Poemas neste tema

Tempo e Passagem

Herberto Helder

Herberto Helder

33

Quem sabe é que é alto para dentro até apanhá-la:
leva tempo a amadurecer na minha mão,
e depois fica amarela. Quando se diz: está madura
na mão a rematada curva da pêra.
Faz anos que comi a fruta quando se olha.
Tão bem que o ar se ajusta
ao contorno do peso concêntrico depois de madura.
Até a lua romper o saco de ar.
Até ficar fria.
Espero que apodreça.
Já me não amedronta.
Porque as crianças na ponta dos pés, fincadas
na terra que doía, vi-as fazendo
o uso supremo de toda a parte direita até o esplendor
arrancar o braço, e os dedos
rodarem à procura. Vi
a luz esquartejada na parte exposta do corpo.
É quando estão na voragem da infância:
a pêra levanta fogo,
a mão levanta fogo, troca-se o fogo
entre mão e pêra.
Já me não importa.
Não me exalta a montagem do estio pêra sobre pêra.
Nem espero que fique madura: não me ergo,
não toco, não sopro, não empurro a luz.
Tanto se me dá que estremeça na bolsa de ar,
que a maturidade estremeça.
Não cômo.
Não tenho medo.
Há-de formar-se no seu elemento profundo,
atingir uma proximidade última,
ser plena,
ficar pôdre. Mas tanto se me dá,
já me não amedronta.
Porque estou perto.
Porque a não comerei nunca.
Porque morro.
1 119
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Hesitas quanto à natureza

Hesitas quanto à natureza do travo na língua,
a boca sempre vulnerável ao bitterness
do chilled pineapple-moscato zabaglione,
ou só o frio a arder de Union Square para Central Park West.

Até que os elefantes olham para ti
com um garbo irreprimível.
(Nenhum deles sabe que isso acontece
para que se repita uma cena.)

Álvaro de Castro, patrono de outra prodigiosa
manada,
também não sabia.
Mas foi lá que tudo começou,

entre torcidos manuelinos e calções de caqui
com ravina e mar ao fundo.
Trinta anos de intervalo cabem inteiros
neste confronto.

Desvias o olhar e corres para o clarão do gelo
e o ziguezague dos batedores.
A tarde cai do outro lado mundo.
499
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Ocupamos a paisagem

Ocupamos a paisagem
que, desocupada, se ocupa
de nós.
Tempo de ocupação, este.

Somos o estrangeiro
que o silêncio de paredes
brancas e esquecidas
perturbou.

Extasiado ao menor rumor
de um estio
duro e claro
— todo lâminas.

Perplexo da memória
destes dias
sufocados em tédio
e cal.

Da palavra para a pedra
arrastando-se aquáticos
— as mais sazonadas
as menos polidas.

Crestada que foi,
na raiz do tempo, toda
a subliminar tentativa
de retorno.
462
Fernanda Botelho

Fernanda Botelho

Amnésia

Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas:
penas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.

Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).

E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.

E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.

1 718
António Mega Ferreira

António Mega Ferreira

Uma nota só

Uma nota só, de desordem persistente,
a vibrar no abismo das coisas,
no mapa dos delitos;
acarinhando o pequeno remorso precioso
dos fins por atingir;
dobrando o tempo numa curvatura baixa
que cinge os tornozelos
da fugidia esfinge;
uma nota só, de correcção insidiosa,
na dádiva natural do tempo já vivido,
de dor aflitiva pela palidez das coisas
e o seu nome por dizer.

Falando sempre, sempre lamentando
o que ficou por decidir.
561
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Antecipação À Velhice

Põe o tempo o cuidado
que ignora o ouvido
e que o livro não dá.
É dele este silêncio,
este saber,
este ouvir e calar.
*
É dele esta alegria
que nasce da tristeza.
*
É dele o pouco a pouco,
o aproximado,
o justo.
*
Mortes, doenças, filhos.
É doce e grande
o tempo.
*
Foram grandes desgostos.
Algumas alegrias.
Sulcos, rugas.
Uma brandura imensa
nos olhos apagados.
*
Perdeu o corpo o peso.
É quase uma menina.
O que pesa uma sombra
e alguns ossos e pele.
*
Quanto pesa uma sombra?
*
Uma bolinha.
Um riso.
Não de alegria.
Não de tristeza.
Não de ironia.
Um riso.
*
Uma criança ri
grande como a inocência.
Levo-a ao colo
e sinto
que pesa cada ano.

