Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Joachim Du Bellay
JUDO QUANTO RODEIA A NATUREZA
Tudo quanto rodeia a Natureza,
Quanto mais cedo nasce, menos dura;
Da primavera o manto de verdura
Em breve perde a flórida beleza.
No calor, do trovão são fácil presa
Os frutos que receiam a friúra;
E contra o inverno têm pele mais dura
Os tardos, que do outono são riqueza.
As florinhas de tua mocidade
Breve serão colhidas sem piedade,
Não a virtude, o espírito, a razão.
A esses frutos, em ti tão promissores,
Não dá outono nem verão temores,
Nem o rigor da gélida sazão.
Quanto mais cedo nasce, menos dura;
Da primavera o manto de verdura
Em breve perde a flórida beleza.
No calor, do trovão são fácil presa
Os frutos que receiam a friúra;
E contra o inverno têm pele mais dura
Os tardos, que do outono são riqueza.
As florinhas de tua mocidade
Breve serão colhidas sem piedade,
Não a virtude, o espírito, a razão.
A esses frutos, em ti tão promissores,
Não dá outono nem verão temores,
Nem o rigor da gélida sazão.
1 006
Vicente de Carvalho
A Ternura do Mar
No firmamento azul, cheio de estrelas de ouro
Ia boiando a lua indiferente e fria...
De penhasco em penhasco e de estouro em estouro,
Embaixo, o mar dizia:
"Lua, só meu amor é fiel tempo em fora...
Muda o céu, que se alegra à madrugada, e pelas
Sombras do entardecer todo entristece, e chora
Marejado de estrelas;
Ora em pompas, a terra, ora desfeita e nua
— Como a folha que vai arrastada na brisa —
Aos caprichos do tempo inconstante flutua
Indecisa, indecisa...
Desfolha-se, encanece em musgos, aos rigores
Do céu mostra a nudez dos seus galhos mesquinhos,
A árvore que viçou toda folhas e flores,
Toda aromas e ninhos:
Cóleras de tufão, pompas de primavera,
Céu que em sombras se esvai, terra que se desnuda,
A tudo o tempo alcança, e a tudo o tempo altera...
— Só o meu amor não muda!
Há mil anos que eu vivo a terra suprimindo:
Hei de romper-lhe a crosta e cavar-lhe as entranhas,
Dentro de vagalhões penhascos submergindo,
Submergindo montanhas.
Hei de alcançar-te um dia... Embalde nos separa
A largura da terra e o fraguedo dos montes...
Hei de chegar aí de onde vens, nua e clara,
Subindo os horizontes.
Um passo para ti cada dia entesouro;
Há de ter fim o espaço, e o meu amor caminha...
Dona do céu azul e das estrelas de ouro,
Um dia serás minha!
E serei teu escravo... À noute, pela calma
Rendilharei de espuma o teu berço de areias,
E há de embalar teu sono e acalentar tua alma
O canto das sereias.
Quando a aurora romper no céu despovoado,
Tesouros a teus pés estenderei, de rastros...
Ser amante do mar vale mais, sonho amado,
Que ser dona dos astros.
Deliciando-te o olhar, afagando-te a vista,
Todo me tingirei de mil cores cambiantes,
E abrir-se-á de meu seio a brancura imprevista
Das ondas arquejantes.
Levar-te-ei de onda e monda a vagar de ilha em ilha,
Tranquilas solidões, ermas como atalaias,
Onde o marulho canta e a salsugem polvilha
A alva nudez das praias.
Ao longe, de repente assomando e fugindo,
Alguma vela, ao sol, verás alva de neve:
Teus olhos sonharão enlevados, seguindo
Seu vôo claro e leve;
Sonharão, na delícia indefinida e vaga
De sentir-se levar sem destino, um momento,
Para além... para além... nos balanços da vaga,
Nos acasos do vento.
(...)
