Poemas neste tema
Sonhos e Imaginação
Luciano Matheus Tamiozzo
Fim
É o fim...
Eu vim de um sonho
E para este sonho
Eu voltarei.
Não me procures
Pois contigo estarei
Povoando tua mente,
Teus sonhos de rei.
Estou desaparecendo,
Entre brumas e névoas
Eu vou sumir...
Me procure nos sonhos,
Lá sempre estarei,
Lá sempre ficarei.
Eu vim de um sonho
E para este sonho
Eu voltarei.
Não me procures
Pois contigo estarei
Povoando tua mente,
Teus sonhos de rei.
Estou desaparecendo,
Entre brumas e névoas
Eu vou sumir...
Me procure nos sonhos,
Lá sempre estarei,
Lá sempre ficarei.
1 001
Cristiane Neder
Queria Experimentar no Seu Corpo
Queria experimentar
todas as alturas do mundo
ao seu lado,
e perder o medo
de andar pelo céu
e conversar com os anjos.
Queria voar
e cair
sem paráquedas
para te abraçar
bem apertado,
e sentir o vento denso
das cordilheiras do Himalaia
e o silêncio e o calor
do Deserto do Saara,
pois no seu corpo
há todos os lugares belos
do mundo juntos
tatuados,
há todas as maravilhas
imaginadas e sonhadas
do planeta terra
na sua mais exata perfeição,
pois por onde você passa
sua pele recebe a energia
de cada lugar especial,
e registra na tua pele
um pouco de cada cultura.
todas as alturas do mundo
ao seu lado,
e perder o medo
de andar pelo céu
e conversar com os anjos.
Queria voar
e cair
sem paráquedas
para te abraçar
bem apertado,
e sentir o vento denso
das cordilheiras do Himalaia
e o silêncio e o calor
do Deserto do Saara,
pois no seu corpo
há todos os lugares belos
do mundo juntos
tatuados,
há todas as maravilhas
imaginadas e sonhadas
do planeta terra
na sua mais exata perfeição,
pois por onde você passa
sua pele recebe a energia
de cada lugar especial,
e registra na tua pele
um pouco de cada cultura.
843
Sandra Falcone
Sherezhade
Pudesse
eu,
de alguma forma,
modificar a minha íntima estrutura de mulher...
Ah, esta ambigüidade me alucina!
Não saber nada,
absolutamente nada,
apavora, amedronta.
Maldito cotidiano psíquico!
Deixar-me assim,
tomada por todos os mins.
Minha vontade. Minha imaginação.
Pedaços de mulher. Espelho de sonhos.
Ah!, quantas e quantas vezes,
ainda,
Sherezhade de mim mesma?
eu,
de alguma forma,
modificar a minha íntima estrutura de mulher...
Ah, esta ambigüidade me alucina!
Não saber nada,
absolutamente nada,
apavora, amedronta.
Maldito cotidiano psíquico!
Deixar-me assim,
tomada por todos os mins.
Minha vontade. Minha imaginação.
Pedaços de mulher. Espelho de sonhos.
Ah!, quantas e quantas vezes,
ainda,
Sherezhade de mim mesma?
934
Fernando Tavares Rodrigues
Confissão
Entre números
e cifrões transfigurado
Como se também fosse o que fingia.
E o amor por amar que me doía
Neste corpo de amor desocupado.
Assim vestia, dia a dia, o meu ofício
Dessa cor que não serve os namorados:
A gravata, o colarinho de silício
E os gestos tão iguais, tão estudados
Para ganhar um pão que nunca quis
Virei os meus sonhos do avesso
Em vez de continuar a ser feliz.
E hoje só sei que o não mereço,
Que a imagem que criei já não condiz
Com aquele que, mesmo assim, ainda pareço.
e cifrões transfigurado
Como se também fosse o que fingia.
E o amor por amar que me doía
Neste corpo de amor desocupado.
Assim vestia, dia a dia, o meu ofício
Dessa cor que não serve os namorados:
A gravata, o colarinho de silício
E os gestos tão iguais, tão estudados
Para ganhar um pão que nunca quis
Virei os meus sonhos do avesso
Em vez de continuar a ser feliz.
E hoje só sei que o não mereço,
Que a imagem que criei já não condiz
Com aquele que, mesmo assim, ainda pareço.
1 091
Fernando Pessoa
Corno nuvens pelo céu
Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.
São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.
Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?
17/06/1932
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.
São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.
Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?
