Poemas neste tema

Animais e Natureza

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

36 - E há poetas que são artistas

E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...

Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira.
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

30 - Se quiserem

Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o.
Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.

O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.

Não sei o que é a Natureza: canto-a.
Vivo no cimo dum outeiro
Numa casa caiada e sozinha,
E essa é a minha definição.


(Athena, nº 4, Janeiro de 1925)
2 213
Renato Rezende

Renato Rezende

Prenúncios de Gaivotas

Sou uma alma pequena
pousada na Terra.
Mais precisamente pousada numa pedra
na Urca, esta tarde.
Observo as nuvens, o céu
as gaivotas, o mar.
Tudo passa.
Adiante caminham
no calçamento da encosta da praia
--que brilha num banho de luz e ar--
dezenas de pessoas iguais a mim.
Todas passam, mas não notam
o esplendor da natureza.
Todas passam e percebo que pensam,
e são seus pensamentos que limitam o mar.
Seria a mente o limite do tempo?
Estamos todos vivendo menos,
presos dentro de nós mesmos.
Estamos todos sós
neste planeta azul, sob o sol.
Mas sinto que se der um salto
aprendo a voar.


Rio de Janeiro, 24 de fevereiro 1997
933
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Gozo os campos sem reparar para eles.

Gozo os campos sem reparar para eles.
Perguntas-me porque os gozo.
Porque os gozo, respondo.
Gozar uma flor é estar ao pé dela inconscientemente
E ter uma noção do seu perfume nas nossas ideias mais apagadas.
Quando reparo, não gozo: vejo.
Fecho os olhos, e o meu corpo, que está entre a erva,
Pertence inteiramente ao exterior de quem fecha os olhos –
À dureza fresca da terra cheirosa e irregular;
E alguma coisa dos ruídos indistintos das coisas a existir,
E só uma sombra encarnada de luz me carrega levemente nas órbitas,
E só um resto de vida ouve.


20/04/1919
2 473
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O PENÚLTIMO POEMA

A Ricardo Reis


Também sei fazer conjecturaras.
Há em cada coisa aquilo que ela é que a anima.
Na planta está por fora e é uma ninfa pequena.
No animal é um ser interior longínquo.
No homem é a alma que vive com ele e é já ele.
Nos deuses tem o mesmo tamanho
E o mesmo espaço que o corpo
E é a mesma coisa que o corpo.
Por isso se diz que os deuses nunca morrem.
Por isso os deuses não têm corpo e alma.
Mas só corpo e são perfeitos.
O corpo é que lhes é a alma
E têm a consciência na própria carne divina.


07/05/1922 (Presença, nº 31-32, Junho de 1931)
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Paul Éluard