Imagem - 00160001
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Ia boiando a lua indiferente e fria...
De penhasco em penhasco e de estouro em estouro,
Embaixo, o mar dizia:
"Lua, só meu amor é fiel tempo em fora...
Muda o céu, que se alegra à madrugada, e pelas
Sombras do entardecer todo entristece, e chora
Marejado de estrelas;
Ora em pompas, a terra, ora desfeita e nua
— Como a folha que vai arrastada na brisa —
Aos caprichos do tempo inconstante flutua
Indecisa, indecisa...
Desfolha-se, encanece em musgos, aos rigores
Do céu mostra a nudez dos seus galhos mesquinhos,
A árvore que viçou toda folhas e flores,
Toda aromas e ninhos:
Cóleras de tufão, pompas de primavera,
Céu que em sombras se esvai, terra que se desnuda,
A tudo o tempo alcança, e a tudo o tempo altera...
— Só o meu amor não muda!
Há mil anos que eu vivo a terra suprimindo:
Hei de romper-lhe a crosta e cavar-lhe as entranhas,
Dentro de vagalhões penhascos submergindo,
Submergindo montanhas.
Hei de alcançar-te um dia... Embalde nos separa
A largura da terra e o fraguedo dos montes...
Hei de chegar aí de onde vens, nua e clara,
Subindo os horizontes.
Um passo para ti cada dia entesouro;
Há de ter fim o espaço, e o meu amor caminha...
Dona do céu azul e das estrelas de ouro,
Um dia serás minha!
E serei teu escravo... À noute, pela calma
Rendilharei de espuma o teu berço de areias,
E há de embalar teu sono e acalentar tua alma
O canto das sereias.
Quando a aurora romper no céu despovoado,
Tesouros a teus pés estenderei, de rastros...
Ser amante do mar vale mais, sonho amado,
Que ser dona dos astros.
Deliciando-te o olhar, afagando-te a vista,
Todo me tingirei de mil cores cambiantes,
E abrir-se-á de meu seio a brancura imprevista
Das ondas arquejantes.
Levar-te-ei de onda e monda a vagar de ilha em ilha,
Tranquilas solidões, ermas como atalaias,
Onde o marulho canta e a salsugem polvilha
A alva nudez das praias.
Ao longe, de repente assomando e fugindo,
Alguma vela, ao sol, verás alva de neve:
Teus olhos sonharão enlevados, seguindo
Seu vôo claro e leve;
Sonharão, na delícia indefinida e vaga
De sentir-se levar sem destino, um momento,
Para além... para além... nos balanços da vaga,
Nos acasos do vento.
(...)
Imagem - 00160001
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
2 011
Edith Sitwell
CÂNTICO DE DIDO
O meu Sol da Morte é ao invés para as profundas
O que o Grande Sol Celeste é para as alturas
Em calor violento
Quando Sirius se vem deitar aos pés do Sol.
O meu Sol da Morte é só profundidade, o sol celeste
Altura só, e os ares do mundo inteiro jazem entre
Esses sóis
Agora apenas o Cão se senta ao pé do meu esquife
Em que jazo ardendo por meu coração. Os cinco cães dos sentidos
Já não mais caçam.
Após a conflagração do Estio
Da juventude, e seus violentos sóis,
As minhas veias da vida, que tão altas iam que os rios portentosos
de África e de Ásia só regatos pareciam,
Secaram, e o Tempo qual fogo
Aos ossos mudou em nódulos de rubis como os horizontes da luz;
Para lá dos Verões está a peónia em botão
Nas veias, e os grandes péans do sangue
O empório da rosa!
E todavia julguei meu leito de amor meu esquife o mais alto
Sol dos céus, a altura aonde Sirius arde,
E julguei-o depois Sol da Morte, e que nada havia de fundo
Abaixo... Mas agora sei
Que mesmo os cães de caça no coração e nos céus
Acabam por dormir.
