Poemas neste tema

Tempo e Passagem

Tasso da Silveira

Tasso da Silveira

Poema 17

Esquece o tempo. O tempo não existe.
Acende a chama às límpidas lanternas.
Nossas almas, a ansiar no mundo triste,
são de uma mesma idade: são eternas.

Se no meu rosto lês mortais cansaços,
é natural.A luta foi renhida:
caminhei tantos passos, tantos passos
para que te encontrasse em minha vida...

Não medites o tempo. Se muito antes
de ti cheguei, para a áspera, inclemente
sina de navegar por este mar,

foi para que tivesse olhos orantes,
e me purificasse longamente
na infinita aflição de te esparar...

1 052
Tereza Cristina Fraga

Tereza Cristina Fraga

Nublando

Acordei!
A casa estava quente como o meu corpo.
No silêncio do quarto a percepçåo
De que o amanhå havia acabado de despertar.

Entre olhos sonolentos,
O corpo arrepiado,
Transformou a superfície lisa em leves ondas.

Todos os músculos foram esticados.
Cada fibra estendida ao extremo.

A boca abriu-se...

Na frente o espelho revelava a silhueta,
Que dengosa percebeu suas formas delicadas
Nas curvas acentuadas. Sorri...

O tempo nublado percorreu e penetrou no aposento.
Intrometido!

Transformou a quietude com o suave zumbir dos ventos.
Trocou a cor pálida das paredes.
Deu vontade de cobrir, ficar encolhida, quieta.

Era hora da partida que nåo pode deixar para amanhå o adeus de todos os dias.

Deixei que os minutos passassem, nåo fiz queståo de segurá-los.

Que o tempo nublado chegasse, penetrasse todos os meus poros.

Que as horas permitissem aos minutos serem donos do tempo.
No peito arfante os dois elementos se misturaram, nublando
Meus pensamentos.

Fizeram do corpo moradia.

891
Maria de Lourdes Hortas

Maria de Lourdes Hortas

Ciranda

Segundos e milímetros
do tempo que nos resta
a festa que foi ontem
é hoje a mesma festa.

1 065
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Neste preciso tempo, neste preciso lugar

No princípio era o Verbo
(e os açúcares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3° andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!

Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que faria eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviesado
olhar da ironia?

Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que esquece?
Lá em baixo, na rua, passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória.
Também eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indiferença.

2 057
Kenneth Rexroth

Kenneth Rexroth

Vantagens do aprendizado

Sou um homem de ambição nenhuma
E poucos amigos, incapaz
De ganhar grana, cada dia menos
Jovem, fugitivo dalgum destino justo.
Solitário, maltrapilho, que importa?
Preparo à meia-noite um jarro cheio
De vinho tinto quente com canela.
Visto meu roupão puído e minha boina,
Me sento com uns poemas ao relento,
Desenhando nus nas margens tortas,
Copulando com as ninfomaníacas
De dezesseis anos da minha imaginação.
THE ADVANTAGES OF LEARNING
I am a man with no ambitions
And few friends, wholly incapable
Of making a living, growing no
Younger, fugitive from some just doom.
Lonely, ill-clothed, what does it matter?
At midnight I make myself a jug
Of hot white wine and cardamom seeds.
In a torn grey robe and old beret,
I sit in the cold writing poems,
Drawing nudes on the crooked margins,
Copulating with sixteen year old
Nymphomaniacs of my imagination.
748
Salette Tavares

Salette Tavares

Amor Silêncio

Amor silêncio amargo a roçar-me a morte
grito partido do vidro sobre o peito
ilha deserta no meio das capitais do norte
grilhetas ajustadas no rio em que me deito.

Distância cumulada remanso duma espera
ponte de aventura do dois à unidade
amor brilho raiando a chave do desejo
minuto adormecido ao pé da eternidade.

Amor tempo suspenso, ó lânguido receio,
no pranto do meu canto és a presença forte
estame estremecido dissimulado anseio
amor milagre gesto incandescente porte.

Amor olhos perdidos a riscar desenhos
em largo movimento o espaço circular
amor segundo breve, lanceta, tempo eterno
no rápido castigo da lua a gotejar.

1 584
Mailson Furtado Viana

Mailson Furtado Viana

das amizades distantes

o poeta escreveu algo
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara

ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou

fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
650
Mailson Furtado Viana

Mailson Furtado Viana

no teatro tudo é presente

no teatro tudo é presente
700 anos a 10 metros
e qual o quê velocidade da luz
piada. piada.

a cortina a guilhotinar o tempo
a vida toda a caber naquele oco de mundo
e nós
a 10 metros de tudo

_____por trás num bar
_____num quarto de apartamento
_____numa parada de ônibus
_____ou mesmo assistindo a gente
estamos
nem coubemos na vista
_____deve ser coxia
____________camarim
____________qualquer canto sem luz
____________qualquer canto sem nome

a vida ali toda cabe
não se sabe do tempo
(nem se vê, parece)
não se sabe muita coisa
651
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Fim, de Noite

Copos cheios.
Garrafas nem tanto
Mesas?
Por todos os cantos.
Não faz sentido
O seu espanto...