Paul Éluard

Liberté

Liberté

Sur mes cahiers décolier

Sur mon pupitre et les arbres

Sur le sable sur la neige

Jécute ton nom

Sur toutes les pages lues

Sur toutes les pages blanches

Pierre sang papier ou cendre

Jécris ton nom

Sur les images dorées

Sur les armes des guerriers

Sur la couronne de rois

Jécris ton nom

Sur la jungle et le désert

Sur les nids sur les genêts

Sur lécho de mon enfance

Jécris ton nom

Sur les merveilles des nuits

Sur le pain blanc de journées

Sur les saisons fiancées

Jécris ton nom

Sur tous mes chiffons dazur

Sur létang soleil moisi

Sur le lac lune vivante

Jécris ton nom

Sur le champs sur lhorizon

Sur les ailes des oiseaux

Et sur le moulin des ombres

Jécris ton nom

1 803
Renato Rezende

Renato Rezende

Impressões do Parque Lage

Na floresta do Parque Lage
celebro
a minha enorme liberdade.
Sou o primeiro
homem a penetrar este reino
ainda selvagem.
Tudo é meu.
E eu também sou o alheio,
o esquecido, o estrangeiro.
Me sinto completo,
me sinto inteiro.
A mata está fechada.
O cheiro forte da jaca
faz total silêncio.
Caminho na picada.
Nesse mundo vegetal
comungam indigentes
adúlteros, solitários
soldados armados
olhando as mulheres que passam
drogados, aleijados, malucos
delinqüentes, prostitutas
crianças sem inocência.
Um jogo de passeios, de veredas
de miradas e mirantes
de olhos que se baixam
de movimentos obscuros
atrás dos arbustos
de corpos que se cruzam
de águas
que escutam
silenciosos anseios.
Tudo isso sou eu, tudo isso corre
nas minhas veias.
Macacos pulam
de galho em galho.
Surgem borboletas
que foram caçadas
mas de alguma forma sobreviveram.
Estamos no reino
da memória e da sombra
ou luz trespassada
do alto das árvores
fantasmas, almas penadas
coisas perdidas
primitiva vida sem idade.
Aqui é o ponto zero
da cidade.
Aqui é a cidade
antes de ser cidade.
Aqui eu bebo
a cidade
em tudo que ela tem de luz
e de intimidade,
em tudo o que nela é voraz
e eternidade,
aqui eu devoro a cidade pública
e impudica.
(Isso debaixo
detrás
do Cristo
envolvido em nuvens).


Rio de Janeiro, 10 de março 1997
809
Renato Rezende

Renato Rezende

Asas

Como uma borboleta às vezes voa baixo
e acaba
atropelada
nas ruas desta cidade;

luz e azul
estagnados
estampados
no negro do asfalto;

anjo crucificado
entre carros que passam,

minha vida
morna e delicada
beijou a parede e o asfalto, trêmula

nas encostas do precipício.

Sento-me rente
à calçada
na raíz de uma enorme árvore, só

entre a sarjeta e o asfalto,
entre o tempo e a morte.

Ó alta e sábia árvore.
Ó árvore,
eu beijo tua casca--
tua grossa, antiga casca.

Imagino que esta árvore mágica
poderia destruir a cidade

e transformá-la novamente em mata.

Imagino e sou salvo.

No meio da mata Atlântica
no tempo vegetal
como uma larva
eu subo a alta árvore
até o céu.

O céu anil
das asas de uma borboleta livre
sobre o mar terrestre.

Subo e sou
luz e crisálida,

um pouco já raio e êxtase.

Quero vertigens transparentes,
quero o grande salto d'alma.

Deus, será que dava, de onde eu caio
fazer-me santo rápido,
algum tipo de pássaro,

dar-me asas?


Rio de Janeiro, 4 de maio 1997
1 023
Renato Rezende

Renato Rezende

Bicho de Goiaba

No tacho de cobre/ vermelho
era eu mesmo me derretendo.

Todos os dias, o dia.

Aqui estou eu, de repente, o mesmo,
no ermo recanto das flores
da infância de mim mesmo.
Aqui estou eu, como num sonho
ou num porto-fragmento
do que já fui, perdido no tempo.

Irrompo aos gritos a casa ensolarada
e tudo brilha e está em seu lugar
enquanto gira ao redor do nada.

Aquelas manhãs na fazenda
ainda existem, não se perderam, estão lá
agora,
você que é o sempre ausente.

Mas espere
ainda há esperança, e por mais um dia
por dádiva dos deuses
que giram todos os dias
a roda do destino
eu apareço, inteiro.

As terras
ainda estão aqui, generosas
e fecundas, vermelhas.
Ainda não vendemos
nossa memória, nem mesmo o medo
de menino sozinho no quarto escuro...

e já acaba o óleo da lamparina
papai e mamãe dormem
do outro lado da enorme casa
e a sombra bruxeleia na parede escura,
no forro passeiam gambás
aranhas e baratas
infestam o chão a esta hora.
O banheiro
está do outro lado do mundo
no fim do corredor
imenso de assoalho vermelho.
Se acordo meu pai
ele vai ficar bravo e vai ser pior.
Fazer xixi na cama
é até gostoso
(o prenúncio
de um prazer maior),
é quentinho
e com este calor logo seca, ninguém nota.
Meu irmão dorme na cama ao lado
e estas duas camas parecem agora dois barcos
que se separam no enorme mar do tempo.
Tenho medo
de ficar sozinho.
E se meus pais morrerem?

(Ensaio na madrugada o sofrimento da desgraça
que durante a vida inteira espero que aconteça).

Rompe o dia.
Assisto
pela janela encardida a delicadeza da aurora
e com pijamas saio lá fora.
Estou na varanda. Ouço pássaros novos
e vacas rumo aos currais de outrora.
Do pomar irrompe um porco
que como tudo agora é puro mistério e delicadeza
banhado de luz dourada.
A doçura é tanta
que acuado volto para cama.

