Poemas neste tema

Tempo e Passagem

Antônio Barreto

Antônio Barreto

Ária de América por um Antigo Marinheiro

Árvore ser de alvorecer e sendo
assim em raiz em nua face e foice
(alvorossonho foi-se, mente e lavra)
que de tão-somente semeou palavra

Por de onde sol anzolazul em céu
de peixe e mar esculpido e pronto
: frontisprefácio : em seta dor dedilha
a ária em arpa : peixe arpoador

arma da terra ameri ca me tengo
mi na vida nota cor de lheira
por de onde ondeias oceano
a tantas noites a tlanti cais me vengo
atlantas noches de mandar te andes

e ar vou ser em nada: serenata
peixe tecla dor de pescantar
anzolazul em punho, espada nua e n'antes
morrer de américa os relógios de neruda.


In: BARRETO, Antônio. O sono provisório. Rio de Janeiro: F. Alves, 1978. p.38. Poema integrante da série Fantasias da Fala
1 220
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Sentença

Convém nos
iniciarmos
cedo
As coisas são demoradas

E não é bom
colher os frutos
quando a boca não
conseguir mais
saboreá-los


In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
965
Luci Collin

Luci Collin

declaração

que disparate tentar falar de amor
num poema______neste poema

não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta

sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade

sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci
671
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Corrida

é assim que funciona
quando você vai desacelerando,
parando como uma daquelas vitrolas a manivela
(lembra delas?)
e você vai para o centro
e assiste às lutas dos garotos
mas as loiraças sentam
com outras pessoas
e você envelheceu como um bandido de filme:
crânio com charuto, pança,
mas nenhum dinheiro,
sem saber os atalhos, sem mundanidade,
mas como sempre
a maior parte das lutas é ruim,
e depois disso
de volta ao estacionamento
você se senta e os vê partir,
acende o último charuto,
e então dá a partida no carro velho,
carro velho, e um homem já não tão jovem
percorrendo as ruas
detido por um sinal vermelho
como se o tempo não fosse um problema,
e eles encostam em você:
um carro cheio de jovens,
às gargalhadas,
e você os vê partir
até
que alguém atrás buzina
e você é trazido de volta
ao que restou
de sua vida.
penuriosa, pena de si próprio,
e você gruda o pé no acelerador
e você alcança os jovens,
você ultrapassa os jovens
e aferrado ao volante como a todo amor perdido
você corre até a praia
com eles
brandindo seu charuto e sua lataria,
gargalhando,
você vai levá-los para o oceano
até a última sereia,
algas marinhas e tubarão, baleia faceira,
fim da carne e da hora e do horror,
e por fim eles param
e você segue em frente
em direção ao seu oceano,
o charuto mordendo seus lábios
do jeito que o amor costumava fazer.
1 117
Nelson Ascher

Nelson Ascher

Onde Há Fumaça

"dan steigt ihr als Rauch in die Luft"
(Paul Celan)

Fumaça alguma implica
memória, já que as coisas
se perdem na fumaça
que, assim, tampouco pode

tornar-se um monumento,
pois sendo transitória
nem mesmo homenageia
a transitoriedade.

Fumaça enquanto tinta,
embora branca (um branco
mais palidez de horror
que alvura de inocência),

serve talvez à escrita;
porém, não há destreza
que inscreva na fumaça,
como na pedra, um nome.

Quando a fumaça, quase
vegetativa, irrompe e,
traindo o genealógico,
assume aspecto arbóreo,

não cabe perguntar
acerca (onde há fumaça,
há cinzas) das raízes
mais fundas da fumaça.


In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993
1 057
Ymah Théres

Ymah Théres

Sonata

Ao Poeta Francisco Carvalho

O corpo - presilha verde
na rede da vida imersa
pouco a pouco se dissipa
dos loucos búzios, dos mares.

