Poemas neste tema
Animais e Natureza
Mário Del Rey
Outono
Esboço do mar
nas gotas de orvalho
ondas secretas
Passam as nuvens
o outono suspira
pelos pinheiros
nas gotas de orvalho
ondas secretas
Passam as nuvens
o outono suspira
pelos pinheiros
1 003
António Osório
Haicai
Corte
Crepitou o fogo
E rubro cortou o vôo
da Fidalga palmeira.
Viagem
Pássaro a voar
Na manhã recém-nascida
Rumo à canção.
Crepitou o fogo
E rubro cortou o vôo
da Fidalga palmeira.
Viagem
Pássaro a voar
Na manhã recém-nascida
Rumo à canção.
1 313
Mário Del Rey
Verão
Asas ao vento
campos de um só verde
pódios de pardais
Um aguaceiro
noite de relâmpagos
ideogramas
campos de um só verde
pódios de pardais
Um aguaceiro
noite de relâmpagos
ideogramas
1 045
Lêdo Ivo
Os Peixes
Os peixes estão no lago, os dardos escondidos.
Entre as pedras e o lodo eles avançam
túrgidos como o amor.
Venha a mão do desejo turvar a água clara
e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas
nupciais,
as espadas cobertas de saliva.
Entre as pedras e o lodo eles avançam
túrgidos como o amor.
Venha a mão do desejo turvar a água clara
e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas
nupciais,
as espadas cobertas de saliva.
1 639
Gláucia Lemos
Reencontro
Foi com asas que veio. Mas com asas
da incerteza encravadas nos espinhos.
Qual pássaro qualquer por sobre casas,
pelos telhados, por desfeitos ninhos.
E pousou frente a mim. Eram lilases
- do tom dos tristes nos seus descaminhos -
suas asas de silêncio. Tantas frases
embrulhadas no medo dos sozinhos.
Foi assim como pássaro ferido
que me buscou. Eram - não sei - de vidro
ou eram de susto os olhos que mostrou .
Pousou uma vez mais no meu vestido.
Trouxe um gorjeio novo a meu ouvido.
Foi assim que o guardei. E ele ficou.
06.07.96
da incerteza encravadas nos espinhos.
Qual pássaro qualquer por sobre casas,
pelos telhados, por desfeitos ninhos.
E pousou frente a mim. Eram lilases
- do tom dos tristes nos seus descaminhos -
suas asas de silêncio. Tantas frases
embrulhadas no medo dos sozinhos.
Foi assim como pássaro ferido
que me buscou. Eram - não sei - de vidro
ou eram de susto os olhos que mostrou .
Pousou uma vez mais no meu vestido.
Trouxe um gorjeio novo a meu ouvido.
Foi assim que o guardei. E ele ficou.
06.07.96
1 186
Lêdo Ivo
Advertência a um Gavião
O gavião sobrevoa
a plantação de tomate.
Meu irmão gavião,
eu não aceito a morte.
Na partilha do mundo
não estarei ao teu lado.
Jamais admitirei
a usurparão do dia.
Só sei enfileirar-me
no cortejo da vida.
Meu caminho me leva
a floresta onde fluem
as fontes escondidas.
Mesmo longe adivinho
uma árvore que tenha
frescor de fruto ou ninho.
Gavião! Gavião!
embaixador do não,
o céu não pode ser
sepultura de pássaros.
a plantação de tomate.
Meu irmão gavião,
eu não aceito a morte.
Na partilha do mundo
não estarei ao teu lado.
Jamais admitirei
a usurparão do dia.
Só sei enfileirar-me
no cortejo da vida.
Meu caminho me leva
a floresta onde fluem
as fontes escondidas.
Mesmo longe adivinho
uma árvore que tenha
frescor de fruto ou ninho.
Gavião! Gavião!
embaixador do não,
o céu não pode ser
sepultura de pássaros.
1 015
Jorge Lescano
Primavera
Estação das flores.
Nem a chuva afasta os gatos
do meu quintal.
Nem a chuva afasta os gatos
do meu quintal.
