Animais e Natureza
Charles Bukowski
Inverno
atingido por um carro e caminhando
em direção ao meio-fio
emitindo enormes
sons
seu corpo curvado
vermelho explodindo pelo
cu e pela boca.
olho para ele e
sigo em frente
pois como seria
para mim segurar
um cão moribundo junto a
um meio-fio em Arcadia,
o sangue escorrendo por minha
camisa e calças e
cueca e meias e meus
sapatos? pareceria apenas
uma tolice.
além disso, pus o olho no cavalo
número 2 no primeiro páreo
e queria fazer uma dobradinha
com o número 9
no segundo. estudei o jornal para
pagar algo em torno de $ 140
assim eu tinha que deixar aquele
cachorro morrer ali sozinho
bem defronte ao
shopping center
com as senhoras à
procura de pechinchas
enquanto o primeiro floco de
neve caía sobre a
Sierra Madre.
Marina Colasanti
Era um jardim
na casa em que cresci
porque as árvores raras
deram frutos
e não há mais quem queira
recolhê-los.
Uma só vez
vi empregados nos galhos
com cestos encharcados de sumo
rubra casca escorrendo
por sobre a branca carne.
Uma só vez
sem floração ou anúncio
as copas concederam seu tributo.
Eram árvores raras
me disseram
mudas vindas do Oriente.
Uma delas
no lado do jardim
diante das hortas
abrigou com sua sombra um elefante
a pedido de um circo de passagem.
A grama
desde então
recusou-se a crescer naquele canto.
Agora os macacos se fartam
não há mais empregados
nem família
e eu devolvo a lembrança do elefante
à sombra abandonada
e já floresta.
Manuel António Pina
A avó
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando
Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela
Dormiam ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 323 | Assírio & Alvim, 2012
Martha Medeiros
gosto do jeito de amar a cavalo
solto as rédeas e me entrego
não nego nada a um puro-sangue
António Ramos Rosa
Mediadora Mínima
No halo mais antigo
germina silenciosa.
Seu coração, folhagem.
Pobre sombra habitada
pela água da pedra,
mas líquida, liberta,
no seu breve horizonte.
Marina Colasanti
Algum vibrar
pousou na minha pele
logo acima do pulso.
Eu poderia apagá-la
com pomadas
com ácidos ou laser
mas onde a dermatologia
vê só uma mancha
eu vejo mansas asas
que obedecem
ao mover-se da mão.
Uma nova leveza
invade a manga
escorre pela palma.
E eu gostaria de crer
que desse voo
algum vibrar viaja
no meu verso.
Carlos Drummond de Andrade
A Tartaruga
a tartaruga gigante
tem um mínimo de pássaro
que se pusesse a rastejar,
no anel de placa óssea dos olhos,
na ausência pacífica de dentes,
testudo gigas emergindo
de Brejo dos Sonhos,
lá vem trazendo seu recado
de plena paz por entre guerras.
Tão fiel a si mesma, que o retrato
da moça tartaruga do Amazonas
repete o essencial do figurino.
Esta é a elefantina,
por gracioso artifício, que não muda
a linha imemorial,
e esta, sem vaidade, a grega,
e esta outra a mauritânia,
tão suave e lembrada de seus pagos,
que onde quer que a deixem volta sempre
a um apelo de flauta ou de jardim.
O cacto, o líquen seco
nutre as últimas netas dos colossos
vizinhos do Hominídeo
e na solidão dos Galápagos
vai mirrando essa imagem de grandeza,
delicado organismo,
blindada flor que filosofa e pensa
o mundo sem rancor, e nos ensina
que a rude carapaça mais protege
o amor do que o repele.
Lição que nada vale,
pois o que sabe ao paladar corrupto
não é da tartaruga o calmo ser
e florescer à flor da areia ou n’água,
mas a carne fechada
em seu fundo segredo,
a carne monacal
de tanto se vestir de solitude.