O que o Grande Sol Celeste é para as alturas
Em calor violento
Quando Sirius se vem deitar aos pés do Sol.
O meu Sol da Morte é só profundidade, o sol celeste
Altura só, e os ares do mundo inteiro jazem entre
Esses sóis
Agora apenas o Cão se senta ao pé do meu esquife
Em que jazo ardendo por meu coração. Os cinco cães dos sentidos
Já não mais caçam.
Após a conflagração do Estio
Da juventude, e seus violentos sóis,
As minhas veias da vida, que tão altas iam que os rios portentosos
de África e de Ásia só regatos pareciam,
Secaram, e o Tempo qual fogo
Aos ossos mudou em nódulos de rubis como os horizontes da luz;
Para lá dos Verões está a peónia em botão
Nas veias, e os grandes péans do sangue
O empório da rosa!
E todavia julguei meu leito de amor meu esquife o mais alto
Sol dos céus, a altura aonde Sirius arde,
E julguei-o depois Sol da Morte, e que nada havia de fundo
Abaixo... Mas agora sei
Que mesmo os cães de caça no coração e nos céus
Acabam por dormir.
1 193
Charles Bukowski
2 Vistas
meu amigo diz, como é que você pode escrever tantos poemas
daí desta janela? eu escrevo, do útero,
ele me diz. a coisa escura da dor,
a ponta da pena da dor.
bom, isso impressiona muito
mas acontece que eu sei que nós dois recebemos uma boa quantidade de
cartas de recusa, fumamos uma boa quantidade de cigarros,
bebemos demais e tentamos roubar as mulheres
um do outro, o que não é poesia de jeito nenhum.
e ele me lê seus poemas
ele sempre me lê seus poemas
e eu ouço e não digo muita coisa,
olho pela janela,
e lá está a mesma rua
minha rua,
minha rua bêbada, ensolarada, enchuvarada, da
criançada,
e à noite olho para esta rua
às vezes
quando ela pensa que não a estou olhando,
os 1 ou 2 carros movendo-se silenciosamente,
o mesmo velho, ainda vivo, em sua
caminhada noturna,
as cortinas das casas cerradas,
o amor falhou mas
se aguenta
então vamos em frente.
mas agora é dia claro e as crianças
que algum dia serão homens velhos e mulheres velhas
caminhando através de seus últimos momentos,
essas crianças correm ao redor de um carro vermelho
gritando qualquer bobagem,
então meu amigo pousa seu poema.
bem, o que você acha?, ele pergunta.
tente assim e assim, eu cito uma revista
e então estranhamente
penso em guitarras sob o mar
tentando tocar música;
isso é triste e bom e quieto.
ele me vê parado à janela.
o que há lá fora?
olhe, eu digo,
e veja...
ele é 11 anos mais novo que eu.
ele se afasta da janela. eu preciso de uma cerveja,
não tenho mais cerveja.
caminho até a geladeira
e o assunto está encerrado.
daí desta janela? eu escrevo, do útero,
ele me diz. a coisa escura da dor,
a ponta da pena da dor.
bom, isso impressiona muito
mas acontece que eu sei que nós dois recebemos uma boa quantidade de
cartas de recusa, fumamos uma boa quantidade de cigarros,
bebemos demais e tentamos roubar as mulheres
um do outro, o que não é poesia de jeito nenhum.
e ele me lê seus poemas
ele sempre me lê seus poemas
e eu ouço e não digo muita coisa,
olho pela janela,
e lá está a mesma rua
minha rua,
minha rua bêbada, ensolarada, enchuvarada, da
criançada,
e à noite olho para esta rua
às vezes
quando ela pensa que não a estou olhando,
os 1 ou 2 carros movendo-se silenciosamente,
o mesmo velho, ainda vivo, em sua
caminhada noturna,
as cortinas das casas cerradas,
o amor falhou mas
se aguenta
então vamos em frente.
