Tempo e Passagem
Affonso Romano de Sant'Anna
Villa Serbelloni, Como
Estou preso em suas grutas e jardins,
em suas colunas e espirais.
Não há fuga e contraponto possível
embora o computador.
Sei que lá fora me acenam
tecnologias surpreendentes
na direção de outras galáxias,
mas estou atado a estes ciprestes,
eu, alguns pássaros, flores e lagartos.
Além do mais, ao que consta
o século XX está para acabar
enquanto o XVIII, para mim,
começou a começar.
Affonso Romano de Sant'Anna
Fim de Século
seus discursos
seus decretos
e cinco anos de minha vida
em sua mão.
Há três dias enterrei
o maior artista do século
dois romancistas europeus
e um pintor brasileiro.
Todo dia há alguma coisa que enterrar.
Mas agora preparo-me
para uma façanha inédita:
sepultar um século inteiro.
Esta é uma tarefa enorme
terei que achar
alguém pra me ajudar.
Affonso Romano de Sant'Anna
Aniversário No Aeroporto
Aviões partem e chegam menos o meu
atrasado dois dias.
Crianças lambuzam-se de sorvetes choram
jovens deitam sobre mochilas pelo chão,
adultos olham o que surge e some no horizonte
e não sabem o que fazer da espera.
Leio jornais para ilustrar o tempo:
nos suplementos dois poemas de Bukowski
(um dos quais fala da bunda das mulheres mexicanas).
Vão inaugurar a restauração da Capela Sistina
onde Guevara esteve meditando
antes de embrenhar-se para morrer
– nascer nas matas da Bolívia.
Este país está todo dividido:
um terço com as guerrilhas,
um terço com o narcotráfico,
um terço que se quer governo.
Mas faço aniversário
e considerando minha vida de camelô literário
consulto no jornal o horóscopo do Tarot
que me adverte:
“sus cartas sostienem que no sucumbir a las persuasiones maléficas de la seducción, a su voz que habla maravillas, es casi imposible. Pero seria um error, porque el trabajo no tiene pajaritos de oro como le pintan. Velas mojadas, muchas velas mojadas”
Com velas molhadas
no aeroporto de Bogotá
meu aniversário não se comemora.
Renato Rezende
Alhures
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
José Miguel Silva
Os melhores anos da minha vida
passaram comigo ausente, passaram
numa corrente subterrânea.
Não me apercebi de nada, distraído
com a queda das folhas,
a densa mistura de pão e desordem.
Estava tudo em aberto, mas eu não sabia
senão de pequenas querelas,
e tímidos passos à toa, sempre à espera
de não ter futuro. Sentado, como um pobre,
sobre o poço de petróleo,
eu media com tesouras as semanas,
misturava-me com livros, ansiava
pelo dia em que deixasse de sangrar.
Os melhores anos da minha vida
troquei-os por isto.
Golgona Anghel
Quando a paixão recuperar a vista
o antigo caminho dos lobos,
a coruja e os seus monólogos,
partículas de sal,
ínfimos movimentos de sombras,
afastarão para sempre os nossos corpos.
Com ou sem licença para fazer obras,
o horizonte montará o seu palco de fim de contas.
Esta comédia de vésperas
que o cansaço tem mal encenado.
A vida será uma soma de mensagens erradas e
de músicas que não conseguimos ouvir até ao fim.
Lembrar-me-ás uma loja de souvenirs
com barcos engarrafados e colares de conchas.
Berloques e berlindes, lápis do México 86, porta-chaves da expo 98.
Enfim, demasiada poeira para tão curto caminho.
Entretanto, está sol e, olha,
parece que as cegonhas adiaram o voo para o sul.
Um pouco como eu, esquecem de ir embora.
As coisas solidificam para não mudarem de lugar.
Carlos Drummond de Andrade
Declaração Em Juízo
o sobrevivente.
Não por longo tempo, é claro.
Tranquilizem-se.
Mas devo confessar, reconhecer
que sou sobrevivente.
