Poemas neste tema
Animais e Natureza
Manuel Bandeira
Noturno da Rua da Lapa
A janela estava aberta. Para o quê não sei, mas o que entrava era o vento dos lupanáres, de mistura com o eco que se partia nas curvas cicloidais, e fragmentos do hino da bandeira.
Não posso atinar no que eu fazia: se meditava, se morria de espanto ou se vinha de muito longe.
Nesse momento (oh! por que precisamente nesse momento?...) é que penetrou no quarto o bicho que voava, o articulado implacável, implacável!
Compreendi desde logo não haver possibilidade alguma de evasão. Nascer de novo também não adiantava. — A bomba de flit! pensei comigo, é um inseto!
Quando o jacto fumigatório partiu, nada mudou em mim; os sinos da redenção continuaram em silêncio; nenhuma porta se abriu nem fechou.
Mas o monstruoso animal FICOU MAIOR. Senti que ele não morreria nunca mais, nem sairia, conquanto não houvesse no aposento nenhum busto de Palas, nem na minh'alma, o que é pior, a recordação persistente de alguma extinta Lenora.
Não posso atinar no que eu fazia: se meditava, se morria de espanto ou se vinha de muito longe.
Nesse momento (oh! por que precisamente nesse momento?...) é que penetrou no quarto o bicho que voava, o articulado implacável, implacável!
Compreendi desde logo não haver possibilidade alguma de evasão. Nascer de novo também não adiantava. — A bomba de flit! pensei comigo, é um inseto!
Quando o jacto fumigatório partiu, nada mudou em mim; os sinos da redenção continuaram em silêncio; nenhuma porta se abriu nem fechou.
Mas o monstruoso animal FICOU MAIOR. Senti que ele não morreria nunca mais, nem sairia, conquanto não houvesse no aposento nenhum busto de Palas, nem na minh'alma, o que é pior, a recordação persistente de alguma extinta Lenora.
1 008
Costa Andrade
Dádiva
Sou mais forte que o silêncio dos muxitos
mas sou igual ao silêncio dos muxitos
nas noites de luar e sem trovões.
Tenho o segredo dos capinzais
soltando ais
ao fogo das queimadas de setembro
tenho a carícia das folhas novas
cantando novas
que antecedem as chuvadas
tenho a sede das plantas e dos rios
quando frios
crestam o ramos das mulembas.
...e quando chega o canto das perdizes
e nas anharas revive a terra em cor
sinto em cada flor
nos seus matizes
que és tudo o que a vida me ofereceu.
mas sou igual ao silêncio dos muxitos
nas noites de luar e sem trovões.
Tenho o segredo dos capinzais
soltando ais
ao fogo das queimadas de setembro
tenho a carícia das folhas novas
cantando novas
que antecedem as chuvadas
tenho a sede das plantas e dos rios
quando frios
crestam o ramos das mulembas.
...e quando chega o canto das perdizes
e nas anharas revive a terra em cor
sinto em cada flor
nos seus matizes
que és tudo o que a vida me ofereceu.
1 304
Valdir L. Queiroz
Monalisa do Sertão
De cativante
só o aspecto mórbido e moribundo
de gente-bicho.
trazia consigo duas sementes
que parecia ser (ou seria?)
a humildade e a simplicidade
vítimas da peregrinação.
no estômago: asfalto molhado;
no coração: esperança de bicho-gente;
na cabeça: miolos doídos pelo sol
do sertão;
nos pés: a marca do chão que
um dia fez pão e a fome matou...
porque vives no anonimato
monalisa do sertão ?
teu pintor no porão te guardou ?
ou a seca tua paisagem
queimou ?
só o aspecto mórbido e moribundo
de gente-bicho.
trazia consigo duas sementes
que parecia ser (ou seria?)
a humildade e a simplicidade
vítimas da peregrinação.
no estômago: asfalto molhado;
no coração: esperança de bicho-gente;
na cabeça: miolos doídos pelo sol
do sertão;
nos pés: a marca do chão que
um dia fez pão e a fome matou...
porque vives no anonimato
monalisa do sertão ?
teu pintor no porão te guardou ?
ou a seca tua paisagem
queimou ?
