Poemas neste tema

Animais e Natureza

Adélia Prado

Adélia Prado

Metamorfose

Foi assim que meu pai me disse uma vez:
Você anda feito cavalo velho, procurando grota.
As cigarras atrelavam as patas nos troncos
e zuniam com decisão os seus chiados.
As árvores cantavam no quintal,
refolhadas de novíssimo verde.
Arregacei as narinas e fui pastar
com minha cabeça minúscula.
O que mais quente e amarelo pode ser,
era o sol, um dia de pura luz.
Mugi entre as vacas, antediluviana,
sei de moitas, água que achei e bebi.
Na volta sacudi pescoço e rabo.
Só dois sinais restaram:
um modo guloso de cheirar os verdes;
um modo de pisar, só casco e pedras.
1 396
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Briga de Cachorro

é um bicho raquítico
ele rosna e arranha
corre atrás dos carros
gane durante o sono
e tem uma estrela perfeita sobre cada sobrancelha
a gente o escuta lá fora:
aterrorizando alguma coisa com pelo menos
5 vezes seu
tamanho
é o cachorro do professor do outro lado da rua
aquele caríssimo cão de raça adestrado
ô, isto seria problema para todo mundo
eu os separo
e nós corremos para dentro com o raquítico
trancamos a porta
apagamos as luzes
e os vemos atravessar a rua
imaculados e preocupados
parecem ser 7 ou 8 pessoas
chegando para pegar seu
cão
aquele enorme saco de banha peludo
deveria saber mais do que meramente cruzar
os trilhos da ferrovia.
986
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Zona Intermediária

A página presente, o edifício novo, a madeira leve, um perfume de vento.
Vários pontos. Junturas breves.
Passagem. (Nuvens possíveis.)
Rigorosa tenuidade.

Escrever simplicidade actuante.
Entre possíveis paragens, ofegante barco
e janelas débeis sobre túneis,
confusão clara de perspectivas.
Um dedo acaricia a ranhura.
Entre o vento e a brecha
a vibração da teia,
perpassar de aranha sobre a página do ar.

É preciso passar e fixo
correr.
Cosido o corpo, rapidamente o novo
solto sopro vivo.
Casa de arame. Ao fundo a água.
A terra é próxima. Uma parede
animada.

A boca lenta e sossegada
alarga a transparência.
O solo rodeia-te e desdobra-se.
A pele das árvores é a do teu corpo.
Corpo de página visível.

Entre o fundo e o cimo a superfície
eis o céu a parede percorrida
a textura do papel
as linhas do vento.

Inundada superfície
onde os animais se precipitam
leves
as imagens se agrupam
e subsistem
as marcas vivas.
1 112
Adriano Espínola

Adriano Espínola

Haicai

Tristeza

Uma árvore torta.
Uma ave cantando grave.
A tarde já morta.

Outono

Folhas. Ventania.
Cajus se despencam nus:
apodrece o dia.

2 703
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Neste Campo

Neste campo não divago e nada emerge
e um lago subsiste e a pedra investe o sol,
rápidos vestidos soçobram,
nervuras que não vês murmuram,
a terra é um sossego sem cristal,
uma veia plena de sono e de sorriso.

A terra não canta: tu não esperas
na alta mesa do meio-dia.
Um animal surge tímido
e duas mãos o envolvem de folhas e de sol.
1 039
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Manchas

Uma palavra aberta
uma palavra torre
de espaço
uma veia sonora
germinação clara

espiral para o sol

Uma teia que vive
sobre a água sem medo
uma estrela na rua
tão rápida
sobre o muro incendiado

Disseminada sede
rede na terra verde
larga vela
violenta e alta
sobe
passa uma sombra azul

Passos na terra
marcas de lábios
poças de tempo minúsculo
para um insecto lento

Terra que desce às mãos
sono de poço branco
flexível lentidão
de uma árvore que caminha
998
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Ouvindo o pássaro

