Poemas neste tema

Animais e Natureza

Antônio Sales

Antônio Sales

Terra de Sol

O áureo malho do sol bate na incude
Da rocha estriada de malacachetas,
E mil faíscas, nesse embate rude,
Se desprendem das rútilas facetas.

Sem uma sombra amiga que as escude
Contra a soalheira, que abre o chão em gretas,
Buscam sedentas o longínquo açude
Vacas ossudas de engelhadas tetas,

É de ouro fulvo a grama ressequida;
A estrada poenta, em sinal de viga
Para os sertões intérminos se alonga...

E na mudez da abóbada infinita
Ouvi: parece que é a luz que grita
No tinido estridente da araponga.

1 540
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Estado Das Coisas do Mundo Vistas a Partir da Janela de Um 3O Andar

olho para uma garota vestindo um
suéter verde-claro, shorts azuis, longas meias negras;
usa algum tipo de colar
mas seus seios são pequenos, pobrezinha,
e ela confere as unhas
enquanto seu cachorro branco e encardido fareja a grama
em erráticos círculos;
um pombo também está por ali, circulando,
semimorto com seu cérebro de ervilha
e eu estou andares acima em minha roupa de baixo,
barba de 3 dias, servindo uma cerveja e esperando
que alguma coisa literária ou simbólica aconteça;
mas eles seguem circulando, circulando, e um homem velho e magro
em seu último inverno desliza puxado por uma garota
com um uniforme de escola católica;
para algum lugar além há os Alpes, e navios
cruzam agora mesmo o mar;
há pilhas e mais pilhas de bombas-H e -A,
suficientes para explodir cinquenta vezes o mundo e Marte junto,
mas eles seguem circulando,
a garota movimentando o traseiro,
e as colinas de Hollywood mantêm-se lá, mantêm-se lá
cheias de bêbados e pessoas insanas e
muitos beijos nos automóveis,
mas isso nada resolve: che sera, sera:
seu cachorro branco e encardido não cagará,
e com um último olhar para as unhas
ela, fazendo rebolar ao máximo o traseiro
desce em direção ao pátio
seguida por seu cachorro constipado (simplesmente sem se importar),
deixando-me a ver o pombo mais antissinfônico.
bem, quanto ao balanço das coisas, relaxe:
as bombas nunca vão ser detonadas.
1 052
Batista Cepelos

Batista Cepelos

Ecce Homo

Trazendo à Natureza uma pujança brava
A doirada sazão do viço e da alegria,
Dispersada por tudo, a Vida triunfava,
Enquanto o Sol, por toda a esfera, ria... ria...

Ria de flor em flor; no inseto que passava,
Ria; nas virações, no azul, na pedra fria,
No pássaro gentil, na furna esconsa e cava,
Ria; por toda parte, em suma, ria... ria...

E o Rei da Criação, o Homem, pausado e lento,
Cravou o olhar no céu, numa grande tristeza,
Que era a sombra talvez de um grande pensamento...

E, alto, na solidão, que lhe aumentava o porte,
Em meio às expansões joviais da Natureza,
Ele tinha na fronte a palidez da morte...

1 301
Alcides Freitas

Alcides Freitas

O Bambu

Exposto ao dia, à noite, à beira da lagoa,
Onde se miram, rindo, as boninas do prado,
Vive um velho bambu, velho, curvo e delgado,
A escutar a canção que o triste vento entoa...

Jamais os leves pés de um trovador alado,
Desses que pela mata andam cantando à toa,
Pousara-lhe num ramo! Apenas o povoa
Alta noite, agourento, um corujão rajado...

E vive, — arcaico monge a gemer solitário, —
A sua dor sem fim, o seu viver mortuário,
Tristonho a refletir no fundo azul das águas...

Como o bambu da mata, exposto ao sol e ao vento,
Do deserto sem fim de meu padecimento,
Triste nos olhos teus reflito as minhas mágoas!...

1 860
Beni Carvalho

Beni Carvalho

Descendo o Jaguaribe

I
Canta, no agalho agreste, o passaredo... Canta...
Em flor o cajueiral farfalha; o vento açoita...
E vai, de fronde em fronde, e vai, de moita em moita,
Áurea, a luz da manhã que, a sombra, abate e espanta.

Alto, côncavo, azul, escampo, o céu! Levanta
O vôo uma ave, além, que o bamburral acoita;
Não mais a verde mata a treva espessa enoita,
E tudo brilha, e esplende, e exulta, e harpeja, e encanta!

Claro, ao sol refulgindo, o Jaguaribe, lento,
Coleia, estuante, a arfar, os mangues alagando,
E, à praia, o coqueiral move e fustiga o vento...

Ao longe passa a voar, de marrecas um bando...
O rio, ansiando mais, lança-se ao Mar violento:
E o hino triunfal da Luz, ei-lo que vai cantado!...

