Poemas neste tema
Animais e Natureza
Charles Bukowski
Cartas
ela se senta no chão
revirando uma caixa de papelão
lendo-me cartas de amor que escrevi para ela
enquanto sua filha de 4 anos se deita no chão
enrolada em um cobertor rosa e
três quartos encaminhada no sono
havíamos voltado a nos ver depois de uma separação
estou sentado em sua casa numa
noite de domingo
os carros vão e vêm na colina lá fora
quando formos dormir juntos
ouviremos os grilos
onde estão os trouxas que não vivem tão bem
quanto eu?
amo suas paredes
amo suas crianças
amo seu cachorro
ouviremos os grilos
meu braço a lhe envolver os quadris
meus dedos postos em sua barriga
uma noite como esta vence a vida,
o que transborda dá conta da morte
gosto de minhas cartas de amor
elas são verdadeiras
ah, ela tem uma bunda tão linda!
ah, ela tem uma alma tão linda!
revirando uma caixa de papelão
lendo-me cartas de amor que escrevi para ela
enquanto sua filha de 4 anos se deita no chão
enrolada em um cobertor rosa e
três quartos encaminhada no sono
havíamos voltado a nos ver depois de uma separação
estou sentado em sua casa numa
noite de domingo
os carros vão e vêm na colina lá fora
quando formos dormir juntos
ouviremos os grilos
onde estão os trouxas que não vivem tão bem
quanto eu?
amo suas paredes
amo suas crianças
amo seu cachorro
ouviremos os grilos
meu braço a lhe envolver os quadris
meus dedos postos em sua barriga
uma noite como esta vence a vida,
o que transborda dá conta da morte
gosto de minhas cartas de amor
elas são verdadeiras
ah, ela tem uma bunda tão linda!
ah, ela tem uma alma tão linda!
1 207
José Eduardo Mendes Camargo
Propósito
Não quero viver sob o signo do medo
Que paralisa os abraços,
Nos desperta o temor à morte e, ao depois dela,
Como dizia o poeta Drummond,
E então morrermos de medo
E nascerem flores pálidas e medrosas
Em nossos túmulos.
Quero sentir o ar puro da manhã em meus pulmões,
E tocar a terra com a sola de meus pés.
E fascinar-me com o canto dos pássaros,
As cores da natureza, o perfume das flores
E a beleza das mulheres.
E saltar, gritar e dizer:
Estou vivo, não me importa o grau de loucura
Que se me atribuam.
Que paralisa os abraços,
Nos desperta o temor à morte e, ao depois dela,
Como dizia o poeta Drummond,
E então morrermos de medo
E nascerem flores pálidas e medrosas
Em nossos túmulos.
Quero sentir o ar puro da manhã em meus pulmões,
E tocar a terra com a sola de meus pés.
E fascinar-me com o canto dos pássaros,
As cores da natureza, o perfume das flores
E a beleza das mulheres.
E saltar, gritar e dizer:
Estou vivo, não me importa o grau de loucura
Que se me atribuam.
746
Charles Bukowski
Noite Úmida
a sobra.
ela se sentou ali, entristecida.
eu não podia fazer nada com ela.
estava chovendo.
ela se levantou e se foi.
bem, foda-se, mais uma vez isso, pensei
apanhei minha bebida e liguei o rádio,
tirei a pantalha do abajur
e fumei um charuto barato, negro e amargo
importado da Alemanha.
uma batida veio da porta
e eu abri a porta
um homenzinho estava na chuva
e ele disse,
você não viu por acaso um pombo na sua varanda?
eu lhe disse que não tinha visto um pombo na minha varanda
e ele me disse que se eu visse um pombo na minha varanda
que o avisasse.
fechei a porta
me sentei
e então um gato preto saltou através da
janela e pulou no meu
colo e ronronou, era um belo animal
e eu o levei até a cozinha e nós dois comemos uma
fatia de presunto.
então apaguei todas as luzes
e fui para a cama
e o gato preto foi para a cama comigo
e ronronou
e eu pensei, bem, alguém gosta de mim,
então o gato começou a mijar,
ele me mijou todo e também todo o lençol,
o mijo escorreu por minha barriga e desceu pelos lados
e eu disse: ei, o que há de errado com você?
apanhei o gato e o levei na direção da porta
e o joguei de volta no meio da chuva
e pensei, isso é muito estranho, esse gato
mijando em mim
seu mijo era gelado como a chuva.
então liguei para ela
e eu disse, veja, o que há de errado com você? você perdeu
a porra da sua cabeça?
desliguei e puxei os lençóis da cama
deitei e fiquei ali ouvindo a chuva.
