Poemas neste tema

Sonhos e Imaginação

Jean Cocteau

Jean Cocteau

DORSO DE ANJO

Em sonhos rua que encanta
e uma trombeta irreal
mentiras são que levanta
um anjo celestial.

Que seja sonho ou não seja,
logo a mentira se afunda,
se a gente de cima o veja,
que todo o anjo é corcunda.

Pelo menos é-o a sombra
na parede do meu quarto.

2 058
Emily Dickinson

Emily Dickinson

NUNCA VI UM CAMPO DE URZES

Nunca vi um campo de urzes.
Também nunca vi o mar.
No entanto sei o urze como é,
Posso a onda imaginar.

Nunca estive no Céu.
Nem vi Deus. Todavia
Conheço o sítio como se
Tivesse em mãos um guia.

2 164
Antonio Machado

Antonio Machado

DESDE EL UMBRAL DEL SUEÑO

DESDE EL UMBRAL DEL SUEÑO...

Lá dos umbrais de um sonho me chamaram...
Era aquela voz boa, voz querida.

- Diz-me: virás comigo visitar a alma?...
No coração me entrava uma carícia.
- Contigo, sempre... E avancei no sonho
por uma longa e recta galeria,
sentindo o só roçar da veste pura
e o suave palpitar da mão amiga.

1 550
Tasso de Oliveira

Tasso de Oliveira

Noturno

Notturno

tradução: Anton Angelo Chiocchio

Veleiro ao cais amarrado
em vago balouço, dorme?
Não dorme. Sonha, acordado,
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.

Se acaso me objetardes
que veleiro não é gente
e, assim, não sonha nem sente,
sem orgulhos nem alardes
eu direi: por que haveria
de falar-vos do homem triste
mas de olhar grave e profundo
que, à amargura acorrentado
sonha, no entanto, que vive
toda a beleza do mundo?

Melhor é dizer: Veleiro...
veleiro ao cais amarrado,
sob as límpidas estrelas.
Vela branca é uma alma trêmula,
sobretudo se cai sombra
do alto abismo constelado.
Veleiro, sim, que não dorme
mas na silente penumbra
sonha, ao balouço, acordado
que vai pelo mar enorme,

pelo mar ilimitado.

Quel veliero che, ancorato
giú nel porto, sembra assorto
a cullarsi, forse dorme?
No, non dorme. Sogna, desto,
di solcare il mare enorme,
sogna il mare illimitato.

Se obbiettaste che un veliero
non é un uomo, non é gente,
che non sogna, che non sente,
senza fingermi modesto,
vi direi: perché parlare
di questuorno cosi mesto,
dallo sguardo aspro e profondo,
che, ancorato all’amarezza,
tuttavia, ogni bellezza
sogna vivere del mondo?

Meglio dirvi del veliero
che a quel molo sta ancorato
sotto un vivo firmamento.
La sua vela trema: é un’anima,
soprattutto se ombre piovono ,
da quel baratro stellato.
Si, un veliero, che non dorme:
sogna ill mezzo allacqua e al vento,
mentre dondola svagato,
di solcare il mare enorme,
sogna il mare illimitato.

915
Gabriela Mistral

Gabriela Mistral

CONTANTO QUE DURMAS

A rosa vermelha
colhida à tarde;
o fogo e a canela,
esse fogo, o cravo.

O pão de forno
de anis com mel;
a redoma de ouro
com peixe dentro;

Ai! terás tudo,
coração meu,
contanto que durmas
de uma vez.

A rosa, digo,
o cravo, também;
a fruta, digo
e digo o mel;

o peixe de luzes,
tudo quanto sonhas
contanto que durmas
até de manhã.

(Tradução
de Henriqueta Lisboa)

1 955
Lya Carvalho Jardim

Lya Carvalho Jardim

Essa Sou Eu

Se perguntarem por mim
diga que estou pastoreando estrelas
na via-láctea.
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui Nefertiti nos templos de Karnak
Se perguntarem por mim
diga que estou semeando
rosas de vento nos campos da lua
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui Muntaz sofrendo de solidão
no Taj-Mahal
Se perguntarem por mim
diga que estou colhendo flores em Jerusalém
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui artesã de seda e jade
Se perguntarem por mim
diga que estou passageira em uma nave estelar
a caminho doinfinito.
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui uma sacerdotisa do sol
na cidade perdida.
Se perguntarem por mim
diga que estou tecelã de sonhos
urdindo a trama da vida
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui rainha e mulher de um castelo.
Se perguntarem por mim
diga que estou voando nas asas de algum pássaro
Se perguntarem
quem fui
Diga que havia lumes atrelados a meus passos
Se perguntarem por mim
diga que estou colhendo estrelas no mar
flores no céu para enfeitar a barca de Caronte
Se perguntarem quem fui
diga que me viu viver
trôpega, bêbada de horizonte em horizonte.

