Poemas neste tema
Sonhos e Imaginação
Carlos Drummond de Andrade
Água-Cor
O país da cor é líquido e revela-se
na anilina dos vasos da farmácia.
Basta olhar, e flutuo sobre o verde
não verde-mata, o verde-além-do-verde.
E o azul é uma enseada na redoma.
Quisera nascer lá, estou nascendo.
Varo a laguna do ouro do amarelo.
A cor é o existente; o mais, falácia.
na anilina dos vasos da farmácia.
Basta olhar, e flutuo sobre o verde
não verde-mata, o verde-além-do-verde.
E o azul é uma enseada na redoma.
Quisera nascer lá, estou nascendo.
Varo a laguna do ouro do amarelo.
A cor é o existente; o mais, falácia.
1 688
Carlos Nóbrega
Terceiro Exemplo
Exemplo de coisa líquida
o sono.
Um rio que não se explica
correndo com a lua em cima
o sono.
Um rio que não se explica
correndo com a lua em cima
878
Carlos Nóbrega
O Sonho
o cão dorme.
Seus ossos
estão cheios de lua
Seus ossos
estão cheios de lua
838
Caronile Lins
Em Delírio
Quantos dias e noites
Velei teu semblante,
Chorei lágrimas frias
Pois não havia quem
Pudesse aquecê-las,
Sentia teu cheiro
Pelo quarto escuro,
Ouvia tua voz
Murmurando meus pensamentos,
Tocava-me o corpo
Com as mãos pequenas
E sorria
um sorriso lindo
E terno.
Teus olhos suplicavam carinho,
Tua boca revelava meus segredos,
Tuas pernas dançavam entrelaçadas às minhas,
Teu peito me cobria como um manto
E nos teus braços, eu dormia um sono profundo.
E acreditei que pudesse ser real!
Mas...
Percebi que para estar a teu lado,
Terei que viver em delírio,
Na tua abstração.
Velei teu semblante,
Chorei lágrimas frias
Pois não havia quem
Pudesse aquecê-las,
Sentia teu cheiro
Pelo quarto escuro,
Ouvia tua voz
Murmurando meus pensamentos,
Tocava-me o corpo
Com as mãos pequenas
E sorria
um sorriso lindo
E terno.
Teus olhos suplicavam carinho,
Tua boca revelava meus segredos,
Tuas pernas dançavam entrelaçadas às minhas,
Teu peito me cobria como um manto
E nos teus braços, eu dormia um sono profundo.
E acreditei que pudesse ser real!
Mas...
Percebi que para estar a teu lado,
Terei que viver em delírio,
Na tua abstração.
951
Ricardo Moraes Ferreira
Soneto em Sonho
Vivia um sonho em terras distantesUm
bosque viçoso que douro se enchia
Um céu de esmeralda espelhava o semblante
Da deusa Diana que em plumas dormia
Passeavas desfilando galhardias
Seduzindo a natureza esplendorosa
E a lua que outrora então dormia
Se oferece - nua, branca, indecorosa.
Raios brancos tosam nuvens espaçadas
Conduzindo à nau estrelas naufragadas
Qual um tolo te adoro e não reparo
Seus olhares que por mim tão distraídos
Belas flores em jardins imaginários,
Verdes olhos - firmamento esquecidos.
bosque viçoso que douro se enchia
Um céu de esmeralda espelhava o semblante
Da deusa Diana que em plumas dormia
Passeavas desfilando galhardias
Seduzindo a natureza esplendorosa
E a lua que outrora então dormia
Se oferece - nua, branca, indecorosa.
Raios brancos tosam nuvens espaçadas
Conduzindo à nau estrelas naufragadas
Qual um tolo te adoro e não reparo
Seus olhares que por mim tão distraídos
Belas flores em jardins imaginários,
Verdes olhos - firmamento esquecidos.
951
Paulo Augusto Rodrigues
Chave
Existe um lugar.
Além...
Muito além do alcance da visão,
Muito aquém de qualquer percepção.
Oculto,
Difuso as especulações.
Sob sombras fulgurantes,
Ruço úmido,
Impenetrante...
Esconde,
Os vultos das paixões.
A sede,
O desejo,
As vontades,
As hesitações.
A fagulha da explosão,
Guardada,
Fechada.
As portas da ternura,
Mantêm-se seguras,
Bloqueando.
Os vários ódios dos dilemas,
Insultando.
