Poemas neste tema

Tempo e Passagem

Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

URINOL

As melhores horas da nossa vida,
as mais contentes, passámo-las
num urinol qualquer, vendo correr o mijo
capaz e fluente numa certeza de louça
branca, amarela ou cinzenta.
Instantes de pouca opressão,
cumprindo embora um estúpido dever,
desses do corpo, sob o silêncio infecto de Deus
- que talvez fosse aquele puxador
de autoclismo que um dia me ficou na mão,
numa taberna discreta ao Poço dos Negros.
Guardei-o ainda alguns meses, mas de Deus
como de um autoclismo, de tudo
acabamos por nos cansar. Até de poemas.

São ruas velhas assim, onde paira
a suposição grosseira de um urinol
divino e sombrio, que nos fazem aceitar
esta voraz forma de extermínio. O nosso,
incandescente, num apogeu de melancólicas
retretes onde os insetos e bactérias do acaso
nos distraem o olhar
embaciado pelo abuso da lixívia.

Uma lucidez pegajosa, toldando a idade
das mãos invariavelmente senis.
Como se bastassem, ou fossem mesmo
excessivas, certas baixas certezas de cão,
desastres menores. Sabendo-se de fonte
segura que o mijo pode ser um poema.
Um poema cansado do que antes foi vinho,
a suicidar-se agora - contente e tão triste -
no vazio evidente de uma louça
branca, amarela, sagrada.

Pequenas alegrias e no entanto as maiores,
essas mesmas que bastarão,
que terão de bastar,
no dia
em que formos
morrer.
1 165
Natália Correia

Natália Correia

O espírito

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indene ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

2 341
Millôr Fernandes

Millôr Fernandes

Obstinação dos Outros

Deixamos de beber
E em cada esquina
Abriram um novo bar.
Abandonamos o fumo;
Passam homens, crianças
E navios
A fumar.
A rua, como nunca, está cheia de mulheres
Jovens, lindas de corpo, sedutoras de andar.
Ah, mas já deixamos de amar.

1 039
Maria de Lourdes Hortas

Maria de Lourdes Hortas

Ciranda

Segundos e milímetros
do tempo que nos resta
a festa que foi ontem
é hoje a mesma festa.

1 066
Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

CANSADA DE SERVIR NINGUÉM

A primeira e talvez a única
condição da poesia: a falsidade.
Posso no entanto jurar que foi
hoje mesmo, pelo fim da tarde, que
ela entrou desconexa, com um anel rutilante
em cada dedo, na taberna de praça das Flores.

O velho, sentado à minha mesa, teve
de ouvir uma canção de marinheiros,
inevitavelmente triste. Só então
me apercebi, como ele, de que trazia ao colo
uma pomba. Pediu-lhe que voasse
- e ela voou, contornando as moscas
deste Verão precoce, em direcção ao jardim
(sempre tiveram jeito para voar, as pombas).
Quase não vi aquelas mãos caírem sobre
uns seios gastos, a pretexto do colar.

Benilde, sentada, apenas viu nisso tudo
uma espécie de loucura mansa,
o modo como a tarde docilmente se despede,
à sombra parada do relógio. Sessenta
anos de balcão pesavam-lhe hoje mais nas pernas,
indiferentes aos poemas que nunca lerá,
enquanto um último refrão, entre muletas
e copos vazios, nos volta a impor a única verdade.

A pomba - de um branco acastanhado -
parecia não se importar muito.
1 116
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Soneto de Carnaval

Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.

Oxford, carnaval de 1939
1 547
Angela Santos

Angela Santos

Desprendimento

Voa
o pensamento para lá dos dias
e trazem consigo momentos eternos
vividos a rodos de sofreguidão
receosos do tempo, e sua verdade,
lento a escoar-se na imensidão

E o pensamento voa
e regressa ao lugar onde te vejo
ao chão onde te amo
ao sofá onde deitas o teu corpo e o teu cansaço
ao cigarro que fumamos
ao toque de nossas mãos
a vibração de nossos corpos trémulos
rasgados de desejo

Voa o pensamento
e bebe na memória e nos sinais
no cheiro que trago em mim
na melodia que ecoa na minha alma
e até das margens do meu silêncio
onde nebulosas se erguem as palavras
que eu calo por amor.