Vira um lago, uma enseada
em que os espelhos transmigram
o corpo - corpo bebido
de veneno, morte lenta.

O corpo - metade breve
de arlequinadas memórias
nos mastros ocres da angústia
na devassa de ilusão.

Irmão vencido na guerra
das horas por sobre as horas
dos anos idos, dos vindos
o corpo - flor decepada.

Da haste, um relógio-pênsil
que se alteia e se debruça
nos movediços da argila
o corpo - ferida aberta.

Bola de neve que o tempo
brinca brinca de escurar
jasmim que perde seu viço
o corpo - luz que se apaga.

Dos imos do coração
uma canção que trescala
o corpo, breve que passa
no arranho da solidão.

904
Marina Colasanti

Marina Colasanti

E rainúnculos

Trezentos anos
metem os dedos
entre meus cabelos
e cantam.
É o pente que comprei
oliveira entalhada
com seus veios.
Um peso antigo na mão
uma escolha
entre os tantos da loja
pentes e objetos todos
antes tronco em
algum campo
e frutos
e perfume na mesa
e na garganta.
Meu pente passa nos cabelos
como em um prado
de finos talos
e rainúnculos beijam
minha testa.


Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 105
Eudoro Augusto

Eudoro Augusto

78 [a uva da luxúria depois de seca

a uva da luxúria depois de seca
dá uma passa deliciosa

dizem


In: AUGUSTO, Eudoro. Cabeças: 88 poemas. Rio de Janeiro: s.n., 1981. (Capricho)
920
Antônio Chaves

Antônio Chaves

Mocidade

Ó mocidade! — borboleta louca
Que o casulo deixaste pressurosa,
Olha que o vento as asas te destouca,
Adeja menos, borboleta ansiosa.

Temo que as tuas límpidas antenas,
Que o teu corpo fragílimo, subindo,
um dia venham se cobrir das penas...

E se temo é porque — pálido monge
Sob a cúpula azul do céu aberto
Olho, e te vejo já de mim tão longe,
Tu, que eu julgava inda de mim tão perto.

Volta! vem descansar sobre as alfombras
Desta alma, que sorrir já não se atreve...
Olha que o prado vai se encher de sombras
E a terra toda se cobrir de neve.

986
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Tempo afora, morte adentro

Gordas como repolhos
as rosas são irmãs das hortaliças
na horta portuguesa que vejo
da janela.
A abóbora esquecida no telhado
talo cortado
avança em madurez varando o tempo
como as unhas de Carlos Magno
vararam as luvas morte adentro.
Íntimos brancos secam no varal
tocados de azul por um jeans.
Além dos muros de pedra
além das oliveiras
a torre medieval é quase jovem.
E as mós do silêncio gastam o tempo
enquanto flui
improvável
este ano 2000.
957
Waldemar Zweiter

Waldemar Zweiter

Vida

A luz do sol
é forte
e brilhante
como a vida
Porém, cuidado:
pode apagar-se
com o passar de
uma simples nuvem.

784
Moacyr Felix

Moacyr Felix

Porque

A Márcia e Jorge Vanderley


Porque a poesia nunca está na soma
e sim no tempo que é maior que o tempo
da vida medida entre doze números,
o poeta está solto por dentro dos relógios
e movimenta ponteiros que ninguém vê e onde
o incomensurável brinca
com os raios de sol ou as finas gotas de chuva
sobre o passar das árvores e dos animais e dos homens.

O poeta está livre por dentro dos relógios
e o seu coração ali bate e bate e bate
lado a lado com todas as engrenagens do mundo.
O mistério, no entanto, é o jardineiro do seu sangue
exilado entre palavras que nunca foram proferidas.

Porque a poesia nunca está na soma
o poema tem um tempo próprio e voa
nas raízes do canto em que se asila
o silêncio ou a mais funda esperança
do primeiro homem que sonhou
pendurar uma estrela-d'alva nos roteiros
da infinita sombra em que as horas decidem
nascimento e morte no tempo do homem.

