Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Carlos Anísio Melhor
Soneto
Fica-te aí parada na memória.
Reveste com o outono a luz da Face
ou sempre adormecida que a vitória
do amor é conservar consigo a Face.
E assim vencer o tempo na memória
e atingir o eterno do traspasse
fatal, trazendo adiante na memória
a visão emblemática da Face.
Na ilha de agosto faze tua morada,
e em setembro haverás ressuscitada,
Se trouxeres adiante na memória
que nunca apareceste na jornada,
houveras sido, existirás amada
se ficares presente na memória.
Reveste com o outono a luz da Face
ou sempre adormecida que a vitória
do amor é conservar consigo a Face.
E assim vencer o tempo na memória
e atingir o eterno do traspasse
fatal, trazendo adiante na memória
a visão emblemática da Face.
Na ilha de agosto faze tua morada,
e em setembro haverás ressuscitada,
Se trouxeres adiante na memória
que nunca apareceste na jornada,
houveras sido, existirás amada
se ficares presente na memória.
1 010
António Afonso Bernardino
Duas Pêras
Mote
Duas pêras que eu tinha
Andavam sempre empinadas
De tanto lhes ter mexido
Estão moles e penduradas.
I
Eram duas pêras perfeitas
Quando um dia as conheci
A primeira vez que as vi
Achei-as muito direitas
Rosadas muito bem feitas
Pareciam cacho na vinha
Uma fruta tão durinha
Que eu gostava de mexer
Levava horas a ver
Duas pêras que eu tinha.
II
Mas que ricas pêras são
Dizia cá para mim
Dá gosto ver fruta assim
Seja de Inverno ou de Verão
Quando lhe jogava a mão
Até as deixava inchadas
Eram sempre bem esfregadas
Fosse de noite ou de dia
Pêras de pele macia
Andavam sempre empinadas.
III
Fruta torrada amarela
Que fruta tão natural
Nem sequer havia igual
Uma fruta como aquela
Tinham uma cor tão bela
Fizeram-me andar perdido
Quase estraguei o sentido
Noutro tempo atrasado
Hoje tenho o fruto estragado
De tanto lhe ter mexido.
IV
Murcharam com a idade
Ficaram todas franzidas
São duas pêras lembidas
Que perderam a vaidade
No tempo da mocidade
Foram muito bem tratadas
Mas já não são apalpadas
Coitadinhas metem dó
São duas peles num pé só
Estão moles e penduradas.
Duas pêras que eu tinha
Andavam sempre empinadas
De tanto lhes ter mexido
Estão moles e penduradas.
I
Eram duas pêras perfeitas
Quando um dia as conheci
A primeira vez que as vi
Achei-as muito direitas
Rosadas muito bem feitas
Pareciam cacho na vinha
Uma fruta tão durinha
Que eu gostava de mexer
Levava horas a ver
Duas pêras que eu tinha.
II
Mas que ricas pêras são
Dizia cá para mim
Dá gosto ver fruta assim
Seja de Inverno ou de Verão
Quando lhe jogava a mão
Até as deixava inchadas
Eram sempre bem esfregadas
Fosse de noite ou de dia
Pêras de pele macia
Andavam sempre empinadas.
III
Fruta torrada amarela
Que fruta tão natural
Nem sequer havia igual
Uma fruta como aquela
Tinham uma cor tão bela
Fizeram-me andar perdido
Quase estraguei o sentido
Noutro tempo atrasado
Hoje tenho o fruto estragado
De tanto lhe ter mexido.
IV
Murcharam com a idade
Ficaram todas franzidas
São duas pêras lembidas
Que perderam a vaidade
No tempo da mocidade
Foram muito bem tratadas
Mas já não são apalpadas
Coitadinhas metem dó
São duas peles num pé só
Estão moles e penduradas.
1 478
Hilda Hilst
Penso linhos e ungüentos
Penso linhos e ungüentos
para o coração machucado de Tempo.
Penso bilhas e pátios
Pela comoção de contemplá-los.
(E de te ver ali
À luz da geometria de teus atos)
Penso-te
Pensando-me em agonia. E não estou.
Estou apenas densa
Recolhendo aroma, passo
O refulgente de ti que me restou.
para o coração machucado de Tempo.