Às vezes, um pássaro parece cantar
para si próprio. Está na árvore, quando
o dia nasce, e a luz encontra-o
no meio da sombra. «Que manhã é esta,
pensa, em que o sol vem ter comigo
como se não houvesse mais ninguém
para o receber?» E saúda-o
com o seu canto, sem saber que
alguém o ouve, por trás dos arbustos,
e recolhe o que ele diz
para o dizer ao mundo.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 92 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 056
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Cartas

ela se senta no chão
revirando uma caixa de papelão
lendo-me cartas de amor que escrevi para ela
enquanto sua filha de 4 anos se deita no chão
enrolada em um cobertor rosa e
três quartos encaminhada no sono
havíamos voltado a nos ver depois de uma separação
estou sentado em sua casa numa
noite de domingo
os carros vão e vêm na colina lá fora
quando formos dormir juntos
ouviremos os grilos
onde estão os trouxas que não vivem tão bem
quanto eu?
amo suas paredes
amo suas crianças
amo seu cachorro
ouviremos os grilos
meu braço a lhe envolver os quadris
meus dedos postos em sua barriga
uma noite como esta vence a vida,
o que transborda dá conta da morte
gosto de minhas cartas de amor
elas são verdadeiras
ah, ela tem uma bunda tão linda!
ah, ela tem uma alma tão linda!
1 207
Adélia Prado

Adélia Prado

A Hora Grafada

De noite no mato as árvores semelhavam
uma águia acabada de pousar,
um anjo saudando,
um galo perfeitinho,
uma ave grande vista de frente.
De noite no mato, as vivas figuras enraizadas,
prontas a falar ou bater asas.
1 248
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Aderência

A manhã molhada como uma moeda.
A poalha do mar sobre a lama.
Uma lâmina viva.
A rede do sol nas narinas de sal.

Cigarro para um almoço justo.
Fome para aguentar a vida.
Pedra para a língua.

O solo é duro como um dedo crestado.
O burro cumprimenta o sol.
A cal do meio-dia penetra-me as espáduas.

A pedra tem o gosto do dia.
Eu tenho o gosto do dia calcado pelas pedras.
1 154
Adélia Prado

Adélia Prado

Louvação Para Uma Cor

O amarelo faz decorrer de si os mamões e sua polpa,
o amarelo furável.
Ao meio-dia as abelhas, o doce ferrão e o mel.
Os ovos todos e seu núcleo, o óvulo.
Este, dentro, o minúsculo.
Da negritude das vísceras cegas,
amarelo e quente, o minúsculo ponto,
o grão luminoso.
Distende e amacia em bátegas
a pura luz de seu nome,
a cor tropicordiosa.
Acende o cio,
é uma flauta encantada,
um oboé em Bach.
O amarelo engendra.
2 240
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Debaixo das bétulas

Na hora amarela do bosque, apanham
flores, passando o tempo. Esperam-nas
em casa; mas elas não pensam nisso,
falando uma com a outra, e sabendo que
o almoço pode esperar, enquanto enchem
os bolsos de pétalas perdidas. Um pássaro, com a
melancolia do fim da tarde, começa a cantar; e
elas nem o ouvem, entretidas com a primavera
que nasce debaixo delas, e que insistem em
apanhar, para a levarem para casa. «A mesa
vai ficar bonita com estas flores.» Oh, as
suas vozes enchendo o campo! Dir-se-ia uma
cena de ninfas, só faltando os faunos para
lhes saltarem às costas, obrigando-as a
esvaziar os bolsos, e a devolverem à terra
as suas flores. Mas os passos que ouviram
dissipam-se na distância; e impõem uma
à outra o silêncio, para que se cansem
de as esperar e se vão embora, e em casa
deixem de pensar nelas, como se já não fossem
deste mundo. «Que importa?», pensam. E a noite
cai, sem que dêem por nada.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 93 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
995
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Sonoridade

Meus ouvidos pousam na noite dormente como aves calmas
Há iluminações no céu se desfazendo...

O grilo é um coração pulsando no sono do espaço
E as folhas farfalham um murmúrio de coisas passadas
Devagarinho...
Em árvores longínquas pássaros sonâmbulos pipilam
E águas desconhecidas escorrem sussurros brancos na treva.
Na escuta meus olhos se fecham, meus lábios se oprimem
Tudo em mim é o instante de percepção de todas as vibrações.
Pela reta invisível os galos são vigilantes que gritam sossego
Mais forte, mais fraco, mais brando, mais longe, sumindo
V oltando, mais longe, mais brando, mais fraco, mais forte.
Batidos distantes de passos caminham no escuro sem almas
Amantes que voltam...

