Poemas neste tema

Sonhos e Imaginação

José Paulo Paes

José Paulo Paes

Outro Retrato

O laço de fita
que prende os cabelos
da moça do retrato
mais parece uma borboleta.

Um ventinho qualquer
e sai voando
rumo a outra vida
além do retrato.

Uma vida onde os maridos
nunca chegam tarde
com um gosto amargo
na boca.
1 196
Flávio Sátiro Fernandes

Flávio Sátiro Fernandes

Rei do mar

Mar.
Mar de areia.
Areia do mar.
Sereia do mar.
Dois seres
na areia do mar.
(Ou no mar de areia?)
Sou eu a amar
a sereia do mar.
Serei rei do mar.

1 113
Flávio Sátiro Fernandes

Flávio Sátiro Fernandes

Toilette

1. Quem garante
que ao escovar os dentes
eu não esteja
escovando a alma?

Não sinto
o sabor de menta
ou de clorofila.
Muito menos
o hexaclorofeno.

Na boca,
apenas,
o gosto dos sonhos
da noite insone.

2. Uma mão
lava a outra
e as duas
(em concha)
lavam o desgosto.

3. O pincel,
o creme,
a espuma a se espalhar
na face descoberta.

O gesto ritual
de retirar
da têmporas
a espuma.

A lâmina afiada
a deslizar
em meu disfarce oculto.

4. O pente põe
bem comportados
os fantasmas
negros e brancos
do pesadelo de ontem.

Até que a noite
volte a confundi-los.

890
Tatiana Faia

Tatiana Faia

o mistério dos homens adormecidos

alguns jazem no plaino abandonado
que a morna brisa aquece
no bolso direito das calças a cigarrilha breve
o peito exposto ao ar os braços cruzados
debaixo da nuca
na vulnerabilidade de um gesto
para lá da farda regimental
do fato e gravata de todos os dias
e depois da poeira sobre os sapatos
a respiração tão regular do corpo
é de repente um acidente da sorte
uma dádiva improvável e oportuna
trazendo de volta a desaceleração do quotidiano

alguns nem estão à espera de ver o mundo arder
cumprem os dias como se tudo
o que alguma vez lhes tivesse sido dado viver
fosse um dia só
e apenas uma só versão desse dia existisse
a profundidade existe apenas
quando jazem sem cuidado
ao comprido num sofá num vigésimo segundo andar
num apartamento de vinte cinco metros quadrados
rodeados por um marulhar de barulhos
por todos os lados e sem que o nada os acosse
um leve sorriso cai sobre os lábios
e um cigarro arde no cinzeiro
enquanto eles deslizam pelo aqueronte do sono adentro
sem espadas e sem escudos que lancem a agulha
da resistência ao desconhecido
noite adentro a confiança ou uma promessa
de amantes pode ser algo como isto

alguns regam as plantas cinco minutos antes
e desfazem os nós dos atacadores
e tiram ordeiramente os sapatos
e reconhecem até mesmo a proximidade da morte
mesmo agora enquanto comem uma refeição enlatada

enquanto me dou conta de que alguns são
ainda até atléticos e musculares e necessários
e mesmo a sua extrema necessidade
alimenta o desejo de todas as coisas
a precisão de alguns instantes quando
rapazes jogam à bola debaixo dos olhares de leões
e as cidades são imponentes e inteligentes e sem perdão
como os aborrecidamente espertos quartetos de mozart

alguns fecham os olhos e inadvertidamente
deitam abaixo a última parede do mito
aquela que postulava que a inteligência que permite
ler os dias é uma espera posta à destruição

adormecendo alguns entrelaçam as mãos sobre o peito
como guerreiros medievais sepultados em túmulos de pedra
no coração das cidades
e é estelar o seu abandono como um fragmento
de vidro que se ilumina de repente na escuridão do ar
e mergulhados profundamente no sono
intuem a profundidade do azul na obscuridade da noite
as chamas que marcam as amuradas da noite
as coordenadas do sal na pele
para lá das horas em que escreveram
linhas em que declararam conhecer bem o sal
que se cola à pele vindo das orlas de certas praias no atlântico

e no entanto alguns persistem e aceleram
para lá do sono em carros que cortam pela noite
demasiado cansados e um pouco decadentes
na fronteira com a extrema incoerência
um pouco para lá do cansaço
para lá do facilmente evidente



Nápoles, 8 de Outubro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020

649
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Segredo

Eu quis depositar o meu segredo
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.