17/06/1932
4 193
Fernando Pessoa
Ser consciente é talvez um esquecimento.
Ser consciente é talvez um esquecimento.
Talvez pensar um sonho seja, ou um sono.
Talvez dormir seja, um momento,
Voltar o spírito nosso a ser seu dono.
Quem me diz que o rochedo bruto e quedo
Não é o verdadeiro consciente –
O êxtase perene de uma mente
Que deixa o corpo hirto ser rochedo?
Só a morte o diz – mas quem me diz que o diz?
1932
Talvez pensar um sonho seja, ou um sono.
Talvez dormir seja, um momento,
Voltar o spírito nosso a ser seu dono.
Quem me diz que o rochedo bruto e quedo
Não é o verdadeiro consciente –
O êxtase perene de uma mente
Que deixa o corpo hirto ser rochedo?
Só a morte o diz – mas quem me diz que o diz?
1932
4 858
Fernando Pessoa
Nesta vida, em que sou meu sono,
Nesta vida, em que sou meu sono,
Não sou meu dono,
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através desta névoa que sou eu
Todas as vidas que Eu outrora tive,
Numa só vida.
Mar sou; baixo marulho ao alto rujo,
Mas minha cor vem do meu alto céu,
E só me encontro quando de mim fujo.
Quem quando eu era infante me guiava
Senão a vera alma que em mim estava?
Atada pelos braços corporais,
Não podia ser mais.
Mas, certo, um gesto, olhar ou esquecimento
Também, aos olhos de quem bem olhou,
A Presença Real sob o disfarce
Da minha alma presente som intento.
11/12/1932
Não sou meu dono,
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através desta névoa que sou eu
Todas as vidas que Eu outrora tive,
Numa só vida.
Mar sou; baixo marulho ao alto rujo,
Mas minha cor vem do meu alto céu,
E só me encontro quando de mim fujo.
Quem quando eu era infante me guiava
Senão a vera alma que em mim estava?
Atada pelos braços corporais,
Não podia ser mais.
Mas, certo, um gesto, olhar ou esquecimento
Também, aos olhos de quem bem olhou,
A Presença Real sob o disfarce
Da minha alma presente som intento.
11/12/1932
3 957
Herberto Helder
Comunicação Académica
Gato dormindo debaixo de um pimenteiro: gato amarelo folhas verdíssimas pimentos vermelhos: sono redondo: sombras pequenas de pimentos vermelhos no sono do gato: folhas sombrias dentro do amarelo: pimentos dormindo num gato vermelho: verdes redondos no sono do pimenteiro: o amarelo: da cabeça do gato nascem pimentos verdíssimos de sono: sono vermelho: sombras amarelas no gato redondo de sono verdíssimo debaixo de um pimenteiro amarelo: a sombra do gato dando folhas redondas sonhando amarelo sobre dormindo os pimentos: água: secura sombria do gato vermelho: o sonho da água dorme no pimenteiro: a sombra da cal das paredes secas dorme no gato de água amarela: a cal dá pimentos que sonham nas folhas do gato: o sono da cal dá sombras redondas no gato enrolado no vermelho: a água é uma sombra o gato é uma folha o sono é um pimenteiro: a cal é o verdíssimo do sono seco dando sombra no amarelo: pimenteiro redondo: pimentos de cal enrolados no sonho do silêncio amarelo: o silêncio dá gatos que sonham pimentos que dão sono na cal que dá sombra nas folhas que dão água na secura do tempo vermelho: o tempo enrola-se debaixo da cabeça do pimenteiro que se enrola no gato de cal do sono amarelo: o sono de dentro dos pimentos debaixo do redondo verdíssimo enrolado no sonho: e dorme o pimenteiro com as sombras do gato redondo enrolando-se nas folhas: silêncio de sonho sono de tempo: tudo amarelo: noite do pimenteiro sono da cal folhas do gato sonho das sombras do verdíssimo vermelho: secura da noite: noite do gato na noite da cal com a noite das folhas dentro da noite do verdíssimo debaixo da noite do sonho diante da noite do pimenteiro após a noite da água conforme a noite debaixo com a noite enrolada contra a noite do amarelo desde a noite das sombras consoante a noite redonda para a noite de dentro durante a noite do vermelho detrás da noite dos tempos debaixo da noite sem à frente do com da noite conforme a noite conforme: a noite dos tempos: um gato de dentro desaparecendo num pimenteiro: pimenteiro desaparecendo: a cal morrendo no sonho das folhas pequenas: o silêncio de tudo no mundo inteiro:
et caeteramente vosso inteiro:
herberto helder:
em janeiro:
mil novecentos e sessenta e três
1963.
et caeteramente vosso inteiro:
herberto helder:
em janeiro:
mil novecentos e sessenta e três
1963.