Pouco a pouco todos os ruídos se vão penetrando como dedos
E a noite ora.
Eu ouço a estranha ladainha
E ponho os olhos no alto, sonolento.
Um vento leve começa a descer como um sopro de bênção
Ora pro nobis...

Os primeiros perfumes ascendem da terra
Como emanações de calor de um corpo jovem.

Na treva os lírios tremem, as rosas se desfolham...

O silêncio sopra sono pelo vento
Tudo se dilata um momento e se enlanguesce

E dorme.

Eu vou me desprendendo de mansinho...

A noite dorme.
1 168
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Bom Pastor

Amo andar pelas tardes sem som, brandas, maravilhosas
Com riscos de andorinhas pelo céu.
Amo ir solitário pelos caminhos
Olhando a tarde parada no tempo
Parada no céu como um pássaro em voo
E que vem de asas largas se abatendo.
Amo desvendar a vaga penumbra que desce
Amo sentir o ar sem movimento, a luz sem vida
Tudo interiorizado, tudo paralisado na oração calma...

Amo andar nessas tardes...
Sinto-me penetrando o sereno vazio de tudo
Como um raio de luz.
Cresço, projeto-me ao infinito, agigantado
Para consolar as árvores angustiadas
E acalmar os pinheiros moribundos.
Desço aos vales como uma sombra de montanha
Buscando poesia nos rios parados.
Sou como o bom-pastor da natureza
Que recolhe a alma do seu rebanho
No agasalho da sua alma...

E amo voltar
Quando tudo não é mais que uma saudade
Do momento suspenso que foi...
Amo voltar quando a noite palpita
Nas primeiras estrelas claras...
Amo vir com a aragem que começa a descer das montanhas
Trazendo cheiros agrestes de selva...

E pelos caminhos já percorridos, voltando com a noite
Amo sonhar...
1 194
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 5

“Uma devassidão aracnídea” se se quiser
põe aqui uma descontente atenção e é quanto basta “aqui”
o único problema é encontrar essa se possível dizer
como que “clareira obscura” aqui onde existem “áscuas de ouro”
o silêncio ex.: “não se precisa sair do silêncio”
por favor eu quero dizer que “é preciso entrar nele”
no silêncio das clareiras obscuras das áscuas de ouro
ficar como um cavalo no campo
e não decerto por acaso falo de um cavalo no campo
uma coisa completamente viva e completamente distante
“que está”
notável que se estabeleça um cerco de cabeças com apenas
“um toque de lume” veja-se uma expressão
tudo a fazer força de dentro no escuro um só “lampejo”
tudo para fora uma víscera brilhando “para ver”
uma tensão
“como se comessem bananas”
os intestinos a arderem pelo poder dos alimentos
coisa sibilina essa afinal sempre a mesma
o toque áspero na raiz dos cabelos “eles eriçam-se”
o medo de saber alguma coisa quando se vê o campo
o cavalo tudo vivo e longínquo
“trouxeram fotografias onde estava o silêncio
ainda todo molhado e atravessaram-no
parando aqui escrutando”
o gosto era já algo tão puro como uma vocação
há “aí” uma bruta elegância uma coisa fugitivamente louca
“uma devassidão” que é como uma referência às “palavras”
mas tinham medo de dormir o sono traz
uma gentileza perigosa e também porque “no sono se revela o rosto"
bem sei forçoso é colocar os dedos lá no fundo
“queima” dizem e “pois é verdade que queima”
ora não havia de queimar “que pensam eles?”
é o silêncio
ainda têm uma certa leviandade porque examinam tudo
como se se destinasse a “uma paisagem interrompida pelo frio”
em termos despropositados “uma pontuação coerente”
precisava-se de “um pintor de cavalos”
um homem que abandonasse a família apenas
para ser um obscuríssimo “pintor de cavalos”
uma criatura viva de dedos vivos longínqua de coração longínquo
nada menos que um selvagem que viu “monstros dourados”
e a si mesmo dissesse “entrega-te ao que melhor te pode esquecer”
ou “dez dedos ainda assim é extenso para quem tem uma vida”
animais blocos de ouro uma energia inexplicável
toda a luz sugeria nele uma pulsação nocturna
uma leveza indomável uma leveza
ele entrava na posse de uma “visão” uma herança de ritmos
então poderia destruir tudo numa “devassidão aracnídea”
o perto e o longe “o cavalo no campo” ele “o bárbaro”
apenas um pintor de cavalos “o impossível”
548
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Vale do Paraíso