E vem a tartaruga de avião
para os ritos da morte em nobre estilo.
Fotografada, anunciada, promovida,
será sopa amanhã, por entre árvores
de velho parque onde quisera
antes viver seu tempo meditado.
Levam-na ao Top Clube para exame
de olhos gulosos,
prévia degustação, de faz de conta.
Uma cidade inteira quer comê-la,
mas poucos a merecem por seu preço.
Comer a tartaruga é ato bento
e pobres já desmorrem com sua morte.
Mas vale, vale a pena
matar para ajudar?
Recusa-se o mestre-cuca a ser verdugo,
leva-se a tartaruga para a Urca
em compasso de espera. O tempo urge,
esta tartaruga vai morrer,
de qualquer jeito matemo-la, que o fim
é nobre, e sua sopa uma delícia.
A tevê entrevista a pobrezinha,
que mantém um silêncio de andorinha.
Lya Cavalcanti, a sempre alerta
em defesa do vivo e sofredor,
ergue a voz comovida: dois partidos
se enfrentam, linha dura
e linha humanitária.
A tartaruga, sem uma ruga
no pétreo manto além do seu riscado
multissecular, tão pomba e mansa
em seu dulçor de frágil fortaleza,
vê chegado o momento da tortura,
mas eis que uma criança,
que com ela brincou e soube ver
a maravilha do ato de existir,
se levanta da relva e pede em pranto
à mãe, na hora fatal:
“Não deixa ela morrer!” — e a tartaruga
é salva, por encanto.
08/11/1964
Fernando Pessoa
Quanta tristeza e amargura afoga
Em confusão a 'streita Vida! Quanto
Infortúnio mesquinho
Nos oprime supremo!
Feliz ou o bruto que nos verdes campos
Pasce, para si mesmo anónimo, e entra
Na morte como em casa;
Ou o sábio que, perdido
Na ciência, a fútil vida austera eleva
Além da nossa, como o fumo que ergue
Braços que se desfazem
A um céu inexistente.
13/06/1926 (Presença, nº 6, 18 de Julho de 1927)
Charles Bukowski
Barata
sobre os ladrilhos
enquanto eu estava mijando e
ao virar minha cabeça
ela enfiou o traseiro
numa fenda.
peguei o inseticida e disparei o aerossol
e disparei e disparei
e finalmente a barata saiu
e me lançou um olhar muito nojento.
então desabou dentro
da banheira e fiquei assistindo à
sua morte
com um prazer sutil
pois eu pagava o aluguel
e ela não.
recolhi-a com
um tipo de papel higiênico
azul-esverdeado e joguei-a
na descarga. era tudo o que se
tinha a fazer, exceto que
nas redondezas de Hollywood e
Western temos que seguir
fazendo isso.
dizem que algum dia essa
tribo herdará
a terra
mas faremos com que
esperem mais
alguns meses.
Fernando Pessoa
A abelha que, voando, freme sobre
A colorida flor, e pousa, quase
Sem diferença dela
À vista que não olha,
Não mudou desde Cecrops. Só quem vive
Uma vida com ser que se conhece
Envelhece, distinto
Da espécie de que vive.
Ela é a mesma que outra que não ela.
Só nós – ó tempo, ó alma, ó vida, ó morte! –
Mortalmente comp'ramos
Ter mais vida que a vida.
02/09/1923
Marina Colasanti
Mais que o pólen
empenhadas nas flores.
Que gosto sentem elas
me pergunto.
Talvez não seja gosto
o que as atrai
talvez nas asas
nas patinhas
nos infinitos pelos
do seu corpo
estejam
mais que pólen
armazenando o perfume.
Charles Bukowski
Cão
caminhando sozinho numa calçada quente em pleno
verão
parece ter mais poder
do que dez mil deuses.
por que isso?