mas agora é dia claro e as crianças
que algum dia serão homens velhos e mulheres velhas
caminhando através de seus últimos momentos,
essas crianças correm ao redor de um carro vermelho
gritando qualquer bobagem,
então meu amigo pousa seu poema.
bem, o que você acha?, ele pergunta.
tente assim e assim, eu cito uma revista
e então estranhamente
penso em guitarras sob o mar
tentando tocar música;
isso é triste e bom e quieto.
ele me vê parado à janela.
o que há lá fora?
olhe, eu digo,
e veja...
ele é 11 anos mais novo que eu.
ele se afasta da janela. eu preciso de uma cerveja,
não tenho mais cerveja.
caminho até a geladeira
e o assunto está encerrado.
1 134
Álvares de Azevedo
RELÓGIOS E BEIJOS
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
TRADUZIDO DE HENRIQUE HEINE
Quem os relógios inventou? Decerto
Algum homem sombrio e friorento:
Numa noite de inverno, tristemente
Sentado na lareira ele cismava,
Ouvindo os ratos a roer na alcova
E o palpitar monótono do pulso.
Quem o beijo inventou? Foi lábio ardente,
Foi boca venturosa, que vivia
Sem um cuidado mais que dar beijinhos...
Era no mês de maio. As flores cândidas
A mil abriam sobre a terra verde,
O sol brilhou mais vivo em céu d'esmalte
E cantaram mais doce os passarinhos.
Segunda Parte
TRADUZIDO DE HENRIQUE HEINE
Quem os relógios inventou? Decerto
Algum homem sombrio e friorento:
Numa noite de inverno, tristemente
Sentado na lareira ele cismava,
Ouvindo os ratos a roer na alcova
E o palpitar monótono do pulso.
Quem o beijo inventou? Foi lábio ardente,
Foi boca venturosa, que vivia
Sem um cuidado mais que dar beijinhos...
Era no mês de maio. As flores cândidas
A mil abriam sobre a terra verde,
O sol brilhou mais vivo em céu d'esmalte
E cantaram mais doce os passarinhos.
2 113
Castro Alves
A Uma Taça Feita de Um Crânio Humano
(Traduzido de BYRON)
"Não recues! De mim não foi-se o espírito...
Em mim verás — pobre caveira fria —
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.
Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!... que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.
Mais val guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
— Taça — levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do reptil.
Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
...Podeis de vinho o encher!
Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.
E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor aí repousa?
É bom fugindo à podridão do lodo
Servir na morte enfim pra alguma coisa!... "
"Não recues! De mim não foi-se o espírito...
Em mim verás — pobre caveira fria —
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.
Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!... que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.
Mais val guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
— Taça — levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do reptil.
Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
...Podeis de vinho o encher!
Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.
E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor aí repousa?
É bom fugindo à podridão do lodo
Servir na morte enfim pra alguma coisa!... "
2 384
António Ramos Rosa
Palavras
São apenas palavras que procuram
a sombra da língua, o seu pudor
de arbusto, as suas pétalas perdidas.
São palavras que se erguem para o início
onde o anel se abre, onde o jardim
que foi sonhado alvorece junto ao rosto.
São palavras que se dilaceram como vestes
e a noite se entreabre e a matéria
acende-se quando o tempo recomeça.
A espuma amadurece a luz, e as palavras
dizem sombra na sombra e o sono do caminho.
a sombra da língua, o seu pudor
de arbusto, as suas pétalas perdidas.
São palavras que se erguem para o início
onde o anel se abre, onde o jardim
que foi sonhado alvorece junto ao rosto.
São palavras que se dilaceram como vestes
e a noite se entreabre e a matéria
acende-se quando o tempo recomeça.
A espuma amadurece a luz, e as palavras
dizem sombra na sombra e o sono do caminho.
1 073
António Ramos Rosa
Eclipse E Germinações
Sempre no início o eclipse e os seus insectos.