Penso bilhas e pátios
Pela comoção de contemplá-los.
(E de te ver ali
À luz da geometria de teus atos)
Penso-te
Pensando-me em agonia. E não estou.
Estou apenas densa
Recolhendo aroma, passo
O refulgente de ti que me restou.
1 440
António Ramos Rosa
No Trabalho da Folha
É por um outro incompreensível
poema
que escrevo
contra a claridade nula
o mito de uma palavra única
o incessante rumor
a inútil passagem
suspendo
o fogo rápido da mão
o som de lâmina que apaga
E agora digo a água
sombria a escoar-se igual ao tempo
a casa que escrevo no gosto de se abrir
os limites invisíveis
sem o fogo do espaço
que a palavra verde em vão separa
Verdes parêntesis
(não de flores lembradas
ou glória das mãos
à beira de água)
Verdes, ou azuis já, cinza,
em móveis signos,
indecifráveis, claros
As sombras que se lêem,
folhas, arcos, sons
— ao mesmo tempo a água deste muro,
os intervalos E uma alta
pedra, figura nula no papel,
rupturas sucessivas,
rede ou roda, nomes
da febre que percorrem
Intermináveis
Impenetrável, não ascende
Não é oca, mas não sabe
Surda, anula, e contra ela
calco ou cedo Nunca
escuto E a mão
o círculo não limita
No branco da elipse
demora
ar suposto, ou quase, ou quase o espaço
Se ao espelho ofereço
a obscura face
eu nada vejo Escrevo, avanço
negando o nada dessa fauce
Se se abre alguma vez
foi-se
Cerradamente oponho os traços
sucessivos, tensos
ao fosso aberto
em movimentos que me surgem
me alimentam
na luta — vã? — por novo espaço
Pela febre de ler
umas gotas (não de água, mas
de um som de folhas
e no espaço)
Aqui
eu digo: instante
nulo
E contra a fuga, a fronte
sem outra luz além da página
onde surgir a água
da palavra
Resistir, entregar-me? A quê? E quando?
Por ler a boca a página ou o verde
na conjunção de acaso,
necessária árvore e todavia
feita de vãos, involuntários, voluntários, surtos
pela água onde o silêncio em vão se faz
no trabalho da folha Neste
instante
poema
que escrevo
contra a claridade nula
o mito de uma palavra única
o incessante rumor
a inútil passagem
suspendo
o fogo rápido da mão
o som de lâmina que apaga
E agora digo a água
sombria a escoar-se igual ao tempo
a casa que escrevo no gosto de se abrir
os limites invisíveis
sem o fogo do espaço
que a palavra verde em vão separa
Verdes parêntesis
(não de flores lembradas
ou glória das mãos
à beira de água)
Verdes, ou azuis já, cinza,
em móveis signos,
indecifráveis, claros
As sombras que se lêem,
folhas, arcos, sons
— ao mesmo tempo a água deste muro,
os intervalos E uma alta
pedra, figura nula no papel,
rupturas sucessivas,
rede ou roda, nomes
da febre que percorrem
Intermináveis
Impenetrável, não ascende
Não é oca, mas não sabe
Surda, anula, e contra ela
calco ou cedo Nunca
escuto E a mão
o círculo não limita
No branco da elipse
demora
ar suposto, ou quase, ou quase o espaço
Se ao espelho ofereço
a obscura face
eu nada vejo Escrevo, avanço
negando o nada dessa fauce
Se se abre alguma vez
foi-se
Cerradamente oponho os traços
sucessivos, tensos
ao fosso aberto
em movimentos que me surgem
me alimentam
na luta — vã? — por novo espaço
Pela febre de ler
umas gotas (não de água, mas
de um som de folhas
e no espaço)
Aqui
eu digo: instante
nulo
E contra a fuga, a fronte
sem outra luz além da página
onde surgir a água
da palavra
Resistir, entregar-me? A quê? E quando?
Por ler a boca a página ou o verde
na conjunção de acaso,
necessária árvore e todavia
feita de vãos, involuntários, voluntários, surtos
pela água onde o silêncio em vão se faz
no trabalho da folha Neste
instante
577
Pablo Neruda
LXVII
Podes amar-me, silabária,
e dar-me um beijo substantivo?
Um dicionário é um sepulcro
ou um favo de mel cerrado?