O que mais dança
no centro do meu peito?
Antigas penteadeiras
de madeira de lei
ou mármore de carrara.
Jarras de prata, tachos
de cobre
onde ferve a minha carne
mexida pela preta velha
que pica e cospe tabaco
junto ao seu fogão de cinzas e lenha.
Posso vê-la, de longe
varrendo pétalas e poeira
sobre as pedras do terreiro.
-- Aí! D. Paula!
Esse pirão é feito de água ou leite?
-- De água, fiô, de água.
Espelhos.
Piso de tábua larga.
Ping-pong com besouros.
Sapos de línguas longas.
Cavalos mangalarga
desembestados no pasto largo.
Briga de bois bravos
a despedaçar o curral.
E os homens munidos com varas e paus.
-- Ôôo! Pierrô! Eiaa! Apolo!
E depois a calmaria
da tarde de rolinhas
aninhando-se no enorme pau-d'alho
as borboletas com grande olhos
o pôr do sol.
O pôr do sol mais belo
e mais longo do mundo.
Mas ainda há tempo para mais um mergulho
na piscina de água corrente
onde antigamente era lavadouro de café.
Ainda há tempo
para uma espiga de milho quente,
para um copo de leite,
um punhado de jabuticabas,
um roubo de pitangas,
uma guerra de cevada.

Ainda há tempo, antes
que caia novamente a noite...

Que venham! Que venham!
No mar do naufrágio de agora
os escombros dos dias plenos.

(Hoje queremos apenas
que as crianças cresçam
e ganhar muito dinheiro).


Ribeirão Preto, Natal 1997
1 017
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Momentos de Glória

Todos têm seu momento de glória:
o tigre ante o antílope abatido,
a formiga com seu pedaço de folha às costas,
a rutilante buganvília na janela.
Todos têm seu momento de glória.
Não só Carlos Magno, Alexandre e César.
Esse grilo humilde na cortina da sala,
essa rosa inclinada sobre a tarde,
a estridente chama na lareira.
Mesmo um queijo, um vinho para ceia,
os objetos mínimos da casa
expostos na prateleira,
todos têm seu momento de glória.
O artesão ou Miguelangelo,
e o que comete o crime perfeito,
o poeta e seu poema,
todos têm seu momento de glória
como aquela empregada da corte
com suas pernas e seios
como nenhuma Rainha Vitória.
602
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Alexander Dubcek: o Guarda-Florestal

21 anos passou Dubcek como guarda-florestal
depois de deposto como Primeiro-ministro
por deflagrar a “primavera de Praga”.
Se gostava tanto de primavera
– pensaram os inimigos –
melhor que fosse cuidar de plantas e animais.
Assim Dubcek passou 21 anos como guarda-florestal.
É, sem dúvida, um longo tempo
para quem antes convivia com multidões na praça.
Dubcek, no entanto, manteve a necessária disciplina:
dialogava com os pinheiros,
planejava com as formigas,
parlamentava com as borboletas.
O que podia, um guarda-florestal, além disto,
senão proteger as crias das raposas
e contemplar o pôr do sol?
21 anos depois, da floresta,
eis que o chamam à praça pública para uma nova primavera.
Multidões o aguardam.
Dubcek fala. Como um guarda-florestal, é claro.
Uma voz de pássaro sai-lhe da garganta.
Com ele, a multidão canta.
1 086
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

9 - Go: thou hast nothing to forgive

THE SHINNING POOL


Go: thou hast nothing to forgive.
To dream is better than to live.

But he shall see the rising sun
Who leaveth everything undone;
Whose mind from his attention's task
Strays like the shifting of a mask.

He only shall through greener vales
Than even those that shine right through
The window-panes of children's tales
Wander, who thinks the world anew.

Only for him who sits and sings
On the stiles and forgets his road
Does the fairies' bird spread her wings
And the fairies' flowers grow more broad.

He shall not find a hand to feed
The silent sources of his need.
No one shall point the rill where he
May slake the thirst of infancy.

But greener valleys than To-Day
And dearer thoughts than Far Away
Shall tap at his window and wake
His freshness other thirsts to slake.