1 186
Angela Santos

Angela Santos

Em Suspenso

Deixo-me
ficar quieta e absorta
a olhar a linha que rasga
o horizonte...
e os sonhos flutuam
ao som da toada e embalo do mar

há vozes suspensas
que chegam de longe
e com elas chegam
traços e contornos…

descubro teus olhos
na ave que o céu risca
e sinto tua mão
na leve brisa que passa

As cores de um Arco Íris
inundam meu olhar
e eu deixo-me ir
nas cores desenhadas
por uma mão qualquer
que naquele instante
ligou terra e mar

Um navio ao longe
sereno atravessa
a linha longínqua
onde o azul se afunda…

o navio passa
e acorda o tempo
que eu não vi passar.

1 064
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Creio Em Teu Silêncio, Na Tua Pele de Luz,

Creio em teu silêncio, na tua pele de luz,
no galope violeta, relâmpago terrestre,
animal de chuva, de vento e ar nocturno,
de ventas formidáveis aspirando o ar da noite.

O tempo amadureceu a luz da tua pele.
Minhas palavras tornam-se pedras do teu calor.
Mesmo entre nuvens, cheiras ao estrume do teu chão.
És a manhã do tempo, a madrugada madura.

De obstáculo em obstáculo, procuro o teu alento,
e a cor do ar do tempo, o teu aroma ardente,
a tua pulsação que rasga as rugas da terra.

Creio no teu vigor, na paciência do vagar,
na violência nascente que destrói muro a muro
e em cada pisada deixa um sinal de amor.
1 064
Angela Santos

Angela Santos

Diva

Não
sei se ainda habito
a tua memória
se nada mais que um acidente
um descuido
a cedência de um momento
algo que se apagou
para acalmar a consciência.

Sei que esse foi um tempo
com sabor a estio
na tua boca quente
e que o teu corpo foi meu
em plena primavera

O teu nome no ar paira
e me embebeda ainda
Vida,
um jogo de palavras
que é o teu nome e se te lembro
hoje é ontem ainda …
o breve instante em que tocamos
nossas vidas.

1 026
Salgado Maranhão

Salgado Maranhão

VULTO 1

Sozinho com os vampiros
e a madrugada,
ainda guardo
estas flores de pedra
(a noite é voraz,
mas a casa está fresca
para os colibris).
Rompendo as esquinas
e a largura das horas,
sou pouco mais
que um vulto
entre os bichos.
A cidade é um ganido
em meus ossos; a cidade
que me vende em retalhos. A mim
com meus desdobrados voos.
O tempo que me resgata
é surdo e não dói na carne.
O que dói é a vontade
aprendendo a sonhar.
720
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não Dura Aqui a Imagem, Não Dura Aqui o Som.

Não dura aqui a imagem, não dura aqui o som.
Aqui onde se insere a palavra mais forte.
O cavalo na lentidão caminha sobriamente.
Nada se inscreve na árvore nem o perdão subsiste?

Não dura aqui o som da mão ou a inscrição
da palavra mais forte no tronco dessa árvore
mas o cavalo caminha na tarde sobriamente
como inscrito perfeito num universo próprio.

Há outros animais, outras vozes, o mundo,
mas há este sossego neste lado do muro,
a visão de um instante, a inscrição metálica.

E tudo se prolonga na gestação da tarde.
O cavalo é o sossego próprio da sua força,
amadurecida imagem que dura e onde estou.
982
Maria da Felicidade do Couto Browne

Maria da Felicidade do Couto Browne

Que triste fim

Que triste fim, belas flores,
N’esse vaso vos espera?
Embora d’ouro cercadas;
Aqui não é vossa esfera!
Que dura mão, tão perfeitas
Vos foi no jardim cortar,
E a vossa curta existência
Inda mais acelerar?
Não tendes da terra sucos
Para vossa nutrição;
Nem da manhã o orvalho,
Nem da tarde a viração.
As luzes que vos rodeiam
Não têm do sol o calor;
Nem a água em que pousais
Entretém vosso verdor.
807
Herculano Moraes

Herculano Moraes

A canga-o Boi

A canga e o boi
na alternância
de quem soluça
um tempo imaginário.

A canga e o boi
vaga lembrança
de um mundo
sempiterno e vário.

A canga e o boi
legenda esmaecida
na face opaca
de um tempo sem medida.

A canga e o boi
gravura como (vida)
filete sanguíneo na face
da memória... diluída.
A canga...
O boi...

Os sulcos perenes,
de rodas ringindo
na pele do tempo.
A canga...
E o boi?

1 139
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Tempo Nos Parques

O tempo nos parques é íntimo, inadiável, imparticipante, imarcescível.
Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira
Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.
O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos
Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques
Oculta-se no torso muscular dos fícus, o tempo nos parques.
O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.
O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.
Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura
Nos parques; e a pequenina cutia surpreende
A imobilidade anterior desse tempo no mundo
Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
É o tempo nos parques.
1 000
Martins Napoleão

Martins Napoleão

O Poema da Forma Eterna

(Ó infinito sonho!
O grande céu azul desfolhado no espaço!
O homem pequeno e louco
E o barro úmido às mãos do oleiro cego!)