Em que janela me quedei
olhando o tempo sepultado?
Ou o que olho de longe
é o que não vivi ainda?
e dar-me um beijo substantivo?
Um dicionário é um sepulcro
ou um favo de mel cerrado?
Em que janela me quedei
olhando o tempo sepultado?
Ou o que olho de longe
é o que não vivi ainda?
1 059
André Joffily Abath
O Navegador
Tempo não é o que passa,
é sim o que fica,
cercado em quatro paredes,
prisioneiro da própria vida.
Daí não haver saída,
ou chegada até a margem.
Viver não é ir, voltar;
viver é viagem.
é sim o que fica,
cercado em quatro paredes,
prisioneiro da própria vida.
Daí não haver saída,
ou chegada até a margem.
Viver não é ir, voltar;
viver é viagem.
1 678
Pablo Neruda
Desde Que Amanheceu
Desde que amanheceu
com quantos hoje se alimentou este dia?
Luzes letais, movimentos de ouro,
centrífugos pirilampos
gotas de lua, pústulas, axioma,
superpostos todos os materiais
do transcurso: — dores, existências,
direitos e deveres —
nada é igual quando desgasta o dia
sua claridade e cresce
e logo enfraquece seu poder.
Hora por hora
com uma colher
cai do céu o ácido
e assim é o hoje do dia,
o dia de hoje.
com quantos hoje se alimentou este dia?
Luzes letais, movimentos de ouro,
centrífugos pirilampos
gotas de lua, pústulas, axioma,
superpostos todos os materiais
do transcurso: — dores, existências,
direitos e deveres —
nada é igual quando desgasta o dia
sua claridade e cresce
e logo enfraquece seu poder.
Hora por hora
com uma colher
cai do céu o ácido
e assim é o hoje do dia,
o dia de hoje.
1 073
Pablo Neruda
Esperemos
Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
— há fábricas de dias que virão —
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
— há fábricas de dias que virão —
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.
1 457
Vinicius de Moraes
Quatro Sonetos de Meditação
I
Mas o instante passou. A carne nova
Sente a primeira fibra enrijecer
E o seu sonho infinito de morrer
Passa a caber no berço de uma cova.
Outra carne vírá. A primavera
É carne, o amor é seiva eterna e forte
Quando o ser que viver unir-se à morte
No mundo uma criança nascerá.
Importará jamais por quê? Adiante
O poema é translúcido, e distante
A palavra que vem do pensamento
Sem saudade. Não ter contentamento.
Ser simples como o grão de poesia.
E íntimo como a melancolia.
II
Uma mulher me ama. Se eu me fosse
Talvez ela sentisse o desalento
Da árvore jovem que não ouve o vento
Inconstante e fiel, tardio e doce.
Na sua tarde em flor. Uma mulher
Me ama como a chama ama o silêncio
E o seu amor vitorioso vence
O desejo da morte que me quer.
Uma mulher me ama. Quando o escuro
Do crepúsculo mórbido e maduro
Me leva a face ao gênio dos espelhos
E eu, moço, busco em vão meus olhos velhos
Vindos de ver a morte em mim divina:
Uma mulher me ama e me ilumina.
III
O efêmero. Ora, um pássaro no vale
Cantou por um momento, outrora, mas
O vale escuta ainda envolto em paz
Para que a voz do pássaro não cale.
E uma fonte futura, hoje primária
No seio da montanha, irromperá
Fatal, da pedra ardente, e levará
À voz a melodia necessária.
O efêmero. E mais tarde, quando antigas
Se fizerem as flores, e as cantigas
A uma nova emoção morrerem, cedo
Quem conhecer o vale e o seu segredo
Nem sequer pensará na fonte, a sós...
Porém o vale há de escutar a voz.
IV
Apavorado acordo, em treva. O luar
É como o espectro do meu sonho em mim
E sem destino, e louco, sou o mar
Patético, sonâmbulo e sem fim.
Desço na noite, envolto em sono; e os braços
Como ímãs, atraio o firmamento
Enquanto os bruxos, velhos e devassos
Assoviam de mim na voz do vento.
Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe
Sem dimensão e sem razão me leva
Para o silêncio onde o Silêncio dorme
Enorme. E como o mar dentro da treva
Num constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito.