Quando vier de novo o céu de maio largando estrelas
Eu irei, lá onde os pinheiros recendem nas manhãs úmidas
Lá onde a aragem não desdenha a pequenina flor das encostas
Será como sempre, na estrada vermelha a grande pedra recolherá sol
E os pequenos insetos irão e virão, e longe um cão ladrará
E nos tufos dos arbustos haverá enredados de orvalho nas teias de aranha.
As montanhas, vejo-as iluminadas, ardendo no grande sol amarelo
As vertentes algodoadas de neblina, lembro-as suspendendo árvores nas
nuvens
As matas, sinto-as ainda vibrando na comunhão das sensações
Como uma epiderme verde, porejada.
Na eminência a casa estará rindo no lampejar dos vidros das suas mil
janelas
A sineta tocará matinas e a presença de Deus não permitirá a Ave-Maria
Apenas a poesia estará nas ramadas que entram pela porta
E a água estará fria e todos correrão pela grama
E o pão estará fresco e os olhos estarão satisfeitos.
Eu irei, será como sempre, nunca o silêncio sem remédio das insônias
O vento cantará nas frinchas e os grilos trilarão folhas secas
E haverá coaxos distantes a cada instante
Depois as grandes chuvas encharcando o barro e esmagando a erva
E batendo nas latas vagas monotonias de cidade.

Eu me recolherei um minuto e escreverei: — “Onde estará a volúpia?...”
E as borboletas se fecundando não me responderão.

Será como sempre, será a altura, será a proximidade da suprema
inexistência
Lá onde à noite o frio imobiliza a luz cadente das estrelas
Lá onde eu irei.
1 168
Adélia Prado

Adélia Prado

Um Salmo

Tudo que existe louvará.
Quem tocar vai louvar,
quem cantar vai louvar,
o que pegar a ponta de sua saia
e fizer uma pirueta, vai louvar.
Os meninos, os cachorros,
os gatos desesquivados,
os ressuscitados,
o que sob o céu mover e andar
vai seguir e louvar.
O abano de um rabo, um miado,
u’a mão levantada, louvarão.
Esperai a deflagração da alegria.
A nossa alma deseja,
o nosso corpo anseia
o movimento pleno:
cantar e dançar TE-DEUM.
1 464
Epitácio Mendes Silva

Epitácio Mendes Silva

Nós e natureza

Cores de todas as manhãs,
manhãs de todas as cores.
Dia de todas as luzes,
luzes de todos os dias.
Noite de todas as luzes,
luzes de todas as noites.
Gotas de orvalho das flores
e flores com gotas de orvalho.
Pássaros que os dias festejam
e dias que festejam os pássaros.
Céu de todos os azuis
e azuis de todos os céus.
Cristalinas águas das fontes
e fontes de águas cristalinas.
Mundo de todos os sons
e sons de todos os mundos.
Dizei-me oh, coisas divinais:
por que em tudo isso me reflito
e tudo me faz pensar em ti ?...

1 027
Adélia Prado

Adélia Prado

Módulo de Verão

As cigarras começaram de novo, brutas e brutas.
Nem um pouco delicadas as cigarras são.
Esguicham atarraxadas nos troncos
o vidro moído de seus peitos, todo ele
— chamado canto — cinzento-seco, garra
de pelo e arame, um áspero metal.
As cigarras têm cabeça de noiva,
as asas como véu, translúcidas.
As cigarras têm o que fazer,
têm olhos perdoáveis.
Quem não quis junto deles uma agulha?
— Filhinho meu, vem comer,
ó meu amor, vem dormir.
Que noite tão clara e quente,
ó vida tão breve e boa!
A cigarra atrela as patas
é no meu coração.
O que ela fica gritando eu não entendo,
sei que é pura esperança.
1 313
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Noite Úmida