às vezes um homem não sabe o que fazer com as coisas
e às vezes o melhor a fazer é ficar deitado sem se mexer
e tentar simplesmente não pensar
não pensar em nada.
o gato pertencia a alguém
ele tinha uma coleira antipulgas.
nada sei sobre a
mulher.
ela se sentou ali, entristecida.
eu não podia fazer nada com ela.
estava chovendo.
ela se levantou e se foi.
bem, foda-se, mais uma vez isso, pensei
apanhei minha bebida e liguei o rádio,
tirei a pantalha do abajur
e fumei um charuto barato, negro e amargo
importado da Alemanha.
uma batida veio da porta
e eu abri a porta
um homenzinho estava na chuva
e ele disse,
você não viu por acaso um pombo na sua varanda?
eu lhe disse que não tinha visto um pombo na minha varanda
e ele me disse que se eu visse um pombo na minha varanda
que o avisasse.
fechei a porta
me sentei
e então um gato preto saltou através da
janela e pulou no meu
colo e ronronou, era um belo animal
e eu o levei até a cozinha e nós dois comemos uma
fatia de presunto.
então apaguei todas as luzes
e fui para a cama
e o gato preto foi para a cama comigo
e ronronou
e eu pensei, bem, alguém gosta de mim,
então o gato começou a mijar,
ele me mijou todo e também todo o lençol,
o mijo escorreu por minha barriga e desceu pelos lados
e eu disse: ei, o que há de errado com você?
apanhei o gato e o levei na direção da porta
e o joguei de volta no meio da chuva
e pensei, isso é muito estranho, esse gato
mijando em mim
seu mijo era gelado como a chuva.
então liguei para ela
e eu disse, veja, o que há de errado com você? você perdeu
a porra da sua cabeça?
desliguei e puxei os lençóis da cama
deitei e fiquei ali ouvindo a chuva.
às vezes um homem não sabe o que fazer com as coisas
e às vezes o melhor a fazer é ficar deitado sem se mexer
e tentar simplesmente não pensar
não pensar em nada.
o gato pertencia a alguém
ele tinha uma coleira antipulgas.
nada sei sobre a
mulher.
1 145
Hilda Hilst
De tanto te pensar
De tanto te pensar, me veio a ilusão.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua nágua.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua nágua.
3 209
Charles Bukowski
Gorjeio No
gorjeio no melro de minha noite
por entre respiração de pechblenda,
e que os condados aumentem seus impostos
e o lenhador sinta coceiras em seu sono;
gorjeio no melro de minha noite,
e que os exércitos se vistam para dançar
nas ruas, e garotinhas
beijem as frutas que enchem suas barrigas;
gorjeio no melro de minha noite,
esgote os seus verões em grunhidos e gemidos,
belisque os caules dos lírios quando
o coração do câncer queimar o amor;
gorjeio no melro de minha noite,
gorjeio na nota,
meu país é alto para cair
a ferrugem dos dias
de Moscou a Nova York
acrescenta um terror de horas
mas não reclamo
os dez mil beijos
ou os paus e as pedras
ou Roma quebrada,
mas espero a sua nota,
meus dedos arranham
a mesa iluminada de sol.
por entre respiração de pechblenda,
e que os condados aumentem seus impostos
e o lenhador sinta coceiras em seu sono;
gorjeio no melro de minha noite,
e que os exércitos se vistam para dançar
nas ruas, e garotinhas
beijem as frutas que enchem suas barrigas;
gorjeio no melro de minha noite,
esgote os seus verões em grunhidos e gemidos,
belisque os caules dos lírios quando
o coração do câncer queimar o amor;
gorjeio no melro de minha noite,
gorjeio na nota,
meu país é alto para cair
a ferrugem dos dias
de Moscou a Nova York
acrescenta um terror de horas
mas não reclamo
os dez mil beijos
ou os paus e as pedras
ou Roma quebrada,
mas espero a sua nota,
meus dedos arranham
a mesa iluminada de sol.
1 053
Charles Bukowski
Eu Era Merda
pesar, as paredes sangram de tanto pesar e quem se importa?
um pardal, uma princesa, uma puta, um cão de caça?
meu deus, a sujeira se importa, sujeira, e sujeira eu serei,
vou soprar um clarim de herói onde os heróis são todos iguais:
Ezra metido junto com o menino de recados que nem eu,
que nem eu, débil chuva chapinhando no cérebro vazio,
ah meu deus, as nobres intenções, as vidas, os esgotos,
as mesas em Paris
pairando pavoneadas em nossas memórias suínas,
Havana, Cuba, Hemingway
caindo no chão
sangue chapinhado em todas as saídas.
se Hemingway se mata
eu sou o quê?
se Cummings morre por cima da máquina de escrever,
se Faulkner agarra o coração e se vai,
eu sou o quê?
eu sou o quê? eu era o que
quando Jeffers morreu em sua tumba,
seu casulo de pedra?
eu era merda, merda, merda, merda.
eu agora caio no chão e levanto meus últimos pedaços
o que resta de mim
prometo grais cheios de palavras bem como de vinho,
e o verde, e a sombra que adeja,
tudo isso é nada,
Deus se barbeando no meu banheiro,
aluguel atrasado,
relâmpago quebrando as costas das formigas,
preciso me aproximar de mim mesmo,
preciso parar de fazer truques pois
bem lá dentro
em algum lugar
acima das bolas ou
abaixo ou naquela cabeça
ainda não esmagada
olhos espiando para fora como fogos impossíveis e amaldiçoados,
vejo a fenda que devo pular, e serei forte
e serei gentil, sempre fui gentil,
os animais me amam como se eu fosse uma criança pintando com giz
as bordas do mundo,
pardais passam andando, moscas rastejam sob minhas pálpebras,
não consigo machucar nada
que não seja eu mesmo,
não consigo nem mesmo no pesar sangrento
dar um grito;
isso é mais do que uma escritura no interior do meu cérebro –
sou impelido ao longo das avenidas de progresso e processo
como dados
os deuses abocanhando seus fogos de força
e eu
não devo morrer,
ainda.