896
Francisco Orban

Francisco Orban

Um homem

Um homem
não trai seu sonho
nem o deixa
sem o abrigo
da tarde
Assim o tem
como vestimenta
que não o deixa
mentir
que o desnuda
e o abate

Um homem traduz
seu sonho
na sua forma
de cumprir a tarde
como se sonhar
fosse só um ato
e não
um difícil encargo

894
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Desencanto

O sonho realizado
acomodou-se preguiçosamente
na lua da rede
e foi cuidar
por tempo de sesta
na digestão burguesa.

Que o sonho futuro
por mais que sonhado
não passe de sonho.

848
José Paulo Paes

José Paulo Paes

À TINTA DE ESCREVER

Ao teu azul fidalgo mortifica
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhos
630
Flávio Villa-Lobos

Flávio Villa-Lobos

Delírio

Na penumbra,
uma indefinível alegoria
salta na trêmula paisagem
e principia uma estranha
dança noturna.

Passos silenciosos
movem-se elásticos
em meio à névoa úmida
- vôos espetaculares
sem música.

Gestos grandiosos,
o corpo envolto em mímica
revela o deslumbramento
solitário e, ao mesmo tempo,
mágico e absoluto.

Instante único,
encontro de almas gêmeas,
o toque ímpar no extraordinário...
Fuga da realidade
em pleno sol da meia-noite.

888
Flávia Wanderley

Flávia Wanderley

As sombras da noite

As sombras da noite
São como fantasmas,
que nos perseguem quando crianças
São como vultos,
que nos assustam de relance
São como anjos,
que nos buscam na hora de descansar

É nossa imaginação
que brinca conosco
como crianças
que brincam de "pique".

Pique-tá
Pique-pega
Pique-esconde

Está dentro de nós
a nossa vontade de sonhar
e realizar ...

Pega-nos peça, de surpresa
como se fossemos brinquedo
um brinquedo do mundo
do mundo do faz-de-conta.

Esconde-se atrás de um olhar
como nos faz pensar
que não somos mais crianças
mais ainda podemos sonhar...

859
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti

Gabriela Cunha Melo Cavalcanti

Realidade

Realidade, por que és tão difícil de ser encarada?
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?

Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?

Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
1 067
Gilberto Diener

Gilberto Diener

Introdução

Éramos meninos ainda,
quando minha mãe contava. Ao redor,
das madrugadas de negrumes,
das pesadas chuvas,
dos riachos e rios fazendo
transbordar Itajá.
Naquelas noites as mulheres pariam filhos,
gatos nasciam nas bananeiras,
cobras entravam
pelas casas e ranchos.
Os homens gemiam de febre,
a febre gelada da solidão.
Falava também das cidades,
de uma fulana Goianésia,
outra chamada Anápolis,
aldeia Brasília,
povoado Monte Carmelo.
De um país chamado Gerais, Minas, Goiás.
Éramos meninos vindo de um estreito,
escutando assustados
O apito do trem de ferro.
( Era um trem fantasma
passando sinistramente na noite).
Caçando frutas e codornas.
Arados, matas, bicas, corgos,
mergulho fundo,
acampamentos de madeiras.
Assim meninos ainda, aprendemos a sonhar,
sonho de olhos abertos.
Amor caipirano faz parte deste
sonho.
Bahia / 1982

971
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

82. Procuro As Palavras — Língua Breve

82
Procuro as palavras — língua breve
acesa sobre a relva da manhã concreta
que os pássaros picam em palavras vivas
que aqui se inventam e são de fogo branco.

Procuro as palavras e são vãs e brancas
quantas vezes quantas vezes cinza
de uma cinza de outra cinza de algum fogo.

