Animais e Natureza
Marina Colasanti
VERDE, PORÉM
entre tantos arbustos
galhos
e árvores das praças
esse pássaro urbano
fez seu pouso
na viva aresta
de vidro verde
caco cravado
que ao alto do muro
defende propriedades
e fere consciências?
Marina Colasanti
TARDE FRIA
nesta tarde de pinheiros azuis
nesta casa
neste casal à frente desta casa
sentado ele no degrau da entrada
chamando inutilmente o cão.
Frio na grama descorada e alta
nos braços que ela cruza sobre o peito
no pelo do cão tocado por um vento
que não move as cortinas.
Frio na luz
a última do dia e
na atenção do cão voltada para um ponto
um ponto além do quadro
que só Edward Hopper conhece.
Marina Colasanti
CASA EM MEIO AO CAMPO
A casa abandonada
foi tomada por vacas.
Nos cômodos vazios
dorsos e chifres
são paisagem castanha
montanhas
que no vão da janela
o olho estranha.
Sobre tacos
uma vaca não pasta
uma vaca se basta
com o verde pasto
que na boca masca
Uma vaca na sala
não é sofá nem mesa
embora as quatro patas.
Não é um móvel
a vaca
que no entanto se move.
Sem ter função precisa
uma vaca na sala
visita sua estranheza.
A vaca no banheiro
não se alarma
de parede a chão
tudo é tão leite
que ela se põe
calma.
Não cabe
uma vaca
no caco
de espelho esquecido
no prego do quarto
no entanto
a prata oxidada reflete
uma curva
e o olho da vaca se abre
no olho de vidro.
Na cozinha
uma vaca
se avizinha
do mistério que o fogão apagado
não delata.
Incauta
não fareja sangue ou faca
não sabe que ali termina
sua carne
que a fome mata.
al-Khansa
28.
Fernando Pessoa
Mas ah! se a morte, sem ser nada ou noite,
Não explicasse nada, e eternamente
Vagabundos conscientes do erro eterno,
Nossas presenças pávidas girassem
Na eterna circunferência do mistério
Exuis do abstracto centro! Ah! Quem nos diz
Que aquele horror, que toda a vida fita
E não quer ver, nos não conduz a outra
Espécie de vida, sem ser esta salvo
Em não saber mais nada da verdade?
Quem diz que quando a vida cessa acaba
A ilusão, ou que a morte, libertando
Da limitada personalidade,
Em outra nos lança, sempre longe
Do ignoto ponto onde já nada é falso?
Ah! quão melhor não fora, como as aves
Ou animais dos montes e das selvas
Não conhecer de longe cousa alguma!
Porque mistério é que as estrelas fixas
Nos ergueram do chão, e a pé puseram,
Instável, o seguro animal certo
Na sua marcha olhando para o chão?
Passam os Deuses, e o próprio uno Deus
Não dura. As crenças como nuvens deixam
Os homens, e o mistério permanece.
Será porém melhor que encontrássemos
A verdade, ou que não a achemos nunca?
Quem caberá melhor ou a (...)
Ou à felicidade?
Canto das aves, som dos rios, som
Das árvores movendo-se na calma,
Quando distais do que eu mal sei que sou!
Qual é diferença entre nós que eu
(...)
Marcelo Penido Silva
Tão flácidos
lagos esparsos
calmos, iagos
- de aço -
traem azuis
(agora escuros lençóis)
e lenços tão núvios
trapos,
flutuantes,
de sol.
Não precisa noite
para ver, suspensa,
imprecisa soma
de luz, gota, mal.
Ridente iago
em ondas rôtas
murbulha
preces de cão.
Não
tão plácidos
espasmos
baços azuis . . .
(amouro oculto
dúbio
culto, culto)
trap(o)s
ondiantes
vên en
vitral . . .
Nau
dardeja, ensombra,
acácia padece;
mal querida,
tomba.
Nau . . .nau . . .
madeira despécie
lança, fenece
em lago(puro?)
de sal.
Miguel Russowsky
Noturno nº 2
A lua argêntea adorna uma paisagem maga.
A flor perfuma... A lua brilha... O vento vaga
como doce carícia angelical de pluma.
As nuvens pelo céu — enfermeiras de espuma —
se prpõe a curar qualquer dorida chaga.
No silêncio dormita um repouso de saga.
A lua brilha... O vento vaga... A flor perfuma...
Uma fada de azul — fugitiva de lenda —
escreve em cada rosa uma nova armadilha.
Cupido ergue na sombra o seu punhal de renda.
Com preguiça o relógio esquece e compartilha...
Diana vai marcando um nome em cada agenda:
A flor perfuma... O vento vaga... A lua brilha...
Millôr Fernandes
Poesia Escapista
O lugar não pode ser mais belo.
São duas colinas e, conseqüentemente,
Um vale. Há um rio. E há um lago.
Doutrinas não há, a não ser as do
"Centro Acadêmico Dom Casmurro".
Mas isso é distante.
De manhã vê-se se o céu está claro
Ou nublado.
Previsões só as sobre o decorrer
(Meteorológico) do dia.
