Poemas neste tema

Animais e Natureza

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Leão-Marinho

Suspendei um momento vossos jogos
na fímbria azul do mar, peitos morenos.
Pescadores, voltai. Silêncio, coros
de rua, no vaivém, que um movimento

diverso, uma outra forma se insinua
por entre as rochas lisas, e um mugido
se faz ouvir, soturno e diurno, em pura
exalação opressa de carinho.

É o louco leão-marinho, que pervaga,
em busca, sem saber, como da terra
(quando a vida nos dói, de tão exata)

nos lançamos a um mar que não existe.
A doçura do monstro, oclusa, à espera...
Um leão-marinho brinca em nós, e é triste.
1 146
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Rouxinol que não cantaste,

Rouxinol que não cantaste,
Gaio que não cantarás,
Qual de vós me empresta o canto
Para ver o que ela faz?
960
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Tríptico de Sônia Maria do Recife

I

Meu Santo Antônio de Itabira
ou de Apipucos
ensina-me um verso
que seja brando e fale de amanhecer
e se debruce à beira-rio
e pare na estrada
e converse com a menina
como se costuma conversar com formigas
besouros
folhas de cajueiro de ingazeiro de amendoeira
esses assuntos importantíssimos
que não adianta o rei escutar
porque não entende nossa linpin-guapá-gempém.
1 146
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Sonetos do Pássaro

I

Amar um passarinho é coisa louca.
Gira livre na longa azul gaiola
que o peito me constringe, enquanto a pouca
liberdade de amar logo se evola.

É amor meação? pecúlio? esmola?
Uma necessidade urgente e rouca
de no amor nos amarmos se desola
em cada beijo que não sai da boca.

O passarinho baixa a nosso alcance,
e na queda submissa um voo segue,
e prossegue sem asas, pura ausência,

outro romance ocluso no romance.
Por mais que amor transite ou que se negue,
é canto (não é ave) sua essência.
1 664
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Las hojas del ciprés

Tengo un solo enemigo. Nunca sabré de qué manera pudo entrar en mi casa, la noche del 14 de abril de 1977. Fueron dos las puertas que abrió: la pesada puerta de calle y la de mi breve departamento. Prendió la luz y me despertó de una pesadilla que no recuerdo, pero en la que había un jardín. Sin alzar la voz me ordenó que me levantara y vistiera inmediatamente. Se había decidido mi muerte y el sitio destinado a la ejecución quedaba un poco lejos. Mudo de asombro, obedecí. Era menos alto que yo pero más robusto y el odio le había dado su fuerza. Al cabo de los años no había cambiado; sólo unas pocas hebras de plata en el pelo oscuro. Lo animaba una suerte de negra felicidad. Siempre me había detestado y ahora iba a matarme. El gato Beppo nos mirabas desde su eternidad, pero nada hizo para salvarme. Tampoco el tigre de cerámica azul que hay en mi dormitorio, ni los hechiceros y genios de los volúmenes de Las mil y una noches. Quise que algo me acompañara. Le pedí que me dejara llevar un libro. Elegir una Biblia hubiera sido demasiado evidente. De los doce tomos de Emerson mi mano sacó uno, al azar. Para no hacer ruido bajamos por la escalera. Conté cada peldaño. Noté que se cuidaba de tocarme, como si el contacto pudiera contaminarlo.

En la esquina de Charcas y Maipú, frente al conventillo, aguardaba un cupé. Con un ceremonioso ademán que significaba una orden hizo que yo subiera primero. El cochero ya sabía nuestro destino y fustigó al caballo. El viaje fue muy lento y, como es de suponer, silencioso. Temí (o esperé) que fuera interminable también. La noche era de luna serena y sin un soplo de aire. No había un alma en las calles. A cada lado del carruaje las casas bajas, que eran todas iguales, trazaban una guarda. Pensé: Ya estamos en el Sur. Alto en la sombra vi el reloj de una torre; en el gran disco luminoso no había guarismos ni agujas. No atravesamos, que yo sepa, una sola avenida. Yo no tenía miedo, ni siquiera miedo de tener miedo, ni siquiera miedo de tener miedo de tener miedo, a la infinita manera de los eleatas, pero cuando la portezuela se abrió y tuve que bajar, casi me caí. Subimos por unas gradas de piedra. Había canteros singularmente lisos y eran muchos los árboles. Me condujo al pie de un de ellos y me ordenó que me tendiera en el pasto, de espaldas, con los brazos en cruz. Desde esa posición divisé una loba romana y supe dónde estábamos. El árbol de mi muerte era un ciprés. Sin proponérmelo repetí la línea famosa: Quantum lenta solent inter viburna cupressi.