1 092
Paulo Leminski
Primeiras páginas
ergo sum, aliás, Ego sum Renatus Cartesius, cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis, — vejo o mar, vejo a baía e vejo as naus. Vejo mais. Já lá vão anos III me destaquei de Europa e a gente civil, lá morituro. Isso de “barbarus — non intellegor ulli” — dos exercícios de exílio de Ovídio é comigo. Do parque do príncipe, a lentes de luneta, CONTEMPLO A CONSIDERAR O CAIS, O MAR, AS NUVENS, OS ENIGMAS E OS PRODÍGIOS DE BRASÍLIA. Desde verdes anos, via de regra, medito horizontal manhã cedo, só vindo à luz já sol meiodia. Estar, mister de deuses, na atual circunstância, presença no estanque dessa Vrijburg , gaza de mapas, taba rasa de humores, orto e zôo, oca de feras e casa de flores. Plantas sarcófagas e carnívoras atrapalham-se, um lugar ao sol e um tempo na sombra. Chacoalham, cintila a água gota a gota, efêmeros chocam enxames. Cocos fecham-se em copas, mamas ampliam: MAMÕES. O vapor umedece o bolor, abafa o mofo, asfixia e fermenta fragmentos de fragrâncias. Cheiro um palmo à frente do nariz, mim, imenso e imerso, bom. Bestas, feras entre flores festas circulam em jaula tripla — as piores, dupla as maiores; em gaiolas, as menores, à ventura — as melhores. Animais anormais engendra o equinócio, desleixo no eixo da terra, desvio das linhas de fato. Pouco mais que o nome o toupinambaoults lhes signou, suspensos apenas pelo nó do apelo. De longe, três pontos... Em foco, Tatu, esferas rolando de outras eras, escarafuncham mundos e fundos. Saem da mãe com setenta e um dentes, dos quais dez caem aí mesmo, vinte e cinco ao primeiro bocado de terra, vinte o vento leva, quatorze a água, e um desaparece num acidente. Um, na algaravia geral, por nome, Tamanduá, esparrama língua no pó de incerto inseto, fica de pé, zarolho de tão perto, cara a cara, ali, aí, esdruxula num acúmulo e se desfaz eclipsado em formigas. Pela ou na rama, voce mettalica longisonans, a araponga malha ferro frio, bentevi no mal-me-quer-bem-me-quer. A dois lances de pedra daqui, volta e meia, dois giros; meia volta, vultos a três por dois. De onde em onde, vão e vêm; de quando em vez, vêem o que tem. Perante o segundo elemento, a manada anda e desanda, papa e bebe, mama e baba. Depois da laguna, enchem a anterior lacuna. Anta, nunca a vi tão gorda. Nuvens que o gambá fede empalidecem o nariz das pacas. Capivara, estômago a sair pelas órbitas, ou, porque fartas se estatelam arrotando capinzais ou, como são sabem senão comer, jogam o gargalo para o alto, arreganhando a dentadura, tiriricas de estar sem fome. Ensy, joão chamado bobo, não tuge nem muge, não foge tiro, brilho nem barulho — gálbula, brachyptera, insectívora, taciturna, non scansoria, stupida — , para jogar sério a esmo. Monos se penteando espelham-se no banho das piranhas, cara quase rosto no quasequase das águas: agulhas fazem boa boca, botam mau olhado anulando-lhes a estampa, símios para sempre. Na aguada, o corpanzil réptil entretece lagartos e lagostas. Monstros da natura desvairada nestes ares, à tona, boquiaberta, à toa, cabisbaixa, o mesmo nenhum afã. Tira pestana ao sol uma jibóia que é só borboletas. Tucanos atrás dos canos, máscara sefardim, arcanos no tutano. Jibóia, no local do crime, desamarram espirais englobando cabras, ovelhas, bois. Chifres da boca para fora — esfinges bucefálicas entre aspas — decompõem pelos mangues o conteúdo: cospem cornos o dobro. Exorbitantes, duram contos de séculos, estabelece Marcgravf, na qualidade de profeta. Vegetam eternidades. Crias? Mudas? Cruzam e descruzam entre si? Não, esse pensamento, não, — é sístole dos climas e sintoma do calor em minha cabeça. Penso mas não compensa: a sibila me belisca, a pitonisa me hipnotiza, me obelisco, essa python medusa e visa, eu paro, viro paupau, pedrapedra. Dédalos de espelho de Elísio, torre babéu, hortus urbis diaboli, furores de Thule, delícias de Menrod, curral do pasmo, cada bicho silencia e seleciona andamentos e paramentos. Bichos bichando, comigo que se passa? Abrir meu coração a Artyczewski. Virá Artyczewski. Nossas manhãs de fala me faltam. Um papagaio pegou meu pensamento, amola palavras em polaco, imitando Articzewski (Cartepanie! Cartepanie!). Bestas geradas no mais aceso fogo do dia... Comer esses animais há de perturbar singularmente as coisas do pensar. Palmilho os dias entre essas bestas estranhas, meus sonhos se populam da estranha fauna e flora: o estalo de coisas, o estalido dos bichos, o estar interessante: a flora fagulha e a fauna floresce... Singulares excessos... In primis cogitationibus circa generationem animalium, de his omnibus non cogitavi. Na boca da espera, Articzewski demora como se o parisse, possesso desta erva de negros que me ministrou, — riamba, pemba, gingongó, chibaba, jererê, monofa, charula, ou pango, tabaqueação de toupinambaoults, gês e negros minas, segundo Marcgravf. Aspirar estes fumos de ervas, encher os peitos nos hálitos deste mato, a essência, a cabeça quieta, ofício de ofídio.
1 472
Christiano Nunes Fernandes
Cinco sonetos para um passarinho
I
SEM desvelo nenhum pelo ecológico
- antes pensando tudo por amor -
o pássaro deixou-se, por ilógico,
aprisionar-se todo, até a cor
dourada da plumagem, mais o verde
dos seus olhos e mais o que ele era:
pássaro alado de desejo e sede.
Depois, acomodado na gaiola,
imaginou-se cravos e viola
e pôs-se a fiar o tempo em seus teares...
Até que em certa tarde morna viu-se
pairando além, e livre pressentiu-se
se reofertando à festa dos pomares.
............................................................