So, like a seamstress sitting still
At a window in the sunset
Of a village no steps have met,
He shall belong to nothing ill,

But incorporeal, like a wish,
His soul shall like a rainbow cross
The rain-green pastures of his loss
And earth shall blossom into speech.
4 360
Daniel Faria

Daniel Faria

Calculo uma doença difícil e definitiva

Calculo uma doença difícil e definitiva
Um sono que não se apaga no sono,ou melhor
Um verso parado no meio de um poema.
Imagino o poeta sem dormir e parado como um verso
No meio do poema.Imagino o poema sem dormir.
Tenta explicá-lo,compará-lo a Noé na arca
Saudoso de colocar de novo os pés descalços sobre a terra.
Penso que os animais saem de dentro das palavras
E vêm ter comigo
Que querem ter um nome como no princípio
Que querem beber.
Tu não sabes como te chamas,não sabes o nome das plantas
Esqueceste o nome dos teus irmãos
E nem mesmo a tua mãe te traz uma palavra á boca.
faço a inclinação de quem encosta o rosto ao focinho dos bichos
Com saudades do calor de uma voz que chama.
Nem mesmo eu sei dizer que terra firma lhes peço
Que alicerces fundos cavam quando pousam
As patas muito mansas sobre mim.

de Dos Líquidos (2000)
1 591
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Textamento

Minha mãe teve dúvidas
se eu deveria nascer ou não.
Pensou em me abortar.
Nasci. E, de alguma maneira, dei certo.
Cedo aprendi com os animais domésticos
e com os legumes da horta
que a morte é estranhamente cotidiana.
Amei, sim, amei
na medida de meu descompassado desejo.
E já ia envelhecendo
quando aprendi a me comunicar com os cães.
Não posso me queixar.
Vencidas as dificuldades iniciais,
os limites do quintal, a inveja
e os jogos na boca da noite,
descobri modos de me expressar.
Algumas palavras íntimas
tornaram-se públicas
e nisto encontrei satisfação.
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Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

O Que Ficou

É falsa a versão
de que passei incólume
ao pisar as brasas,
atravessar paredes,
ser serrado ao meio,
ao beijar a víbora
e acariciar o arcanjo.
Tudo me alterou:
as notícias que Marco Polo
trouxe do Oriente,
o olhar da cachorrinha
buscando seus filhotes,
a borboleta que morreu na pia.
Certo resisti ao vento, à peste.
Mas tudo me alterou.
hoje tenho um passado.
No meu corpo está presente
tudo o que me trespassou.
1 072
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Grande libertador

ODE "A PARTIDA"

(excertos)

Grande libertador,
Que quebraste as algemas de todas as mortes – as do corpo e as da alma
A morte, a doença, a tristeza
A arte, e a ciência, e a filosofia...
Grande libertador
Que arrasaste os muros da cadeia velha
E fizeste ruir os andaimes da cadeia nova,
Que abriste de par em par as janelas todas
Nas salas todas de todas as casas,
E o vento real limpou do fumo e do sono
As salas dadas aos prazeres dos sonhos,
......................................................

Agora que estou quase na morte e vejo tudo já claro,
Grande Libertador, volto submisso a ti.

Sem dúvida teve um fim a minha personalidade.
Sem dúvida porque se exprimiu, quis dizer qualquer coisa.
Mas hoje, olhando para trás, só uma ânsia me fica –
Não ter tido a tua calma superior a ti próprio,
A tua libertação constelada de Noite Infinita.

Não tive talvez missão alguma na terra,
...........................................................

Ah, se todo este mundo claro, e estas flores e luz,
Se todo este mundo com terra e mar e casas e gente,
Se todo este mundo natural, social, intelectual,
Estes corpos nus por baixo das vestes naturais,
Se isto é ilusão, por que é que isto está aqui?
Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão!
Se isto não é, por que é que é?
Se isto não pode ser, então porque pôde ser?

Acolhei-a, ao chegar,
A ela, à Morte, a esse erro da vista,
Com os cheiros dos campos, e as flores cortadas trazidas ao colo,
Com as romarias e as tardes pelas estradas,
Com os ranchos festivos, e os lares contentes,
Com a alegria e a dor, com o prazer e a mágoa,
Com todo o vasto mar movimentado da vida.

Acolhei-a sem medo,
Como quem na estação de província, no apeadeiro campestre,
Acolhe o viajante que há-de chegar no comboio do Além.
Acolhei-a contentes,
Crianças cantando de riso, corpos de jovens nos jogos,
Alegria rude e natural das tabernas.
E os braços e os beijos e os seios das raparigas.

