Poemas neste tema

Sonhos e Imaginação

Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Baile

Deixei as cartas na mesa
alguém as há-de jogar
soltei a alma no vento
entre os claros do luar
vou cavalgar mais que o tempo
e antes do tempo chegar
à beira do sentimento

Correr os rumos do mundo
sem saber onde se vai
contar as estrelas no céu
respirar os vendavais
vou cavalgar mais que o vento
pra depois me demorar
à beira do sentimento

Vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar

Ser dono do infinito
que anda nos brilhos da noite
calor e fulgor do corpo
que a lua rouba o alento
vou cavalgar mais que o vento
pra depois me demorar
à beira do sentimento

Vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
1 308
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

A fantasia (tem brilhos como as estrelas)

Vais pela rua
E finges que navegas
Desancorado até à alma
Percorres os mares do mundo
Hoje és um rei
E finges que te entregas
Ao vento e à tempestade
Como se fosses um vagabundo

A aventura, sente
A maresia e a madrugada
Corre, deixa-te levar
Pelo vento quente
Que se cola ao teu corpo
E te embala sempre
Até quereres voltar

A fantasia
Tem brilhos como as estrelas
E morna e doce e apetece
Soltá-la a voar no mundo

Hoje és um rei
Na tua caravela
A navegar
Num sopro de magia
1 192
Machado de Assis

Machado de Assis

Pálida Elvira

A Francisco Paz

Ulysse, jeté sur les rives d'Ithaque, ne les
reconnait pas et pleure sa patrie. Ainsi
l'homme dans le bonheur possédé ne reconnait
pas son rêve et soupire

DANIEL STERN
I

Quando, leitora amiga, no ocidente
Surge a tarde esmaiada e pensativa;
E entre a verde folhagem recendente
Lânguida geme viração lasciva;
E já das tênues sombras do oriente
Vem apontando a noite, e a casta diva
Subindo lentamente pelo espaço,
Do céu, da terra observa o estreito abraço;

II

Nessa hora de amor e de tristeza,
Se acaso não amaste e acaso esperas
Ver coroar-te a juvenil beleza
Casto sonho das tuas primaveras;
Não sentes escapar tua alma acesa
Para voar às lúcidas esferas?
Não sentes nessa mágoa e nesse enleio
Vir morrer-te uma lágrima no seio?

III

Sente-lo? Então entenderás, Elvira,
Que assentada à janela, erguendo o rosto,
O vôo solta à alma que delira
E mergulha no azul de um céu de agosto;
Entenderás então por que suspira,
Vítima já de um íntimo desgosto,
A meiga virgem, pálida e calada,
Sonhadora, ansiosa e namorada.

(...)

VI

Era uma jóia a alcova em que sonhava
Elvira, alma de amor. Tapete fino
De apurado lavor o chão forrava.
De um lado oval espelho cristalino
Pendia. Ao fundo, à sombra, se ocultava
Elegante, engraçado, pequenino
Leito em que, repousando a face bela,
De amor sonhava a pálida donzela.

VII

Não me censure o crítico exigente
O ser pálida a moça é meu costume
Obedecer à lei de toda a gente
Que uma obra compõe de algum volume.
Ora, no nosso caso, é lei vigente
Que um descorado rosto o amor resume.
Não tinha Miss Smolen outras cores;
Não as possui quem sonha com amores.

VIII

Sobre uma mesa havia um livro aberto;
Lamartine, o cantor aéreo e vago,
Que enche de amor um coração deserto;
Tinha-o lido; era a página do Lago.
Amava-o; tinha-o sempre ali bem perto,
Era-lhe o anjo bom, o deus, o orago;
Chorava aos cantos da divina lira...
É que o grande poeta amava Elvira!

IX

Elvira! o mesmo nome! A moça os lia,
Com lágrimas de amor, os versos santos,
Aquela eterna e lânguida harmonia
Formada com suspiros e com prantos;
Quando escutava a musa da elegia
Cantar de Elvira os mágicos encantos,
Entrava-lhe a voar a alma inquieta,
E com o amor sonhava de um poeta.