Se é triste/cômico
ficar sentado na platéia
quando o espetáculo acabou
e fecha-se o teatro,
mais triste/grotesco é permanecer no palco,
ator único, sem papel,
quando o público já virou as costas
e somente baratas
circulam no farelo.
Reparem: não tenho culpa.
Não fiz nada para ser
sobrevivente.
Não roguei aos altos poderes
que me conservassem tanto tempo.
Não matei nenhum dos companheiros.
Se não saí violentamente,
se me deixei ficar ficar ficar,
foi sem segunda intenção.
Largaram-me aqui, eis tudo,
e lá se foram todos, um a um,
sem prevenir, sem me acenar,
sem dizer adeus, todos se foram.
(Houve os que requintaram no silêncio.)
Não me queixo. Nem os censuro.
Decerto não houve propósito
de me deixar entregue a mim mesmo,
perplexo,
desentranhado.
Não cuidaram de que um sobraria.
Foi isso. Tornei, tornaram-me
sobre-vivente.
Se se admiram de eu estar vivo,
esclareço: estou sobrevivo.
Viver, propriamente, não vivi
senão em projeto. Adiamento.
Calendário do ano próximo.
Jamais percebi estar vivendo
quando em volta viviam quantos! quanto.
Alguma vez os invejei. Outras, sentia
pena de tanta vida que se exauria no viver
enquanto o não viver, o sobreviver
duravam, perdurando.
E me punha a um canto, à espera,
contraditória e simplesmente,
de chegar a hora de também
viver.
Não chegou. Digo que não. Tudo foram ensaios,
testes, ilustrações. A verdadeira vida
sorria longe, indecifrável.
Desisti. Recolhi-me
cada vez mais, concha, à concha. Agora
sou sobrevivente.
Sobrevivente incomoda
mais que fantasma. Sei: a mim mesmo
incomodo-me. O reflexo é uma prova feroz.
Por mais que me esconda, projeto-me,
devolvo-me, provoco-me.
Não adianta ameaçar-me. Volto sempre,
todas as manhãs me volto, viravolto
com exatidão de carteiro que distribui más notícias.
O dia todo é dia
de verificar o meu fenômeno.
Estou onde não estão
minhas raízes, meu caminho:
onde sobrei,
insistente, reiterado, aflitivo
sobrevivente
da vida que ainda
não vivi, juro por Deus e o Diabo, não vivi.
Tudo confessado, que pena
me será aplicada, ou perdão?
Desconfio nada pode ser feito
a meu favor ou contra.
Nem há técnica
de fazer, desfazer
o infeito infazível.
Se sou sobrevivente, sou sobrevivente.
Cumpre reconhecer-me esta qualidade
que finalmente o é. Sou o único, entendem?
de um grupo muito antigo
de que não há memória nas calçadas
e nos vídeos.
Único a permanecer, a dormir,
a jantar, a urinar,
a tropeçar, até mesmo a sorrir
em rápidas ocasiões, mas garanto que sorrio,
como neste momento estou sorrindo
de ser — delícia? — sobrevivente
É esperar apenas, está bem?
que passe o tempo de sobrevivência
e tudo se resolva sem escândalo
ante a justiça indiferente.
Acabo de notar, e sem surpresa:
não me ouvem no sentido de entender,
nem importa que um sobrevivente
venha contar seu caso, defender-se
ou acusar-se, é tudo a mesma
nenhuma coisa, e branca.
Carlos Drummond de Andrade
Qualquer
A hora mesma da morte
é hora de nascer.
Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.
Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver.
Aymar Mendonça
Do Tempo
a marca de carneiros
emancipados
O giro das cirandas
travando a liberdade das esferas
E na eclosão das uvas, mães do vinho
a saudação telúrica dos pâmpanos
As aranhas tecendo mandalas
os relógios registrando ausências
enquanto a mariposa adeja sem rumo
tentando frustrar a arrogância dos ventos
num incontido descaso do amanhã
Cumprem-se as sentenças do Universo
e o Tempo se traja de compromissos.