É noite
O tempo passa
A fumaça sobe
Pessoas falam
Outras escutam
A música

Não há nada
De mal nisso
Escolha a sua dose
A vida continua assim
Começo, meio
E fim.

999
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Mais um Desesperado

Algum dia já sentistes
Que rápido, o tempo passa
Talvez isso nos faça
Amargamente tristes

só espero, um dia
acordar com um grito
e ter 100 gramas de liberdade

Por fim nessa agonia
Que me deixa aflito
A beira da insanidade

859
Herculano Moraes

Herculano Moraes

A canga-o Boi

A canga e o boi
na alternância
de quem soluça
um tempo imaginário.

A canga e o boi
vaga lembrança
de um mundo
sempiterno e vário.

A canga e o boi
legenda esmaecida
na face opaca
de um tempo sem medida.

A canga e o boi
gravura como (vida)
filete sanguíneo na face
da memória... diluída.
A canga...
O boi...

Os sulcos perenes,
de rodas ringindo
na pele do tempo.
A canga...
E o boi?

1 137
Mailson Furtado Viana

Mailson Furtado Viana

no teatro tudo é presente

no teatro tudo é presente
700 anos a 10 metros
e qual o quê velocidade da luz
piada. piada.

a cortina a guilhotinar o tempo
a vida toda a caber naquele oco de mundo
e nós
a 10 metros de tudo

por trás num bar
num quarto de apartamento
numa parada de ônibus
ou mesmo assistindo a gente
estamos
nem coubemos na vista
deve ser coxia
camarim
qualquer canto sem luz
qualquer canto sem nome

a vida ali toda cabe
não se sabe do tempo
(nem se vê, parece)
não se sabe muita coisa
642
Carlos Augusto Viana

Carlos Augusto Viana

Jorge Tuffic

I
O tempo, bem o sabes, escorre das mãos,
e todas as horas são abissais.
Em qualquer cidade, as ruas,
assim como o grande rio,
desembocam sobre o imponderável.
Por isso, teus pés aprenderam, muito cedo,
a desembrulhar os caminhos.
Tua passagem,
o espanto da abstrata carne.
Tua palavra,
o desespero das traças. Teu olho
sobre a mulher que flutuava à janela.
Tuas mãos
doadas aos jarros de flores murchas.
Teu peito,
um cais soçobrado na madrugada.
Muitas terras percorreste,
e hoje, cada uma delas,
dentro de ti, é inefável lavoura.

II
O teu país, hoje, veste-se de líquidos tecidos
e deixa em estilhaços os vidros do sol.
Da praia de Iracema, contemplas o mar,
a brancura extenuada de suas espumas,
onde gaivotas bicam a pele de sombras esbraseadas.

Além desse mar, por certo, estende-se o rio,
— a tua primeira cartilha de espantos.
Por certo, é sobre ele que lanças o teu olhar
quando te enches de longos fragmentos de silêncio.
Navegas na concha negra de suas lendas
e, náufrago, agarras-te à fúria silenciosa de suas margens.

III
Entre ti e o grande rio,
um secreto dicionário.
Com suas palavras-árvore,
com suas palavras-pássaro,
com suas palavras-pórtico,
com suas palavras-lótus.

Entre ti e o grande rio,
as léguas de um estuário.
Onde florescem os álamos,
onde adormecem os pântanos,
onde se tecem os cânticos,
onde fenecem as pátinas.

Entre ti e o grande rio,
Há um secreto calendário.
As horas de tuas lágrimas,
as horas enchendo cântaros,
as horas colhendo lâminas
as horas de teus átrios.

Entre ti e o grande rio,
há um tecido visionário.
Com que se cosem as túnicas
para os mais secretos ritos:
raízes das noites únicas,
húmus que alimentam mitos.

IV
Ainda hoje, conservas contigo
os trôpegos relâmpagos,
uma floresta de vozes,
o cristal da mais límpida estrela.

Ainda hoje, conservas contigo
o claro augúrio de Vésper
soletrando o silêncio dos mortos
que vencem o lodo da memória.

Ainda hoje, conservas contigo
a solidão e o diamante de seus gumes,
o barro e a insônia de sua herança,
o verbo e o labirinto de suas fábulas.