II
O MAR, o mar imenso era um brinquedo
e o céu distante era um azul deserto.
Seus olhos eram como longos dedos
trazendo as longitudes para perto
das ânsias de suas asas que, em segredo,
o vôo libertavam para um certo
espaço já perdido e desde cedo
roubado de seus sonhos mal despertos.
Cativo, agora, o pássaro modula
uma canção plangente que se ondula
nas harpas da manhã e, então, se evola
em árias e sonatas e se perde
pelo deserto azul e pelo verde
mar, alheios ao pássaro e à gaiola.
III
POSTO que do mar não seja
e seja ave de pomar
pelo mar sempre ela adeja
ela é louca pelo mar.
Pelas naves da manhã
ela faz sua viagem
enquanto a ardente romã
do sol lhe doura a plumagem.
Viaja mesmo na areia...
E quando faz maré cheia,
há ventos fortes, marola,
ela que é ave campestre
com destino terrestre
sonha com o mar na gaiola.
.....................................................................
IV
DE DOURADO fez-se azul
naquela manhã, o pássaro.
Ou foram ventos do sul
que de repente perpassam
pelas paisagens que habita,
ou foi uma certa aragem
que em certas horas transita
e muda a cor da plumagem.
E em frio azul transmudado
pôs azul no seu trinado
e o mundo inteiro azulesce...
revestindo a corda dourada
nos clarins da madrugada.
......................................
V
SENTIR meus dedos entre as suas penas,
tatear meus olhos pelos seus segredos
é esse o jogo a que me entrego, apenas
o pássaro diviso em em seus degredos
aéreos, no altiplano de concreto,
em cujo frio chão nada germina
além de sombras e seu vulto incerto
que se divisa de uma esquiva esquina.
Onde no chão os grirassóis florescem.
Nos braços da manhã ele amanhece
adeja leve e nada lhe sofreia
o vôo dourado em direção do mar.
E redivivo deixa-se pousar,
se entrega ao sol e se desfaz na areia.
SEM desvelo nenhum pelo ecológico
- antes pensando tudo por amor -
o pássaro deixou-se, por ilógico,
aprisionar-se todo, até a cor
dourada da plumagem, mais o verde
dos seus olhos e mais o que ele era:
pássaro alado de desejo e sede.
Depois, acomodado na gaiola,
imaginou-se cravos e viola
e pôs-se a fiar o tempo em seus teares...
Até que em certa tarde morna viu-se
pairando além, e livre pressentiu-se
se reofertando à festa dos pomares.
............................................................
II
O MAR, o mar imenso era um brinquedo
e o céu distante era um azul deserto.
Seus olhos eram como longos dedos
trazendo as longitudes para perto
das ânsias de suas asas que, em segredo,
o vôo libertavam para um certo
espaço já perdido e desde cedo
roubado de seus sonhos mal despertos.
Cativo, agora, o pássaro modula
uma canção plangente que se ondula
nas harpas da manhã e, então, se evola
em árias e sonatas e se perde
pelo deserto azul e pelo verde
mar, alheios ao pássaro e à gaiola.
III
POSTO que do mar não seja
e seja ave de pomar
pelo mar sempre ela adeja
ela é louca pelo mar.
Pelas naves da manhã
ela faz sua viagem
enquanto a ardente romã
do sol lhe doura a plumagem.
Viaja mesmo na areia...
E quando faz maré cheia,
há ventos fortes, marola,
ela que é ave campestre
com destino terrestre
sonha com o mar na gaiola.
.....................................................................
IV
DE DOURADO fez-se azul
naquela manhã, o pássaro.
Ou foram ventos do sul
que de repente perpassam
pelas paisagens que habita,
ou foi uma certa aragem
que em certas horas transita
e muda a cor da plumagem.
E em frio azul transmudado
pôs azul no seu trinado
e o mundo inteiro azulesce...
revestindo a corda dourada
nos clarins da madrugada.
......................................
V
SENTIR meus dedos entre as suas penas,
tatear meus olhos pelos seus segredos
é esse o jogo a que me entrego, apenas
o pássaro diviso em em seus degredos
aéreos, no altiplano de concreto,
em cujo frio chão nada germina
além de sombras e seu vulto incerto
que se divisa de uma esquiva esquina.
Onde no chão os grirassóis florescem.
Nos braços da manhã ele amanhece
adeja leve e nada lhe sofreia
o vôo dourado em direção do mar.
E redivivo deixa-se pousar,
se entrega ao sol e se desfaz na areia.
439
D. Dinis
Deus! Com'ora perdeu Joam Simiom
Deus! Com'ora perdeu Joam Simiom
três bestas - nom vi de maior cajom,
nem perdudas nunca tam sem razom:
ca, teendo-as sãas e vivas
e bem sangradas com [boa] sazom,
morrerom-lhi toda[s] com olivas.
Des aquel[e] dia em que naci
nunca bestas assi perdudas vi,
ca as fez ant'el sangrar ante si;
e ante que saíssem daquel mês,
per com'eu a Joam Simiom oí,
com olivas morrerom todas três.
Ben'as cuidara de morte guardar
todas três, quando as fez[o] sangrar;
mais havia-lhas o Dem'a levar,
pois se par [a]tal cajom perderom;
e Joam Simiom quer-s'ora matar
porque lhi com olivas morrerom.