Põe o tempo o cuidado.
Mas não põe as estrelas.
*
Perde o olhar o brilho.
Mas o mar não se perde.
*
Brilha o Inverno agora
mais casto e mais ardente.
A chuva já namora
uma saudade. Um beijo
é mais perto e mais longe.
*
Um objecto agora
cresce em individualidade.
Um piano demora.
*
Há mais vagar.
Mais doçura.
Na flor
e no insecto.
*
São os insectos jóias.
Breves, deliciosas.
Trémulas.
Vivas.
*
Uma rosa fulgura
não raro
sobre uma lágrima.
*
Não há morte matinal.
*
Também não há nocturna.
648
Fernando Fitas

Fernando Fitas

Deitado foi teu corpo

Deitado foi teu corpo
sobre a cama
na comunhão efémera
dos corpos,
na generosa entrega acontecida

E dilatando-se um corpo
noutro corpo
foi mais intensa
e mais sublime a dádiva,
foi mais belo e verdadeiro o amor

Deitado foi teu corpo
sobre a cama
onde hoje jaz inerte
o pó do tempo.
692
Herberto Helder

Herberto Helder

44

à memória de meu bisavô Francisco Ferreira,
santeiro
álcool, tabaco, anfetaminas, que alumiação, mijo cor de ouro e esperma
grosso,
tudo quente, e eu risco
e desenvolvo,
mantenho aberta a ferida, infundo
a miúda, aos poucos, minha, humílima,
respiração
na madeira madura rasgada e na fundura da argila,
e no sítio à espera cai o pacote,
brilha, porque na torção da luz o pacote de tripas
sou eu que o faço, e risco
e lixo e pinto e nimbo e ponho sob a mão atenta
esquerda
e as frias forças da vista a crua
artesania, e ouço agora na rádio Bach, meu Deus, e Haendel, e peço:
leiam-me dos livros
o curso de sôbolos rios que vão, ou Lucrécio:
que
o mundo é um caos sumptuoso — este
é o segredo:
música, e eu estou bêbado, e é tão amargo o tempo,
tão irrevocável,
quero eu dizer: doce é ouvir o que se ouve muito junto ao ouvido,
enquanto se responde ao movimento dos dedos,
embora as asas do arcanjo, rémiges e retrizes, cada uma do tamanho
parede de uma ca:
não passem pelas portas:
segredo é o gosto de ser ainda agraz e agudo,
gosto primeiro, de quem se fez nele, o gosto novo,
inacessível,
a leite e fruta —
e tu que me ouves, leva tudo mas não me leves
a mão, e as maneiras que lhe dou, de assinatura, e nela me refaço
com um soluço, autor, nó de corpo,
a contas com a autoria,
eu que me sinto nos dedos pelo canhoto e o curto,
falta de academia, erros metidos nisso,
e bêbado durante uma estação inteira, um estio, um outono,
bêbado das massas em que embaraço as obras ou
de que as desembaraço, as obras às dedadas,
e o espaço rodeia-me e depois já não rodeia,
o espaço que ocupo já me não presta,
não me presta a luz nas olarias e nos vibrantes paus de cedro
suando até que se me afigure,
e a terra que se mistura com o sangue sob as unhas,
da minha boca para fora já nada é assombroso,
nada para fora dos dedos sem estudo,
sou de matéria volúvel pouco a pouco,
ou muito rápido neste estio ou neste outono muito lento,
eu que me perco de mim sempre bêbado do tempo,
eu que morro
590
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Madrigal para As Debutantes de 1946

Outro, não eu, ó debutantes!
Cante as galas primaveris.
Que o meu estro de relutantes
Octossílabos já senis
Mais imagina do que diz
O que nos primeiros instantes
Do amor e do sonho sentis.

Meus vinte anos vão tão distantes!
Pensando bem, jamais os fiz.
Enfermo, envelheci muito antes.

Aprendi a ser infeliz,
Deus louvado, e por isso quis
Em vossa festa, ó debutantes!
Meter, perdoai!, o meu nariz.
664
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Por Uma Aridez Fecunda

É o tempo de uma árvore ou de um cão,
é essa grave simplicidade de estar
com o Sol.
É o tempo em que sentados na pedra
ouvíamos a erva. E era Verão.
*
De nada, nem de música,
nem de qualquer glória humilde...
Apenas esta secura de meio-dia,
esta sem-razão tão grande como a vela
no mar.
Oh, ninguém viu o ouvido da árvore,
mas ouvi-o eu.
*
Mais uma vez longamente
qualquer coisa que seja a negação de tudo isto!
Na fenda da muralha
o riso da árvore,
um outro tempo,
um desvio no destino,
a claridade a pique.
*
Não de rosas
nem de breves titilações.
Mas somente a quebra
branca
a aurora de pedra
o frio dos lábios no sonho
a terra junto
um abraço ao poço.
1 051
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Elegia Carioca

Nesta cidade vivo há 40 anos
há 40 anos vivo esta cidade
a cidade me vive há 40 anos

Sou testemunha
cúmplice
objeto
triturado confuso agradecido nostálgico
Onde está, que fugiu, minha Avenida Rio Branco
espacial verdolenga baunilhada
eterna como éramos eternos
entre duas guerras próximas?
O Café Belas Artes onde está?
E as francesas do bar do Palace Hotel
e os olhos de vermute que as despiam
no crepúsculo ouro-lilás de 34?

