Poemas neste tema

Sucesso e Fracasso

Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Grego

o cara do pátio da frente não consegue
falar inglês, ele é grego, um
sujeito com um aspecto um tanto estúpido
e feio que é o diabo.

agora meu senhorio resolveu pintar quadros,
nada muito bom.

ele mostrou ao grego uma de suas pinturas.

o grego saiu e voltou com
papéis, pincéis, tintas.

o grego começou a pintar no seu pátio
da frente. ele deixa as pinturas do lado de fora pra
secar.

o grego nunca havia pintado antes –
agora ali estão:
um violão azul
uma rua
um cavalo.

ele é bom
para os seus mais de quarenta anos ele é
bom.
encontrou um
brinquedo.
está feliz
agora.

então eu penso, me pergunto se ele chegará a ficar
muito bom?
e me pergunto se terei que ver
o resto?
a glória e as mulheres e as mulheres e
as mulheres e as mulheres e
a decadência.

quase posso farejar os sanguessugas formando
uma fila à esquerda.

veja bem,
eu mesmo já estou ligado a ele.
667
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aos Atletas

Os poetas haviam composto suas odes
para saudar atletas vencedores.
A conquista brilhava entre dois toques.
Era frágil e grácil
fazer da glória ancila de nós todos.

Hoje,
manuscritos picados em soluço
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.

Que importa hajam perdido?
Que importa o não ter sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?

É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza, essa
a espalhar-se em rancor, e não em canto
ao capricho dos deuses e da bola
que brinca no gramado
em contínua promessa
e fez um anjo e faz um ogre de Feola?

Nem valia ter ganho
a esquiva Copa
e dar a volta olímpica no estádio

se fosse para tê-la em nossa copa
eternamente prenda de família
a inscrever no inventário
na coluna de mitos e baixelas
que à vizinhança humilha,
quando a taça tem asas, e, voando,
no jogo livre e sempre novo que se aprende,
a este e aquele vai-se derramando.

Oi, meu flavo canarinho,
capricha nesse trilo
tanto mais doce quanto mais tranquilo
onde estiver Bellini ou Jairzinho,
o engenhoso Tostão, o sempre Djalma Santos,
e Pelé e Gilmar,
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.

Canta, canta, canarinho,
a sorte lançada entre
o laboratório de erros
e o labirinto de surpresas,
canta o conhecimento do limite,
a madura experiência a brotar da rota esperança.

Nem heróis argivos nem párias,
voltam os homens — estropiados
mas lúcidos, na justa dimensão.
Souvenirs na bagagem misturados:
o dia-sim, o dia-não.
O dia-não completa o dia-sim

na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.
24/07/1966
1 900
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Comendo Chapéu

James Mitchell, ministro do Trabalho
em Washington, D. C., e homem sério,
notou o contrassenso:
para o trabalho havia um Ministério
com toda a cibernética montagem;
para trabalhadores, não havia
trabalho.

Ora, Mitchell sentiu-se no dever
de dar emprego a quem não tinha mas queria
trabalho.
E garantiu que, vindo outubro, com ele vinha
trabalho tanto e em tal variedade
que seria trabalhoso e mesmo vão
evitar
trabalho.

E tão seguro estava do milagre
que prometeu de pedra e cal
comer de aba e copa o seu chapéu
(dele Mitchell, ministro do Trabalho)
se algum trabalhador ficasse ao léu.

Eis que outubro apontou, e bem contadas
as filas de chômeurs, verificou-se
que 3 200 000 pessoas
estavam sem trabalho
(40 000 a mais do que em setembro).

Mitchell não teve dúvida em cumprir
o seu enchapelado compromisso,
mas como tudo é chapéu, e o caso omisso,
mandou fazer
um de chocolate e nozes, e comeu-o
no hall do Ministério do Trabalho,
com o que, aliás, teve bastante
trabalho
mastigatório.

No Brasil, se os governantes resolvessem
comer chapéu ao falhar uma promessa
— de carne, de feijão, de água à beça
e outras metas maiores e menores —
todos os brasileiros passariam
a ter trabalho, e muito,
no ramo confeiteiro,
mas não havia chocolate que chegasse
e nem tampouco nozes
para chapéu de bolo no ano inteiro.
15/11/1959
731
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Arte

todo o percurso desde o México
diretamente do campo
para 14 vitórias
13 por nocaute.
ele estava em 3º no ranking
e numa luta preliminar
foi nocauteado por um lutador negro
que nem estava ranqueado e que não lutava
há 2 anos.

todo o percurso desde o México
diretamente do campo.
a bebida e as mulheres acabaram
com ele.
na revanche ele foi mais uma vez nocauteado
e suspenso por 6 meses.

todo esse percurso
pelo trago e 2 casos de
doença venérea.

retornou um ano depois
jurando que estava limpo, que tinha
aprendido a lição.
e conseguiu arrancar um empate com o
9º do ranking de sua divisão.

retornou para a revanche
e a luta foi interrompida
no 3º assalto porque ele
não conseguia mais
se proteger.

e ele refez todo o percurso de volta
até o México
diretamente para o campo.

