Poemas neste tema

Sonhos e Imaginação

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Noite - LXXXI

Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como o âmbar dormido.


Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.


Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,


enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.
1 250
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XLVIII

São os seios das sereias
os redondos caracóis?

Ou são ondas petrificadas
ou jogo imóvel da espuma?

Não se incendiou a pradaria
com os vagalumes selvagens?

Os cabeleireiros do outono
despentearam os crisântemos?
1 007
Carla Bianca

Carla Bianca

Vingança

O tempo passou, minhas carnes estão secas e o rosto árido. Espero chuvas de sonhos para molhar a vida e fazer germinar esperança. Há séculos não vejo o sol. Não sei mais o que é brilho, a última vez que avistei o dourado, ele falava de amor e lançava olhares num tom de promessa. Tive medo, faltou coragem para apostar na luz e seguir o clarão. Hoje estou nas trevas e meus olhos adaptados ao breu. Os pés têm roteiros programados, não se aventuram além dos limites, do que é conhecido.
O negro ergueu muralhas e sitiou a vida que ainda resiste à escassez de amor.
Chuvas de granizo, quedas de meteoritos. Toda a natureza conspira, tramando uma vingança pela morte da ousadia.

953
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Os sonhos

Irmã da água empenhada e de suas adversárias
as pedras do rio, a argila evidente, a tosca madeira;
quando levantavas sonhando a fronte na noite de Capri
caíam espigas de tua cabeleira, e em meu pensamento
voava o hipnótico enxame do campo do Chile;
meu sonho desviava seus trens para Antofagasta;
entravam chovendo na alva de Pillanlelbún,
ali onde o rio recolhe o cheiro do velho curtume
e a chuva salpica o recinto dos derrubados.
1 125
Caronile Lins

Caronile Lins

Em Delírio

Quantos dias e noites
Velei teu semblante,
Chorei lágrimas frias
Pois não havia quem
Pudesse aquecê-las,

Sentia teu cheiro
Pelo quarto escuro,
Ouvia tua voz
Murmurando meus pensamentos,

Tocava-me o corpo
Com as mãos pequenas

E sorria
um sorriso lindo
E terno.

Teus olhos suplicavam carinho,
Tua boca revelava meus segredos,
Tuas pernas dançavam entrelaçadas às minhas,
Teu peito me cobria como um manto
E nos teus braços, eu dormia um sono profundo.

E acreditei que pudesse ser real!
Mas...
Percebi que para estar a teu lado,
Terei que viver em delírio,
Na tua abstração.

951
João Luiz Pacheco Mendes

João Luiz Pacheco Mendes

Desencanto

Não seria
Bela Adormecida
se sonhasse um dia
retornar à
vida.

1 002
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Manhã - XXI

Oh que todo o amor propague em mim sua boca,
que não sofra um momento mais sem primavera,
eu não vendi senão minhas mãos à dor,
agora, bem-amada, deixa-me com teus beijos.


Cobre a luz do mês aberto com teu aroma,
fecha as portas com tua cabeleira
e em relação a mim não esqueças que se desperto e choro
é porque em sonhos apenas sou um menino perdido


que busca entre as folhas da noite tuas mãos,
o contato do trigo que tu me comunicas,
um rapto cintilante de sombra e energia.


Oh, bem-amada, e nada mais que sombra
por onde me acompanhes em teus sonhos
e me digas a hora da luz.
1 521
José Lannes

José Lannes

Griet

Pensava em ti profundamente... quando
chegaste... E tão absorto me sentia
que, ao ver-te, apenas te sorri contente

e quedei, duvidando
se eras tu que chegavas realmente
ouse era em pensamento que te via...

969
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

O Sonho

o cão dorme.
Seus ossos
estão cheios de lua

838
Gilberto Gil

Gilberto Gil

Flora

Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora

Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora

Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora

Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora

Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora

Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora

2 683
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XIII

É verdade que só na Austrália
há crocodilos voluptuosos?

Como repartem o sol
na laranjeira as laranjas?

Vinha de uma boca amarga
a dentadura do sal?

É verdade que voa de noite
sobre minha pátria um condor negro?
563
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XII

Para quem sorri o arroz
com infinitos dentes brancos?

Por que nas épocas escuras
se escreve com tinta invisível?

Sabe a bela de Caracas
quantas faldas tem a rosa?