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Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Pálida Elvira.

In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.69-71. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira).

NOTA: Poema composto de 97 oitavas
2 118
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Pálida à luz da lâmpada sombria

Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!


Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biográficas por Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas por Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1949. p.568
5 187
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

O menino do piano (um sonho do Tomás)

vi um menino com um piano
no céu da minha cabeça
veio de tão longe só para me pedir
que nunca o esqueça
vinha a tocar o seu piano
como só nos sonhos pode ser
por entre as nuvens e as estrelas
apareceu quando me viu adormecer

ficou sentado perto de mim
onde mora a fantasia
quis-lhe tocar mas não se pode ter
a noite a iluminar o dia
soprou devagarinho uma estrela
que se acendeu na sua mão
disse-me: podes sempre vê-la
se souberes soprá-la no teu coração

vi um menino com um piano
a despedir-se de mim
com uma nuvem fez o mar e partiu
(nos sonhos pode ser assim)
disse-me: está a nascer o dia
vou pra onde a noite se esconder
volto com a primeira estrela
para tu nunca teres medo ao escurecer
1 199
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Nalgum Lugar Perdido

Olhar-te um pouco
Enquanto acaba a noite
Enquanto ainda nenhum gesto te magoa
E o mundo for aquilo que sonhares
Nesse lugar só teu

Olhar-te um pouco
Como se fosse sempre
Até ao fim do tempo, até amanhecer
E a luz deixar entrar o mundo inteiro
E o sonho se esconder

Nalgum lugar perdido
Vou procurar sempre por ti
Há sempre no escuro um brilho
Um luar
Nalgum lugar esquecido
Eu vou esperar sempre por ti

Enquanto dormes
Por um momento à noite
É um tempo ausente que te deixa demorar
Sem guerras nem batalhas pra vencer
Nem dias pra rasgar

Eu fico um pouco
Por dentro dos desejos
Por mil caminhos que são mastros e horizontes
Tão livres como estrelas sobre os mares
E atalhos pelos montes

Nalgum lugar perdido
Vou procurar sempre por ti
Há sempre no escuro um brilho
Um luar
Nalgum lugar esquecido
Eu vou esperar sempre por ti
1 023
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Me Escapé Con Mi Guitarra

Me escapé con mi guitarra
Camino de un lugar lejos de aqui
Recuerdo el romancero de otra soledad
Que se me acerca

Me escapé con mis canciones
Y el alma transbordando de sentir
La guitarra en las manos compañera
Buscando alguna paz, algun lugar adonde ir

Puedo contarte mil histórias
Pedirte que me escondas en tus brazos
Como a un niño
Puedo contarte mis secretos
Hablarte, mi guitarra, de la niñez

Me escapé con mis recuerdos
Momentos de añoranza y soledad
Y aunque sé que estás conmigo mi voz tiembla
Al encuentro de tu voz

Me escapé con mis temores
De que un final asome su mirada
Se los llevan y no puedo conservar
Nada más que lo intocable, en el alma

Puedo contarte mil historias
Pedirte que me ayudes a ser fuerte
Como el árbol
Puedo contarte mis secretos
Cogerte, mi guitarra, y cantar

Antes que acabe la hora
Y quedes tu dormida en mi lugar
Ayudame a soltar mis sentimentos
Y a pasar al otro lado del cristal

Sabré contarte mil histórias
Crear las melodias confundidas en mi adentro
Sabré contarte mis secretos
Tocarte, mi guitarra, y enfín lloar
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Machado de Assis

Machado de Assis

O Almada: Poema Herói-Cômico em 8 Cantos (Fragmentos)