é preciso um poeta fodão
como eu
para conseguir lidar com as bebidas e as mulheres
escapar das doenças venéreas
escrever sobre fracassos
como o dele
e manter minha posição entre os
10 primeiros do ranking:
todo o percurso desde a Alemanha
diretamente das fábricas
entre garrafas de cerveja
e a campainha do
telefone.
1 081
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Nietzschiana

Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
— Já sei, minha filha... É atavismo.
E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.
1 177
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meu coração. o almirante errado

Meu coração. o almirante errado
Que comandou a armada por haver
Tentou caminho onde o negou o Fado,
Quis ser feliz quando o não pôde ser.

E assim, [fechado?], absurdo, postergado,
Dado ao que nos resulta de se abster,
Não foi dado, não foi dado, não foi dado
E o verso errado deixa-o entender.

Mas há compensações absolutórias
Na sombra — no silencio da derrota

Que tem mais rosas de alma que as vitórias.

E assim surgiu, Imperial, a frota
Carregada de anseios e de glórias
Com que o almirante prosseguiu na rota.
869
Charles Bukowski

Charles Bukowski

K.O.

ele era barbada, gordo como um beija-flor
e eu o mantinha golpeando,
lançava um soco e trocava a guarda e dava um tempo:
todos esperavam pela luta da noite,
bebendo cerveja, e eu pensava
como vamos mobiliar a casa,
eu precisava de uma bancada e algumas ferramentas,
e então ele disparou uma direita –
eu tinha ficado olhando para as luzes
e a próxima coisa que fui capaz de me lembrar
foram todos uivando, e eu de joelhos como se
rezasse, e quando me levantei
ele era forte e eu era fraco;
bem, pensei, vou voltar para a fazenda,
eu sempre fui um pobre vencedor.
1 011
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Ex-Pugilista

ele se aferrava com força ao corpo
aguentava bem
e adorava uma briga
já levava uma sequência de sete e tinha uma pequena mancha
sobre um dos olhos,
e então topou com um garoto de Camden
cujos braços eram finos como arames –
era dos bons,
os gorilas da audiência urraram e jogaram dinheiro;
os dois caíram e se levantaram muitas vezes,
mas ele perdeu aquela
e perdeu também a revanche
na qual nenhum dos dois chegou a lutar,
agarrados um ao outro como se fossem amantes através das vaias,
e agora ele trabalha com o Mike
trocando pneus e óleo e baterias,
a mancha sobre o olho
ainda jovem,
mas você não fala com ele,
você não pergunta nada para ele
exceto talvez
será que vai chover?
ou
acha que o sol vai aparecer?
ao que ele normalmente responderia
claro que não,
mas você encheria seu tanque de gasolina
e iria embora.
1 087
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Outr'ora quis a fama — e não a quis,

Outrora quis a fama — e não a quis,
Que a fama, a popularidade, o ser
Conhecido, falado — quando não visto —
Confrange-me dum terror que não compreendo.
Violação do meu ser se me aparenta
Um desvergonhamento, não sei como.

Hoje um desgosto imenso e (...)
D'altos fins e de empresas elevadas
Boceja-me no espírito turvado
(No) coração vago de não sentir.
1 026
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MOMENTS - I

I

The hen said «I can fly».
        Do you know why?
Over a fence she flew.

The eagle said «Can I fly?»
        Can you tell why?
Unto the stars she could not go.
1 266
Alfonsina Storni

Alfonsina Storni

Sabeis algo

Subi, subi, subi. Já estava bem em cima
quando senti um murmuro, era desafio, diatribe?
Escutei: gargalhadas, ironias, insultos.
o que vos pareço uma símia? Oh meus bons estultos:
sabeis de coisas belas?
Eu, fazem séculos que vivo trança que trança estrelas.

1 119
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Subiste à glória pela descida abaixo.

Subiste à glória pela descida abaixo.
Paradoxo? Não: a realidade.
O paradoxo é o que é palavras
A realidade é o que és.
Subiste porque desceste.
Está bem.
Amanhã talvez eu faça a mesma coisa.
Por ora, se calhar, invejo-te.
Não sei se te invejo a vitória.
Não sei se te invejo o consegui-la.
Mas realmente creio que te a invejo
Sempre é vitória...
Façam um embrulho de mim
E depois deitem-me ao rio.
E não esqueçam o «se calhar» quando lá me deitarem.
Isso é importante.
Não esqueçam o «se calhar».
Isso é que é importante.
Porque tudo é se calhar...
1 189
Manuel Sobrinho

Manuel Sobrinho

Trovas

Amigos, quantos tiveres,
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...

Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.

Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista

És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...