957
Angela Santos
Vaga-lume
Se
um vaga-lume
no seu bater de asas de seda
chegasse junto da tua janela
e nesse som imperceptível que notasses
te dissesse:
Amor aqui me tens, Vaga-lume feita
adornando a tua noite cortando o silencio
com meu leve bater de asas
olhando a clara luz que me vem de ti
me atrai, cega e extenua
quando perdida na luz do meu rodopiar constante
sou vaga-lume na noite
vaga-lume, feita amante.
um vaga-lume
no seu bater de asas de seda
chegasse junto da tua janela
e nesse som imperceptível que notasses
te dissesse:
Amor aqui me tens, Vaga-lume feita
adornando a tua noite cortando o silencio
com meu leve bater de asas
olhando a clara luz que me vem de ti
me atrai, cega e extenua
quando perdida na luz do meu rodopiar constante
sou vaga-lume na noite
vaga-lume, feita amante.
1 138
Angela Santos
Subtileza
Num
gesto subtil
ao olhar de quem passa
desenho um sussurro em minha boca
que só tu entendes
Nos meus olhos desenhado
há um pássaro
silenciosamente namorado
o que nos teus vejo pousado
E num ritual antigo
nossa dança de amor
enche o ar
com esse canto silencioso
Mulher pássaro
aninhada nos meus olhos
mulher amante
minha sede, minha fonte
minha doce prisão
em ti vejo o lugar
onde cresce sem freios
a minha liberdade
E dos nossos olhos salta para o azul
esse voo de pássaro no afã da busca
de um lugar qualquer
que seja só nosso.
gesto subtil
ao olhar de quem passa
desenho um sussurro em minha boca
que só tu entendes
Nos meus olhos desenhado
há um pássaro
silenciosamente namorado
o que nos teus vejo pousado
E num ritual antigo
nossa dança de amor
enche o ar
com esse canto silencioso
Mulher pássaro
aninhada nos meus olhos
mulher amante
minha sede, minha fonte
minha doce prisão
em ti vejo o lugar
onde cresce sem freios
a minha liberdade
E dos nossos olhos salta para o azul
esse voo de pássaro no afã da busca
de um lugar qualquer
que seja só nosso.
991
Jorge Lescano
Outono
Brisa de abril.
No ar se misturam
folhas e pardais.
No ar se misturam
folhas e pardais.
1 059
Jorge Lescano
Inverno
Ao amanhecer
grita o quero-quero
sobre a geada.
A mulher abraça
a garrafa de cachaça.
Miserável casaco.
grita o quero-quero
sobre a geada.
A mulher abraça
a garrafa de cachaça.
Miserável casaco.
1 007
Anselmo Gonçalves
O Sangue da Terra é a Chuva
Ao Zé é o fim, vai-lhe faltando a crençae faz desfeita dura ao Padinciço:- Padim, cumé, vois tendi a disavençacum nóis caboco? Para já cum isso!...
Não chove há muito tempo, falta a águae falta tudo, falta o pranto até.Falta a farinha seca e sobra a mágoa,moça donzela foi-se ao mundo e a pé.
Morrendo o gado pelo pasto mortoos "avoantes" nisto, vão-se embora,o pau na caatinga está mais torto.
Matuto sábio bem curtindo a "uva"filosofando e claro e sem demora,- A terra não tem sangue, farta a chuva!
Não chove há muito tempo, falta a águae falta tudo, falta o pranto até.Falta a farinha seca e sobra a mágoa,moça donzela foi-se ao mundo e a pé.
Morrendo o gado pelo pasto mortoos "avoantes" nisto, vão-se embora,o pau na caatinga está mais torto.
Matuto sábio bem curtindo a "uva"filosofando e claro e sem demora,- A terra não tem sangue, farta a chuva!
896
Nuno Júdice
Enigma ornitológico
Um pássaro entrou numa nuvem.
Uma nuvem entrou num pássaro.
"Qual a verdade?", perguntou
o homem. "Está no pássaro? Ou
está numa nuvem?" E enquanto
o homem procurava a resposta,
o pássaro saiu da nuvem, fazendo
com que a verdade saísse do homem.
Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
Uma nuvem entrou num pássaro.
"Qual a verdade?", perguntou
o homem. "Está no pássaro? Ou
está numa nuvem?" E enquanto
o homem procurava a resposta,
o pássaro saiu da nuvem, fazendo
com que a verdade saísse do homem.
Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
1 332
Nuno Júdice
Zoologia: o porco
O porco vive como os homens
na caverna de Platão: o seu mundo
é o mundo das sombras.
Quando olha para o chão,
vê o paraíso; quando olha para o céu, está
com a faca na garganta.