um pardal, uma princesa, uma puta, um cão de caça?
meu deus, a sujeira se importa, sujeira, e sujeira eu serei,
vou soprar um clarim de herói onde os heróis são todos iguais:
Ezra metido junto com o menino de recados que nem eu,
que nem eu, débil chuva chapinhando no cérebro vazio,
ah meu deus, as nobres intenções, as vidas, os esgotos,
as mesas em Paris
pairando pavoneadas em nossas memórias suínas,
Havana, Cuba, Hemingway
caindo no chão
sangue chapinhado em todas as saídas.
se Hemingway se mata
eu sou o quê?
se Cummings morre por cima da máquina de escrever,
se Faulkner agarra o coração e se vai,
eu sou o quê?
eu sou o quê? eu era o que
quando Jeffers morreu em sua tumba,
seu casulo de pedra?
eu era merda, merda, merda, merda.
eu agora caio no chão e levanto meus últimos pedaços
o que resta de mim
prometo grais cheios de palavras bem como de vinho,
e o verde, e a sombra que adeja,
tudo isso é nada,
Deus se barbeando no meu banheiro,
aluguel atrasado,
relâmpago quebrando as costas das formigas,
preciso me aproximar de mim mesmo,
preciso parar de fazer truques pois
bem lá dentro
em algum lugar
acima das bolas ou
abaixo ou naquela cabeça
ainda não esmagada
olhos espiando para fora como fogos impossíveis e amaldiçoados,
vejo a fenda que devo pular, e serei forte
e serei gentil, sempre fui gentil,
os animais me amam como se eu fosse uma criança pintando com giz
as bordas do mundo,
pardais passam andando, moscas rastejam sob minhas pálpebras,
não consigo machucar nada
que não seja eu mesmo,
não consigo nem mesmo no pesar sangrento
dar um grito;
isso é mais do que uma escritura no interior do meu cérebro –
sou impelido ao longo das avenidas de progresso e processo
como dados
os deuses abocanhando seus fogos de força
e eu
não devo morrer,
ainda.
1 387
Charles Bukowski
A Corda de Vidro
o velho era mais velho do que eu
no trem que ia para o sul
ao longo do mar por lá
depois o trem seguiu
por entre penhascos amarelos e
a visão do mar foi cortada e
ele me contou
“em 1914 levei 400 mulas
do Missouri à Itália.
aquelas mulas fediam.
tive de usar mais de um barco
mas transportei todas.
eles usaram as mulas para
rebocar canhões montanha acima.
os austríacos e os italianos
lutaram a guerra toda por cima de
uma montanha.”
o trem saiu do meio dos
penhascos, e lá embaixo no mar
os nadadores nadavam
meninos vinham que nem loucos
sobre pranchas de surfe. eu andei lendo
o Programa das Corridas.
“fizemos pontes de corda entre
uma montanha e outra
sempre subindo
e as mulas puxaram o canhão
na travessia.”
“pontes de corda?”, eu
perguntei.
“era corda de vidro, não tem nada
mais forte, nós esticamos o troço
com uma roda como uma roda de melaço
e a mula e o canhão atravessaram.
não havia força aérea na época e
quando botamos o canhão no topo
apontamos para baixo e
bombardeamos a cidade abaixo
de nós.”
eu me separei dele quando o trem chegou ao
hipódromo, ele era um velho
olhando por uma janela.
eu atravessei a ponte, feita de madeira,
sobre um braço de água do mar com
cheiro de podre. caminhei na direção do
hipódromo, estava quente, era um sábado em
agosto de 1964 e o mundo
ainda estava
lutando.
no trem que ia para o sul
ao longo do mar por lá
depois o trem seguiu
por entre penhascos amarelos e
a visão do mar foi cortada e
ele me contou
“em 1914 levei 400 mulas
do Missouri à Itália.
aquelas mulas fediam.
tive de usar mais de um barco
mas transportei todas.
eles usaram as mulas para
rebocar canhões montanha acima.
os austríacos e os italianos
lutaram a guerra toda por cima de
uma montanha.”
o trem saiu do meio dos
penhascos, e lá embaixo no mar
os nadadores nadavam
meninos vinham que nem loucos
sobre pranchas de surfe. eu andei lendo
o Programa das Corridas.
“fizemos pontes de corda entre
uma montanha e outra
sempre subindo
e as mulas puxaram o canhão
na travessia.”
“pontes de corda?”, eu
perguntei.