Aymar Mendonça
Karma
louvar a luz do sol
fugir da neve que estilhaça
O vento
o vento em manhãs de rocio
e á noite o fanal das madrugadas
em portos ancestrais
Gente de olhar gris e têmpora marcada
ou gente aos trapos
tropa de trapos
e o rio a correr
levando troncos e cardumes.
Bruno Araújo de Melo
O Tempo de um Poema
E a guerra é a mesma de ontem:
Gente que tem família
Filhos, netos e amor;
Habitantes de uma ilha
Onde todo o medo
Se faz.
Me traz um pouco de café
Que ainda é cedo e tenho um compromisso!
Será que hoje vai chover?
Tomara que aconteça isso.
Estou atrasado...
Por que eles buzinam tanto?
E esse engarrafamento!
Uma batida aconteceu
Lá fora.
Porque a luz veio tão alta?
Vocês pensam que tenho grana?
Depois a gente bate um papo, filha!
Agora o telefone toca...
Esqueço a hora e o relógio.
Esqueço que tudo o que se faz
Termina em nada,
E tiro o paletó,
E folgo a gravata,
E toco os pés no chão.
Não quero me perder
Do que sou,
Do que somos
Puros
Grupos de retirantes.
Numa estrada,
Buscando
O tempo de um poema
Como um vírus de computador.
Angela Santos
Instante
com o tempo
inventar um tempo
colher esse instante
de ser.
O futuro é destino
e a viagem não dura senão
o momento do acontecer da vida.
Henriqueta Lisboa
Calendário
fictícia
caindo da árvore
dos dias
de Reverberações (1976)
Friedrich Hölderlin
Diotima
Vem, dulçor da musa etérea — e para mim aplaca
O caos do tempo, ó tu, que outrora os elementos irmanaste,
Em tons de paz do céu me suaviza a fera luta,
Até que aos seios dos mortais se amaine a intriga,
Até que a suave, a ingente, a velha natureza dos humanos
Brote enfim do fermentar do tempo alegre e forte.
E que à viva forma voltes, da gente aos corações sedentos!
Voltes à mesa hospitaleira, e ao santuário voltes!
Pois que, do Espírito colmada, como em neve as flores finas,
Vive ainda e a remirar o sol está Diotima.
Mas foi-se deste mundo o sol do Espírito, o mais belo,
E em caliginosa treva raivam agora tão somente os furacões.
Diotima
Komm und besänftige mir, die du einst Elemente versöhntest,
Wonne der himmlischen Muse, das Chaos der Zeit,
Ordne den tobenden Kampf mit Friedenstönen des Himmels,
Bis in der sterblichen Brust sich das Entzweite vereint,
Bis der Menschen alte Natur, die ruhige, große,
Aus der gärenden Zeit mächtig und heiter sich hebt.
Kehr’ in die dürftigen Herzen des Volks, lebendige Schönheit!
Kehr’ an den gastlichen Tisch, kehr’ in den Tempel zurück!
Denn Diotima lebt, wie die zarten Blüten im Winter,
Reich an eigenem Geist, sucht sie die Sonne doch auch.
Aber die Sonne des Geists, die schönere Welt, ist hinunter
Und in frostiger Nacht zanken Orkane sich nur.
– Friedrich Hölderlin. “Diotima”. [tradução Antonio Medina Rodrigues]. In: Canto do destino e outros cantos. (Organização, tradução e ensaio por Antonio Medina Rodrigues). São Paulo: Ilulminuras, 1994.
Angela Santos
Profecias
de longe
e trazem nas mãos
o desenho da rosa
milénios sepultada nas mãos
a eterna forma da rosa
Vêm de longe
e sabem o nome de todas as coisas,
olhos de mar sereno
repousam no fundo de um sonho
antigo.
vêm de longe
e pelos caminhos há estrelas,
profetas do sol
espalham enigmas e gravam sinais.
nos templos, nos livros,
nos olhos de lume
que perscrutam cifras
dum tempo perene
insana tarefa
perdida na busca do sentido
vago
deste tempus breve.