Charles Bukowski
Cupons
da noite passada
você acende um
se engasga
abre a porta em busca de ar
e junto à entrada
está um pardal morto
sua cabeça e seu peito
arrancados.
pendurado à maçaneta
há um anúncio da All American
Burger
que consiste de alguns cupons
que
dizem
que na compra
de um hambúrguer
de 12 de fev. a 15 de fev.
você ganha de graça
um pacote de batatas
fritas médio e um
copo pequeno de coca-cola.
pego o anúncio
embrulho o pardal com ele
levo até a lata de lixo
e despejo lá
dentro.
veja:
renunciando a batatas fritas e coca
para ajudar a manter
minha cidade
limpa.
Ruy Belo
Requiem por um bicho
que outro mundo trará a gata que morreu?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984
António Ramos Rosa
Agora Que a Água É Clara E o Vento Livre
atiro esta cega flecha sobre o teu dorso
Tu dormes entre caminhos e sombras
e bebes as luzes da terra como um cavalo selvagem
Ouço um clamor na escada e há um gesto esquecido
não vejo no mar senão um navio silencioso
Tuas palavras seriam as sombras musicais
enquanto a minha mão se agita como uma chama
Há um massacre de insectos no metal negro do teu sangue
Tu és mais do que a virgem a imperceptível coluna
Distingo ainda teus olhos semicerrados entre as pedras
Suspenso de ti da tua distância desço à tua seiva
Sou um animal moribundo uivando silencioso
A minha morte nasce do teu olhar Morro de te ver
Interrompo os teus olhos Sou uma sombra interminável
Desapareço sempre que te levantas entre as ervas
Afasto-me para dar lugar à sombra de um cavalo
Por vezes o teu silêncio desperta sobre o mar
e vivo nas tuas mãos um sono maternal
Mas agora sou tão escuro como um pedaço de terra
Algum cão ladra às tuas pernas de deusa
Se eu te fizesse gritar acertando em tuas coxas
com estas cegas flechas ó branca sombra da noite!
António Ramos Rosa
Fácil Escrever
As mãos e as sombras numa folhagem única.
Portas acesas. Anéis ou astros.
As bocas seguem as alamedas sinuosas.
Multiplicam-se as luzes do teu vestido de ervas.
Uma cabeleira no flanco das colinas,
carícias deslumbradas, silenciosas folhas,
linhas de um corpo, linhas de um rio frágil e minúsculo,
corolas de veludo e barro, corolas de água.
Um gesto dissipa as letras, levanta o silêncio ágil.
Reflexos, raízes na água transparente,
monótonos caprichos de semelhanças leves.
Ao acaso libertam-se sombras mais profundas.
O olhar agora está ligado à terra.
Um animal levanta-se entre as pedras com as pedras.
António Ramos Rosa
Sem Segredo Algum
vagueio dentro das tuas formas nebulosas.
Como um ladrão aproximo-me entre palavras e nuvens.
Não te encontrei ainda. Falo dentro do teu ouvido?
Entre pedras lentas, oiço o silêncio da água.
A obscuridade nasce. Tens tu um corpo de água
ou és o fogo azul das casas silenciosas?
Não te habito, não sou o teu lugar, talvez não sejas nada
ou és a evidência rápida, inacessível,
que sem rastro se perde no silêncio do silêncio.
O que és não és, não há segredo algum.
Selvagem e suave, entre miséria e música,
o coração por vezes nasce. As luzes acendem-se na margem.
Estou no interior da árvore, entre negros insectos.
Sinto o pulsar da terra no seu obscuro esplendor.
Ruy Belo
Tironia
inaugural dos gestos e dos dias
Espero por ti na mais trémula madre
lá onde tudo fica outra vez perto
e a morte mesmo nunca é demais
E o sol roda e roda e vai e vem
e dá e tira e modifica as coisas cá e lá fora de nós
e assume a rápida extensão do campo verde
à nossa volta, árvores sem sol
sobre o abismo humano apenas debruçadas
E eu pensar o sol é a morte do sol
Outono ronda a protecção do prado
permutam-se palácios e países
Por junto, a dez réis de mel coado
se pode reduzir tudo o que dizes,
pobre poeta pábulo dos pássaros
- os mais puros e os mais desaparecidos
Nuno Júdice
Escola
O que significa o rio,
a pedra, os lábios da terra
que murmuram, de manhã,
o acordar da respiração?