“era corda de vidro, não tem nada
mais forte, nós esticamos o troço
com uma roda como uma roda de melaço
e a mula e o canhão atravessaram.
não havia força aérea na época e
quando botamos o canhão no topo
apontamos para baixo e
bombardeamos a cidade abaixo
de nós.”
eu me separei dele quando o trem chegou ao
hipódromo, ele era um velho
olhando por uma janela.
eu atravessei a ponte, feita de madeira,
sobre um braço de água do mar com
cheiro de podre. caminhei na direção do
hipódromo, estava quente, era um sábado em
agosto de 1964 e o mundo
ainda estava
lutando.
1 061
Charles Bukowski
Má Sorte
há boas coisas em volta se você
procurar bem.
eu me lembro de uma vez no campo de concentração alemão
em que agarramos um veado
eles vêm a calhar quando não há mulher disponível
e nós cagamos ele a pau primeiro
e aí passamos ele de mão em mão
e fizemos ele chupar o pau de um cara
enquanto o outro cara arrombava ele
e até mesmo um dos guardas alemães se juntou
e aproveitou um pouco – que noite!
e aquele veado não conseguiu andar por um mês
e certa noite ele foi morto a tiros
tentando escapar pelo arame
e eu me lembro do Harry gemendo
enquanto via o corpo do bicha sendo carregado
com aqueles 2 buracos na cabeça:
“lá se vai o melhor rabo que eu já
peguei!”
procurar bem.
eu me lembro de uma vez no campo de concentração alemão
em que agarramos um veado
eles vêm a calhar quando não há mulher disponível
e nós cagamos ele a pau primeiro
e aí passamos ele de mão em mão
e fizemos ele chupar o pau de um cara
enquanto o outro cara arrombava ele
e até mesmo um dos guardas alemães se juntou
e aproveitou um pouco – que noite!
e aquele veado não conseguiu andar por um mês
e certa noite ele foi morto a tiros
tentando escapar pelo arame
e eu me lembro do Harry gemendo
enquanto via o corpo do bicha sendo carregado
com aqueles 2 buracos na cabeça:
“lá se vai o melhor rabo que eu já
peguei!”
1 354
Hemetério Cabrinha
Geminidade
Numa gôta de orvalho escassa, cintilante,
Há um mundo a rolar latente, palpitante
Em sua pequenez etérea, cristalina,
Que à luz do sol parece estrêla, diamantina;
Há um beijo de Deus para exaltar a vida...
E essa gôta do céu, na pétala caída,
Vivificando a planta e colorindo a flor,
Tem para a Natureza uma expansão de amor.
Assim também o pranto -- a lágrima tremente --
Como a gôta de orvalho, a derramar-se quente
De uns olhos cujo encanto a sobra da tristeza
Apagou, para dar emocional beleza
Que só a dor profunda esboça, plasma, imprime;
Traz em seu cintilar o que há de mais sublime
Nos refolhos sutís da alma desolada;
E num rosto ou num colo ebúrneo derramada,
Como o orvalho do céu, esplende em seu fulgor,
Um ósculo de Deus na exaltação da dor.
Há um mundo a rolar latente, palpitante
Em sua pequenez etérea, cristalina,
Que à luz do sol parece estrêla, diamantina;
Há um beijo de Deus para exaltar a vida...
E essa gôta do céu, na pétala caída,
Vivificando a planta e colorindo a flor,
Tem para a Natureza uma expansão de amor.
Assim também o pranto -- a lágrima tremente --
Como a gôta de orvalho, a derramar-se quente
De uns olhos cujo encanto a sobra da tristeza
Apagou, para dar emocional beleza
Que só a dor profunda esboça, plasma, imprime;
Traz em seu cintilar o que há de mais sublime
Nos refolhos sutís da alma desolada;
E num rosto ou num colo ebúrneo derramada,
Como o orvalho do céu, esplende em seu fulgor,
Um ósculo de Deus na exaltação da dor.
1 464
Hermilo Borba Filho
Revolta na Zona da Mata
Bicho ardente, verde claro
verde-escuro, amarelado,
no pasto da esperança
voam as crinas dos cavalos.
São animais, são guerreiros,
procurando a madrugada
e nela se ajeitando
com peixes, antas, serpentes,
passarinhos, pirilampos,
roedores, bestas de carne
na revolução da vida
dando exemplo ao bicho-homem.
No pendão da cana escura
corre o suor da agonia,
no eito da enxada aguda
cava, cava a própria dor.
E o céu sangrento, mudo,
recobre a pastagem gorda
que dará ao senhor dela
carros, perfumes e sedas,
enquanto na choça escura
chupando o peito resseco
o homem, criança hoje,
toma lições de animais
para como cobra irada
ou gavião bicador
arrancar do coração
o brado-revolta pura
do final da servidão.
Recife, 30 de agosto de 1967
verde-escuro, amarelado,
no pasto da esperança
voam as crinas dos cavalos.
São animais, são guerreiros,
procurando a madrugada
e nela se ajeitando
com peixes, antas, serpentes,
passarinhos, pirilampos,
roedores, bestas de carne
na revolução da vida
dando exemplo ao bicho-homem.