Planos — os de ir a pé ou a cavalo
Para o banho diário.
Os temores locais são poucos:
Se a ponte de madeira fica pronta antes
De São João,
Se o leite chegará para o fornecimento
De manteiga.
Não há estação de rádio.
Alguns benefícios do mundo de 60
Nos chegam pela estrada — penicilina,
Tecidos, matérias plásticas,
Adornos pessoais.
Por milagre, ninguém pede jornais.
Mas as mulheres daqui são bem tratadas
E, felizmente, nada naturais.
Muito prazer de corpo, muito ar.
Luz, água, cavalos, muita vida animal.
Definitiva ligação ao essencial.
Poucos temores, poucos riscos.
Muito pouca aflição:
A China é antiga como antigamente
Não há televisão.
Mas vem, de algum recanto sutil,
A informação
E se planta e cresce insuspeitada
Com outro nome que, traduzido,
Um dia será lido.
Pois é com alegria que o menino
Entra pela casa com um cão,
Seu amigo, seu primeiro grande amigo,
E o apresenta: "Papai, ele se chama Desintegração.
Carlos Soulié do Amaral
O livre na paisagem
do que pássaro num ramo
de arbusto, de árvore, um
pássaro solto em plano
de ar, planando, voando
dono de si e suas asas.
Canta porque quer, pousa
onde quer e em sua pausa
toda liberdade é inverdade
porque ele a usa
sem sentido de ser
livre ou de querer.
Em verdade um gaturamo
só é pássaro num ramo
quando canta ou pia.
Então, mostra não ter amo
que não seja a alegria.
Tudo o mais nele é paisagem.
Folha ao ramo incorporada,
folha de árvore flanando,
folha no chão, semi-alada,
folha quieta entre folhagem,
no mais esta ave paisagem
é um gaturamo, mais nada.
Da Costa Santos
Vem, Poesia
das veredas do amor indefinido,
que te cinge a cabeça, com leveza,
através do caminho percorrido.
Vem para mim, do azul da natureza,
ou desse mar chorando arrependido;
põe o teu manto feito de tristeza,
veste de luz o tempo já perdido.
Vem para mim, velada de mistérios,
flor dos jardins lunares de Verona,
lua de amor vestindo os hemisférios,
Eu te darei a glória do renovo:
— vem para mim, nos braços da Madona,
"Estrela da Manhã", "Rosa do povo!"
Alfred Starr Hamilton
Uma Casca de Pão
Mirella Márcia
Quarto Soneto
Não sabem quando é noite ou quando é dia,
Nem sabem se é do sol ou do luar
A luz que os meus olhos extasia.
Os campos que me ouvem te chamar
Não lembram se é pranto ou melodia
Os sons que eu componho nesse mar
Remoto lá em minha fantasia.
De que valem todos esses campos?
De que vale no vale qualquer lírio,
Se não fia nem tece o teu rosto
Embuçado com os panos do delírio?
De que vale toda a natureza
Se eu já trago em mim tua beleza?
Maria Lúcia Dal Farra
La dame à la Licorne
A dama se faz acompanhar do unicórnio
em todas as telas
– ele passeia pelos sentidos dela.
Faz gosto vê-lo assim,
doméstico,
mimoso animal de estimação
indeciso entre cão e gato.
Dela,
a vista se espraia
pelo corno branco de lua
enquanto tateia na pluma que o recobre
a ave de cascos suspensa
sobre o espírito da tapeçaria.
Dele,
o focinho inspira flores ao derredor,
ramagens, maçã, perfumes:
o meigo bichinho ensina à dama o regime do sol.
Sua voz indivisa é guia
e a dama apanha as cifras:
são raízes, fósseis que se desprendem das pedras,
ocultas nascentes reclamando o ouvido.
Ele passa-lhe tudo o que sabe.
Mas é o amor dela que lhe dá sentido.
Maria Lúcia Dal Farra
A música
ela vibra. O leão aprofundado no instrumento
espera o momento certo para saltar –
que é quando se casa o sopro
com as cordas.
Tudo lhe á de lembrar a floresta
o som do vento
o riacho quebrando-se
a flecha que o espera para segui-lo
sem, contudo, nunca o alcançar.
A música é para ouvir e lembrar
(sobretudo)
o jamais vivido,
o que não teve memória.
Mesmo o monocorde das cores
não impede a passagem do que silva e se alça
– como por encanto.
Daí seu fascínio,
a mágica a perscrutar
(nas nossas fibras)
a ressonância que a funda
– apenas a ela.
Tatiana Ramminger
Oferenda
Nos meus momentos de inconsciência
Nos meus momentos de inconsistência
Em um acaso muito bem planejado
Meu beija-flor inconseqüente
Me leva
Ao teu escorpião de asas azuis
E quanto estrago não fazem
Impregnados
Embriagados
Da vida
Pintada relaxadamente com cores fortes
Ofuscando olhares
Desfazendo contornos
Jogando de sombras
Que trazem a realidade
Em oferenda
Teófilo Dias
A Matilha
Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,
A matilha feroz persegue enfurecida,
Alucinadamente, a presa malferida.