1 475
Fernando Pessoa
Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.
À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia –
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia.
E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam,
E palhaços que tocam em rabecas...
E há figuras pequenas e engraçadas
Que brincam e dão saltos e passadas...
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
Pé ante pé, volta a melhor das fadas
Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.
1932
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.
À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia –
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia.
E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam,
E palhaços que tocam em rabecas...
E há figuras pequenas e engraçadas
Que brincam e dão saltos e passadas...
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
Pé ante pé, volta a melhor das fadas
Ao seu longínquo reino cor-de-rosa.
1932
4 851
Herberto Helder
Os Mortos Perigosos, Fim.
Os jardins contorcem-se entre o estio e as trevas.
Avança o ar a correr com as patas
sobre a camisa branca. Então o espaço
é surpreendido pelos mortos que transpiram
em seus blusões de ouro. Da noite
chegam paisagens de água
que batem
em suas grutas tremendamente claras.
Mugidores rebanhos de camélias monstruosas,
montanhas às varandas de palácios de seda
amarela. Que voam,
da raiz à flor, pelo escuro
interior da vocação. E os lugares
todos esperam doces assassinos que assomam
à pontuação da memória.
A noite levanta praias cruéis durante a combustão
das linhas
do sono. Pintados na atmosfera.
Com as costas respirando brutalmente — que melancolia
combatem, a reluzir,
sob as patas de constelações implacáveis.
Uma rede de mel
fervente, uma rede dolorosa de um mel
que se ilumina.
Arrancam-se os mortos dentre mel e madeira e dentre
ar e velocidade.
Uma avença incandescente na parte
mais forte da cabeça — a aterradora curva
suspirante
do seu sossego alto. Não os leves nos braços
por entre ramagens de ouro.
Estão pintados no fundo dos tempos
da primavera. Suas garras rutilantes latejam
com uma doçura horrível.
Um pouco à noite, quando os quartos
andam e a folhagem se retira para os confins
da cabeça, onde a loucura tem os mapas.
Não os toques, com dedos animais, em suas
semiluas de éter frio.
Porque há maneiras graves de os mortos
viajarem: sedas desenvoltas, força, mel,
glicínias,
planos de energia e de tristeza.
Não faças com que esse mês te procure.
Leva os mortos como se fossem um lenço verde
chegado
de uma cidade transparente. O sono está cheio
de álcool gelado, os campos
arqueiam-se pelo poder de vírgulas
selvagens. Nunca ouvi chamar os mortos
pelo nome dos seus retratos reclinados
brancos. Colinas
amedrontadas à chuva.
Penínsulas ligadas por cravinho e canela.
Toca-os com uma chama leve na crista negra.
Respira sobre laranjas que escaldam,
se as abres
com teus dedos — gota a gota aplicando
a soldadura. Saber que lenço
lhes pertence, que feixe
de linhas taciturnas urdiu sua cara
largada no ar. Ou quem vem desse
sensível bordado, ou
que força condensa sua cor de madeira enxuta.
Saber que alcançam tua voz
com sua pausa: uma flor
nos meios, sobre si mesma.
Não.
Oh, não leves os mortos como crianças passadas
a limpo, em tua morosa
vocação, até à carnívora gentileza
das visões. Como em redes
enxameadas, o mel fermenta em suas
cabeças um delírio
docemente animal. E se a paisagem quadrúpede
se encosta à janela,
este mês é olhado pelo espaço todo.
Não os conduzas aos símbolos nocturnos, dentre
mel e velocidade e dentre
madeira e ar. Não te sentes atrás
de um lenço parado. Enquanto os mortos
culminam como jacintos
a pulsar direitos—o teu coração pende
crivado de pinhões respirando. E a tua idade suspira
como um animal louco.
Quando.
1965-68.
Avança o ar a correr com as patas
sobre a camisa branca. Então o espaço
é surpreendido pelos mortos que transpiram
em seus blusões de ouro. Da noite
chegam paisagens de água
que batem
em suas grutas tremendamente claras.
Mugidores rebanhos de camélias monstruosas,
montanhas às varandas de palácios de seda
amarela. Que voam,
da raiz à flor, pelo escuro
interior da vocação. E os lugares
todos esperam doces assassinos que assomam
à pontuação da memória.