Estou rico de passarelas e vivências
túneis nos morros e cá dentro multiplicam-se
rumo a barras-além-da-tijuca imperscrutáveis
Sou todo uma engenharia em movimento
já não tenho pernas: motor
ligado pifado recalcitrante
projeto
algarismo sigla perfuração
na cidade código

Onde estão Rodrigo, Aníbal e Manuel,
Otávio, Eneida, Candinho, em que Galeão
Gastão espera o jato da Amazônia?
Marco encontros que não se realizam
na abolida José Olympio de Ouvidor
Ficou, é certo, a espelharia da Colombo
mas tenho que tomar café em pé
e só Ary preserva os ritos
da descuidada prosa companheira
Padeiros entregam a domicílio
o pão quentinho da alegria
o bonde leva amizades motorneiras
as casas de morar deixam-se morar
sem ambição de um dia se tornarem
tours d’ivoire entre barracos sórdidos
o rádio espalha no ar Carmem Miranda
a Câmara discursa
os maiôs revelam 50%
mas prometem bonificações sucessivas
O Brasil será redimido pelo socialismo utópico
Getúlio sorri, baforando o charutão.
Rio diverso múltiplo
desordenado sob tantos planos
ordenadores desfigurados geniais
ferido nas encostas
poluído nas fontes e nas ondas
Rio onde viver é uma promissória sempre renovada
e o sol da praia paga nossas dívidas
de classe média
enquanto multidões penduradas nos trens elétricos
desfilam interminavelmente
na indistinção entre vida e morte
futebol e carnaval e vão caindo
pelo leito da estrada os morituros

Ser um contigo, ó cidade,
é prêmio ou pena? Já nem sei
se te pranteio ou te agradeço
por este jantar de luz que me ofereces
e a ácida sobremesa de problemas
que comigo repartes
no incessante fazer-te, desfazer-se
que um Rio novo molda a cada instante
e a cada instante mata
um Rio amantiamado há 40 anos.
1 349
Herberto Helder

Herberto Helder

48

no mundo há poucos fenómenos do fogo,
ar há pouco,
mas quem não queria criar uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
o tempo doendo, a mente doendo, a mão doendo,
o modo esplendor do verbo,
dentro, fundo, lento, essa língua,
errada, soprada, atenta,
mas agora já nada me embebeda,
já não sinto nos dedos a pulsação da caneta,
a idade tornou-me louco,
sou múltiplo,
os grandes lençóis de ar sacudidos pelo fogo,
noutro tempo eu cobria-me com todo o ar desdobrado,
havia tanto fogo movido pelo ar dentro,
agora não tenho nada defronte,
não sinto o ritmo,
estou separado, inexpugnável, incógnito, pouco,
ninguém me toca,
não toco
545
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Traços

Eu não vos sei dizer
à claridade
um grito

sobre a mesa o pão
contém tranquilo som
sobre a casa ninguém
só a luz do muro

o traço duro na parede
*
Jacto claro
que rompe
dum seio de pedra

É novo e alto metal
é o sol nos sulcos secos
brechas por onde bebo

só nesta cegueira branca
*
A porta onde houve um anjo
mas só na memória ou na sombra
a porta hoje rachada
*
A casa que compus
ao longo de anos fresca
vazia como um túmulo

como um cavalo o tempo
parou neste silêncio
duma janela aberta
onde há ao fundo um monte
559
Sousa Caldas

Sousa Caldas

Aos Anos de uma Menina

Não creias, gentil Márcia, na pintura
Com que malignos Gênios figuraram
O veloz Tempo, quando a mão lhe armara
De cruenta, implacável foice dura.

Inimigo fatal da formosura,
Com fantásticas cores o pintaram;
E nem ser ele, ao menos, acenaram
Quem desenvolve as graças da figura.

Qual cerrado botão de fresca rosa,
Que o ligeiro volver de um novo dia
Abre, e transforma em flor a mais mimosa:

Tal, a infantil beleza, inerte e fria,
De ano em ano se torna mais formosa,
E novo brilho, novas graças cria.