1 597
Carlos Newton Júnior
Peixe
O peixe
e sua inquietação de faca
no rio
vivo corpo frágil
que ele
(já que viver é ferir)
a todo instante
ataca
o rio
banhado de sol
e seus reflexos
minúsculos pontos
de ouro e prata.
e sua inquietação de faca
no rio
vivo corpo frágil
que ele
(já que viver é ferir)
a todo instante
ataca
o rio
banhado de sol
e seus reflexos
minúsculos pontos
de ouro e prata.
980
Carlos Newton Júnior
Gato
Leveza, pulo
um quase vôo
mas porém sem as asas
do que noutro instante comeu.
O sempre-alerta:
estar e não estar mais.
O lúcido instante
entre o eterno e o fugaz.
Mesmo em grave momento
de fome à beira do prato
bebe o leite à margem
da fuga, do salto.
um quase vôo
mas porém sem as asas
do que noutro instante comeu.
O sempre-alerta:
estar e não estar mais.
O lúcido instante
entre o eterno e o fugaz.
Mesmo em grave momento
de fome à beira do prato
bebe o leite à margem
da fuga, do salto.
987
Cludia Nobre de Oliveira
O Sol
(em homenagem ao verão)
Em tempo de sol abre uma flor que não é primavera.....
cai uma folha que não é outono ...
o pássaro voa e sorri, o homem relaxa..
Em tempo de sol meu dia é alegre, meu dia é o mar,
é a esperança de abraçar o céu, pular, cantar...
Em tempo de sol minha vida é leve é alegre...
porque é em tempo de sol que a natureza mais se enaltece
comandando tudo com a energia do astro maior
a luz eterna a luz Divina
para todos irmãos
Em tempo de sol abre uma flor que não é primavera.....
cai uma folha que não é outono ...
o pássaro voa e sorri, o homem relaxa..
Em tempo de sol meu dia é alegre, meu dia é o mar,
é a esperança de abraçar o céu, pular, cantar...
Em tempo de sol minha vida é leve é alegre...
porque é em tempo de sol que a natureza mais se enaltece
comandando tudo com a energia do astro maior
a luz eterna a luz Divina
para todos irmãos
982
Clicie Pontes
Primavera
Pequena borboleta
Enfeitando meus cabelos
Por um momento.
Enfeitando meus cabelos
Por um momento.
1 115
Alexandre Guarnieri
calypso
ígneas enguias bicéfalas
se entreolham, tresloucadas
com guinchos finíssimos, unís
sonas, ensaiam o silvo coletivo
e quase enguiçam no líquido re
buliço, agarradas em algazarra
parecem aparvalhadas na água
como certas larvas aneladas
recém-saídas dos ovos;
ascendem olhos de fósforo,
ardendo aos milhares, em pares
contra o breu inóspito
faróis cujas luzes
lançam fachos quase sólidos
para o horizonte subaquático;
orquídeas submergidas
eletrificam a língua sibilina
das enguias que se esquivam
das lanternas ou dos esguichos
de alguns exímios escafandristas
e fogem
…………..para o raio que as partam
nota:
mas pouquíssimo antes disso
tiveram suas almas
registradas em vídeo,
para Cousteau, por seu
melhor cinegrafista
em seu milésimo mergulho
de scuba ( o Aqualung ),
sob uma falésia da Catalunha
se entreolham, tresloucadas
com guinchos finíssimos, unís
sonas, ensaiam o silvo coletivo
e quase enguiçam no líquido re
buliço, agarradas em algazarra
parecem aparvalhadas na água
como certas larvas aneladas
recém-saídas dos ovos;
ascendem olhos de fósforo,
ardendo aos milhares, em pares
contra o breu inóspito
faróis cujas luzes
lançam fachos quase sólidos
para o horizonte subaquático;
orquídeas submergidas
eletrificam a língua sibilina
das enguias que se esquivam
das lanternas ou dos esguichos
de alguns exímios escafandristas
e fogem
…………..para o raio que as partam
nota:
mas pouquíssimo antes disso
tiveram suas almas
registradas em vídeo,
para Cousteau, por seu
melhor cinegrafista
em seu milésimo mergulho
de scuba ( o Aqualung ),
sob uma falésia da Catalunha
530
Clinio Jorge de Souza
Haicai
Seca... urubus
na vida vazia o vento
assobia blues
Cigarra vadia:
vida-melodia escorrida
da casca vazia
na vida vazia o vento
assobia blues
Cigarra vadia:
vida-melodia escorrida
da casca vazia
1 145
Cleonice Rainho
Dúvida
Pelo alegre bosque,
como Chapeuzinho Vermelho,
vou seguindo...
embora meus cabelos soltos
esvoacem à brisa da manhã.
Estou feliz:
passarinhos cantam,
zumbem insetos,
florezinhas exalam
doces perfumes.
Não sei como o lobo mau
pôde aparecer num lugar assim.
como Chapeuzinho Vermelho,
vou seguindo...
embora meus cabelos soltos
esvoacem à brisa da manhã.
Estou feliz:
passarinhos cantam,
zumbem insetos,
florezinhas exalam
doces perfumes.
Não sei como o lobo mau
pôde aparecer num lugar assim.