É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.

776
Abul ʿAla Al-Maʿarri

Abul ʿAla Al-Maʿarri

teus sonhos de grande empresa

Vãos, teus sonhos de grande empresa,
De forma vã, tu velejas espaços novos,
Vão, ancorar nesse mundo só de rostos
Se é outro fim que o mundo te reserva.

636
Milena Azevedo

Milena Azevedo

As Guerreiras das Quadras

Quanta guarra,
quanta destreza,
são belas guerreiras
que lutam numa pequena fortaleza.

Cada lance,
cada cesta,
fazem a torcida vibrar
com assistências perfeitas que chegam a emocionar
à todos que estiverem a olhar.

É brilho, magia,
não dá para descrever tanta euforia,
tamanho talento e maestria
e nem como elas jogam com tanta energia.

É vontade de vencer,
é tão bom de torcer.
Quanto mais elas suam, mais querem aprender.
É só assim que elas sabem agradecer,
dando o que de melhor têm em seu ser.

830
Paulo Leminski

Paulo Leminski

a gente ia ser homero

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores

3 713
Simone Brantes

Simone Brantes

Errou o homem

Errou o homem cujo calo lhe gritou
ardendo dentro do sapato
amanhã choverá. E também o cara
(ou aquilo dentro dele) que previu:
cem mil diminutos relâmpagos
se desatarão do corpo da garota
na minha direção
Não que não tenha relampejado
mas porque um só relâmpago
(fora daquele céu) foi necessário
para abatê-lo. E agora sabe
o quanto (ainda mais que nós
que sabemos do homem com seu calo
ardendo ainda dentro do sapato)
o nosso corpo é essa antiga máquina
falaciosa de premonições
722
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Contudo, contudo,

Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.

Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.

Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.
2 493
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O descalabro a ócio e estrelas...

O descalabro a ócio e estrelas...
Nada mais...
Farto...
Arre...
Todo o mistério do mundo entrou paro a minha vida económica.
Basta!...
O que eu queria ser, e nunca serei, estraga-me as ruas.
Mas então isto não acaba?
É destino?
Sim, é o meu destino
Distribuído pelos meus conseguimentos no lixo
E os meus propósitos à beira da estrada –
Os meus conseguimentos rasgadas por crianças.
Os meus propósitos mijados por mendigos,
E toda a minha alma uma toalha suja que escorregou para o chão.
(...)
O horror do som do relógio à noite na sala de jantar de uma casa de província –
Toda o monotonia e a fatalidade do tempo...
O horror súbito do enterro que passa
E tira a máscara a todas as esperanças.
Ali...
Ali vai a conclusão.
Ali, fechado e selado,
Ali, debaixo do chumbo lacrado e com cal na cara
Vai, que pena como nós,
Vai o que sentiu como nós,
Vai o nós!
Ali, sob um pano cru acro é horroroso como uma abóbada de cárcere
Ali, ali, ali... E eu?
2 510
Renato Rezende

Renato Rezende

Asas de Papel

Subir aos céus em asas de cristal
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir


São Paulo, março 1996
1 030
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Estela Funerária

Era um rapaz sem vocação para o caminho,
um arco sem arqueiro.
Chama-se Elpenor.

Mais do que a palavra preocupava-o a lama
na sandália do poeta,
a mancha no tapete.

Movia-o a coragem de estar só,
divisão dos que celebram
o massacre da esperança.

Caiu a sua casa, vendeu as suas veias,
partiu para o desastre,
chegou à nossa frente.
1 045
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XXXV - Good. I have done. My heart weighs. I am sad.

Good. I have done. My heart weighs. I am sad.
The outer day, void statue of lit blue,
Is altogether outward, other, glad
At mere being not-I (so my aches construe).
I, that have failed in everything, bewail
Nothing this hour but that I have bewailed,
For in the general fate what is't to fail?
Why, fate being past for Fate, 'tis but to have failed.
Whatever hap or stop, what matters it,
Sith to the mattering our will bringeth nought?
With the higher trifling let us world our wit,
Conscious that, if we do t, that was the lot
The regular stars bound us to, when they stood
Godfathers to our birth and to our blood.
4 199
Renato Rezende

Renato Rezende

O Muro

Quando adolescente, começou um esboço de narrativa que depois denominou O muro.
A confusa papelada tratava de narrar a história de um jovem sendo iniciado pela mão e
pelo amor de uma fantástica menina de nove anos.
Fracassou. Mas lembro-me particularmente de um trecho de O muro (outros foram
reciclados em alguns malsucedidos poemas em prosa) que me marcou por sua patética procura:

rinocerontes, cartuchos, caralhos
soteriologia, coisas & coisas, palavras...
907
Leónidas Lamborghini

Leónidas Lamborghini

O sabotador arrependido

No meu rosto está escrita a aceita
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita

Eu era o braço direito agora não sou nada

Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.

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