Sebastião Alba
A palhota
Angela Santos
Aguarela
cinza suspensos,
em eco passos e risos
mistura de fumo
e nuvens
que se cruzam apressadas
Gritos, ecos e latidos
a lembrar a vida , breve……
e a suave batida do gotejar
da água
sobre os remendos de musgo
que cresceram nos beirais…
Contínuo o som da chuva
é um adagio na vidraça,
como cinzento é o dia
que o sopro da tarde arrasta
e lentas se desprendendo
de um relógio de parede
as horas gastam o dia,
escoando devagar o tempo.
Da varanda da memória
colhem-se pedaços de azul.
e um quadro de girassóis
lembra estios passados,
enquanto a palavra emerge
e vai traçando os contornos
que compõem a aguarela
que com o dia se vai.
Renato Rezende
[Rapina]
Tempo estilhaçado.
Maneira de nunca mais pensar:
Passe um dia inteiro numa praia.
Melhor ainda: passe uma semana inteira. Dormindo na areia e comendo dos ambulantes:
Saiba apodrecer.
Um dia eu saio de mim mesmo e não volto.
Um dia abandono a casa iluminada.
Ninguém é de ninguém.
Ninguém combina com ninguém.
Tudo está solto.
Mariana é Deus.
Cocaína é Deus.
Não queimaria se não fosse fogo.
Tempo, doce companheiro.
Tempo: o melhor dos amantes.
Nossa conversa foi muito linda. Houve inclusive um momento mágico: o telefone quebrou, e ficamos os dois, mudos, cada um do seu lado, pensando que o outro havia se calado.
A linguagem está estruturada como o tempo, ou o tempo é experimentado de acordo com a linguagem.
Na noite escura, galopo uma mula no mar de sangue.
Estou apaixonado.
Vou pedir para ela me castrar. Encenar a castração.
O fim do fim.
Leonardo,
eu quero saber,
onde está a galinhona gorducha
que pode me aquecer do frio da loucura.
Onde?
Agora
Quando pensar, ao invés de prestar atenção nos pensamentos, preste atenção no espaço entre eles.
Caia nesse espaço
Até a morte:
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa
(pois eu já não sou eu)
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa (pois já não sou)
Escrevo para morrer.
Então tá, não sou poeta.
Minha pátria é minha língua.
Umbela Joeira
CONVENTO:
Meu reino
teândrico
O poeta é um b-urubu.
Bífido.
Eu sou uma pessoa que se esquarteja.
Renato Rezende
[Furniture]
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
Artur Eduardo Benevides
Soneto de Indagação
A vida, igual ao dia, encontra ocaso.
Termina, pouco a pouco, o nosso prazo
E o frio olhar da morte já nos carde.
Que tua luz me salve ou me resguarde.
Tuas chamas me queimam. Já me abraso.
Estamos bem além de um simples caso.
A alma, outrora errante, em ânsias arde.
Tenho estranho fulgor de adolescência,
Mas, ao notar que tudo pede urgência,
Sinto que amar me traz um certo alarde.
E ao ver o tempo inexorável, lento,
Escravo de teu grande encantamento
Aflito te pergunto — será tarde?
José Armelim
Augusta
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.
Daniel Lima
Ao nasceres
Que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
No tempo singular de tua vida.
Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste
Horst Bienek
A época seguinte
Erich Fried
Canta-se
de medo
contra o medo.
Canta-se
de fome
contra a fome.
Canta-se
do tempo
contra o tempo.
Canta-se
do pó
contra o pó.
Canta-se
sobre os nomes
a fazer dos nomes o inominável.
:
Einer singt
Einer singt
aus Angst
gegen Angst
Einer singt
aus Not
gegen Not
Einer singt
aus der Zeit
gegen die Zeit
Einer singt
aus dem Staub
gegen die Staub
Einer singt
von den Namen
die Namen namenlos machen
Nota: A palavra alemã Not seria o equivalente a necessidade ou emergência, mas usei fome para manter a concisão.