1 076
Cleonice Rainho
Peixinhos
À beira dágua calminha,
o aquário mais natural,
eu paro olhando os peixinhos
que brilham como cristal.
Entre o verde e humildes flores
observo meus amiguinhos
que, alegres, nadam, entrando
e saindo de seus cantinhos.
Armo casinha com torres
e sobre uma pedra ponho:
— é o palácio dos peixes
e meu castelo de sonho.
A ver quem vai ser o rei,
no espelho dágua mirando,
de cada qual o jeitinho,
com que prazer vou notando!
Parece pepita de ouro
um pequeno, o Douradinho;
magro e comprido o Agulhinha
e Bolinha, o gorduchinho.
Assim, esses peixes lindos,
na manhã vou batizando,
mas, vejo que vão e voltam
só nadando... só nadando...
Sem nomes, sonhos, palácios,
fugindo à rede e ao anzol,
as nadadeiras abrindo,
festejam a luz do sol.
Por Isso, ao voltar do rio,
me comparo aos amiguinhos
tão simples e naturais
que querem ser só peixinhos...
o aquário mais natural,
eu paro olhando os peixinhos
que brilham como cristal.
Entre o verde e humildes flores
observo meus amiguinhos
que, alegres, nadam, entrando
e saindo de seus cantinhos.
Armo casinha com torres
e sobre uma pedra ponho:
— é o palácio dos peixes
e meu castelo de sonho.
A ver quem vai ser o rei,
no espelho dágua mirando,
de cada qual o jeitinho,
com que prazer vou notando!
Parece pepita de ouro
um pequeno, o Douradinho;
magro e comprido o Agulhinha
e Bolinha, o gorduchinho.
Assim, esses peixes lindos,
na manhã vou batizando,
mas, vejo que vão e voltam
só nadando... só nadando...
Sem nomes, sonhos, palácios,
fugindo à rede e ao anzol,
as nadadeiras abrindo,
festejam a luz do sol.
Por Isso, ao voltar do rio,
me comparo aos amiguinhos
tão simples e naturais
que querem ser só peixinhos...
1 625
Horácio Costa
Cuneiforme
Continuo “imerso em mim e
na água dos meus pensamentos”, mas me interessa
mais do que eles esta praia e mais do que ela em si
a presença das três garças pequenas, brancas
e de olhos amarelos e agourentos e talvez
jovens, que por sua vez muito mais me interessam
do que tratar de compreender alguma “jeune parque”
cujos desígnios -não há porque negá-lo e mais a esta altura-
sempre foram para mim para sempre desconhecidos
não: incognoscíveis. Fiai o que quiserdes, na suave companhia
de vossas viscosas irmãs: confesso que vivi entremeado
a tais fibras o que pensei ter querido e o que
vossa caprichosa e parcíssima escolha nelas soube
mais do que sorrateiramente, incognoscivelmente entremeter.
Ainda, e por falar nas palmípedes três,
convenhamos: atraem-me mais os olhares e a alma
que os oito nada discretos cavalheiros que observo
enquanto as observo, desnudos todos frente ao mar,
ao abrigo entre as pedras deste reino naturista,
no Abricó (diga-se o lugar, pois), Recreio dos Bandeirantes,
Rio de Janeiro, Brasil. Hoje
a praia está ampla, o mar turbulento do outono
perde agora em sua cotidiana labuta
contra a areia. Regozijemo-nos.
Os nudistas, sem dúvida, mais do que
as graças, digo, as garças, me interessam:
enquanto observo estas e penso naquelas (Maillol,
volta ao Museu, não me ocupes neste instante),
confiro se alguém há em ereção, ou se algum par
de casuais amantes neste instante se retira da areia
para esconder-se ainda mais entre as grandes pedras
por líquens cobertas e coroadas por bromélias
e por cujos dorsos escorrem suculentas como sêmen
natural, para dedicar-se, ora está óbvio,
a uma não menos natural seção de homo-sexo,
nefanda segundo o vulgo e, aqui, sur mer,
nada, nada surpreendente:
ninguém que proclividade afim não professe
a esta praia vem, e mais num dia de mar-alto
e vento não tépido, frio, e mais: constante.
Somos previsíveis como a presença das garças
que na extensa língua de areia escavam os seus pitéus.
Os meus são esses que se aninham entre as pedras
por um tempo variavelmente curto ou longo
e que menos do que as garças,
que não as graças e suas parcas primas,
me interessam. Há pouco disse o oposto
e agora percebo tal estratégia do dizer,
que como é sabido muito fingem os poetas
e, por que não, também neste inconclusivo texto
(falso: basta de mentiras).
Também nas duas extremidades visuais
há costões ao oceano expostos:
perfazem algo como um enorme anfiteatro
no qual de fato nada acontece: aqui há monólitos
quase a pique e tão gigantescos que a linha da estrada
em sua silhueta desaparece, quando vistos à distância.
Este é o Mar dos Atlantes num cenário deles digno:
aqui poderiam engalfinhar-se em sua guerra. Mas não.
A ele voltei já faz um tempo, e tanto como à dita
“água do meu pensamento” (já não sei o quanto
nela há de verdade ou se a emana caso exista:
água lustral ou mero torvelinho liqüefazente?