O que significa a medida
das margens, a cor que
desaparece das folhas no
lodo de um charco?
O dourado dos ramos na
estação seca, as gotas
de água na ponta dos
cabelos, os muros de hera?
A linha envolve os objetos
com a nitidez abstrata
dos dedos; traça o sentido
que a memória não guardou;
e um fio de versos e verbos
canta, no fundo do pátio,
no coro de arbustos que
o vento confunde com crianças.
A chave das coisas está
no equívoco da idade,
na sombria abóbada dos meses,
no rosto cego das nuvens.
António Ramos Rosa
Onde a Terra Será Branca
oblíquo. A liberdade silenciosa.
Lábios iluminados. Dedos quase felizes.
Um volume verde, a narrativa quase exacta.
Espaço e corpo no interior das linhas.
Que suave aventura descansar dentro de um corpo!
Com o ouvido no vento, com o coração no escuro,
digo o nome do indizível, sigo um fluxo
de minúsculas coisas, uma música de insectos.
O ar tornou-se branco através do silêncio.
Como uma mulher aberta, o poema é um pomar.
A terra inteira resplandece como um fruto.
Tudo parece imóvel como uma árvore transparente.
O tempo abriu espaços entre os muros.
Somos a incessante luz na água azul.
António Ramos Rosa
Onde As Águas
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
António Ramos Rosa
Não Sei Escrever
Formas obscuras, ecos, sons, suspiros
e areias estéreis, o móvel sono do vento.
A calma completa do inerte sobre as pálpebras.
Vacuidade mineral sem vibrações.
Escrevo titubeante. Nada se move. Desço talvez
a uma sombra. Procuro minúsculos
prodígios, descubro insectos, pedras negras.
Onde o corpo errante? Que seja agora a folha
e o sangue verde, a pulsação do vento.
Escrevo, não sei escrever. Nada tenho a dizer.
Respiro algumas vezes. Respiro. É uma nuvem
incandescente na folhagem. É um espaço fundo e plano
e alto. O corpo inteiro na claridade azul.
Não está comigo agora e é um planeta branco.
António Ramos Rosa
As Figuras do Espaço
Um domínio interior de silêncio e frescura.
Vejo com nitidez os tímidos animais,
os pequenos buracos, as folhas vagarosas,
o ligeiro movimento da água nas veredas.
Na evidência da luz em sílabas aéreas
as formas naturais propagam o desejo.
O vento é um vagar, facilidade pura.
Estou numa onda serena e abraço todo o espaço.
Que raízes procuro, que obscura flor ainda?
O que nos diz a sombra, o que nos diz o silêncio?
São palavras aéreas? São as figuras do espaço
tranquilas e longínquas? Uma única boca para o vento,
uma sílaba clara, uma ressonância calma
em volúveis vogais na ausência dos caminhos.
António Ramos Rosa
Os Prestígios Simples
das pedras. Toda a minha vida é um sono de árvores.
Vivo oscilando como uma simples coisa
na paz do espaço. Não pergunto às folhas
onde o país unânime. Sou uma chama do ar.
Oscilo na folhagem. Vibro entre mãos aéreas
sobre os sulcos dos insectos. Amo os simples
prestígios, os percursos leves, as sombras verdes.
Esta é a minha casa de pedras e de sol.
Esta é a minha firmeza suave, minha alegria nova.
Estou no meio do vento, sou uma haste solitária.
Bebo as sombras que deslizam numa volúpia aérea.
Dispo-me e sou um tronco, ou um ramo, uma figura da terra.
Adormeço e desperto para o júbilo do mar.
A boca encontra o seio da primeira harmonia.