Mas, dentre todos os abismos,
— aquele que se esgarça
entre o rio e o mar,
é o que mais te alucina.

V
Estendeste — e ainda estendes — tuas mãos
para as flores crestadas, a cinza em vôo dos pássaros,
o cromo das esperas, o gesso da insônia,
a lâmina inexorável dos espelhos. Estendidas,
tuas mãos nos oferecem a Varanda de Pássaros,
o Chão sem Mácula, a Faturação do ócio,
a terra e o sangue cravados na Lâmina Agreste.

Cúmplices dos minerais e dos jardins,
das ruas ladrilhadas de silêncio,
dos gritos que tombam dos espelhos,
do sono geométrico dos peixes,
— tuas mãos estendidas para o que,
na carne, é flor e tortura.

Estendidas, tuas mãos não te pertencem,
mas ao que te olha desde que nasceste,
ao que te suga e ao que, realejo,
desfolha-se em música. Tuas mãos
— se estendidas — libertam-nos da ferrugem
e, água clara, banham a fadiga dos frutos.

VI
A poesia
(como descobriste?)
é um ser sem origem.

A poesia,
se há desertos,
abriga-se
em sua própria sombra.

A poesia,
ave solitária,
recusa
o ofertório das palmeiras.

A poesia,
lobo enrodilhado,
oferece a noite
a cada uma de suas presas.

A poesia tem rugas
como a pele de um rio.
Adormecem flautas
sob rochas antiquíssimas.

VII
Os pássaros, mais que as árvores,
deram-te lições de raízes. Os silêncios,
mais que as palavras, apontaram-te
a fragilidade. Teus olhos,
mais que os pés, sangraram
aos espinhos da pátria. A cítara,
mais que a lâmina, os dedos dilacerados.
A pétala, mais que a rosa,
o aroma irremediável. A pedra,
mais que a água, o musgo do efêmero.
A noite, mais que o dia,
a chama dos minutos.

o pó, mais que a carne,
à casa regressa.

1 142
Mailson Furtado Viana

Mailson Furtado Viana

poeminhas de amor

I.
tu tão amanhã eu tão instante
conjugamos o tempo vivendo

II.
a gente tão longe
- 'tá bonita a lua hoje
- 'tá mesmo, 'tá linda

vartoja era tão perto
do mundo

soubemos

depois disso
tudo ficou mais fácil
769
Martins Napoleão

Martins Napoleão

O Poema da Forma Eterna

(Ó infinito sonho!
O grande céu azul desfolhado no espaço!
O homem pequeno e louco
E o barro úmido às mãos do oleiro cego!)

Expressar cada um
O seu minuto culminante de beleza,
O seu instante de bondade extrema,
O seu momento de heroísmo,
Na subitânea íntegra pureza
De uma forma imperecível!
Como o coágulo de luz no diamante sem jaça,
Qual se a gota de orvalho, porventura,
Imagem matinal do sorriso da luz,
Se condenasse repentinamente.

Não a forma perfeita,
Porém aquela, exata e duradoura,
De um ápice de síntese.

Forma que se transfunda, num jato, a substância
De um momento imortal entre dois limites inúteis do tempo fugaz.

Uma forma que seja — nos limites do vário e mutável — perene.
E possa traduzir a integração, a plenitude e a culminância
Do glorioso momento da vida:
O desejo de fixar o efêmero para o tornar eterno.
Como o oleiro inocente, com as mãos carregadas de sonho,
Procurar transmitir ao barro paciente,
Numa manhã feliz em que os deuses se vestem de luz,
O movimento, a vida, a elástica e nervosa agilidade
Da asa de um pássaro voando...

E o pintor, com os olhos impregnados de cores viventes,
Anseia revelar, numa combinação imprevista de tintas,
Em que a luz e a névoa se misturem,
E a virgindade da manhã se case
À difusa tristeza do crepúsculo,
Num tom maravilhoso,
O úmido olhar do amor que pecou por prazer...

E o músico, de coração sangrante de harmonias,
Tenta subjugar, num acorde que encerre
O resumo de todas as únicas notas supremas
Arrancadas das cordas soluçantes
Dos violinos de todos os artistas
Que morreram em êxtase de sonho.

A expressão musical das primeiras estrelas
Que iluminam o silêncio da tarde,
Como lágrimas de adolescentes...

E o atleta, que tem o sentido dos ritmos nos músculos submissos,
Busca perpetuar, numa imagem que esplenda
Clara e vibrátil como uma ode pindárica,
E tenha a assustadora beleza da vitória sobre a morte,
Ao pasmo olhar da multidão de fôlego suspenso,
O salto sobre o abismo.

