Poemas neste tema

Animais e Natureza

Ronald de Carvalho

Ronald de Carvalho

Écloga Tropical

Entre a chuva de ouro das carambolas
e o veludo polido das jabuticabas,
sobre o gramado morno,
onde voam borboletas e besouros,
sobre o gramado lustroso
onde pulam gafanhotos de asas verdes e vermelhas,

Salta uma ronda de crianças!
O ar é todo perfume,
perfume tépido de ervas, raízes e folhagens.

O ar cheira a mel de abelhas...

E há nos olhos castanhos das crianças
a doçura e o travor das resinas selvagens,
e há nas suas vozes agudas e dissonantes
um áureo rumor de flautas, de trilos, de zumbidos
e de águas buliçosas...


Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).

In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.167. (Manancial, 44
2 339
Angela Santos

Angela Santos

Casual

É
noite
uma casa ao longe,
pequenos olhos acesos
favos de gesso suspensos
na vertical

Azulejo púrpura
telhado de uniforme
laranja

E aqui tão perto
o miar de um felino…
fome ou cio?

1 110
Augusto de Campos

Augusto de Campos

Rodeio

De repente
estruge ao lado um
estrídulo tropel de cascos sobre pedras,
um
estrépito de galhos estralando,
tufa nos ares, em novelos,
uma nuvem de pó;
rompe, a súbitas, na clareira,
embolada,
uma ponta de gado e logo após,
sobre o cavalo que estaca esbarrado,
o vaqueiro,
teso nos estribos...

1 363
Antonio Fernando De Franceschi

Antonio Fernando De Franceschi

Serpente

cauda e dente
inteira
se morde
a serpente
lenta se devora
ao norte
funda se engole
ao sul
e nada sobra
de uma e outra
a que come
e a comida
mais que a mesma
ancestral serpente
e a infinda fome
que a devasta
e nem morta
de si mesma
se sacia

In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Silva Rerum
1 556
Menotti del Picchia

Menotti del Picchia

Germinal - 1

Nuvens voam pelo ar como bandos de garças.
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro apruma-se a bandeira
de S. João desfraldando o seu alvo losango.
Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.

Vem na tarde que expira e na voz de um curiango
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.

Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.

No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e num magote escuro a manada se abisma
na treva.
Anoiteceu.
Juca Mulato cisma.


Publicado no livro Juca Mulato (1917).

In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.17. (Prestígio
1 622
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Boi para Guilhermino

"O boi de março e sua baba"
Guilhermino César

O boi sabe da baba que escorre, sabe
da vida inútil que erra e em si não cabe.

O boi sabe pisar a terra como quem flutua
entre o remorso alheio e a campa nua.

O boi sabe do peso do seu casco errante
e do lago perdido num olhar distante.

O boi sabe, amoroso, raspar o chão
e ruminar na mesma palha sonho e coração.

O boi sabe esperar paciente o que não vem
e mesmo que viesse já viria sem.

O boi sabe, afinal, que a baba escorre
e fica, e em volta o dia (como tudo) morre.

Mais não sabe o boi e nem saber precisa.
Já lhe basta a afagar o dorso a mansa brisa.


In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
915
Cora Coralina

Cora Coralina

Trem de Gado

E as boiadas vêm descendo do sertão!
Safra, entressafra...
Mato Grosso. Minas. Goiás.
Caminhos recruzados. Pousos espalhados.
Estradas boiadeiras. Aguada...
Pastos e gerais.
Cerrados. Cerradões.
Compáscuos...
Cercados. Aramados.
Corredores.
Nhecolândia. Pantanal.
Cochim.
Campos de Vacaria. Dourados. Maracaju.
Rio Verde.
Santana do Paranaíba. Serras do Amambaí.
Criatório...
Boiadeiros. Fazendeiros.
Comissários. Criadores.
Invernistas. Recria.
Trem de gado ronceiro...
jogando, gingando
nos cilindros, nos pistões, nas bielas e nos truques.
Rangendo, chocalhando,
estrondando nas ferragens.