Expressar cada um
O seu minuto culminante de beleza,
O seu instante de bondade extrema,
O seu momento de heroísmo,
Na subitânea íntegra pureza
De uma forma imperecível!
Como o coágulo de luz no diamante sem jaça,
Qual se a gota de orvalho, porventura,
Imagem matinal do sorriso da luz,
Se condenasse repentinamente.

Não a forma perfeita,
Porém aquela, exata e duradoura,
De um ápice de síntese.

Forma que se transfunda, num jato, a substância
De um momento imortal entre dois limites inúteis do tempo fugaz.

Uma forma que seja — nos limites do vário e mutável — perene.
E possa traduzir a integração, a plenitude e a culminância
Do glorioso momento da vida:
O desejo de fixar o efêmero para o tornar eterno.
Como o oleiro inocente, com as mãos carregadas de sonho,
Procurar transmitir ao barro paciente,
Numa manhã feliz em que os deuses se vestem de luz,
O movimento, a vida, a elástica e nervosa agilidade
Da asa de um pássaro voando...

E o pintor, com os olhos impregnados de cores viventes,
Anseia revelar, numa combinação imprevista de tintas,
Em que a luz e a névoa se misturem,
E a virgindade da manhã se case
À difusa tristeza do crepúsculo,
Num tom maravilhoso,
O úmido olhar do amor que pecou por prazer...

E o músico, de coração sangrante de harmonias,
Tenta subjugar, num acorde que encerre
O resumo de todas as únicas notas supremas
Arrancadas das cordas soluçantes
Dos violinos de todos os artistas
Que morreram em êxtase de sonho.

A expressão musical das primeiras estrelas
Que iluminam o silêncio da tarde,
Como lágrimas de adolescentes...

E o atleta, que tem o sentido dos ritmos nos músculos submissos,
Busca perpetuar, numa imagem que esplenda
Clara e vibrátil como uma ode pindárica,
E tenha a assustadora beleza da vitória sobre a morte,
Ao pasmo olhar da multidão de fôlego suspenso,
O salto sobre o abismo.

E o herói, que mede o valor da vida pela beleza oportuna da morte,
Ambiciona cunhar, numa imagem que ostente
O soberano orgulho do desprezo
E a coragem consciente do perigo,
O simbólico exemplo
Do primeiro soldado que tombou
Com um sorriso nos lábios e uma rosa de sangue no peito.

E o santo que transcende as leis humanas
Aspira a eternizar, numa imagem que seja,
A própria infinitude de todos os êxtases
E todas as bondades sem nenhuma recompensa
O gesto irrepetível
Do instante de humildade e de renúncia
Em que se debruçou para beijar o leproso na boca,
Como um lírio num charco...

E o poeta, flauta cheia do sopro divino
Quer reunir, a um acesso instintivo de forças genésicas
Num canto absoluto
o irrelevado espírito das coisas,
A harmonia que ninguém ousou captar,
A beleza invisível para os outros.

E o lavrador, que espera a bendição de Deus,
Deseja aprender, numa imagem que vibre
Como a entranha da agreste companheira
Sob as primícias da maternidade,
A alegria da terra,
Rasgando o próprio seio sem doer
Para as eclosões das primeiras sementes.

Como o oleiro o seu momento de inocência criadora,
E o pintor, o seu momento de domínio incomparável da matéria plástica,
E o músico o seu momento de cósmica integração,
E o atleta o seu momento de vitória espetacular,
E o santo o seu momento de êxtase supremo
E o lavrador, o seu momento de esperança milagrosa
E o poeta o momento de seu canto absoluto
Todos aspiram a perpetuar-se
Moldando o grande sonho em forma eterna.

Todos desejam essa alegria perfeita
Da forma em que se transfunda, num jato, a substância
Do momento imortal, único, entre os dois limites extremos e inúteis do tempo fugaz.

914
Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Crepúsculo de Agosto

Para a minha filha
Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, teus ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.

Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tato.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.

1 441
Anísio Melhor

Anísio Melhor

O Tempo e a Memória

Fica-te aí, parado na memória,
Reveste de outono a luz de tua face
Oh Sempre Adormecida, que a Vitória
Do Amor é conservar consigo a face.

E, assim, vencer o tempo na memória
E atingir o eterno no traspasse
Fatal. Trazendo adiante na Memória,
A visão emblemática da face.