Sobre a mesa posta,
Com doçuras e carinhos,
Expõem-se gloriosa
A chave,
Do caminho.
Além...
Muito além do alcance da visão,
Muito aquém de qualquer percepção.
Oculto,
Difuso as especulações.
Sob sombras fulgurantes,
Ruço úmido,
Impenetrante...
Esconde,
Os vultos das paixões.
A sede,
O desejo,
As vontades,
As hesitações.
A fagulha da explosão,
Guardada,
Fechada.
As portas da ternura,
Mantêm-se seguras,
Bloqueando.
Os vários ódios dos dilemas,
Insultando.
Sobre a mesa posta,
Com doçuras e carinhos,
Expõem-se gloriosa
A chave,
Do caminho.
902
Raul de Leoni
Platônico
As idéias são seres superiores,
— Almas recônditas de sensitivas —
Cheias de intimidades fugitivas,
De crepúsculos, melindres e pudores.
Por onde andares e por onde fores,
Cuidado com essas flores pensativas,
Que tem pólen, perfumes, órgãos e cores
E sofrem mais que as outras cousas vivas.
Colhe-as na solidão... são obras-primas
Que vieram de outros tempos e outros climas
Para os jardins de tua alma que transponho,
Para com ela teceres, na subida,
A coroa votiva do teu Sonho
E a legenda imperial da tua Vida.
— Almas recônditas de sensitivas —
Cheias de intimidades fugitivas,
De crepúsculos, melindres e pudores.
Por onde andares e por onde fores,
Cuidado com essas flores pensativas,
Que tem pólen, perfumes, órgãos e cores
E sofrem mais que as outras cousas vivas.
Colhe-as na solidão... são obras-primas
Que vieram de outros tempos e outros climas
Para os jardins de tua alma que transponho,
Para com ela teceres, na subida,
A coroa votiva do teu Sonho
E a legenda imperial da tua Vida.
1 611
Rosani Abou Adal
Ausência
Sonho te possuir nos meus braços
nas quatro estações do ano,
mas estás sempre distante de mim.
A vontade está aquém dos meus sonhos.
Estou sozinha meio à multidão
que desconhece meus sentimentos.
Quero te tocar e sentir teu calor,
a multidão não pode ser tocada.
Estás sempre fugindo de mim
como uma presa do caçador.
Não posso te identificar,
és meu segredo.
Quero te beijar a todo instante,
não sinto o gosto dos teus lábios.
Quero segurar tuas mãos,
não consigo tocar o invisível.
Quando compartilhamos o mesmo lençol,
assumes forma de felino,
sou uma caçadora que volta feliz da caçada.
Mesmo diante de nossa privacidade
tenho certeza que nunca estaremos juntos.
nas quatro estações do ano,
mas estás sempre distante de mim.
A vontade está aquém dos meus sonhos.
Estou sozinha meio à multidão
que desconhece meus sentimentos.
Quero te tocar e sentir teu calor,
a multidão não pode ser tocada.
Estás sempre fugindo de mim
como uma presa do caçador.
Não posso te identificar,
és meu segredo.
Quero te beijar a todo instante,
não sinto o gosto dos teus lábios.
Quero segurar tuas mãos,
não consigo tocar o invisível.
Quando compartilhamos o mesmo lençol,
assumes forma de felino,
sou uma caçadora que volta feliz da caçada.
Mesmo diante de nossa privacidade
tenho certeza que nunca estaremos juntos.
1 031
Rosani Abou Adal
Nua
Sinto-me como um cabide
que pendura a própria roupa.
Estou nua diante de mim,
completamente nua.
Minha nudez é como o silêncio,
horas que param no tempo
com os ponteiros na mesma posição
por um longo período.
Sinto frio, muito frio.
É verão mas parece estar nevando
- o agasalho esquenta o guarda-roupa.
Não tenho cobertas,
durmo feito estátua no cimento.
Não há amigo dentro do armário
apenas suportes, pedaços de pano.
Abro as portas e procuro alguém,
não há ninguém no móvel imóvel.
Tento me vestir e não consigo,
troco de roupa a cada segundo
e não me sinto bem.
Talvez a cor, é melhor mudar.
Experimento outra, mais outra,
as roupas não me vestem, desnudam.
O guarda-roupa está vazio,
totalmente vazio, sem cabides,
suéter, paletó e linho.
Com certeza deve estar blefando
ou me dando um xeque-mate,
mas ele não sabe jogar.