Oxford, 1938
Mas o instante passou. A carne nova
Sente a primeira fibra enrijecer
E o seu sonho infinito de morrer
Passa a caber no berço de uma cova.
Outra carne vírá. A primavera
É carne, o amor é seiva eterna e forte
Quando o ser que viver unir-se à morte
No mundo uma criança nascerá.
Importará jamais por quê? Adiante
O poema é translúcido, e distante
A palavra que vem do pensamento
Sem saudade. Não ter contentamento.
Ser simples como o grão de poesia.
E íntimo como a melancolia.
II
Uma mulher me ama. Se eu me fosse
Talvez ela sentisse o desalento
Da árvore jovem que não ouve o vento
Inconstante e fiel, tardio e doce.
Na sua tarde em flor. Uma mulher
Me ama como a chama ama o silêncio
E o seu amor vitorioso vence
O desejo da morte que me quer.
Uma mulher me ama. Quando o escuro
Do crepúsculo mórbido e maduro
Me leva a face ao gênio dos espelhos
E eu, moço, busco em vão meus olhos velhos
Vindos de ver a morte em mim divina:
Uma mulher me ama e me ilumina.
III
O efêmero. Ora, um pássaro no vale
Cantou por um momento, outrora, mas
O vale escuta ainda envolto em paz
Para que a voz do pássaro não cale.
E uma fonte futura, hoje primária
No seio da montanha, irromperá
Fatal, da pedra ardente, e levará
À voz a melodia necessária.
O efêmero. E mais tarde, quando antigas
Se fizerem as flores, e as cantigas
A uma nova emoção morrerem, cedo
Quem conhecer o vale e o seu segredo
Nem sequer pensará na fonte, a sós...
Porém o vale há de escutar a voz.
IV
Apavorado acordo, em treva. O luar
É como o espectro do meu sonho em mim
E sem destino, e louco, sou o mar
Patético, sonâmbulo e sem fim.
Desço na noite, envolto em sono; e os braços
Como ímãs, atraio o firmamento
Enquanto os bruxos, velhos e devassos
Assoviam de mim na voz do vento.
Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe
Sem dimensão e sem razão me leva
Para o silêncio onde o Silêncio dorme
Enorme. E como o mar dentro da treva
Num constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito.
Oxford, 1938
1 188
João Filho
Quase Gregas - Primeira
Manhãs invadem manhãs.
Metal-flux do trânsito,
nimbos,
urubus no semáforo, arúspices,
lumes de asfalto,
dizem os cartazes.
Diriges. Na Oceânica, Cronos, chuvoso, investe.
Tudo pesa.
O medo é outro, aquele último.
Guerras anãs teu peito combate e se perde.
Diz Cronos
(que nos respira e não o contrário,
fuligem esfíngica):
“Com esses vastos vazios, que desejas?
Sei, nada afundando em nadas,
giros de séculos, mapas conduzem desgraças,
como quem oferta água, sol e pão,
mas é a face ambígua que oferecem,
a nutriz venenosa.
Colostro que dás mata o cerne;
nomeio-te inferno,
rodas no vácuo e a dúvida é o teu sustentáculo
e o não tens como norte,
tal morte é o teu níquel,
o vivo sem vida.”
Cronos se cala, entardece.
Na sístole-diástole, o trânsito espasma,
e junho – céu, Orla e mar embaralha em névoa cinzenta.
Do mar:
o salitre sonoro do vento.
Metal-flux do trânsito,
nimbos,
urubus no semáforo, arúspices,
lumes de asfalto,
dizem os cartazes.
Diriges. Na Oceânica, Cronos, chuvoso, investe.
Tudo pesa.
O medo é outro, aquele último.
Guerras anãs teu peito combate e se perde.
Diz Cronos
(que nos respira e não o contrário,
fuligem esfíngica):
“Com esses vastos vazios, que desejas?
Sei, nada afundando em nadas,
giros de séculos, mapas conduzem desgraças,
como quem oferta água, sol e pão,
mas é a face ambígua que oferecem,
a nutriz venenosa.
Colostro que dás mata o cerne;
nomeio-te inferno,
rodas no vácuo e a dúvida é o teu sustentáculo
e o não tens como norte,
tal morte é o teu níquel,
o vivo sem vida.”