Na ilha de agosto, faze tua morada
E em setembro hás de surgir do Nada
Se estática ficares na memória.

Que nunca apareceste na jornada,
Ou houveres sido, existirás Amada
Se ficares presente na memória.

(Sanatório Bahia — 22.3.1960)

993
Tatiana Faia

Tatiana Faia

o mistério dos homens adormecidos

alguns jazem no plaino abandonado
que a morna brisa aquece
no bolso direito das calças a cigarrilha breve
o peito exposto ao ar os braços cruzados
debaixo da nuca
na vulnerabilidade de um gesto
para lá da farda regimental
do fato e gravata de todos os dias
e depois da poeira sobre os sapatos
a respiração tão regular do corpo
é de repente um acidente da sorte
uma dádiva improvável e oportuna
trazendo de volta a desaceleração do quotidiano

alguns nem estão à espera de ver o mundo arder
cumprem os dias como se tudo
o que alguma vez lhes tivesse sido dado viver
fosse um dia só
e apenas uma só versão desse dia existisse
a profundidade existe apenas
quando jazem sem cuidado
ao comprido num sofá num vigésimo segundo andar
num apartamento de vinte cinco metros quadrados
rodeados por um marulhar de barulhos
por todos os lados e sem que o nada os acosse
um leve sorriso cai sobre os lábios
e um cigarro arde no cinzeiro
enquanto eles deslizam pelo aqueronte do sono adentro
sem espadas e sem escudos que lancem a agulha
da resistência ao desconhecido
noite adentro a confiança ou uma promessa
de amantes pode ser algo como isto

alguns regam as plantas cinco minutos antes
e desfazem os nós dos atacadores
e tiram ordeiramente os sapatos
e reconhecem até mesmo a proximidade da morte
mesmo agora enquanto comem uma refeição enlatada

enquanto me dou conta de que alguns são
ainda até atléticos e musculares e necessários
e mesmo a sua extrema necessidade
alimenta o desejo de todas as coisas
a precisão de alguns instantes quando
rapazes jogam à bola debaixo dos olhares de leões
e as cidades são imponentes e inteligentes e sem perdão
como os aborrecidamente espertos quartetos de mozart

alguns fecham os olhos e inadvertidamente
deitam abaixo a última parede do mito
aquela que postulava que a inteligência que permite
ler os dias é uma espera posta à destruição

adormecendo alguns entrelaçam as mãos sobre o peito
como guerreiros medievais sepultados em túmulos de pedra
no coração das cidades
e é estelar o seu abandono como um fragmento
de vidro que se ilumina de repente na escuridão do ar
e mergulhados profundamente no sono
intuem a profundidade do azul na obscuridade da noite
as chamas que marcam as amuradas da noite
as coordenadas do sal na pele
para lá das horas em que escreveram
linhas em que declararam conhecer bem o sal
que se cola à pele vindo das orlas de certas praias no atlântico

e no entanto alguns persistem e aceleram
para lá do sono em carros que cortam pela noite
demasiado cansados e um pouco decadentes
na fronteira com a extrema incoerência
um pouco para lá do cansaço
para lá do facilmente evidente



Nápoles, 8 de Outubro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020
650
Angela Santos

Angela Santos

Imagem

Não
sei porque vou de encontro
ao que não sei.. sei da pulsão
e da imagem esculpida nos meus olhos
vislumbrei crendo esquecer…mas ficou

Indeléveis são as marcas do que um dia
a alma atravessou e julgamos sem história
perdido, ou apagado
no limbo da memória

Um passeio imaginário
sobre o que poderia ser.. ao teu lado
a tua mão na minha
olhos fundindo-se em lago
e um caminho junto ao mar…

Assim de uma forma simples
encontro de gestos feito
as palavras nos deixaram o leve sabor do vago...
e só o silencio sobrou

E a vida que não
espera por quem se demora
ou detém
acena da outra margem de onde se fica parado.

660
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Palavras Têm Rosto: Ou de Silêncio Ou de Sangue.

As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue.
O cavalo que nos domina é uma sombra apenas.
Sem sílabas de água, avança até ao outono.
Uma árvore estende os ramos. As nuvens subsistem.

O cavalo é uma hipótese, uma paixão constante.
Na rede das suas veias corre um sangue de tempo,
uma árvore se desloca com a alegria das folhas.
Árvore e cavalo transformam-se num só ente real.

Eu que acaricio a árvore sinto a força tenaz
da testa do cavalo, a eternidade férrea,
o ser em explosão e eu tão leve folha

na sombra deste ser animal vegetal
busco a razão perfeita, a humildade estática,
a força vertical de ser quem sou e o ar.
1 116
Angela Santos

Angela Santos

Pêndulo

Se
o coração ensaia o movimento pendular
como o deter?