A areia cintila entre secretos cílios.
O rosto interrompido, as obscuras sílabas.
As armas esbarram nas paredes áridas.
Quem designará o solo negro, os seus arbustos de ferro?
Quem escreverá o tempo e as suas muralhas vazias?
Que são estas palavras senão as cinzas do sol?
Há no entanto um rumor de germinações furtivas.
O que escrevo é uma árvore com os seus pulsos cinzentos.
O vento profere o sabor dos frutos do opaco.
Salubre é o sexo rasgado ao rés da terra.
O vento abre até ao fundo o ventre errante.
A areia cintila entre secretos cílios.
O rosto interrompido, as obscuras sílabas.
As armas esbarram nas paredes áridas.
Quem designará o solo negro, os seus arbustos de ferro?
Quem escreverá o tempo e as suas muralhas vazias?
Que são estas palavras senão as cinzas do sol?
Há no entanto um rumor de germinações furtivas.
O que escrevo é uma árvore com os seus pulsos cinzentos.
O vento profere o sabor dos frutos do opaco.
Salubre é o sexo rasgado ao rés da terra.
O vento abre até ao fundo o ventre errante.
1 051
Antero de Quental
Aspiração
Meus dias vão correndo vagarosos,
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.
É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.
Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...
Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.
É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.
Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...
Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!
2 932
Charles Bukowski
Especial De 1990
gasto pelos anos
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
1 118
Charles Bukowski
Uma Sede Imensa
tenho me tratado com anticorpos por quase 6 meses, baby, para curar um
caso de tuberculose, cara, sobrou para um velho como eu pegar
uma doença tão
antiquada, pegar uma do tamanho de uma bola de basquete ou como uma
sucuri
engolindo um macaco gibão; então agora estou me tratando com
anticorpos e me disseram para não beber
ou fumar por 6 meses, e falam sobre morder ferro com seus
dentes, eu tenho bebido e fumado pesadamente e firmemente com os
melhores
e os piores deles por mais de 50 anos, é,
e a parte mais difícil, parceiro, é eu conhecer gente demais que
bebe e fuma e eles continuam a beber e fumar direto na minha frente
como se
eu não estivesse me segurando para não quebrar seus crânios e rolá-los
pelo assoalho
ou só afugentá-los para bem longe da minha vista - uma vista que
anseia muito por qualquer coisa mesmo microscopicamente viciante.
a parte difícil seguinte disso é ficar sentado à máquina de escrever sem
aquilo,
quero dizer, isso foi meu show, minha dança, minha distração, minha
raison dºêtre, é isso, misturando fumaça e bebida com bater à máquina e
você pode
apostar que é onde a sorte chove dia e noite e o restante do tempo, e
você ouve a frase "cortar é um bode" mas eu não acho que seja
forte o bastante, deveria ser "fazer picadinho é um bode" ou "enterrando
o bode
ainda quente", enfim não tem sido fácil, não não não não não não não
não não não,
e quando eu olho para uma garrafa de cerveja
parece sol engarrafado, uma tragada de cigarro é como o sopro da vida
e uma garrafa de vinho tinto parece o sangue da própria vida.
para mim, é difícil pensar no futuro ou preocupar-me com isso: o
presente
imediato parece tão esmagador e agora eu simpatizo com todos aqueles
que fracassam
em dominar sua bebida e seu cigarro
pois estes últimos 6 meses têm sido os 6 meses mais longos da minha
vida!
desculpe aborrecê-lo com tudo isso, mas não é por isso que você está
aqui?