E o herói, que mede o valor da vida pela beleza oportuna da morte,
Ambiciona cunhar, numa imagem que ostente
O soberano orgulho do desprezo
E a coragem consciente do perigo,
O simbólico exemplo
Do primeiro soldado que tombou
Com um sorriso nos lábios e uma rosa de sangue no peito.

E o santo que transcende as leis humanas
Aspira a eternizar, numa imagem que seja,
A própria infinitude de todos os êxtases
E todas as bondades sem nenhuma recompensa
O gesto irrepetível
Do instante de humildade e de renúncia
Em que se debruçou para beijar o leproso na boca,
Como um lírio num charco...

E o poeta, flauta cheia do sopro divino
Quer reunir, a um acesso instintivo de forças genésicas
Num canto absoluto
o irrelevado espírito das coisas,
A harmonia que ninguém ousou captar,
A beleza invisível para os outros.

E o lavrador, que espera a bendição de Deus,
Deseja aprender, numa imagem que vibre
Como a entranha da agreste companheira
Sob as primícias da maternidade,
A alegria da terra,
Rasgando o próprio seio sem doer
Para as eclosões das primeiras sementes.

Como o oleiro o seu momento de inocência criadora,
E o pintor, o seu momento de domínio incomparável da matéria plástica,
E o músico o seu momento de cósmica integração,
E o atleta o seu momento de vitória espetacular,
E o santo o seu momento de êxtase supremo
E o lavrador, o seu momento de esperança milagrosa
E o poeta o momento de seu canto absoluto
Todos aspiram a perpetuar-se
Moldando o grande sonho em forma eterna.

Todos desejam essa alegria perfeita
Da forma em que se transfunda, num jato, a substância
Do momento imortal, único, entre os dois limites extremos e inúteis do tempo fugaz.

914
Mailson Furtado Viana

Mailson Furtado Viana

por causa do alvará de funcionamento

as casas
as ruas
cheiravam
fediam
apodreciam

tinham cheiro de feijão às quinze pro meio-dia
cheiro de cigarro às seis e tanto
gosto de sexo depois das dez
fediam ao uso

hoje
são estéreis

sovinam sussurros
se afogam em antidepressivos
se negam morrer

são hipócritas
753
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Um Dia Rosa, no Outro Pétala

PétalaVem ao chão.Do Chão não volta maisJamais esquece,A pétala,A chance valiosaDe ter sido,Um dia,Rosa.

942
Yannis Ritsos

Yannis Ritsos

Coisas simples e incompreensíveis

Nada de novo — repete ele. Os homens matam-se ou morrem,
sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.

1 027
Simone Brantes

Simone Brantes

Die Aufgabe

Chegar em casa um pouco mais
do que cansada e puxar ainda assim
e aos poucos o fio longo da mortalha
até fazer da noite sair enfim um dia
dentre todos os dias a morrer na praia
681
José Maria de Barros Pinho

José Maria de Barros Pinho

O Retrato nas Paredes

As casas como as pessoas
guardam cicatrizes
expostas no rosto do tempo.

Às casas sempre voltamos
nelas a vida anda por trás do que passou
existem na existência indo embora.

As casas onde morei para viver
na afoitosa e lúdica adolescência
abrem rugas na face branca das paredes.

De dentro delas saltam sonhos
que não querem envelhecer
e o menino açoitando o vento nas curvas do rio
que se arrasta na carne azul da paixão.

São Luis / junho 1997

1 132
José Maria de Barros Pinho

José Maria de Barros Pinho

Aviso Prévio

o sonho
uma borboleta

quando menos
se espera
a gente acorda

e vai-se
embora
sem deixar
aviso prévio

1 314
Maria Thereza Noronha

Maria Thereza Noronha

Finito e Infinito

Entre as folhas do outono
e a infinita linha do oceano

cumpre-nos escalar montanhas
decifrar inscrições rupestres
desmontar o teorema, captar
sua argúcia de mestre.

E, inabaláveis, posto que lúcidos,
no finito da carne o agudo vértice
suavizar, e o ardor insano.

Entre as folhas do outono
e a sombra dos ciprestes.

1 008
Simone Brantes

Simone Brantes

Um acontecimento

Um acontecimento,
não fica perdido para sempre, um dia ressurge,
como esses corpos afogados que, depois de algum tempo
no fundo, reaparecem à superfície, boiando.
E então já não há mais nada a fazer, senão enterrá-lo em poema
sem reza, sem pompa, sem flores,
e, cumprida a obrigação, com este ao menos,
dormir um pouco, enquanto ainda temos
algum tempo.
670
Paulo Leminski

Paulo Leminski

a gente ia ser homero

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores

3 716