Por que me picam as pulgas
e os sargentos literários?
1 107
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Terceiro Exemplo

Exemplo de coisa líquida
o sono.
Um rio que não se explica
correndo com a lua em cima

878
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LIV

É verdade que as andorinhas
vão se estabelecer na lua?

Levarão a primavera
tirando-a das cornijas?

Se afastarão no outono
as andorinhas da lua?

Buscarão amostras de bismuto
a bicadas no céu?

E aos balcões voltarão
polvilhadas de cinza?
1 167
Olympia Mahu

Olympia Mahu

Espera

A porta se abrirá...
E, na sala vazia, tua presença, teu perfume...
Tua saudade surgirá, envolvente, no ar...
Dominando tudo.

Pensar... triste pensar... nem pensar
Tua lembrança forte, teu beijo,
Teu abraço envolvente em meu corpo
Num calafrio de amor.

Aqui estou, toda tua, toda nua,
Em sussurros de amor.
Me abandono no cansaço
Em doce sonolência de estar contigo
Em agonia de amor...

Doce abandono,
Eterno idílio
Em breve sonho,
Meu exílio...

Olimpya Mahu, nov/91

896
Madi

Madi

Ontem

Ontem

Ontem, tu me perguntastes — tal qual um adolescente —
se eu não tinha feito para você nenhum poema

Não escrevi para você, meu amor, o menor poema,
mas fiz mais do que isso
Mais do que escrever versos,
tirei os dois últimos dias apenas para pensar em ti

Maior do que todos os poemas que já te dei
foram as horas desses dias
que passei sonhando acordada
com o seu corpo sobre o meu,
com a sua boca sobre a minha,
com o toque suave da sua mão
entre as minhas coxas
e com todas as juras
que me faz jurar esse amor

Com a ausência, senti sua falta
e gastei meus dias com essas delicadezas
Só a sua presença poderia superar essa mesura,
porque nem mesmo um conto inteiro que eu fizesse
seria capaz de substituir tamanha ternura

A divagação desses dias
foi além de todas as palavras
cabíveis em um poema

És maior do que os versos
que eu possa vir a escrever
Por que, então, me perguntastes
se para você eu sou capaz de fazer a vida
quanto mais um poema?

775
Madi

Madi

Louca

Louca

Se abro a porta da minha casa
e o convido a deitar em minha cama
não é que eu seja louca
É porque não é de hoje
que nela eu durmo com você todas as noites

1 099
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LV

Por que não mandam as toupeiras
e as tartarugas à lua?

Os animais engenheiros
de cavidades e ranhuras

não poderiam tomar o encargo
destas longínquas inspeções?
1 012
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LVI

Não achas que os dromedários
preservam lua em suas corcovas?

Não a semeiam nos desertos
com persistência clandestina?

E não estará emprestado o mar
por um curto tempo à terra?

Não teremos que devolvê-lo
com suas marés à lua?
1 222
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Noite - LXXXIII

É bom, amor, sentir-te perto de mim na noite,
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.


Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.


Erguida, serás outra que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos


algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
com fogo suas secretas criaturas.
1 269
Paulo Leminski

Paulo Leminski

podem ficar com a realidade

podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

3 524
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LVII

Não será bom proibir
os beijos interplanetários?

Por que não analisar as coisas
antes de habilitar planetas?

E por que não o ornitorrinco
com sua espacial indumentária?

As ferraduras não se fizeram
para cavalos da lua?
1 014
Raimundo Fontenele

Raimundo Fontenele

O Cavalo das Horas

era um cavalo negro sem tamanho
no prado sul do mundo onde corria
o sangue dos ginetes destroçados

era um cavalo grosso reluzente
varando espaços fortes velozmente
tangido a um prado e a outro sempre-sempre

era um cavalo branco frio mudo
em cujos olhos crianças se atiravam
na sela da manhã no chão no limbo

era um cavalo horáculo fogoso
sustentando o peito três medalhas
de heróis tombados sobre o véu do muro

era um cavalo azul de tanto medo
de patas farejando o firmamento
onde pessoas e prantos misturaram-se

era um cavalo verde só de sono
que carregava os tristes para um outro
campo de plantação devasso / puro

era um cavalo novo nova idade
secular instrumento da discórdia
que não subia ao céu nem ia à terra

960
Paulo Leminski

Paulo Leminski

desta vez não vai ter neve como em

desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado
[aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

1 807