E existirá de fato? Em caso positivo,
nela prossigo imerso ou naufragante?).
Há vinte e cinco anos, em Santa Bárbara, em
outro poema, houve falésias, e um convite que jamais
faria de novo a alguém, nem às garças nem às graças,
nem a nenhum sequer amante: já mais. Je vous en jure.
Minha viagem pela matéria hoje é solitária.
Observo
novamente
as ditas garças.
Sobre a areia em trânsito para o mar
ainda me obceca a impermanente escritura cuneiforme
dos tatibitates pèzitos das gratuitas
aves.
na água dos meus pensamentos”, mas me interessa
mais do que eles esta praia e mais do que ela em si
a presença das três garças pequenas, brancas
e de olhos amarelos e agourentos e talvez
jovens, que por sua vez muito mais me interessam
do que tratar de compreender alguma “jeune parque”
cujos desígnios -não há porque negá-lo e mais a esta altura-
sempre foram para mim para sempre desconhecidos
não: incognoscíveis. Fiai o que quiserdes, na suave companhia
de vossas viscosas irmãs: confesso que vivi entremeado
a tais fibras o que pensei ter querido e o que
vossa caprichosa e parcíssima escolha nelas soube
mais do que sorrateiramente, incognoscivelmente entremeter.
Ainda, e por falar nas palmípedes três,
convenhamos: atraem-me mais os olhares e a alma
que os oito nada discretos cavalheiros que observo
enquanto as observo, desnudos todos frente ao mar,
ao abrigo entre as pedras deste reino naturista,
no Abricó (diga-se o lugar, pois), Recreio dos Bandeirantes,
Rio de Janeiro, Brasil. Hoje
a praia está ampla, o mar turbulento do outono
perde agora em sua cotidiana labuta
contra a areia. Regozijemo-nos.
Os nudistas, sem dúvida, mais do que
as graças, digo, as garças, me interessam:
enquanto observo estas e penso naquelas (Maillol,
volta ao Museu, não me ocupes neste instante),
confiro se alguém há em ereção, ou se algum par
de casuais amantes neste instante se retira da areia
para esconder-se ainda mais entre as grandes pedras
por líquens cobertas e coroadas por bromélias
e por cujos dorsos escorrem suculentas como sêmen
natural, para dedicar-se, ora está óbvio,
a uma não menos natural seção de homo-sexo,
nefanda segundo o vulgo e, aqui, sur mer,
nada, nada surpreendente:
ninguém que proclividade afim não professe
a esta praia vem, e mais num dia de mar-alto
e vento não tépido, frio, e mais: constante.
Somos previsíveis como a presença das garças
que na extensa língua de areia escavam os seus pitéus.
Os meus são esses que se aninham entre as pedras
por um tempo variavelmente curto ou longo
e que menos do que as garças,
que não as graças e suas parcas primas,
me interessam. Há pouco disse o oposto
e agora percebo tal estratégia do dizer,
que como é sabido muito fingem os poetas
e, por que não, também neste inconclusivo texto
(falso: basta de mentiras).
Também nas duas extremidades visuais
há costões ao oceano expostos:
perfazem algo como um enorme anfiteatro
no qual de fato nada acontece: aqui há monólitos
quase a pique e tão gigantescos que a linha da estrada
em sua silhueta desaparece, quando vistos à distância.
Este é o Mar dos Atlantes num cenário deles digno:
aqui poderiam engalfinhar-se em sua guerra. Mas não.
A ele voltei já faz um tempo, e tanto como à dita
“água do meu pensamento” (já não sei o quanto
nela há de verdade ou se a emana caso exista:
água lustral ou mero torvelinho liqüefazente?
E existirá de fato? Em caso positivo,
nela prossigo imerso ou naufragante?).
Há vinte e cinco anos, em Santa Bárbara, em
outro poema, houve falésias, e um convite que jamais
faria de novo a alguém, nem às garças nem às graças,
nem a nenhum sequer amante: já mais. Je vous en jure.
Minha viagem pela matéria hoje é solitária.
Observo
novamente
as ditas garças.
Sobre a areia em trânsito para o mar
ainda me obceca a impermanente escritura cuneiforme
dos tatibitates pèzitos das gratuitas
aves.
594
Horácio Costa
História Natural
Detrás do taxidermista, há a palha,
detrás do rinoceronte, a savana,
detrás desta escritura só a noite,
a noite que galopa até o fronte.
Na asa da mariposa assoma a lua,
na cabeça do alfinete brilha o sol,
nestas linhas reverbera um sol negro,
o astro que ora sobe no horizonte.
O animal dissecado da sintaxe
provê o verbo, o bastidor e a legenda
duma coleção mais morta que os mortos.
No gabinete de história natural
o visitante-leitor detém-se face
a mamíferos e insetos reluzentes.
detrás do rinoceronte, a savana,
detrás desta escritura só a noite,
a noite que galopa até o fronte.
Na asa da mariposa assoma a lua,
na cabeça do alfinete brilha o sol,
nestas linhas reverbera um sol negro,
o astro que ora sobe no horizonte.
O animal dissecado da sintaxe
provê o verbo, o bastidor e a legenda
duma coleção mais morta que os mortos.