1 030
Lya Carvalho Jardim

Lya Carvalho Jardim

O Homem que Calculava

O homem que calculava
tinha violinos na voz
E recitava números com ar de poesia
Calculava navios de sonhos
e toneladas de lenços nos portos do tempo.
Calculava uma por uma
as páginas dos livros
o peso de seus autores
calculava beijos e abraços
e o amor
calculava nas noites claras.
O homem que calculava
calculava sonhos no sono
repleto de números.
O homem que calculava
tinha dedos de ouro
olhar de estrelas.
na testa o sol se derramava
em forma de cabelos.
Magro, franzino era o homem
que calculava.
Calculava rebanhos de nuvens
Cardumes de ondas
Calculava a distância amorosa
entre sol e lua
E ria
calculando
um por um
os sorrisos.

959
Maria do Carmo Volpi de Freitas

Maria do Carmo Volpi de Freitas

Libertação

Itinerário de nuvens
azulescendo
a estrada-sonho
do peregrino.

Hastes ao alto
beijos de brisa
e asas

para o encontro
possível.

in No Remanso das Horas - Achiamê - RJ

829
Lourdes Cabral

Lourdes Cabral

Pensamentos

Meus pensamentos se estendem
além do espaço, além do tempo,
em outros caminhos abertos e luminosos.
E nesses caminhos percorrem
ciclos intensos, ilimitados.
Aproximam-se
do cicio da beleza, fascínio
do artista,
No universo colorido, vislumbram
o efeito do amor
e a sutileza da renúncia,
do sacrifício,
do heroísmo.
E, na libertação dos sentimentos,
atingem a complexidade da Vida,
a riqueza dos sonhos,
a potencialidade do Tempo...

789
Luiz Guimarães

Luiz Guimarães

Metamorfose

Meu coração repleto de esplendores
Como as grutas fantásticas do Oriente,
Será digno de ti. Por ti somente
Foi que eu junquei meu coração de flores.

Por ti despi-o das passadas cores,
Por ti sequei a lágrima pungente,
Que gotejava como o orvalho ardente,
Silenciosa sobre as minhas dores!

Entra. Percorre estes vergéis risonhos,
Calca a sorrir a terra umedecida
Onde palpita o mundo dos meus sonhos.

Fica, porém, atenta e prevenida;
Hás-de ouvir, muitas vezes, os medonhos
E surdos ais de uma ilusão perdida.

770
Machado de Assis

Machado de Assis

A Flor do Embiroçu

Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
Fil. Elis.

Quando a noturna sombra envolve a terra
E à paz convida o lavrador cansado,
À fresca brisa o seio delicado
A branca flor do embiroçu descerra.

E das límpidas lágrimas que chora
A noite amiga, ela recolhe alguma;
A vida bebe na ligeira bruma,
Até que rompe no horizonte a aurora.

Então, à luz nascente, a flor modesta,
Quando tudo o que vive alma recobra,
Languidamente as suas folhas dobra,
E busca o sono quando tudo é festa,

Suave imagem da alma que suspira
E odeia a turba vã! da alma que sente
Agitar-se-lhe a asa impaciente
E a novos mundos transportar-se aspira!

Também ela ama as horas silenciosas,
E quando a vida as lutas interrompe,
Ela da carne os duros elos rompe,
E entrega o seio às ilusões viçosas.

É tudo seu, — tempo, fortuna, espaço,
E o céu azul e os seus milhões de estrelas;
Abrasada de amor, palpita ao vê-las,
E a todas cinge no ideial abraço.

O rosto não encara indiferente,
Nem a traidora mão cândida aperta;
Das mentiras da vida se liberta
E entra no mundo que jamais não mente.

Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
Labor ingrato, agitação, fadiga,
Tudo faz esquecer tua asa amiga
Que a alma nos leva onde a ventura a chama.

Ama-te a flor que desabrocha à hora
Em que o último olhar o sol lhe estende,
Vive, embala-se, orvalha-se, rescende,
E as folhas cerra quando rompe a aurora.

1 719
Mário Hélio

Mário Hélio

9-IX (Odores)

pobres flores que fiam
filhas finitas
e se des pet alam
olhando o po m ar
e em enormes tristezas se calam
e resv alam as pét alas
suprindo a fome do oceano de ar.
flores selvagens que se desfloram
e se confragem frágeis imperfeitas
vestidas, sorvidas, vertidas,
em pouca vida e muita ilusão,
e não repousam nunca, não descansam
o cansaço de há séculos serem sempre vivas
esquivas, cativas, passivas,
e dançam em delírio, dançam
esquecendo que são flores -- fenescem
melhor do que enterarrarassementes
dispersá-las à tarde
despertálas é tarde
já se transformaram em cardos
na tarde longa e oblonga por trás dos rochedos.
eu não canto a saudade, desconheço o degredo.
o meu sonho é um segredo improfíquo que segrego.
podres odres das flores que nascem pra definhar,
pobres dos homens que vivem para sonhar.

665
Mário Hélio

Mário Hélio

7- VII (Confidência)

tua sombra persegue-me a todo instante,
visita-me no instante da demora.
não sabe que é sombra e breve o instante
e a eternidade é só uma demora.

mas tua sombra não descansa
e dança mansa e inquieta sobre mim,
mas avança tão sutil e tanto avança
que eu pressinto que voa sobre mim.

o meu protesto enfim é de esperar-te
por amar-te talvez? não sei se o amor
não é pura paixão de esperar-te
ou desespero de amar-te sem amor.

não sei talvez em que profundo abismo
lancei-me, enlacei-me, doido cego já sem asas,
mas o sonho de tê-las já é o abismo,
as tuas garras, águia, arrancaram-me as asas.

920
Mário Hélio

Mário Hélio

6 - VI (Clariluz)

ontem à noite
eu vi teu espírito sobrevoar a cidade
e apagar silenciosamente
todas as luzes.

993
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

Eu

Eu sou aquele
das esperanças eternas:
peregrino entre a humanidade,
com mão de carícias
plantando sementes de sonhos.

Pedinte das ruas
vejo as pessoas:
de olhares aflitos,
de passos trôpegos,
de ouvidos magoados,
de almas dilaceradas,
de corações partidos,
e ainda lhes suplico
irem adiante
que a vida é tênue
e denso é o sonho !...

Eu sou aquele
que sempre chega
e que sempre parte
de mão vazias
sem ver os frutos
do seu trabalho :
- sou a utopia !...

O JORNAL - 14.04.96

932
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

O fantasma e o vento

Pétalas sem cor
e sem perfume
da rosa
morta no ventre
da fantasia.

E no jardim
d’inesperado outono
ao sabor do vento
que passa leve
com passos de brisa
e sobre o chão
revolve os restos
do que foi sonho
há solidão.

E o vento diz
que ali um dia
houve uma rosa
que era a primeira,
tão grande e bela
mas só o projeto
que conheceu
no curto tempo
da duração
de ser botão.

E que ainda assim,
no tal jardim há o fantasma
de certo homem
que tenta em vão
compor com as pétalas
da rosa morta
o que foi sonho
de abrir-se ao mundo.

E que sempre fala
com a insistência
dos tresloucados
da morte inglória
do tal botão.
E em seus delírios
nas noites claras
chora a dor
da fantasia
que o enganou.

773
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

Soneto à liberdade

Longa será, por certo, a estiagem:
fazem antever as nuvens e os ventos.
Que se encham pois as malas de viagem,
que a vida exige assim nesses momentos.

E é bom, também, que o "viver-tristonho",
tal um corcel alado e renovado,
salte do cerne universal do sonho
e voe pelas planícies - imaculado.

E que visões de cata-ventos e moinhos
encontrem o sentido exato desse agora
na selva de pedra dos caminhos.

E mude-se enfim o sonho de outrora,
que tem levado a vida aos descaminhos,
a cada passo, a cada instante e hora.

856
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

O poder

Eis o poder :
É ali. Não é tão distante !