Canto VII

II

Eis que um sonho, agitando as asas brancas
Leve espalha no cérebro do Almada,
Como gotas de chuva rara e fina,
Um pó sutil de mágicas patranhas.
Sonha... Em que há de sonhar o grão prelado?
Vê no espaço um ginete alto e possante
À solta galopando, e logo nele,
Elmo de ouro, armadura de aço fino,
A briosa figura de um guerreiro.
Tenta irritado o indômito cavalo
O cavaleiro sacudir na terra,
Mastiga o freio, empina-se, escoiceia,
Voa de norte a sul, de leste a oeste,
Ora, a pata veloz roça nos mares,
Ora, igual ao tufão, descose as nuvens,
Mas o galhardo cavaleiro as rédeas
Coas fortes mãos encurta, e pouco a pouco
O ríspido quadrúpede sossega
E pára no ar. No rosto do guerreiro
Vê as próprias feições o grande Almada,
Olhos, cabelos, boca, faces, tudo,
Tudo é dele. Ó prodígio! Voz solene
Do ponto mais recôndito do espaço,
Onde estrela não há, não há planeta,
Estas palavras singulares solta:
"O bravo cavaleiro és tu, prelado,
E o domado corcel é o teu rebanho,
Que embalde morde o freio e se rebela
Contra ti que hás vencido el-rei e o povo,
Tornando em cinzas o atrevido Mustre."

III

Deste agradável sonho consolado,
Abre o pastor os olhos, vira o corpo,
E outra vez adormece. Novo quadro
E diverso lhe pinta a fantasia.
Vê-se diante de provida mesa,
À direita do papa, e come e bebe
De cem bispos servido. Entusiasmado
Com as finezas de Alexandre Sétimo,
O prelado um discurso principia
Depois de haver tossido quatro vezes.
Os olhos fita num painel que estava
Na fronteira parede; a mão do artista
O belo e forte arcanjo debuxara
Que a Satanás venceu; às plantas suas
Jaz o eterno rebelde. Entrava apenas
No magnífico exórdio do discurso
O valoroso Almada, quando a tela
A tremer começou; subitamente
O brilhante Miguel desaparece,
E o diabo que ali prostrado fora
Toma a figura do execrando Mustre,
Levanta-se do chão; e com desprezo,
E com gesto de escárnio e de ameaça,
Os turvos olhos no prelado fita
E a devassa fatal nas mãos sustenta.
Pasmam do caso os circunstantes todos,
Enquanto o forte Almada tropeçando
Nas cadeiras, nos vasos, nas cortinas,
Foge aterrado, uma janela busca,
Dela, sem ver a altura, se despenha,
E de abismo em abismo vai rolando
Até cair da própria cama abaixo.

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Publicado no livro Outras relíquias: prosa e verso (1910).

In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.269-270. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)

NOTA: Poema inacabado, composto de 8 cantos. O canto 7 é composto de 17 parte
1 570
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Una Casa

Hoy yo te encontré en una casa vieja
Tu ya te marchabas a otro lugar
No llevabas nada más que el mundo entero
Y todos los otros que vas a encontrar

Es como una história que viaja en ti
Es como un camino que se pierde
A veces despertar en una casa
Sin conocer
Ni sombras ni paredes

Y empezar de nuevo otro camino
Con eso que nadie nos puede robar
Eso que renace en el destino
Y que casi nunca sabemos nombrar

Es como una historia que viaja en ti
Los sueños que llenan cada hueco
Querer despertar en una casa
Donde se conocen todos los secretos

Hoy yo te encontré al final del dia
Respirando cielo y horizonte
Esperabas ver la primera estrella
Para decidir cual es su nombre

Y seguir la historia que viaja en ti
Los sueños que te guían cada paso
A veces despertar en una casa
Es como despertar en un abrazo
1 149
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Pedras e Flores