Recordé que lenta, en ese contexto, quiere decir flexible, pero nada tenían flexibles las hojas de mi árbol. Eran iguales, rígidas y lustrosas y de materia muerta. En cada una había un monograma. Sentí asco y alivio. Supe que un gran esfuerzo podía salvarme. Salvarme y acaso perderlo, ya que, habitado por el odio, no se había fijado en el reloj ni en las monstruosas ramas. Solté mi talismán y apreté el pasto con las dos manos. Vi por primera y última vez el fulgor del acero. Me desperté; mi mano izquierda tocaba la pared de mi cuarto.
Qué pesadilla rara, pensé, y no tardé en hundirme en el sueño.

Al día siguiente descubrí que en el anaquel había un hueco; faltaba el libro de Emerson, que se había quedado en el sueño. A los diez días me dijeron que mi enemigo había salido de su casa una noche y que no había regresado. Nunca regresará. Encerrado en mi pesadilla, seguirá descubriendo con horror, bajo la luna que no vi, la ciudad de relojes en blanco, de árboles falsos que no pueden crecer y nadie sabe qué otras cosas.



"Los conjurados" (1985)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 615 e 616 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 953
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Devolução

A noite veio, dispersou meu corpo,
e os ventos me passearam pelo campo.
Ah minha carne misturada à terra,
meus ossos desmanchando-se no frio
secular dos rios que me despejam
envolto em musgo e lama contra as pedras.
Meus olhos desmoronam-se no verde
e a paisagem traspassa-me as retinas.
Meus dedos carcomidos se desfazem
pelos vãos das folhas, de volta ao pó.
De minha boca inútil nascem rosas
brancas, Eu chovo, eu vicejo, eu me planto,
e um dia eu vou brotar por entre as pedras
frias, mais puro, transformado em verde.

1 054
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Baila o trigo quando há vento

Baila o trigo quando há vento
Baila porque o vento o toca
Também baila o pensamento
Quando o coração provoca.
2 747
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Cavalo Alado

Foi como ervas e arrancaram-no.
Hoje pasta absorto em campo sombrio
(perdido vôo, exílio nefasto) e
lambe cicatrizes de ferida nenhuma.

Às vezes relincha, reclina
o dorso à procura de um rasto,
resto de fome clandestina,
mas não rasteja: ergue a fronte
e sopra dardos de fogo no horizonte.

O pouco do nada que lhe coube
é muito. O peito chora sem lágrimas
enquanto a cauda e a mansa crina
ondulam (brisa leve, pranto
alheio), rolando nas dunas
e nas ervas que foi, entre urzes.

Arrancaram-no mal raiou a madrugada.
Hoje pasta absorto entre sombras,
se alimenta da noite e sabe
que eterno dura. Mais nada.

(Subsolo, São Paulo, Massao Ohno, 1989)

1 296
Tite de Lemos

Tite de Lemos

God (short) story

Tudo o que eu como
e tudo pelo que eu sou comido.
A essência das flores
e a flor da essência das flores.
O que eu compreendo, que não é nada,
e o que eu não compreendo, que não é nada também.
O rinoceronte
e o unicórnio.
As estações do ano
e a paralisia infantil.
A boca das coisas
e o ânus das coisas.
A carícia catatônica
e o elegantíssimo pós-escrito de Gustave Flaubert.
O bagulho embrulhado no jornal do dia
e o imortal reflexo do luar nas águas da baía.
735
Tite de Lemos

Tite de Lemos

Altamira's gift

Esboça um caçador a sua caça
a cores sobre os muros de uma gruta.
No exterior a nuvem chumbo passa
mãe grávida do seu rebento, a Bruta
Chuva, presságio de celestes raivas
das estações nascendo sem cessar.
O escuro firmamento faiscava.
Criaturas aéreas bebem ar
que um criador lhes serve qual champagne
nos profundos copinhos. Não me estranhe,
disse-me face a face a onça pintada
nas minhas quatro ou mais interiores
paredes. Eu apenas sou seu lado
do avesso a te seguir aonde fores

850
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Quieto

sentado esta noite
a esta
mesa
junto à
janela

a mulher está
acabrunhada
no
quarto

ela está em seus
dias especialmente
ruins.

bem, eu tenho
os meus

então
em deferência
a ela

a máquina de escrever
está
parada.