caso de tuberculose, cara, sobrou para um velho como eu pegar
uma doença tão
antiquada, pegar uma do tamanho de uma bola de basquete ou como uma
sucuri
engolindo um macaco gibão; então agora estou me tratando com
anticorpos e me disseram para não beber
ou fumar por 6 meses, e falam sobre morder ferro com seus
dentes, eu tenho bebido e fumado pesadamente e firmemente com os
melhores
e os piores deles por mais de 50 anos, é,
e a parte mais difícil, parceiro, é eu conhecer gente demais que
bebe e fuma e eles continuam a beber e fumar direto na minha frente
como se
eu não estivesse me segurando para não quebrar seus crânios e rolá-los
pelo assoalho
ou só afugentá-los para bem longe da minha vista - uma vista que
anseia muito por qualquer coisa mesmo microscopicamente viciante.
a parte difícil seguinte disso é ficar sentado à máquina de escrever sem
aquilo,
quero dizer, isso foi meu show, minha dança, minha distração, minha
raison dºêtre, é isso, misturando fumaça e bebida com bater à máquina e
você pode
apostar que é onde a sorte chove dia e noite e o restante do tempo, e
você ouve a frase "cortar é um bode" mas eu não acho que seja
forte o bastante, deveria ser "fazer picadinho é um bode" ou "enterrando
o bode
ainda quente", enfim não tem sido fácil, não não não não não não não
não não não,
e quando eu olho para uma garrafa de cerveja
parece sol engarrafado, uma tragada de cigarro é como o sopro da vida
e uma garrafa de vinho tinto parece o sangue da própria vida.
para mim, é difícil pensar no futuro ou preocupar-me com isso: o
presente
imediato parece tão esmagador e agora eu simpatizo com todos aqueles
que fracassam
em dominar sua bebida e seu cigarro
pois estes últimos 6 meses têm sido os 6 meses mais longos da minha
vida!
desculpe aborrecê-lo com tudo isso, mas não é por isso que você está
aqui?
612
João Marcio Furtado Costa
Num Segundo, O Milênio
Num Segundo, O Milênio
(05/93)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
De mil passarás e a dois mil não chegarás!
Um por todos e todos por um.
De dois mil passarás e a três mil, quem saberá?
Chegaremos a lugar algum?
O tempo avança: Segundo, hora, milênio...
O mundo cansa: Urânio, ouro, oxigênio...
Elemento ou tempo? Tempo ou elemento?
O que mais importa no momento?
O que poderá nos salvar?
(05/93)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
De mil passarás e a dois mil não chegarás!
Um por todos e todos por um.
De dois mil passarás e a três mil, quem saberá?
Chegaremos a lugar algum?
O tempo avança: Segundo, hora, milênio...
O mundo cansa: Urânio, ouro, oxigênio...
Elemento ou tempo? Tempo ou elemento?
O que mais importa no momento?
O que poderá nos salvar?
743
Charles Bukowski
Sol Se Pondo
ninguém está triste por eu ir embora,
nem mesmo eu;
mas deveria haver um menestrel
ou ao menos um copo de vinho.
isso incomoda mais aos jovens, acho:
uma morte lenta sem violência.
ainda assim isso faz com que qualquer homem sonhe;
você gostaria de um velho veleiro,
a vela branca incrustada de sal
e o mar embalando sugestões de imortalidade.
mar no nariz
mar no cabelo
mar na medula, nos olhos
e sim, no peito.
sentiremos falta
do amor de uma mulher ou música ou comida
ou o corcovear do grande cavalo louco e
musculoso,
pisoteando torrões de terra e destinos
para o alto e para bem longe
em um só momento de sol poente?
mas agora é a minha vez
e não há majestade nisso
pois não houve majestade
antes disso
e cada um de nós, como vermes mordidos
nas maçãs,
não merece moratória.
a morte penetra em minha boca
e rasteja ao longo dos meus dentes
e me pergunto se estou com medo deste
morrer sem voz e sem lamentos que é
igual ao murchar de uma rosa?
nem mesmo eu;
mas deveria haver um menestrel
ou ao menos um copo de vinho.
isso incomoda mais aos jovens, acho:
uma morte lenta sem violência.