A noite levanta praias cruéis durante a combustão
das linhas
do sono. Pintados na atmosfera.
Com as costas respirando brutalmente — que melancolia
combatem, a reluzir,
sob as patas de constelações implacáveis.
Uma rede de mel
fervente, uma rede dolorosa de um mel
que se ilumina.
Arrancam-se os mortos dentre mel e madeira e dentre
ar e velocidade.
Uma avença incandescente na parte
mais forte da cabeça — a aterradora curva
suspirante
do seu sossego alto. Não os leves nos braços
por entre ramagens de ouro.
Estão pintados no fundo dos tempos
da primavera. Suas garras rutilantes latejam
com uma doçura horrível.
Um pouco à noite, quando os quartos
andam e a folhagem se retira para os confins
da cabeça, onde a loucura tem os mapas.
Não os toques, com dedos animais, em suas
semiluas de éter frio.
Porque há maneiras graves de os mortos
viajarem: sedas desenvoltas, força, mel,
glicínias,
planos de energia e de tristeza.
Não faças com que esse mês te procure.
Leva os mortos como se fossem um lenço verde
chegado
de uma cidade transparente. O sono está cheio
de álcool gelado, os campos
arqueiam-se pelo poder de vírgulas
selvagens. Nunca ouvi chamar os mortos
pelo nome dos seus retratos reclinados
brancos. Colinas
amedrontadas à chuva.
Penínsulas ligadas por cravinho e canela.
Toca-os com uma chama leve na crista negra.
Respira sobre laranjas que escaldam,
se as abres
com teus dedos — gota a gota aplicando
a soldadura. Saber que lenço
lhes pertence, que feixe
de linhas taciturnas urdiu sua cara
largada no ar. Ou quem vem desse
sensível bordado, ou
que força condensa sua cor de madeira enxuta.
Saber que alcançam tua voz
com sua pausa: uma flor
nos meios, sobre si mesma.
Não.
Oh, não leves os mortos como crianças passadas
a limpo, em tua morosa
vocação, até à carnívora gentileza
das visões. Como em redes
enxameadas, o mel fermenta em suas
cabeças um delírio
docemente animal. E se a paisagem quadrúpede
se encosta à janela,
este mês é olhado pelo espaço todo.
Não os conduzas aos símbolos nocturnos, dentre
mel e velocidade e dentre
madeira e ar. Não te sentes atrás
de um lenço parado. Enquanto os mortos
culminam como jacintos
a pulsar direitos—o teu coração pende
crivado de pinhões respirando. E a tua idade suspira
como um animal louco.
Quando.
1965-68.
1 030
Fernando Pessoa
No céu da noite que começa
No céu da noite que começa
Nuvens de um vago negro brando
Numa ramagem pouco espessa
Vão no ocidente tresmalhando.
Aos sonhos que não sei me entrego
Sem nada procurar sentir
E estou em mim como em sossego,
Pra sono falta-me dormir.
Deixei atrás nas horas ralas
Caídas uma outra ilusão,
Não volto atrás a procurá-las,
Já estão formigas onde estão.
27/07/1931
Nuvens de um vago negro brando
Numa ramagem pouco espessa
Vão no ocidente tresmalhando.
Aos sonhos que não sei me entrego
Sem nada procurar sentir
E estou em mim como em sossego,
Pra sono falta-me dormir.
Deixei atrás nas horas ralas
Caídas uma outra ilusão,
Não volto atrás a procurá-las,
Já estão formigas onde estão.
27/07/1931
4 149
Fernando Pessoa
Deixem-me o sono! Sei que é já manhã.
Deixem-me o sono! Sei que é já manhã.
Mas se tão tarde o sono veio,
Quero, desperto, inda sentir a vã
Sensação do seu vago enleio.
Quero, desperto, não me recusar
A estar dormindo ainda,
E, entre a noção irreal de aqui estar,
Ver essa noção finda.
Quero que me não neguem quem não sou
Nem que, debruçado eu
Da varanda por sobre onde não estou,
Nem sequer veja o céu.
1934
Mas se tão tarde o sono veio,
Quero, desperto, inda sentir a vã
Sensação do seu vago enleio.
Quero, desperto, não me recusar
A estar dormindo ainda,
E, entre a noção irreal de aqui estar,
Ver essa noção finda.
Quero que me não neguem quem não sou
Nem que, debruçado eu
Da varanda por sobre onde não estou,
Nem sequer veja o céu.