Hoje a vida passa como um barco
Ilha de náufragos esquecida no mar
E o tempo é nada haver sentido tudo
O que por nada ser nos faz mudar
Hoje o mundo é o revés de um sonho
Que um sono mais profundo fez esquecer
Para quê querer das coisas a razão
Se quase nada tem razão de ser
O luar traz silêncios e disparos
E carícias fugazes e horrores
E morre-se num canto de um poema
Por isso e outras coisa dão-se flores
Bebe-se vinho e dorme-se ao relento
E liberta-se o grito que vier
Pra se ouvir longe e perto, e dentro
Conserva-se o silêncio, o que se puder
E alguma vez ainda se acredita
Na força da montanha céu adentro
E na canção do mar por ser bonita
E nas asas que inventa, cores ao vento
Mas hoje voam pássaros sem asas
Na terra desabrocham cores de guerra
E hoje as flores rolam pelo chão
Como se fossem pedras
1 368
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Afterglow

Siempre es conmovedor el ocaso
por indigente o charro que sea,
pero más conmovedor todavía
es aquel brillo desesperado y final
que herrumbra la llanura
cuando el sol último se ha hundido.
Nos duele sostener esa luz tirante y distinta,
esa alucinación que impone al espacio
el unánime miedo de la sombra
y que cesa de golpe
cuando notamos su falsía,
como cesan los sueños
cuando sabemos que soñamos.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 39 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
2 731
Roberto Piva

Roberto Piva

Ritual dos 4 Ventos e dos 4 Gaviões

para Marco Antônio de Ossain

"Eu trago comigo os guardiões
dos Circuitos celestes."
— Livro dos Mortos do Antigo Egito —

Ali onde o gavião do Norte resplandesce
sua sombra
Ali onde a aventura conserva os cascos
do vudú da aurora
Ali onde o arco-íris da linguagem está
carregado de vinho subterrâneo
Ali onde os orixás dançam na velocidade
dos puros vegetais
Revoada das pedras do rio
Olhos no circuito da Ursa Maior
na investida louca
Olhos de metabolismo floral
Almofadas de floresta
Focinho silencioso da sussuarana com
passos de sabotagem
Carne rica de Exú nas couraças da noite
Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada
Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas
Bate o tambor
no ritmo dos sonhos espantosos
no ritmo dos naufrágios
no ritmo dos adolescentes
à porta dos hospícios
no ritmo do rebanho de atabaques
Bate o tambor
no ritmo das oferendas sepulcrais
no ritmo da levitação alquímica
no ritmo da paranóia de Júpiter
Caciques orgiásticos do tambor
Com meu Skate-gavião
Tambor na virada do século ganimedes
Iemanjá com seus cabelos de espuma.

1 499
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Benarés

Falsa y tupida
como un jardín calcado en un espejo,
la imaginada urbe
que no han visto nunca mis ojos
entreteje distancias
y repite sus casas inalcanzables.

El brusco sol
desgarra la completa oscuridad
de templos, muladares, cárceles, patios
y escalará los muros
y resplandecerá en un río sagrado.

Jadeante
la ciudad que oprimió un follaje de estrellas
desborda el horizonte
y en la mañana llena
de pasos y de sueño
la luz va abriendo como ramas las calles.

Juntamente amanece
en todas las persianas que miran al oriente
y la voz de un almuédano
apesadumbra desde su alta torre
el aire de este día
y anuncia a la ciudad de los muchos dioses
la soledad de Dios.

(Y pensar
que mientras juego con dudosas imágenes,
la ciudad que canto persiste
en un lugar predestinado del mundo,
con su topografía precisa,
poblada como un sueño,
con hospitales y cuarteles
y lentas alamedas
y hombres de labios podridos
que sienten frío en los dientes.)



"Fervor de Buenos Aires" (1923)



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 42 e 43| Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 443
Inaura Carneiro Leão

Inaura Carneiro Leão

Predestinação

Uma onda imprevisível
de luz e sons
atravessou o país dos anjos azuis
e penetrou impetuosamente
no mundo submerso
de meus sonhos

Veio de longe
dos abismos perfumados
onde florescem as rainhas da noite
que enebriam
os viandantes descuidados

Veio dos gestos espontâneos
e talvez despretensiosos
que tocaram a pele de minh’alma
e avassaladoramente
me deixaram estática
silente
e transbordante
de ternura e de desejo.