é esquisito
imprimir este troço
à
mão

me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.

agora
o gato vem
me
ver

ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés

estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.

e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema

e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.

bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.

Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.

eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e

nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.


me viro
de volta

fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel

não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa

e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós

mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato

ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja

e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro

vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto

que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
1 102
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Un lobo

Furtivo y gris en la penumbra última,
va dejando sus rastros en la margen
de este río sin nombre que ha saciado
la sed de su garganta y cuyas aguas
no repiten estrellas. Esta noche,
el lobo es una sombra que está sola
y que busca a la hembra y siente frío.
Es el último lobo de Inglaterra.
Odín y Thor lo saben. En su alta
casa de piedra un rey ha decidido
acabar con los lobos. Ya forjado
ha sido el fuerte hierro de tu muerte.
Lobo sajón, has engendrado en vano.
No basta ser cruel. Eres el último.
Mil años pasarán y un hombre viejo
te soñará en América. De nada
puede servirte ese futuro sueño.
Hoy te cercan los hombres que siguieron
por la selva los rastros que dejaste,
furtivo y gris en la penumbra última.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 605 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 467
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Inquérito

Pergunta às árvores da rua
que notícia têm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
ágil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confissão.

Pergunta aos pássaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da mão de velhos
profissionais de solidão.

Pergunta às coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigília
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e não.

Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre símbolos
de símbolos outros, primeiros,
e tão acessíveis aos pobres
como a breve casca do pão.

Pergunta ao que, não sendo, resta
perfilado à porta do tempo,
aguardando vez de possível;
pergunta ao vago, sem propósito
de captar maiores certezas
além da vaporosa calma
que uma presença imaginária
dá aos quartos do coração.

A ti mesmo, nada perguntes.
733
Jean-Joseph Rabearivelo

Jean-Joseph Rabearivelo

O boi branco

Esta constelação em forma de cruz, é ela o Cruzeiro do Sul?
Eu prefiro chamá-la Boi-branco, como os Árabes.
Ele vem de um parque que se estende às margens da noite
e se enfurna entre duas Vias Lácteas.
O rio de luz não tem aplacado sua sede,
e ei-lo que bebe avidamente do golfo das nebulosas.
Sendo um efebo cego nas regiões do dia,
ele nada tem podido acariciar com seus cornos;
mas, agora que as flores nascem nas pradarias da noite
e que a lua brota de um salto como um touro,
seus olhos recobram a visão, e ele parece mais forte que os bois azuis
e os bois selvagens que dormem em nossos desertos.
Le boeuf-blanc
Cette constellation en forme de croix est-elle l’Étoile du Sud?
Je préfère l’appeler Boeuf-blanc, comme les Arabes.
Il vient d’un parc s’étendant au bord du soir
et s’engage entre deux voies lactées.
Le fleuve de la lumière ne l’a pas désaltéré,
et le voici qui boit avidement au golfe des nébuleuses.
Etant un éphèbe aveugle dans les régions du jour,
il n’a pu rien y caresser avec ses cornes;
mais, maintenant que des fleurs naissent aux prairies de la nuit
et que la lunes les broute en bondissant comme une taure,
ses yeux recouvrent la vue, et il paraît plus fort que les boeufs bleus
et les boeufs sauvages qui dorment dans nos déserts.
tradução de Antônio Moura e originais em francês
(incluídos no volumeQuase Sonhos, publicado pela Lumme Editor)
1 062
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não há abismos!

Da casa do monte, símbolo eterno e perfeito,
Vejo os campos, os campos todos,
E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira,
Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos —
Eu os aperto a meu peito, como filho que encontrasse o pai perdido.