Mas o porco também sonha que
tem asas como um anjo, e que a sua pocilga
fica nas nuvens.
Nos seus sonhos, deus guincha
como um porco, e a árvore do paraíso
está cheia de bolotas.
Por isso o porco não tira o focinho
da terra, em busca de uma abertura
para o céu.
Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
na caverna de Platão: o seu mundo
é o mundo das sombras.
Quando olha para o chão,
vê o paraíso; quando olha para o céu, está
com a faca na garganta.
Mas o porco também sonha que
tem asas como um anjo, e que a sua pocilga
fica nas nuvens.
Nos seus sonhos, deus guincha
como um porco, e a árvore do paraíso
está cheia de bolotas.
Por isso o porco não tira o focinho
da terra, em busca de uma abertura
para o céu.
Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
1 628
Ricardo Akira Kokado
Verão
Dama-da-noite
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
1 119
Ricardo Akira Kokado
Inverno
Neste imenso azul
nenhuma nuvem no céu
somente urubus
nenhuma nuvem no céu
somente urubus
861
António Maria Lisboa
Comutador
Ergo-me de ti no zimbório
de folhas na penedia do castelo medieval
de limos na umidade da praia
de cristais entre os rochedos do Cabo Horn
Caminho de gelo na floresta
de sôfrego na vastidão do deserto
de louco na brancura do hospício
Eu abismo, eu cratera
inclinei-me e vi um espetáculo caprichoso: uma unha branca
uma unha branca a viver assim despreocupada
OGIVA-BORBOLETA
Arco-de-Cor caldo muito triste
Casulo de quem ninguém falou
Teia-de-Aranha exposta à loucura e ao tempo
Andorinha-Azul de chapéu mole e baratas na cama
VENTOINHA.
de folhas na penedia do castelo medieval
de limos na umidade da praia
de cristais entre os rochedos do Cabo Horn
Caminho de gelo na floresta
de sôfrego na vastidão do deserto
de louco na brancura do hospício
Eu abismo, eu cratera
inclinei-me e vi um espetáculo caprichoso: uma unha branca
uma unha branca a viver assim despreocupada
OGIVA-BORBOLETA
Arco-de-Cor caldo muito triste
Casulo de quem ninguém falou
Teia-de-Aranha exposta à loucura e ao tempo
Andorinha-Azul de chapéu mole e baratas na cama
VENTOINHA.
1 806
Carlos Nejar
Canga
Jesualdo Monte, não és homem.
És um burro
carregado de ossos;
as palavras, insetos,
volteiam-te a garupa;
até a carne é hostil
sob a carcaça
e o presságio dos seres
te enternece.
Não te movem as fendas,
nem as urzes,
nem o jogo de vozes,
o repouso das tardes
e as vigas
que desceram ao rio
no teu lombo.
O mundo te apertou com sua cincha
e tudo em ti
transpõe o desespero,
desapegando patas e raízes.
É esta a condição de não ser homem:
dormir, placidamente, sem remorsos,
no curral dos mortos.
É esta a condição de não ser homem:
ruminar o assombro, junto ao feno,
receber o milagre sem transtorno,
seguindo sempre, onde manda o dono.
É esta a condição de não ser homem:
lanhado o casco por chicote lesto,
zurrar, apenas, mastigando o freio.
É esta a condição de não ser homem.
Publicado no livro Canga: Jesualdo Monte (1971). Poema integrante da série Arrevesso.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.345-346. (Poiesis
És um burro
carregado de ossos;
as palavras, insetos,
volteiam-te a garupa;
até a carne é hostil
sob a carcaça
e o presságio dos seres
te enternece.
Não te movem as fendas,
nem as urzes,
nem o jogo de vozes,
o repouso das tardes
e as vigas
que desceram ao rio
no teu lombo.
O mundo te apertou com sua cincha
e tudo em ti
transpõe o desespero,
desapegando patas e raízes.
É esta a condição de não ser homem:
dormir, placidamente, sem remorsos,
no curral dos mortos.
É esta a condição de não ser homem:
ruminar o assombro, junto ao feno,
receber o milagre sem transtorno,
seguindo sempre, onde manda o dono.
É esta a condição de não ser homem:
lanhado o casco por chicote lesto,
zurrar, apenas, mastigando o freio.
É esta a condição de não ser homem.
