber que foi
nossa aventura, e não
outra, que nos legaram?
No escuro prosseguimos.
Num vale de onde a luz
se exilou, e no entanto
basta cerrar os olhos
para que nele trema,
remoto e matinal,
o crepúsculo. Sombra!
Sombra e riso, que importa?
Estendem os mais sábios
a mão, e no ar ignoto
o roteiro decifram,
e é às vezes um eco,
outras, a caça esquiva,
que desafia, e salva-se.
E a corrente, atravessa-a,
mais que o veleiro impróprio,
certa cumplicidade
entre nosso corpo e água.
Os metais, as madeiras
já se deixam malear,
de pena, dóceis. Nada
é rude tão bastante
que nunca se apiede
e se furte a viver
em nossa companhia.
Este é de resto o mal
superior a todos:
a todos como a tudo
estamos presos. E
se tentas arrancar
o espinho de teu flanco,
a dor em ti rebate
a do espinho arrancado.
Nosso amor se mutila
a cada instante. A cada
instante agonizamos
ou agoniza alguém
sob o carinho nosso.
Ah, libertar-se, lá
onde as almas se espelhem
na mesma frigidez
de seu retrato, plenas!
É sonho, sonho. Ilhados,
pendentes, circunstantes,
na fome e na procura
de um eu imaginário
e que, sendo outro, aplaque
todo este ser em ser,
adoramos aquilo
que é nossa perda. E morte
e evasão e vigília
e negação do ser
com dissolver-se em outro
transmutam-se em moeda
e resgate do eterno.
Para amar sem motivo
e motivar o amor
na sua desrazão,
Pedro, vieste ao mundo.
Chamo-te meu irmão.
como animal ferido,
arqueja. Nem aponta
uma forma sensível,
pois já sabemos todos
que custa a modelar-se
uma raiz, um broto.
E contudo vens tarde.
Todos vêm tarde. A terra
anda morrendo sempre,
e a vida, se persiste,
passa descompassada,
e nosso andar é lento,
curto nosso respiro,
e logo repousamos
e renascemos logo.
(Renascemos? talvez.)
Crepita uma fogueira
que não aquece. Longe.
Todos vêm cedo, todos
chegam fora de tempo,
antes, depois. Durante,
quais os que aportam? Quem
respirou o momento,
vislumbrando a paisagem
de coração presente?
Quem amou e viveu?
Quem sofreu de verdade?
Como saber que foi
nossa aventura, e não
outra, que nos legaram?
No escuro prosseguimos.
Num vale de onde a luz
se exilou, e no entanto
basta cerrar os olhos
para que nele trema,
remoto e matinal,
o crepúsculo. Sombra!
Sombra e riso, que importa?
Estendem os mais sábios
a mão, e no ar ignoto
o roteiro decifram,
e é às vezes um eco,
outras, a caça esquiva,
que desafia, e salva-se.
E a corrente, atravessa-a,
mais que o veleiro impróprio,
certa cumplicidade
entre nosso corpo e água.
Os metais, as madeiras
já se deixam malear,
de pena, dóceis. Nada
é rude tão bastante
que nunca se apiede
e se furte a viver
em nossa companhia.
Este é de resto o mal
superior a todos:
a todos como a tudo
estamos presos. E
se tentas arrancar
o espinho de teu flanco,
a dor em ti rebate
a do espinho arrancado.
Nosso amor se mutila
a cada instante. A cada
instante agonizamos
ou agoniza alguém
sob o carinho nosso.
Ah, libertar-se, lá
onde as almas se espelhem
na mesma frigidez
de seu retrato, plenas!
É sonho, sonho. Ilhados,
pendentes, circunstantes,
na fome e na procura
de um eu imaginário
e que, sendo outro, aplaque
todo este ser em ser,
adoramos aquilo
que é nossa perda. E morte
e evasão e vigília
e negação do ser
com dissolver-se em outro
transmutam-se em moeda
e resgate do eterno.
Para amar sem motivo
e motivar o amor
na sua desrazão,
Pedro, vieste ao mundo.
Chamo-te meu irmão.
1 006
Carlos Drummond de Andrade
Campo de Flores
Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus — ou foi talvez o Diabo — deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.
Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.
Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.
Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer um vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.
E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.
Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.
Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.
Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus — ou foi talvez o Diabo — deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.
Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.
Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.
Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer um vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.
E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.
Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.
Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.
Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.
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