....................................................

Da casa do monte, símbolo eterno e perfeito,
Vejo os campos, os campos todos,
E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira,
Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos
Eu os aperto a meu peito, como filho que encontrasse o pai perdido.

Vivam, vivam, vivam
Os montes, e a planície, e as ervas!
Vivam os rios, vivam as fontes!
Vivam as flores, e as árvores, e as pedras!
Vivam os entes vivos – os bichos pequenos,
Os bichos que correm, insectos e aves,
Os animais todos, tão reais sem mim,
Os homens, as mulheres, as crianças,
As Famílias, e as não-famílias, igualmente!
Tudo quanto sente sem saber porquê!
Tudo quanto vive sem pensar que vive!
Tudo que acaba e cessa sem angústia nem nada,
Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer,
Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério,
E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida.

Ah, estou liberto!
Ah, quebrei todas
As algemas do pensamento.
Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo,
Eu o próprio abismo que sonhei,
Eu, que vi em tudo caminhos e atalhos de sombra
E a sombra e os caminhos e os atalhos estavam em mim!
Ah, estou liberto...
Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte
E vi a verdade que vias, mas com meus olhos,
Verdadeiramente com meus olhos,
Verdadeiramente verdade.
Ah, vi que não há morte alguma!
Vi que

Não há abismos!
Nada é sinistro!
Não há mistério ou verdade!
Não há Deus, nem vida, nem alma distinta da vida!
Tu, tu Mestre Caeiro, tu é que tinhas razão!
Mas ainda não viste tudo, tudo é mais ainda!
Alegre cantaste a alegria de tudo,
Mas sem pensá-lo tu sentias
Que é porque a alegria de tudo é essencialmente imortal.
Como cantaras alegre a morte futura
Se a puderas pensar como morte,
Se deveras sentiras a noite e o acabamento?
Não, não: tu sabias
Não com teu pensamento, mas com teu corpo inteiro,
Com todos os teus sentidos tão acordados ao mundo
Que não há nada que morra, que não há coisa que cesse,
Que cada momento não passa nunca,
Que a flor colhida fica sempre na haste,
Que o beijo dado é eterno,
Que na essência e universo das coisas,
Tudo é alegria e sol
E só no erro e no olhar há dor e dúvida e sombra.
Embandeira a canto e rosas!
E da estação de província, do apeadeiro campestre
Lá vem o comboio!
Com lenços agitados, com olhos que brilham eternos
Saudemos em ouro e flores a morte que chega!

................................
2 991
José Miguel Silva

José Miguel Silva

Queixas de um utente

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já. não vejo televisão
há. cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.
1 273
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Para Tigrão

Passo a mão no pelo deste cão
deitado no tapete.
Essa cabeça grande, quente, magnífica.
Passo a mão e ele aceita
meu carinho humano, animal.
No entanto, morreremos, os dois.
Nos tocamos ternamente.
Neste instante
– não morreremos jamais.
1 184
Barroso Gomes

Barroso Gomes

Vanitas

Na teia de aranha
de tosca urdidura a mosca
azul se emaranha.

1 043
Barroso Gomes

Barroso Gomes

Narcisismo

Uma deusa nua
no vago espelho do lago
mirando-se. A lua.

941
Barroso Gomes

Barroso Gomes

Réquiem

A cigarra enquanto
fenece a mortalha tece
com os fios do canto.

969
Barroso Gomes

Barroso Gomes

Amanhecer

Do dia, lá fora,
a nuança: é o galo que lança
borrifos de aurora.

932
Barroso Gomes

Barroso Gomes

Arrebatamento

O cão uiva ou canta?
Eu penso que morre: o imenso
lua na garganta.

731
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Sacrifiquei sem nenhum remorso

Sacrifiquei sem nenhum remorso
os talheres de prata, o açúcar e os licores franceses.
Contudo, não precisei de empurrar nenhuma velha
para avançar na fila.
Quando apanhei o caminho certo,
a sorte abriu, sem hesitar, as pernas.
A partir daí foi fácil:
hoje, um ovo, amanhã, uma vaca.
Tudo isso, no pantanal do Oeste,
bem longe das grandes metrópoles
e do brilho das montras,
mas onde aprendi a cultivar a leveza
e a ouvir o canto do galo
que, por estes lados da madrugada,
tanto serve de despertador
como para a canja.
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