ainda assim isso faz com que qualquer homem sonhe;
você gostaria de um velho veleiro,
a vela branca incrustada de sal
e o mar embalando sugestões de imortalidade.
mar no nariz
mar no cabelo
mar na medula, nos olhos
e sim, no peito.
sentiremos falta
do amor de uma mulher ou música ou comida
ou o corcovear do grande cavalo louco e
musculoso,
pisoteando torrões de terra e destinos
para o alto e para bem longe
em um só momento de sol poente?
mas agora é a minha vez
e não há majestade nisso
pois não houve majestade
antes disso
e cada um de nós, como vermes mordidos
nas maçãs,
não merece moratória.
a morte penetra em minha boca
e rasteja ao longo dos meus dentes
e me pergunto se estou com medo deste
morrer sem voz e sem lamentos que é
igual ao murchar de uma rosa?
1 196
Ernesto de Melo e Castro
Objecto-Casa
O objecto deste poema é aquela casa em frente
6 meses
3 meses
um telhado para colocar.
O objecto são umas quatro paredes
lentas
penosas
6 meses ou mais – quem sabe?
Pelas quartas-feiras
Uma carga de tijolo,
uma caixa grande de vidros de cor,
três centos de pregos,
para um homem lentamente habitar.
O objecto deste poema
é a lentidão sagrada do construir
da casa sita em frente da minha janela.
O objecto é o mistério da renovação do tempo.
O objecto é a quase realização
um telhado para colocar
6 meses
3 homens
uma habitação para cá do infinito.
Antologia para Iniciantes, Porto, Editora Ausência, 2003
6 meses
3 meses
um telhado para colocar.
O objecto são umas quatro paredes
lentas
penosas
6 meses ou mais – quem sabe?
Pelas quartas-feiras
Uma carga de tijolo,
uma caixa grande de vidros de cor,
três centos de pregos,
para um homem lentamente habitar.
O objecto deste poema
é a lentidão sagrada do construir
da casa sita em frente da minha janela.
O objecto é o mistério da renovação do tempo.
O objecto é a quase realização
um telhado para colocar
6 meses
3 homens
uma habitação para cá do infinito.
Antologia para Iniciantes, Porto, Editora Ausência, 2003
707
Alfred Edward Housman
SAY, LAD
Tens que fazer, meu rapaz?
Não tardes, que o tempo foge.
O trabalho a dois se faz?
Aqui me tens para hoje.
Manda por mim, que eu hei-de ir.
Por mim chama, que ouvirei.
Usa-me antes de eu partir
Pra onde não prestarei.
Antes que a carne envelheça,
E morta seja a vontade.
E o lábio já nem estremeça
Dizendo: - Rapaz, é tarde.
Não tardes, que o tempo foge.
O trabalho a dois se faz?
Aqui me tens para hoje.
Manda por mim, que eu hei-de ir.
Por mim chama, que ouvirei.
Usa-me antes de eu partir
Pra onde não prestarei.
Antes que a carne envelheça,
E morta seja a vontade.
E o lábio já nem estremeça
Dizendo: - Rapaz, é tarde.
1 229
Pablo Neruda
XLIV
Onde está o menino que fui,
segue dentro de mim ou se foi?
Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?
Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?
Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?
E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?
segue dentro de mim ou se foi?
Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?
Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?
Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?
E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?
1 314
Pablo Neruda
XLV
O amarelo dos bosques
é o mesmo do ano passado?
E se repete o vôo negro
da tenaz ave marinha?
E onde termina o espaço
se chama morte ou infinito?
Que pesam mais na cintura,
as dores ou as lembranças?
é o mesmo do ano passado?
E se repete o vôo negro
da tenaz ave marinha?
E onde termina o espaço
se chama morte ou infinito?
Que pesam mais na cintura,
as dores ou as lembranças?