881
Eloise Petter

Eloise Petter

Oníricas metamorfoses

De longe um anjo parece voar
Nestes negros olhos que se parecem com as trevas
Estranhas feras na fronte singela
Fazem do anjo, demônio
E do homem, poeta

Um casulo envolve recôndita alma
Um sorriso esconde pútrido desejo
Escondido em seu corpo
Meu corpo eu vejo
Mas apenas um beijo o fará despertar

Em vão persigo nevoento olhar
Como se nele meu sono ousasse acordar
Como se nele meu pranto ousasse secar
A procura do encanto
Em seu sonho, sonhar

Ah!! Um vento infante no vendaval perdura
Assim como a minha paz anseia sua loucura
Nestes negros olhos que a chama incendeia
Revolve o meu peito
Que em ti clareia
Oníricas metamorfoses na noite funesta


998
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Los espejos

Yo que sentí el horror de los espejos
no sólo ante el cristal impenetrable
donde acaba y empieza, inhabitable,
un imposible espacio de reflejos

sino ante el agua especular que imita
el otro azul en su profundo cielo
que a veces raya el ilusorio vuelo
del ave inversa o que un temblor agita

Y ante la superficie silenciosa
del ébano sutil cuya tersura
repite como un sueño la blancura
de un vago mármol o una vaga rosa,

Hoy, al cabo de tantos y perplejos
años de errar bajo la varia luna,
me pregunto qué azar de la fortuna
hizo que yo temiera los espejos.

Espejos de metal, enmascarado
espejo de caoba que en la bruma
de su rojo crepúsculo disfuma
ese rostro que mira y es mirado,

Infinitos los veo, elementales
ejecutores de un antiguo pacto,
multiplicar el mundo como el acto
generativo, insomnes y fatales.

Prolonga este vano mundo incierto
en su vertiginosa telaraña;
a veces en la tarde los empaña
el Hálito de un hombre que no ha muerto.

Nos acecha el cristal. Si entre las cuatro
paredes de la alcoba hay un espejo,
ya no estoy solo. Hay otro. Hay el reflejo
que arma en el alba un sigiloso teatro.

Todo acontece y nada se recuerda
en esos gabinetes cristalinos
donde, como fantásticos rabinos,
leemos los libros de derecha a izquierda.

Claudio, rey de una tarde, rey soñado,
no sintió que era un sueño hasta aquel día
en que un actor mimó su felonía
con arte silencioso, en un tablado.

Que haya sueños es raro, que haya espejos,
que el usual y gastado repertorio
de cada día incluya el ilusorio
orbe profundo que urden los reflejos.

Dios (he dado en pensar) pone un empeño
en toda esa inasible arquitectura
que edifica la luz con la tersura
del cristal y la sombra con el sueño.

Dios ha creado las noches que se arman
de sueños y las formas del espejo
para que el hombre sienta que es reflejo
y vanidad. Por eso nos alarman.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 117 e 118 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 569
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Isidoro Acevedo