Vivam, vivam, vivam
Os montes, e a planície, e as ervas!
Vivam os rios, vivam as fontes!
Vivam as flores, e as árvores, e as pedras!
Vivam os entes vivos e os bichos pequenos,
Os bichos que correm, insectos e aves,
Os animais todos, tão reais sem mim,
Os homens, as mulheres, as crianças,
As famílias, e as não-famílias, igualmente!
Tudo quanto sente sem saber porquê!
Tudo quanto vive sem pensar que vive!
Tudo que acaba e nunca se aumenta com nada,
Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer,
Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério,
E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida.

Ah, estou liberto!
Ah, quebrei todas
As algemas do pensamento.
Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo,
Eu o próprio abismo que sonhei,
Eu, que vi em tudo caminhos e atalhos de sombra
E a sombra e os caminhos e os atalhos eram eu!
Ah, estou liberto...
Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte
E vi o mesmo que vias, mas com meus olhos,
Verdadeiramente com meus olhos,
Verdadeiramente verdadeiros...
Ah vi que não há muitos abismos!

(...)

Não há abismos!
Nada é sinistro!
Não há mistério verdadeiro!
Não há mistério ou verdade!
Não há Deus, nem vida, nem alma distante da vida!
Tu, tu mestre Caeiro, tu é que tinhas razão!
Mas ainda não viste tudo; tudo é mais ainda!
Alegre cantaste a alegria de tudo,
Mas sem pensá-lo tu sentias
Que é porque a alegria de tudo é essencialmente inevitável.
Como cantaras alegre a morte futura

Se a puderas pensar como morte,
Se deveras sentiras a noite e o acabamento?
Não, não: tu sabias
Não com teu pensamento, mas com teu corpo inteiro,
Com todos os teus sentidos tão acordados ao mundo
Que não há nada que morra, que não há coisa que cesse,
Que cada momento não passa nunca,
Que a flor colhida fica sempre na haste,
Que o beijo dado é eterno,
Que na essência e universo das coisas
Tudo é alegria e sol
E só no erro e no olhar há dor e dúvida e sombra.
Embandeira em canto e rosas!

E da estação de província, do apeadeiro campestre,
— Lá vem o comboio!
Com lenços agitados, com olhos que brilham eternos
Saudemos em ouro e flores a morte que chega!

Não, não enganas!
Avó carinhosa de terra já grávida!
Madrinha disfarçada dos sentimentos expressos!

E o comboio entra na curva, mais lento, e vai parar...
E com grande explosão de todas as minhas esperanças
Meu coração universo
Inclui a ouro todos os sóis,
Borda-se a prata todas as estrelas,
Entumesce-se em flores e verduras,
E a morte que chega conclui que a já conhecem
E no seu rosto grave desabrocha
O sorriso humano de Deus!
1 168
Jean-Joseph Rabearivelo

Jean-Joseph Rabearivelo

Ler

Não faças ruído, não fales:
vão explorar uma floresta os olhos, o coração
o espírito, os sonhos...
Floresta secreta, porém palpável:
floresta.
Floresta de rumoroso silêncio,
floresta onde se refugiou o pássaro que se prende à laço,
o pássaro que se prende à laço, que faremos cantar
ou que faremos chorar.
Que faremos cantar, que faremos chorar
o lugar de seu nascimento.
Floresta. Pássaro.
Floresta secreta, pássaro oculto
em vossas mãos.
Lire
Ne faites pas de bruit, ne parlez pas:
vont explorer une forêt les yeux, le coeur,
l’espirit, les songes...
Forêt secrète bien que palpable:
forêt.
Forêt bruissant de silence,
forêt où s’est évadé l’oiseau à prendre au piège,
l’oiseau à prendre au piège qu’on fera chanter
ou qu’on fera pleurer.
A qui l’on fera chanter, à qui l’on fera pleurer
le lieu de son éclosion.
Forêt. Oiseau.
Forêt secrète, oiseau caché
dans vos mains.
tradução de Antônio Moura e originais em francês
(incluídos no volumeQuase Sonhos, publicado pela Lumme Editor)
1 248
Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

A morte do escorrego

Do Escorrego a bica se finou
Como cantava! Agora emudeceu
Foi o homem, bem sei, que a magoou
Insensível e forte, ele a venceu

Perdida a sombra leve do arvoredo
Os pássaros, tristonhos, debandaram
A secura e o sol lhes deram medo
Bateram asas, longe, além, pousaram

Do bambusal se foi o sombrear
Da água não ouço o forte marulhar
Na paisagem há dor, há solidão

Na serra amiga os olhos meus pousando
Antevejo-lhe o verde estertorando
A implorar a nossa proteção

979
Raquel Nobre Guerra

Raquel Nobre Guerra

Deixa que nos chamem

Deixa que nos chamem
pequeno cemitério de animais em flor.
O meu coração gótico espera por ti
aqui onde ninguém dança.