1 000
Marcial
VII, 19 - A UM FRAGMENTO DO ARGOS
Este fragmento, lenho inútil dizes,
Primeira quilha foi no mar ignoto.
Que não quebraram as Ciâneas rochas,
Nem a fúria cruel das águas citas,
Os séculos venceram: mas que resta
Mais venerável é que a nave inteira.
Primeira quilha foi no mar ignoto.
Que não quebraram as Ciâneas rochas,
Nem a fúria cruel das águas citas,
Os séculos venceram: mas que resta
Mais venerável é que a nave inteira.
885
Pablo Neruda
XLVI
E como se chama esse mês
que está entre dezembro e janeiro?
Com que direito numeraram
as doces uvas do racimo?
Por que não nos deram extensos
meses que durem todo o ano?
Não te enganou a primavera
com beijos que não floresceram?
que está entre dezembro e janeiro?
Com que direito numeraram
as doces uvas do racimo?
Por que não nos deram extensos
meses que durem todo o ano?
Não te enganou a primavera
com beijos que não floresceram?
1 109
Pablo Neruda
Tarde - LXVIII
A menina de madeira não chegou caminhando:
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota
de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota
de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.
1 036
Marcial
IV, 7 - A HILO
Porque ontem que tu davas, hoje, ó Hilo, negas,
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?
1 109
Hilda Hilst
Do amor XXXV
Soergo meu passado e meu futuro
E digo à boca do Tempo que os devore.
E degustando o êxito do Agora
A cada instante me vejo renascendo
E no teu rosto. Túlio, faz-se um Tempo
Imperecível, justo
Igual à hora primeira, nova, hora-menina
Quando se morde o fruto. Faz-se o Presente.
Translúcida me vejo na tua vida
Sem olhar para trás nem para frente:
Indescritível, recortada, fixa.
E digo à boca do Tempo que os devore.
E degustando o êxito do Agora
A cada instante me vejo renascendo
E no teu rosto. Túlio, faz-se um Tempo
Imperecível, justo
Igual à hora primeira, nova, hora-menina
Quando se morde o fruto. Faz-se o Presente.
Translúcida me vejo na tua vida
Sem olhar para trás nem para frente:
Indescritível, recortada, fixa.
1 381
Marcial
V, 58 - A PÓSTUMO
Viverás amanhã, sempre me dizes, Póstumo.
Esse amanhã, ó Póstumo, quando virá?
Quão longe mora? E aonde está? Onde buscá-lo?
Esse amanhã mais velho é que Nestor ou Príamo.
Esse amanhã tem preço? Qual o preço? Diz-me.
Viverás amanhã. E viver hoje é tarde.
Aquele é sage, ó Póstumo, que ontem viveu.
Esse amanhã, ó Póstumo, quando virá?
Quão longe mora? E aonde está? Onde buscá-lo?
Esse amanhã mais velho é que Nestor ou Príamo.
Esse amanhã tem preço? Qual o preço? Diz-me.
Viverás amanhã. E viver hoje é tarde.
Aquele é sage, ó Póstumo, que ontem viveu.
790
Yeda Prates Bernis
Hai-kais
Lavadeiras de beira-rio.
Nas águas, boiando,
cores e cantos.
Na poça dágua
o gato lambe
a gota de lua.
Pássaros em silêncio.
Noturna chave
tranca o dia.
Noite no jasmineiro.
Sobre o muro,
estrelas perfumadas.
Inúltil. A gaiola
nunca aprisiona
as penas do canto.
No porta-retrato
um tempo respira,
morto.
Nas águas, boiando,
cores e cantos.
Na poça dágua
o gato lambe
a gota de lua.
Pássaros em silêncio.
Noturna chave
tranca o dia.
Noite no jasmineiro.
Sobre o muro,
estrelas perfumadas.
Inúltil. A gaiola
nunca aprisiona
as penas do canto.
No porta-retrato
um tempo respira,
morto.
1 031