1934
4 000
Fernando Pessoa
Vi passar, num mistério concedido,
Vi passar, num mistério concedido,
Um cavaleiro negro e luminoso
Que, sob um grande pálio rumoroso,
Seguia lento com o seu sentido.
Quatro figuras que lembrando olvido
Erguiam alto as varas, e um lustroso
Torpor de luz dormia tenebroso
Nas dobras desse pano estremecido.
Na fronte do vencido ou vencedor
Uma coroa pálida de espinhos
Lhe dava um ar de ser rei e senhor.
(...)
16/12/1932
Um cavaleiro negro e luminoso
Que, sob um grande pálio rumoroso,
Seguia lento com o seu sentido.
Quatro figuras que lembrando olvido
Erguiam alto as varas, e um lustroso
Torpor de luz dormia tenebroso
Nas dobras desse pano estremecido.
Na fronte do vencido ou vencedor
Uma coroa pálida de espinhos
Lhe dava um ar de ser rei e senhor.
(...)
16/12/1932
4 025
Fernando Pessoa
Durmo, cheio de nada, e amanhã
Durmo, cheio de nada, e amanhã
É, em meu coração,
Qualquer coisa sem ser, pública e vã
Dada a um público vão.
O sono! este mistério entre dois dias
Que traz ao que não dorme
À terra de aqui visões nuas, vazias,
Num outro mundo enorme.
O sono! que cansaço me vem dar
O que não mais me traz
Que uma onda lenta, sempre a ressacar,
Sobre o que a vida faz?!
11/12/1933
É, em meu coração,
Qualquer coisa sem ser, pública e vã
Dada a um público vão.
O sono! este mistério entre dois dias
Que traz ao que não dorme
À terra de aqui visões nuas, vazias,
Num outro mundo enorme.
O sono! que cansaço me vem dar
O que não mais me traz
Que uma onda lenta, sempre a ressacar,
Sobre o que a vida faz?!
11/12/1933
4 423
Fernando Pessoa
Meu coração tardou. Meu coração
Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, o houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.
Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.
Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.
19/09/1933
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, o houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.
Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.
Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.
19/09/1933
4 492
Fernando Pessoa
Meus versos são meu sonho dado.
Meus versos são meu sonho dado.
Quero viver, não sei viver,
Por isso, anónimo e encantado,
Canto para me pertencer.
O que salvamos, o perdemos.
O que pensamos, já o fomos.
Ah, e só guardamos o que demos
E tudo é sermos quem não somos.
Se alguém sabe sentir meu canto
Meu canto eu saberei sentir.
Viverei com minha alma tanto
Tanto quanto antes vivi.
04/08/1930
Quero viver, não sei viver,
Por isso, anónimo e encantado,
Canto para me pertencer.
O que salvamos, o perdemos.
O que pensamos, já o fomos.
Ah, e só guardamos o que demos
E tudo é sermos quem não somos.
Se alguém sabe sentir meu canto
Meu canto eu saberei sentir.
Viverei com minha alma tanto
Tanto quanto antes vivi.
04/08/1930
3 991
Golgona Anghel
Vivemos submersos num plasma nutritivo
Vivemos submersos num plasma nutritivo
que nos garante um crescimento rápido e de excepção
com talentos singulares,
e sonhos que não precisam de ser actualizados -
basta apenas afinar a sua desordem estética.
Temos aceso a uma vida desprovida de acasos,
onde colónias de bactérias sangram invejosas,
esmagadas a milhas pela radiação do nosso olhar.
Dotados de um sistema automático
de identificação e resolução de erros,
dirigimos à distância um código sentimental simplificado.
Acumulamos dados, analisamos sinais.
Não conseguimos conceber um desastre maior
que a falta de bateria no comando.
que nos garante um crescimento rápido e de excepção
com talentos singulares,
e sonhos que não precisam de ser actualizados -
basta apenas afinar a sua desordem estética.
Temos aceso a uma vida desprovida de acasos,
onde colónias de bactérias sangram invejosas,
esmagadas a milhas pela radiação do nosso olhar.
Dotados de um sistema automático
de identificação e resolução de erros,
dirigimos à distância um código sentimental simplificado.
Acumulamos dados, analisamos sinais.
Não conseguimos conceber um desastre maior
que a falta de bateria no comando.
1 072
Tomas Tranströmer
Gôndola Triste 2
1
Dois velhos, sogro e genro, Liszt e Wagner,
estão hospedados perto do Grande Canal
juntos com a mulher inquieta casada com o Rei Midas
o homem que transforma tudo o que toca em Wagner.