Porque a poesia nunca está na soma
o poeta está livre por dentro dos relógios.
Assim como o morto em suas memórias.


Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).

In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.5
1 266
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

RELÓGIOS E BEIJOS

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
TRADUZIDO DE HENRIQUE HEINE

Quem os relógios inventou? Decerto
Algum homem sombrio e friorento:
Numa noite de inverno, tristemente
Sentado na lareira ele cismava,
Ouvindo os ratos a roer na alcova
E o palpitar monótono do pulso.

Quem o beijo inventou? Foi lábio ardente,
Foi boca venturosa, que vivia
Sem um cuidado mais que dar beijinhos...
Era no mês de maio. As flores cândidas
A mil abriam sobre a terra verde,
O sol brilhou mais vivo em céu d'esmalte
E cantaram mais doce os passarinhos.

2 112
Vernaide Wanderley

Vernaide Wanderley

Forragens e Desertos, nos

Versos da Escrivaninha

Minha escrivaninha é túmulo
e reboliço de lembranças;
armário entulhado de tormentas
e águas que retraçam rumos
e barram a invasão do tempo.

Sua desordem é castelo
e sertão dos meus desvelos;
redemoinho e povo desterrado,
exílio que modela dunas
e barra a invasão do tempo.

Minha escrivaninha é mistério
nos fiapos do novelo que me tecem;
amor de gavetas, velhas bastilhas
e medo ou lucidez de resistências,
que barram a invasão do tempo.

737
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Feijão Com Alho

isto basta em sua importância:
resfrie seus sentimentos,
isto é melhor do que se barbear
ou cozinhar feijão com alho.
é o mínimo que podemos fazer
esta pequena bravura de conhecimento
e claro que há
também loucura e terror
em saber
que uma parte de você
em que se deu corda como a um relógio
não pode jamais voltar a girar
uma vez que pare.
mas agora
há um tique-taque debaixo de sua camisa
e você mexe os feijões com uma colher,
um amor morto, um amor distante
outro amor...
ah! tantos amores quanto feijões
sim, conte-os agora
triste, triste
seus sentimentos fervendo sobre a chama,
abaixe o fogo.
1 277
Felipe Larson

Felipe Larson

NÃO LEMBRE DO TEMPO

Perco a estrada, perco a viajem,
Tudo não passa de uma ilusão
E quando volto, lembro da hora,
De que deixei pra trás minha paixão
Quero que saiba, o que sempre soube,
Que eu sou teu homem e você minha mulher

Não embre da hora
Esqueça do tempo
Aproveite o momento e nada mais
Esqueça de tudo
O que move o mundo
Pois é assim que deve ser

Você é desejo, meu desespero,
Você é tudo o que eu sempre quis
E porque choras, não vou embora.
Pois é em meu sonho que encontro você
Pois eu voltei, pra te dizer:
-Venha tornar meu sonho realidade

Então te pergunto:
- Por que não ser assim?
Eu e você, você pra mim, algo sem fim

901
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Passeio em São Paulo

Settembre. Andiamo. E tempo di migrare.
A rainha, em São paulo, chama-me.
É agora Maria Cacilda Stuart
E fala com sotaque voluntarioso,
Não paulista nem catarinense:
Acento beckeriano (com ck, não cqu),
Que suscita infartos de alma,
Tão imperativos quanto os de miocárdio.

Saio do hotel com quatro olhos,
— Dois do presente,
Dois do passado.
Anhangabaú que já não é dos suicídios passionais!
O Hotel Esplanada virou catacumba.
Enfim a Rua Direita!
A minha Rua Direita:
Que saudades tinha dela!
Ainda existe a Casa Kosmos, mas
Não tem impermeáveis em liquidação.
Praça Antônio Prado, onde
Tudo é novo, salvo aquela meia dúzia de sobradinhos.
Montanha-russa da Avenida de São João!
O anjo cor-de-rosa não é mais cor-de-rosa:
O tempo patinou-o de negro.