Cronos se cala, entardece.
Na sístole-diástole, o trânsito espasma,
e junho – céu, Orla e mar embaralha em névoa cinzenta.
Do mar:
o salitre sonoro do vento.
656
Antônio Massa
Vestíbulo
Urram os relógios
mais uma hora se passou
e eu agrilhoado
aos papéis independentes
pendentes
na dependência social
Urram os relógios
mais uma hora se passou
eu em vestíbulo
sem alcançar a porta principal
ou mesmo a escada interior
Urram os relógios
mais uma hora se passou
e eu aqui
atado
cavalo preso nas rédeas do papel
mais uma hora se passou
e eu agrilhoado
aos papéis independentes
pendentes
na dependência social
Urram os relógios
mais uma hora se passou
eu em vestíbulo
sem alcançar a porta principal
ou mesmo a escada interior
Urram os relógios
mais uma hora se passou
e eu aqui
atado
cavalo preso nas rédeas do papel
887
Anna Maria Feitosa
Instante
A vida é essa luz
No teu rosto
é esse brilho
Inconstante
Dos teus olhos
Na penumbra.
Essa paixão
Esse instante fugaz.
A vida é só isso
é só isso
Nada mais.
No teu rosto
é esse brilho
Inconstante
Dos teus olhos
Na penumbra.
Essa paixão
Esse instante fugaz.
A vida é só isso
é só isso
Nada mais.
987
Ademir Assunção
MICOSE NA PELE DO TEMPO
(segundo monólogo interior de Lili Maconha)
Há tempos o faquir polia as pontas dos pregos
com areia do Mojave.
Há tempos e dimensões perdidas
apenas esperando o momento certo da conexão.
Há o tempo lá fora, chuva de granizo,
fagulhas de fogos de artifício
e brumas que se movem.
Há o tempo dos estalidos distantes das estrelas.
E há o tempo do Aqui, esse templo da linguagem
que se enrola em frases-serpentes
enquanto escrevo
e que talvez continue traçando sinuosidades
muito tempo depois.
Mas de tempos em tempos
alguém estoura os miolos, alguém explode uma aeronave
alguém fecha o livro
e não o abre nunca mais.
Há tempos o faquir polia as pontas dos pregos
com areia do Mojave.
Há tempos e dimensões perdidas
apenas esperando o momento certo da conexão.
Há o tempo lá fora, chuva de granizo,
fagulhas de fogos de artifício
e brumas que se movem.
Há o tempo dos estalidos distantes das estrelas.
E há o tempo do Aqui, esse templo da linguagem
que se enrola em frases-serpentes
enquanto escrevo
e que talvez continue traçando sinuosidades
muito tempo depois.
Mas de tempos em tempos
alguém estoura os miolos, alguém explode uma aeronave
alguém fecha o livro
e não o abre nunca mais.
1 187
Armando Freitas Filho
O que se lê, ali
O que se lê, ali
a sós
na ilha de um minuto
é tudo o que vem logo
ao léu: olá leitor
eis minha palavra-ventarola
e o mais que está além
é apenas luz
ou o sol no céu, somente.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Entre.
a sós
na ilha de um minuto
é tudo o que vem logo
ao léu: olá leitor
eis minha palavra-ventarola
e o mais que está além
é apenas luz
ou o sol no céu, somente.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Entre.
1 137
Armando Freitas Filho
Vou gota a gota
Vou gota a gota
aos poucos
mas apesar de todo cálculo
e de tanta cautela
acabo não me poupando
pois estou sempre na ponta
do trampolim
e o tempo aí já não cuida
de segurar nada — não sabe —
conter-se nem contar
o que de fato aconteceu:
se foi vôo, queda ou mergulho.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
aos poucos
mas apesar de todo cálculo
e de tanta cautela
acabo não me poupando
pois estou sempre na ponta
do trampolim
e o tempo aí já não cuida
de segurar nada — não sabe —
conter-se nem contar
o que de fato aconteceu:
se foi vôo, queda ou mergulho.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
1 292
Marcelo Gama
Soneto de um Pai
Vê-la crescer, florir — viço e perfume;
Já sorri; quer falar; tartamudeia;
Diz "mamãe" e "papai" sufoca o ciúme.
Os dentinhos lhe vêm. Anda. Chilreia.