O frio verde glacial do mar faz o seu caminho pelos soalhos do
palácio.
Wagner está um farrapo, o seu famoso perfil de roberto está mais enrugado
que nunca
o rosto uma bandeira branca.
A gôndola vai carregada com três vidas, dois bilhetes de ida e volta e um
de ida.
2
Uma das janelas do palácio abre-se de súbito, lá dentro as pessoas
assombram-se com a repentina corrente de ar.
Cá fora surge nas águas a gôndola do lixo conduzida
por dois bandidos de um só remo.
Liszt compôs uns acordes tão pesados que têm
de ser enviados
ao instituto mineralógico de Pádua para análise.
Meteoritos!
demasiado pesados para se firmarem, só podem ir ao fundo, ao fundo,
a pique para o futuro,
para os anos dos camisas castanhas.
A gôndola vai carregada com as pedras submissas do futuro.
3
Frestas, abrindo-se em 1990
25 de Março. Ansiedade pela Lituânia.
Sonhei que visitava um hospital grande.
Sem pessoal médico. Todos doentes.
No mesmo sonho uma menina recém-nascida
que dizia frases completas.
4
Ao lado do genro, que é um senhor de idade, Liszt
é um Grand Seigneur roído pela traça.
É um disfarce.
O abismo que experimenta e rejeita diferentes máscaras escolheu
esta para ele.
O abismo que deseja entrar, visitar os humanos sem
mostrar o rosto.
5
O abade Liszt está habituado a carregar a mala
pela neve suja e ao sol
mas chegada a hora da morte ninguém há-de ir ter com ele à
estação.
Uma brisa quente saturada de conhaque leva-o a sair
a meio de um dever.
Os deveres nunca o largam.
Duas mil cartas por ano!
O aluno que tem de escrever a palavra mal soletrada cem
vezes antes de ir para casa.
A gôndola vai carregada de vida, é simples e negra.
6
De novo 1990.
Sonhei que andei 200 quilómetros para nada.
Tudo aumentou de volume. Pardais grandes
como galinhas cantavam ensurdecedores.
Sonhei que desenhava teclas de piano
na mesa da cozinha. Em silêncio tocava nelas.
Os vizinhos entraram para ouvir.
7
O teclado que se manteve em silêncio ao longo de todo o Parsifal
(mas que o escutou) tem finalmente direito a dizer algo.
Suspiros … sospiri …
Liszt ao tocar mantém esta noite o pedal marítimo em baixo
para que o poder verde do mar suba pelo soalho acima
e se misture com as pedras do edifício.
Boa noite, lindo abismo!
A gôndola vai carregada de vida, é simples e negra.
8
Sonhei que começavam hoje as aulas e que cheguei tarde.
Na sala todos usavam uma máscara branca.
Impossível dizer quem era o professor.
Dois velhos, sogro e genro, Liszt e Wagner,
estão hospedados perto do Grande Canal
juntos com a mulher inquieta casada com o Rei Midas
o homem que transforma tudo o que toca em Wagner.
O frio verde glacial do mar faz o seu caminho pelos soalhos do
palácio.
Wagner está um farrapo, o seu famoso perfil de roberto está mais enrugado
que nunca
o rosto uma bandeira branca.
A gôndola vai carregada com três vidas, dois bilhetes de ida e volta e um
de ida.
2
Uma das janelas do palácio abre-se de súbito, lá dentro as pessoas
assombram-se com a repentina corrente de ar.
Cá fora surge nas águas a gôndola do lixo conduzida
por dois bandidos de um só remo.
Liszt compôs uns acordes tão pesados que têm
de ser enviados
ao instituto mineralógico de Pádua para análise.
Meteoritos!
demasiado pesados para se firmarem, só podem ir ao fundo, ao fundo,
a pique para o futuro,
para os anos dos camisas castanhas.
A gôndola vai carregada com as pedras submissas do futuro.
3
Frestas, abrindo-se em 1990
25 de Março. Ansiedade pela Lituânia.
Sonhei que visitava um hospital grande.
Sem pessoal médico. Todos doentes.
No mesmo sonho uma menina recém-nascida
que dizia frases completas.
4
Ao lado do genro, que é um senhor de idade, Liszt
é um Grand Seigneur roído pela traça.
É um disfarce.
O abismo que experimenta e rejeita diferentes máscaras escolheu
esta para ele.