Almoço com Di,
Que hoje é Emiliano di Cavalcanti.
Volto ao hotel pelo Anhangabaú.
Onde as Juvenilidades auriverdes? Onde
A passiflora? o espanto? a loucura? o desejo?
Ubi sunt?
Ubi sum?

— Obrigado, Mário, pela tua companhia.
1 164
Marina Colasanti

Marina Colasanti

De quem hoje penso

Olhando os velhos
- aqueles que eu ontem dizia velhos
e de quem hoje penso: nós -
olhando os velhos
em suas fotografias de juventude
constato
com nova melancolia
que todos eles
todos
foram mais belos
um dia.
1 095
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Falta de Quase Tudo

a essência da pança
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
1 114
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Antônia

Amei Antônia de maneira insensata.
Antônia morava numa casa que para mim não era casa, era um empíreo. Mas os anos foram passando.
Os anos são inexoráveis.
Antônia morreu.
A casa em que Antônia morava foi posta abaixo.
Eu mesmo já não sou aquele que amou Antônia e que Antônia não amou. Aliás, previno, muito humildemente, que isto não é crônica nem poema. E, apenas
Uma nova versão, a mais recente, do tema ubi sunt,
Que dedico, ofereço e consagro
A meu dileto amigo Augusto Meyer.
1 478
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Dois talhos de luz

Na taça de vidro
sobre o pano verde
dois cravos
dois talos cravados na água
dois talhos de luz na penumbra.
Saídos de um quadro flamengo
dois cravos pousaram aqui
nesta sala
no ano pra lá de dois mil
em que discutimos cultura.
Os cravos escutam atentos
a água evapora deixando sua marca no vidro
Os nossos falares se evolam
sem marca qualquer
que se veja.

1 114
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Ensopado

ensopado ao meio-dia, meu bem, e veja:
as formigas, a serragem, as fábricas
de mica, as sombras dos bancos como
piadas ruins;
você acha que ouviremos
A noiva vendida hoje?
como está seu dente?
eu deveria lavar meus pés e
limpar minhas unhas
não que fosse me sentir mais como Cristo
mas
menos como um leproso –
o que é importante quando
a pobreza é um joguinho que você joga
com seu tempo.
vejamos: primeiro o carteiro
então um exemplar de ontem do Times.
poderemos
deste jeito
ser destroçados um dia quando já for
tarde.
então há a biblioteca ou
uma caminhada pelos bulevares.
muitos grandes homens
caminharam por bulevares
mas é terrível ser
um grande homem
como um macaco carregando um saco
de 2 kg de batata por uma colina de 12 metros.
Paris pode esperar.
mais sal?
depois de comermos
vamos dormir, vamos dormir.
não podemos arrumar nenhum dinheiro
acordados.
1 008
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Passado, Presente e Futuro

Só o passado verdadeiramente nos pertence.
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
1 621
Juana de Ibarbourou

Juana de Ibarbourou

A hora

Toma-me agora que ainda é cedo
e que levo dálias novas na mão.

Toma-me agora que ainda é sombria
esta taciturna cabeleira minha.

agora que tenho a carne cheirosa
e os olhos limpos e a pele de rosa.

Agora que calça minha planta ligeira
a sandália viva da primavera.

Agora que em meus lábios repica o sorriso
como um sino sacudido às pressas.

Depois..., iah, eu sei
que já nada disto mais tarde terei!

Que então inútil será teu desejo,
como oferenda posta sobre um mausoléu.

Toma-me agora que ainda é cedo
e que tenho rica de nardos a mão!

Hoje, e não mais tarde. Antes que anoiteça
e se volte murcha a corola fresca.

Hoje, e não amanhã. Oh amante! Não vês
que a trepadeira crescerá cipreste?

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