Um, afitando o olhar, sonda a escura folhagem;
Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,
O fresco, vivo odor, cálido, penetrante,
Que, na rápida fuga, a vítima arquejante
Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;
Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,
Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram,
E, cheios de furor frenético, respiram,
Ora, cegos de raiva, afastados, disperses,
Arrojam-se a correr. Vão por trilhos diversos,
Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.
Transpõem num momento os vales e as colinas,
Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,
Recruzam-se febris em direções opostas,
Té que da presa, enfim, nos músculos cansados
Cravam com avidez os dentes afiados.
Não de outro modo, assim meus sôfregos desejos,
Em matilha voraz de alucinados beijos
Percorrem-te o primor às langorosas linhas,
As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,
Frescas ondulações de formas florescentes
Que o teu contorno imprime às roupas eloqüentes:
O dorso aveludado, elétrico, felino,
Que poreja um vapor aromático e fino;
O cabelo revolto em anéis perfumados,
Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;
As fibrilhas sutis dos lindos braços brancos,
Feitos para apertar em nervosos arrancos;
A exata correção das azuladas veias,
Que palpitam, de fogo entumescidas, cheias,
— Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a presa — o gozo — em tua boca.
Tereza Cristina Fraga
Querendo
Traz as pessoas para começar o dia.
As crianças sonolentas
Os adultos quase despertos.
Na copa eståo as Marias
Na porta o Joåo
Nas ruas a solidåo.
Sobre um céu
Dentro da terra
E o mar qual distante de meus olhos
Que eståo perto do cerrado
Tristes
Encabulados.
Procurando uma vontade
Esse tolo desejo
De mato molhado.
De um bicho ao meu lado.
Manuel Bandeira
Comentário Musical
Entram por ele dentro
Os ares oceânicos,
Maresias atlânticas:
São Paulo de Luanda, Figueira da Foz, praias gaélicas da Irlanda...
O comentário musical da paisagem só podia ser o sussurro sinfônico da vida civil.
No entanto o que ouço neste momento é um silvo agudo de sagiúim:
Minha vizinha de baixo comprou um sagiim.
Manuel Bandeira
Chambre Vide
Reste encore dans la chambre
La nuit est si noire dehors
Et le silence pêse
Ce soir je crains la nuit
Petit chat frêre du silence
Reste encore
Reste auprês de moi
Petit chat blanc et gris
Petit chat
La nuit pêse
Il n'y a pas de papillons de nuit
Ou sont donc ces bêtes?
Les mouches dorment sur le fil de Pélectricite
Je suis trop seul vivant dans cette chambre
Petit chat frere du silence
Reste à mes côtés
Car il faut que je sente la vie auprês de moi
Et c'est toi qui fais que la chambre n'est pas vide
Petit chat blanc et gris
Reste dans la chambre
Eveillé minutieux et lucide
Petit chat blanc et gris
Petit chat.
Petrópolis, 1925
Manuel Bandeira
Lenda Brasileira
o Veado Branco! Bentinho ficou pregado no chão. Quis puxar o gatilho e
não pôde.
— Deus me perdoe!
Mas o Cussaruim veio vindo, veio vindo, parou junto do caçador e começou a comer devagarinho o cano da espingarda.
Robin Blaser
Romance
Herculano Moraes
A canga-o Boi
na alternância
de quem soluça
um tempo imaginário.
A canga e o boi
vaga lembrança
de um mundo
sempiterno e vário.
A canga e o boi
legenda esmaecida
na face opaca
de um tempo sem medida.
A canga e o boi
gravura como (vida)
filete sanguíneo na face
da memória... diluída.
A canga...
O boi...
Os sulcos perenes,
de rodas ringindo
na pele do tempo.
A canga...
E o boi?
Afonso X
Cantiga CCXXXII
Branquinho da Fonseca
Castanheiros, Irmãos
Carregados de ouriços que são ninhos
Onde as castanhas dormem como noivos!
Troncos abertos,
Casas abertas,
Ao vosso abrigo
Dormem os pobres,
Pegam no sono,
Passam as noites
Quando cai neve!
Peitos vazios,
Escancarados,
Sem nada dentro,
Nem coração!
Dais lume, calor
E dais sustento para a mesa,
E dais o mais que eu não sei!...
Ó castanheiros de folhas de ouro,
Apenas sou vosso irmão
Em que a terra vos criou
E criou-me a mim também;
Em que vós ergueis os braços
Suplicantes para os céus
E eu também levanto os meus...
Ah! Castanheiros, mas eu
Grito e vós ficais calados!
Seremos, por isto só,
Irmãos? Seremos? Não sei:
Vós tendes roupas de rei,
Eu tenho roupas de Job;
Vós só gritais quando o vento
Vos abre a boca e fustiga:
Então ergueis um clamor...
— Não calo nunca no peito
A dor do meu sofrimento
E nunca chego a dize-la,
Nem há ninguém que me diga.
Ó castanheiros de folha de ouro,
Não,
Eu não sou vosso irmão!...