O abismo que deseja entrar, visitar os humanos sem
mostrar o rosto.
5
O abade Liszt está habituado a carregar a mala
pela neve suja e ao sol
mas chegada a hora da morte ninguém há-de ir ter com ele à
estação.
Uma brisa quente saturada de conhaque leva-o a sair
a meio de um dever.
Os deveres nunca o largam.
Duas mil cartas por ano!
O aluno que tem de escrever a palavra mal soletrada cem
vezes antes de ir para casa.
A gôndola vai carregada de vida, é simples e negra.
6
De novo 1990.
Sonhei que andei 200 quilómetros para nada.
Tudo aumentou de volume. Pardais grandes
como galinhas cantavam ensurdecedores.
Sonhei que desenhava teclas de piano
na mesa da cozinha. Em silêncio tocava nelas.
Os vizinhos entraram para ouvir.
7
O teclado que se manteve em silêncio ao longo de todo o Parsifal
(mas que o escutou) tem finalmente direito a dizer algo.
Suspiros … sospiri …
Liszt ao tocar mantém esta noite o pedal marítimo em baixo
para que o poder verde do mar suba pelo soalho acima
e se misture com as pedras do edifício.
Boa noite, lindo abismo!
A gôndola vai carregada de vida, é simples e negra.
8
Sonhei que começavam hoje as aulas e que cheguei tarde.
Na sala todos usavam uma máscara branca.
Impossível dizer quem era o professor.
638
Fernando Pessoa
Vai leve a sombra
Vai leve a sombra
Por sobre a água.
Assim meu sonho
Na minha mágoa.
Como quem dorme
Esqueço a viver.
Despertarei
Ao sol volver.
Nuvem ou brisa,
Sonho ou (...) dada
Faz sentir; passa,
E não foi nada.
03/08/1930
Por sobre a água.
Assim meu sonho
Na minha mágoa.
Como quem dorme
Esqueço a viver.
Despertarei
Ao sol volver.
Nuvem ou brisa,
Sonho ou (...) dada
Faz sentir; passa,
E não foi nada.
03/08/1930
4 073
Tomas Tranströmer
Nocturno
Conduzo por uma aldeia à noite, casas que saltam
diante das luzes – acordaram agora, querem beber um copo.
Casas, celeiros, placas de indicação, caminhos sem ninguém
regressam à vida. Seres humanos dormem:
alguns podem dormir em paz, outros têm rostos tensos
como num treino duro para a eternidade.
Não ousam deixar-se ir mesmo em sono solto.
Como cancelas baixas esperam enquanto o mistério vai desfilando.
A estrada passa uma longa temporada fora da cidade pela
floresta.
Árvores, árvores silentes num pacto entre elas.
Têm uma cor melodramática, como um incêndio.
Como é nítida cada uma das folhas. Seguem-me no caminho para casa.
Deito-me por ali para dormir, vejo imagens desconhecidas
e sinais esboçando-se atrás das pálpebras
no muro da escuridão. Pela ranhura entre a vigília e o sono
uma enorme letra esforça-se por entrar sem grande sucesso.
diante das luzes – acordaram agora, querem beber um copo.
Casas, celeiros, placas de indicação, caminhos sem ninguém
regressam à vida. Seres humanos dormem:
alguns podem dormir em paz, outros têm rostos tensos
como num treino duro para a eternidade.
Não ousam deixar-se ir mesmo em sono solto.
Como cancelas baixas esperam enquanto o mistério vai desfilando.
A estrada passa uma longa temporada fora da cidade pela
floresta.
Árvores, árvores silentes num pacto entre elas.
Têm uma cor melodramática, como um incêndio.
Como é nítida cada uma das folhas. Seguem-me no caminho para casa.
Deito-me por ali para dormir, vejo imagens desconhecidas
e sinais esboçando-se atrás das pálpebras
no muro da escuridão. Pela ranhura entre a vigília e o sono
uma enorme letra esforça-se por entrar sem grande sucesso.
744
Fernando Pessoa
Na noite que me desconhece
Na noite que me desconhece
O luar vago, transparece
Da lua ainda por haver.
Sonho. Não sei o que me esquece,
Nem sei o que prefiro ser.
Hora intermédia entre o que passa,
Que névoa incógnita esvoaça
Entre o que sinto e o que sou?
A brisa alheiamente abraça.
Durmo. Não sei quem é que estou.
Dói-me tudo por não ser nada.
Da grande noite embainhada
Ninguém tira a conclusão.