Traz a casa de risos sempre cheia.
Vai ao colégio, mas com azedume.
Aborrece as bonecas. Cresce alheia
À formosura e à graça que resume.
De moça tem cismas e alvoroços.
Põe vestidos compridos; fala pouco,
Suspira, sonha, anseia e pensa em moços.
Vê-la como fulgura numa sala...
Envaidecer-me e... chorar como um louco
Quando o noivo vier arrebatá-la!
Já sorri; quer falar; tartamudeia;
Diz "mamãe" e "papai" sufoca o ciúme.
Os dentinhos lhe vêm. Anda. Chilreia.
Traz a casa de risos sempre cheia.
Vai ao colégio, mas com azedume.
Aborrece as bonecas. Cresce alheia
À formosura e à graça que resume.
De moça tem cismas e alvoroços.
Põe vestidos compridos; fala pouco,
Suspira, sonha, anseia e pensa em moços.
Vê-la como fulgura numa sala...
Envaidecer-me e... chorar como um louco
Quando o noivo vier arrebatá-la!
1 596
António Ramos Rosa
Desmancha-Se o Cavalo? Jamais.
Desmancha-se o cavalo? Jamais.
A resposta vem da força dele.
Corre por cima dos desastres.
É fogo e pedra alta bem talhada.
Impossível quebrar-lhe a linha aérea
que tem a terra toda nos seus cascos.
Pesa por si e pelo campo em torno.
E o tácito apelo do risco em frente.
Vive, portanto, mais alto do que o tempo.
Ele próprio é bandeira sem bandeira,
o cavalo que nunca o é para si mesmo.
A resposta vem da força dele.
Corre por cima dos desastres.
É fogo e pedra alta bem talhada.
Impossível quebrar-lhe a linha aérea
que tem a terra toda nos seus cascos.
Pesa por si e pelo campo em torno.
E o tácito apelo do risco em frente.
Vive, portanto, mais alto do que o tempo.
Ele próprio é bandeira sem bandeira,
o cavalo que nunca o é para si mesmo.
1 083
Leila Mícollis
Sempre, de vez em quando
Toda vez que amanheço
de porre, sem ter bebido,
é prenuncio de tempestades.
Os calos não doem
com a mudança do tempo,
mas meu coração dispara
e o olfato fica mais aguçado
que faro de perdigueiro.
Nestas horas,
não adianta ninguém me dizer
que "viver é experimentar",
porque o máximo que eu consigo
é avaliar as avarias
causadas pelos arpões.
de porre, sem ter bebido,
é prenuncio de tempestades.
Os calos não doem
com a mudança do tempo,
mas meu coração dispara
e o olfato fica mais aguçado
que faro de perdigueiro.
Nestas horas,
não adianta ninguém me dizer
que "viver é experimentar",
porque o máximo que eu consigo
é avaliar as avarias
causadas pelos arpões.
911
Nelson Ascher
Onde Há Fumaça
"dan steigt ihr als Rauch in die Luft"
(Paul Celan)
Fumaça alguma implica
memória, já que as coisas
se perdem na fumaça
que, assim, tampouco pode
tornar-se um monumento,
pois sendo transitória
nem mesmo homenageia
a transitoriedade.
Fumaça enquanto tinta,
embora branca (um branco
mais palidez de horror
que alvura de inocência),
serve talvez à escrita;
porém, não há destreza
que inscreva na fumaça,
como na pedra, um nome.
Quando a fumaça, quase
vegetativa, irrompe e,
traindo o genealógico,
assume aspecto arbóreo,
não cabe perguntar
acerca (onde há fumaça,
há cinzas) das raízes
mais fundas da fumaça.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993
(Paul Celan)
Fumaça alguma implica
memória, já que as coisas
se perdem na fumaça
que, assim, tampouco pode
tornar-se um monumento,
pois sendo transitória
nem mesmo homenageia
a transitoriedade.
Fumaça enquanto tinta,
embora branca (um branco
mais palidez de horror
que alvura de inocência),
serve talvez à escrita;
porém, não há destreza
que inscreva na fumaça,
como na pedra, um nome.