1 040
Herberto Helder

Herberto Helder

3M

Dias esquecidos um a um, inventa-os a memória.
Profundamente se levanta uma bilha vazia.
Nem o peso nem a leveza nos embriaga.
O perfume a vinho, sim, uma
concavidade do sono. Os dias maciços que se
modelaram. Ou as luzes à volta do barro
onde ficam os ciclos curvamente
ligeiros.
As bilhas ao alto, entre os ombros, contra
a cara amarga, estremecendo com o sangue dos braços
e da cara. Plenas como dias enormes,
acabados. Que são agora imagens fabulosas, mútuas
translações — o escuro em torno dos espelhos vazando de uns
para os outros a sua vida
clara.
567
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Passagem

É onde escuto agora a própria casa.
Sou eu que escrevo agora este poema.
Já onde estou agora nada espero.
Ouço o som que vem de estar aqui lembrando
isto que sou agora mesmo esperando.

É onde eu pouso a mão na terra calma
ouvindo quantos anos já vivi,
mas não aqui nem além, agora só
num tempo em que não sou mais que este estar
passando sem passar neste deserto.

É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste sem fim que escuto e sou no seu passar.
651
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Eis Os Instrumentos

Eis os instrumentos
no vagar da terra

A ordem é do mar
com seu repouso manso
Os objectos e os dias
têm as suas pontes
onde a leveza é densa
Há pratos onde o silêncio
salvou o tempo
e faixas de luz
que a mão bebe
945
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

E Certas Palavras

a Fernand Verhesen
E certas palavras prazer
mágoa água plenitude
a cor navegando alta
a casa com flores e chamas

este jardim da verdade
duro pão água da vida
calado o tempo vencido
amor desta mão clara
*
Onde regresso renasço
à mesa onde o trabalho
é uma flor que sopro
Aqui respiro o tempo
da madeira e do insecto

Aqui penetro o gosto
da água lisa e da ânfora
aqui demoro um momento
*
Sonho no branco do tempo
a chama ténue suspensa
Sonho calado este espaço
sem palavras claridade
*
Um dia tentando o branco
encontrarás chama alta
prumo e nível verdadeiro
círculo inteiro alma intacta
1 017
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Jorge Medauar

Há trinta anos (tanto corre
O tempo) escrevi a poesia
Onde disse que fazia
Meus versos como quem morre.

Ainda não eras nascido.
Agora, orgulhosamente
Moço, ao poeta velho e doente
Parodiaste destemido:

Das batalhas em que estive
É o suor que em meu verso escorre!
Tu o fazes como quem morre:
Eu o faço como quem vive!

Façam-no como quem morre
Ou quem vive, que ele viva!
Vive o que é belo e deriva
Da alma e para outra alma corre.

Verso que dela se prive,
Ai dele! quem lhe socorre?
Nem Marx nem Deus! Ele morre.
Só o verso com alma vive.

Deste ou daquele pensar,
Esta me parece a reta,
A justa linha do poeta,
Poeta Jorge Medauar!
1 106
Herberto Helder

Herberto Helder

A Menstruação Quando Na Cidade Passava

A menstruação quando na cidade passava
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos — e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam — e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.

As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado — alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam — e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos — era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.

O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos — e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.

As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.

E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio —
na noite, na neve —
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.

As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.

Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam — e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação — falava alguém. O ar passava —
e pela noite, em silêncio,

a menstruação escorria pela neve.
1 218
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Óleo de Manuel Baptista

Na parede as teias
a cor de uma adega
o vinho que cheira
de séculos e o sol
debaixo da terra
ouro subterrâneo
poente que dura
1 049
Bernardo Pinto de Almeida

Bernardo Pinto de Almeida

Poema surdo

Chega a noite e surpreende
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.

Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.

Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?

Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.

Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.

E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.

Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.

E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
754
Herberto Helder

Herberto Helder

Um Dia Destes Tenho o Dia Inteiro Para Morrer

um dia destes tenho o dia inteiro para morrer,
espero que me não doa,
um dia destes em todas as partes do corpo,
onde por enquanto ninguém sabe de que maneira,
um dia inteiro para morrer completamente,
quando a fruta com seus muitos vagares amadura,
o dom — que é um toque fundo na ferida da inteligência:
oh será que um poema entre todos pode ser absoluto?
:escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas linhas
1 029
Herberto Helder

Herberto Helder

76

no ar vibram as colinas desse tempo, colinas
amarelas, vibram do chão
de onde se erguiam, o chão cruzam-no às cegas linhas
para cima: frias,
cruas fruticulturas, esse tempo que ponho agora sobre a mesa
não tem nada: nem colinas nem vibração, e o ar
está na cabeça, as colinas respiram
nela, a seiva onde se apoia a mesa,
a mão onde o sangue se apoia,
movem-se, alumiam-se,
o ar foi de outro dia, colinas nem sei se as houve, a seiva escoa-se,
mas estas coisas idas,
divididas, unem-se na frase cheia
de atmosfera,
e no tamanho da luz no papel, na mesa, agora, leio
a concordância do que não era, as colinas
desses dias trémulos e entreabertos,
e a madeira soprada: colinas
escritas, potentes, exímias, amarelas
1 144