(...)


In: CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Prefácio de J. B. Martins Ramos. Apresentação de Oswaldino Marques, Lena Castello Branco Ferreira Costa e Silvia Alessandri Monteiro de Castro. 16. ed. São Paulo: Global, 199
4 099
Luís Represas

Luís Represas

Pedra no charco

Caiu uma pedra no charco,
caiu um penedo no rio,
caiu mais um cabo da boa esperança no mar,
prá gente se agarrar.

Deixámos de ver as nuvens
que nos tapavam o céu,
pudemos sentir de perto a meiguice do tempo
onde a gente se escondeu.

É que hoje
nasceu mais um dia.
É que hoje
nasceu mais alguém.
É que hoje
nasceu um poeta na serra com a estrela da manhã.

Foi quando os lobos uivaram,
foi quando o lince miou,
as ovelhas não tinham fome
e a alcateia repousou.

E entre os uivos e os miados
o poeta abriu o choro.
E entre os vales e os cabeços,
cavalgando uma alcateia
o poema deslizou.

1 200
Juó Bananére

Juó Bananére

As Pombigna

P'ru aviadore chi pigó o tombo

Vai a primiéra pombigna dispertada,
I maise otra vai disposa da primiéra;
I otra maise, i maise otra, i assi dista maniera,
Vai s'imbora tutta pombarada.

Pássano fóra o dí i a tardi intêra,
Catáno as formiguigna ingoppa a strada;
Ma quano vê a notte indisgraziada,
Vorta tuttos in bandos, in filêra.

Assi tambê o Cicero avua,
Sobí nu spaço, molto alê da lua,
Fica piqueno uguali d'un sabiá.

Ma tuttos dia avua, allegre, os pombo!...
Inveis chi o Muque, desdi aquilio tombo,
Nunga maise quiz sabe di avuá.


In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966

NOTA: Paródia do soneto "As Pombas", do livro SINFONIAS (1883), de Raimundo Correi
2 830
Marcus Accioly

Marcus Accioly

Os Bichos

O Jumento

I — Pestanas de nuvens no olhão do sol vivo
Um céu de dragões entre espadas vermelhas
As folhas de abano das grandes orelhas
Os cascos rachados no solo exaustivo
A seca o nordeste o oceano arbustivo
O poço das águas que a sede descobre
Os ossos debaixo dos pêlos de cobre
A sempre-odisséia do audaz-andarilho
O pasto de areia e sabugo de milho
E o zurro-relógio do horário de pobre.


Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.

In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.65. (Tempoesia, 18)

NOTA: Poema composto de 8 décimas, cada uma dedicada a um animal: A Onça, O Boi, O Cavalo, O Jumento, O Carneiro, A Cabra, A Cobra e O Cachorr
1 801
Marcus Accioly

Marcus Accioly

A Terra

O Sertão

A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.

E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.

Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.

Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.

E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.


Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.

In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)

NOTA: Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas elas compostas de 5 quadra
3 136
Marcus Accioly

Marcus Accioly

21 [Quase uma cobra com pés

Quase uma cobra com pés
ao lixar-se a lagartixa
largando o rabo do corpo
se tornava a Larga-Lixa.


In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.15. (Série trava língua
1 257
Marcus Accioly

Marcus Accioly

LXXIX - Do Meio-Termo

Cortador de cana,
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.

Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.

Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.

Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.

Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.

Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.


In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
1 452
Marcus Accioly

Marcus Accioly

4 [Antes de pintar as pintas

Antes de pintar as pintas
o animal-rei Leopardo
tendo juba pardacenta
se dizia o Leão-Pardo.