Publicado no livro Canga: Jesualdo Monte (1971). Poema integrante da série Arrevesso.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.345-346. (Poiesis
1 591
Sosigenes Costa
Brasília
A mãe do mato
é a mãe das flores
é a mãe das frutas do mato.
A mãe do mato
é a mãe do peixe especial e gostoso
feito em leite de coco.
Só o peixe do mar de Santa Cruz
é bom.
Ela é a mãe da farinha
que vem da roça na muqueca.
Ela é a mãe da farinha puba
da farinha tinga
e da farinha tapioca.
A mãe do mato
é a mãe dos passeios ao campo
da mangaba, da gramixama
e da mixacurumba.
Só mesmo o cágado da história
pode esquecer
esta delícia dos galhos do mato:
a onomatopéia da mixacurumba.
Mãe do mato
só toma banho nesta cuia do mato
cheia de água de um braço quente
e de um braço frio,
água quente que vem da praia
e a água fria
que vem por debaixo do mato.
A mãe da poesia da terra,
mãe das coisas puras
e naturais da vida,
essa mãe do mato
é a minha mãe.
(1957)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
é a mãe das flores
é a mãe das frutas do mato.
A mãe do mato
é a mãe do peixe especial e gostoso
feito em leite de coco.
Só o peixe do mar de Santa Cruz
é bom.
Ela é a mãe da farinha
que vem da roça na muqueca.
Ela é a mãe da farinha puba
da farinha tinga
e da farinha tapioca.
A mãe do mato
é a mãe dos passeios ao campo
da mangaba, da gramixama
e da mixacurumba.
Só mesmo o cágado da história
pode esquecer
esta delícia dos galhos do mato:
a onomatopéia da mixacurumba.
Mãe do mato
só toma banho nesta cuia do mato
cheia de água de um braço quente
e de um braço frio,
água quente que vem da praia
e a água fria
que vem por debaixo do mato.
A mãe da poesia da terra,
mãe das coisas puras
e naturais da vida,
essa mãe do mato
é a minha mãe.
(1957)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 264
Sosigenes Costa
Chuva de Ouro
As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 710
Jaumir Valença da Silveira
Iniciação
Diz-se que, quando menino,
Cristo brincava num vale,
moldando, em estátuas de argila,
as silhuetas das aves.
Era uma tarde de sábado.
O sol dourava as lembranças
mesclando ao frescor das águas
contornos da sua imagem.
Junto da argila molhada
colhida às margens do rio,
pingava o suor de uma fronte
crispada, tranqüila, estante,
como se o mundo parasse
- e há vezes que mesmo pára -
por doze estátuas de pó
que a gênese não contava.
Seu pai de carne esperava
cuidado com seus deveres.
Seu Pai, do Alto, esperava
que o seu fado se cumprisse.
Bem que o pequeno sabia
que o tempo ali era parco
e que furtar os segundos
era entregar-se de triste.
E não foi mais que um suspiro
amalgamado a um sorriso
que, ao levantar-se da terra,
deixou revelar o Cristo.
Mas já de costas pro rio,
criança que ainda era,
chorava que nem criança,
embora engolisse as águas.
E quando já caminhava,
tornou a fitar a margem,
dizendo, com o olhar perdido:
"Haveis de sofrer comigo".
E os passarinhos se foram,
sumindo à vista do vale.
Exceto por um que, antes,
suave, bicou sua face.
Cristo brincava num vale,
moldando, em estátuas de argila,
as silhuetas das aves.
Era uma tarde de sábado.
O sol dourava as lembranças
mesclando ao frescor das águas
contornos da sua imagem.
Junto da argila molhada
colhida às margens do rio,
pingava o suor de uma fronte
crispada, tranqüila, estante,
como se o mundo parasse
- e há vezes que mesmo pára -
por doze estátuas de pó
que a gênese não contava.
Seu pai de carne esperava
cuidado com seus deveres.
Seu Pai, do Alto, esperava
que o seu fado se cumprisse.
Bem que o pequeno sabia
que o tempo ali era parco
e que furtar os segundos
era entregar-se de triste.
E não foi mais que um suspiro
amalgamado a um sorriso
que, ao levantar-se da terra,
deixou revelar o Cristo.
Mas já de costas pro rio,
criança que ainda era,
chorava que nem criança,
embora engolisse as águas.
E quando já caminhava,
tornou a fitar a margem,
dizendo, com o olhar perdido:
"Haveis de sofrer comigo".