Es verdad que lo ignoro todo sobre él
-salvo los nombres de lugar y las fechas:
fraudes de la palabra-
pero con temerosa piedad he rescatado su último día,
no el que los otros vieron, el suyo,
y quiero distraerme de mi destino para escribirlo.
Adicto a la conversación porteña [al diálogo ladino]* del truco,
[alsinista]* y nacido del buen lado del Arroyo del Medio,
comisario de frutos del país en el mercado antiguo del Once,
comisario de la tercera,
se batió cuando Buenos Aires lo quiso
en Cepeda, en Pavón y en la playa de los Corrales.
Pero mi voz no debe asumir sus batallas,
porque él se las llevó en un sueño esencial [final]*.
Porque lo mismo que otros hombres escriben versos,
hizo mi abuelo un sueño.
Cuando una congestión pulmonar lo estaba arrasando
y la inventiva fiebre le falseó la cara del día,
congregó los archivos de su memoria
para fraguar su sueño.
Esto aconteció en una casa de la calle Serrano,
en el verano ardido del novecientos cinco.
Soñó con dos ejércitos
que entraban en la sombra de una batalla;
enumeró los comandos, las banderas, las unidades.
"Ahora están parlamentando los jefes", dijo en voz que le oyeron
y quiso incorporarse para verlos.
Hizo leva de pampa:
vio terreno quebrado para que pudiera aferrarse la infantería
y llanura resuelta para que el tirón de la caballería fuera invencible.
Hizo una leva última,
congregó los miles de rostros que el hombre sabe, sin saber,
después de los años:
caras de barba que se estarán desvaneciendo en daguerrotipos,
caras que vivieron junto a la suya en el Puente Alsina y Cepeda.
Entró a saco en sus días
para esa visionaria patriada que necesitaba su fe, no que una
flaqueza le impuso;
juntó un ejército de sombras ecuestres [porteñas]*
para que lo mataran.
Así, en el dormitorio que miraba al jardín,
murió en un sueño por la patria.
En metáfora de viaje me dijeron su muerte; no la creí.
Yo era chico, yo no sabía entonces de muerte, yo era inmortal;
yo lo busqué por muchos días por los cuartos sin luz.


"Cuaderno San Martín" (1929)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 93 e 94 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
9 760
Jacira Lima

Jacira Lima

Amor, namorados do tempo sem fronteiras

Não és Deus, Deusa.
E no entanto, fazes parte deste ser.
Fazes parte do todo.
Sinto tua presença quando aqueces meu corpo que treme de frio.
É o teu calor!

Sinto teu cheiro, na brisa que passa.
Sei que me olhas, quando vejo o brilho mais ousado de uma estrela a
piscar.
Quando vem o vento, sinto teus lábios a tocar de leve os meus.
Ao caminhar na chuva, sinto tuas lágrimas saudosas.
Já o trovão, é o teu grito!

Por saber que tuas lágrimas traduzem uma saudade feliz.
Eu fico feliz, pois não me esqueceste, faço parte de ti, estou na tua
lembrança.
Saio da terra molhada e vou ao país dos sonhos.
Lá, eu te encontro nos tocamos e contemplamos o universo até a
alvorada.
Não percebemos, mas amanheceu!

Tu me acordas com tua ousadia de adolescente.
Banhas meu quarto com teus olhos invisíveis.
Bom dia amor!
Felicidades!

865
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

El otro tigre

Pienso en un tigre. La penumbra exalta
La vasta Biblioteca laboriosa
Y parece alejar los anaqueles;
Fuerte, inocente, ensangrentado y nuevo,
él irá por su selva y su mañana
Y marcará su rastro en la limosa
Margen de un río cuyo nombre ignora
(En su mundo no hay nombres ni pasado
Ni porvenir, sólo un instante cierto.)
Y salvará las bárbaras distancias
Y husmeará en el trenzado laberinto
De los olores el olor del alba
Y el olor deleitable del venado;
Entre las rayas del bambú descifro,
Sus rayas y presiento la osatura
Baja la piel espléndida que vibra.
En vano se interponen los convexos
Mares y los desiertos del planeta;
Desde esta casa de un remoto puerto
De América del Sur, te sigo y sueño,
Oh tigre de las márgenes del Ganges.

Cunde la tarde en mi alma y reflexiono
Que el tigre vocativo de mi verso
Es un tigre de símbolos y sombras,
Una serie de tropos literarios
Y de memorias de la enciclopedia
Y no el tigre fatal, la aciaga joya
Que, bajo el sol o la diversa luna,
Va cumpliendo en Sumatra o en Bengala
Su rutina de amor, de ocio y de muerte.
Al tigre de los simbolos he opuesto
El verdadero, el de caliente sangre,
El que diezma la tribu de los búfalos
Y hoy, 3 de agosto del 59,
Alarga en la pradera una pausada
Sombra, pero ya el hecho de nombrarlo
Y de conjeturar su circunstancia
Lo hace ficción del arte y no criatura
Viviente de las que andan por la tierra.