Mas digo-te que:
- por sua estrada
já passaram muitos homens,
com os seus sonhos,
deixando poeira
sobre as folhas e sobre as flores.

Aconteceu porém a muitos,
despreparados para essa viagem
que a fome, a sede e a desesperança,
aguardavam por eles no percurso.

E sabe-se que,
entre os poucos que ali chegaram,
alguns, despojados dos sonhos e mudados,
esqueceram-se da linguagem que falavam.

E será, talvez, por isso,
que gritam, urram e soltam bombas.

O poder é ali. Não é tão distante !...

999
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

Do Encontro

Qual paisagem acontecida, rosa,
surgiste ao meu olhar incrédulo.
E em azul - teus olhos - aves encantadas,
pousaram nos meus sonhos andarilhos.

Houve silêncio. E presenças, abolindo
desertos percorridos.Ee os sentidos,
arquitetos sutis desses instantes,
construíram invisível ponte entre nós.

E o olhar estremeceu as estruturas
ressentidas, da busca já suposta eterna
porquanto, a dúvida do existires

era tormento povoando a vida,
haurindo a seiva do amor
e receiando se extinguir sem conhecer-te.

995
Luiz de Aquino

Luiz de Aquino

Poema da aceitação

Eu prefiro ficar de cá, cobrindo co’as mãos a própria boca
para evitar microfonia.
Um dia, se me deixar levar, posso perder-me
e sofrer, porque nunca perco a noção do tempo.
Esta noite,
sonharei contigo e vou ver-te neste sonho
onde estivemos antes, há poucas horas,
porque o tempo te parece enorme num instante
e posso saber-te distante
uma eternidade entre duas doses.

A angústia, eu sei,
eu a criei
e me apego a ela.
A mágoa existe,
cresceu em meu peito
e não sou josés
porque não fui o primeiro nem serei último.
A dor, por mais profunda,
não te interessa: houve dores maiores
e não as senti em mim.

1 928
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

O cavalo branco

Eu queria agora o meu cavalo branco
que tenho procurado pelos brados.
Seria bom qu ’ ele tivesse asas e cascos afiados.
Eu o montaria:
e de crinas erectas aos ventos da eternidade
ele deixaria, na partida, marcas sobre a terra !...

974
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

Viagem

Parto pleno de ventura e na aventura
da viagem empreendida levo o que sobrou
da infância, da juventude e do agora :
fantasia que um dia foi futuro.

Palavras ditas e juradas serão tolas
quando os momentos são de indiferenças.
Mas se o pensar a fala justifica
o tempo é grave amigo e jamais falha.

Hei de seguir assim a antevisão do olhar
e no desenho das paisagens presumidas
serei tudo o que vi, sofri e aprendi.

E tudo será novo como o sempre:
que os sonhos inatingidos não abortam,
pois são gestações que sabem esperar.

844
Luiz Pimenta

Luiz Pimenta

Barcos e Sonhos

Barcos & Sonhos

Menino,
os barcos de papel
são como os sonhos:
uma vez naufragados
não podem mais
ser sonhados
ou navegados.

Por isso,
faça-os
fortes,
firmes,
ágeis e
livres.

Os barcos, menino,
são como os sonhos...

Ouro Preto, fevereiro de 89

995
Leão Moysés Zagury

Leão Moysés Zagury

Em relação aos pronomes

Ao escrever poemas pronominais
perdi algumas letras.
Escrevendo para você
perdi ...

Perda, sentimento revolto
num mar tempestuoso,
onde nosso orgulho navega.

Pronomes: possessões irreais
ilusões passageiras.
Ah! como é belo
verter lirismo
perante o impossível sonho.

Sempre alguma coisa
corroendo a alma,
na passagem do tempo.

Serão marcas mercadológicas
o motivo?
Nunca se conhece.

Sonhos impossíveis
calando, ferindo sensibilidades,
provocando despertar que se
vai por aí.

Nunca se conhecem
as facetas dos pronomes
ainda usados em vender
peças,roupas,casas,aviões etc.

Não conhecemos a extensão
da força prononominal,
nas frases,versos,
enfim no infinito
universo gramatical
impessoal, sempre duro.

Os versos vão sendo
terminados, enquanto
os pronomes nos saúdam
procurando...

Pronomes.
Fim!

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