De algum fogo? O que procura o pulso
e que é letra de aranha, obscuras patas,
obscuro sonho do poema errante.
1 060
Geir Campos

Geir Campos

Fogueira

Os gnomos do bosque desabotoam
as toscas pelerines de cortiça
forradas com cetim púrpura e ouro:
o mais sanguíneo deles inaugura
um inferno menor, e todos dançam,
enquanto as labaredas tremem como
mãos de noivas sem tálamo, acenando
para o vento cantor que as chora ausentes
— e também chora, nas árvores altas,
a mágoa obscura de não serem flautas.

1 138
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Duma outra infância, inventada

Duma outra infância, inventada,
Guardo memórias que são
Reais reversos do nada
Que as verdadeiras me dão.

Estas, se acaso regressam,
Em tropel e confusão
Ao limiar-me, tropeçam
No corpo das que lá estão.

Assim, mentindo as raízes
Do meu confuso começo,
Segrego imagens felizes
Com que as funestas esqueço.

2 046
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

De Copélia guardo três cartas melancólicas

De Copélia guardo três cartas melancólicas,
Um laço e, de uma rosa
Que o perfume aprendeu nos seus cabelos,
Um esvaído botão.
Evade-se do todo um halo a antigo, triste.
Claro que Copélia não existe
E as cartas também não.
Só é real porque me falta.
Porque a não tive creio nela e creio
Na memória de quem foi no meu passado;
Nos passeios furtivos que tivemos;
Nos astros que pusemos
Nalgum beijo trocado;
Na exaltação de certa dança, alada
Na sensação de que uma nuvem me enlaçasse;
E na suave e pura e filtrada emoção
De alguma vez que a sua mão
Entre as minhas tardasse.
Esta é Copélia a quem, se acaso dado fosse
Nascer ou ter vivido,
Rígido pai ma recusasse,
Lírico mal ma arrebatasse
Sem a ter possuído,
Para que doutro ou morta virgem
Ilesa e viva dentro de mim permanecesse.

1 766
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Era a Interrupção Dos Segmentos E Dos Limites Vivos

Era a interrupção dos segmentos e dos limites vivos

nos tentáculos do vento        ouvindo

o rumor de

uma água sombria na caverna

buscando a brancura de um volume

a figura sem rosto     proa branca     polpa

de visão aberta e nua
1 064
Zito Batista

Zito Batista

Meu Coração

Meu coração é um lúgubre convento:
Dentro dele, a rezar noites inteiras,
As minhas ilusões — tristonhas freiras
Vivem presas de estranho desalento...

E ouvindo, às vezes, queixas agourentas,
E ameaças de morte e sofrimento,
— Soluçando, no escuro isolamento,
Falam de amor as pobres prisioneiras...

No entanto outrora, alegre, iluminado,
Como a igreja formosa em que se canta
A missa azul da crença e do conforto...

Meu coração foi céu alcandorado,
Onde imperava, ingenuamente santa,
A Forma viva do meu Sonho morto!

975
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Raízes do Sono

As raízes do sono

e da terra

sob o vento do sono
1 227
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Tecto Respira Pelas Vértebras

O tecto respira pelas vértebras

e a madeira do sol

na fonte
1 087
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Toco Os Pés de Terra

Toco os pés de terra

e os ombros da parede

sobre as nuvens
1 079
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Que Aparece Nua

A que aparece nua
na trama variável
figura numa teia viva
entre rupturas
alta adormecida
ou sem pálpebras perante o monstro
e informe perde-se sonâmbula
mas não o traço nem as sílabas
nem os resíduos de frescura
no obstinado escuro trajecto
1 037
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Figura Na Profundidade

Uma figura na profundidade
no centro móvel foge
e deixa um intervalo de luz
uma obscura arcada para os dedos
na intensidade da luz ou do escuro
Parte-se a serpente    se
e são pedaços

vivos na noite que se agitam
1 067
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Dançam Mas Não Na Praia Dançam Apenas Não Se Sabe

Dançam mas não na praia Dançam apenas não se sabe
o quê numa orla nocturna móvel Deserto na praia A
terra perdeu todos os sinais As únicas referências
são as do jogo Um obscuro combate para quê?
O que roçam os dedos ou o que eles segregam é um
muro de névoa ou uma muralha de astros
1 023