In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.7. (Série trava língua
1 412
Antonio Roberval Miketen

Antonio Roberval Miketen

É Tarde para a Manhã

A Simone
Pobre pintinho indefeso,
encostado na lata de lixo,
na descontração de um casaco
de luxo, vindo de uma secreta
zibelina, mais fina
do que a pele humana.
No alto, as nuvens
acabam de tingir-se
no amarelo da tua maciez.
A tarde entardeceu na manhã.
Os teus olhinhos ainda abertos
queriam as minhas mãos
no dorso da tua penugem.
Queriam que eu ainda
fosse menino, menino
que oferecesse a minha inocência
só para a criança
que piava em ti.
Gentil era a tua mansidão,
debruçada sobre uma rosa rota,
pois descansavas a tua eternidade
sobre um buquê desprezado
por ser trazido de murcho.
Mas debaixo de ti
cada pétala ainda sangrava,
deixando uma mancha de vinho
no descanso do teu ventre.
Foi quando eu passei,
já estavas morto quando eu passei
enamorado pelo poente,
esquecido da manhã
que subia dos teus olhinhos.

808
Antonio Roberval Miketen

Antonio Roberval Miketen

Oportunidade da Rosa

I
O Canto de João Moura

O toureiro gritava do centro da arena
e o cavalo dançava do fundo do medo.

II

Picasso desejava pintar uma praça
de touros ao tamanho natural, exato,

com Miúras de picos de agulhas, talhadas
por sobre o luzidio de negras montanhas.

Nos painéis do pintor se avizinham agouros:
em Guernica pintou Ele o triunfo do touro?

Repara que as arenas são rosas humanas
prontas para romper-se na fúria do sangue.

Se o sonho de Picasso não fosse um absurdo,
Manolete, decerto, em seus trajes de luzes,

recordando Linares, se daria ao touro:
faria Ele, outra vez, a faena da rosa?

III

Por que pomos no touro a evidência da espera,
nesse pombo da sorte, inocente em ser fera?

IV

No momento em que o corpo se veste de luzes
o calor de mortalhas aumenta a nudez.

V
Tragédia de "YIYO"

Na mortal lacerada do cravo na carne
do toureiro brotava a beleza brutal.

VI

Verei o dia em que o touro terá sua sorte,
na flor do ventre falso de ousada verônica?

782
Yeda Prates Bernis

Yeda Prates Bernis

Hai-kais

Lavadeiras de beira-rio.
Nas águas, boiando,
cores e cantos.

Na poça dágua
o gato lambe
a gota de lua.

Pássaros em silêncio.
Noturna chave
tranca o dia.

Noite no jasmineiro.
Sobre o muro,
estrelas perfumadas.

Inúltil. A gaiola
nunca aprisiona
as penas do canto.

No porta-retrato
um tempo respira,
morto.

1 031
Antonio Roberval Miketen

Antonio Roberval Miketen

Oportunidad de la Rosa

I
El Canto de João Moura

EI torero gritaba del centro de la arena
y el caballo danzaba del fondo del miedo.

II
Picasso deseaba pintar una plaza
de toros del tamaño natural, exacto,

con Miuras de picos de agujas, talladas
por sobre la brillantez de negras montañas.

En los paneles del pintor se avecinan agüeros:
en Guernica pintó Él el triunfo dei toro?

Repara que las arenas son rosas humanas
listas para romperse en la furia de la sangre.

Si el sueño de Picasso no fuese un absurdo,
Manolete, con certeza, en su traje de luces,

recordando a Linares, se daría al toro:
haría Él, otra vez, la faena de la rosa?

III

Por qué ponemos en el toro la evidencia de la espera,
en ese palomo de la suerte, inocente en ser fiera?

IV

En el momento en que el cuerpo se viste de luces
el calor de las mortajas aumenta la desnudez.

V
Tragedia de "YIYO"

En la mortal lacerada del clavo en la carne
del torero brotaba la belleza brutal.

VI

Veré el día en que el toro tendrá su suerte,
en la flor del vientre falso de osada verónica?