Se um coração se abre como se abre
Por que abre?

Como porta que se escancara
depois de fechada estar
ou flor desabrochando
à luz de um claro raiar..
assim é o amor
quando ao coração ordena
que viva seu compasso pendular

Coração pendular.. alma leve
olhos atentos às esquinas do tempo
onde imprevisível uma razão
vive a espreitar

E é de repente que desenhado surge
o sinuoso caminho,
o imprevisível gesto do desocultar,
trazendo à luz a razão maior
da pendular cadencia estancar.

1 401
Tatiana Faia

Tatiana Faia

alguns sons antes da manhã

às vezes harmonia e desarmonia ganham fôlego
para se somarem em algo
que parece raro, definitivo, surpreendente
um cavalo ferido em contraluz
nos campos de nevoeiro
ergue-se finalmente diante dos olhos

não exactamente música
mas um pedaço da minha vida
cifrado no estrépito de uma voz
que desce em ângulos
de ironia e esperança
alegria e indiferença

e rebate na luz dos olhos baixos
acendendo-se apagando-se

trouxe-me aqui uma memória
que insistiria em atravessar um continente
por poucas horas, uma garrafa de vinho
a vitalidade de uma certa
quantidade de conversa fiada
numa sucessão de acontecimentos
que não conjuram exactamente uma ordem
embora tu ao contrário de mim
acredites que há no universo uma ordem
eu regressei mesmo pela extrema necessidade
de um pouco de caos

é preciso queimar este tempo
antes de entrarmos de novo na realidade
diz cinco minutos cinco horas

ou talvez a mais adequada forma fossem
as coisas mais imediatas mais fáceis
a espessura de um licor escuro e amargo
num copo minúsculo e raso
ou de uma chávena cheia de café
de manhã, no estômago vazio
os meus ouvidos atentíssimos
plantados entre os leões
assaltados pelo tilintar de colheres em chávenas
facas e garfos contra os pratos
famílias inteiras rindo
e enchendo as mesas para jantar
enquanto sobre mim se abate
a absurda ideia de que nem sequer
ouvi os teus passos afastarem-se
que devemos ser agora um pouco
menos misteriosos mas mais reais
em algum ponto da cidade
os sinos da catedral maceram o ar
e aquele martelo que ouvi
trabalhar ao longe
os golpes desferidos a intervalos regulares
sobre a pedra
foi-se silenciando
mas vai daqui a algumas horas ou dias ou meses
acertar-me em cheio no centro do torso
esmagar-me o peito no mais absurdo
tropeço de ternura

todo o vidro desta atmosfera é febril
tilinta nas conversas
que se vão distanciando
mas não há mais nenhum rosto
para além do teu
e não há já ninguém
não resta quase resíduo nenhum
de tudo o que existe e é real
a estas horas toda a cidade está vazia

daqui tu observas já
os pontos da cronologia
a que se hão-de agarrar
as garras e os ganchos desta madrugada
a fixação destes instantes
na história da vida de alguém

não sei como é que
à medida que o tempo acelera
à minha frente só a promessa
do incêndio da manhã
ainda a algumas horas de distância
é evidente

o girar cada vez mais rápido
de cada vez mais e mais cor
colando-se a cada minuto
de um carro que acelera a toda velocidade
para romper a primeira barreira da escuridão
quando ainda não percebo ao certo
se é noite ou manhã
e finalmente a abertura definitiva
um archote deflagrando entre dois instantes
precipitando-se da mão
de um anjo muito com os copos
e muito em desequilíbrio
que contra a harmonia do mais celeste dos coros
encena por apoteose
a tarefa de se atirar do alto da primeira arcada do céu
trazendo com ele fiapos de penas, confusão e desarmonia
como uma teimosa diva no último acto de uma ópera
de olhos fechados, de braços cruzados sobre o peito
para um tráfego de rolls royces lá em baixo

mas é ainda mais cómica a evidência
agora indisputada:
através do nevoeiro
despenhando-se contra os faróis:
a noite transformada em manhã


Roma, 19 de Dezembro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020
684
José Paulo Paes

José Paulo Paes

A tinta de escrever

Ao teu azul fidalgo mortifica
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhas

mais duradouro o pergaminho
onde pudesses, arte longa em vida breve
inscrever, vitríolo o epigrama, lágrima
a elegia, bronze a epopeia.

Mas já que o duradouro de hoje nem
espera a tinta do jornal secar,
firma, azul, a tua promissória
ao minuto e adeus que agora é tudo História.
1 406