No pendão da cana escura
corre o suor da agonia,
no eito da enxada aguda
cava, cava a própria dor.
E o céu sangrento, mudo,
recobre a pastagem gorda
que dará ao senhor dela
carros, perfumes e sedas,
enquanto na choça escura
chupando o peito resseco
o homem, criança hoje,
toma lições de animais
para como cobra irada
ou gavião bicador
arrancar do coração
o brado-revolta pura
do final da servidão.
Recife, 30 de agosto de 1967
1 369
H. Masuda Goga
Outono
Líbélula voando
pára num instante e lança
sua sombra no chão.
pára num instante e lança
sua sombra no chão.
673
J. B. Sayeg
Máquina de Fazer Gorjeio
Eu já te disse
ele é um passarinho lento
toda manhã em nossa janela,
não lhe preste qualquer atenção,
para não criar nenhuma dependência,
pois um dia ele se acabará
como tudo nesta cidade se consome,
sobretudo, quando se sabe,
não é um pássaro,
mas um brinquedo de corda,
proferindo-se a senha, um estranho gorjeio
sai do mecanismo
querendo comunicar-se,
toda a vez que se vira a manivela.
(do livro Pantomimas e Animação, 1989).
ele é um passarinho lento
toda manhã em nossa janela,
não lhe preste qualquer atenção,
para não criar nenhuma dependência,
pois um dia ele se acabará
como tudo nesta cidade se consome,
sobretudo, quando se sabe,
não é um pássaro,
mas um brinquedo de corda,
proferindo-se a senha, um estranho gorjeio
sai do mecanismo
querendo comunicar-se,
toda a vez que se vira a manivela.
(do livro Pantomimas e Animação, 1989).
946
J. B. Sayeg
Olhos de Um Melro
Os olhos mecânicos do melro
eram as únicas coisas que se moviam
na sala. O quadro de Paul Klee desenhava
movimentos de um anjo,
eram movimentos eternos, insatisfatórios
porque não eram efêmeros resolúveis
numa fração de segundo. Os olhos porém
eram ágeis, falavam, escutavam, eram olhos
indagadores. Eu mesmo me imobilizei apavorado
perante aqueles movimentos rápidos e impacientes.
Sentei-me na cadeira de grande espaldar
defronte à escrivaninha. Dobrei a página,
deixando o marcador indicando-me a leitura
interrompida. Os olhos se detiveram,
por um instante. A seguir, desesperadamente
recomeçaram seus inteligentes movimentos.
(de Pantomimas e Animação, 1989)
eram as únicas coisas que se moviam
na sala. O quadro de Paul Klee desenhava
movimentos de um anjo,
eram movimentos eternos, insatisfatórios
porque não eram efêmeros resolúveis
numa fração de segundo. Os olhos porém
eram ágeis, falavam, escutavam, eram olhos
indagadores. Eu mesmo me imobilizei apavorado
perante aqueles movimentos rápidos e impacientes.
Sentei-me na cadeira de grande espaldar
defronte à escrivaninha. Dobrei a página,
deixando o marcador indicando-me a leitura
interrompida. Os olhos se detiveram,
por um instante. A seguir, desesperadamente
recomeçaram seus inteligentes movimentos.
(de Pantomimas e Animação, 1989)
874
Jônatas Batista
Alegria do Céu
Maio... junho...
os raios do sol chegam mais livres e mais rápidos.
A luz das estrelas, mais intensa e mais viva, se derrama
pelas dobras da noite.
A lua... Nem um trapo de nuvem, nem um farrapo de sombra!
Céu descascado. Céu do Nordeste.
À nossa vista sempre dá mostra "a pálida e romântica enamorada
dos poetas vagabundos".
Quando os ventos gerais arrancam as primeiras folhas...
a gente tem gana de viver e de amar!
As violas acordam e os terreiros se espanejam.
O engenho de madeira canta, rouquenho, ao ritmo pesado e lerdo
dos bois vagarosos e sonolentos.
O caititu raspa a mandioca sumarenta e a farinha cheirosa
é remexida no forno de pedra.
Os riachos valentes se transformam em longas e estreitas
fitas de prata.
Os sambas se animam e os cantores se defrontam para
o desafio costumeiro.
A jurema de desata em flores e o perfume vai longe
em busca das abelhas.
As morenas se alindam e os namorados se comprometem.
O vaqueiro abóia, ao fim do dia, na quebrada da serra,
e o touro escarva o chão, desafiando no pátio da fazenda.
A égua nova, que ainda não deu cria, curveteia, no tabuleiro verde,
e a raposa uiva e gargalha, na encruzilhada do caminho.
As ovelhas, em ranchos, se agasalham fora dos currais,
e as cabras pinoteiam, ariscas, nas fraldas dos morros.
O caboré geme com frio e o cabeça-vermelha acorda
o galo preguiçoso, que se retarda no toque da alvorada.
O inverno vai longe,
A seca não chegou ainda,
Ah! nesse tempo, nesse tempo, baixam aos campos da minha terra
A bênção de Deus!
A alegria do Céu!
os raios do sol chegam mais livres e mais rápidos.