840
Antonio Roberval Miketen

Antonio Roberval Miketen

Es Tarde para la Mañana

A Simone
Pobre pollito indefenso,
apoyado en la lata de basura,
en la descontracción de una chaqueta
de lujo, viniendo de una secreta
sibelina, más fina
que la piel humana.
En lo alto, las nubes
acaban de teñirse
en el amarillo de tu suavidad.
La tarde atardeció en la mañana.
Tus ojitos, todavia abiertos,
querían mis manos
en el dorso de tu plumón.
Querían que yo todavia
fuese niño, niño
que ofreciese mi inocencia
sólo para el niño
que piaba en ti.
Gentil era tu mansedumbre,
inclinada sobre una rosa rota,
pues descansabas tu eternidad
sobre un bouquet despreciado
por haberse marchitado.
Pero debajo de ti
cada pétalo todavía sangraba,
dejando una mancha de vino
en el descanso de tu vientre.
Fué cuando yo pasé,
ya estabas muerto cuando yo pasé
enamorado por el poniente,
olvidado de la mañana
que subía de tus ojitos.

626
Antonio Roberval Miketen

Antonio Roberval Miketen

It is Late to be Morning

For Simone
Poor little helpless baby chick,
leaning against the thrash can,
at ease in a coat of sheer luxury,
derived from a secret sable fur,
finer
than human skin.
High up, the clouds
are becoming the color
of the yellow of your softness.
The evening turned the morning late.
Your little eyes still open
want my hands
touching the back of your feathers.
They want me to be a small boy,
a small boy offering my innocence
to the little child that chirps inside you.
Sweet was your tameness
bent over a defeated rose,
while you rested your eternity
on a bouquet of roses, despised
because withered.
But under you each petal bleeded,
leaving a stain of wine
in the rniddle of your belly.
I then passed by,
you were already dead when I passed by
enamored of the sunset,
oblivious of the morning
that was rising in your little eyes.

922
Antonio Roberval Miketen

Antonio Roberval Miketen

Opportunioty of the Rose

I
The Song of João Moura

The bullfighter shouted in the center of the arena
and the horse danced in the depth of fear.

II

Picasso wanted to paint an arena,
full-sized, accurate,

with miuras with needle-sharp horns, carved
under the sleek black mountains.

On the canvas of the painter bad omens show:
in Guernica, did he paint the victory of the bull?

Consider that the arenas are human roses
ready to burst with the rage of the blood.

If Picassos dream were not so absurd,
Manolete, for sure, in his gala outfit

remembering Linares, would give himself to the bull:
would he repeat, once again, the faena of the rose?

III

Why do we trust the bull with the evidence of the wait,
on this chancy dove, innocent yet a beast?

IV

At the very moment when the body is dressed in gala
the heat of the shroud increases its nakednes.

V
Tragedy of "YIYO"

The mortal spike ripping the flesh
of the bullfighter makes sprout a brutal beauty.

VI
Will I see the day when the bull will find its luck
in the prime of the fake womb of the reckless veronica?

738
Zezé Pina

Zezé Pina

Haikais

chuva na praia
o céu beija o mar
– gaivota espera

neva lá fora
gato à lareira
silêncio na vila

velho castelo
menina à janela
sonho de infância

lágrimas na face
lenço nas mãos -
fim de romance

vida repensada
noite de insônia -
manhã cansada.

noite calada
uma loba uiva -
homem no cio.

1 068
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Na Minha Terra

Amo o vento da noite sussurrante
A tremer nos pinheiros
E a cantiga do pobre caminhante
No rancho dos tropeiros;

E os monótonos sons de uma viola
No tardio verão,
E a estrada que além se desenrola
No véu da escuridão;

A restinga dareia onde rebenta
O oceano a bramir,
Onde a lua na praia macilenta
Vem pálida luzir;

E a névoa e flores e o doce ar cheiroso
Do amanhecer na serra,
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra;

E o longo vale de florinhas cheio
E a névoa que desceu,
Como véu de donzela em branco seio,
Às estrelas do céu.