No gabinete de história natural
o visitante-leitor detém-se face
a mamíferos e insetos reluzentes.
810
Cleonice Rainho
Eu e a Maçã
A maçã é redonda,
vermelha,
lisinha
e na haste seca
tem uma folhinha.
É tão linda
que nem quero comê-la
e vou guardá-la,
enquanto puder,
pois, ao vê-la,
fico alegre
e sinto meu rosto
parecido com ela.
vermelha,
lisinha
e na haste seca
tem uma folhinha.
É tão linda
que nem quero comê-la
e vou guardá-la,
enquanto puder,
pois, ao vê-la,
fico alegre
e sinto meu rosto
parecido com ela.
1 303
Cleonice Rainho
Passarinhos
No fio grosso,
um molho de fios,
passarinhos pousam
e cantam de manhãzinha.
São fios do telefone,
vão levar recados pra alguém,
trazer recados pra mim.
Mas o canto fica,
— trinados de alegria
que vêm com o sol do dia.
um molho de fios,
passarinhos pousam
e cantam de manhãzinha.
São fios do telefone,
vão levar recados pra alguém,
trazer recados pra mim.
Mas o canto fica,
— trinados de alegria
que vêm com o sol do dia.
1 068
Jacques Brel
O último jantar
Em meu último jantar
Quero ver meus irmãos
Meus cachorros e gatos
E a beira do mar
No meu último jantar
Quero ver meus vizinhos
E os chineses vindo
Como se fossem primos
Também quero tomar
Da missa o vinho
Esse vinho divino
Que eu bebia em Arbois
E quero devorar
Depois da batina
Um frango faisão
Vindo de Perigord
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver as árvores que dormem
De braços cruzados
Depois quero ainda
Jogar pedras pra cima
E gritar Deus está morto
Pela última vez
No meu último jantar
Com meu burrinho quero estar
Com os frangos e gansos
Mulheres e vacas
No meu último jantar
Quero ver as meninas
Das quais fui o mestre
Ou que foram amantes
E quando de barriga cheia
Pronto para o enterro
Vou quebrar meu copo
Pedindo silêncio
Vou cantar aos brados
À morte que vem
Os amores que de tão devassos
Chegam a amedrontar
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver o sol que caminha
A se pôr lentamente
E ainda de pé
Vou insultar os burgueses
Sem remorso e sem medo
Pela última vez.
Após meu último jantar
Quero que a gente vá
Satisfeito e farto
Para algum outro lugar
Após meu último jantar
Quero me sentar
A sós como um rei
Recebendo as vestais
Em meu cachimbo vou queimar
Lembranças da infância
Sonhos inacabados
Restos de esperança
E vou guardar
Para vestir a alma
A ideia de roseira
E um nome de mulher
Depois vou olhar
Para o alto da colina
Que dança que pressente
Que acaba por afundar
E no cheiro das flores
Que em breve sumirá
Sei o medo que terei
Pela última vez
(tradução de Marília Garcia)
:
Le dernier repas
A mon dernier repas
Je veux voir mes frères
Et mes chiens et mes chats
Et le bord de la mer
A mon dernier repas
Je veux voir mes voisins
Et puis quelques Chinois
En guise de cousins
Et je veux qu'on y boive
En plus du vin de messe
De ce vin si joli
Qu'on buvait en Arbois
Je veux qu'on y dévore
Après quelques soutanes
Une poule faisane
Venue du Périgord
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir les arbres dormir
En refermant leurs bras
Et puis je veux encore
Lancer des pierres au ciel
En criant Dieu est mort
Une dernière fois
A mon dernier repas
Je veux voir mon âne
Mes poules et mes oies
Mes vaches et mes femmes
A mon dernier repas
Je veux voir ces drôlesses
Dont je fus maître et roi
Ou qui furent mes maîtresses
Quand j'aurai dans la panse
De quoi noyer la terre
Je briserai mon verre
Pour faire le silence
Et chanterai à tue-tête
A la mort qui s'avance
Les paillardes romances
Qui font peur aux nonnettes
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir le soir qui chemine
Lentement vers la plaine
Et là debout encore
J'insulterai les bourgeois
Sans crainte et sans remords
Une dernière fois
Après mon dernier repas
Je veux que l'on s'en aille
Qu'on finisse ripaille
Ailleurs que sous mon toit
Après mon dernier repas
Je veux que l'on m'installe
Assis seul comme un roi
Accueillant ses vestales
Dans ma pipe je brûlerai
Mes souvenirs d'enfance
Mes rêves inachevés
Mes restes d'espérance
Et je ne garderai
Pour habiller mon âme
Que l'idée d'un rosier
Et qu'un prénom de femme
Puis je regarderai
Le haut de ma colline
Qui danse qui se devine
Qui finit par sombrer
Et dans l'odeur des fleurs
Qui bientôt s'éteindra
Je sais que j'aurai peur
Une dernière fois.
.
.
.