A luz das estrelas, mais intensa e mais viva, se derrama
pelas dobras da noite.
A lua... Nem um trapo de nuvem, nem um farrapo de sombra!
Céu descascado. Céu do Nordeste.
À nossa vista sempre dá mostra "a pálida e romântica enamorada
dos poetas vagabundos".
Quando os ventos gerais arrancam as primeiras folhas...
a gente tem gana de viver e de amar!
As violas acordam e os terreiros se espanejam.
O engenho de madeira canta, rouquenho, ao ritmo pesado e lerdo
dos bois vagarosos e sonolentos.
O caititu raspa a mandioca sumarenta e a farinha cheirosa
é remexida no forno de pedra.
Os riachos valentes se transformam em longas e estreitas
fitas de prata.
Os sambas se animam e os cantores se defrontam para
o desafio costumeiro.
A jurema de desata em flores e o perfume vai longe
em busca das abelhas.
As morenas se alindam e os namorados se comprometem.
O vaqueiro abóia, ao fim do dia, na quebrada da serra,
e o touro escarva o chão, desafiando no pátio da fazenda.
A égua nova, que ainda não deu cria, curveteia, no tabuleiro verde,
e a raposa uiva e gargalha, na encruzilhada do caminho.
As ovelhas, em ranchos, se agasalham fora dos currais,
e as cabras pinoteiam, ariscas, nas fraldas dos morros.
O caboré geme com frio e o cabeça-vermelha acorda
o galo preguiçoso, que se retarda no toque da alvorada.
O inverno vai longe,
A seca não chegou ainda,
Ah! nesse tempo, nesse tempo, baixam aos campos da minha terra
A bênção de Deus!
A alegria do Céu!
821
Truck Tumleh
Poeta
Eu sou o poeta...
Talvez diferente de muitos
Já conhecido por você,
Mas eu sou poeta...
Aquele que não fala ou fala...
Aquele que não olha ou olha...
É eu sou poeta...
No centro olhando os cantos
Em um dos cantos
Vendo o centro
E os outros cantos.
Felizmente eu sou poeta....
Não me cobre por isto.
Nasce uma flor...Nasce um pássaro...
Nasce uma criança...
E tudo surge:
A água, o vento e o poeta...
Eu sou a poesia
Talvez diferente de muitos
Já conhecido por você,
Mas eu sou poeta...
Aquele que não fala ou fala...
Aquele que não olha ou olha...
É eu sou poeta...
No centro olhando os cantos
Em um dos cantos
Vendo o centro
E os outros cantos.
Felizmente eu sou poeta....
Não me cobre por isto.
Nasce uma flor...Nasce um pássaro...
Nasce uma criança...
E tudo surge:
A água, o vento e o poeta...
Eu sou a poesia
902
Isabel Vilhena
A Borboleta
Na transparência viva e luminosa
Dessa manhã de sol, passou fugindo
A borboleta azul, silenciosa,
Ligeira, breve, qual um sonho lindo,
Cabelo ao sol e face cor-de-rosa,
Dedinhos frágeis, gracioso unindo,
Atrás da flor aérea, vaporosa,
O garotinho ansioso vai seguindo.
A borboleta pousa numa flor,
Devagarinho, mudo, cauteloso,
Quase a prendeu! Fugiu... Que dissabor!
Garoto lindo! Borboleta esquiva!
— Coração moço, crente, esperançoso,
Em busca da ventura fugitiva!
Dessa manhã de sol, passou fugindo
A borboleta azul, silenciosa,
Ligeira, breve, qual um sonho lindo,
Cabelo ao sol e face cor-de-rosa,
Dedinhos frágeis, gracioso unindo,
Atrás da flor aérea, vaporosa,
O garotinho ansioso vai seguindo.
A borboleta pousa numa flor,
Devagarinho, mudo, cauteloso,
Quase a prendeu! Fugiu... Que dissabor!
Garoto lindo! Borboleta esquiva!
— Coração moço, crente, esperançoso,
Em busca da ventura fugitiva!
1 127
Jacy Pacheco
Haicai
O luar no mar.
Um peixe salta, enlevado,
banhado de prata.
Por sobre o banhado
— alvas asas — com que graça
a garça esvoaça!
Um peixe salta, enlevado,
banhado de prata.
Por sobre o banhado
— alvas asas — com que graça
a garça esvoaça!
949
Jacira Lima
Amor, namorados do tempo sem fronteiras
Não és Deus, Deusa.
E no entanto, fazes parte deste ser.
Fazes parte do todo.
Sinto tua presença quando aqueces meu corpo que treme de frio.
É o teu calor!
Sinto teu cheiro, na brisa que passa.
Sei que me olhas, quando vejo o brilho mais ousado de uma estrela a
piscar.
Quando vem o vento, sinto teus lábios a tocar de leve os meus.
Ao caminhar na chuva, sinto tuas lágrimas saudosas.
Já o trovão, é o teu grito!
Por saber que tuas lágrimas traduzem uma saudade feliz.
Eu fico feliz, pois não me esqueceste, faço parte de ti, estou na tua
lembrança.