Coração, queres? Tudo enfada
Antes só sintas, coração.
18/05/1930
O luar vago, transparece
Da lua ainda por haver.
Sonho. Não sei o que me esquece,
Nem sei o que prefiro ser.
Hora intermédia entre o que passa,
Que névoa incógnita esvoaça
Entre o que sinto e o que sou?
A brisa alheiamente abraça.
Durmo. Não sei quem é que estou.
Dói-me tudo por não ser nada.
Da grande noite embainhada
Ninguém tira a conclusão.
Coração, queres? Tudo enfada
Antes só sintas, coração.
18/05/1930
4 169
Fernando Pessoa
Maravilha-te, memória!
Maravilha-te, memória!
Lembras o que nunca foi,
E a perda daquela história
Mais que uma perda me dói.
Meus contos de fadas meus –
Rasgaram-lhe a última folha...
Meus cansaços são ateus
Dos deuses da minha escolha...
Mas tu, memória, condizes
Com o que nunca existiu...
Torna-me aos dias felizes
E deixa chorar quem riu.
21/08/1930
Lembras o que nunca foi,
E a perda daquela história
Mais que uma perda me dói.
Meus contos de fadas meus –
Rasgaram-lhe a última folha...
Meus cansaços são ateus
Dos deuses da minha escolha...
Mas tu, memória, condizes
Com o que nunca existiu...
Torna-me aos dias felizes
E deixa chorar quem riu.
21/08/1930
8 697
Fernando Pessoa
Não tenho quinta nenhuma.
Não tenho quinta nenhuma.
Se a quero ter pra sonhar,
Tenho que a extrair da bruma
Do meu mole meditar.
E então, desfazendo a névoa
Que há sempre dentro de nós,
Progressivamente elevo-a
Até uma quinta a sós.
Vejo os tanques, vejo as calhas
Por onde a água vai pequena,
Vejo os caminhos com falhas,
Vejo a eira erma e serena.
E, contente deste nada
Que em mim mesmo faço externo,
Gozo a frescura relvada
Da não-quinta em que me interno.
Vilegiatura impossível,
Dou-lhe nós para lembrar,
E esqueço-a ao primeiro nível
Do meu mole meditar.
30/03/1931
Se a quero ter pra sonhar,
Tenho que a extrair da bruma
Do meu mole meditar.
E então, desfazendo a névoa
Que há sempre dentro de nós,
Progressivamente elevo-a
Até uma quinta a sós.
Vejo os tanques, vejo as calhas
Por onde a água vai pequena,
Vejo os caminhos com falhas,
Vejo a eira erma e serena.
E, contente deste nada
Que em mim mesmo faço externo,
Gozo a frescura relvada
Da não-quinta em que me interno.
Vilegiatura impossível,
Dou-lhe nós para lembrar,
E esqueço-a ao primeiro nível
Do meu mole meditar.
30/03/1931
4 136
Fernando Pessoa
Gnomos do luar que faz selvas
Gnomos do luar que faz selvas
As florestas sossegadas,
Que sois silêncios nas relvas,
E em almas abandonadas
Fazeis sombras enganadas,
Que sempre se a gente olha
Acabastes de passar
E só um tremor de folha
Que o vento pode explicar
Fala de vós sem falar,
Levai-me no vosso rastro,
Que em minha alma quero ser
Como vosso corpo, um astro
Que só brilha quando houver
Quem o suponha sem ver.
Ah, sentir tudo de todos os feitios!
Não ter alma, não ter
Só diversos modos –
Seja eu leitura variada
Para mim mesmo!
Assim eu que canto ou choro
Quero velar-me e partir.
Lembrando o que não memoro,
Alguém me saiba sentir,
Mas ninguém me definir.
26/08/1930
As florestas sossegadas,
Que sois silêncios nas relvas,
E em almas abandonadas
Fazeis sombras enganadas,
Que sempre se a gente olha
Acabastes de passar
E só um tremor de folha
Que o vento pode explicar
Fala de vós sem falar,
Levai-me no vosso rastro,
Que em minha alma quero ser
Como vosso corpo, um astro
Que só brilha quando houver
Quem o suponha sem ver.
Ah, sentir tudo de todos os feitios!
Não ter alma, não ter
Só diversos modos –
Seja eu leitura variada
Para mim mesmo!
Assim eu que canto ou choro
Quero velar-me e partir.
Lembrando o que não memoro,
Alguém me saiba sentir,
Mas ninguém me definir.
26/08/1930
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