1 064
Horácio Costa
Três laranjas
vida maior que eu próprio
anárquico proliferante alfabeto
que se detém como um gato rebelde
sobre a face sem fim desta laranja
sobre a mesa da sala pousada
asteróide abandonado ao próprio eixo
no crepúsculo explodido desde adentro
vida cristalizada num salto
sobre o verbo que encolhe as garras
sobre a pauta do minuto calmo
onde nesta pele ao azar incidem
as demais por nascer e as já pulsadas
poros espelhos de vulcões irradiantes
fruto estático, padrão concêntrico
reflexo amarelo de uma vida em transe
apetecível gota de um orgasmo cósmico
animal demais que se esconde em si
pelo prazer de dar-se e consumir-se inteiro
sob a urgência de meus sentidos turvos
vida que degusto e não compreendo
teu sumo é pouco para matar a sede
anárquico proliferante alfabeto
que se detém como um gato rebelde
sobre a face sem fim desta laranja
sobre a mesa da sala pousada
asteróide abandonado ao próprio eixo
no crepúsculo explodido desde adentro
vida cristalizada num salto
sobre o verbo que encolhe as garras
sobre a pauta do minuto calmo
onde nesta pele ao azar incidem
as demais por nascer e as já pulsadas
poros espelhos de vulcões irradiantes
fruto estático, padrão concêntrico
reflexo amarelo de uma vida em transe
apetecível gota de um orgasmo cósmico
animal demais que se esconde em si
pelo prazer de dar-se e consumir-se inteiro
sob a urgência de meus sentidos turvos
vida que degusto e não compreendo
teu sumo é pouco para matar a sede
712
Cleonice Rainho
A Floresta
A floresta é fortaleza
de verdes castelos.
Unem-se as copas
em tetos curvos
verde variado, veludo
— abóbada de beleza —
que lenhosas colunas
sustentam.
Farfalha o vento em volta
da folhagem fechada,
onde nem o sol pode penetrar.
Sobem heras,
descem lianas
que se alastram às raízes,
entre musgos e nascentes,
brotando nas sombras.
Mora o silêncio
nas grutas de mistério.
Mas a vida vem,
vem de pios, cicios,
estalos, rumores,
alaridos, zumbidos,
entre mil aromas
de resinas e flores.
A vida vem
dos pássaros que cantam
e dos ninhos pendurados
nos ramos.
de verdes castelos.
Unem-se as copas
em tetos curvos
verde variado, veludo
— abóbada de beleza —
que lenhosas colunas
sustentam.
Farfalha o vento em volta
da folhagem fechada,
onde nem o sol pode penetrar.
Sobem heras,
descem lianas
que se alastram às raízes,
entre musgos e nascentes,
brotando nas sombras.
Mora o silêncio
nas grutas de mistério.
Mas a vida vem,
vem de pios, cicios,
estalos, rumores,
alaridos, zumbidos,
entre mil aromas
de resinas e flores.
A vida vem
dos pássaros que cantam
e dos ninhos pendurados
nos ramos.
1 161
Renato Rezende
Águas Além da Mente
Anseio por nadar nu
e para sempre
no lago que existe
dentro, e além
da minha própria mente.
A água deste lago
é dourada, azul.
Nela eu me torno
puro—e um.
Me lembro de uma vez estar ao lado de um lago
e sentir desejo de ser ele.
Me lembro de sentir-me excluído da natureza.
O verde, os pássaros, o sapo
parecem ser um
com o lago e o céu.
Talvez estejam para sempre submersos
nas águas de uma mente em silêncio.
Mas, e eu? No meio do caminho, entre
o pó e o êxtase, os pés e as asas.
Escrevo: Anseio pelas verdadeiras águas.
Nova York, 20 de fevereiro 1996
e para sempre
no lago que existe
dentro, e além
da minha própria mente.
A água deste lago
é dourada, azul.
Nela eu me torno
puro—e um.
Me lembro de uma vez estar ao lado de um lago
e sentir desejo de ser ele.
Me lembro de sentir-me excluído da natureza.
O verde, os pássaros, o sapo
parecem ser um
com o lago e o céu.
Talvez estejam para sempre submersos
nas águas de uma mente em silêncio.
Mas, e eu? No meio do caminho, entre
o pó e o êxtase, os pés e as asas.
Escrevo: Anseio pelas verdadeiras águas.
Nova York, 20 de fevereiro 1996
1 001
Cleonice Rainho
Angorás
Coelhinhos brancos,
no parque,
correm e brincam.
Ágeis patas,
orelhas alertas,
pontilhando o ar.
Alvíssimos, fofos,
olhos de contas,
sutilizam-se
no verde, veja-os:
Dois coelhinhos
de carícia
e Paz.
no parque,
correm e brincam.
Ágeis patas,
orelhas alertas,
pontilhando o ar.
Alvíssimos, fofos,
olhos de contas,
sutilizam-se
no verde, veja-os:
Dois coelhinhos
de carícia
e Paz.
1 003
Cleonice Rainho
Vaivém
Sobe a água,
em vapor tão leve,
que a gente não vê.
Reúne-se em gotinhas,
formando nuvens
que ornam o espaço.
Depois desce e cai,
como chuva ou neve,
e de novo sobe leve
ao alto, ao céu,
pelo mistério
desse vaivém.
em vapor tão leve,
que a gente não vê.
Reúne-se em gotinhas,
formando nuvens
que ornam o espaço.
Depois desce e cai,
como chuva ou neve,
e de novo sobe leve
ao alto, ao céu,
pelo mistério
desse vaivém.
1 589