Saio da terra molhada e vou ao país dos sonhos.
Lá, eu te encontro nos tocamos e contemplamos o universo até a
alvorada.
Não percebemos, mas amanheceu!
Tu me acordas com tua ousadia de adolescente.
Banhas meu quarto com teus olhos invisíveis.
Bom dia amor!
Felicidades!
E no entanto, fazes parte deste ser.
Fazes parte do todo.
Sinto tua presença quando aqueces meu corpo que treme de frio.
É o teu calor!
Sinto teu cheiro, na brisa que passa.
Sei que me olhas, quando vejo o brilho mais ousado de uma estrela a
piscar.
Quando vem o vento, sinto teus lábios a tocar de leve os meus.
Ao caminhar na chuva, sinto tuas lágrimas saudosas.
Já o trovão, é o teu grito!
Por saber que tuas lágrimas traduzem uma saudade feliz.
Eu fico feliz, pois não me esqueceste, faço parte de ti, estou na tua
lembrança.
Saio da terra molhada e vou ao país dos sonhos.
Lá, eu te encontro nos tocamos e contemplamos o universo até a
alvorada.
Não percebemos, mas amanheceu!
Tu me acordas com tua ousadia de adolescente.
Banhas meu quarto com teus olhos invisíveis.
Bom dia amor!
Felicidades!
866
Ivan Sarney da Costa
Vozes da Noite
Apagaram-se as luzes da cidade.
Longa e densa se compôs a noite.
Onde está o homem de ontem?
O verdureiro, o vendedor de carvão?
Anônimos polichinelos das ruas,
Alegria de todas as manhãs.
(A noite os consumiu no tempo.)
Os sepultou no tempo.
Laje fria de horror e mistério
Sobre os risos efêmeros da vida.
Há pouco piou uma rasga-mortalha.
— Sinal de agouro. Diria meu avô.
No entanto, o vôo da rasga-mortalha
É a única esperança dentro da noite.
Há sonhos aqui de amores reprimidos,
Acenos de mãos desencontradas,
Vozes caladas, corações ausentes,
Um peito só que quer conter o mundo.
De que me vale, às vezes, fazer versos
Se meus versos são cheios de egoísmo
E não tocam a boca do homem da rua,
Não cantam o desespero, nem são armas de combate?
Farei um grande e verdadeiro poema,
Com lágrimas, suor e revolta, um dia.
Poderia sair para olhar as estrelas.
Que esforço esse das estrelas.
Para brilharem na escuridão da noite!
Que esforço o da alma para suportar o corpo!
O corpo mergulha na materialidade.
A alma quer éter divinizado.
Não haverá corpo, nem sofrimento amanhã.
Haverá espaço vazio, recordações de rumos palmilhados,
Lembranças perdidas, amargura e solidão. Nada mais.
Como eu queria ouvir agora um grilo,
o alegre diálogo dos sapos,
E ver luzir a luz dos vagalumes,
Pontilhando de luz noite escura.
Como eu queria que estivesse aqui,
Branda, alegre, pueril, brilhante,
Como um bando mágico de inocentes vagalumes.
Longa e densa se compôs a noite.
Onde está o homem de ontem?
O verdureiro, o vendedor de carvão?
Anônimos polichinelos das ruas,
Alegria de todas as manhãs.
(A noite os consumiu no tempo.)
Os sepultou no tempo.
Laje fria de horror e mistério
Sobre os risos efêmeros da vida.
Há pouco piou uma rasga-mortalha.
— Sinal de agouro. Diria meu avô.
No entanto, o vôo da rasga-mortalha
É a única esperança dentro da noite.
Há sonhos aqui de amores reprimidos,
Acenos de mãos desencontradas,
Vozes caladas, corações ausentes,
Um peito só que quer conter o mundo.
De que me vale, às vezes, fazer versos
Se meus versos são cheios de egoísmo
E não tocam a boca do homem da rua,
Não cantam o desespero, nem são armas de combate?
Farei um grande e verdadeiro poema,
Com lágrimas, suor e revolta, um dia.
Poderia sair para olhar as estrelas.
Que esforço esse das estrelas.
Para brilharem na escuridão da noite!
Que esforço o da alma para suportar o corpo!
O corpo mergulha na materialidade.
A alma quer éter divinizado.
Não haverá corpo, nem sofrimento amanhã.
Haverá espaço vazio, recordações de rumos palmilhados,
Lembranças perdidas, amargura e solidão. Nada mais.
Como eu queria ouvir agora um grilo,
o alegre diálogo dos sapos,
E ver luzir a luz dos vagalumes,
Pontilhando de luz noite escura.
Como eu queria que estivesse aqui,
Branda, alegre, pueril, brilhante,
Como um bando mágico de inocentes vagalumes.
907
Adélia Prado
Nossa Senhora Dos Prazeres
No que se pode chamar de rua,
em cores vivas, casas geminadas,
um esgoto de cozinha a céu aberto,
a água de sabão meio azulada,
muitas galinhas
e um galo formoso arreliando.