a sobra.
ela se sentou ali, entristecida.
eu não podia fazer nada com ela.
estava chovendo.
ela se levantou e se foi.
bem, foda-se, mais uma vez isso, pensei
apanhei minha bebida e liguei o rádio,
tirei a pantalha do abajur
e fumei um charuto barato, negro e amargo
importado da Alemanha.
uma batida veio da porta
e eu abri a porta
um homenzinho estava na chuva
e ele disse,
você não viu por acaso um pombo na sua varanda?
eu lhe disse que não tinha visto um pombo na minha varanda
e ele me disse que se eu visse um pombo na minha varanda
que o avisasse.
fechei a porta
me sentei
e então um gato preto saltou através da
janela e pulou no meu
colo e ronronou, era um belo animal
e eu o levei até a cozinha e nós dois comemos uma
fatia de presunto.
então apaguei todas as luzes
e fui para a cama
e o gato preto foi para a cama comigo
e ronronou
e eu pensei, bem, alguém gosta de mim,
então o gato começou a mijar,
ele me mijou todo e também todo o lençol,
o mijo escorreu por minha barriga e desceu pelos lados
e eu disse: ei, o que há de errado com você?
apanhei o gato e o levei na direção da porta
e o joguei de volta no meio da chuva
e pensei, isso é muito estranho, esse gato
mijando em mim
seu mijo era gelado como a chuva.
então liguei para ela
e eu disse, veja, o que há de errado com você? você perdeu
a porra da sua cabeça?
desliguei e puxei os lençóis da cama
deitei e fiquei ali ouvindo a chuva.
às vezes um homem não sabe o que fazer com as coisas
e às vezes o melhor a fazer é ficar deitado sem se mexer
e tentar simplesmente não pensar
não pensar em nada.
o gato pertencia a alguém
ele tinha uma coleira antipulgas.
nada sei sobre a
mulher.
1 145
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. (Antinoos)

Noite diurna
Até à mais funda limpidez do instinto
Sob os teus cabelos em anel sombria vinha
Corpo terrestre e solene como o azul mais aceso da montanha
O quase imóvel fogo dos teus beiços
Pesa como o fruto pleno no rumor de brisa da árvore
Porta aberta para toda a natureza
É através de ti que os meus rios caminham como veias
Novilho de testa curta no secreto silêncio do bosque
Sobre os teus ombros poisa terrível o meio-dia
Do divino celebrado no terrestre
1 087
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Eurydice

O teu rosto era mais antigo do que todos os navios
No gesto branco das tuas mãos de pedra
Ondas erguiam seu quebrar de pulso
Em ti eu celebrei minha união com a terra
1 171
Eliane Pantoja Vaidya

Eliane Pantoja Vaidya

Não, sobretudo

Homenagem a Camille Paglia

Não, sobretudo
não digas
que a natureza é bela.
O que chamas natureza
é apenas
a casca do planeta
Arranhada esta casca
ela nos remete
a um mundo ignoto
colossal
estupendo
bárbaro
A natureza é leão
que rasga a presa.

891
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Mulher Na Noite

Eu fiquei imóvel e no escuro tu vieste.
A chuva batia nas vidraças e escorria nas calhas — vinhas andando e eu não
te via
Contudo a volúpia entrou em mim e ulcerou a treva nos meus olhos.
Eu estava imóvel — tu caminhavas para mim como um pinheiro erguido
E de repente, não sei, me vi acorrentado no descampado, no meio de insetos
E as formigas me passeavam pelo corpo úmido.
Do teu corpo balouçante saíam cobras que se eriçavam sobre o meu peito
E muito ao longe me parecia ouvir uivos de lobas.
E então a aragem começou a descer e me arrepiou os nervos
E os insetos se ocultavam nos meus ouvidos e zunzunavam sobre os meus
lábios.
Eu queria me levantar porque grandes reses me lambiam o rosto
E cabras cheirando forte urinavam sobre as minhas pernas.
Uma angústia de morte começou a se apossar do meu ser
As formigas iam e vinham, os insetos procriavam e zumbiam do meu
desespero
E eu comecei a sufocar sob a rês que me lambia.
Nesse momento as cobras apertaram o meu pescoço
E a chuva despejou sobre mim torrentes amargas.

Eu me levantei e comecei a chegar, me parecia vir de longe
E não havia mais vida na minha frente.
1 194