Un tercer tigre buscaremos. Éste
Será como los otros una forma
De mi sueño, un sistema de palabras
Humanas y no el tigre vertebrado
Que, más allá de las mitologías,
Pisa la tierra. Bien lo sé, pero algo
Me impone esta aventura indefinida,
Insensata y antigua, y persevero
En buscar por el tiempo de la tarde
El otro tigre, el que no está en el verso.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 128 e 129| Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 643
Lucila Issa

Lucila Issa

Beyond the Invisible

Os olhos
sentem e distinguem:
real ou outro sonho
você, você e eu.

Neste lado,
remoto é aprender a voar:
se cair vai crer e ver,
mudar a noite,
além da realidade.

684
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Imitation

A dark unfathom'd tide
Of interminable pride —
A mystery, and a dream,
Should my early life seem;
I say that dream was fraught
With a wild, and waking thought
Of beings that have been,
Which my spirit hath not seen.
Had I let them pass me by,
With a dreaming eye!
Let none of earth inherit
That vision on [of] my spirit;
Those thoughts I would controul,
As a spell upon his soul:
For that bright hope at last
And that light time have past,
And my worldly rest hath gone
With a sight [sigh] as it pass'd on
I care not tho' it perish
With a thought I then did cherish.

1 469
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

A Dream

In visions of the dark night
I have dreamed of joy departed--
But a waking dream of life and light
Hath left me broken-hearted.

Ah! what is not a dream by day
To him whose eyes are cast
On things around him with a ray
Turned back upon the past?

That holy dream- that holy dream,
While all the world were chiding,
Hath cheered me as a lovely beam
A lonely spirit guiding.

What though that light, thro' storm and night,
So trembled from afar-
What could there be more purely bright
In Truth's day-star?

-The End-

2 200
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Untitled - A wilder'd being from my birth

A wilder'd being from my birth
My spirit spurn'd control,
But now, abroad on the wide earth,
Where wand'rest thou my soul?

In visions of the dark night
I have dream'd of joy departed —
But a waking dream of life and light
Hath left me broken-hearted.

And what is not a dream by day
To him whose eyes are cast
On things around him with a ray
Turn'd back upon the past?

That holy dream — that holy dream,
While all the world were chiding,
Hath cheer'd me as a lovely beam
A lonely spirit guiding —

What tho' that light, thro' misty night
So dimly shone afar—
What could there be more purely bright
In Truth's day — star ?

-The End-

1 179
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Dreams

Oh! that my young life were a lasting dream!
My spirit not awakening, till the beam
Of an Eternity should bring the morrow.
Yes! tho' that long dream were of hopeless sorrow,
'Twere better than the cold reality
Of waking life, to him whose heart must be,
And hath been still, upon the lovely earth,
A chaos of deep passion, from his birth.
But should it be— that dream eternally
Continuing— as dreams have been to me
In my young boyhood— should it thus be given,
'Twere folly still to hope for higher Heaven.
For I have revell'd, when the sun was bright
I' the summer sky, in dreams of living light
And loveliness,— have left my very heart
In climes of my imagining, apart
From mine own home, with beings that have been
Of mine own thought— what more could I have seen?
'Twas once— and only once— and the wild hour
From my remembrance shall not pass— some power
Or spell had bound me— 'twas the chilly wind
Came o'er me in the night, and left behind
Its image on my spirit— or the moon
Shone on my slumbers in her lofty noon
Too coldly— or the stars— howe'er it was
That dream was as that night—wind— let it pass.

I have been happy, tho' in a dream.
I have been happy— and I love the theme:
Dreams! in their vivid coloring of life,
As in that fleeting, shadowy, misty strife
Of semblance with reality, which brings
To the delirious eye, more lovely things
Of Paradise and Love— and all our own!
Than young Hope in his sunniest hour hath known.


1827

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