Quando a fumaça, quase
vegetativa, irrompe e,
traindo o genealógico,
assume aspecto arbóreo,
não cabe perguntar
acerca (onde há fumaça,
há cinzas) das raízes
mais fundas da fumaça.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993
1 058
Micheliny Verunschk
Cartório do 2º Ofício
Cato os minutos,
Grãos de milho
Caídos na música
Datilográfica
Do relógio velho
Da parede;
Sementes loiras
De tão sonífera
Claridade
Que só os posso
Contemplar
Com os olhos
Semicerrados;
Óvulos de pó
Que ajunto
No bojo do avental
Para tentar
Saciar a fome
Desse galo voraz,
Desse expediente infindo.
Grãos de milho
Caídos na música
Datilográfica
Do relógio velho
Da parede;
Sementes loiras
De tão sonífera
Claridade
Que só os posso
Contemplar
Com os olhos
Semicerrados;
Óvulos de pó
Que ajunto
No bojo do avental
Para tentar
Saciar a fome
Desse galo voraz,
Desse expediente infindo.
1 015
Manuel de Freitas
5 412971 117161
Tem cara de perder. Esta semana
voltou a não levar preservativos
e nunca mais comprou comida para o cão.
Se calhar divorciaram-se, e sicou ela
com o bicho. Só não percebo como é que
Ele sozinho consegue beber tanto leite.
perdeu também um pouco da arrogância
com que habitualmente me passava
o visa. Mas devia ser bonito, em novo
voltou a não levar preservativos
e nunca mais comprou comida para o cão.
Se calhar divorciaram-se, e sicou ela
com o bicho. Só não percebo como é que
Ele sozinho consegue beber tanto leite.
perdeu também um pouco da arrogância
com que habitualmente me passava
o visa. Mas devia ser bonito, em novo
1 012
Micheliny Verunschk
Da Morte pela Manhã
A manhã seguinte
decalcou quase toda
a manhã anterior
ainda fixa nos olhos dela
( e todas as outras manhãs
subseqüentes
decalcariam
detalhes cada vez menores
daquela última
até que não houvessem
mais olhos.)
decalcou quase toda
a manhã anterior
ainda fixa nos olhos dela
( e todas as outras manhãs
subseqüentes
decalcariam
detalhes cada vez menores
daquela última
até que não houvessem
mais olhos.)
982
Alice Ruiz
Hai-kais
apaga a luz
antes de amanhecer
um vagalume
vento seco
entre os bambus
barulho d água
tanta poesia no gesto
nenhum poema
o diria
o relógio marca
48 horas sem te ver
sei lá quantas para te esquecer
circuluar
sonho impar
acordo par
desacerto
entre nós
só etceteras
antes de amanhecer
um vagalume
vento seco
entre os bambus
barulho d água
tanta poesia no gesto
nenhum poema
o diria
o relógio marca
48 horas sem te ver
sei lá quantas para te esquecer
circuluar
sonho impar
acordo par
desacerto
entre nós
só etceteras
1 745
Manuel de Freitas
CENTRO COMERCIAL I I
Uma hipótese de morte com fato de treino
em fim-de-semana cheio de graça. Perdido e
contente como os filhos hão-de ser,
pura imagem de horror
a demorar-se num século vazio.
A autoridade do dinheiro quase nada
esconde já a pobreza vegetal, a
essência decompondo-se. Ele não sabe. Sei eu
por si este pânico, a desmesura triste
de o olhar enjoado, enquanto o silêncio sangra
e quase fede – menos contudo do que as tripas
inúteis deste domingo absurdamente igual
a todos os outros que nos falta viver,
arrastar com fúnebres cuidados
para num arremesso de baba feliz
ganhar o futuro, a morte precisa
que nessa palavra dizemos.
em fim-de-semana cheio de graça. Perdido e
contente como os filhos hão-de ser,
pura imagem de horror
a demorar-se num século vazio.
A autoridade do dinheiro quase nada
esconde já a pobreza vegetal, a
essência decompondo-se. Ele não sabe. Sei eu
por si este pânico, a desmesura triste
de o olhar enjoado, enquanto o silêncio sangra
e quase fede – menos contudo do que as tripas
inúteis deste domingo absurdamente igual
a todos os outros que nos falta viver,
arrastar com fúnebres cuidados
para num arremesso de baba feliz
ganhar o futuro, a morte precisa
que nessa palavra dizemos.
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