895
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Todo dia, à caça

Na savana da tv
a fêmea de leopardo vai à caça.
Aumento o som
para alcançar o vento granulado
que bate o mato ralo.
Há uma impala que pasta
com sua cria
um cheiro que não sinto e que lhe chega
afiando as orelhas.
A impala é uma cabeça atenta
em contraluz.
E na luz
areia sobre areia
avança rastejando o dorso maculado.
Zoom para a impala em fuga
rasgados verdes
guinchos
e o torvelinho em bote sobre a carne.
Um corte poupa o sangue
areia e silêncio amortalham a imagem
dois olhos de sol coado brilham vitoriosos.
A tela devolve o filhote de impala
morto
na boca da leoparda.

Pendente
vai o pequeno impala entre dentes
filho que era
agora repasto
levado para outros filhos que esperam.
Uma manada de elefantes
atravessa o caminho com barridos e abanadas orelhas.
Altiva
a caçadora segue caminho.
Que se respeite a fêmea que leva comida para casa.

Por trás dos créditos que sobem enquanto ela se afasta
eu me vejo
caçadora urbana
como ela em busca de comida para os meus
quando pela calçada da volta
com a presa nos sacos do supermercado
passo pelos traficantes da favela ao lado
e sigo
sem alterar o rumo
ou desviar o olhar.
1 067
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Quando fomos a Delfos

Eu estava encharcada de cortisona
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
1 203
Luci Collin

Luci Collin

Alinho

É preciso voltar
às rosas mais antigas
e suas exuberâncias
e seus frêmitos de infinito
às palavras surgentes
às vozes prometidas
nos ecos do que amanhece

é preciso voltar
aos gatos que compõem a noite
às cálidas cantorias
ao flagrante do gosto
aos votos interrompidos
às garatujas nos muros
às cigarras já sem valia

voltar será sempre preciso
girar a chave de formato único
pisar nas tábuas lassas e confessas
ouvir o apelo do oco
a ascese dos líquens no tronco
fazer irromper acenos que
contem não só desfechos.

Os silêncios recuperam
a porosidade das rochas
o advento das peças da flor
o insabido da brasa
e a razão à palavra.

É preciso acalentar
o momento em que se resolve
a história do espinho

e saborear
o estremecimento.
697
Bocage

Bocage

Quer ver uma perdiz chocar um rato,

Quer ver uma perdiz chocar um rato,
Quer ensinar a um burro anatomia,
Exterminar de Goa a senhoria,
Ouvir miar um cão, ladrar um gato;

Quer ir pescar um tubarão no mato,
Namorar nos serralhos da Turquia,
Escaldar uma perna em água fria,
Ver um cobra castiçar coum pato;

Quer ir num dia de Surrate a Roma,
Lograr saúde sem comer dois anos,
Salvar-se por milagre de Mafoma;

Quer despir a bazófia aos Castelhanos,
Das penas infernais fazer a soma,
Quem procura amizade em vis gafanos.

1 579
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Tinnitus auricularis

Há muito
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.

Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.

Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.

E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
1 130
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Na encosta são

Os ciprestes
na encosta
não são árvores.

Os ciprestes
na encosta são
pontos de exclamação
da natureza.

Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
990
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Como nada

No quinto degrau
da escada do jardim
o gambá morto.
Nem pássaro
nem cão
de quem é fácil
apiedar-se.
Apenas um gambá
cadáver sem glamour
e sem disfarces
morte
nua
plantada como nada
em meio à escada.
1 191
Vitor L. Mendes

Vitor L. Mendes

Poemas ao Vento

A poesia cavalga no sopro do vento.
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.

O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.

Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.

Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.

Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...

1 074
Leila Mícollis

Leila Mícollis

Arte Marajoara (II)

Salgado por chorar há tanto tempo
a morte de seus filhos mais amados
— peixes-bois e namorados,
muçuãs, atuns, baleias —,
o mar em extinção e em permanente vazante
entoa réquiem fúnebre e dissonante:
seu derradeiro canto da sereia.


In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. Rio de Janeiro: Blocos, 1992. v.2, p.5
1 102
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Nunca se perguntou

Porque vivia sozinha
em Nova York
toda semana ia
à mesma peixaria em Chinatown
comprar a tartaruga viva.
Depois
dura casca metida em saco plástico
ia atirá-la no Hudson.
Nunca se perguntou
o que acontecia à tartaruga
na água turva
mancha entre manchas
nunca se perguntou
se submersa se enredava em correntes
âncoras cabos
se era estraçalhada pelos hélices.
la toda semana deixar seu dinheiro
na pálida mão do peixeiro chinês
e caminhava até o rio
sentindo estremecer as nadadeiras
para entregá-la ao Hudson
e acreditá-la livre.
1 275
Marina Colasanti

Marina Colasanti

De encrespado dorso

Na manhã nublada
eu disse ao lago:
granito.
Ofendeu-se.
Agora
se encrespa
réptil tentando livrar-se
do couro
em toda sua longa extensão
e morde
em espuma
a darsena.


Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 079
Vargas Neto

Vargas Neto

Meio-dia

Todo o ar treme sob o sol do meio-dia!
O capim se dobrou sobre si mesmo, trepidando...
A gente olhando o campo
tem a impressão que derramam sobre ele
qualquer coisa derretida !

O gado invadiu as restingas e os capões,
para fugir à graxa quente, que o sol derrama
derretida
sobre a grama.

No lombo da coxilha
só um cavalo velho bate o casco,
varado de sede,
porque teve preguiça de fugir do sol,
porque tem preguiça de descer à sanga
Debaixo dos cinamomos da fazenda
a peonada dorme, estirada de costas, com o chapéu nos olhos.

Um guaipeca, deitado aos pés de um peão
erra bocadas nas moscas, estalando os dentes.
Depois cocoricoca uma galinha que botou
e tudo volta ao silêncio porque o calor tonteia.

Até o vento tem preguiça de ventar!...
Apenas se ouve, zunindo, longo, infindo,
o monótono zunzum das moscas vagabundas...

981
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Lado do Sol

os touros são grandes como o lado do sol
e ainda que os matem para as multidões apodrecidas,
é o touro que faz queimar o fogo,
e ainda que haja touros covardes como
há matadores covardes e homens covardes,
o touro em geral permanece puro
e morre puro
intocado por símbolos e conchavos e falsos amores,
e quando eles o arrastam
nada está morto
alguma coisa passou
e o fedor eventual
é o mundo.
1 180
Yeda Prates Bernis

Yeda Prates Bernis

Variações em Tom Maior

A noite, trêmula,
com seu fardo de sombras
nos ombros.

Ponteiros invisíveis giram,
esgarçam, pouco a pouco,
um fado de opaca tristeza.

Um galo, voz claríssima,
chameja em prata
espaço entre as trevas.

Borboletas brincam de roda:
sobre um sino
acordam o silêncio de bronze.

Uma azaléia
molhada de cristal
ensaia vôo.

Asas de andorinhas
salpicam no céu
claridades e levezas.

835
Neide Archanjo

Neide Archanjo

A gota

A gota
se desloca do rio de gotas
e antes de mergulhar
ávida
na minha mão
recolhe um momento
de diamante ou de cristal.


Poema integrante da série Fragmentos.

In: ARCHANJO, Neide. Escavações. Pref. Carlos Felipe Moisés. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. (Poiesis)
1 121
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Padre E o Matador

no lento ar mexicano assisto o touro morrer
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
1 087
Luís Delfino

Luís Delfino

O Lago

Mulher, és como um lago em flor, que se ilumina
Ao sol, e como a flor abre o seio esplendente;
Eu me banhava em ti desassombradamente,
Água, flor da manhã, branca flor da campina.

Dos pássaros em torno a canção matutina
Fazia rir de gozo e arfar de amor o ambiente;
Cantava pelo espaço a primavera olente,
Cantava a aura do céu, cantava a luz divina.

Mármore unido, que veia azul brando apenas,
Parecias ouvir, cismando, as cantilenas,
Que enchiam toda a veiga, abrasada de aurora.

O! lago, eu me banhava em ti; mas de improviso
Fui ao fundo, e no fundo achei o paraíso:
E onde o paraíso está, eu sei agora...


Publicado no livro Íntimas e Aspásias (1935). Poema integrante da série Íntimas.

In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.94. (Os Melhores poemas, 23
2 315
Antônio Chaves

Antônio Chaves

Descendo o Parnaíba

Nas águas, vê que límpidas bonanças...
Que verde o destas árvores florindo!
Parece o verde dessas esperanças
Que em nossos corações brotam sorrindo.

Como as almas sonâmbulas e mansas
Dos lírios virginais que estão dormindo,
Quantas almas de cândidas crianças
Há nas estrelas que já vêm surgindo!

Tu és um quadro desta Natureza!
Minha alma, ao ver em ti tanta beleza,
De ti somente se tornou cativa...

Sem sol a flor sucumbe, morre a planta...
Dá que eu sinta, portanto, ó minha Santa,
O sol do teu amor! Faze que eu viva!

980
Zuleika dos Reis

Zuleika dos Reis

Primavera

Margaridas brancas.
No jardim do meu vizinho,
a primavera.

Rãzinha verde. Entre
as folhas, brinca de
esconde-esconde.

Pétala a pétala
com delícia se desfolha
a alcachofra.

935