Se soubesse pintar informaria
de um verde quebradiço, as hortaliças
e pequenas coisas douradas esvoaçantes,
luz entre ramagens.
A igreja está fechada.
Não tendo mais o que fazer
a não ser esperar
que uma certa galinha vire meu almoço,
minha reza é deitar na pedra quente,
satisfeita e feliz como lagartixa no sol.
em cores vivas, casas geminadas,
um esgoto de cozinha a céu aberto,
a água de sabão meio azulada,
muitas galinhas
e um galo formoso arreliando.
Se soubesse pintar informaria
de um verde quebradiço, as hortaliças
e pequenas coisas douradas esvoaçantes,
luz entre ramagens.
A igreja está fechada.
Não tendo mais o que fazer
a não ser esperar
que uma certa galinha vire meu almoço,
minha reza é deitar na pedra quente,
satisfeita e feliz como lagartixa no sol.
726
Adélia Prado
O Pai
Deus não fala comigo
nem uma palavrinha das que sussurra aos santos.
Sabe que tenho medo e, se o fizesse,
como um aborígine coberto de amuletos
sacrificaria aos estalidos da mata;
não me tirasse a vida um tal terror.
A seus afagos não sei como agradecer,
beija-flor que entra na tenda,
flor que sob meus olhos desabrocha,
três rolinhas imóveis sobre o muro
e uma alegria súbita,
gozo no espírito estremecendo a carne.
Mesmo depois de velha me trata como filhinha.
De tempestades, só mostra o começo e o fim.
nem uma palavrinha das que sussurra aos santos.
Sabe que tenho medo e, se o fizesse,
como um aborígine coberto de amuletos
sacrificaria aos estalidos da mata;
não me tirasse a vida um tal terror.
A seus afagos não sei como agradecer,
beija-flor que entra na tenda,
flor que sob meus olhos desabrocha,
três rolinhas imóveis sobre o muro
e uma alegria súbita,
gozo no espírito estremecendo a carne.
Mesmo depois de velha me trata como filhinha.
De tempestades, só mostra o começo e o fim.
2 045
Adélia Prado
Do Verbo Divino
Três aves juntas limpam-se as penas
e param imóveis
no mesmo instante em que intento dizer-me
da perfeita alegria.
Ninguém acreditará,
me empenho em fechar os termos
desta escritura difícil
e estão lá as três,
estáticas como a Trindade Santíssima.
Faz tempo que estou aqui
com medo de levantar-me
e descosturar o inconsútil.
Mudam de galho as três,
uma licença pra eu também me mover
e escapar como as rolas
da perfeição de ser.
e param imóveis
no mesmo instante em que intento dizer-me
da perfeita alegria.
Ninguém acreditará,
me empenho em fechar os termos
desta escritura difícil
e estão lá as três,
estáticas como a Trindade Santíssima.
Faz tempo que estou aqui
com medo de levantar-me
e descosturar o inconsútil.
Mudam de galho as três,
uma licença pra eu também me mover
e escapar como as rolas
da perfeição de ser.
1 187
Carlos Gondim
As Cimbúlias
Irrequietas, à flor das ondas, em cardumes,
Ora róseas, abrindo as asas, ora azúleas,
Vogam na espuma argêntea, em seus radiosos lumes,
Como efêmeros sóis, errantes, as Cimbúlias,
Centenares, ao léu das vagas em cerúleas
Conchas, de burgalhões e remotos negrumes
Surgem, bailando ao som de misteriosas dúlias,
Haurindo à equórea planta os estranhos perfumes.
Loucas, no amplo lençol das águas espumantes,
Brincam: - e é todo o mar refúlgida Golconda
De topázios, rubis, safiras e diamantes ...
E, volúveis, ruflando as asas sobre as vagas,
Em farândola ideal, elas vão de onda em onda:
— Borboletas do oceano, adormecer nas fragas.
(Ânsia Revel 1929)
Ora róseas, abrindo as asas, ora azúleas,
Vogam na espuma argêntea, em seus radiosos lumes,
Como efêmeros sóis, errantes, as Cimbúlias,
Centenares, ao léu das vagas em cerúleas
Conchas, de burgalhões e remotos negrumes
Surgem, bailando ao som de misteriosas dúlias,
Haurindo à equórea planta os estranhos perfumes.
Loucas, no amplo lençol das águas espumantes,
Brincam: - e é todo o mar refúlgida Golconda
De topázios, rubis, safiras e diamantes ...
E, volúveis, ruflando as asas sobre as vagas,
Em farândola ideal, elas vão de onda em onda:
— Borboletas do oceano, adormecer nas fragas.
(Ânsia Revel 1929)
951
Florbela Espanca
Há de ser luz do sol em tardes quentes
Há de ser luz do sol em tardes quentes,
Nos olhos de água clara há de trazer
As fúlgidas pupilas das videntes!
<Há de ser seiva no botão repleto
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfuna as velas sobre os mastros!...
<Há de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!
Nos olhos de água clara há de trazer
As fúlgidas pupilas das videntes!
<Há de ser seiva no botão repleto
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfuna as velas sobre os mastros!...
<Há de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!
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