II

Não é mais bela, não, a argêntea praia
Que beija o mar do sul,
Onde eterno perfume a flor desmaia
E o céu é sempre azul;

Onde os serros fantásticos roxeiam
Nas tardes de verão
E os suspiros nos lábios incendeiam
E pulsa o coração!

Sonho da vida que doirou e azula
A fala dos amores,
Onde a mangueira ao vento que tremula
Sacode as brancas flores,

E é saudoso viver nessa dormência
Do lânguido sentir,
Nos enganos suaves da existência
Sentindo-se dormir;

Mais formoso não é: não doire embora
O verão tropical
Com seus rubores e alvacenta aurora
Na montanha natal,

Nem tão doirada se levante a lua
Pela noite do céu,
Mas venha triste, pensativa - e nua
Do prateado véu -

Que me importa? se as tardes purpurinas
E as auroras dali
Não deram luz às diáfamas cortinas
Do leito onde eu nasci?

Se adormeço tranqüilo no teu seio
E perfuma-se a flor
Que Deus abriu no peito do Poeta,
Gotejante de amor?

Minha terra sombria, és sempre bela,
Inda pálida a vida
Como o sono inocente da donzela
No deserto dormida!

No italiano céu nem mais suaves
São as noites os amores,
Não tem mais fogo o cântigo das aves
Nem o vale mais flores!

III

Quando o gênio da noite vaporosa
Pela encosta bravia
Na laranjeira em flor toda orvalhosa
De aroma se inebria,

No luar junto à sombra recendente
De um arvoredo em flor,
Que Saudades e amor que influi na mente
Da montanha o frescor!

E quando à noite no luar saudoso
Minha pálida amante
Ergue seus olhos úmidos de gozo,
E o lábio palpitante...

Cheia de argêntea luz do firmamento
Orando por seu Deus,
Então... eu curvo a fronte ao sentimento
Sobre os joelhos seus...

E quando sua voz entre harmonias
Sufoca-se de amor,
E dobra a fronte bela de magias
Como pálida flor,

E a arma pura nos seus olhos brilha
Em desmaiado véu,
Como de um anjo na cheirosa trilha
Respiro o amor do céu!

Melhor a viração uma por uma
Vem as folhas tremer,
E a floresta saudosa se perfuma
Da noite no morrer,

E eu amo as flores e o doce ar mimoso
Do amanhecer da serra
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra!
5 001
Eugénia Tabosa

Eugénia Tabosa

A gata

(A meu filho Carlos)

A gata branca tinha um olho verde e outro azul
mas para mim ela era como uma aranha.
Que pena eu tinha de a não amar,
que pena eu tinha do seu ronronar em mim não ter eco.
E sempre que a gata vinha eu ia
e ela ficava mais triste mais só.
Sim, ela tivera casa, almofada e mesmo um nome
depois nasceu um menino e ela foi para o quintal.
Como ela soube então que as noites eram azuis,
o luar, o cheiro da terra molhada e tudo o mais.
Mas um dia a casa ficou vazia.
Aqueles de quem ela tinha sido e seus se diziam
fizeram malas e levaram tudo o que havia,
foram-se deixando a porta fechada.
Só ela ficou, toda branca um olho verde outro azul.
Passaram noites, dias longos e silêncios.
Depois cheguei eu, as flores e os risos,
a casa enchera-se outra vez, mas ela não entrou.
Rondava, olhando-me como intrusa.
Passou o verão, houve noites de chuvas
Noites azuis e de estrelas que nevavam.
E numa delas chegou um menino, o meu menino.
Então amei-o, amei-o daquele amor à vida
transbordante e doce, até às coisas pequenas.
E quando um dia a gata se foi deitar
em meu casaco numa cadeira esquecido,
olhei-a e não a pude enxotar.

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