É um pedaço de madeira
esculpida e esmaltada,
não se veste nem se despe
e não precisa de coberta para dormir.
Sinto frio, muito frio.
Deito na cama e não conquisto sonhos,
estão solitários, divagando
no porta-jóias do inconsciente.
Os pesadelos dormem como chumbo
e não acordam.
Eu grito e não escutam.
Estou nua diante de mim mesma.
Não tenho cobertores nem cobertas.
que pendura a própria roupa.
Estou nua diante de mim,
completamente nua.
Minha nudez é como o silêncio,
horas que param no tempo
com os ponteiros na mesma posição
por um longo período.
Sinto frio, muito frio.
É verão mas parece estar nevando
- o agasalho esquenta o guarda-roupa.
Não tenho cobertas,
durmo feito estátua no cimento.
Não há amigo dentro do armário
apenas suportes, pedaços de pano.
Abro as portas e procuro alguém,
não há ninguém no móvel imóvel.
Tento me vestir e não consigo,
troco de roupa a cada segundo
e não me sinto bem.
Talvez a cor, é melhor mudar.
Experimento outra, mais outra,
as roupas não me vestem, desnudam.
O guarda-roupa está vazio,
totalmente vazio, sem cabides,
suéter, paletó e linho.
Com certeza deve estar blefando
ou me dando um xeque-mate,
mas ele não sabe jogar.
É um pedaço de madeira
esculpida e esmaltada,
não se veste nem se despe
e não precisa de coberta para dormir.
Sinto frio, muito frio.
Deito na cama e não conquisto sonhos,
estão solitários, divagando
no porta-jóias do inconsciente.
Os pesadelos dormem como chumbo
e não acordam.
Eu grito e não escutam.
Estou nua diante de mim mesma.
Não tenho cobertores nem cobertas.
872
Rosani Abou Adal
Imagens
Meus pensamentos voam até o pico,
alcançam a mais alta altitude.
Alguns metros abaixo voltam
a respiram, sorrir,
pensar e sonhar.
Sonham com um céu lilás,
observam estrelas cadentes.
Eles não têm medo de nada,
respiram fundo e descem ao abrigo.
O guarda da guarita tem medo
de atravessar as fronteiras da imaginação.
Meus pensamentos voam, descem o morro,
avistam cachoeiras, mares, lagos,
um casebre atrás das árvores,
homens amando na grama,
borboletas pousam nas pétalas,
crianças sorrindo e brincando,
um bando de passarinhos cantando.
Meus pensamentos voam até a base
e voltam à plenitude.
alcançam a mais alta altitude.
Alguns metros abaixo voltam
a respiram, sorrir,
pensar e sonhar.
Sonham com um céu lilás,
observam estrelas cadentes.
Eles não têm medo de nada,
respiram fundo e descem ao abrigo.
O guarda da guarita tem medo
de atravessar as fronteiras da imaginação.
Meus pensamentos voam, descem o morro,
avistam cachoeiras, mares, lagos,
um casebre atrás das árvores,
homens amando na grama,
borboletas pousam nas pétalas,
crianças sorrindo e brincando,
um bando de passarinhos cantando.
Meus pensamentos voam até a base
e voltam à plenitude.
956
Raquel Naveira
Napoleão
Sonhei que era Napoleão
Como qualquer louco
Que tem direito a seu sonho.
Como Napoleão
Sonhei com uma coroa,
Um manto,
Um naco de mundo entre os dentes.
Como Napoleão
Sonhei com palácios,
Abelhas, lírios,
Passeios num cavalo branco.
Como Napoleão
Sonhei com pirâmides,
Tempestades de neve,
Uma cama de campanha no deserto.
Como Napoleão
Acordei
E não era dono de nada,
De nenhuma ilha,
De nenhuma bússola,
De nenhuma glória.
Como Napoleão
Acordei e vi que tudo era sonho.
Como qualquer louco
Que tem direito a seu sonho.
Como Napoleão
Sonhei com uma coroa,
Um manto,
Um naco de mundo entre os dentes.
Como Napoleão
Sonhei com palácios,
Abelhas, lírios,
Passeios num cavalo branco.
Como Napoleão
Sonhei com pirâmides,
Tempestades de neve,
Uma cama de campanha no deserto.
Como Napoleão
Acordei
E não era dono de nada,
De nenhuma ilha,
De nenhuma bússola,
De nenhuma glória.
Como Napoleão
Acordei e vi que tudo era sonho.
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