Porque havemos sempre de brincar
vestidos de santos até adormecer
nos olhos da cabra que, escuta:
I touched her thigh and death smiled.

Se perguntarem por nós aponta para cima
e responde com humor tipicamente irlandês
Senhor Roubado. Linha Amarela. Estação Terminal.
721
Max Martins

Max Martins

Ideograma para Blake

Amargo Id
e ígneo tigre
Tigre
por dentro, sub
escrito risco
seta
atravessando a treva


Publicado no livro Caminho de Marahu (1983).

In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. p.122. (Verso & reverso, 2)

NOTA: Referência ao poema "The Tyger" ("O Tigre"), do livro SONGS OF EXPERIENCE (CANÇÕES DE EXPERIÊNCIA), de 1794, de William Blak
1 580
Jorge Lescano

Jorge Lescano

Haicai

no calor da sesta
imóvel, o gato vigia
o vôo da vespa

chuva torrencial
sob a laje de concreto
um casal de pardais

1 092
Max Martins

Max Martins

Uma Tela de Dina Oliveira

Meu olho
no teu olho frestas

com arcos de ouro palha
e veludo pêlos

peluzem

Besouro negro
rajado verde
pula
sobre besouro negro
rajado verde
Pulam
copulam
voam


In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
1 499
Afonso X

Afonso X

Mester Havia Dom Gil

Mester havia Dom Gil
um falconcinho bornil
que nom voasse,
nemigalha nom filhasse;

[e] um galguilinho vil
que ũa lébor, de mil,
non'[a] filhasse,
mais rabejasse e ladrasse;

podengo de riba Sil
que en fiass'um nihil
que lhi mejasse,
a Dom Gil,
quando lébor i achasse;

e osas d'um javaril
que dessem per seu quadril
[e s'embargasse],
[i] Dom Gil,
quando lébor levantasse.
604
Afonso X

Afonso X

Penhoremos o Daiam

Penhoremos o daiam
       na cadela, polo cam.

Pois que me foi el furtar
meu podeng'e mi o negar
- e quant'é, a meu cuidar,
destes penhos, pesar-lh'-am:
ca o quer'eu penhorar
na cadela, polo cam.
       Penhoremos o daiam
       na cadela, polo cam.

Mandou-m'el furtar alvor
o meu podengo melhor
que havia; e sabor
de penhorar lh'hei, de pram,
e filhar-lh'-ei a maior
sa cadela, polo cam.
       Penhoremos o daiam
       na cadela, polo cam.

Pero querrei-mi aviir
com el, se [mi o] consentir;
mais, se o el nom comprir,
os seus penhos ficar-mi-am;
e querrei-me bem servir
da cadela, polo cam.
       Penhoremos o daiam
       na cadela, polo cam.
619
Rui Queimado

Rui Queimado

O Demo M'houvera Hoj'a Levar

O Demo m'houvera hoj'a levar
a ũa porta d'um cavaleiro,
por saber novas; e o porteiro
foi-lhi dizer que querria jantar;
e el tornou[-se] logo sa via
com dous cães grandes que tragia
que na porta m'houveram de matar.

E começava-os el d'arriçar,
de trá'la porta d'um seu celeiro,
um mui gram cam negr'e outro veiro;
e começavam-s'a mi de touçar
em cima da besta em que ia;
e jurand'eu: - Par Santa Maria,
por novas vos quisera preguntar.

Três cães eram grandes no logar,
mais nom saiu o gram fareleiro;
mais os dous, que sairom primeiro,
nom lhis cuidei per rem a escapar;
pero jurava que nom queria
ali decer, tanto me valia
como se dissess': - Alá quer'entrar!

E dix'eu logo, pois m'en partia:
- Sei-m'eu que assi convidaria
o coteife peideir'em seu logar.
612