E os passarinhos se foram,
sumindo à vista do vale.
Exceto por um que, antes,
suave, bicou sua face.
933
Sosigenes Costa
A Chuva Vem Cair na Ingauíra
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 236
Lêdo Ivo
De teef
Aangeirokken door de geur van bloed uit haar ingewanden
volgen de honden de bronstige teci als vormden ze de hofstoet
van cen zwarte koningin. En ze besnuffeien haar met een een
obsceen bewegen
dat wij misschien liefde zouderi moeten noemen.
De teef wendt voor dat de belagers haar vervelen
en verlokt ai weigerend, ais veelgevraagde vrouwen.
Een penetrante lucht van leven begeleidt haar
tussen de twee zonnen die het verstrijken van de dag begrenzen.
‘s Avonds, wanneer ze wordt opgesloten in de schuur,
blijven de honden buiten, ontroostbaar en trouw.
En hun huilen in het duister leert ons
dat liefde een nutteloze passie is, een gesloten deur.
A cadela Poema em Português
volgen de honden de bronstige teci als vormden ze de hofstoet
van cen zwarte koningin. En ze besnuffeien haar met een een
obsceen bewegen
dat wij misschien liefde zouderi moeten noemen.
De teef wendt voor dat de belagers haar vervelen
en verlokt ai weigerend, ais veelgevraagde vrouwen.
Een penetrante lucht van leven begeleidt haar
tussen de twee zonnen die het verstrijken van de dag begrenzen.
‘s Avonds, wanneer ze wordt opgesloten in de schuur,
blijven de honden buiten, ontroostbaar en trouw.
En hun huilen in het duister leert ons
dat liefde een nutteloze passie is, een gesloten deur.
A cadela Poema em Português
1 176
Sosigenes Costa
V [Lagartixa taruíra
(...)
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A mãe dágua da Ingauíra
lá na beira do barranco
pariu hoje uma menina
com cabelinho de branco
e zoinho de xexéu
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
onde tem a flor do céu.
A filhinha da mãe-dágua
vai ficar araçuaba.
É tão branca que parece
lagartixa descascada.
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A filhinha da mãe-dágua
assim que nasceu no toco,
no toco do pau sentou.
A menina da mãe-dágua
come papa de banana
e também de fruta-pão
que sequei no tabuleiro
que ralei naquele ralo
que pisei no meu pilão.
(...)
A mãe-dágua da Ingauíra
fez sapato e babadô.
E a mãe-dágua lá do Pardo
que é princesa do Patipe
veio pelo Poaçu
partejar aquela flor
e aparou Iararana
cortou o imbigo, deu banho
e deu maná à menina
e enterrou ali na areia
os panos sujos de sangue
de sua prima sereia.
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
A filhinha da mãe-dágua
tem berloque na cintura
e se senta no barranco
com o rabo dependurado.
Ela é filha de uma iara
e se chama Iararana
pois não puxou à sereia
puxou todinha o pai
aquele cavalo branco.
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
Isto não é lagartixa
isto é arte do diabo.
Taruíra venha ver
sua irmã lá no barranco.
(...)
In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A mãe dágua da Ingauíra
lá na beira do barranco
pariu hoje uma menina
com cabelinho de branco
e zoinho de xexéu
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
onde tem a flor do céu.
A filhinha da mãe-dágua
vai ficar araçuaba.
É tão branca que parece
lagartixa descascada.
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A filhinha da mãe-dágua
assim que nasceu no toco,
no toco do pau sentou.
A menina da mãe-dágua
come papa de banana
e também de fruta-pão
que sequei no tabuleiro
que ralei naquele ralo
que pisei no meu pilão.
(...)
A mãe-dágua da Ingauíra
fez sapato e babadô.
E a mãe-dágua lá do Pardo
que é princesa do Patipe
veio pelo Poaçu
partejar aquela flor
e aparou Iararana
cortou o imbigo, deu banho
e deu maná à menina
e enterrou ali na areia
os panos sujos de sangue
de sua prima sereia.
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
A filhinha da mãe-dágua
tem berloque na cintura
e se senta no barranco
com o rabo dependurado.
Ela é filha de uma iara
e se chama Iararana
pois não puxou à sereia
puxou todinha o pai
aquele cavalo branco.
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
Isto não é lagartixa
isto é arte do diabo.
Taruíra venha ver
sua irmã lá no barranco.
(...)
In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
1 459